Vexames Nacionais
Sabendo de antemão que a IA erra, que os erros são inevitáveis e que todos os estudos publicados demonstram que diminui a capacidade cerebral dos utilizadores, a UE parece ter escolhido um país, periférico, para o mega ensaio de digitalização de 300 mil exames. Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o Ministro a negar os erros clamorosos dos exames. Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin – o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.
O cenário é surreal. Caixotes de papel amontoam-se na periferia da solarenga Lisboa, lá dentro 300 mil exames para serem digitalizados, por trabalhadores braçais, numa plataforma que não acerta a primeira página com a segunda, convoca matemáticos para corrigir exames de línguas, e apaga respostas, fazendo aparecer ao lado das apagadas dezenas de novas, mal o professor-classificador desliga o ecrã. O Governo diz não tornar pública toda a cadeia de lucro, dos Bancos de investimento, das bigtecs, detentores da memória destes dados, à empresas executoras, mas afirma, à luz do dia, estar a “monitorizar a velocidade” dos classificadores.
Nem os Monty Pyton conseguiriam uma palhaçada idêntica. Desvela-se a realidade crua das classes dirigentes – as mesmas classes que colocam os filhos em colégios suíços, onde toda a tecnologia é proibida, e a manhã começa com trinta minutos de silêncio, meditação, seguida da leitura de obras filosóficas clássicas e termina com uma subida à montanha para conhecer a natureza. Uma aparência de algo semelhante, mais mixuruca, há hoje em alguns colégios de elite em Portugal, já que a maioria do privado aderiu também à digitalização.
A IA, nem inteligente nem artificial, tem trabalho humano massivo atrás (na entrega de dados na forma de repostas a exames, na classificação dos mesmos, e na digitalização braçal destes). Tudo pago pelos trabalhadores portugueses, na forma de impostos que deveriam ser destinados a educar os filhos. Educá-los no melhor conhecimento histórico e filosófico, matemática, física, línguas e literatura, artes.
Nada – apenas testes de cruzes, simplificados, para a IA compreender o comando e a resposta, que é uma resposta padrão para ser processada por algoritmos que operam entre 0 e 1. Alunos a ser treinados para a automação, uma nova era de “desantropormofização”, ou seja, desumanização em massa – a máquina engole o homem.
Portugal, é preciso dizer sem meias palavras, foi o rato de laboratório da IA Europeia ao abrigo do PRR, um empréstimo pago pelos portugueses, anunciado como uma dádiva para combater a crise da Covid, mas de facto empréstimo, com juros, para a transição verde – que o digam em Boticas ou Fundão -, transição digital dos serviço públicos, e investimento em segurança, guerra portanto.
Em resposta à concorrência e guerra de Trump e ao enfrentamento mundial com os outros poderes, China, Rússia, a UE delimitou, no mesmo discurso de Von der Leyan, a guerra e a educação digital. Como um campo único. De aposta do dinheiro público, ao lado do mega financiamento a projectos de painéis solares e eólicas, que destroem o campo agrícola e o acesso a uma alimentação de qualidade.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
A pandemia de Covid não serviu para propor o regresso a uma saúde pública coletiva, com gestão democrática e quebra de patentes e investigação – em segurança – sujeita a critérios puramente científicos e clínicos transparentes. A crise foi usada não para parar e pensar, mas avançar com o manicómio digital.
O avanço delirante do “ensino” online, “saúde” online, dos contratos obscuros, até hoje, com farmacêuticas, e do Estado de exceção, da supressão de direitos. O super-homem Deus da máquina, precisa de um super Estado de exceção – até o Papa o percebeu, preocupado que a religião seja suprimida pela nova religião, a IA.
Não se questiona – nem da parte da maioria dos sindicatos e partidos – o sentido de fazer-se um exame, a metrificação da avaliação, a – pasme-se – divisão da classificação do exame em itens (um professor não classifica todo o exame, mas cada professor classifica partes, para assim monitorizar a velocidade e dividir parcelas entre os mais rápidos); o facto – pasme-se – de o professor não corrigir, apenas classificar (como um aluno pode aceitar ter uma nota sem que lhe expliquem os erros?) e claro – pame-se – a monitorização, uma forma de controlo digital sobre o próprio corpo – literalmente o corpo docente. Quanto tempo, onde e como ficou em cada docente em cada resposta, para assim a IA calcular quanto tempo a máquina em breve precisará para fazer o mesmo. O Governo e a EU fizeram dos nossos professores e filhos – com o dinheiro que destinamos a educação coletiva de qualidade – ratos de laboratório do lucro dos acionistas da IA.
