Segundo o dicionário da Porto Editora, trabalhador e um nome masculino que designa: 1) pessoa que trabalha; 2) pessoa que, mediante salário, põe a sua força de trabalho à disposição de outrem; empregado. Já robô é nome masculino que significa 1) máquina ou aparelho eletromecânico, passível de ser programado informaticamente para executar de forma autónoma determinada(s) tarefa(s), geralmente repetitivas ou perigosas, em substituição do homem; 2) máquina que imita o aspeto e os movimentos de uma pessoa ou de outro ser animado. Deriva do russo robotnik (Рабо́тник), trabalhador.
EM NOVILÍNGUA:
Graças à extrema criatividade da confederação patronal CIP, que tem conduzido o país a dar saltos mais longos que os de Agate de Sousa e Gerson Baldé, o trabalhador português deveria ser um verdadeiro robotnik, ou robô. Armindo Monteiro, presidente da CIP, comentou ao jornal das 13 horas da Antena 1 de 23-3, que seria mais fácil resolver as questões do pacote laboral sem interferências sindicais nem políticas, já que para os sindicatos o trabalhador era “um ativo sindical” e, caso o pacote laboral tivesse de ser decidido na AR e não na “concertação social”, o trabalhador seria encarado como “um ativo político”. Ou seja, isso de o trabalhador ser uma pessoa e não uma máquina só atrapalha. ASP
Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.
Cheguei à ilha em 1984. Tinha sete anos e vinha ter com o meu pai que, poucos anos antes, se mudara em trabalho para aqui. Deixei a escola em Almada, ali perto da Incrível, e vim sozinho, com uma mala maior do que eu, feita a meias entre a minha avó e tia.
No meu imaginário de miúdo que via os desenhos animados na RTP, único canal da altura, uma ilha era um banco de areia, com água em redor, dois coqueiros e uma rede pendurada entre eles. Eventualmente com um náufrago ou uma garrafa perdida segurando um pedido de SOS.
Quando aqui aterrei fiquei espantado. O banco de areia era menos tropical do que imaginara. Havia uma “Little America” construída em torno de um aeroporto. Uma pista de aterragem enorme, um cinema para 500 pessoas e um ginásio multifunções. Ambos feitos com madeira. Casas de chapa. Muitas. Outrora ocupadas por militares e agora a abrigar famílias locais ou outras que, como era o caso da minha, estavam deslocadas. Nas traseiras dessa casa havia uma figueira que começou a dar doce, logo que aprendemos o processo de cozedura. Ao lado da casa de chapa havia uma garagem, em madeira, onde o meu pai organizava as ferramentas naqueles quadros com sombras, típicos da era pré-Leroy Merlin. Também era ali que me fazia os trabalhos manuais para a escola, compensando a minha notável falta de habilidade.
Mal se saía da Little America apareciam as casas mais tradicionais. A serra, as baías, as praias de água morna que nunca mais me deixariam entrar no mar da Costa da Caparica com a mesma vontade. 97 km2 era o tamanho do meu banco de areia e por aqui vi, pela primeira vez, uma praia de postal, carros parados com a chave na ignição, chá gelado e manteiga de amendoim. Ah, e maracujás. Nem sabia como comer aquilo na primeira vez que um amigo me deu um a provar.
A ilha é Santa Maria, uma das mais pequenas do arquipélago dos Açores, onde 5000 pessoas resistem ao passar do tempo e fazem do sentimento de comunidade um modo de vida.
Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.
Sempre achei que Santa Maria teria, para mim, aquele peso nostálgico da infância ou do regresso a cada verão. O sítio onde passaria umas temporadas, aqui e ali, quando o mundo enlouquecesse. E sabendo deste porto seguro atirei-me ao caminho sabendo que a porta, esta porta, estaria sempre aberta.
Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.
Nem sei se o caro leitor alguma vez passou por Santa Maria. Se ainda não fez esse exercício, experimente. São apenas duas horas, partindo de Lisboa, em linha reta. Sempre acompanhadas pela simpatia do pessoal da Azores Airlines. É aproveitar antes que a vendam!
A natureza foi generosa em variedade e qualidade com este pequeno pedaço de terra. Por aqui, na primeira ilha do arquipélago a ser descoberta no longínquo século XV, ainda é possível estar numa praia deserta de areia fina, fazer um trilho envolto numa floresta misteriosa, deixar o olhar perder-se por vales verdejantes ou mergulhar num oceano de jamantas e tubarões-baleia.
Tenho a minha parte de mundo percorrido. Sempre foi o meu maior sonho isto de perceber onde vivemos. E talvez por isso, hoje compreendo que já mudei de continente para encontrar praias ou trilhos semelhantes aos que, agora, estão a 1 km da porta de casa.
Pode ser a minha visão romantizada da coisa, acredito; afinal, também foi entre estas 5000 pessoas que encontrei a metade com quem vale a pena envelhecer. Ainda assim, acho que voltaria a sentir o mesmo encanto se hoje aqui aterrasse pela primeira vez. Já não existe a Little America, é verdade, mas no essencial, a beleza, a calma e a paz nunca mudaram de código postal.
Há ainda um pormenor importante para quem, como eu, leva 20 anos de vida de emigrante num país frio, tanto de clima como de ligações humanas. Desde que Santa Maria voltou a fazer parte do meu mapa, a solidão optou por sair.
Nunca se está só numa ilha onde todos nos conhecemos. Nunca. Basta sair de casa e tropeço em alguém conhecido. E mesmo que não tenha a certeza de quem seja o meu interlocutor, pelo sogro, irmã ou profissão chegamos rapidamente a quem nos está a dirigir a palavra. Para muitos um problema, para mim um achado.
Quando o mundo enlouquece, corre por armas ou tenta espezinhar os direitos dos trabalhadores, Santa Maria segue numa rotação diferente. Serena, como sempre. Sem permitir que os desvarios dos Trumps da nossa praça nos mudem os hábitos.
Vive-se sem grandes dificuldades, o salário estica um pouco mais e todos se ajudam de alguma forma. Nem que seja na procura da economia local. As festas misturam as classes, os restaurantes não deixam ninguém de fora. Se a natureza nos enche a vista, o aceno do outro lado da estrada traz a sensação de pertencer a algo. Se precisares de ajuda, alguém saberá de alguém.
Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.
Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?
Parece, mas não copiei de um livro de autoajuda. Não é uma receita extensiva a todos. Não estou dizendo que vai funcionar sempre. Nem comigo e nem contigo. Mas, como estou de bom humor, arrisco-me até a ser criticada. “Coisa mais babaca, o cenário global marcado pela intensificação de conflitos armados e tensões geopolíticas, profundos desencontros promovidos pelas grandes potências económicas e ela a querer falar de encontro.” Ah, somos livres. Cada um fala o que quiser.
Tenho observado que enfatizamos muito mais o negativo que o positivo. “Tudo deu errado hoje”, dizemos. Ora, se tudo tivesse dado errado nem estaríamos a dizê-lo. Costumamos exagerar na dose, falar coisas sobre as quais nem pensamos. O marido, por exemplo, chega em casa bufando e diz: “Hoje, eu pisei em rastro de corno” e a mulher resmunga entre os dentes: “não paras, ficas pra dentro e pra fora. Acalma-te!” Ainda bem que o sujeito raivoso não percebe a sutileza.
E se a gente experimentasse pensar no que deu certo? “Hoje, tudo deu certo.” Esse tudo não é ganhar na loteria quando nem jogaste. Refiro-me a coisas simples, quotidianas. Pequenas experiências de gente comum, como eu, que facilmente é encontrada na fila do pão.
Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?
Tanto eu quanto os meus interlocutores podemos reagir de modos diferentes em situações idênticas. Influenciamo-nos reciprocamente. Outro dia, liguei para uma funcionária pública muito simpática – não é a regra –, que fez um tutorial para me ajudar na solicitação de um benefício importante. A conversa ocorreu com tanta leveza que, quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.
O que podia ter sido um choque, foi motivo de muitas gargalhadas, uma vez que eu resolvi explorar o tema com sarcasmo.
– Posso solicitar antecipadamente?
– Só os meus filhos podem receber? Então, sou obrigada a morrer ao lado deles. Do contrário, eles vão receber a defunta e a conta, sem direito a ressarcimento. Que coisa mais inconveniente!
Quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.
Todos os anos, desde a reforma, tenho de apresentar prova de vida para continuar recebendo o meu salário. É exigida uma biometria facial, a ser feita através de um aplicativo do governo, em ambiente iluminado, com fundo branco, sem óculos, sem chapéu, seguindo comandos de não piscar, não sorrir, não fazer careta, etc. Em sã consciência, nenhum trabalhador reformado deixa de cumprir essa exigência. Anualmente, todo mês do aniversário a nossa primeira obrigação é posar para o aplicativo que assegura o pagamento do salário. Ora, quem não apresenta prova de vida não já está a provar a morte? Não bastaria um atestado de óbito fornecido por fonte idônea, para que os responsáveis pelo morto recebessem o tal auxilio-funeral? Talvez, com exagero, uma fotografia do morto segurando uma plaquinha indicativa do evento fosse suficiente. No meu caso: “Por falta de opção, morri.”
Convenhamos, a funcionária era muito bem-humorada. Do contrário não dava para manter esse clima. O que era apenas um pedido de informação tornou-se uma boa e divertida conversa, ao ponto de ela me perguntar se eu era feliz. Respondi-lhe que sou alegre, amo a vida e isso já me basta. Tenho muitas questões sobre o que chamam de felicidade, mas malgrado o tom assumido, não era a hora e nem lugar para filosofar. Importa destacar, aqui e agora, que ficamos ambas satisfeitas e o modo como transcorreu o encontro me estimulou a ir pessoalmente à repartição. Eu sabia, de antemão, que se surgissem empecilhos – sempre surgem – com as outras pessoas a quem eu devia me reportar, estava pronta para relevar, não tomar nenhuma negativa como pessoal.
Na repartição, em meio à conversa com a pessoa que me fez o atendimento presencial, num determinado momento ela quis dizer “a depender da demanda”, mas disse “a depender da demência”. Num dia ruim, eu podia interpretar aquele equívoco com desconfiança. Estaria ela me chamando de demente? Mesmo que estivesse, eu não seria atingida, novamente gargalhei. Não perdi a oportunidade de falar dos meus frequentes esquecimentos e de declarar que a internet me dá surtos de demência. Coitada, ficou meio envergonhada. Não sabia explicar porque demanda virou demência, mas eu não estava nem um pouco preocupada com isso. Queria tão somente resolver o meu problema sem estresse.
Em conformidade com a via-sacra comum aos serviços públicos, fui encaminhada a um rapaz, que analisou a minha situação e quando estava prestes a me encaminhar ao próximo balcão, mudou de ideia e cumpriu sozinho as próximas estações. Dir-se-ia que da segunda queda de Jesus até a Ressurreição resolveu tudo, pôs-se disponível para outras necessidades e ainda fez valiosas sugestões de como é possível sobreviver à burocracia.
Como já ninguém faz nada para mim pelos meus belos olhos, quero crer que aquela corrente de bom humor, fomentada pelo meu primeiro contacto, salvou-me o dia. A essa altura, pensei que seria justo procurar a moça com quem eu falara por telefone. Sabia o nome dela, era possível encontrá-la. Bati à porta que me informaram ser a sua sala e entrei dizendo: “Vim te dar um abraço.” A satisfação iluminou-lhe o rosto e nos abraçamos como se fôssemos amigas. Voltei para casa de bem com a vida. Por tão pouco – acho que posso dizer – salvamos ambas o nosso dia.
Se eu me senti feliz? Não exageremos. Eu não acredito em felicidade, embora defenda que ninguém deve desistir de ser feliz. Por favor, não exijam de mim coerência. Eu também não acredito em Deus, mas, às vezes, tenho medo dele.
A Associação Cultural e Artística ArtMatriz lança a edição de 2026 do MostrART, dedicada ao tema “O Preço de Viver”, um convite à reflexão artística sobre uma das realidades mais marcantes da sociedade atual.
Num tempo em que viver se tornou cada vez mais caro, esta edição do mostrART convida artistas a refletir sobre o verdadeiro custo da vida na sociedade contemporânea.
Desde a sua criação em 2013, o mostrART tem sido um espaço de reexão e expressão artística, reunindo artistas de todo o mundo numa exposição de ilustração, fotograa e arte digital. Organizado pela Associação Cultural e Artística Artmatriz, o evento tem abordado, ao longo dos anos, temas de grande relevância social,promovendo o debate através da arte.
Das primeiras edições, que exploraram diversas linguagens artísticas, à sua consolidação, enquantoplataforma para discutir temas urgentes, o mostrART tem sido um palco de sensibilização e transformação.
O Preço de Viver
A Associação Cultural e Artística ArtMatriz lança a edição de 2026 do MostrART, dedicada ao tema “O Preço de Viver”, um convite à reexão artística sobre uma das realidades mais marcantes da sociedade atual. Num tempo em que viver se tornou cada vez mais caro, esta edição do mostrART convida artistas a reetir sobre o verdadeiro custo da vida na sociedade contemporânea.
O aumento do custo de vida, a diculdade no acesso à habitação, a precariedade laboral e a instabilidade económica transformaram profundamente a forma como as pessoas planeiam o futuro, tomam decisões e constroem os seus projetos de vida. Para muitos, o quotidiano é marcado por escolhas condicionadas, adiamentos, renúncias e pela incerteza permanente.
Mais do que números, estatísticas ou indicadores económicos, “O Preço de Viver” procura dar visibilidade ao impacto humano desta realidade. Que custos invisíveis carregamos? O que se perde quando viver exige cada vez mais esforço? Que sonhos são adiados, que percursos são interrompidos, que desigualdades se aprofundam? A exposição propõe uma reexão artística sobre temas como:
Habitação e direito à cidade Precariedade e instabilidade laboral Desigualdade social e económica Mobilidade forçada e deslocação Endividamento e dependência financeira Saúde mental e pressão económica Tempo, trabalho e qualidade de vida Expectativas, frustração e futuro
Num mundo onde quase tudo parece ter um preço, esta edição questiona também aquilo que não pode ser quanticado: o tempo, o bem-estar, a segurança, a dignidade, o sentido de pertença e a possibilidade de imaginar o futuro.
“O Preço de Viver” convida artistas a explorar, de forma crítica, poética ou experimental, as tensões entre valor económico e valor humano, revelando as histórias, experiências e emoções que existem para além dos dados. Porque viver não deveria ser um luxo.
Informações gerais: Participação aberta a artistas de todas as idades e nacionalidades Submissão de um máximo de 3 trabalhos por participante Formato digital para seleção
Submissões Envio para: multitudo.net@gmail.com Data limite: 30 de Junho de 2026 MostrART – A arte como espaço de reflexão e consciência. Associação Cultural e Artística Artmatriz
Desde rabos de lagostim a ervilhas enlatadas (ou mesmo couves meio apodrecidas), tudo se come, desde que bem ensopado em maionese!
Da solarenga ilha espanhola de Minorca até ao severo clima de Moscovo, a maionese conquistou um lugar próprio na história da culinária, incorporada em vários pratos, hoje tradicionais e imprescindíveis nos dias festivos.
É hoje impensável as mesas de fim de ano russas não incluírem pratos carregados de maionese, como a famosa Salada Olivier ou Arenque em Casaco de Peles ou celebrar o Dia da Mulher sem uma Mimosa (não, não é a bebida), embora a maionese fosse totalmente desconhecida até meados do século XIX.
A maionese, através da Salada Olivier, conquistou o coração, o estômago e as mesas dos Russos, ganhando lugar na história da sua culinária. A sua evolução mistura guerras, luxo gastronómico, condições climáticas, escassez alimentar e ideologia política, acabando a receita por ser simplificada ao longo dos tempos e tornar-se no verdadeiro clássico imortal conhecido mundialmente como a salada russa, exceto na Rússia, onde nem era uma salada e pouco tinha de russa.
Uma das possíveis origens da maionese, sem dúvida a versão mais emocionante, remonta ao século XVIII, durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763) quando o rei francês Luís XVI ordenou ao seu general, o Duque de Richelieu, que conquistasse a ilha de Minorca aos ingleses. A primeira cidade a cair foi Mahón, nas Baleares. Para celebrar a vitória, o cozinheiro do duque teve de improvisar um banquete com poucos ingredientes disponíveis em tempo de guerra. Sem natas para preparar o molho que pretendia, decidiu misturar azeite, ovos e sal, criando um molho cremoso que agradou a todos os presentes. Em homenagem à cidade conquistada, o molho passou a chamar-se mahonaise, origem provável da atual maionese. Há, no entanto, relatos de um molho semelhante que já existia no Mediterrâneo, numa preparação de alho e azeite, conhecida como allioli (ou aioli), que era usada desde a Antiguidade. Em todo o caso, expediente criativo do chefe de serviço ou sugestão de algum menorquino, o molho então conseguido foi um tremendo sucesso.
Sem natas para preparar o molho que pretendia, o cozinheiro decidiu misturar azeite, ovos e sal, criando um molho cremoso que agradou a todos os presentes. Em homenagem à cidade conquistada, o molho passou a chamar-se mahonaise.
Na década de 1860, um elegante prato gourmet chamado “Maionese de Caça Brava” era apresentado com pompa e circunstância às elites moscovitas de então. Numa época em que a cena gastronómica de Moscovo começava a evoluir de simples tabernas para restaurantes de inspiração europeia, Lucien Olivier, emigrante franco-belga, fundava o sofisticado restaurante Hermitage, de atmosfera requintada e pioneiro de uma cozinha de alta gama que utilizava ingredientes gourmet e exóticas influências francesa e internacional e rapidamente se tornou no ponto de encontro da moda entre oligarcas e as elites da cidade.
O prato sensação que lhe traria fama, a tal “Maionese de Caça Brava”, era servido como entrada, não como salada. Os longos e duros invernos russos não favoreciam grande variedade de hortícolas frescos na maior parte do ano, não havendo propriamente nessa altura registo de receitas de saladas como hoje as entendemos – verduras misturadas, com ou sem extras, temperadas com um molho – na tradição gastronómica russa.
Era uma elaborada preparação com ingredientes de luxo dispostos em camadas; numa base de cubos meticulosos de batata, alcaparras, azeitonas e pepinos em conserva, dispunham-se opulentos rabos de lagostim, pedaços de tetraz (ave rara, da família das perdizes), e aspic (geleia feita a partir de caldo de ossos). Consoante a época do ano, podia levar caviar, língua de vitela ou peito de pato fumado. Levava ainda molho Cabul (à base de soja fermentada) e era por fim regada com a verdadeira estrela da composição culinária de Olivier: a maionese! Foi amor à primeira garfada! Tanto, que os comensais acabavam sempre por desconstruir a elegante e opulenta pirâmide, misturando tudo numa amálgama indiscernível no prato. Olivier, atento, adaptou a apresentação e passou a servir o prato já misturado, transformando-o numa verdadeira salada. Assim nasceu a Salada Olivier, que rapidamente se tornou um símbolo da alta gastronomia da Rússia czarista.
As condições climáticas e as baixas temperaturas russas resolviam também as dificuldades técnicas da preparação da emulsão, que aí estabilizava facilmente.
Após a morte de Lucien Olivier, em 1883, e com o encerramento do restaurante Hermitage em 1917 durante a revolução soviética, a receita começou a transformar-se. Um dos aprendizes do chef, Ivanov, terá recriado o prato chamando-lhe Salada Stolichny (ou Stolichnaya), popularizando-a em estabelecimentos bem menos elitistas. Na sua versão, elementos luxuosos como tetraz e lagostim foram substituídos por sucedâneos bem mais adequados à nova realidade socioeconómica de escassez alimentar: frango ou salsicha e cenoura. À medida que a salada se tornava mais conhecida e popular, a receita continuou a simplificar-se e ingredientes como alcaparras foram trocados pela nova e essencial contribuição russa que se tornaria típica da versão soviética: as ervilhas enlatadas.
Nesse período, o Estado soviético apostava fortemente na produção de alimentos enlatados, fruto do processo de industrialização acelerada inicial e da reorganização da sociedade após a Segunda Guerra Mundial. Estes produtos podiam ser armazenados durante anos e transportados facilmente pelo vasto território do país, permitindo paralelamente ao governo controlar a distribuição de alimentos.
A comida tornava-se politizada e pensada para alimentar as massas e as receitas eram padronizadas e distribuídas por toda a União Soviética, garantindo que a comida fosse semelhante em qualquer região do país.
Em tempos de fome e escassez alimentar, a maionese sempre servia como bomba de sabor e muitas vezes para mascarar estados de conservação já ultrapassados dos ingredientes disponíveis, desempenhando com orgulho o papel de elemento festivo, acompanhada por um bom shot de vodka, quer fosse nas trincheiras, nos campos ou nas empobrecidas casas da classe operária das cidades.
Esse contexto ajuda a consolidar a forma moderna da Salada Olivier. Ingredientes duradouros e facilmente distribuídos tornaram-se a base do prato. E a maionese, rica em calorias e com boa durabilidade, é também ideal para enriquecer com gorduras, proteínas e sabor refeições simples.
Hoje continua tão popular como sempre, planetária como nunca, e com o seu nostálgico charme kitsch, continua a ser recriada na Rússia e no mundo em homenagem à tradição ou com adições inesperadas, dando asas à imaginação.
Salada Russa à Portuguesa
Ingredientes:
Para a salada:
2 batatas cozidas
1 cenoura cozida
1 ovo cozido
100 g ervilhas enlatadas
1 lata de atum
Sal e pimenta
Para a maionese:
100 ml de óleo vegetal
1 ovo
1 colher de sopa de sumo de limão
1 colher de chá de mostarda
Sal e pimenta
Corte as batatas, a cenoura e o ovo em pedaços iguais e coloque num recipiente. Adicione as ervilhas e o atum desfiado.
Agora, é a altura de dar asas à sua imaginação, o limite é a despensa: junte azeitonas, alcaparras, feijão verde, pepino fresco ou em conserva, pickles, cubos de beterraba, ervas frescas, rabos de lagostim, salmão fumado, caviar, o que quer que tenha à mão e prossiga;
Prepare a maionese: Coloque o ovo, o limão, a mostarda e uma pitada de sal e pimenta no copo da misturadora.
Bata esta mistura com a varinha mágica numa velocidade média e vá adicionando aos poucos o óleo, sem levantar a varinha do fundo do copo, até obter uma consistência cremosa.
Acrescente a maionese à mistura da salada e leve ao frio antes de servir.
“Agentes de IA não ‘querem’ nada. Eles apenas executam comportamentos compatíveis com aquilo que foram treinados ou programados para fazer.” O problema está na definição do que devem fazer, que é uma decisão humana e pode ser muito perversa.
Na sua monumental obra sobre O conceito de tecnologia, concluída em 1973 mas apenas publicada em 2005, o filósofo Álvaro Vieira Pinto assinala o traço “monotonamente repetido” que marca o comportamento humano diante de inovações que abalam o mundo tal como o conhecemos e conduzem a incertezas que levam a reações contraditórias, ora apocalípticas, ora eufóricas. Alerta para a recorrente manobra de inversão ideológica que apresenta os aparelhos tecnológicos como agentes transformadores e, na esteira de Marx, argumenta que o que ocorre é o contrário: são as relações sociais que projetam esses aparelhos, através dos quais os humanos podem construir a sua liberdade ou impor a dominação, a exploração e a opressão a outros humanos. O capitalismo opera nessa permanente contradição, ao estimular as forças produtivas capazes de libertar o ser humano do reino da necessidade, ao mesmo tempo que lhe tolhe essa possibilidade ao conformá-lo a um sistema explorador.
Vieira Pinto escreveu no auge da excitação provocada pela cibernética, quando proliferaram predições sobre a disseminação do uso dos computadores, que nos transformariam em robôs e exterminariam a “essência humana” ou, pelo contrário, inaugurariam um novo e promissor tempo de libertação para a humanidade. Escreveu em contracorrente, demonstrando que a oposição homem x máquina não fazia sentido porque não há técnica ou tecnologia que não derive do engenho humano.
No entanto, continua a prevalecer o traço “monotonamente repetido”, agora diante do avassalador desenvolvimento da chamada inteligência artificial generativa, que volta a acionar velhos fantasmas. O acontecimento mais recente nesse sentido foi o lançamento do Moltbook, no final de janeiro, anunciado como “a rede social onde humanos não entram”. Seria o começo da materialização do temor reiteradamente cultivado desde a revolução industrial, no século XIX, e que gerou inúmeras obras de ficção científica: a subjugação dos seres humanos pelas máquinas, a criatura voltando-se contra o criador e agora, finalmente, capaz de exterminá-lo de verdade.
As redes sociais entraram em polvorosa, e muitos jornais as seguiram acriticamente, ajudando a disseminar o pânico. Outros, juntamente com alguns influenciadores críticos, procuraram esclarecer do que se tratava. No site theconversation.com/br, o investigador Alberto Sardinha publicou um artigo que desfazia o alarmismo:
“O que está sendo apresentado como algo quase futurista faz parte, na verdade, de uma linha de pesquisa bastante consolidada na ciência da computação. Ambientes em que Inteligências Artificiais interagem existem há décadas na pesquisa científica e não significam consciência, intenção ou vida social artificial. São usados, por exemplo, para estudar (e aprimorar) questões que envolvem cooperação, falhas de comunicação e coordenação entre sistemas automatizados.”
São, naturalmente, projetados por humanos. São “autônomos” apenas no sentido de que podem “selecionar qual ação executar em cada etapa, sem a intervenção direta humana”. Em suma, “agentes de IA não ‘querem’ nada. Eles apenas executam comportamentos compatíveis com aquilo que foram treinados ou programados para fazer”.
Os robôs são os instrumentos, cada vez mais sofisticados, de perversas decisões humanas.
O problema estaria, portanto, na definição do que devem fazer, que é uma decisão humana, e pode ser muito perversa.
