Crise Climática

A transição verde e o novo imperialismo
categoria-dossier: Não comemos Painéis Solares Capitalismo "verde" Crise Climática edicao-2025-11-13 (04)

A transição verde e o novo imperialismo

Combinando as exigências dos movimentos climáticos, especialmente entre os jovens, com a retórica da “soberania energética”, assistimos a uma reedição das lógicas imperialistas sob roupagem ecológica.

Jonas van Vossole
A crise climática
categoria-inquietação Ação Coletiva Crise Climática edicao-2025-11-06 (03)

A crise climática

Não é novidade que existe atualmente um fenómeno de alterações climáticas provocado pela ação humana. Talvez algo que não se ouça de forma mais regular ou simplesmente mais assertiva é que esta é uma crise devida tanto à sua urgência como à injustiça

José Borges
categoria-dossier: Não comemos Painéis Solares Capitalismo "verde" Crise Climática edicao-2025-11-13 (04)

A transição verde e o novo imperialismo

Combinando as exigências dos movimentos climáticos, especialmente entre os jovens, com a retórica da “soberania energética”, assistimos a uma reedição das lógicas imperialistas sob roupagem ecológica.

Os desertos de plástico que cobrem o meio rural são a face mais visível de uma nova fase do desenvolvimento do capitalismo e da sua relação com a natureza. Com o chamado capitalismo verde, entramos numa era que, paradoxalmente, parece uma volta ao passado, uma era de conquista violenta, corrupta e sem regras. Nada que se pareça com o que é anunciado: sustentabilidade, desenvolvimento, modernidade e proteção ambiental.

O filósofo brasileiro Vladimir Safatle, num texto provocador intitulado “Outra destruição da natureza é possível”, argumenta que o próprio conceito de natureza é uma invenção do capitalismo moderno. A ideia de natureza como algo separado da sociedade — o selvagem, o intocado, o que está fora de controlo — é uma construção que não faz sentido fora da lógica capitalista. Basta lembrar que, na Idade Média, a “lei natural” era entendida como a ordem divina que regia a sociedade, e não algo oposto a ela. O conceito moderno de natureza surge, portanto, como condição para o capitalismo: designa um território “gratuito” e disponível para conquista, exploração e espoliação — aquilo que Marx, em O Capital, denominou acumulação primitiva.

Tudo o que é gratuito ou barato para o capital é considerado “natural”: os rios e o ar poluídos, os solos explorados, a floresta amazónica devastada, os corpos indígenas escravizados e os corpos das mulheres reduzidos à função reprodutiva da vida humana. A menos que alguém reclame a propriedade dessa “natureza”, ela é gratuita (sem valor de troca) mas, paradoxalmente, essencial ao funcionamento do capitalismo. Qualquer mercadoria é sempre uma combinação de natureza e trabalho (como já Marx afirmava na Crítica do Programa de Gotha). Assim, a gratuidade e a violência contra a natureza constituem as condições de existência do capitalismo.

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Muito se tem falado, nas últimas décadas, do termo antropoceno, que designaria uma nova era geológica marcada pela ação humana sobre o planeta, da poluição às alterações climáticas. Contudo, esta noção é histórica e socialmente incorreta. O que vivemos não é o antropoceno, mas o capitaloceno: uma era inaugurada há pouco mais de dois séculos, com a industrialização e a expansão do capital. Não é “a humanidade”, que habita a Terra há dezenas de milénios, que transforma o planeta, mas um sistema específico de produção e acumulação. Igualar o impacto de um CEO da BP ao de um trabalhador precário ou de um indígena da Amazónia é uma distorção profunda — o verdadeiro culpado é o capitalismo.

Desde a Revolução Industrial, a relação entre capitalismo e natureza tem sido mediada sobretudo pelas energias fósseis. Embora a industrialização tenha começado com formas de energia renovável — como a hidráulica, usada na indústria têxtil, como na Covilhã —, foi o carvão, e depois o petróleo, que deram ao capital a base para o seu crescimento exponencial. Eram fontes baratas, transportáveis, quantificáveis e constantes, a mercadoria energética perfeita. Mais tarde, o petróleo tornou-se também matéria-prima essencial da indústria química, farmacêutica e agrícola. Daí o conceito de capitalismo fóssil. Assim, a energia fóssil entra tambem no coração das contradições ecológicas do capitalismo, primeiro como recurso escasso, depois como fonte das alterações climáticas globais.


“Não é ‘a humanidade’, que habita a Terra há dezenas de milénios, que transforma o planeta, mas um sistema específico de produção e acumulação.”

O problema fundamental desta visão da natureza como algo gratuito e exterior ao humano é que essa separação é uma ficção. A natureza somos nós: o nosso corpo, o nosso ambiente, a nossa saúde, as nossas condições de vida e trabalho. O capitalismo tende a alienar-nos desses ciclos sustentáveis, provocando crises que são tanto ecológicas como sociais e económicas.

Com o surgimento do Estado social e das políticas de bem-estar, respostas às crises do capitalismo e às lutas laborais pela via reformista, começaram a ser legisladas várias dimensões da nossa relação com a “natureza” enquanto forma de direitos sociais; nomeadamente, regulamentaram-se determinados processos de produção e limitaram-se os direitos de poluição das empresas, com o objetivo de proteger a saúde, a segurança e o meio ambiente. No entanto, tal como Rosa Luxemburgo criticava a via reformista dos direitos sociais, também estas reformas ambientais foram incorporadas pela lógica imperialista: as empresas europeias que já não podiam poluir no chamado mundo “civilizado”, para produzir bens destinados aos mercados europeus, passaram a fazê-lo com maior violência nas colónias e, mais tarde, no mundo neocolonial.

