O Chega fez a sua primeira acção de milícias. Para a justificar socorreu-se da lógica formal, que há muito tomou conta do espaço público: se estudantes ocupam, disse o Chega, porque não invadimos também? A acção desta milícia, foi – não é de somenos! – contra um órgão de informação e na academia. Ou seja, a esfera pública que não controlam. Ora a greve, parar a produção, é legal, para defender os trabalhadores, mas parar a produção pelos patrões, lockout, é ilegal. Matar um judeu, comunista, cigano ou homossexual na II Guerra Mundial era matar; matar um nazi também é matar. Ambos os lados matavam, uns para impor a barbárie, outros estavam na resistência para defender-nos da barbárie. Prender um nazi assassino é proteger a sociedade, prender um opositor político é impor uma ditadura à sociedade. O Chega não é um partido, é uma milícia fascista, foi exatamente isso que foi ontem, às claras: uma milícia contra estudantes e jornalistas. Quem achar que é uma brincadeira o que se passou em Coimbra não percebe nada de política.
Matar um judeu, comunista, cigano ou homossexual na II Guerra Mundial era matar; matar um nazi também é matar. Ambos os lados matavam, uns para impor a barbárie, outros para defender-nos dela.
Ocupar uma praça para lutar pelo direito à habitação é ocupar um espaço público para defender a dignidade humana contra o roubo pelos fundos imobiliários, os que o Chega aprovou há duas semanas com o PSD e a IL; ocupar as terras e impedir máquinas de minas de avançarem e destruírem a água potável é lutar pelo direito à vida. Tudo isto é resistir, direito inscrito em todas as Constituições modernas. Já um partido fascista como o Chega invadir um órgão de comunicação social é esmagar o direito de os jornalistas decidirem quem entrevistam, como e quando. É usar da violência para impor uma ideologia que justifica a morte e perseguição de quem consideram indigno de viver ou ter direitos.
Se um israelita atira uma pedra a um palestiniano está a lutar por roubar-lhe as terras, se um palestiniano atira uma pedra a um israelita está a lutar para não ser roubado.
O Chega é um partido-milícia fascista. Não vivemos hoje num regime fascista, nem acho que sejam favas contadas lá chegarmos; a resistência na Europa ergue-se e apenas começa. Mas o Chega é uma criação monstruosa das classes dirigentes portuguesas que, com medo de greves e resistência popular aos salários miseráveis e horários de escravatura, financiam, apoiam e entrevistam vezes sem conta, nos jornais e nas televisões privadas e também do Estado, esta organização de violência e morte, que espalha pelo país a mais elementar manipulação e violência. Ontem silenciaram uma rádio, mas há anos que calam jornalistas e deputados, aos gritos e com ofensas. Já eram uma milícia, só não via quem não queria.
Precisamos de salvar Portugal do Chega. Não vai ser com o PS, já se percebeu, nem vai ser com queixinhas no Facebook. Organizemo-nos! Como dizem os bravos de Covas do Barroso, o povo tem de se juntar e impor a justiça, precisamos mesmo de nos juntar, organizar, porque há um mundo novo de paz que quer nascer. Para isso, precisamos de tirar da frente estas milícias da morte e da guerra, como o Chega.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas. De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
Não sei se tiveram hipótese de perder quatro preciosas horas da vossa vida a troco da penosa comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, o “hit” deste verão.
Imagino que não. Vocês parecem ser pessoas bem mais sensatas do que eu.
Todo aquele espectáculo, sim, mesmo deprimente não deixou de ser um espectáculo, é um resumo perfeito do estado do País, em particular da governação de Montenegro.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando.
Não vou discutir tanques, atrelados ou sobras da CP. Nada disso me interessa e, já agora, nem ao Chega. O “crime” do actual ministro da Administração Interna, aquilo que realmente Ventura nunca conseguiu perdoar, foi a clareza com que Neves, ainda na posição de director da PJ, dizimou as teorias da extrema-direita de associar a insegurança ao aumento da imigração. Luís Neves muniu-se de factos e dados do INE, o Chega tinha as “verdades” das sensações e os estudos do tik-tok. Não é difícil adivinhar quem saiu por cima nesse despique.
Há meses que o Chega persegue Luís Neves e, depois de toda a gritaria nas redes sociais e nas 15 entrevistas “exclusivas” do Ventura (quando é que lhe arranjam uma caravana para acampar entre os estúdios da CNN e do NOW?), chegaram à CPI sem uma pergunta relevante para fazer.
O nível de incompetência, a falta de preparação e até as dificuldades de articular frases em português correcto dos deputados do Chega são tão gritantes, que acabo por ser forçado a concluir duas coisas. A primeira, e que já todos sabíamos, é que o Chega não está minimamente interessado na queda de Luís Neves. Precisam de um alvo para fingir que fazem oposição e que lhes alimente o barulho. É tudo o que sobra a quem não tem programa. A outra conclusão, mais popular, mas também simples de compreender, é que de facto, quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Montenegro também deve estar contentíssimo com todo este forró. Quanto mais a vara de marmeleiro aponta ao MAI, mais folgam as costas do CEO da Spinumviva. Se não quiséssemos pensar muito, bastar-nos-ia isto. Um país que elege, duas vezes, um empresário que tudo o que tinha para vender era a sua lista telefónica, quer assim tanto saber de tanques em Odemira ou carros apreendidos e legalmente utilizados? Vá lá, temos de começar a olhar para os movimentos da extrema-direita com os olhos abertos.