É o que estamos vendo no uso militar da IA, seja na caça do ICE a imigrantes nos Estados Unidos e na repressão a manifestações de protesto contra essa violência, seja no massacre de Gaza, no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro ou no ataque ao Irão: a seleção de alvos através do cruzamento automatizado de dados e de classificações probabilísticas. Armas “autônomas” são programadas por humanos, não deveria haver muita dúvida quanto a isso. A recente decisão do presidente Trump de banir a Anthropic por sua recusa em permitir que seu modelo de IA fosse utilizado nesse tipo de artefatos e ações letais sem supervisão humana indica uma escalada da atual política de extermínio conduzida pelo governo norte-americano em aliança com Israel. Os robôs são os instrumentos, cada vez mais sofisticados, de perversas decisões humanas.
Dos socialistas utópicos, como Saint-Simon, Fourier ou Robert Owen ao “cartismo” da classe trabalhadora britânica, a classe trabalhadora percorreu no século XIX um longo caminho em busca de construir uma representação política própria.
A Revolução Francesa concluíra com a derrota da sua ala esquerda (os jacobinos), mas estes tiveram os seus herdeiros radicais, a “Conspiração dos Iguais” de 1796. Essa fração propôs um programa de propriedade comunal, para aprofundar a revolução, uma espécie de socialismo agrário. Os trabalhadores consideravam-se parte das camadas populares da nação, a sua privação de direitos só podia ser eliminada exigindo para todos os cidadãos o mesmo direito de determinar a atividade do poder político, de modo que não se abusasse do Estado em proveito de uns poucos. Reclamaram para si próprios os direitos de liberdade correspondentes ao direito natural. Na prática, porém, foram além desse patamar. A consciência de classe dos trabalhadores, certamente, ainda não existia claramente em 1789: fora da Grã-Bretanha e da França, era quase totalmente inexistente. A expressão “classe trabalhadora” apareceu nos escritos dos trabalhistas ingleses logo após 1815. Nem todos os cidadãos eram trabalhadores, mas todos os trabalhadores conscientes pertenciam a esse movimento, as consciências “jacobina” e proletária complementavam-se.
A experiência da classe operária dava aos pobres as instituições para a sua defesa diária, o sindicato e a sociedade de auxílio mútuo, e as armas para a luta coletiva, a solidariedade e a greve (que implicava organização e disciplina). O complemento do sindicato era a greve geral, concebida como uma arma central da classe trabalhadora. O termo “socialismo”, por sua vez, surgiu na década de 1820, sendo adotado pelos trabalhadores em França: o termo foi usado por Henri Leroux, em 1831, na década em que a “questão social” passou para primeiro plano da cena francesa, e em escala bem maior pelos britânicos. Por volta do início da década de 1830 já existiam, portanto, a consciência de classe proletária e as suas próprias aspirações sociais, embora mais fracas e menos consolidadas do que a consciência de “classe média” (situada entre a aristocracia e a população pobre) que os seus patrões já possuíam. Em meados do século XIX, já era visível a expressão da nova classe trabalhadora no movimento operário; o movimento democrático, por sua vez, era a expressão prática do povo comum, proletário ou não, que a Revolução Francesa tinha colocado no palco da história como ator e não como simples vítima, um ator à procura de respeito, reconhecimento e igualdade.
Os primeiros representantes da escola socialista foram, nas palavras de Engels,
“os três grandes utópicos: Saint-Simon, em quem ainda se manifestava a tendência burguesa, juntamente com a tendência proletária, Fourier e Owen, que expôs de forma sistemática, no país onde a produção capitalista estava mais desenvolvida (Inglaterra), uma série de medidas que visavam a abolição das diferenças de classe. O traço comum entre os três estava no facto de não agirem como representantes dos interesses do proletariado que, entretanto, já havia surgido como classe social. Não se propõem emancipar primeiramente determinada classe, mas sim, de uma só vez, a humanidade toda”.
Charles Fourier constituiu uma sociedade que chegou a ter, em 1848, quase quatro mil adeptos, publicando o jornal A Democracia Pacífica. A partir de 1822, empreendeu a construção de comunidades (falanges), que associadas constituíam o falanstério. Neste, de 1600 a 1800 pessoas trabalhavam em regime comunitário, dedicadas igualmente à agricultura e à indústria, que deviam desenvolver-se harmoniosamente, evitando também o embrutecimento produzido nos homens pela realização de um só tipo de trabalho. Os falanstérios, construídos em França e nos EUA, fracassaram (devido justamente à concorrência das empresas capitalistas). Alguns discípulos de Fourier, como Victor Considérant (1808-1893), convergiram com o nascente movimento operário. Considérant bateu-se, ao lado dos operários, nas barricadas do faubourg (bairro) de Saint-Antoine, em junho de 1848. Já tinha compreendido, pela sua própria experiência, que era inútil fazer apelo à generosidade dos ricos e dos mecenas para melhorar a sorte do proletariado.
Para Engels, “o socialismo e comunismo crítico-utópico fracassou necessariamente não só por causa do estado embrionário do próprio proletariado, como também devido à ausência das condições materiais da sua emancipação, condições que apenas surgem como produto da época burguesa”. Para diferenciar-se do socialismo paternalista ou filantrópico dos intelectuais burgueses, as doutrinas que apregoavam a auto emancipação da classe operária passaram a se identificar no comunismo. O desenvolvimento da classe operária criou as bases sociais para a superação do socialismo semifilantrôpico, tanto na França como na Inglaterra:
“Se os utópicos foram utópicos é porque, numa época em que a produção capitalista estava ainda tão pouco desenvolvida, não podiam ser outra coisa. Se foram obrigados a tirar das suas próprias cabeças os elementos de uma nova sociedade, é porque, de uma maneira geral, estes elementos não eram ainda bem visíveis na velha sociedade; limitaram-se a apelar para a razão para lançar as fundações do seu novo edifício, porque não podiam, ainda, fazer apelo à história contemporânea.”
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Se Saint-Simon e Fourier haviam “tirado da cabeça” o seu sistema socialista, foi, ao contrário, pela via da prática que Robert Owen (1771-1858), no país da indústria mais desenvolvida, elaborou o seu próprio sistema socialista. Ele fora fortemente influenciado por Jean-Jacques Rousseau e pela filosofia das luzes e acreditava na possibilidade de educar o homem (sem distinção de classes). A sua grande ideia era a de tornar o mundo racional, e racional significava moral. Mas foi essencialmente devido à sua posição de diretor de uma fábrica, através do contacto com a prática, que veio a elaborar o seu socialismo. Na sua empresa, em New Lanark (Escócia), Owen, que nascera num lar operário, reduziu a jornada de trabalho de 16 para 10 horas diárias. Não aceitou o trabalho de crianças menores de dez anos, e criou para elas creches e escolas gratuitas e laicas. Manteve a higiene da fábrica, combateu o alcoolismo e criou casas de repouso para a doença e a velhice. Conseguiu fazer isso sem que diminuísse a produtividade da empresa. Mas apesar deste exemplo, os capitalistas viram nele um perigo, vindo a ser duramente criticado no Parlamento entre 1817 e 1820, e também perseguido, o que o obrigou ao exílio. Nos EUA tentou fundar, sem sucesso, colónias socialistas. De volta a Inglaterra, Robert Owen criou a National Equitable Labour Exchange, onde produtos fabricados pelos trabalhadores eram trocados por outros que tivessem custado o mesmo tempo de trabalho.
O sistema fracassou (porque muitos trabalhadores “inflacionavam” o trabalho realmente feito, e porque os produtos artesanais passaram a concorrer em desvantagem com os industriais), mas a National Equitable foi o antecedente organizativo da primeira central sindical inglesa. Robert Owen passou então a trabalhar nos sindicatos, chegando a propor, num congresso que presidiu em 1838, a greve geral e a luta de classes. Owen morreu como militante socialista da classe operária. Devido a isso, muitos dos seus discípulos “filantrópicos” abandonaram-no, criticando o seu “radicalismo”. A grande viragem da organização operária deu-se em finais da década de 1830, em Inglaterra, com a organização da Carta do Povo (People’s Charter). Em 16 de junho de 1836, constitui-se a London Working Men’s Association, que conquistaria apoio nacional no ano seguinte, em torno da ideia de uma petição ao Parlamento em favor da reforma política (sufrágio universal masculino). A estratégia utilizada pelos cartistas girava em torno da recolha de assinaturas, que era realizada nas oficinas, nas fábricas e em reuniões públicas, através de uma série de petições nacionais, enviadas à Câmara dos Comuns. Ativistas operários radicais como Harney e O’Connor, influenciados diretamente pelos exilados comunistas alemães, não foram inicialmente aceites na sociedade, e iniciaram uma campanha independente.
A reforma [de 1832] satisfazia os interesses da burguesia, que ganhava espaço político, mas não o operariado, pois sobrevivia o voto censitário (ligado à propriedade), que excluía quase toda a classe operária do exercício dos direitos políticos.
A reforma eleitoral de 1832 (Reform Act), arrancada pela burguesia industrial à monarquia, aumentara o colégio eleitoral inglês de 400 mil para 800 mil membros; o Parlamento aprovou também a reforma que suprimia as “cidades mortas” (pequenas cidades controladas pela nobreza), baixava o censo eleitoral e aumentava o número de deputados. A reforma satisfazia os interesses da burguesia, que ganhava espaço político, mas não o operariado, pois sobrevivia o voto censitário (ligado à propriedade), que excluía quase toda a classe operária do exercício dos direitos políticos. A Carta nasceu da crescente organização operária na Inglaterra. Havia mais organização entre os trabalhadores especializados, como os penteadores e cardadores de lã. Inicialmente, eles colaboravam para pagar o enterro de associados; a associação passou a ter depois caráter reivindicativo. O processo de organização acelerou e também se tornou mais denso. Em 1836 os operários condenados na Inglaterra em revoltas anteriores foram indultados, e começaram a regressar ao país. Nesse clima, a Carta foi proclamada e organizada nacionalmente em 1838, propondo o voto universal e secreto (através de cédula), a abolição da qualificação censitária para exercê-lo (voto por nível de rendimento), o pagamento aos membros do Parlamento (permitindo a entrada nele de trabalhadores), a nivelação dos distritos eleitorais, a eleição anual dos parlamentos (permitindo assim um controle mais efetivo, e a revogabilidade dos representantes parlamentares).
O movimento cartista não formulou um programa político a partir de um conjunto de ideias socialistas, como se fazia já em França, mas a partir das ideias dos reformadores parlamentares radicais. Os seis pontos da Carta estavam baseados no programa que a “Comissão da Reforma” em Westminster tinha esboçado 58 anos antes. As reivindicações de luta pela liberdade já faziam parte da cultura dos artesãos e trabalhadores radicais antes mesmo da formação de sua consciência como uma classe trabalhadora independente. A composição do cartismo era heterogénea, com líderes radicais como William Lovett, em Londres, e Thomas Attwood, em Birmingham; moderados, como Richard Oastler, ou socialistas jacobinos como Julian Harney e James Bronterre O´Brien. O cartismo possibilitou, em escala histórica, um novo estágio do desenvolvimento do movimento operário, o da passagem das sociedades secretas para as sociedades operárias de massas. Isto teve o seu epicentro em Inglaterra, onde o desenvolvimento industrial era mais avançado e a atividade da classe operária mais aberta. A Convenção Nacional das Classes Operárias da Grã-Bretanha, o “parlamento operário” convocado no início de 1839 pelos cartistas, discutiu publicamente a organização da greve geral como meio de conquista do poder político.
No seio da Associação de Operários Alemães de Inglaterra enfrentaram-se as duas concepções, pois um dos seus membros mais influentes, Wilhelm Weitling (chefe espiritual da Liga dos Justos, organização de operários comunistas, que não tardou em ser afastado da Associação) admitia apenas uma forma de propaganda, a das sociedades clandestinas de conspiradores, enquanto Karl Marx exigia que se pusesse fim à propaganda secreta e se transformassem as limitadas agitações subterrâneas num vasto movimento de massas. A preferência por sociedades secretas tinha sido favorecida pela repressão social e política reinante na fase precedente: Por causa do Congresso de Viena houve um florescimento de sociedades secretas, que minavam o solo da vida política e social do continente europeu. Em França, as associações blanquistas eram uma forma de ‘carbonarismo’. A Liga dos Justos surgiu da Liga dos Proscritos. Estes eram intelectuais emigrados de diversas nações. Alguns artesãos que haviam ingressado nessa Ligue des Bannis acabaram por separar-se dos intelectuais e formar a Liga dos Justos. Composta quase exclusivamente por operários, logo se tornou socialista, tendência que se desenvolveu por completo com o golpe de força ensaiado pelos blanquistas em 1839, no qual tomaram parte alguns membros da Liga. Enquanto a antiga desconfiança em relação aos intelectuais começava a desaparecer entre os operários e o proletariado ia buscar as suas armas intelectuais à filosofia, os filósofos descobriam nos operários, nesses “bárbaros” da sociedade civilizada, o “elemento prático da emancipação do homem”. Depois da rebelião dos tecelões da Silésia, em junho de 1844, Karl Marx declarava, no Vorwärts, que a Alemanha não podia “encontrar o elemento ativo da sua libertação senão no proletariado”: A fusão da ideia, da força material de classe e da organização revolucionária pavimentava o seu caminho.
Continuará hoje, dentro das atuais condições laborais e organizacionais da escola, a fazer sentido a ambição de o professor ser um intelectual transformador, que combina reflexão sobre o propósito da educação e da ação na transformação da realidade?
A educação pública portuguesa tem percorrido um caminho moroso sem que tenha cumprido o imperativo ético da mitigação das desigualdades. Com promessas de pontes, túneis e atalhos, as sucessivas políticas abriram becos e fecharam trilhos, mantendo o percurso sinuoso e entrelaçado do peso do determinismo social.
A procura de uma saída não pode continuar a fazer-se de fora; tem de ser assumida por dentro, e o desafio reside na força coletiva dos professores. Considerando-os “guardiões da civilização e da cultura”, Bertrand Russell defendeu que “o sentimento de independência intelectual é essencial ao adequado preenchimento das funções de professor”, contrariamente ao statu quo imperante de “incutir crenças e pressupostos cuja utilidade é estabelecida por aqueles que lhe dão emprego”.
Ora, o panorama atual é dominado por uma cultura de prestação de contas, por um sistema que se rege pelos resultados e – não nos enganemos, não decidimos nada, quem decide é o mercado – por uma pedagogia produtivista. Emoldurada pela competição, a escola atual está muito longínqua da escola cidadã de Carlos Estêvão.
Nesta cadeia, como alerta José A. Pacheco, o professor surge como “um mero funcionário do ato pedagógico”, cuja atividade se subordina aos resultados da avaliação sumativa externa. Impedido de se direcionar para resolver os problemas que gostaria de resolver, permanece num impasse duplo e simultâneo: sentir-se bem e mal na profissão. No que diz respeito à prática profissional, o discurso dos docentes é dominado por uma preocupação com o total cumprimento da planificação, numa espécie de pêndulo compassado pelo tempo que decorre desde o início do ano letivo até à realização do exame final. O sentimento de urgência é transversal: não existe disciplina nem nível de ensino que escape. Mais: nas metodologias contrarrelógio admite-se circunscrever a variedade de materiais didáticos ao manual e a algumas plataformas digitais e fazer convergir práticas ao modelo expositivo e uniformizado.
Nas metodologias contrarrelógio admite-se circunscrever a variedade de materiais didáticos ao manual e a algumas plataformas digitais.
A igualização na avaliação dos alunos é garantida com a aplicação rigorosa dos critérios definidos pelo departamento, com vista à estandardização da aplicação das competências como forma de mensuração do conhecimento, espartilhado em domínios.
Mergulhados numa letargia produzida por um cansaço burocrático extremo e pela subserviência a um modelo de gestão escolar que os subalterniza, os professores adotam um silêncio inconsciente, cujas raízes provêm ou de conformismo ou de um medo instalado, que gera a interiorização da não-contestação. Ora, a obediência passiva resulta de uma mentalidade tecnicista e submissa, transformada, que nada tem a ver com o trabalho transformador de um intelectual.
O professor contemporâneo assemelha-se, pois, a Sísifo: vê-se compelido, ano após ano, a repetir novos ciclos de preparação para testes padronizados, que incluem provas de ensaio – porque tudo se ensaia; vê-se refém da aplicação de uma avaliação que prima pela diversidade de instrumentos e por múltiplas fontes de evidência (grelhas, rubricas…); vê-se enredado em relatórios (PEI, medidas universais, fichas de referenciação para SPO, CPCJ, taxas de sucesso por turma); vê-se cúmplice do ajustamento das práticas de ensino aos desafios da educação inclusiva (pela falta de recursos humanos) e assiste, impotente, a guetizações (como a composição de turmas apenas com alunos estrangeiros, sob o argumento de lhes garantir PLNM).
É percetível que a ação pedagógica dos professores vai muito para além da sala de aula: resolução de problemas disciplinares, bullying como fruto da violência crescente, como o racismo e a xenofobia, no fundo, o reflexo do agravamento das desigualdades sociais. Abre-se um abismo de pendor ético entre aquilo que, como mais que professores, podemos fazer e aquilo que acreditamos que deveria ser feito.
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Ora, a nova lei propicia o agravamento desta realidade e prepara o cavalo de Tróia que minará, ainda mais, a qualidade do ensino. Se recorremos a uma analogia de proporcionalidade inversa, em que a força da carreira (f) é inversamente proporcional ao grau de precarização do sistema (p), a constante (k) representa o volume de trabalho pedagógico efetivamente realizado na escola, isto é, f = k/p, independentemente do vínculo laboral. Agora, pensemos: a fragmentação dos vínculos de trabalho fragiliza e divide os professores, o que, obviamente, compromete a qualidade do trabalho. A precarização não acaba com a função do trabalho, mas, à semelhança daquilo que em 2009 provocou na carreira dos enfermeiros, torna-o mais difícil e mais fragmentado.
E o que podem ser os p, segundo a Lei 99/2025? Um somatório de algumas matérias de natureza subsidiária com consequências como: desprofissionalização da função de professor marcada pelo recrutamento que está em marcha; subserviência ampliada pelos modelos de gestão e de avaliação, com comissões de serviço e avaliação por prémios; a reafetação do pessoal, com fim de QA (Quadros de Agrupamento) e QZP (Quadros de Zona pedagógica) e introdução de mapas de pessoal e a imprevisibilidade do horário de trabalho e da passagem à Tabela Remuneratória Única (TRU).
Com este cenário, como poderá o fio de Ariadne ajudar os professores (Teseu) a sair do labirinto do Minotauro? Talvez se a figura de Ariadne for ancorada em dois pressupostos.
O primeiro, na ideia de Angela Davis de que “é fundamental resistir à representação da história como obra de indivíduos heróicos, para que as pessoas reconheçam a sua capacidade de agir como parte de uma crescente comunidade de resistentes”. Na comunidade escolar, pode produzir um efeito emancipador do valor de cada sujeito e reconstruir o valor coletivo da profissão docente.
O segundo, no resgate proposto por Carlos Fernández Liria – os professores como proprietários da sua função, isto é, como sujeitos intelectuais que definem, em comunidade, o sentido do trabalho pedagógico.
Se foi uma ambição histórico-crítica a ideia do professor como intelectual transformador (que combina reflexão sobre o propósito da educação e da ação na transformação da realidade), a questão que hoje se coloca é se continuará a fazer sentido esta ambição dentro das atuais condições laborais e organizacionais da escola. Talvez o fio de Ariadne proposto não seja uma solução, mas possa apontar uma direção: valor coletivo e autonomia docente.
Apesar da derrota de Montenegro e de Ventura na greve geral e nas eleições presidenciais, a “concertação” em volta do pacote laboral recomeçou. E recomeçou porque Seguro veio em socorro do desacreditado Montenegro exortar centrais sindicais e patronato a regressarem à mesa das “conversações”. Se a resposta dos trabalhadores for fraca, Montenegro e Ventura negociarão umas modificações cosméticas para fazer de conta, e o pacote passará no Parlamento.
O Conselho Nacional da CGTP, reunido a 18 de Março, aprovou uma resolução em que, a abrir, declara, a propósito do pacote laboral, que “A greve geral [foi] momento alto da convergência na luta”. Acrescenta que “os trabalhadores rejeitaram o pacote laboral, exigem a revogação das normas gravosas que já hoje a legislação contém (...). Não aceitam retrocessos, exigem um outro rumo e uma outra política”.
Assim é. Pouco preocupa mais os trabalhadores conscientes do que a possibilidade de o pacote laboral de Montenegro ser aprovado. Não só ele reduz drasticamente os direitos e condições de trabalho, mas, restringindo a liberdade sindical e o direito de greve, restringe gravemente a possibilidade de lutar por melhores salários e direitos no futuro.
Ora, já por algumas vezes o futuro do “pacote laboral” pareceu seriamente comprometido. A primeira foi fruto directo da grande greve geral de Dezembro. O PS já declarara que não votaria o pacote. O caudilho fascista Ventura, que sabe sempre de que lado sopra o vento, declarou então que não o viabilizaria naquela forma, por ele fazer suportar toda a carga aos trabalhadores. Para o governo da AD, minoritário, mesmo com o apoio da IL, a via parlamentar periclitava.
A segunda crise foi logo a seguir à eleição presidencial. As confederações patronais declararam, exasperadas, que, dado a UGT continuar indisposta a recuar das suas “linhas vermelhas” e a exigir a reposição de direitos pré-troika, “nada mais havia a discutir” (a CGTP, que não fora convidada para as “conversações”, protestou por ser excluída).
Apesar disso, a “concertação” recomeçou. E recomeçou porque o Presidente eleito, Seguro, veio em socorro do desacreditado Montenegro exortar centrais sindicais e patronato a regressarem à mesa das “conversações”.
Em resultado de todas estas manobras, mantém-se intacto o perigo para os trabalhadores.
Nós, no Maio, pensamos que os sindicatos servem para negociar e arrancar ao patronato os melhores resultados possíveis para os trabalhadores, na correlação de forças dada. Em contrapartida, discordamos de que os sindicatos participem na “concertação social”, que é política e institucional. “Concertação” não é negociação. É associação ao Estado e às políticas dos governos. Mesmo com governos “de esquerda”, se não romperem com o quadro institucional, essas políticas são sempre condicionadas e determinadas pelo mandamento de defender os interesses dos proprietários dos grandes meios de produção e troca e pelos ditames austeritários de Bruxelas.
Discordamos, portanto, da política de ambas as centrais sindicais de participação no CES, na concertação social e restantes instituições estatais e para-estatais. Nada de bom daí pode vir para os trabalhadores.
Em contrapartida, concordámos plenamente com ambas as centrais quando, face ao pacote laboral apresentado, elas declararam que a única solução que podiam aceitar era a retirada do pacote e não a sua concertação.
E fomos, desde o início, partidários de que as centrais convocassem conjuntamente a greve geral. Quando assim efectivamente aconteceu, verificou-se que os trabalhadores e a juventude aderiram em massa. A greve e a grande manifestação de 11 de Dezembro de 2025 em Lisboa ficou na memória de todos, e atordoou o Governo e o patronato.
A evidência é que a unidade na acção das grandes organizações representativas surte impacto máximo, sem prejuízo das legítimas diferenças de opinião e posições sindicais e políticas de cada um.
Independentemente da “influência” e dos efectivos que cada central reivindique para si, acções convocadas em unidade são um sinal poderoso para todos os trabalhadores: não há divisão; avançar, fazer greve, sair à rua não é perda de tempo e energia, é a via para a vitória.
Assim sendo, é difícil compreender que a longa resolução do Conselho Nacional da CGTP seja omissa em propostas à UGT e aos sindicatos independentes para prepararem em conjunto novas acções e uma nova greve geral, mais dura e longa, se o Governo não recuar. A resolução enumera, como todos os anos, o calendário de acções da CGTP para os meses a vir. Na linha final, menciona: “(...) ampla frente de luta construída, (...) que se desenvolverá com todas as formas de luta que a situação imponha, incluindo a Greve Geral.” Mas sem uma palavra sobre a preparação concreta da greve geral na unidade de todos os trabalhadores e organizações, caso a aprovação do pacote esteja iminente.
Todos sabemos o que acontecerá se o movimento operário e sindical não responder à altura. O movimento protofascista de Ventura é uma criatura do patronato, que este tem em reserva como última instância para pôr os trabalhadores “nos eixos” se nada mais funcionar. Se a resposta operária e sindical for fraca, Montenegro e Ventura negociarão umas modificações cosméticas para fazer de conta, e o pacote passará intacto no Parlamento.
Publicámos há semanas a plataforma unitária elaborada pelas direcções de uma dezena de sindicatos não filiados, que pedia a unidade para preparar nova greve geral, caso necessário. É agora responsabilidade das direcções das duas centrais sindicais pronunciarem-se claramente pela luta unida de todas as organizações sindicais e de trabalhadores para derrotar o pacote laboral.
Segundo o dicionário da Porto Editora, trabalhador e um nome masculino que designa: 1) pessoa que trabalha; 2) pessoa que, mediante salário, põe a sua força de trabalho à disposição de outrem; empregado. Já robô é nome masculino que significa 1) máquina ou aparelho eletromecânico, passível de ser programado informaticamente para executar de forma autónoma determinada(s) tarefa(s), geralmente repetitivas ou perigosas, em substituição do homem; 2) máquina que imita o aspeto e os movimentos de uma pessoa ou de outro ser animado. Deriva do russo robotnik (Рабо́тник), trabalhador.
EM NOVILÍNGUA:
Graças à extrema criatividade da confederação patronal CIP, que tem conduzido o país a dar saltos mais longos que os de Agate de Sousa e Gerson Baldé, o trabalhador português deveria ser um verdadeiro robotnik, ou robô. Armindo Monteiro, presidente da CIP, comentou ao jornal das 13 horas da Antena 1 de 23-3, que seria mais fácil resolver as questões do pacote laboral sem interferências sindicais nem políticas, já que para os sindicatos o trabalhador era “um ativo sindical” e, caso o pacote laboral tivesse de ser decidido na AR e não na “concertação social”, o trabalhador seria encarado como “um ativo político”. Ou seja, isso de o trabalhador ser uma pessoa e não uma máquina só atrapalha. ASP
Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.
Cheguei à ilha em 1984. Tinha sete anos e vinha ter com o meu pai que, poucos anos antes, se mudara em trabalho para aqui. Deixei a escola em Almada, ali perto da Incrível, e vim sozinho, com uma mala maior do que eu, feita a meias entre a minha avó e tia.