Da crise de Covid a burguesia europeia fez uma oportunidade – impor a IA, que todos odeiam e ninguém quer, segundo todas as sondagens realizadas, mais de 60 a 70% da população questiona a IA, os serviços online, a perda de sentido do trabalho, repetitivo. Os estudos da neurobiologia e da psicologia (mesmo da que é dominante, a comportamental), e até os inquéritos da insuspeita OCDE confirmam – quem mais usa a IA menos usa o cérebro, é mais infeliz, tem mais problemas de saúde. Um desastre, um abismo.
Um abandono das crianças e jovens, pelos quais somos responsáveis como adultos, foi feito, com o cumprimento escrupuloso da digitalização – agora os alunos são obrigados a produzir lucro, trabalho infantil, no lugar que um dia sonhou tirá-los do trabalho infantil, a escola. Fazem produção de dados e são -involuntários – dadores de corpo e alma (todo o seu cérebro) à experimentação tecnológica do desemprego, da guerra e da vigilância.
“Fazer depressa é fazer pior”, “não vamos outra vez falar de burocracia e técnica, escondendo a questão de fundo – descritores simples, comandos de resposta padronizados”, que medem o hiperfoco e não o desenvolvimento do cérebro e do conhecimento, “PIDE digital”, “inacreditável”, “temos de fazer greve”, “não somos entregadores” “as preguntas eram tão imbecis que continham a resposta” “os exames não avaliam” “estou exausta”
A ligação entre guerra, vigilância, e educação é central, disse a líder da EU. É natural, a precisão da geolocalização, a eficácia dos pompts, tudo isto é fulcral para criar códigos de programação – para a qual são necessários milhões de dados, cujo fornecimento vem da educação e dos serviços que preenchemos online, de sumários a relatórios clínicos.
Há uma nuvem – assente em gigantes centros de dados – que une o like viciante do tiktok (que cria com esse like perfis, influi nos circuitos neurais), une, dizia eu, o like à resposta de pintar bolinhas a uma pergunta, à classificação digital num exame, à explosão de doenças ditas mentais, e à exatidão de um drone a implodir uma criança em Gaza. Vivemos uma fase nova no capitalismo mundial. Não podemos pensar isto como inovação ou tecnologia, é terror, desagregação, não é inteligente, não é artificial, é material e concreto, somos milhões arrastados para a barbárie. Nunca a resistência política anti capitalista desde a II Guerra foi tão urgente.
Sabendo de antemão que a IA erra, que os erros são inevitáveis e que todos os estudos publicados demonstram que diminui a capacidade cerebral dos utilizadores, a UE parece ter escolhido um país, periférico, para o mega ensaio de digitalização de 300 mil exames. Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o Ministro a negar os erros clamorosos dos exames. Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin – o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.
“Fazer depressa é fazer pior”, “não vamos outra vez falar de burocracia e técnica, escondendo a questão de fundo – descritores simples, comandos de resposta padronizados”, que medem o hiperfoco e não o desenvolvimento do cérebro e do conhecimento, “PIDE digital”, “inacreditável”, “temos que fazer greve”, “não somos entregadores”, “as preguntas eram tão imbecis que continham a resposta”, “os exames não avaliam”, “estou exausta”.
O que é a escola? O lugar coletivo de ensino-aprendizagem do melhor conhecimento produzido pelo conjunto da humanidade, sintetizado num currículo. Há algo nosso, que junta mortos e vivos, e que Marx denominava “intelecto geral”. Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam IA cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder.
A educação não é um acto de entrega de um produto de ou a um jovem ou criança, é uma transformação interna, um desenvolvimento do cérebro (das funções psíquicas superiores). Por isso o lugar central da escola não é ocupar o tempo das crianças e jovens, enquanto os pais estão a trabalhar. É sim o espaço do ensino dos conceitos teóricos de cada curriculum (os fundamentos do conhecimento). A IA generativa é uma recombinação estatística de palavras com um código, que ao mesmo tempo é feita de expropriação do saber acumulado (milhões de dados, textos, respostas) e simultaneamente expropria o saber possível – ao substituir o lento, esforçado, reflexivo processo de conhecimento e de desenvolvimento do cérebro por comandos mecânicos e desprovidos de complexidade. É uma máquina que expropria continuamente o ensino-aprendizagem.
A IA não é “mais uma ferramenta” que nós “podemos usar como queremos”. Mesmo que fosse pública, com um código aberto – que deve ser -, nunca deveria ser usada em momento algum na educação, na escola, na Universidade, mas sim e apenas por exemplo a limpar WCs ou salvar alguém no mar. A escola e universidade são um atelier de ensino, não são uma fábrica de comandos.