Essa lógica imperial regressa hoje sob a bandeira da transição verde. Perante a necessidade de responder às alterações climáticas, consequências diretas da dependência do capitalismo das energias fósseis, surgiu um novo sector do capital, que investe massivamente em tecnologias “verdes”: energias renováveis, mobilidade elétrica, mercados de emissões, entre outros. Combinando as exigências dos movimentos climáticos, especialmente entre os jovens, com a retórica da “soberania energética” — que visa reduzir a dependência da Europa face à Rússia e ao Médio Oriente —, assistimos a uma reedição das lógicas imperialistas sob roupagem ecológica.

A chamada transição verde tem significado, em muitos casos, a reintrodução da violência territorial e da corrupção política e empresarial. Sob o pretexto da descarbonização, a Europa tem promovido o regresso da mineração em grande escala, flexibilizando regulamentos e reduzindo mecanismos de consulta pública. Vemos renascer alianças obscuras entre Estado, empresas e ciência, como nos casos das barragens da EDP ou do hidrogénio em Sines. Trata-se de um novo ciclo de acumulação por espoliação: apropriação de territórios, expulsão de populações e destruição de modos de vida locais.

Em Portugal, essa realidade é visível nas concessões de lítio e de terras raras no Barroso e na Argemela, que poluem rios e desfiguram comunidades rurais; nos campos cobertos por plástico das centrais fotovoltaicas no Alentejo e na Cova da Beira; nas paisagens dominadas por eólicas e barragens que destroem habitats e biodiversidade; e nas monoculturas para biocombustíveis de pinheiros e eucaliptos, que esgotam solos e alimentam incêndios.

Se isto é o capitalismo verde, ele nada traz de bom, nem para a natureza, nem para os seres humanos que vivem nas suas margens. Pelo contrário: o novo imperialismo verde confirma que, mesmo na era da sustentabilidade, o capitalismo continua a expandir-se através da destruição das formas de vida que afirma querer salvar.

categoria-inquietação Ação Coletiva Crise Climática edicao-2025-11-06 (03)

A crise climática

Não é novidade que existe atualmente um fenómeno de alterações climáticas provocado pela ação humana. Talvez algo que não se ouça de forma mais regular ou simplesmente mais assertiva é que esta é uma crise devida tanto à sua urgência como à injustiça. Comecemos então pelo fator de urgência. A ciência é clara: se não pararmos a emissão de gases com efeito de estufa de forma a evitar que alcancemos os 2 graus Celsius de aquecimento, o nosso futuro está traçado e não será, no mínimo, agradável. É um futuro onde a água e o alimento faltarão devido a secas, onde a fome extrema duplicará nas regiões do globo mais afetadas por esta crise. Em que é projetado que cerca de 1200 milhões de pessoas se verão obrigadas a abandonar a sua terra por causa de catástrofes climáticas até 2050. Note-se que o valor atrás mencionado corresponde a cerca de 15% da população mundial. A segunda faceta desta crise é também a injustiça, porque é desigual quem a produz e quem sofre com ela. É facto não tão conhecido que metade das emissões de CO2 provêm da atividade dos 10% mais ricos do planeta, que se concentram no Norte global. Simultaneamente, as pessoas mais afetadas são as mais pobres e do Sul global. São também visíveis as cicatrizes do imperialismo, em que uma elite explora não só os trabalhadores em casa, mas também extrai as riquezas dos países que esmagou por meio da força. Em suma, não serão aqueles que começaram esta crise que irão sofrer com ela. Deparando-se com a magnitude da injustiça desta crise, podemos questionar-nos sobre o porquê de não haver uma solução imediata, uma resposta rápida por parte dos governos. Estes governos operam segundo as regras de um sistema económico que coloca à frente da vida o lucro: o capitalismo. A razão pela qual quase nada é feito é somente a promessa de lucro e os interesses de um punhado de empresas que lidam com combustíveis fósseis e que preferem ver a morte de milhares do que a perda dos seus capitais. Perante esta situação poderemos perguntar-nos o que há a fazer para além das óbvias respostas individuais de andar menos de carro e manter as luzes de casa apagadas sempre que possível. A resposta a isto dá-a a história: somente com a nossa ação coletiva foi possível conquistar qualquer tipo de direito ou regalia, seja nos postos de trabalho ou na sociedade em geral. E será também nesta organização e ação coletiva que conquistaremos um planeta em que viveremos sem medo de cheias ou temporais, sem donos do mundo que nos condenarão à fome e à deslocação forçada. Esta luta já existe e é protagonizada diariamente por estudantes, comunidades indígenas e movimentos de trabalhadores.

Apelo assim aos leitores que se juntem em solidariedade com os bloqueios de escolas que serão feitos na semana de 17 a 21 de novembro, que culminarão numa manifestação em que os estudantes convidam toda a sociedade civil a participar no dia 22 do mesmo mês. Vamos mostrar a quem nos governa que faremos do acesso a um futuro seguro um direito nosso, que não importa quanto o lucro lhes valha, que nós juntos já mudamos o mundo e que continuaremos a fazê-lo.

A transição verde e o novo imperialismo
A crise climática
A transição verde e o novo imperialismo
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A transição verde e o novo imperialismo

Combinando as exigências dos movimentos climáticos, especialmente entre os jovens, com a retórica da “soberania energética”, assistimos a uma reedição das lógicas imperialistas sob roupagem ecológica.

Jonas van Vossole
A crise climática
categoria-inquietação Ação Coletiva Crise Climática edicao-2025-11-06 (03)

A crise climática

Não é novidade que existe atualmente um fenómeno de alterações climáticas provocado pela ação humana. Talvez algo que não se ouça de forma mais regular ou simplesmente mais assertiva é que esta é uma crise devida tanto à sua urgência como à injustiça

José Borges

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