No meu imaginário de miúdo que via os desenhos animados na RTP, único canal da altura, uma ilha era um banco de areia, com água em redor, dois coqueiros e uma rede pendurada entre eles. Eventualmente com um náufrago ou uma garrafa perdida segurando um pedido de SOS.
Quando aqui aterrei fiquei espantado. O banco de areia era menos tropical do que imaginara. Havia uma “Little America” construída em torno de um aeroporto. Uma pista de aterragem enorme, um cinema para 500 pessoas e um ginásio multifunções. Ambos feitos com madeira. Casas de chapa. Muitas. Outrora ocupadas por militares e agora a abrigar famílias locais ou outras que, como era o caso da minha, estavam deslocadas. Nas traseiras dessa casa havia uma figueira que começou a dar doce, logo que aprendemos o processo de cozedura. Ao lado da casa de chapa havia uma garagem, em madeira, onde o meu pai organizava as ferramentas naqueles quadros com sombras, típicos da era pré-Leroy Merlin. Também era ali que me fazia os trabalhos manuais para a escola, compensando a minha notável falta de habilidade.
Mal se saía da Little America apareciam as casas mais tradicionais. A serra, as baías, as praias de água morna que nunca mais me deixariam entrar no mar da Costa da Caparica com a mesma vontade. 97 km2 era o tamanho do meu banco de areia e por aqui vi, pela primeira vez, uma praia de postal, carros parados com a chave na ignição, chá gelado e manteiga de amendoim. Ah, e maracujás. Nem sabia como comer aquilo na primeira vez que um amigo me deu um a provar.
A ilha é Santa Maria, uma das mais pequenas do arquipélago dos Açores, onde 5000 pessoas resistem ao passar do tempo e fazem do sentimento de comunidade um modo de vida.
Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.
Sempre achei que Santa Maria teria, para mim, aquele peso nostálgico da infância ou do regresso a cada verão. O sítio onde passaria umas temporadas, aqui e ali, quando o mundo enlouquecesse. E sabendo deste porto seguro atirei-me ao caminho sabendo que a porta, esta porta, estaria sempre aberta.
Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.
Nem sei se o caro leitor alguma vez passou por Santa Maria. Se ainda não fez esse exercício, experimente. São apenas duas horas, partindo de Lisboa, em linha reta. Sempre acompanhadas pela simpatia do pessoal da Azores Airlines. É aproveitar antes que a vendam!
A natureza foi generosa em variedade e qualidade com este pequeno pedaço de terra. Por aqui, na primeira ilha do arquipélago a ser descoberta no longínquo século XV, ainda é possível estar numa praia deserta de areia fina, fazer um trilho envolto numa floresta misteriosa, deixar o olhar perder-se por vales verdejantes ou mergulhar num oceano de jamantas e tubarões-baleia.
Tenho a minha parte de mundo percorrido. Sempre foi o meu maior sonho isto de perceber onde vivemos. E talvez por isso, hoje compreendo que já mudei de continente para encontrar praias ou trilhos semelhantes aos que, agora, estão a 1 km da porta de casa.
Pode ser a minha visão romantizada da coisa, acredito; afinal, também foi entre estas 5000 pessoas que encontrei a metade com quem vale a pena envelhecer. Ainda assim, acho que voltaria a sentir o mesmo encanto se hoje aqui aterrasse pela primeira vez. Já não existe a Little America, é verdade, mas no essencial, a beleza, a calma e a paz nunca mudaram de código postal.
Há ainda um pormenor importante para quem, como eu, leva 20 anos de vida de emigrante num país frio, tanto de clima como de ligações humanas. Desde que Santa Maria voltou a fazer parte do meu mapa, a solidão optou por sair.
Nunca se está só numa ilha onde todos nos conhecemos. Nunca. Basta sair de casa e tropeço em alguém conhecido. E mesmo que não tenha a certeza de quem seja o meu interlocutor, pelo sogro, irmã ou profissão chegamos rapidamente a quem nos está a dirigir a palavra. Para muitos um problema, para mim um achado.
Quando o mundo enlouquece, corre por armas ou tenta espezinhar os direitos dos trabalhadores, Santa Maria segue numa rotação diferente. Serena, como sempre. Sem permitir que os desvarios dos Trumps da nossa praça nos mudem os hábitos.
Vive-se sem grandes dificuldades, o salário estica um pouco mais e todos se ajudam de alguma forma. Nem que seja na procura da economia local. As festas misturam as classes, os restaurantes não deixam ninguém de fora. Se a natureza nos enche a vista, o aceno do outro lado da estrada traz a sensação de pertencer a algo. Se precisares de ajuda, alguém saberá de alguém.
Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.
Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?
Parece, mas não copiei de um livro de autoajuda. Não é uma receita extensiva a todos. Não estou dizendo que vai funcionar sempre. Nem comigo e nem contigo. Mas, como estou de bom humor, arrisco-me até a ser criticada. “Coisa mais babaca, o cenário global marcado pela intensificação de conflitos armados e tensões geopolíticas, profundos desencontros promovidos pelas grandes potências económicas e ela a querer falar de encontro.” Ah, somos livres. Cada um fala o que quiser.
Tenho observado que enfatizamos muito mais o negativo que o positivo. “Tudo deu errado hoje”, dizemos. Ora, se tudo tivesse dado errado nem estaríamos a dizê-lo. Costumamos exagerar na dose, falar coisas sobre as quais nem pensamos. O marido, por exemplo, chega em casa bufando e diz: “Hoje, eu pisei em rastro de corno” e a mulher resmunga entre os dentes: “não paras, ficas pra dentro e pra fora. Acalma-te!” Ainda bem que o sujeito raivoso não percebe a sutileza.
E se a gente experimentasse pensar no que deu certo? “Hoje, tudo deu certo.” Esse tudo não é ganhar na loteria quando nem jogaste. Refiro-me a coisas simples, quotidianas. Pequenas experiências de gente comum, como eu, que facilmente é encontrada na fila do pão.
Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?
Tanto eu quanto os meus interlocutores podemos reagir de modos diferentes em situações idênticas. Influenciamo-nos reciprocamente. Outro dia, liguei para uma funcionária pública muito simpática – não é a regra –, que fez um tutorial para me ajudar na solicitação de um benefício importante. A conversa ocorreu com tanta leveza que, quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.
O que podia ter sido um choque, foi motivo de muitas gargalhadas, uma vez que eu resolvi explorar o tema com sarcasmo.
– Posso solicitar antecipadamente?
– Só os meus filhos podem receber? Então, sou obrigada a morrer ao lado deles. Do contrário, eles vão receber a defunta e a conta, sem direito a ressarcimento. Que coisa mais inconveniente!
Quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.
Todos os anos, desde a reforma, tenho de apresentar prova de vida para continuar recebendo o meu salário. É exigida uma biometria facial, a ser feita através de um aplicativo do governo, em ambiente iluminado, com fundo branco, sem óculos, sem chapéu, seguindo comandos de não piscar, não sorrir, não fazer careta, etc. Em sã consciência, nenhum trabalhador reformado deixa de cumprir essa exigência. Anualmente, todo mês do aniversário a nossa primeira obrigação é posar para o aplicativo que assegura o pagamento do salário. Ora, quem não apresenta prova de vida não já está a provar a morte? Não bastaria um atestado de óbito fornecido por fonte idônea, para que os responsáveis pelo morto recebessem o tal auxilio-funeral? Talvez, com exagero, uma fotografia do morto segurando uma plaquinha indicativa do evento fosse suficiente. No meu caso: “Por falta de opção, morri.”
Convenhamos, a funcionária era muito bem-humorada. Do contrário não dava para manter esse clima. O que era apenas um pedido de informação tornou-se uma boa e divertida conversa, ao ponto de ela me perguntar se eu era feliz. Respondi-lhe que sou alegre, amo a vida e isso já me basta. Tenho muitas questões sobre o que chamam de felicidade, mas malgrado o tom assumido, não era a hora e nem lugar para filosofar. Importa destacar, aqui e agora, que ficamos ambas satisfeitas e o modo como transcorreu o encontro me estimulou a ir pessoalmente à repartição. Eu sabia, de antemão, que se surgissem empecilhos – sempre surgem – com as outras pessoas a quem eu devia me reportar, estava pronta para relevar, não tomar nenhuma negativa como pessoal.
Na repartição, em meio à conversa com a pessoa que me fez o atendimento presencial, num determinado momento ela quis dizer “a depender da demanda”, mas disse “a depender da demência”. Num dia ruim, eu podia interpretar aquele equívoco com desconfiança. Estaria ela me chamando de demente? Mesmo que estivesse, eu não seria atingida, novamente gargalhei. Não perdi a oportunidade de falar dos meus frequentes esquecimentos e de declarar que a internet me dá surtos de demência. Coitada, ficou meio envergonhada. Não sabia explicar porque demanda virou demência, mas eu não estava nem um pouco preocupada com isso. Queria tão somente resolver o meu problema sem estresse.
Em conformidade com a via-sacra comum aos serviços públicos, fui encaminhada a um rapaz, que analisou a minha situação e quando estava prestes a me encaminhar ao próximo balcão, mudou de ideia e cumpriu sozinho as próximas estações. Dir-se-ia que da segunda queda de Jesus até a Ressurreição resolveu tudo, pôs-se disponível para outras necessidades e ainda fez valiosas sugestões de como é possível sobreviver à burocracia.
Como já ninguém faz nada para mim pelos meus belos olhos, quero crer que aquela corrente de bom humor, fomentada pelo meu primeiro contacto, salvou-me o dia. A essa altura, pensei que seria justo procurar a moça com quem eu falara por telefone. Sabia o nome dela, era possível encontrá-la. Bati à porta que me informaram ser a sua sala e entrei dizendo: “Vim te dar um abraço.” A satisfação iluminou-lhe o rosto e nos abraçamos como se fôssemos amigas. Voltei para casa de bem com a vida. Por tão pouco – acho que posso dizer – salvamos ambas o nosso dia.
Se eu me senti feliz? Não exageremos. Eu não acredito em felicidade, embora defenda que ninguém deve desistir de ser feliz. Por favor, não exijam de mim coerência. Eu também não acredito em Deus, mas, às vezes, tenho medo dele.
A Associação Cultural e Artística ArtMatriz lança a edição de 2026 do MostrART, dedicada ao tema “O Preço de Viver”, um convite à reflexão artística sobre uma das realidades mais marcantes da sociedade atual.
Num tempo em que viver se tornou cada vez mais caro, esta edição do mostrART convida artistas a refletir sobre o verdadeiro custo da vida na sociedade contemporânea.
Desde a sua criação em 2013, o mostrART tem sido um espaço de reexão e expressão artística, reunindo artistas de todo o mundo numa exposição de ilustração, fotograa e arte digital. Organizado pela Associação Cultural e Artística Artmatriz, o evento tem abordado, ao longo dos anos, temas de grande relevância social,promovendo o debate através da arte.
Das primeiras edições, que exploraram diversas linguagens artísticas, à sua consolidação, enquantoplataforma para discutir temas urgentes, o mostrART tem sido um palco de sensibilização e transformação.
O Preço de Viver
A Associação Cultural e Artística ArtMatriz lança a edição de 2026 do MostrART, dedicada ao tema “O Preço de Viver”, um convite à reexão artística sobre uma das realidades mais marcantes da sociedade atual. Num tempo em que viver se tornou cada vez mais caro, esta edição do mostrART convida artistas a reetir sobre o verdadeiro custo da vida na sociedade contemporânea.
O aumento do custo de vida, a diculdade no acesso à habitação, a precariedade laboral e a instabilidade económica transformaram profundamente a forma como as pessoas planeiam o futuro, tomam decisões e constroem os seus projetos de vida. Para muitos, o quotidiano é marcado por escolhas condicionadas, adiamentos, renúncias e pela incerteza permanente.
Mais do que números, estatísticas ou indicadores económicos, “O Preço de Viver” procura dar visibilidade ao impacto humano desta realidade. Que custos invisíveis carregamos? O que se perde quando viver exige cada vez mais esforço? Que sonhos são adiados, que percursos são interrompidos, que desigualdades se aprofundam? A exposição propõe uma reexão artística sobre temas como:
Habitação e direito à cidade Precariedade e instabilidade laboral Desigualdade social e económica Mobilidade forçada e deslocação Endividamento e dependência financeira Saúde mental e pressão económica Tempo, trabalho e qualidade de vida Expectativas, frustração e futuro
Num mundo onde quase tudo parece ter um preço, esta edição questiona também aquilo que não pode ser quanticado: o tempo, o bem-estar, a segurança, a dignidade, o sentido de pertença e a possibilidade de imaginar o futuro.
“O Preço de Viver” convida artistas a explorar, de forma crítica, poética ou experimental, as tensões entre valor económico e valor humano, revelando as histórias, experiências e emoções que existem para além dos dados. Porque viver não deveria ser um luxo.
Informações gerais: Participação aberta a artistas de todas as idades e nacionalidades Submissão de um máximo de 3 trabalhos por participante Formato digital para seleção
Submissões Envio para: multitudo.net@gmail.com Data limite: 30 de Junho de 2026 MostrART – A arte como espaço de reflexão e consciência. Associação Cultural e Artística Artmatriz
Desde rabos de lagostim a ervilhas enlatadas (ou mesmo couves meio apodrecidas), tudo se come, desde que bem ensopado em maionese!
Da solarenga ilha espanhola de Minorca até ao severo clima de Moscovo, a maionese conquistou um lugar próprio na história da culinária, incorporada em vários pratos, hoje tradicionais e imprescindíveis nos dias festivos.
É hoje impensável as mesas de fim de ano russas não incluírem pratos carregados de maionese, como a famosa Salada Olivier ou Arenque em Casaco de Peles ou celebrar o Dia da Mulher sem uma Mimosa (não, não é a bebida), embora a maionese fosse totalmente desconhecida até meados do século XIX.
A maionese, através da Salada Olivier, conquistou o coração, o estômago e as mesas dos Russos, ganhando lugar na história da sua culinária. A sua evolução mistura guerras, luxo gastronómico, condições climáticas, escassez alimentar e ideologia política, acabando a receita por ser simplificada ao longo dos tempos e tornar-se no verdadeiro clássico imortal conhecido mundialmente como a salada russa, exceto na Rússia, onde nem era uma salada e pouco tinha de russa.
Uma das possíveis origens da maionese, sem dúvida a versão mais emocionante, remonta ao século XVIII, durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763) quando o rei francês Luís XVI ordenou ao seu general, o Duque de Richelieu, que conquistasse a ilha de Minorca aos ingleses. A primeira cidade a cair foi Mahón, nas Baleares. Para celebrar a vitória, o cozinheiro do duque teve de improvisar um banquete com poucos ingredientes disponíveis em tempo de guerra. Sem natas para preparar o molho que pretendia, decidiu misturar azeite, ovos e sal, criando um molho cremoso que agradou a todos os presentes. Em homenagem à cidade conquistada, o molho passou a chamar-se mahonaise, origem provável da atual maionese. Há, no entanto, relatos de um molho semelhante que já existia no Mediterrâneo, numa preparação de alho e azeite, conhecida como allioli (ou aioli), que era usada desde a Antiguidade. Em todo o caso, expediente criativo do chefe de serviço ou sugestão de algum menorquino, o molho então conseguido foi um tremendo sucesso.
Sem natas para preparar o molho que pretendia, o cozinheiro decidiu misturar azeite, ovos e sal, criando um molho cremoso que agradou a todos os presentes. Em homenagem à cidade conquistada, o molho passou a chamar-se mahonaise.
Na década de 1860, um elegante prato gourmet chamado “Maionese de Caça Brava” era apresentado com pompa e circunstância às elites moscovitas de então. Numa época em que a cena gastronómica de Moscovo começava a evoluir de simples tabernas para restaurantes de inspiração europeia, Lucien Olivier, emigrante franco-belga, fundava o sofisticado restaurante Hermitage, de atmosfera requintada e pioneiro de uma cozinha de alta gama que utilizava ingredientes gourmet e exóticas influências francesa e internacional e rapidamente se tornou no ponto de encontro da moda entre oligarcas e as elites da cidade.
O prato sensação que lhe traria fama, a tal “Maionese de Caça Brava”, era servido como entrada, não como salada. Os longos e duros invernos russos não favoreciam grande variedade de hortícolas frescos na maior parte do ano, não havendo propriamente nessa altura registo de receitas de saladas como hoje as entendemos – verduras misturadas, com ou sem extras, temperadas com um molho – na tradição gastronómica russa.
Era uma elaborada preparação com ingredientes de luxo dispostos em camadas; numa base de cubos meticulosos de batata, alcaparras, azeitonas e pepinos em conserva, dispunham-se opulentos rabos de lagostim, pedaços de tetraz (ave rara, da família das perdizes), e aspic (geleia feita a partir de caldo de ossos). Consoante a época do ano, podia levar caviar, língua de vitela ou peito de pato fumado. Levava ainda molho Cabul (à base de soja fermentada) e era por fim regada com a verdadeira estrela da composição culinária de Olivier: a maionese! Foi amor à primeira garfada! Tanto, que os comensais acabavam sempre por desconstruir a elegante e opulenta pirâmide, misturando tudo numa amálgama indiscernível no prato. Olivier, atento, adaptou a apresentação e passou a servir o prato já misturado, transformando-o numa verdadeira salada. Assim nasceu a Salada Olivier, que rapidamente se tornou um símbolo da alta gastronomia da Rússia czarista.
As condições climáticas e as baixas temperaturas russas resolviam também as dificuldades técnicas da preparação da emulsão, que aí estabilizava facilmente.
Após a morte de Lucien Olivier, em 1883, e com o encerramento do restaurante Hermitage em 1917 durante a revolução soviética, a receita começou a transformar-se. Um dos aprendizes do chef, Ivanov, terá recriado o prato chamando-lhe Salada Stolichny (ou Stolichnaya), popularizando-a em estabelecimentos bem menos elitistas. Na sua versão, elementos luxuosos como tetraz e lagostim foram substituídos por sucedâneos bem mais adequados à nova realidade socioeconómica de escassez alimentar: frango ou salsicha e cenoura. À medida que a salada se tornava mais conhecida e popular, a receita continuou a simplificar-se e ingredientes como alcaparras foram trocados pela nova e essencial contribuição russa que se tornaria típica da versão soviética: as ervilhas enlatadas.
Nesse período, o Estado soviético apostava fortemente na produção de alimentos enlatados, fruto do processo de industrialização acelerada inicial e da reorganização da sociedade após a Segunda Guerra Mundial. Estes produtos podiam ser armazenados durante anos e transportados facilmente pelo vasto território do país, permitindo paralelamente ao governo controlar a distribuição de alimentos.
A comida tornava-se politizada e pensada para alimentar as massas e as receitas eram padronizadas e distribuídas por toda a União Soviética, garantindo que a comida fosse semelhante em qualquer região do país.
Em tempos de fome e escassez alimentar, a maionese sempre servia como bomba de sabor e muitas vezes para mascarar estados de conservação já ultrapassados dos ingredientes disponíveis, desempenhando com orgulho o papel de elemento festivo, acompanhada por um bom shot de vodka, quer fosse nas trincheiras, nos campos ou nas empobrecidas casas da classe operária das cidades.
Esse contexto ajuda a consolidar a forma moderna da Salada Olivier. Ingredientes duradouros e facilmente distribuídos tornaram-se a base do prato. E a maionese, rica em calorias e com boa durabilidade, é também ideal para enriquecer com gorduras, proteínas e sabor refeições simples.
Hoje continua tão popular como sempre, planetária como nunca, e com o seu nostálgico charme kitsch, continua a ser recriada na Rússia e no mundo em homenagem à tradição ou com adições inesperadas, dando asas à imaginação.
Salada Russa à Portuguesa
Ingredientes:
Para a salada:
2 batatas cozidas
1 cenoura cozida
1 ovo cozido
100 g ervilhas enlatadas
1 lata de atum
Sal e pimenta
Para a maionese:
100 ml de óleo vegetal
1 ovo
1 colher de sopa de sumo de limão
1 colher de chá de mostarda
Sal e pimenta
Corte as batatas, a cenoura e o ovo em pedaços iguais e coloque num recipiente. Adicione as ervilhas e o atum desfiado.
Agora, é a altura de dar asas à sua imaginação, o limite é a despensa: junte azeitonas, alcaparras, feijão verde, pepino fresco ou em conserva, pickles, cubos de beterraba, ervas frescas, rabos de lagostim, salmão fumado, caviar, o que quer que tenha à mão e prossiga;
Prepare a maionese: Coloque o ovo, o limão, a mostarda e uma pitada de sal e pimenta no copo da misturadora.
Bata esta mistura com a varinha mágica numa velocidade média e vá adicionando aos poucos o óleo, sem levantar a varinha do fundo do copo, até obter uma consistência cremosa.
Acrescente a maionese à mistura da salada e leve ao frio antes de servir.
“Agentes de IA não ‘querem’ nada. Eles apenas executam comportamentos compatíveis com aquilo que foram treinados ou programados para fazer.” O problema está na definição do que devem fazer, que é uma decisão humana e pode ser muito perversa.
Na sua monumental obra sobre O conceito de tecnologia, concluída em 1973 mas apenas publicada em 2005, o filósofo Álvaro Vieira Pinto assinala o traço “monotonamente repetido” que marca o comportamento humano diante de inovações que abalam o mundo tal como o conhecemos e conduzem a incertezas que levam a reações contraditórias, ora apocalípticas, ora eufóricas. Alerta para a recorrente manobra de inversão ideológica que apresenta os aparelhos tecnológicos como agentes transformadores e, na esteira de Marx, argumenta que o que ocorre é o contrário: são as relações sociais que projetam esses aparelhos, através dos quais os humanos podem construir a sua liberdade ou impor a dominação, a exploração e a opressão a outros humanos. O capitalismo opera nessa permanente contradição, ao estimular as forças produtivas capazes de libertar o ser humano do reino da necessidade, ao mesmo tempo que lhe tolhe essa possibilidade ao conformá-lo a um sistema explorador.
Vieira Pinto escreveu no auge da excitação provocada pela cibernética, quando proliferaram predições sobre a disseminação do uso dos computadores, que nos transformariam em robôs e exterminariam a “essência humana” ou, pelo contrário, inaugurariam um novo e promissor tempo de libertação para a humanidade. Escreveu em contracorrente, demonstrando que a oposição homem x máquina não fazia sentido porque não há técnica ou tecnologia que não derive do engenho humano.
No entanto, continua a prevalecer o traço “monotonamente repetido”, agora diante do avassalador desenvolvimento da chamada inteligência artificial generativa, que volta a acionar velhos fantasmas. O acontecimento mais recente nesse sentido foi o lançamento do Moltbook, no final de janeiro, anunciado como “a rede social onde humanos não entram”. Seria o começo da materialização do temor reiteradamente cultivado desde a revolução industrial, no século XIX, e que gerou inúmeras obras de ficção científica: a subjugação dos seres humanos pelas máquinas, a criatura voltando-se contra o criador e agora, finalmente, capaz de exterminá-lo de verdade.
As redes sociais entraram em polvorosa, e muitos jornais as seguiram acriticamente, ajudando a disseminar o pânico. Outros, juntamente com alguns influenciadores críticos, procuraram esclarecer do que se tratava. No site theconversation.com/br, o investigador Alberto Sardinha publicou um artigo que desfazia o alarmismo:
“O que está sendo apresentado como algo quase futurista faz parte, na verdade, de uma linha de pesquisa bastante consolidada na ciência da computação. Ambientes em que Inteligências Artificiais interagem existem há décadas na pesquisa científica e não significam consciência, intenção ou vida social artificial. São usados, por exemplo, para estudar (e aprimorar) questões que envolvem cooperação, falhas de comunicação e coordenação entre sistemas automatizados.”
São, naturalmente, projetados por humanos. São “autônomos” apenas no sentido de que podem “selecionar qual ação executar em cada etapa, sem a intervenção direta humana”. Em suma, “agentes de IA não ‘querem’ nada. Eles apenas executam comportamentos compatíveis com aquilo que foram treinados ou programados para fazer”.
Os robôs são os instrumentos, cada vez mais sofisticados, de perversas decisões humanas.
O problema estaria, portanto, na definição do que devem fazer, que é uma decisão humana, e pode ser muito perversa.
É o que estamos vendo no uso militar da IA, seja na caça do ICE a imigrantes nos Estados Unidos e na repressão a manifestações de protesto contra essa violência, seja no massacre de Gaza, no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro ou no ataque ao Irão: a seleção de alvos através do cruzamento automatizado de dados e de classificações probabilísticas. Armas “autônomas” são programadas por humanos, não deveria haver muita dúvida quanto a isso. A recente decisão do presidente Trump de banir a Anthropic por sua recusa em permitir que seu modelo de IA fosse utilizado nesse tipo de artefatos e ações letais sem supervisão humana indica uma escalada da atual política de extermínio conduzida pelo governo norte-americano em aliança com Israel. Os robôs são os instrumentos, cada vez mais sofisticados, de perversas decisões humanas.
Dos socialistas utópicos, como Saint-Simon, Fourier ou Robert Owen ao “cartismo” da classe trabalhadora britânica, a classe trabalhadora percorreu no século XIX um longo caminho em busca de construir uma representação política própria.
A Revolução Francesa concluíra com a derrota da sua ala esquerda (os jacobinos), mas estes tiveram os seus herdeiros radicais, a “Conspiração dos Iguais” de 1796. Essa fração propôs um programa de propriedade comunal, para aprofundar a revolução, uma espécie de socialismo agrário. Os trabalhadores consideravam-se parte das camadas populares da nação, a sua privação de direitos só podia ser eliminada exigindo para todos os cidadãos o mesmo direito de determinar a atividade do poder político, de modo que não se abusasse do Estado em proveito de uns poucos. Reclamaram para si próprios os direitos de liberdade correspondentes ao direito natural. Na prática, porém, foram além desse patamar. A consciência de classe dos trabalhadores, certamente, ainda não existia claramente em 1789: fora da Grã-Bretanha e da França, era quase totalmente inexistente. A expressão “classe trabalhadora” apareceu nos escritos dos trabalhistas ingleses logo após 1815. Nem todos os cidadãos eram trabalhadores, mas todos os trabalhadores conscientes pertenciam a esse movimento, as consciências “jacobina” e proletária complementavam-se.
A experiência da classe operária dava aos pobres as instituições para a sua defesa diária, o sindicato e a sociedade de auxílio mútuo, e as armas para a luta coletiva, a solidariedade e a greve (que implicava organização e disciplina). O complemento do sindicato era a greve geral, concebida como uma arma central da classe trabalhadora. O termo “socialismo”, por sua vez, surgiu na década de 1820, sendo adotado pelos trabalhadores em França: o termo foi usado por Henri Leroux, em 1831, na década em que a “questão social” passou para primeiro plano da cena francesa, e em escala bem maior pelos britânicos. Por volta do início da década de 1830 já existiam, portanto, a consciência de classe proletária e as suas próprias aspirações sociais, embora mais fracas e menos consolidadas do que a consciência de “classe média” (situada entre a aristocracia e a população pobre) que os seus patrões já possuíam. Em meados do século XIX, já era visível a expressão da nova classe trabalhadora no movimento operário; o movimento democrático, por sua vez, era a expressão prática do povo comum, proletário ou não, que a Revolução Francesa tinha colocado no palco da história como ator e não como simples vítima, um ator à procura de respeito, reconhecimento e igualdade.
Os primeiros representantes da escola socialista foram, nas palavras de Engels,
“os três grandes utópicos: Saint-Simon, em quem ainda se manifestava a tendência burguesa, juntamente com a tendência proletária, Fourier e Owen, que expôs de forma sistemática, no país onde a produção capitalista estava mais desenvolvida (Inglaterra), uma série de medidas que visavam a abolição das diferenças de classe. O traço comum entre os três estava no facto de não agirem como representantes dos interesses do proletariado que, entretanto, já havia surgido como classe social. Não se propõem emancipar primeiramente determinada classe, mas sim, de uma só vez, a humanidade toda”.
Charles Fourier constituiu uma sociedade que chegou a ter, em 1848, quase quatro mil adeptos, publicando o jornal A Democracia Pacífica. A partir de 1822, empreendeu a construção de comunidades (falanges), que associadas constituíam o falanstério. Neste, de 1600 a 1800 pessoas trabalhavam em regime comunitário, dedicadas igualmente à agricultura e à indústria, que deviam desenvolver-se harmoniosamente, evitando também o embrutecimento produzido nos homens pela realização de um só tipo de trabalho. Os falanstérios, construídos em França e nos EUA, fracassaram (devido justamente à concorrência das empresas capitalistas). Alguns discípulos de Fourier, como Victor Considérant (1808-1893), convergiram com o nascente movimento operário. Considérant bateu-se, ao lado dos operários, nas barricadas do faubourg (bairro) de Saint-Antoine, em junho de 1848. Já tinha compreendido, pela sua própria experiência, que era inútil fazer apelo à generosidade dos ricos e dos mecenas para melhorar a sorte do proletariado.
Para Engels, “o socialismo e comunismo crítico-utópico fracassou necessariamente não só por causa do estado embrionário do próprio proletariado, como também devido à ausência das condições materiais da sua emancipação, condições que apenas surgem como produto da época burguesa”. Para diferenciar-se do socialismo paternalista ou filantrópico dos intelectuais burgueses, as doutrinas que apregoavam a auto emancipação da classe operária passaram a se identificar no comunismo. O desenvolvimento da classe operária criou as bases sociais para a superação do socialismo semifilantrôpico, tanto na França como na Inglaterra:
“Se os utópicos foram utópicos é porque, numa época em que a produção capitalista estava ainda tão pouco desenvolvida, não podiam ser outra coisa. Se foram obrigados a tirar das suas próprias cabeças os elementos de uma nova sociedade, é porque, de uma maneira geral, estes elementos não eram ainda bem visíveis na velha sociedade; limitaram-se a apelar para a razão para lançar as fundações do seu novo edifício, porque não podiam, ainda, fazer apelo à história contemporânea.”
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Se Saint-Simon e Fourier haviam “tirado da cabeça” o seu sistema socialista, foi, ao contrário, pela via da prática que Robert Owen (1771-1858), no país da indústria mais desenvolvida, elaborou o seu próprio sistema socialista. Ele fora fortemente influenciado por Jean-Jacques Rousseau e pela filosofia das luzes e acreditava na possibilidade de educar o homem (sem distinção de classes). A sua grande ideia era a de tornar o mundo racional, e racional significava moral. Mas foi essencialmente devido à sua posição de diretor de uma fábrica, através do contacto com a prática, que veio a elaborar o seu socialismo. Na sua empresa, em New Lanark (Escócia), Owen, que nascera num lar operário, reduziu a jornada de trabalho de 16 para 10 horas diárias. Não aceitou o trabalho de crianças menores de dez anos, e criou para elas creches e escolas gratuitas e laicas. Manteve a higiene da fábrica, combateu o alcoolismo e criou casas de repouso para a doença e a velhice. Conseguiu fazer isso sem que diminuísse a produtividade da empresa. Mas apesar deste exemplo, os capitalistas viram nele um perigo, vindo a ser duramente criticado no Parlamento entre 1817 e 1820, e também perseguido, o que o obrigou ao exílio. Nos EUA tentou fundar, sem sucesso, colónias socialistas. De volta a Inglaterra, Robert Owen criou a National Equitable Labour Exchange, onde produtos fabricados pelos trabalhadores eram trocados por outros que tivessem custado o mesmo tempo de trabalho.
O sistema fracassou (porque muitos trabalhadores “inflacionavam” o trabalho realmente feito, e porque os produtos artesanais passaram a concorrer em desvantagem com os industriais), mas a National Equitable foi o antecedente organizativo da primeira central sindical inglesa. Robert Owen passou então a trabalhar nos sindicatos, chegando a propor, num congresso que presidiu em 1838, a greve geral e a luta de classes. Owen morreu como militante socialista da classe operária. Devido a isso, muitos dos seus discípulos “filantrópicos” abandonaram-no, criticando o seu “radicalismo”. A grande viragem da organização operária deu-se em finais da década de 1830, em Inglaterra, com a organização da Carta do Povo (People’s Charter). Em 16 de junho de 1836, constitui-se a London Working Men’s Association, que conquistaria apoio nacional no ano seguinte, em torno da ideia de uma petição ao Parlamento em favor da reforma política (sufrágio universal masculino). A estratégia utilizada pelos cartistas girava em torno da recolha de assinaturas, que era realizada nas oficinas, nas fábricas e em reuniões públicas, através de uma série de petições nacionais, enviadas à Câmara dos Comuns. Ativistas operários radicais como Harney e O’Connor, influenciados diretamente pelos exilados comunistas alemães, não foram inicialmente aceites na sociedade, e iniciaram uma campanha independente.
A reforma [de 1832] satisfazia os interesses da burguesia, que ganhava espaço político, mas não o operariado, pois sobrevivia o voto censitário (ligado à propriedade), que excluía quase toda a classe operária do exercício dos direitos políticos.
A reforma eleitoral de 1832 (Reform Act), arrancada pela burguesia industrial à monarquia, aumentara o colégio eleitoral inglês de 400 mil para 800 mil membros; o Parlamento aprovou também a reforma que suprimia as “cidades mortas” (pequenas cidades controladas pela nobreza), baixava o censo eleitoral e aumentava o número de deputados. A reforma satisfazia os interesses da burguesia, que ganhava espaço político, mas não o operariado, pois sobrevivia o voto censitário (ligado à propriedade), que excluía quase toda a classe operária do exercício dos direitos políticos. A Carta nasceu da crescente organização operária na Inglaterra. Havia mais organização entre os trabalhadores especializados, como os penteadores e cardadores de lã. Inicialmente, eles colaboravam para pagar o enterro de associados; a associação passou a ter depois caráter reivindicativo. O processo de organização acelerou e também se tornou mais denso. Em 1836 os operários condenados na Inglaterra em revoltas anteriores foram indultados, e começaram a regressar ao país. Nesse clima, a Carta foi proclamada e organizada nacionalmente em 1838, propondo o voto universal e secreto (através de cédula), a abolição da qualificação censitária para exercê-lo (voto por nível de rendimento), o pagamento aos membros do Parlamento (permitindo a entrada nele de trabalhadores), a nivelação dos distritos eleitorais, a eleição anual dos parlamentos (permitindo assim um controle mais efetivo, e a revogabilidade dos representantes parlamentares).
O movimento cartista não formulou um programa político a partir de um conjunto de ideias socialistas, como se fazia já em França, mas a partir das ideias dos reformadores parlamentares radicais. Os seis pontos da Carta estavam baseados no programa que a “Comissão da Reforma” em Westminster tinha esboçado 58 anos antes. As reivindicações de luta pela liberdade já faziam parte da cultura dos artesãos e trabalhadores radicais antes mesmo da formação de sua consciência como uma classe trabalhadora independente. A composição do cartismo era heterogénea, com líderes radicais como William Lovett, em Londres, e Thomas Attwood, em Birmingham; moderados, como Richard Oastler, ou socialistas jacobinos como Julian Harney e James Bronterre O´Brien. O cartismo possibilitou, em escala histórica, um novo estágio do desenvolvimento do movimento operário, o da passagem das sociedades secretas para as sociedades operárias de massas. Isto teve o seu epicentro em Inglaterra, onde o desenvolvimento industrial era mais avançado e a atividade da classe operária mais aberta. A Convenção Nacional das Classes Operárias da Grã-Bretanha, o “parlamento operário” convocado no início de 1839 pelos cartistas, discutiu publicamente a organização da greve geral como meio de conquista do poder político.
No seio da Associação de Operários Alemães de Inglaterra enfrentaram-se as duas concepções, pois um dos seus membros mais influentes, Wilhelm Weitling (chefe espiritual da Liga dos Justos, organização de operários comunistas, que não tardou em ser afastado da Associação) admitia apenas uma forma de propaganda, a das sociedades clandestinas de conspiradores, enquanto Karl Marx exigia que se pusesse fim à propaganda secreta e se transformassem as limitadas agitações subterrâneas num vasto movimento de massas. A preferência por sociedades secretas tinha sido favorecida pela repressão social e política reinante na fase precedente: Por causa do Congresso de Viena houve um florescimento de sociedades secretas, que minavam o solo da vida política e social do continente europeu. Em França, as associações blanquistas eram uma forma de ‘carbonarismo’. A Liga dos Justos surgiu da Liga dos Proscritos. Estes eram intelectuais emigrados de diversas nações. Alguns artesãos que haviam ingressado nessa Ligue des Bannis acabaram por separar-se dos intelectuais e formar a Liga dos Justos. Composta quase exclusivamente por operários, logo se tornou socialista, tendência que se desenvolveu por completo com o golpe de força ensaiado pelos blanquistas em 1839, no qual tomaram parte alguns membros da Liga. Enquanto a antiga desconfiança em relação aos intelectuais começava a desaparecer entre os operários e o proletariado ia buscar as suas armas intelectuais à filosofia, os filósofos descobriam nos operários, nesses “bárbaros” da sociedade civilizada, o “elemento prático da emancipação do homem”. Depois da rebelião dos tecelões da Silésia, em junho de 1844, Karl Marx declarava, no Vorwärts, que a Alemanha não podia “encontrar o elemento ativo da sua libertação senão no proletariado”: A fusão da ideia, da força material de classe e da organização revolucionária pavimentava o seu caminho.
Continuará hoje, dentro das atuais condições laborais e organizacionais da escola, a fazer sentido a ambição de o professor ser um intelectual transformador, que combina reflexão sobre o propósito da educação e da ação na transformação da realidade?
A educação pública portuguesa tem percorrido um caminho moroso sem que tenha cumprido o imperativo ético da mitigação das desigualdades. Com promessas de pontes, túneis e atalhos, as sucessivas políticas abriram becos e fecharam trilhos, mantendo o percurso sinuoso e entrelaçado do peso do determinismo social.
A procura de uma saída não pode continuar a fazer-se de fora; tem de ser assumida por dentro, e o desafio reside na força coletiva dos professores. Considerando-os “guardiões da civilização e da cultura”, Bertrand Russell defendeu que “o sentimento de independência intelectual é essencial ao adequado preenchimento das funções de professor”, contrariamente ao statu quo imperante de “incutir crenças e pressupostos cuja utilidade é estabelecida por aqueles que lhe dão emprego”.
Ora, o panorama atual é dominado por uma cultura de prestação de contas, por um sistema que se rege pelos resultados e – não nos enganemos, não decidimos nada, quem decide é o mercado – por uma pedagogia produtivista. Emoldurada pela competição, a escola atual está muito longínqua da escola cidadã de Carlos Estêvão.
Nesta cadeia, como alerta José A. Pacheco, o professor surge como “um mero funcionário do ato pedagógico”, cuja atividade se subordina aos resultados da avaliação sumativa externa. Impedido de se direcionar para resolver os problemas que gostaria de resolver, permanece num impasse duplo e simultâneo: sentir-se bem e mal na profissão. No que diz respeito à prática profissional, o discurso dos docentes é dominado por uma preocupação com o total cumprimento da planificação, numa espécie de pêndulo compassado pelo tempo que decorre desde o início do ano letivo até à realização do exame final. O sentimento de urgência é transversal: não existe disciplina nem nível de ensino que escape. Mais: nas metodologias contrarrelógio admite-se circunscrever a variedade de materiais didáticos ao manual e a algumas plataformas digitais e fazer convergir práticas ao modelo expositivo e uniformizado.
Nas metodologias contrarrelógio admite-se circunscrever a variedade de materiais didáticos ao manual e a algumas plataformas digitais.
A igualização na avaliação dos alunos é garantida com a aplicação rigorosa dos critérios definidos pelo departamento, com vista à estandardização da aplicação das competências como forma de mensuração do conhecimento, espartilhado em domínios.
Mergulhados numa letargia produzida por um cansaço burocrático extremo e pela subserviência a um modelo de gestão escolar que os subalterniza, os professores adotam um silêncio inconsciente, cujas raízes provêm ou de conformismo ou de um medo instalado, que gera a interiorização da não-contestação. Ora, a obediência passiva resulta de uma mentalidade tecnicista e submissa, transformada, que nada tem a ver com o trabalho transformador de um intelectual.
O professor contemporâneo assemelha-se, pois, a Sísifo: vê-se compelido, ano após ano, a repetir novos ciclos de preparação para testes padronizados, que incluem provas de ensaio – porque tudo se ensaia; vê-se refém da aplicação de uma avaliação que prima pela diversidade de instrumentos e por múltiplas fontes de evidência (grelhas, rubricas…); vê-se enredado em relatórios (PEI, medidas universais, fichas de referenciação para SPO, CPCJ, taxas de sucesso por turma); vê-se cúmplice do ajustamento das práticas de ensino aos desafios da educação inclusiva (pela falta de recursos humanos) e assiste, impotente, a guetizações (como a composição de turmas apenas com alunos estrangeiros, sob o argumento de lhes garantir PLNM).
É percetível que a ação pedagógica dos professores vai muito para além da sala de aula: resolução de problemas disciplinares, bullying como fruto da violência crescente, como o racismo e a xenofobia, no fundo, o reflexo do agravamento das desigualdades sociais. Abre-se um abismo de pendor ético entre aquilo que, como mais que professores, podemos fazer e aquilo que acreditamos que deveria ser feito.
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Ora, a nova lei propicia o agravamento desta realidade e prepara o cavalo de Tróia que minará, ainda mais, a qualidade do ensino. Se recorremos a uma analogia de proporcionalidade inversa, em que a força da carreira (f) é inversamente proporcional ao grau de precarização do sistema (p), a constante (k) representa o volume de trabalho pedagógico efetivamente realizado na escola, isto é, f = k/p, independentemente do vínculo laboral. Agora, pensemos: a fragmentação dos vínculos de trabalho fragiliza e divide os professores, o que, obviamente, compromete a qualidade do trabalho. A precarização não acaba com a função do trabalho, mas, à semelhança daquilo que em 2009 provocou na carreira dos enfermeiros, torna-o mais difícil e mais fragmentado.
E o que podem ser os p, segundo a Lei 99/2025? Um somatório de algumas matérias de natureza subsidiária com consequências como: desprofissionalização da função de professor marcada pelo recrutamento que está em marcha; subserviência ampliada pelos modelos de gestão e de avaliação, com comissões de serviço e avaliação por prémios; a reafetação do pessoal, com fim de QA (Quadros de Agrupamento) e QZP (Quadros de Zona pedagógica) e introdução de mapas de pessoal e a imprevisibilidade do horário de trabalho e da passagem à Tabela Remuneratória Única (TRU).
Com este cenário, como poderá o fio de Ariadne ajudar os professores (Teseu) a sair do labirinto do Minotauro? Talvez se a figura de Ariadne for ancorada em dois pressupostos.
O primeiro, na ideia de Angela Davis de que “é fundamental resistir à representação da história como obra de indivíduos heróicos, para que as pessoas reconheçam a sua capacidade de agir como parte de uma crescente comunidade de resistentes”. Na comunidade escolar, pode produzir um efeito emancipador do valor de cada sujeito e reconstruir o valor coletivo da profissão docente.
O segundo, no resgate proposto por Carlos Fernández Liria – os professores como proprietários da sua função, isto é, como sujeitos intelectuais que definem, em comunidade, o sentido do trabalho pedagógico.
Se foi uma ambição histórico-crítica a ideia do professor como intelectual transformador (que combina reflexão sobre o propósito da educação e da ação na transformação da realidade), a questão que hoje se coloca é se continuará a fazer sentido esta ambição dentro das atuais condições laborais e organizacionais da escola. Talvez o fio de Ariadne proposto não seja uma solução, mas possa apontar uma direção: valor coletivo e autonomia docente.
Apesar da derrota de Montenegro e de Ventura na greve geral e nas eleições presidenciais, a “concertação” em volta do pacote laboral recomeçou. E recomeçou porque Seguro veio em socorro do desacreditado Montenegro exortar centrais sindicais e patronato a regressarem à mesa das “conversações”. Se a resposta dos trabalhadores for fraca, Montenegro e Ventura negociarão umas modificações cosméticas para fazer de conta, e o pacote passará no Parlamento.
O Conselho Nacional da CGTP, reunido a 18 de Março, aprovou uma resolução em que, a abrir, declara, a propósito do pacote laboral, que “A greve geral [foi] momento alto da convergência na luta”. Acrescenta que “os trabalhadores rejeitaram o pacote laboral, exigem a revogação das normas gravosas que já hoje a legislação contém (...). Não aceitam retrocessos, exigem um outro rumo e uma outra política”.
Assim é. Pouco preocupa mais os trabalhadores conscientes do que a possibilidade de o pacote laboral de Montenegro ser aprovado. Não só ele reduz drasticamente os direitos e condições de trabalho, mas, restringindo a liberdade sindical e o direito de greve, restringe gravemente a possibilidade de lutar por melhores salários e direitos no futuro.
Ora, já por algumas vezes o futuro do “pacote laboral” pareceu seriamente comprometido. A primeira foi fruto directo da grande greve geral de Dezembro. O PS já declarara que não votaria o pacote. O caudilho fascista Ventura, que sabe sempre de que lado sopra o vento, declarou então que não o viabilizaria naquela forma, por ele fazer suportar toda a carga aos trabalhadores. Para o governo da AD, minoritário, mesmo com o apoio da IL, a via parlamentar periclitava.
A segunda crise foi logo a seguir à eleição presidencial. As confederações patronais declararam, exasperadas, que, dado a UGT continuar indisposta a recuar das suas “linhas vermelhas” e a exigir a reposição de direitos pré-troika, “nada mais havia a discutir” (a CGTP, que não fora convidada para as “conversações”, protestou por ser excluída).
Apesar disso, a “concertação” recomeçou. E recomeçou porque o Presidente eleito, Seguro, veio em socorro do desacreditado Montenegro exortar centrais sindicais e patronato a regressarem à mesa das “conversações”.
Em resultado de todas estas manobras, mantém-se intacto o perigo para os trabalhadores.
Nós, no Maio, pensamos que os sindicatos servem para negociar e arrancar ao patronato os melhores resultados possíveis para os trabalhadores, na correlação de forças dada. Em contrapartida, discordamos de que os sindicatos participem na “concertação social”, que é política e institucional. “Concertação” não é negociação. É associação ao Estado e às políticas dos governos. Mesmo com governos “de esquerda”, se não romperem com o quadro institucional, essas políticas são sempre condicionadas e determinadas pelo mandamento de defender os interesses dos proprietários dos grandes meios de produção e troca e pelos ditames austeritários de Bruxelas.
Discordamos, portanto, da política de ambas as centrais sindicais de participação no CES, na concertação social e restantes instituições estatais e para-estatais. Nada de bom daí pode vir para os trabalhadores.
Em contrapartida, concordámos plenamente com ambas as centrais quando, face ao pacote laboral apresentado, elas declararam que a única solução que podiam aceitar era a retirada do pacote e não a sua concertação.
E fomos, desde o início, partidários de que as centrais convocassem conjuntamente a greve geral. Quando assim efectivamente aconteceu, verificou-se que os trabalhadores e a juventude aderiram em massa. A greve e a grande manifestação de 11 de Dezembro de 2025 em Lisboa ficou na memória de todos, e atordoou o Governo e o patronato.
A evidência é que a unidade na acção das grandes organizações representativas surte impacto máximo, sem prejuízo das legítimas diferenças de opinião e posições sindicais e políticas de cada um.
Independentemente da “influência” e dos efectivos que cada central reivindique para si, acções convocadas em unidade são um sinal poderoso para todos os trabalhadores: não há divisão; avançar, fazer greve, sair à rua não é perda de tempo e energia, é a via para a vitória.
Assim sendo, é difícil compreender que a longa resolução do Conselho Nacional da CGTP seja omissa em propostas à UGT e aos sindicatos independentes para prepararem em conjunto novas acções e uma nova greve geral, mais dura e longa, se o Governo não recuar. A resolução enumera, como todos os anos, o calendário de acções da CGTP para os meses a vir. Na linha final, menciona: “(...) ampla frente de luta construída, (...) que se desenvolverá com todas as formas de luta que a situação imponha, incluindo a Greve Geral.” Mas sem uma palavra sobre a preparação concreta da greve geral na unidade de todos os trabalhadores e organizações, caso a aprovação do pacote esteja iminente.
Todos sabemos o que acontecerá se o movimento operário e sindical não responder à altura. O movimento protofascista de Ventura é uma criatura do patronato, que este tem em reserva como última instância para pôr os trabalhadores “nos eixos” se nada mais funcionar. Se a resposta operária e sindical for fraca, Montenegro e Ventura negociarão umas modificações cosméticas para fazer de conta, e o pacote passará intacto no Parlamento.
Publicámos há semanas a plataforma unitária elaborada pelas direcções de uma dezena de sindicatos não filiados, que pedia a unidade para preparar nova greve geral, caso necessário. É agora responsabilidade das direcções das duas centrais sindicais pronunciarem-se claramente pela luta unida de todas as organizações sindicais e de trabalhadores para derrotar o pacote laboral.
A educação pública portuguesa tem percorrido um caminho moroso sem que tenha cumprido o imperativo ético da mitigação das desigualdades. Com promessas de pontes, túneis e atalhos, as sucessivas políticas abriram becos e fecharam trilhos, mantendo o percurso sinuoso e entrelaçado do peso do determinismo social.
A procura de uma saída não pode continuar a fazer-se de fora; tem de ser assumida por dentro, e o desafio reside na força coletiva dos professores. Considerando-os “guardiões da civilização e da cultura”, Bertrand Russell defendeu que “o sentimento de independência intelectual é essencial ao adequado preenchimento das funções de professor”, contrariamente ao statu quo imperante de “incutir crenças e pressupostos cuja utilidade é estabelecida por aqueles que lhe dão emprego”.
Ora, o panorama atual é dominado por uma cultura de prestação de contas, por um sistema que se rege pelos resultados e – não nos enganemos, não decidimos nada, quem decide é o mercado – por uma pedagogia produtivista. Emoldurada pela competição, a escola atual está muito longínqua da escola cidadã de Carlos Estêvão.
Nesta cadeia, como alerta José A. Pacheco, o professor surge como “um mero funcionário do ato pedagógico”, cuja atividade se subordina aos resultados da avaliação sumativa externa. Impedido de se direcionar para resolver os problemas que gostaria de resolver, permanece num impasse duplo e simultâneo: sentir-se bem e mal na profissão. No que diz respeito à prática profissional, o discurso dos docentes é dominado por uma preocupação com o total cumprimento da planificação, numa espécie de pêndulo compassado pelo tempo que decorre desde o início do ano letivo até à realização do exame final. O sentimento de urgência é transversal: não existe disciplina nem nível de ensino que escape. Mais: nas metodologias contrarrelógio admite-se circunscrever a variedade de materiais didáticos ao manual e a algumas plataformas digitais e fazer convergir práticas ao modelo expositivo e uniformizado.
Nas metodologias contrarrelógio admite-se circunscrever a variedade de materiais didáticos ao manual e a algumas plataformas digitais.
A igualização na avaliação dos alunos é garantida com a aplicação rigorosa dos critérios definidos pelo departamento, com vista à estandardização da aplicação das competências como forma de mensuração do conhecimento, espartilhado em domínios.
Mergulhados numa letargia produzida por um cansaço burocrático extremo e pela subserviência a um modelo de gestão escolar que os subalterniza, os professores adotam um silêncio inconsciente, cujas raízes provêm ou de conformismo ou de um medo instalado, que gera a interiorização da não-contestação. Ora, a obediência passiva resulta de uma mentalidade tecnicista e submissa, transformada, que nada tem a ver com o trabalho transformador de um intelectual.
O professor contemporâneo assemelha-se, pois, a Sísifo: vê-se compelido, ano após ano, a repetir novos ciclos de preparação para testes padronizados, que incluem provas de ensaio – porque tudo se ensaia; vê-se refém da aplicação de uma avaliação que prima pela diversidade de instrumentos e por múltiplas fontes de evidência (grelhas, rubricas…); vê-se enredado em relatórios (PEI, medidas universais, fichas de referenciação para SPO, CPCJ, taxas de sucesso por turma); vê-se cúmplice do ajustamento das práticas de ensino aos desafios da educação inclusiva (pela falta de recursos humanos) e assiste, impotente, a guetizações (como a composição de turmas apenas com alunos estrangeiros, sob o argumento de lhes garantir PLNM).
É percetível que a ação pedagógica dos professores vai muito para além da sala de aula: resolução de problemas disciplinares, bullying como fruto da violência crescente, como o racismo e a xenofobia, no fundo, o reflexo do agravamento das desigualdades sociais. Abre-se um abismo de pendor ético entre aquilo que, como mais que professores, podemos fazer e aquilo que acreditamos que deveria ser feito.
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Ora, a nova lei propicia o agravamento desta realidade e prepara o cavalo de Tróia que minará, ainda mais, a qualidade do ensino. Se recorremos a uma analogia de proporcionalidade inversa, em que a força da carreira (f) é inversamente proporcional ao grau de precarização do sistema (p), a constante (k) representa o volume de trabalho pedagógico efetivamente realizado na escola, isto é, f = k/p, independentemente do vínculo laboral. Agora, pensemos: a fragmentação dos vínculos de trabalho fragiliza e divide os professores, o que, obviamente, compromete a qualidade do trabalho. A precarização não acaba com a função do trabalho, mas, à semelhança daquilo que em 2009 provocou na carreira dos enfermeiros, torna-o mais difícil e mais fragmentado.
E o que podem ser os p, segundo a Lei 99/2025? Um somatório de algumas matérias de natureza subsidiária com consequências como: desprofissionalização da função de professor marcada pelo recrutamento que está em marcha; subserviência ampliada pelos modelos de gestão e de avaliação, com comissões de serviço e avaliação por prémios; a reafetação do pessoal, com fim de QA (Quadros de Agrupamento) e QZP (Quadros de Zona pedagógica) e introdução de mapas de pessoal e a imprevisibilidade do horário de trabalho e da passagem à Tabela Remuneratória Única (TRU).
Com este cenário, como poderá o fio de Ariadne ajudar os professores (Teseu) a sair do labirinto do Minotauro? Talvez se a figura de Ariadne for ancorada em dois pressupostos.
O primeiro, na ideia de Angela Davis de que “é fundamental resistir à representação da história como obra de indivíduos heróicos, para que as pessoas reconheçam a sua capacidade de agir como parte de uma crescente comunidade de resistentes”. Na comunidade escolar, pode produzir um efeito emancipador do valor de cada sujeito e reconstruir o valor coletivo da profissão docente.
O segundo, no resgate proposto por Carlos Fernández Liria – os professores como proprietários da sua função, isto é, como sujeitos intelectuais que definem, em comunidade, o sentido do trabalho pedagógico.
Se foi uma ambição histórico-crítica a ideia do professor como intelectual transformador (que combina reflexão sobre o propósito da educação e da ação na transformação da realidade), a questão que hoje se coloca é se continuará a fazer sentido esta ambição dentro das atuais condições laborais e organizacionais da escola. Talvez o fio de Ariadne proposto não seja uma solução, mas possa apontar uma direção: valor coletivo e autonomia docente.
Segundo o dicionário da Porto Editora, trabalhador e um nome masculino que designa: 1) pessoa que trabalha; 2) pessoa que, mediante salário, põe a sua força de trabalho à disposição de outrem; empregado. Já robô é nome masculino que significa 1) máquina ou aparelho eletromecânico, passível de ser programado informaticamente para executar de forma autónoma determinada(s) tarefa(s), geralmente repetitivas ou perigosas, em substituição do homem; 2) máquina que imita o aspeto e os movimentos de uma pessoa ou de outro ser animado. Deriva do russo robotnik (Рабо́тник), trabalhador.
EM NOVILÍNGUA:
Graças à extrema criatividade da confederação patronal CIP, que tem conduzido o país a dar saltos mais longos que os de Agate de Sousa e Gerson Baldé, o trabalhador português deveria ser um verdadeiro robotnik, ou robô. Armindo Monteiro, presidente da CIP, comentou ao jornal das 13 horas da Antena 1 de 23-3, que seria mais fácil resolver as questões do pacote laboral sem interferências sindicais nem políticas, já que para os sindicatos o trabalhador era “um ativo sindical” e, caso o pacote laboral tivesse de ser decidido na AR e não na “concertação social”, o trabalhador seria encarado como “um ativo político”. Ou seja, isso de o trabalhador ser uma pessoa e não uma máquina só atrapalha. ASP
Ainda não é o fim Nem o princípio do mundo Calma É apenas um pouco tarde
Manuel António Pina, Todas as palavras – poesia reunida (1974-2011).
Porto: Assírio & Alvim, 2012, p. 7
Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.
Cheguei à ilha em 1984. Tinha sete anos e vinha ter com o meu pai que, poucos anos antes, se mudara em trabalho para aqui. Deixei a escola em Almada, ali perto da Incrível, e vim sozinho, com uma mala maior do que eu, feita a meias entre a minha avó e tia.
No meu imaginário de miúdo que via os desenhos animados na RTP, único canal da altura, uma ilha era um banco de areia, com água em redor, dois coqueiros e uma rede pendurada entre eles. Eventualmente com um náufrago ou uma garrafa perdida segurando um pedido de SOS.
Quando aqui aterrei fiquei espantado. O banco de areia era menos tropical do que imaginara. Havia uma “Little America” construída em torno de um aeroporto. Uma pista de aterragem enorme, um cinema para 500 pessoas e um ginásio multifunções. Ambos feitos com madeira. Casas de chapa. Muitas. Outrora ocupadas por militares e agora a abrigar famílias locais ou outras que, como era o caso da minha, estavam deslocadas. Nas traseiras dessa casa havia uma figueira que começou a dar doce, logo que aprendemos o processo de cozedura. Ao lado da casa de chapa havia uma garagem, em madeira, onde o meu pai organizava as ferramentas naqueles quadros com sombras, típicos da era pré-Leroy Merlin. Também era ali que me fazia os trabalhos manuais para a escola, compensando a minha notável falta de habilidade.
Mal se saía da Little America apareciam as casas mais tradicionais. A serra, as baías, as praias de água morna que nunca mais me deixariam entrar no mar da Costa da Caparica com a mesma vontade. 97 km2 era o tamanho do meu banco de areia e por aqui vi, pela primeira vez, uma praia de postal, carros parados com a chave na ignição, chá gelado e manteiga de amendoim. Ah, e maracujás. Nem sabia como comer aquilo na primeira vez que um amigo me deu um a provar.
A ilha é Santa Maria, uma das mais pequenas do arquipélago dos Açores, onde 5000 pessoas resistem ao passar do tempo e fazem do sentimento de comunidade um modo de vida.
Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.
Sempre achei que Santa Maria teria, para mim, aquele peso nostálgico da infância ou do regresso a cada verão. O sítio onde passaria umas temporadas, aqui e ali, quando o mundo enlouquecesse. E sabendo deste porto seguro atirei-me ao caminho sabendo que a porta, esta porta, estaria sempre aberta.
Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.
Nem sei se o caro leitor alguma vez passou por Santa Maria. Se ainda não fez esse exercício, experimente. São apenas duas horas, partindo de Lisboa, em linha reta. Sempre acompanhadas pela simpatia do pessoal da Azores Airlines. É aproveitar antes que a vendam!
A natureza foi generosa em variedade e qualidade com este pequeno pedaço de terra. Por aqui, na primeira ilha do arquipélago a ser descoberta no longínquo século XV, ainda é possível estar numa praia deserta de areia fina, fazer um trilho envolto numa floresta misteriosa, deixar o olhar perder-se por vales verdejantes ou mergulhar num oceano de jamantas e tubarões-baleia.
Tenho a minha parte de mundo percorrido. Sempre foi o meu maior sonho isto de perceber onde vivemos. E talvez por isso, hoje compreendo que já mudei de continente para encontrar praias ou trilhos semelhantes aos que, agora, estão a 1 km da porta de casa.
Pode ser a minha visão romantizada da coisa, acredito; afinal, também foi entre estas 5000 pessoas que encontrei a metade com quem vale a pena envelhecer. Ainda assim, acho que voltaria a sentir o mesmo encanto se hoje aqui aterrasse pela primeira vez. Já não existe a Little America, é verdade, mas no essencial, a beleza, a calma e a paz nunca mudaram de código postal.
Há ainda um pormenor importante para quem, como eu, leva 20 anos de vida de emigrante num país frio, tanto de clima como de ligações humanas. Desde que Santa Maria voltou a fazer parte do meu mapa, a solidão optou por sair.
Nunca se está só numa ilha onde todos nos conhecemos. Nunca. Basta sair de casa e tropeço em alguém conhecido. E mesmo que não tenha a certeza de quem seja o meu interlocutor, pelo sogro, irmã ou profissão chegamos rapidamente a quem nos está a dirigir a palavra. Para muitos um problema, para mim um achado.
Quando o mundo enlouquece, corre por armas ou tenta espezinhar os direitos dos trabalhadores, Santa Maria segue numa rotação diferente. Serena, como sempre. Sem permitir que os desvarios dos Trumps da nossa praça nos mudem os hábitos.
Vive-se sem grandes dificuldades, o salário estica um pouco mais e todos se ajudam de alguma forma. Nem que seja na procura da economia local. As festas misturam as classes, os restaurantes não deixam ninguém de fora. Se a natureza nos enche a vista, o aceno do outro lado da estrada traz a sensação de pertencer a algo. Se precisares de ajuda, alguém saberá de alguém.
Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.
Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?
Parece, mas não copiei de um livro de autoajuda. Não é uma receita extensiva a todos. Não estou dizendo que vai funcionar sempre. Nem comigo e nem contigo. Mas, como estou de bom humor, arrisco-me até a ser criticada. “Coisa mais babaca, o cenário global marcado pela intensificação de conflitos armados e tensões geopolíticas, profundos desencontros promovidos pelas grandes potências económicas e ela a querer falar de encontro.” Ah, somos livres. Cada um fala o que quiser.
Tenho observado que enfatizamos muito mais o negativo que o positivo. “Tudo deu errado hoje”, dizemos. Ora, se tudo tivesse dado errado nem estaríamos a dizê-lo. Costumamos exagerar na dose, falar coisas sobre as quais nem pensamos. O marido, por exemplo, chega em casa bufando e diz: “Hoje, eu pisei em rastro de corno” e a mulher resmunga entre os dentes: “não paras, ficas pra dentro e pra fora. Acalma-te!” Ainda bem que o sujeito raivoso não percebe a sutileza.
E se a gente experimentasse pensar no que deu certo? “Hoje, tudo deu certo.” Esse tudo não é ganhar na loteria quando nem jogaste. Refiro-me a coisas simples, quotidianas. Pequenas experiências de gente comum, como eu, que facilmente é encontrada na fila do pão.
Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?
Tanto eu quanto os meus interlocutores podemos reagir de modos diferentes em situações idênticas. Influenciamo-nos reciprocamente. Outro dia, liguei para uma funcionária pública muito simpática – não é a regra –, que fez um tutorial para me ajudar na solicitação de um benefício importante. A conversa ocorreu com tanta leveza que, quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.
O que podia ter sido um choque, foi motivo de muitas gargalhadas, uma vez que eu resolvi explorar o tema com sarcasmo.
– Posso solicitar antecipadamente?
– Só os meus filhos podem receber? Então, sou obrigada a morrer ao lado deles. Do contrário, eles vão receber a defunta e a conta, sem direito a ressarcimento. Que coisa mais inconveniente!
Quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.
Todos os anos, desde a reforma, tenho de apresentar prova de vida para continuar recebendo o meu salário. É exigida uma biometria facial, a ser feita através de um aplicativo do governo, em ambiente iluminado, com fundo branco, sem óculos, sem chapéu, seguindo comandos de não piscar, não sorrir, não fazer careta, etc. Em sã consciência, nenhum trabalhador reformado deixa de cumprir essa exigência. Anualmente, todo mês do aniversário a nossa primeira obrigação é posar para o aplicativo que assegura o pagamento do salário. Ora, quem não apresenta prova de vida não já está a provar a morte? Não bastaria um atestado de óbito fornecido por fonte idônea, para que os responsáveis pelo morto recebessem o tal auxilio-funeral? Talvez, com exagero, uma fotografia do morto segurando uma plaquinha indicativa do evento fosse suficiente. No meu caso: “Por falta de opção, morri.”
Convenhamos, a funcionária era muito bem-humorada. Do contrário não dava para manter esse clima. O que era apenas um pedido de informação tornou-se uma boa e divertida conversa, ao ponto de ela me perguntar se eu era feliz. Respondi-lhe que sou alegre, amo a vida e isso já me basta. Tenho muitas questões sobre o que chamam de felicidade, mas malgrado o tom assumido, não era a hora e nem lugar para filosofar. Importa destacar, aqui e agora, que ficamos ambas satisfeitas e o modo como transcorreu o encontro me estimulou a ir pessoalmente à repartição. Eu sabia, de antemão, que se surgissem empecilhos – sempre surgem – com as outras pessoas a quem eu devia me reportar, estava pronta para relevar, não tomar nenhuma negativa como pessoal.
Na repartição, em meio à conversa com a pessoa que me fez o atendimento presencial, num determinado momento ela quis dizer “a depender da demanda”, mas disse “a depender da demência”. Num dia ruim, eu podia interpretar aquele equívoco com desconfiança. Estaria ela me chamando de demente? Mesmo que estivesse, eu não seria atingida, novamente gargalhei. Não perdi a oportunidade de falar dos meus frequentes esquecimentos e de declarar que a internet me dá surtos de demência. Coitada, ficou meio envergonhada. Não sabia explicar porque demanda virou demência, mas eu não estava nem um pouco preocupada com isso. Queria tão somente resolver o meu problema sem estresse.
Em conformidade com a via-sacra comum aos serviços públicos, fui encaminhada a um rapaz, que analisou a minha situação e quando estava prestes a me encaminhar ao próximo balcão, mudou de ideia e cumpriu sozinho as próximas estações. Dir-se-ia que da segunda queda de Jesus até a Ressurreição resolveu tudo, pôs-se disponível para outras necessidades e ainda fez valiosas sugestões de como é possível sobreviver à burocracia.
Como já ninguém faz nada para mim pelos meus belos olhos, quero crer que aquela corrente de bom humor, fomentada pelo meu primeiro contacto, salvou-me o dia. A essa altura, pensei que seria justo procurar a moça com quem eu falara por telefone. Sabia o nome dela, era possível encontrá-la. Bati à porta que me informaram ser a sua sala e entrei dizendo: “Vim te dar um abraço.” A satisfação iluminou-lhe o rosto e nos abraçamos como se fôssemos amigas. Voltei para casa de bem com a vida. Por tão pouco – acho que posso dizer – salvamos ambas o nosso dia.
Se eu me senti feliz? Não exageremos. Eu não acredito em felicidade, embora defenda que ninguém deve desistir de ser feliz. Por favor, não exijam de mim coerência. Eu também não acredito em Deus, mas, às vezes, tenho medo dele.
A Associação Cultural e Artística ArtMatriz lança a edição de 2026 do MostrART, dedicada ao tema “O Preço de Viver”, um convite à reflexão artística sobre uma das realidades mais marcantes da sociedade atual.
Num tempo em que viver se tornou cada vez mais caro, esta edição do mostrART convida artistas a refletir sobre o verdadeiro custo da vida na sociedade contemporânea.
Desde a sua criação em 2013, o mostrART tem sido um espaço de reexão e expressão artística, reunindo artistas de todo o mundo numa exposição de ilustração, fotograa e arte digital. Organizado pela Associação Cultural e Artística Artmatriz, o evento tem abordado, ao longo dos anos, temas de grande relevância social,promovendo o debate através da arte.
Das primeiras edições, que exploraram diversas linguagens artísticas, à sua consolidação, enquantoplataforma para discutir temas urgentes, o mostrART tem sido um palco de sensibilização e transformação.
O Preço de Viver
A Associação Cultural e Artística ArtMatriz lança a edição de 2026 do MostrART, dedicada ao tema “O Preço de Viver”, um convite à reexão artística sobre uma das realidades mais marcantes da sociedade atual. Num tempo em que viver se tornou cada vez mais caro, esta edição do mostrART convida artistas a reetir sobre o verdadeiro custo da vida na sociedade contemporânea.
O aumento do custo de vida, a diculdade no acesso à habitação, a precariedade laboral e a instabilidade económica transformaram profundamente a forma como as pessoas planeiam o futuro, tomam decisões e constroem os seus projetos de vida. Para muitos, o quotidiano é marcado por escolhas condicionadas, adiamentos, renúncias e pela incerteza permanente.
Mais do que números, estatísticas ou indicadores económicos, “O Preço de Viver” procura dar visibilidade ao impacto humano desta realidade. Que custos invisíveis carregamos? O que se perde quando viver exige cada vez mais esforço? Que sonhos são adiados, que percursos são interrompidos, que desigualdades se aprofundam? A exposição propõe uma reexão artística sobre temas como:
Habitação e direito à cidade Precariedade e instabilidade laboral Desigualdade social e económica Mobilidade forçada e deslocação Endividamento e dependência financeira Saúde mental e pressão económica Tempo, trabalho e qualidade de vida Expectativas, frustração e futuro
Num mundo onde quase tudo parece ter um preço, esta edição questiona também aquilo que não pode ser quanticado: o tempo, o bem-estar, a segurança, a dignidade, o sentido de pertença e a possibilidade de imaginar o futuro.
“O Preço de Viver” convida artistas a explorar, de forma crítica, poética ou experimental, as tensões entre valor económico e valor humano, revelando as histórias, experiências e emoções que existem para além dos dados. Porque viver não deveria ser um luxo.
Informações gerais: Participação aberta a artistas de todas as idades e nacionalidades Submissão de um máximo de 3 trabalhos por participante Formato digital para seleção
Submissões Envio para: multitudo.net@gmail.com Data limite: 30 de Junho de 2026 MostrART – A arte como espaço de reflexão e consciência. Associação Cultural e Artística Artmatriz
Desde rabos de lagostim a ervilhas enlatadas (ou mesmo couves meio apodrecidas), tudo se come, desde que bem ensopado em maionese!
Da solarenga ilha espanhola de Minorca até ao severo clima de Moscovo, a maionese conquistou um lugar próprio na história da culinária, incorporada em vários pratos, hoje tradicionais e imprescindíveis nos dias festivos.
É hoje impensável as mesas de fim de ano russas não incluírem pratos carregados de maionese, como a famosa Salada Olivier ou Arenque em Casaco de Peles ou celebrar o Dia da Mulher sem uma Mimosa (não, não é a bebida), embora a maionese fosse totalmente desconhecida até meados do século XIX.
A maionese, através da Salada Olivier, conquistou o coração, o estômago e as mesas dos Russos, ganhando lugar na história da sua culinária. A sua evolução mistura guerras, luxo gastronómico, condições climáticas, escassez alimentar e ideologia política, acabando a receita por ser simplificada ao longo dos tempos e tornar-se no verdadeiro clássico imortal conhecido mundialmente como a salada russa, exceto na Rússia, onde nem era uma salada e pouco tinha de russa.
Uma das possíveis origens da maionese, sem dúvida a versão mais emocionante, remonta ao século XVIII, durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763) quando o rei francês Luís XVI ordenou ao seu general, o Duque de Richelieu, que conquistasse a ilha de Minorca aos ingleses. A primeira cidade a cair foi Mahón, nas Baleares. Para celebrar a vitória, o cozinheiro do duque teve de improvisar um banquete com poucos ingredientes disponíveis em tempo de guerra. Sem natas para preparar o molho que pretendia, decidiu misturar azeite, ovos e sal, criando um molho cremoso que agradou a todos os presentes. Em homenagem à cidade conquistada, o molho passou a chamar-se mahonaise, origem provável da atual maionese. Há, no entanto, relatos de um molho semelhante que já existia no Mediterrâneo, numa preparação de alho e azeite, conhecida como allioli (ou aioli), que era usada desde a Antiguidade. Em todo o caso, expediente criativo do chefe de serviço ou sugestão de algum menorquino, o molho então conseguido foi um tremendo sucesso.
Sem natas para preparar o molho que pretendia, o cozinheiro decidiu misturar azeite, ovos e sal, criando um molho cremoso que agradou a todos os presentes. Em homenagem à cidade conquistada, o molho passou a chamar-se mahonaise.
Na década de 1860, um elegante prato gourmet chamado “Maionese de Caça Brava” era apresentado com pompa e circunstância às elites moscovitas de então. Numa época em que a cena gastronómica de Moscovo começava a evoluir de simples tabernas para restaurantes de inspiração europeia, Lucien Olivier, emigrante franco-belga, fundava o sofisticado restaurante Hermitage, de atmosfera requintada e pioneiro de uma cozinha de alta gama que utilizava ingredientes gourmet e exóticas influências francesa e internacional e rapidamente se tornou no ponto de encontro da moda entre oligarcas e as elites da cidade.
O prato sensação que lhe traria fama, a tal “Maionese de Caça Brava”, era servido como entrada, não como salada. Os longos e duros invernos russos não favoreciam grande variedade de hortícolas frescos na maior parte do ano, não havendo propriamente nessa altura registo de receitas de saladas como hoje as entendemos – verduras misturadas, com ou sem extras, temperadas com um molho – na tradição gastronómica russa.
Era uma elaborada preparação com ingredientes de luxo dispostos em camadas; numa base de cubos meticulosos de batata, alcaparras, azeitonas e pepinos em conserva, dispunham-se opulentos rabos de lagostim, pedaços de tetraz (ave rara, da família das perdizes), e aspic (geleia feita a partir de caldo de ossos). Consoante a época do ano, podia levar caviar, língua de vitela ou peito de pato fumado. Levava ainda molho Cabul (à base de soja fermentada) e era por fim regada com a verdadeira estrela da composição culinária de Olivier: a maionese! Foi amor à primeira garfada! Tanto, que os comensais acabavam sempre por desconstruir a elegante e opulenta pirâmide, misturando tudo numa amálgama indiscernível no prato. Olivier, atento, adaptou a apresentação e passou a servir o prato já misturado, transformando-o numa verdadeira salada. Assim nasceu a Salada Olivier, que rapidamente se tornou um símbolo da alta gastronomia da Rússia czarista.
As condições climáticas e as baixas temperaturas russas resolviam também as dificuldades técnicas da preparação da emulsão, que aí estabilizava facilmente.
Após a morte de Lucien Olivier, em 1883, e com o encerramento do restaurante Hermitage em 1917 durante a revolução soviética, a receita começou a transformar-se. Um dos aprendizes do chef, Ivanov, terá recriado o prato chamando-lhe Salada Stolichny (ou Stolichnaya), popularizando-a em estabelecimentos bem menos elitistas. Na sua versão, elementos luxuosos como tetraz e lagostim foram substituídos por sucedâneos bem mais adequados à nova realidade socioeconómica de escassez alimentar: frango ou salsicha e cenoura. À medida que a salada se tornava mais conhecida e popular, a receita continuou a simplificar-se e ingredientes como alcaparras foram trocados pela nova e essencial contribuição russa que se tornaria típica da versão soviética: as ervilhas enlatadas.
Nesse período, o Estado soviético apostava fortemente na produção de alimentos enlatados, fruto do processo de industrialização acelerada inicial e da reorganização da sociedade após a Segunda Guerra Mundial. Estes produtos podiam ser armazenados durante anos e transportados facilmente pelo vasto território do país, permitindo paralelamente ao governo controlar a distribuição de alimentos.
A comida tornava-se politizada e pensada para alimentar as massas e as receitas eram padronizadas e distribuídas por toda a União Soviética, garantindo que a comida fosse semelhante em qualquer região do país.
Em tempos de fome e escassez alimentar, a maionese sempre servia como bomba de sabor e muitas vezes para mascarar estados de conservação já ultrapassados dos ingredientes disponíveis, desempenhando com orgulho o papel de elemento festivo, acompanhada por um bom shot de vodka, quer fosse nas trincheiras, nos campos ou nas empobrecidas casas da classe operária das cidades.
Esse contexto ajuda a consolidar a forma moderna da Salada Olivier. Ingredientes duradouros e facilmente distribuídos tornaram-se a base do prato. E a maionese, rica em calorias e com boa durabilidade, é também ideal para enriquecer com gorduras, proteínas e sabor refeições simples.
Hoje continua tão popular como sempre, planetária como nunca, e com o seu nostálgico charme kitsch, continua a ser recriada na Rússia e no mundo em homenagem à tradição ou com adições inesperadas, dando asas à imaginação.
Salada Russa à Portuguesa
Ingredientes:
Para a salada:
2 batatas cozidas
1 cenoura cozida
1 ovo cozido
100 g ervilhas enlatadas
1 lata de atum
Sal e pimenta
Para a maionese:
100 ml de óleo vegetal
1 ovo
1 colher de sopa de sumo de limão
1 colher de chá de mostarda
Sal e pimenta
Corte as batatas, a cenoura e o ovo em pedaços iguais e coloque num recipiente. Adicione as ervilhas e o atum desfiado.
Agora, é a altura de dar asas à sua imaginação, o limite é a despensa: junte azeitonas, alcaparras, feijão verde, pepino fresco ou em conserva, pickles, cubos de beterraba, ervas frescas, rabos de lagostim, salmão fumado, caviar, o que quer que tenha à mão e prossiga;
Prepare a maionese: Coloque o ovo, o limão, a mostarda e uma pitada de sal e pimenta no copo da misturadora.
Bata esta mistura com a varinha mágica numa velocidade média e vá adicionando aos poucos o óleo, sem levantar a varinha do fundo do copo, até obter uma consistência cremosa.
Acrescente a maionese à mistura da salada e leve ao frio antes de servir.
“Agentes de IA não ‘querem’ nada. Eles apenas executam comportamentos compatíveis com aquilo que foram treinados ou programados para fazer.” O problema está na definição do que devem fazer, que é uma decisão humana e pode ser muito perversa.
Na sua monumental obra sobre O conceito de tecnologia, concluída em 1973 mas apenas publicada em 2005, o filósofo Álvaro Vieira Pinto assinala o traço “monotonamente repetido” que marca o comportamento humano diante de inovações que abalam o mundo tal como o conhecemos e conduzem a incertezas que levam a reações contraditórias, ora apocalípticas, ora eufóricas. Alerta para a recorrente manobra de inversão ideológica que apresenta os aparelhos tecnológicos como agentes transformadores e, na esteira de Marx, argumenta que o que ocorre é o contrário: são as relações sociais que projetam esses aparelhos, através dos quais os humanos podem construir a sua liberdade ou impor a dominação, a exploração e a opressão a outros humanos. O capitalismo opera nessa permanente contradição, ao estimular as forças produtivas capazes de libertar o ser humano do reino da necessidade, ao mesmo tempo que lhe tolhe essa possibilidade ao conformá-lo a um sistema explorador.
Vieira Pinto escreveu no auge da excitação provocada pela cibernética, quando proliferaram predições sobre a disseminação do uso dos computadores, que nos transformariam em robôs e exterminariam a “essência humana” ou, pelo contrário, inaugurariam um novo e promissor tempo de libertação para a humanidade. Escreveu em contracorrente, demonstrando que a oposição homem x máquina não fazia sentido porque não há técnica ou tecnologia que não derive do engenho humano.
No entanto, continua a prevalecer o traço “monotonamente repetido”, agora diante do avassalador desenvolvimento da chamada inteligência artificial generativa, que volta a acionar velhos fantasmas. O acontecimento mais recente nesse sentido foi o lançamento do Moltbook, no final de janeiro, anunciado como “a rede social onde humanos não entram”. Seria o começo da materialização do temor reiteradamente cultivado desde a revolução industrial, no século XIX, e que gerou inúmeras obras de ficção científica: a subjugação dos seres humanos pelas máquinas, a criatura voltando-se contra o criador e agora, finalmente, capaz de exterminá-lo de verdade.
As redes sociais entraram em polvorosa, e muitos jornais as seguiram acriticamente, ajudando a disseminar o pânico. Outros, juntamente com alguns influenciadores críticos, procuraram esclarecer do que se tratava. No site theconversation.com/br, o investigador Alberto Sardinha publicou um artigo que desfazia o alarmismo:
“O que está sendo apresentado como algo quase futurista faz parte, na verdade, de uma linha de pesquisa bastante consolidada na ciência da computação. Ambientes em que Inteligências Artificiais interagem existem há décadas na pesquisa científica e não significam consciência, intenção ou vida social artificial. São usados, por exemplo, para estudar (e aprimorar) questões que envolvem cooperação, falhas de comunicação e coordenação entre sistemas automatizados.”
São, naturalmente, projetados por humanos. São “autônomos” apenas no sentido de que podem “selecionar qual ação executar em cada etapa, sem a intervenção direta humana”. Em suma, “agentes de IA não ‘querem’ nada. Eles apenas executam comportamentos compatíveis com aquilo que foram treinados ou programados para fazer”.
Os robôs são os instrumentos, cada vez mais sofisticados, de perversas decisões humanas.
O problema estaria, portanto, na definição do que devem fazer, que é uma decisão humana, e pode ser muito perversa.
É o que estamos vendo no uso militar da IA, seja na caça do ICE a imigrantes nos Estados Unidos e na repressão a manifestações de protesto contra essa violência, seja no massacre de Gaza, no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro ou no ataque ao Irão: a seleção de alvos através do cruzamento automatizado de dados e de classificações probabilísticas. Armas “autônomas” são programadas por humanos, não deveria haver muita dúvida quanto a isso. A recente decisão do presidente Trump de banir a Anthropic por sua recusa em permitir que seu modelo de IA fosse utilizado nesse tipo de artefatos e ações letais sem supervisão humana indica uma escalada da atual política de extermínio conduzida pelo governo norte-americano em aliança com Israel. Os robôs são os instrumentos, cada vez mais sofisticados, de perversas decisões humanas.
HISTORIA
Dos socialistas utópicos, como Saint-Simon, Fourier ou Robert Owen ao “cartismo” da classe trabalhadora britânica, a classe trabalhadora percorreu no século XIX um longo caminho em busca de construir uma representação política própria.
A Revolução Francesa concluíra com a derrota da sua ala esquerda (os jacobinos), mas estes tiveram os seus herdeiros radicais, a “Conspiração dos Iguais” de 1796. Essa fração propôs um programa de propriedade comunal, para aprofundar a revolução, uma espécie de socialismo agrário. Os trabalhadores consideravam-se parte das camadas populares da nação, a sua privação de direitos só podia ser eliminada exigindo para todos os cidadãos o mesmo direito de determinar a atividade do poder político, de modo que não se abusasse do Estado em proveito de uns poucos. Reclamaram para si próprios os direitos de liberdade correspondentes ao direito natural. Na prática, porém, foram além desse patamar. A consciência de classe dos trabalhadores, certamente, ainda não existia claramente em 1789: fora da Grã-Bretanha e da França, era quase totalmente inexistente. A expressão “classe trabalhadora” apareceu nos escritos dos trabalhistas ingleses logo após 1815. Nem todos os cidadãos eram trabalhadores, mas todos os trabalhadores conscientes pertenciam a esse movimento, as consciências “jacobina” e proletária complementavam-se.
A experiência da classe operária dava aos pobres as instituições para a sua defesa diária, o sindicato e a sociedade de auxílio mútuo, e as armas para a luta coletiva, a solidariedade e a greve (que implicava organização e disciplina). O complemento do sindicato era a greve geral, concebida como uma arma central da classe trabalhadora. O termo “socialismo”, por sua vez, surgiu na década de 1820, sendo adotado pelos trabalhadores em França: o termo foi usado por Henri Leroux, em 1831, na década em que a “questão social” passou para primeiro plano da cena francesa, e em escala bem maior pelos britânicos. Por volta do início da década de 1830 já existiam, portanto, a consciência de classe proletária e as suas próprias aspirações sociais, embora mais fracas e menos consolidadas do que a consciência de “classe média” (situada entre a aristocracia e a população pobre) que os seus patrões já possuíam. Em meados do século XIX, já era visível a expressão da nova classe trabalhadora no movimento operário; o movimento democrático, por sua vez, era a expressão prática do povo comum, proletário ou não, que a Revolução Francesa tinha colocado no palco da história como ator e não como simples vítima, um ator à procura de respeito, reconhecimento e igualdade.
Os primeiros representantes da escola socialista foram, nas palavras de Engels,
“os três grandes utópicos: Saint-Simon, em quem ainda se manifestava a tendência burguesa, juntamente com a tendência proletária, Fourier e Owen, que expôs de forma sistemática, no país onde a produção capitalista estava mais desenvolvida (Inglaterra), uma série de medidas que visavam a abolição das diferenças de classe. O traço comum entre os três estava no facto de não agirem como representantes dos interesses do proletariado que, entretanto, já havia surgido como classe social. Não se propõem emancipar primeiramente determinada classe, mas sim, de uma só vez, a humanidade toda”.
Charles Fourier constituiu uma sociedade que chegou a ter, em 1848, quase quatro mil adeptos, publicando o jornal A Democracia Pacífica. A partir de 1822, empreendeu a construção de comunidades (falanges), que associadas constituíam o falanstério. Neste, de 1600 a 1800 pessoas trabalhavam em regime comunitário, dedicadas igualmente à agricultura e à indústria, que deviam desenvolver-se harmoniosamente, evitando também o embrutecimento produzido nos homens pela realização de um só tipo de trabalho. Os falanstérios, construídos em França e nos EUA, fracassaram (devido justamente à concorrência das empresas capitalistas). Alguns discípulos de Fourier, como Victor Considérant (1808-1893), convergiram com o nascente movimento operário. Considérant bateu-se, ao lado dos operários, nas barricadas do faubourg (bairro) de Saint-Antoine, em junho de 1848. Já tinha compreendido, pela sua própria experiência, que era inútil fazer apelo à generosidade dos ricos e dos mecenas para melhorar a sorte do proletariado.
Para Engels, “o socialismo e comunismo crítico-utópico fracassou necessariamente não só por causa do estado embrionário do próprio proletariado, como também devido à ausência das condições materiais da sua emancipação, condições que apenas surgem como produto da época burguesa”. Para diferenciar-se do socialismo paternalista ou filantrópico dos intelectuais burgueses, as doutrinas que apregoavam a auto emancipação da classe operária passaram a se identificar no comunismo. O desenvolvimento da classe operária criou as bases sociais para a superação do socialismo semifilantrôpico, tanto na França como na Inglaterra:
“Se os utópicos foram utópicos é porque, numa época em que a produção capitalista estava ainda tão pouco desenvolvida, não podiam ser outra coisa. Se foram obrigados a tirar das suas próprias cabeças os elementos de uma nova sociedade, é porque, de uma maneira geral, estes elementos não eram ainda bem visíveis na velha sociedade; limitaram-se a apelar para a razão para lançar as fundações do seu novo edifício, porque não podiam, ainda, fazer apelo à história contemporânea.”
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Se Saint-Simon e Fourier haviam “tirado da cabeça” o seu sistema socialista, foi, ao contrário, pela via da prática que Robert Owen (1771-1858), no país da indústria mais desenvolvida, elaborou o seu próprio sistema socialista. Ele fora fortemente influenciado por Jean-Jacques Rousseau e pela filosofia das luzes e acreditava na possibilidade de educar o homem (sem distinção de classes). A sua grande ideia era a de tornar o mundo racional, e racional significava moral. Mas foi essencialmente devido à sua posição de diretor de uma fábrica, através do contacto com a prática, que veio a elaborar o seu socialismo. Na sua empresa, em New Lanark (Escócia), Owen, que nascera num lar operário, reduziu a jornada de trabalho de 16 para 10 horas diárias. Não aceitou o trabalho de crianças menores de dez anos, e criou para elas creches e escolas gratuitas e laicas. Manteve a higiene da fábrica, combateu o alcoolismo e criou casas de repouso para a doença e a velhice. Conseguiu fazer isso sem que diminuísse a produtividade da empresa. Mas apesar deste exemplo, os capitalistas viram nele um perigo, vindo a ser duramente criticado no Parlamento entre 1817 e 1820, e também perseguido, o que o obrigou ao exílio. Nos EUA tentou fundar, sem sucesso, colónias socialistas. De volta a Inglaterra, Robert Owen criou a National Equitable Labour Exchange, onde produtos fabricados pelos trabalhadores eram trocados por outros que tivessem custado o mesmo tempo de trabalho.
O sistema fracassou (porque muitos trabalhadores “inflacionavam” o trabalho realmente feito, e porque os produtos artesanais passaram a concorrer em desvantagem com os industriais), mas a National Equitable foi o antecedente organizativo da primeira central sindical inglesa. Robert Owen passou então a trabalhar nos sindicatos, chegando a propor, num congresso que presidiu em 1838, a greve geral e a luta de classes. Owen morreu como militante socialista da classe operária. Devido a isso, muitos dos seus discípulos “filantrópicos” abandonaram-no, criticando o seu “radicalismo”. A grande viragem da organização operária deu-se em finais da década de 1830, em Inglaterra, com a organização da Carta do Povo (People’s Charter). Em 16 de junho de 1836, constitui-se a London Working Men’s Association, que conquistaria apoio nacional no ano seguinte, em torno da ideia de uma petição ao Parlamento em favor da reforma política (sufrágio universal masculino). A estratégia utilizada pelos cartistas girava em torno da recolha de assinaturas, que era realizada nas oficinas, nas fábricas e em reuniões públicas, através de uma série de petições nacionais, enviadas à Câmara dos Comuns. Ativistas operários radicais como Harney e O’Connor, influenciados diretamente pelos exilados comunistas alemães, não foram inicialmente aceites na sociedade, e iniciaram uma campanha independente.
A reforma [de 1832] satisfazia os interesses da burguesia, que ganhava espaço político, mas não o operariado, pois sobrevivia o voto censitário (ligado à propriedade), que excluía quase toda a classe operária do exercício dos direitos políticos.
A reforma eleitoral de 1832 (Reform Act), arrancada pela burguesia industrial à monarquia, aumentara o colégio eleitoral inglês de 400 mil para 800 mil membros; o Parlamento aprovou também a reforma que suprimia as “cidades mortas” (pequenas cidades controladas pela nobreza), baixava o censo eleitoral e aumentava o número de deputados. A reforma satisfazia os interesses da burguesia, que ganhava espaço político, mas não o operariado, pois sobrevivia o voto censitário (ligado à propriedade), que excluía quase toda a classe operária do exercício dos direitos políticos. A Carta nasceu da crescente organização operária na Inglaterra. Havia mais organização entre os trabalhadores especializados, como os penteadores e cardadores de lã. Inicialmente, eles colaboravam para pagar o enterro de associados; a associação passou a ter depois caráter reivindicativo. O processo de organização acelerou e também se tornou mais denso. Em 1836 os operários condenados na Inglaterra em revoltas anteriores foram indultados, e começaram a regressar ao país. Nesse clima, a Carta foi proclamada e organizada nacionalmente em 1838, propondo o voto universal e secreto (através de cédula), a abolição da qualificação censitária para exercê-lo (voto por nível de rendimento), o pagamento aos membros do Parlamento (permitindo a entrada nele de trabalhadores), a nivelação dos distritos eleitorais, a eleição anual dos parlamentos (permitindo assim um controle mais efetivo, e a revogabilidade dos representantes parlamentares).
O movimento cartista não formulou um programa político a partir de um conjunto de ideias socialistas, como se fazia já em França, mas a partir das ideias dos reformadores parlamentares radicais. Os seis pontos da Carta estavam baseados no programa que a “Comissão da Reforma” em Westminster tinha esboçado 58 anos antes. As reivindicações de luta pela liberdade já faziam parte da cultura dos artesãos e trabalhadores radicais antes mesmo da formação de sua consciência como uma classe trabalhadora independente. A composição do cartismo era heterogénea, com líderes radicais como William Lovett, em Londres, e Thomas Attwood, em Birmingham; moderados, como Richard Oastler, ou socialistas jacobinos como Julian Harney e James Bronterre O´Brien. O cartismo possibilitou, em escala histórica, um novo estágio do desenvolvimento do movimento operário, o da passagem das sociedades secretas para as sociedades operárias de massas. Isto teve o seu epicentro em Inglaterra, onde o desenvolvimento industrial era mais avançado e a atividade da classe operária mais aberta. A Convenção Nacional das Classes Operárias da Grã-Bretanha, o “parlamento operário” convocado no início de 1839 pelos cartistas, discutiu publicamente a organização da greve geral como meio de conquista do poder político.
No seio da Associação de Operários Alemães de Inglaterra enfrentaram-se as duas concepções, pois um dos seus membros mais influentes, Wilhelm Weitling (chefe espiritual da Liga dos Justos, organização de operários comunistas, que não tardou em ser afastado da Associação) admitia apenas uma forma de propaganda, a das sociedades clandestinas de conspiradores, enquanto Karl Marx exigia que se pusesse fim à propaganda secreta e se transformassem as limitadas agitações subterrâneas num vasto movimento de massas. A preferência por sociedades secretas tinha sido favorecida pela repressão social e política reinante na fase precedente: Por causa do Congresso de Viena houve um florescimento de sociedades secretas, que minavam o solo da vida política e social do continente europeu. Em França, as associações blanquistas eram uma forma de ‘carbonarismo’. A Liga dos Justos surgiu da Liga dos Proscritos. Estes eram intelectuais emigrados de diversas nações. Alguns artesãos que haviam ingressado nessa Ligue des Bannis acabaram por separar-se dos intelectuais e formar a Liga dos Justos. Composta quase exclusivamente por operários, logo se tornou socialista, tendência que se desenvolveu por completo com o golpe de força ensaiado pelos blanquistas em 1839, no qual tomaram parte alguns membros da Liga. Enquanto a antiga desconfiança em relação aos intelectuais começava a desaparecer entre os operários e o proletariado ia buscar as suas armas intelectuais à filosofia, os filósofos descobriam nos operários, nesses “bárbaros” da sociedade civilizada, o “elemento prático da emancipação do homem”. Depois da rebelião dos tecelões da Silésia, em junho de 1844, Karl Marx declarava, no Vorwärts, que a Alemanha não podia “encontrar o elemento ativo da sua libertação senão no proletariado”: A fusão da ideia, da força material de classe e da organização revolucionária pavimentava o seu caminho.
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Continuará hoje, dentro das atuais condições laborais e organizacionais da escola, a fazer sentido a ambição de o professor ser um intelectual transformador, que combina reflexão sobre o propósito da educação e da ação na transformação da realidade?
A educação pública portuguesa tem percorrido um caminho moroso sem que tenha cumprido o imperativo ético da mitigação das desigualdades. Com promessas de pontes, túneis e atalhos, as sucessivas políticas abriram becos e fecharam trilhos, mantendo o percurso sinuoso e entrelaçado do peso do determinismo social.
A procura de uma saída não pode continuar a fazer-se de fora; tem de ser assumida por dentro, e o desafio reside na força coletiva dos professores. Considerando-os “guardiões da civilização e da cultura”, Bertrand Russell defendeu que “o sentimento de independência intelectual é essencial ao adequado preenchimento das funções de professor”, contrariamente ao statu quo imperante de “incutir crenças e pressupostos cuja utilidade é estabelecida por aqueles que lhe dão emprego”.
Ora, o panorama atual é dominado por uma cultura de prestação de contas, por um sistema que se rege pelos resultados e – não nos enganemos, não decidimos nada, quem decide é o mercado – por uma pedagogia produtivista. Emoldurada pela competição, a escola atual está muito longínqua da escola cidadã de Carlos Estêvão.
Nesta cadeia, como alerta José A. Pacheco, o professor surge como “um mero funcionário do ato pedagógico”, cuja atividade se subordina aos resultados da avaliação sumativa externa. Impedido de se direcionar para resolver os problemas que gostaria de resolver, permanece num impasse duplo e simultâneo: sentir-se bem e mal na profissão. No que diz respeito à prática profissional, o discurso dos docentes é dominado por uma preocupação com o total cumprimento da planificação, numa espécie de pêndulo compassado pelo tempo que decorre desde o início do ano letivo até à realização do exame final. O sentimento de urgência é transversal: não existe disciplina nem nível de ensino que escape. Mais: nas metodologias contrarrelógio admite-se circunscrever a variedade de materiais didáticos ao manual e a algumas plataformas digitais e fazer convergir práticas ao modelo expositivo e uniformizado.
Nas metodologias contrarrelógio admite-se circunscrever a variedade de materiais didáticos ao manual e a algumas plataformas digitais.
A igualização na avaliação dos alunos é garantida com a aplicação rigorosa dos critérios definidos pelo departamento, com vista à estandardização da aplicação das competências como forma de mensuração do conhecimento, espartilhado em domínios.
Mergulhados numa letargia produzida por um cansaço burocrático extremo e pela subserviência a um modelo de gestão escolar que os subalterniza, os professores adotam um silêncio inconsciente, cujas raízes provêm ou de conformismo ou de um medo instalado, que gera a interiorização da não-contestação. Ora, a obediência passiva resulta de uma mentalidade tecnicista e submissa, transformada, que nada tem a ver com o trabalho transformador de um intelectual.
O professor contemporâneo assemelha-se, pois, a Sísifo: vê-se compelido, ano após ano, a repetir novos ciclos de preparação para testes padronizados, que incluem provas de ensaio – porque tudo se ensaia; vê-se refém da aplicação de uma avaliação que prima pela diversidade de instrumentos e por múltiplas fontes de evidência (grelhas, rubricas…); vê-se enredado em relatórios (PEI, medidas universais, fichas de referenciação para SPO, CPCJ, taxas de sucesso por turma); vê-se cúmplice do ajustamento das práticas de ensino aos desafios da educação inclusiva (pela falta de recursos humanos) e assiste, impotente, a guetizações (como a composição de turmas apenas com alunos estrangeiros, sob o argumento de lhes garantir PLNM).
É percetível que a ação pedagógica dos professores vai muito para além da sala de aula: resolução de problemas disciplinares, bullying como fruto da violência crescente, como o racismo e a xenofobia, no fundo, o reflexo do agravamento das desigualdades sociais. Abre-se um abismo de pendor ético entre aquilo que, como mais que professores, podemos fazer e aquilo que acreditamos que deveria ser feito.
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Ora, a nova lei propicia o agravamento desta realidade e prepara o cavalo de Tróia que minará, ainda mais, a qualidade do ensino. Se recorremos a uma analogia de proporcionalidade inversa, em que a força da carreira (f) é inversamente proporcional ao grau de precarização do sistema (p), a constante (k) representa o volume de trabalho pedagógico efetivamente realizado na escola, isto é, f = k/p, independentemente do vínculo laboral. Agora, pensemos: a fragmentação dos vínculos de trabalho fragiliza e divide os professores, o que, obviamente, compromete a qualidade do trabalho. A precarização não acaba com a função do trabalho, mas, à semelhança daquilo que em 2009 provocou na carreira dos enfermeiros, torna-o mais difícil e mais fragmentado.
E o que podem ser os p, segundo a Lei 99/2025? Um somatório de algumas matérias de natureza subsidiária com consequências como: desprofissionalização da função de professor marcada pelo recrutamento que está em marcha; subserviência ampliada pelos modelos de gestão e de avaliação, com comissões de serviço e avaliação por prémios; a reafetação do pessoal, com fim de QA (Quadros de Agrupamento) e QZP (Quadros de Zona pedagógica) e introdução de mapas de pessoal e a imprevisibilidade do horário de trabalho e da passagem à Tabela Remuneratória Única (TRU).
Com este cenário, como poderá o fio de Ariadne ajudar os professores (Teseu) a sair do labirinto do Minotauro? Talvez se a figura de Ariadne for ancorada em dois pressupostos.
O primeiro, na ideia de Angela Davis de que “é fundamental resistir à representação da história como obra de indivíduos heróicos, para que as pessoas reconheçam a sua capacidade de agir como parte de uma crescente comunidade de resistentes”. Na comunidade escolar, pode produzir um efeito emancipador do valor de cada sujeito e reconstruir o valor coletivo da profissão docente.
O segundo, no resgate proposto por Carlos Fernández Liria – os professores como proprietários da sua função, isto é, como sujeitos intelectuais que definem, em comunidade, o sentido do trabalho pedagógico.
Se foi uma ambição histórico-crítica a ideia do professor como intelectual transformador (que combina reflexão sobre o propósito da educação e da ação na transformação da realidade), a questão que hoje se coloca é se continuará a fazer sentido esta ambição dentro das atuais condições laborais e organizacionais da escola. Talvez o fio de Ariadne proposto não seja uma solução, mas possa apontar uma direção: valor coletivo e autonomia docente.
Apesar da derrota de Montenegro e de Ventura na greve geral e nas eleições presidenciais, a “concertação” em volta do pacote laboral recomeçou. E recomeçou porque Seguro veio em socorro do desacreditado Montenegro exortar centrais sindicais e patronato a regressarem à mesa das “conversações”. Se a resposta dos trabalhadores for fraca, Montenegro e Ventura negociarão umas modificações cosméticas para fazer de conta, e o pacote passará no Parlamento.
O Conselho Nacional da CGTP, reunido a 18 de Março, aprovou uma resolução em que, a abrir, declara, a propósito do pacote laboral, que “A greve geral [foi] momento alto da convergência na luta”. Acrescenta que “os trabalhadores rejeitaram o pacote laboral, exigem a revogação das normas gravosas que já hoje a legislação contém (...). Não aceitam retrocessos, exigem um outro rumo e uma outra política”.
Assim é. Pouco preocupa mais os trabalhadores conscientes do que a possibilidade de o pacote laboral de Montenegro ser aprovado. Não só ele reduz drasticamente os direitos e condições de trabalho, mas, restringindo a liberdade sindical e o direito de greve, restringe gravemente a possibilidade de lutar por melhores salários e direitos no futuro.
Ora, já por algumas vezes o futuro do “pacote laboral” pareceu seriamente comprometido. A primeira foi fruto directo da grande greve geral de Dezembro. O PS já declarara que não votaria o pacote. O caudilho fascista Ventura, que sabe sempre de que lado sopra o vento, declarou então que não o viabilizaria naquela forma, por ele fazer suportar toda a carga aos trabalhadores. Para o governo da AD, minoritário, mesmo com o apoio da IL, a via parlamentar periclitava.
A segunda crise foi logo a seguir à eleição presidencial. As confederações patronais declararam, exasperadas, que, dado a UGT continuar indisposta a recuar das suas “linhas vermelhas” e a exigir a reposição de direitos pré-troika, “nada mais havia a discutir” (a CGTP, que não fora convidada para as “conversações”, protestou por ser excluída).
Apesar disso, a “concertação” recomeçou. E recomeçou porque o Presidente eleito, Seguro, veio em socorro do desacreditado Montenegro exortar centrais sindicais e patronato a regressarem à mesa das “conversações”.
Em resultado de todas estas manobras, mantém-se intacto o perigo para os trabalhadores.
Nós, no Maio, pensamos que os sindicatos servem para negociar e arrancar ao patronato os melhores resultados possíveis para os trabalhadores, na correlação de forças dada. Em contrapartida, discordamos de que os sindicatos participem na “concertação social”, que é política e institucional. “Concertação” não é negociação. É associação ao Estado e às políticas dos governos. Mesmo com governos “de esquerda”, se não romperem com o quadro institucional, essas políticas são sempre condicionadas e determinadas pelo mandamento de defender os interesses dos proprietários dos grandes meios de produção e troca e pelos ditames austeritários de Bruxelas.
Discordamos, portanto, da política de ambas as centrais sindicais de participação no CES, na concertação social e restantes instituições estatais e para-estatais. Nada de bom daí pode vir para os trabalhadores.
Em contrapartida, concordámos plenamente com ambas as centrais quando, face ao pacote laboral apresentado, elas declararam que a única solução que podiam aceitar era a retirada do pacote e não a sua concertação.
E fomos, desde o início, partidários de que as centrais convocassem conjuntamente a greve geral. Quando assim efectivamente aconteceu, verificou-se que os trabalhadores e a juventude aderiram em massa. A greve e a grande manifestação de 11 de Dezembro de 2025 em Lisboa ficou na memória de todos, e atordoou o Governo e o patronato.
A evidência é que a unidade na acção das grandes organizações representativas surte impacto máximo, sem prejuízo das legítimas diferenças de opinião e posições sindicais e políticas de cada um.
Independentemente da “influência” e dos efectivos que cada central reivindique para si, acções convocadas em unidade são um sinal poderoso para todos os trabalhadores: não há divisão; avançar, fazer greve, sair à rua não é perda de tempo e energia, é a via para a vitória.
Assim sendo, é difícil compreender que a longa resolução do Conselho Nacional da CGTP seja omissa em propostas à UGT e aos sindicatos independentes para prepararem em conjunto novas acções e uma nova greve geral, mais dura e longa, se o Governo não recuar. A resolução enumera, como todos os anos, o calendário de acções da CGTP para os meses a vir. Na linha final, menciona: “(...) ampla frente de luta construída, (...) que se desenvolverá com todas as formas de luta que a situação imponha, incluindo a Greve Geral.” Mas sem uma palavra sobre a preparação concreta da greve geral na unidade de todos os trabalhadores e organizações, caso a aprovação do pacote esteja iminente.
Todos sabemos o que acontecerá se o movimento operário e sindical não responder à altura. O movimento protofascista de Ventura é uma criatura do patronato, que este tem em reserva como última instância para pôr os trabalhadores “nos eixos” se nada mais funcionar. Se a resposta operária e sindical for fraca, Montenegro e Ventura negociarão umas modificações cosméticas para fazer de conta, e o pacote passará intacto no Parlamento.
Publicámos há semanas a plataforma unitária elaborada pelas direcções de uma dezena de sindicatos não filiados, que pedia a unidade para preparar nova greve geral, caso necessário. É agora responsabilidade das direcções das duas centrais sindicais pronunciarem-se claramente pela luta unida de todas as organizações sindicais e de trabalhadores para derrotar o pacote laboral.
Segundo o dicionário da Porto Editora, trabalhador e um nome masculino que designa: 1) pessoa que trabalha; 2) pessoa que, mediante salário, põe a sua força de trabalho à disposição de outrem; empregado. Já robô é nome masculino que significa 1) máquina ou aparelho eletromecânico, passível de ser programado informaticamente para executar de forma autónoma determinada(s) tarefa(s), geralmente repetitivas ou perigosas, em substituição do homem; 2) máquina que imita o aspeto e os movimentos de uma pessoa ou de outro ser animado. Deriva do russo robotnik (Рабо́тник), trabalhador.
EM NOVILÍNGUA:
Graças à extrema criatividade da confederação patronal CIP, que tem conduzido o país a dar saltos mais longos que os de Agate de Sousa e Gerson Baldé, o trabalhador português deveria ser um verdadeiro robotnik, ou robô. Armindo Monteiro, presidente da CIP, comentou ao jornal das 13 horas da Antena 1 de 23-3, que seria mais fácil resolver as questões do pacote laboral sem interferências sindicais nem políticas, já que para os sindicatos o trabalhador era “um ativo sindical” e, caso o pacote laboral tivesse de ser decidido na AR e não na “concertação social”, o trabalhador seria encarado como “um ativo político”. Ou seja, isso de o trabalhador ser uma pessoa e não uma máquina só atrapalha. ASP
Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.
Cheguei à ilha em 1984. Tinha sete anos e vinha ter com o meu pai que, poucos anos antes, se mudara em trabalho para aqui. Deixei a escola em Almada, ali perto da Incrível, e vim sozinho, com uma mala maior do que eu, feita a meias entre a minha avó e tia.
No meu imaginário de miúdo que via os desenhos animados na RTP, único canal da altura, uma ilha era um banco de areia, com água em redor, dois coqueiros e uma rede pendurada entre eles. Eventualmente com um náufrago ou uma garrafa perdida segurando um pedido de SOS.
Quando aqui aterrei fiquei espantado. O banco de areia era menos tropical do que imaginara. Havia uma “Little America” construída em torno de um aeroporto. Uma pista de aterragem enorme, um cinema para 500 pessoas e um ginásio multifunções. Ambos feitos com madeira. Casas de chapa. Muitas. Outrora ocupadas por militares e agora a abrigar famílias locais ou outras que, como era o caso da minha, estavam deslocadas. Nas traseiras dessa casa havia uma figueira que começou a dar doce, logo que aprendemos o processo de cozedura. Ao lado da casa de chapa havia uma garagem, em madeira, onde o meu pai organizava as ferramentas naqueles quadros com sombras, típicos da era pré-Leroy Merlin. Também era ali que me fazia os trabalhos manuais para a escola, compensando a minha notável falta de habilidade.
Mal se saía da Little America apareciam as casas mais tradicionais. A serra, as baías, as praias de água morna que nunca mais me deixariam entrar no mar da Costa da Caparica com a mesma vontade. 97 km2 era o tamanho do meu banco de areia e por aqui vi, pela primeira vez, uma praia de postal, carros parados com a chave na ignição, chá gelado e manteiga de amendoim. Ah, e maracujás. Nem sabia como comer aquilo na primeira vez que um amigo me deu um a provar.
A ilha é Santa Maria, uma das mais pequenas do arquipélago dos Açores, onde 5000 pessoas resistem ao passar do tempo e fazem do sentimento de comunidade um modo de vida.
Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.
Sempre achei que Santa Maria teria, para mim, aquele peso nostálgico da infância ou do regresso a cada verão. O sítio onde passaria umas temporadas, aqui e ali, quando o mundo enlouquecesse. E sabendo deste porto seguro atirei-me ao caminho sabendo que a porta, esta porta, estaria sempre aberta.
Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.
Nem sei se o caro leitor alguma vez passou por Santa Maria. Se ainda não fez esse exercício, experimente. São apenas duas horas, partindo de Lisboa, em linha reta. Sempre acompanhadas pela simpatia do pessoal da Azores Airlines. É aproveitar antes que a vendam!
A natureza foi generosa em variedade e qualidade com este pequeno pedaço de terra. Por aqui, na primeira ilha do arquipélago a ser descoberta no longínquo século XV, ainda é possível estar numa praia deserta de areia fina, fazer um trilho envolto numa floresta misteriosa, deixar o olhar perder-se por vales verdejantes ou mergulhar num oceano de jamantas e tubarões-baleia.
Tenho a minha parte de mundo percorrido. Sempre foi o meu maior sonho isto de perceber onde vivemos. E talvez por isso, hoje compreendo que já mudei de continente para encontrar praias ou trilhos semelhantes aos que, agora, estão a 1 km da porta de casa.
Pode ser a minha visão romantizada da coisa, acredito; afinal, também foi entre estas 5000 pessoas que encontrei a metade com quem vale a pena envelhecer. Ainda assim, acho que voltaria a sentir o mesmo encanto se hoje aqui aterrasse pela primeira vez. Já não existe a Little America, é verdade, mas no essencial, a beleza, a calma e a paz nunca mudaram de código postal.
Há ainda um pormenor importante para quem, como eu, leva 20 anos de vida de emigrante num país frio, tanto de clima como de ligações humanas. Desde que Santa Maria voltou a fazer parte do meu mapa, a solidão optou por sair.
Nunca se está só numa ilha onde todos nos conhecemos. Nunca. Basta sair de casa e tropeço em alguém conhecido. E mesmo que não tenha a certeza de quem seja o meu interlocutor, pelo sogro, irmã ou profissão chegamos rapidamente a quem nos está a dirigir a palavra. Para muitos um problema, para mim um achado.
Quando o mundo enlouquece, corre por armas ou tenta espezinhar os direitos dos trabalhadores, Santa Maria segue numa rotação diferente. Serena, como sempre. Sem permitir que os desvarios dos Trumps da nossa praça nos mudem os hábitos.
Vive-se sem grandes dificuldades, o salário estica um pouco mais e todos se ajudam de alguma forma. Nem que seja na procura da economia local. As festas misturam as classes, os restaurantes não deixam ninguém de fora. Se a natureza nos enche a vista, o aceno do outro lado da estrada traz a sensação de pertencer a algo. Se precisares de ajuda, alguém saberá de alguém.
Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.
Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?
Parece, mas não copiei de um livro de autoajuda. Não é uma receita extensiva a todos. Não estou dizendo que vai funcionar sempre. Nem comigo e nem contigo. Mas, como estou de bom humor, arrisco-me até a ser criticada. “Coisa mais babaca, o cenário global marcado pela intensificação de conflitos armados e tensões geopolíticas, profundos desencontros promovidos pelas grandes potências económicas e ela a querer falar de encontro.” Ah, somos livres. Cada um fala o que quiser.
Tenho observado que enfatizamos muito mais o negativo que o positivo. “Tudo deu errado hoje”, dizemos. Ora, se tudo tivesse dado errado nem estaríamos a dizê-lo. Costumamos exagerar na dose, falar coisas sobre as quais nem pensamos. O marido, por exemplo, chega em casa bufando e diz: “Hoje, eu pisei em rastro de corno” e a mulher resmunga entre os dentes: “não paras, ficas pra dentro e pra fora. Acalma-te!” Ainda bem que o sujeito raivoso não percebe a sutileza.
E se a gente experimentasse pensar no que deu certo? “Hoje, tudo deu certo.” Esse tudo não é ganhar na loteria quando nem jogaste. Refiro-me a coisas simples, quotidianas. Pequenas experiências de gente comum, como eu, que facilmente é encontrada na fila do pão.
Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?
Tanto eu quanto os meus interlocutores podemos reagir de modos diferentes em situações idênticas. Influenciamo-nos reciprocamente. Outro dia, liguei para uma funcionária pública muito simpática – não é a regra –, que fez um tutorial para me ajudar na solicitação de um benefício importante. A conversa ocorreu com tanta leveza que, quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.
O que podia ter sido um choque, foi motivo de muitas gargalhadas, uma vez que eu resolvi explorar o tema com sarcasmo.
– Posso solicitar antecipadamente?
– Só os meus filhos podem receber? Então, sou obrigada a morrer ao lado deles. Do contrário, eles vão receber a defunta e a conta, sem direito a ressarcimento. Que coisa mais inconveniente!
Quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.
Todos os anos, desde a reforma, tenho de apresentar prova de vida para continuar recebendo o meu salário. É exigida uma biometria facial, a ser feita através de um aplicativo do governo, em ambiente iluminado, com fundo branco, sem óculos, sem chapéu, seguindo comandos de não piscar, não sorrir, não fazer careta, etc. Em sã consciência, nenhum trabalhador reformado deixa de cumprir essa exigência. Anualmente, todo mês do aniversário a nossa primeira obrigação é posar para o aplicativo que assegura o pagamento do salário. Ora, quem não apresenta prova de vida não já está a provar a morte? Não bastaria um atestado de óbito fornecido por fonte idônea, para que os responsáveis pelo morto recebessem o tal auxilio-funeral? Talvez, com exagero, uma fotografia do morto segurando uma plaquinha indicativa do evento fosse suficiente. No meu caso: “Por falta de opção, morri.”
Convenhamos, a funcionária era muito bem-humorada. Do contrário não dava para manter esse clima. O que era apenas um pedido de informação tornou-se uma boa e divertida conversa, ao ponto de ela me perguntar se eu era feliz. Respondi-lhe que sou alegre, amo a vida e isso já me basta. Tenho muitas questões sobre o que chamam de felicidade, mas malgrado o tom assumido, não era a hora e nem lugar para filosofar. Importa destacar, aqui e agora, que ficamos ambas satisfeitas e o modo como transcorreu o encontro me estimulou a ir pessoalmente à repartição. Eu sabia, de antemão, que se surgissem empecilhos – sempre surgem – com as outras pessoas a quem eu devia me reportar, estava pronta para relevar, não tomar nenhuma negativa como pessoal.
Na repartição, em meio à conversa com a pessoa que me fez o atendimento presencial, num determinado momento ela quis dizer “a depender da demanda”, mas disse “a depender da demência”. Num dia ruim, eu podia interpretar aquele equívoco com desconfiança. Estaria ela me chamando de demente? Mesmo que estivesse, eu não seria atingida, novamente gargalhei. Não perdi a oportunidade de falar dos meus frequentes esquecimentos e de declarar que a internet me dá surtos de demência. Coitada, ficou meio envergonhada. Não sabia explicar porque demanda virou demência, mas eu não estava nem um pouco preocupada com isso. Queria tão somente resolver o meu problema sem estresse.
Em conformidade com a via-sacra comum aos serviços públicos, fui encaminhada a um rapaz, que analisou a minha situação e quando estava prestes a me encaminhar ao próximo balcão, mudou de ideia e cumpriu sozinho as próximas estações. Dir-se-ia que da segunda queda de Jesus até a Ressurreição resolveu tudo, pôs-se disponível para outras necessidades e ainda fez valiosas sugestões de como é possível sobreviver à burocracia.
Como já ninguém faz nada para mim pelos meus belos olhos, quero crer que aquela corrente de bom humor, fomentada pelo meu primeiro contacto, salvou-me o dia. A essa altura, pensei que seria justo procurar a moça com quem eu falara por telefone. Sabia o nome dela, era possível encontrá-la. Bati à porta que me informaram ser a sua sala e entrei dizendo: “Vim te dar um abraço.” A satisfação iluminou-lhe o rosto e nos abraçamos como se fôssemos amigas. Voltei para casa de bem com a vida. Por tão pouco – acho que posso dizer – salvamos ambas o nosso dia.
Se eu me senti feliz? Não exageremos. Eu não acredito em felicidade, embora defenda que ninguém deve desistir de ser feliz. Por favor, não exijam de mim coerência. Eu também não acredito em Deus, mas, às vezes, tenho medo dele.
A Associação Cultural e Artística ArtMatriz lança a edição de 2026 do MostrART, dedicada ao tema “O Preço de Viver”, um convite à reflexão artística sobre uma das realidades mais marcantes da sociedade atual.
Num tempo em que viver se tornou cada vez mais caro, esta edição do mostrART convida artistas a refletir sobre o verdadeiro custo da vida na sociedade contemporânea.
Desde a sua criação em 2013, o mostrART tem sido um espaço de reexão e expressão artística, reunindo artistas de todo o mundo numa exposição de ilustração, fotograa e arte digital. Organizado pela Associação Cultural e Artística Artmatriz, o evento tem abordado, ao longo dos anos, temas de grande relevância social,promovendo o debate através da arte.
Das primeiras edições, que exploraram diversas linguagens artísticas, à sua consolidação, enquantoplataforma para discutir temas urgentes, o mostrART tem sido um palco de sensibilização e transformação.
O Preço de Viver
A Associação Cultural e Artística ArtMatriz lança a edição de 2026 do MostrART, dedicada ao tema “O Preço de Viver”, um convite à reexão artística sobre uma das realidades mais marcantes da sociedade atual. Num tempo em que viver se tornou cada vez mais caro, esta edição do mostrART convida artistas a reetir sobre o verdadeiro custo da vida na sociedade contemporânea.
O aumento do custo de vida, a diculdade no acesso à habitação, a precariedade laboral e a instabilidade económica transformaram profundamente a forma como as pessoas planeiam o futuro, tomam decisões e constroem os seus projetos de vida. Para muitos, o quotidiano é marcado por escolhas condicionadas, adiamentos, renúncias e pela incerteza permanente.
Mais do que números, estatísticas ou indicadores económicos, “O Preço de Viver” procura dar visibilidade ao impacto humano desta realidade. Que custos invisíveis carregamos? O que se perde quando viver exige cada vez mais esforço? Que sonhos são adiados, que percursos são interrompidos, que desigualdades se aprofundam? A exposição propõe uma reexão artística sobre temas como:
Habitação e direito à cidade Precariedade e instabilidade laboral Desigualdade social e económica Mobilidade forçada e deslocação Endividamento e dependência financeira Saúde mental e pressão económica Tempo, trabalho e qualidade de vida Expectativas, frustração e futuro
Num mundo onde quase tudo parece ter um preço, esta edição questiona também aquilo que não pode ser quanticado: o tempo, o bem-estar, a segurança, a dignidade, o sentido de pertença e a possibilidade de imaginar o futuro.
“O Preço de Viver” convida artistas a explorar, de forma crítica, poética ou experimental, as tensões entre valor económico e valor humano, revelando as histórias, experiências e emoções que existem para além dos dados. Porque viver não deveria ser um luxo.
Informações gerais: Participação aberta a artistas de todas as idades e nacionalidades Submissão de um máximo de 3 trabalhos por participante Formato digital para seleção
Submissões Envio para: multitudo.net@gmail.com Data limite: 30 de Junho de 2026 MostrART – A arte como espaço de reflexão e consciência. Associação Cultural e Artística Artmatriz
Desde rabos de lagostim a ervilhas enlatadas (ou mesmo couves meio apodrecidas), tudo se come, desde que bem ensopado em maionese!
Da solarenga ilha espanhola de Minorca até ao severo clima de Moscovo, a maionese conquistou um lugar próprio na história da culinária, incorporada em vários pratos, hoje tradicionais e imprescindíveis nos dias festivos.
É hoje impensável as mesas de fim de ano russas não incluírem pratos carregados de maionese, como a famosa Salada Olivier ou Arenque em Casaco de Peles ou celebrar o Dia da Mulher sem uma Mimosa (não, não é a bebida), embora a maionese fosse totalmente desconhecida até meados do século XIX.
A maionese, através da Salada Olivier, conquistou o coração, o estômago e as mesas dos Russos, ganhando lugar na história da sua culinária. A sua evolução mistura guerras, luxo gastronómico, condições climáticas, escassez alimentar e ideologia política, acabando a receita por ser simplificada ao longo dos tempos e tornar-se no verdadeiro clássico imortal conhecido mundialmente como a salada russa, exceto na Rússia, onde nem era uma salada e pouco tinha de russa.
Uma das possíveis origens da maionese, sem dúvida a versão mais emocionante, remonta ao século XVIII, durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763) quando o rei francês Luís XVI ordenou ao seu general, o Duque de Richelieu, que conquistasse a ilha de Minorca aos ingleses. A primeira cidade a cair foi Mahón, nas Baleares. Para celebrar a vitória, o cozinheiro do duque teve de improvisar um banquete com poucos ingredientes disponíveis em tempo de guerra. Sem natas para preparar o molho que pretendia, decidiu misturar azeite, ovos e sal, criando um molho cremoso que agradou a todos os presentes. Em homenagem à cidade conquistada, o molho passou a chamar-se mahonaise, origem provável da atual maionese. Há, no entanto, relatos de um molho semelhante que já existia no Mediterrâneo, numa preparação de alho e azeite, conhecida como allioli (ou aioli), que era usada desde a Antiguidade. Em todo o caso, expediente criativo do chefe de serviço ou sugestão de algum menorquino, o molho então conseguido foi um tremendo sucesso.
Sem natas para preparar o molho que pretendia, o cozinheiro decidiu misturar azeite, ovos e sal, criando um molho cremoso que agradou a todos os presentes. Em homenagem à cidade conquistada, o molho passou a chamar-se mahonaise.
Na década de 1860, um elegante prato gourmet chamado “Maionese de Caça Brava” era apresentado com pompa e circunstância às elites moscovitas de então. Numa época em que a cena gastronómica de Moscovo começava a evoluir de simples tabernas para restaurantes de inspiração europeia, Lucien Olivier, emigrante franco-belga, fundava o sofisticado restaurante Hermitage, de atmosfera requintada e pioneiro de uma cozinha de alta gama que utilizava ingredientes gourmet e exóticas influências francesa e internacional e rapidamente se tornou no ponto de encontro da moda entre oligarcas e as elites da cidade.
O prato sensação que lhe traria fama, a tal “Maionese de Caça Brava”, era servido como entrada, não como salada. Os longos e duros invernos russos não favoreciam grande variedade de hortícolas frescos na maior parte do ano, não havendo propriamente nessa altura registo de receitas de saladas como hoje as entendemos – verduras misturadas, com ou sem extras, temperadas com um molho – na tradição gastronómica russa.
Era uma elaborada preparação com ingredientes de luxo dispostos em camadas; numa base de cubos meticulosos de batata, alcaparras, azeitonas e pepinos em conserva, dispunham-se opulentos rabos de lagostim, pedaços de tetraz (ave rara, da família das perdizes), e aspic (geleia feita a partir de caldo de ossos). Consoante a época do ano, podia levar caviar, língua de vitela ou peito de pato fumado. Levava ainda molho Cabul (à base de soja fermentada) e era por fim regada com a verdadeira estrela da composição culinária de Olivier: a maionese! Foi amor à primeira garfada! Tanto, que os comensais acabavam sempre por desconstruir a elegante e opulenta pirâmide, misturando tudo numa amálgama indiscernível no prato. Olivier, atento, adaptou a apresentação e passou a servir o prato já misturado, transformando-o numa verdadeira salada. Assim nasceu a Salada Olivier, que rapidamente se tornou um símbolo da alta gastronomia da Rússia czarista.
As condições climáticas e as baixas temperaturas russas resolviam também as dificuldades técnicas da preparação da emulsão, que aí estabilizava facilmente.
Após a morte de Lucien Olivier, em 1883, e com o encerramento do restaurante Hermitage em 1917 durante a revolução soviética, a receita começou a transformar-se. Um dos aprendizes do chef, Ivanov, terá recriado o prato chamando-lhe Salada Stolichny (ou Stolichnaya), popularizando-a em estabelecimentos bem menos elitistas. Na sua versão, elementos luxuosos como tetraz e lagostim foram substituídos por sucedâneos bem mais adequados à nova realidade socioeconómica de escassez alimentar: frango ou salsicha e cenoura. À medida que a salada se tornava mais conhecida e popular, a receita continuou a simplificar-se e ingredientes como alcaparras foram trocados pela nova e essencial contribuição russa que se tornaria típica da versão soviética: as ervilhas enlatadas.
Nesse período, o Estado soviético apostava fortemente na produção de alimentos enlatados, fruto do processo de industrialização acelerada inicial e da reorganização da sociedade após a Segunda Guerra Mundial. Estes produtos podiam ser armazenados durante anos e transportados facilmente pelo vasto território do país, permitindo paralelamente ao governo controlar a distribuição de alimentos.
A comida tornava-se politizada e pensada para alimentar as massas e as receitas eram padronizadas e distribuídas por toda a União Soviética, garantindo que a comida fosse semelhante em qualquer região do país.
Em tempos de fome e escassez alimentar, a maionese sempre servia como bomba de sabor e muitas vezes para mascarar estados de conservação já ultrapassados dos ingredientes disponíveis, desempenhando com orgulho o papel de elemento festivo, acompanhada por um bom shot de vodka, quer fosse nas trincheiras, nos campos ou nas empobrecidas casas da classe operária das cidades.
Esse contexto ajuda a consolidar a forma moderna da Salada Olivier. Ingredientes duradouros e facilmente distribuídos tornaram-se a base do prato. E a maionese, rica em calorias e com boa durabilidade, é também ideal para enriquecer com gorduras, proteínas e sabor refeições simples.
Hoje continua tão popular como sempre, planetária como nunca, e com o seu nostálgico charme kitsch, continua a ser recriada na Rússia e no mundo em homenagem à tradição ou com adições inesperadas, dando asas à imaginação.
Salada Russa à Portuguesa
Ingredientes:
Para a salada:
2 batatas cozidas
1 cenoura cozida
1 ovo cozido
100 g ervilhas enlatadas
1 lata de atum
Sal e pimenta
Para a maionese:
100 ml de óleo vegetal
1 ovo
1 colher de sopa de sumo de limão
1 colher de chá de mostarda
Sal e pimenta
Corte as batatas, a cenoura e o ovo em pedaços iguais e coloque num recipiente. Adicione as ervilhas e o atum desfiado.
Agora, é a altura de dar asas à sua imaginação, o limite é a despensa: junte azeitonas, alcaparras, feijão verde, pepino fresco ou em conserva, pickles, cubos de beterraba, ervas frescas, rabos de lagostim, salmão fumado, caviar, o que quer que tenha à mão e prossiga;
Prepare a maionese: Coloque o ovo, o limão, a mostarda e uma pitada de sal e pimenta no copo da misturadora.
Bata esta mistura com a varinha mágica numa velocidade média e vá adicionando aos poucos o óleo, sem levantar a varinha do fundo do copo, até obter uma consistência cremosa.
Acrescente a maionese à mistura da salada e leve ao frio antes de servir.
“Agentes de IA não ‘querem’ nada. Eles apenas executam comportamentos compatíveis com aquilo que foram treinados ou programados para fazer.” O problema está na definição do que devem fazer, que é uma decisão humana e pode ser muito perversa.
Na sua monumental obra sobre O conceito de tecnologia, concluída em 1973 mas apenas publicada em 2005, o filósofo Álvaro Vieira Pinto assinala o traço “monotonamente repetido” que marca o comportamento humano diante de inovações que abalam o mundo tal como o conhecemos e conduzem a incertezas que levam a reações contraditórias, ora apocalípticas, ora eufóricas. Alerta para a recorrente manobra de inversão ideológica que apresenta os aparelhos tecnológicos como agentes transformadores e, na esteira de Marx, argumenta que o que ocorre é o contrário: são as relações sociais que projetam esses aparelhos, através dos quais os humanos podem construir a sua liberdade ou impor a dominação, a exploração e a opressão a outros humanos. O capitalismo opera nessa permanente contradição, ao estimular as forças produtivas capazes de libertar o ser humano do reino da necessidade, ao mesmo tempo que lhe tolhe essa possibilidade ao conformá-lo a um sistema explorador.
Vieira Pinto escreveu no auge da excitação provocada pela cibernética, quando proliferaram predições sobre a disseminação do uso dos computadores, que nos transformariam em robôs e exterminariam a “essência humana” ou, pelo contrário, inaugurariam um novo e promissor tempo de libertação para a humanidade. Escreveu em contracorrente, demonstrando que a oposição homem x máquina não fazia sentido porque não há técnica ou tecnologia que não derive do engenho humano.
No entanto, continua a prevalecer o traço “monotonamente repetido”, agora diante do avassalador desenvolvimento da chamada inteligência artificial generativa, que volta a acionar velhos fantasmas. O acontecimento mais recente nesse sentido foi o lançamento do Moltbook, no final de janeiro, anunciado como “a rede social onde humanos não entram”. Seria o começo da materialização do temor reiteradamente cultivado desde a revolução industrial, no século XIX, e que gerou inúmeras obras de ficção científica: a subjugação dos seres humanos pelas máquinas, a criatura voltando-se contra o criador e agora, finalmente, capaz de exterminá-lo de verdade.
As redes sociais entraram em polvorosa, e muitos jornais as seguiram acriticamente, ajudando a disseminar o pânico. Outros, juntamente com alguns influenciadores críticos, procuraram esclarecer do que se tratava. No site theconversation.com/br, o investigador Alberto Sardinha publicou um artigo que desfazia o alarmismo:
“O que está sendo apresentado como algo quase futurista faz parte, na verdade, de uma linha de pesquisa bastante consolidada na ciência da computação. Ambientes em que Inteligências Artificiais interagem existem há décadas na pesquisa científica e não significam consciência, intenção ou vida social artificial. São usados, por exemplo, para estudar (e aprimorar) questões que envolvem cooperação, falhas de comunicação e coordenação entre sistemas automatizados.”
São, naturalmente, projetados por humanos. São “autônomos” apenas no sentido de que podem “selecionar qual ação executar em cada etapa, sem a intervenção direta humana”. Em suma, “agentes de IA não ‘querem’ nada. Eles apenas executam comportamentos compatíveis com aquilo que foram treinados ou programados para fazer”.
Os robôs são os instrumentos, cada vez mais sofisticados, de perversas decisões humanas.
O problema estaria, portanto, na definição do que devem fazer, que é uma decisão humana, e pode ser muito perversa.
É o que estamos vendo no uso militar da IA, seja na caça do ICE a imigrantes nos Estados Unidos e na repressão a manifestações de protesto contra essa violência, seja no massacre de Gaza, no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro ou no ataque ao Irão: a seleção de alvos através do cruzamento automatizado de dados e de classificações probabilísticas. Armas “autônomas” são programadas por humanos, não deveria haver muita dúvida quanto a isso. A recente decisão do presidente Trump de banir a Anthropic por sua recusa em permitir que seu modelo de IA fosse utilizado nesse tipo de artefatos e ações letais sem supervisão humana indica uma escalada da atual política de extermínio conduzida pelo governo norte-americano em aliança com Israel. Os robôs são os instrumentos, cada vez mais sofisticados, de perversas decisões humanas.
Dos socialistas utópicos, como Saint-Simon, Fourier ou Robert Owen ao “cartismo” da classe trabalhadora britânica, a classe trabalhadora percorreu no século XIX um longo caminho em busca de construir uma representação política própria.
A Revolução Francesa concluíra com a derrota da sua ala esquerda (os jacobinos), mas estes tiveram os seus herdeiros radicais, a “Conspiração dos Iguais” de 1796. Essa fração propôs um programa de propriedade comunal, para aprofundar a revolução, uma espécie de socialismo agrário. Os trabalhadores consideravam-se parte das camadas populares da nação, a sua privação de direitos só podia ser eliminada exigindo para todos os cidadãos o mesmo direito de determinar a atividade do poder político, de modo que não se abusasse do Estado em proveito de uns poucos. Reclamaram para si próprios os direitos de liberdade correspondentes ao direito natural. Na prática, porém, foram além desse patamar. A consciência de classe dos trabalhadores, certamente, ainda não existia claramente em 1789: fora da Grã-Bretanha e da França, era quase totalmente inexistente. A expressão “classe trabalhadora” apareceu nos escritos dos trabalhistas ingleses logo após 1815. Nem todos os cidadãos eram trabalhadores, mas todos os trabalhadores conscientes pertenciam a esse movimento, as consciências “jacobina” e proletária complementavam-se.
A experiência da classe operária dava aos pobres as instituições para a sua defesa diária, o sindicato e a sociedade de auxílio mútuo, e as armas para a luta coletiva, a solidariedade e a greve (que implicava organização e disciplina). O complemento do sindicato era a greve geral, concebida como uma arma central da classe trabalhadora. O termo “socialismo”, por sua vez, surgiu na década de 1820, sendo adotado pelos trabalhadores em França: o termo foi usado por Henri Leroux, em 1831, na década em que a “questão social” passou para primeiro plano da cena francesa, e em escala bem maior pelos britânicos. Por volta do início da década de 1830 já existiam, portanto, a consciência de classe proletária e as suas próprias aspirações sociais, embora mais fracas e menos consolidadas do que a consciência de “classe média” (situada entre a aristocracia e a população pobre) que os seus patrões já possuíam. Em meados do século XIX, já era visível a expressão da nova classe trabalhadora no movimento operário; o movimento democrático, por sua vez, era a expressão prática do povo comum, proletário ou não, que a Revolução Francesa tinha colocado no palco da história como ator e não como simples vítima, um ator à procura de respeito, reconhecimento e igualdade.
Os primeiros representantes da escola socialista foram, nas palavras de Engels,
“os três grandes utópicos: Saint-Simon, em quem ainda se manifestava a tendência burguesa, juntamente com a tendência proletária, Fourier e Owen, que expôs de forma sistemática, no país onde a produção capitalista estava mais desenvolvida (Inglaterra), uma série de medidas que visavam a abolição das diferenças de classe. O traço comum entre os três estava no facto de não agirem como representantes dos interesses do proletariado que, entretanto, já havia surgido como classe social. Não se propõem emancipar primeiramente determinada classe, mas sim, de uma só vez, a humanidade toda”.
Charles Fourier constituiu uma sociedade que chegou a ter, em 1848, quase quatro mil adeptos, publicando o jornal A Democracia Pacífica. A partir de 1822, empreendeu a construção de comunidades (falanges), que associadas constituíam o falanstério. Neste, de 1600 a 1800 pessoas trabalhavam em regime comunitário, dedicadas igualmente à agricultura e à indústria, que deviam desenvolver-se harmoniosamente, evitando também o embrutecimento produzido nos homens pela realização de um só tipo de trabalho. Os falanstérios, construídos em França e nos EUA, fracassaram (devido justamente à concorrência das empresas capitalistas). Alguns discípulos de Fourier, como Victor Considérant (1808-1893), convergiram com o nascente movimento operário. Considérant bateu-se, ao lado dos operários, nas barricadas do faubourg (bairro) de Saint-Antoine, em junho de 1848. Já tinha compreendido, pela sua própria experiência, que era inútil fazer apelo à generosidade dos ricos e dos mecenas para melhorar a sorte do proletariado.
Para Engels, “o socialismo e comunismo crítico-utópico fracassou necessariamente não só por causa do estado embrionário do próprio proletariado, como também devido à ausência das condições materiais da sua emancipação, condições que apenas surgem como produto da época burguesa”. Para diferenciar-se do socialismo paternalista ou filantrópico dos intelectuais burgueses, as doutrinas que apregoavam a auto emancipação da classe operária passaram a se identificar no comunismo. O desenvolvimento da classe operária criou as bases sociais para a superação do socialismo semifilantrôpico, tanto na França como na Inglaterra:
“Se os utópicos foram utópicos é porque, numa época em que a produção capitalista estava ainda tão pouco desenvolvida, não podiam ser outra coisa. Se foram obrigados a tirar das suas próprias cabeças os elementos de uma nova sociedade, é porque, de uma maneira geral, estes elementos não eram ainda bem visíveis na velha sociedade; limitaram-se a apelar para a razão para lançar as fundações do seu novo edifício, porque não podiam, ainda, fazer apelo à história contemporânea.”
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Se Saint-Simon e Fourier haviam “tirado da cabeça” o seu sistema socialista, foi, ao contrário, pela via da prática que Robert Owen (1771-1858), no país da indústria mais desenvolvida, elaborou o seu próprio sistema socialista. Ele fora fortemente influenciado por Jean-Jacques Rousseau e pela filosofia das luzes e acreditava na possibilidade de educar o homem (sem distinção de classes). A sua grande ideia era a de tornar o mundo racional, e racional significava moral. Mas foi essencialmente devido à sua posição de diretor de uma fábrica, através do contacto com a prática, que veio a elaborar o seu socialismo. Na sua empresa, em New Lanark (Escócia), Owen, que nascera num lar operário, reduziu a jornada de trabalho de 16 para 10 horas diárias. Não aceitou o trabalho de crianças menores de dez anos, e criou para elas creches e escolas gratuitas e laicas. Manteve a higiene da fábrica, combateu o alcoolismo e criou casas de repouso para a doença e a velhice. Conseguiu fazer isso sem que diminuísse a produtividade da empresa. Mas apesar deste exemplo, os capitalistas viram nele um perigo, vindo a ser duramente criticado no Parlamento entre 1817 e 1820, e também perseguido, o que o obrigou ao exílio. Nos EUA tentou fundar, sem sucesso, colónias socialistas. De volta a Inglaterra, Robert Owen criou a National Equitable Labour Exchange, onde produtos fabricados pelos trabalhadores eram trocados por outros que tivessem custado o mesmo tempo de trabalho.
O sistema fracassou (porque muitos trabalhadores “inflacionavam” o trabalho realmente feito, e porque os produtos artesanais passaram a concorrer em desvantagem com os industriais), mas a National Equitable foi o antecedente organizativo da primeira central sindical inglesa. Robert Owen passou então a trabalhar nos sindicatos, chegando a propor, num congresso que presidiu em 1838, a greve geral e a luta de classes. Owen morreu como militante socialista da classe operária. Devido a isso, muitos dos seus discípulos “filantrópicos” abandonaram-no, criticando o seu “radicalismo”. A grande viragem da organização operária deu-se em finais da década de 1830, em Inglaterra, com a organização da Carta do Povo (People’s Charter). Em 16 de junho de 1836, constitui-se a London Working Men’s Association, que conquistaria apoio nacional no ano seguinte, em torno da ideia de uma petição ao Parlamento em favor da reforma política (sufrágio universal masculino). A estratégia utilizada pelos cartistas girava em torno da recolha de assinaturas, que era realizada nas oficinas, nas fábricas e em reuniões públicas, através de uma série de petições nacionais, enviadas à Câmara dos Comuns. Ativistas operários radicais como Harney e O’Connor, influenciados diretamente pelos exilados comunistas alemães, não foram inicialmente aceites na sociedade, e iniciaram uma campanha independente.
A reforma [de 1832] satisfazia os interesses da burguesia, que ganhava espaço político, mas não o operariado, pois sobrevivia o voto censitário (ligado à propriedade), que excluía quase toda a classe operária do exercício dos direitos políticos.
A reforma eleitoral de 1832 (Reform Act), arrancada pela burguesia industrial à monarquia, aumentara o colégio eleitoral inglês de 400 mil para 800 mil membros; o Parlamento aprovou também a reforma que suprimia as “cidades mortas” (pequenas cidades controladas pela nobreza), baixava o censo eleitoral e aumentava o número de deputados. A reforma satisfazia os interesses da burguesia, que ganhava espaço político, mas não o operariado, pois sobrevivia o voto censitário (ligado à propriedade), que excluía quase toda a classe operária do exercício dos direitos políticos. A Carta nasceu da crescente organização operária na Inglaterra. Havia mais organização entre os trabalhadores especializados, como os penteadores e cardadores de lã. Inicialmente, eles colaboravam para pagar o enterro de associados; a associação passou a ter depois caráter reivindicativo. O processo de organização acelerou e também se tornou mais denso. Em 1836 os operários condenados na Inglaterra em revoltas anteriores foram indultados, e começaram a regressar ao país. Nesse clima, a Carta foi proclamada e organizada nacionalmente em 1838, propondo o voto universal e secreto (através de cédula), a abolição da qualificação censitária para exercê-lo (voto por nível de rendimento), o pagamento aos membros do Parlamento (permitindo a entrada nele de trabalhadores), a nivelação dos distritos eleitorais, a eleição anual dos parlamentos (permitindo assim um controle mais efetivo, e a revogabilidade dos representantes parlamentares).
O movimento cartista não formulou um programa político a partir de um conjunto de ideias socialistas, como se fazia já em França, mas a partir das ideias dos reformadores parlamentares radicais. Os seis pontos da Carta estavam baseados no programa que a “Comissão da Reforma” em Westminster tinha esboçado 58 anos antes. As reivindicações de luta pela liberdade já faziam parte da cultura dos artesãos e trabalhadores radicais antes mesmo da formação de sua consciência como uma classe trabalhadora independente. A composição do cartismo era heterogénea, com líderes radicais como William Lovett, em Londres, e Thomas Attwood, em Birmingham; moderados, como Richard Oastler, ou socialistas jacobinos como Julian Harney e James Bronterre O´Brien. O cartismo possibilitou, em escala histórica, um novo estágio do desenvolvimento do movimento operário, o da passagem das sociedades secretas para as sociedades operárias de massas. Isto teve o seu epicentro em Inglaterra, onde o desenvolvimento industrial era mais avançado e a atividade da classe operária mais aberta. A Convenção Nacional das Classes Operárias da Grã-Bretanha, o “parlamento operário” convocado no início de 1839 pelos cartistas, discutiu publicamente a organização da greve geral como meio de conquista do poder político.
No seio da Associação de Operários Alemães de Inglaterra enfrentaram-se as duas concepções, pois um dos seus membros mais influentes, Wilhelm Weitling (chefe espiritual da Liga dos Justos, organização de operários comunistas, que não tardou em ser afastado da Associação) admitia apenas uma forma de propaganda, a das sociedades clandestinas de conspiradores, enquanto Karl Marx exigia que se pusesse fim à propaganda secreta e se transformassem as limitadas agitações subterrâneas num vasto movimento de massas. A preferência por sociedades secretas tinha sido favorecida pela repressão social e política reinante na fase precedente: Por causa do Congresso de Viena houve um florescimento de sociedades secretas, que minavam o solo da vida política e social do continente europeu. Em França, as associações blanquistas eram uma forma de ‘carbonarismo’. A Liga dos Justos surgiu da Liga dos Proscritos. Estes eram intelectuais emigrados de diversas nações. Alguns artesãos que haviam ingressado nessa Ligue des Bannis acabaram por separar-se dos intelectuais e formar a Liga dos Justos. Composta quase exclusivamente por operários, logo se tornou socialista, tendência que se desenvolveu por completo com o golpe de força ensaiado pelos blanquistas em 1839, no qual tomaram parte alguns membros da Liga. Enquanto a antiga desconfiança em relação aos intelectuais começava a desaparecer entre os operários e o proletariado ia buscar as suas armas intelectuais à filosofia, os filósofos descobriam nos operários, nesses “bárbaros” da sociedade civilizada, o “elemento prático da emancipação do homem”. Depois da rebelião dos tecelões da Silésia, em junho de 1844, Karl Marx declarava, no Vorwärts, que a Alemanha não podia “encontrar o elemento ativo da sua libertação senão no proletariado”: A fusão da ideia, da força material de classe e da organização revolucionária pavimentava o seu caminho.
Continuará hoje, dentro das atuais condições laborais e organizacionais da escola, a fazer sentido a ambição de o professor ser um intelectual transformador, que combina reflexão sobre o propósito da educação e da ação na transformação da realidade?
A educação pública portuguesa tem percorrido um caminho moroso sem que tenha cumprido o imperativo ético da mitigação das desigualdades. Com promessas de pontes, túneis e atalhos, as sucessivas políticas abriram becos e fecharam trilhos, mantendo o percurso sinuoso e entrelaçado do peso do determinismo social.
A procura de uma saída não pode continuar a fazer-se de fora; tem de ser assumida por dentro, e o desafio reside na força coletiva dos professores. Considerando-os “guardiões da civilização e da cultura”, Bertrand Russell defendeu que “o sentimento de independência intelectual é essencial ao adequado preenchimento das funções de professor”, contrariamente ao statu quo imperante de “incutir crenças e pressupostos cuja utilidade é estabelecida por aqueles que lhe dão emprego”.
Ora, o panorama atual é dominado por uma cultura de prestação de contas, por um sistema que se rege pelos resultados e – não nos enganemos, não decidimos nada, quem decide é o mercado – por uma pedagogia produtivista. Emoldurada pela competição, a escola atual está muito longínqua da escola cidadã de Carlos Estêvão.
Nesta cadeia, como alerta José A. Pacheco, o professor surge como “um mero funcionário do ato pedagógico”, cuja atividade se subordina aos resultados da avaliação sumativa externa. Impedido de se direcionar para resolver os problemas que gostaria de resolver, permanece num impasse duplo e simultâneo: sentir-se bem e mal na profissão. No que diz respeito à prática profissional, o discurso dos docentes é dominado por uma preocupação com o total cumprimento da planificação, numa espécie de pêndulo compassado pelo tempo que decorre desde o início do ano letivo até à realização do exame final. O sentimento de urgência é transversal: não existe disciplina nem nível de ensino que escape. Mais: nas metodologias contrarrelógio admite-se circunscrever a variedade de materiais didáticos ao manual e a algumas plataformas digitais e fazer convergir práticas ao modelo expositivo e uniformizado.
Nas metodologias contrarrelógio admite-se circunscrever a variedade de materiais didáticos ao manual e a algumas plataformas digitais.
A igualização na avaliação dos alunos é garantida com a aplicação rigorosa dos critérios definidos pelo departamento, com vista à estandardização da aplicação das competências como forma de mensuração do conhecimento, espartilhado em domínios.
Mergulhados numa letargia produzida por um cansaço burocrático extremo e pela subserviência a um modelo de gestão escolar que os subalterniza, os professores adotam um silêncio inconsciente, cujas raízes provêm ou de conformismo ou de um medo instalado, que gera a interiorização da não-contestação. Ora, a obediência passiva resulta de uma mentalidade tecnicista e submissa, transformada, que nada tem a ver com o trabalho transformador de um intelectual.
O professor contemporâneo assemelha-se, pois, a Sísifo: vê-se compelido, ano após ano, a repetir novos ciclos de preparação para testes padronizados, que incluem provas de ensaio – porque tudo se ensaia; vê-se refém da aplicação de uma avaliação que prima pela diversidade de instrumentos e por múltiplas fontes de evidência (grelhas, rubricas…); vê-se enredado em relatórios (PEI, medidas universais, fichas de referenciação para SPO, CPCJ, taxas de sucesso por turma); vê-se cúmplice do ajustamento das práticas de ensino aos desafios da educação inclusiva (pela falta de recursos humanos) e assiste, impotente, a guetizações (como a composição de turmas apenas com alunos estrangeiros, sob o argumento de lhes garantir PLNM).
É percetível que a ação pedagógica dos professores vai muito para além da sala de aula: resolução de problemas disciplinares, bullying como fruto da violência crescente, como o racismo e a xenofobia, no fundo, o reflexo do agravamento das desigualdades sociais. Abre-se um abismo de pendor ético entre aquilo que, como mais que professores, podemos fazer e aquilo que acreditamos que deveria ser feito.
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Ora, a nova lei propicia o agravamento desta realidade e prepara o cavalo de Tróia que minará, ainda mais, a qualidade do ensino. Se recorremos a uma analogia de proporcionalidade inversa, em que a força da carreira (f) é inversamente proporcional ao grau de precarização do sistema (p), a constante (k) representa o volume de trabalho pedagógico efetivamente realizado na escola, isto é, f = k/p, independentemente do vínculo laboral. Agora, pensemos: a fragmentação dos vínculos de trabalho fragiliza e divide os professores, o que, obviamente, compromete a qualidade do trabalho. A precarização não acaba com a função do trabalho, mas, à semelhança daquilo que em 2009 provocou na carreira dos enfermeiros, torna-o mais difícil e mais fragmentado.
E o que podem ser os p, segundo a Lei 99/2025? Um somatório de algumas matérias de natureza subsidiária com consequências como: desprofissionalização da função de professor marcada pelo recrutamento que está em marcha; subserviência ampliada pelos modelos de gestão e de avaliação, com comissões de serviço e avaliação por prémios; a reafetação do pessoal, com fim de QA (Quadros de Agrupamento) e QZP (Quadros de Zona pedagógica) e introdução de mapas de pessoal e a imprevisibilidade do horário de trabalho e da passagem à Tabela Remuneratória Única (TRU).
Com este cenário, como poderá o fio de Ariadne ajudar os professores (Teseu) a sair do labirinto do Minotauro? Talvez se a figura de Ariadne for ancorada em dois pressupostos.
O primeiro, na ideia de Angela Davis de que “é fundamental resistir à representação da história como obra de indivíduos heróicos, para que as pessoas reconheçam a sua capacidade de agir como parte de uma crescente comunidade de resistentes”. Na comunidade escolar, pode produzir um efeito emancipador do valor de cada sujeito e reconstruir o valor coletivo da profissão docente.
O segundo, no resgate proposto por Carlos Fernández Liria – os professores como proprietários da sua função, isto é, como sujeitos intelectuais que definem, em comunidade, o sentido do trabalho pedagógico.
Se foi uma ambição histórico-crítica a ideia do professor como intelectual transformador (que combina reflexão sobre o propósito da educação e da ação na transformação da realidade), a questão que hoje se coloca é se continuará a fazer sentido esta ambição dentro das atuais condições laborais e organizacionais da escola. Talvez o fio de Ariadne proposto não seja uma solução, mas possa apontar uma direção: valor coletivo e autonomia docente.
Apesar da derrota de Montenegro e de Ventura na greve geral e nas eleições presidenciais, a “concertação” em volta do pacote laboral recomeçou. E recomeçou porque Seguro veio em socorro do desacreditado Montenegro exortar centrais sindicais e patronato a regressarem à mesa das “conversações”. Se a resposta dos trabalhadores for fraca, Montenegro e Ventura negociarão umas modificações cosméticas para fazer de conta, e o pacote passará no Parlamento.
O Conselho Nacional da CGTP, reunido a 18 de Março, aprovou uma resolução em que, a abrir, declara, a propósito do pacote laboral, que “A greve geral [foi] momento alto da convergência na luta”. Acrescenta que “os trabalhadores rejeitaram o pacote laboral, exigem a revogação das normas gravosas que já hoje a legislação contém (...). Não aceitam retrocessos, exigem um outro rumo e uma outra política”.
Assim é. Pouco preocupa mais os trabalhadores conscientes do que a possibilidade de o pacote laboral de Montenegro ser aprovado. Não só ele reduz drasticamente os direitos e condições de trabalho, mas, restringindo a liberdade sindical e o direito de greve, restringe gravemente a possibilidade de lutar por melhores salários e direitos no futuro.
Ora, já por algumas vezes o futuro do “pacote laboral” pareceu seriamente comprometido. A primeira foi fruto directo da grande greve geral de Dezembro. O PS já declarara que não votaria o pacote. O caudilho fascista Ventura, que sabe sempre de que lado sopra o vento, declarou então que não o viabilizaria naquela forma, por ele fazer suportar toda a carga aos trabalhadores. Para o governo da AD, minoritário, mesmo com o apoio da IL, a via parlamentar periclitava.
A segunda crise foi logo a seguir à eleição presidencial. As confederações patronais declararam, exasperadas, que, dado a UGT continuar indisposta a recuar das suas “linhas vermelhas” e a exigir a reposição de direitos pré-troika, “nada mais havia a discutir” (a CGTP, que não fora convidada para as “conversações”, protestou por ser excluída).
Apesar disso, a “concertação” recomeçou. E recomeçou porque o Presidente eleito, Seguro, veio em socorro do desacreditado Montenegro exortar centrais sindicais e patronato a regressarem à mesa das “conversações”.
Em resultado de todas estas manobras, mantém-se intacto o perigo para os trabalhadores.
Nós, no Maio, pensamos que os sindicatos servem para negociar e arrancar ao patronato os melhores resultados possíveis para os trabalhadores, na correlação de forças dada. Em contrapartida, discordamos de que os sindicatos participem na “concertação social”, que é política e institucional. “Concertação” não é negociação. É associação ao Estado e às políticas dos governos. Mesmo com governos “de esquerda”, se não romperem com o quadro institucional, essas políticas são sempre condicionadas e determinadas pelo mandamento de defender os interesses dos proprietários dos grandes meios de produção e troca e pelos ditames austeritários de Bruxelas.
Discordamos, portanto, da política de ambas as centrais sindicais de participação no CES, na concertação social e restantes instituições estatais e para-estatais. Nada de bom daí pode vir para os trabalhadores.
Em contrapartida, concordámos plenamente com ambas as centrais quando, face ao pacote laboral apresentado, elas declararam que a única solução que podiam aceitar era a retirada do pacote e não a sua concertação.
E fomos, desde o início, partidários de que as centrais convocassem conjuntamente a greve geral. Quando assim efectivamente aconteceu, verificou-se que os trabalhadores e a juventude aderiram em massa. A greve e a grande manifestação de 11 de Dezembro de 2025 em Lisboa ficou na memória de todos, e atordoou o Governo e o patronato.
A evidência é que a unidade na acção das grandes organizações representativas surte impacto máximo, sem prejuízo das legítimas diferenças de opinião e posições sindicais e políticas de cada um.
Independentemente da “influência” e dos efectivos que cada central reivindique para si, acções convocadas em unidade são um sinal poderoso para todos os trabalhadores: não há divisão; avançar, fazer greve, sair à rua não é perda de tempo e energia, é a via para a vitória.
Assim sendo, é difícil compreender que a longa resolução do Conselho Nacional da CGTP seja omissa em propostas à UGT e aos sindicatos independentes para prepararem em conjunto novas acções e uma nova greve geral, mais dura e longa, se o Governo não recuar. A resolução enumera, como todos os anos, o calendário de acções da CGTP para os meses a vir. Na linha final, menciona: “(...) ampla frente de luta construída, (...) que se desenvolverá com todas as formas de luta que a situação imponha, incluindo a Greve Geral.” Mas sem uma palavra sobre a preparação concreta da greve geral na unidade de todos os trabalhadores e organizações, caso a aprovação do pacote esteja iminente.
Todos sabemos o que acontecerá se o movimento operário e sindical não responder à altura. O movimento protofascista de Ventura é uma criatura do patronato, que este tem em reserva como última instância para pôr os trabalhadores “nos eixos” se nada mais funcionar. Se a resposta operária e sindical for fraca, Montenegro e Ventura negociarão umas modificações cosméticas para fazer de conta, e o pacote passará intacto no Parlamento.
Publicámos há semanas a plataforma unitária elaborada pelas direcções de uma dezena de sindicatos não filiados, que pedia a unidade para preparar nova greve geral, caso necessário. É agora responsabilidade das direcções das duas centrais sindicais pronunciarem-se claramente pela luta unida de todas as organizações sindicais e de trabalhadores para derrotar o pacote laboral.
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