A dada altura, Pedro Pinto, esse Churchill do aposento da Moita, quis que Luís Neves falasse dos percevejos nas esquadras não sei de onde. O Chega deve ter extraído daquelas quatro horas uns bons três ou quatro vídeos de 30 segundos para alimentar aquela legião de fãs acrítica e adormecida que ainda acha que dali chegam as verdades.
Cá fora, no mundo real, o BCE aumentava pela segunda vez, no espaço de dois meses, as taxas de juro. A gasolina chegava a 2,2 euros por litro, os níveis de leitura e matemática da escola pública regrediam 20 anos.
Os Portugueses, cada vez mais pobres e endividados, sem conseguirem chegar ao fim do mês e sem perceberem como é que o trabalho, o estudo ou o esforço lhes podem trazer novos patamares no elevador social.
Perante este quadro de miséria, a AR discute o carro do Xuxas e todo o nosso debate político gira à volta de um tanque em Odemira. Nada, absolutamente nada, do que é relevante para a vida dos Portugueses é debatido pelos deputados da nação.
É uma mediocridade que agrada a Luís Montenegro porque lhe permite continuar a viver de propaganda e tentativas de reforma. É óptima para o Chega porque perpetua a pobreza que lhes dá votos e alimenta a gritaria de que vivem. E é também excelente para os liberais porque, perante a inoperância do Governo ou as limitações da extrema-direita, os discípulos de Milei, que até sabem usar talheres, quase que passam por gente que se preocupa com a populaça.
Não tenho grandes dúvidas sobre o abandono a que este Governo e os partidos de direita, da mais tradicional até aos extremistas, sujeitaram os Portugueses. Em especial aqueles que vivem do seu trabalho. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas.
De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
“Como é viver no município onde o Chega ganhou?” Esta é a pergunta que mais tenho ouvido no último ano, quase ex-aequo com “como é que o Chega ganhou Albufeira?”
Quero acreditar que a minha condição de desenraizado, alguém sem terra depois de se ter mudado de Lisboa para Albufeira há 9 anos, sem conseguir pertencer a nenhum dos locais, também eles desterritorializados, me permite ter uma visão mais clara da situação.
Estou igualmente distante do bairrismo local que se orgulha da sua própria destruição ao ser a capital do turismo, não apenas por discordar dessa valorização, como do Lisboa-centrismo que leva a interpretar o país à luz do que acontece na capital. Aliás, em jeito de piada costumo dizer aos meus amigos de Lisboa que brincam comigo por eu viver em terra de Chega, que ele estão pior, têm o Chega e o Moedas, um agente infiltrado.
Praticamente um ano depois da vitória de Rui Cristina em Albufeira e do seu partido em 3 das 4 freguesias, é já dolorosamente evidente que, tanto o presidente como o próprio CH operam na lógica de continuidade do PSD, acelerando, apesar de tudo, os efeitos colapsantes das suas políticas.
Muitos dos problemas de Albufeira já existiam antes de Rui Cristina assumir o cargo, mas a partir desse momento questões essenciais como a existência de passeios, iluminação pública, limpeza, recolha de lixo e gestão hídrica tornaram-se responsabilidade sua. Uma responsabilidade que escolheu, tal como os seus antecessores, ignorar, socorrendo-se do que aqui é louvado como a panaceia para todos os males: o turismo.
É para manter a indústria mais extractiva de todas que Albufeira se tem vindo a sacrificar desde o fim dos anos 70. Por si existe a cintilante Albufeira litoral, pintada de branco, todas as manhãs limpa e ordenada depois das noites turísticas cujo principal interesse é a alcoolização. Essa vitrina, incorpora spas, gastronomia tradicional portuguesa e um modus vivendi estilo Benidorm, consome implacavelmente todos os recursos, individuais e colectivos da outra Albufeira, a simultaneamente real e invisível.
Essa Albufeira, a dos que moram sem vista para o mar ou tempo para o visitar, que encontram todos os dias entulho e detritos junto ao contentor, que precisam de se deslocar de automóvel para fazer a reciclagem a mais de 1 km de distância, como também dele necessitam para tudo o resto, a menos que estejam dispostos a arriscar a vida de bicicleta nas estradas saturadas do verão, como eu e mais alguns loucos, é a Albufeira que acreditou nos cartazes que ostentavam a frase: “O Chega resolve.”
É importante ler o livro do Miguel Carvalho para perceber que o eleitorado do Chega não é necessariamente igual aos tipos abomináveis que se passeiam no parlamento como um fidalgo pela sua ganadaria no século XIX, e tentar compreender as razões pelas quais o partido de André persevera, embora as realidades locais e nacionais sejam distintas em alguns pontos.
Depois de acompanhar todos os debates, não fiquei surpreendido quando Cristina conquistou a câmara, pois numa prova cega, ele sairia certamente vencedor. Não por mérito próprio, mas por demérito dos oponentes, onde se contavam um candidato do PS sem retórica ou ideias que não a reprodução do insustentável estilo de vida vigente, sob cuja alçada, tanto Livre como BE se anularam numa coligação, a IL com o seu discurso de fetichismo thatcherista a promover o mercado livre como a igreja a terra prometida, um PSD estafado cuja melhor ideia que apresentou foi fazer um dinoparque igual ao da Lourinhã, e a ausência do PCP.
Cristina não é a explicação da sua própria vitória, não possui magnetismo pessoal, não é da terra ou tem o carisma de grande líder que uma certa facção portuguesa adora. A sua vitória deve-se ao que não parecia ser. Não parecia ser continuidade.
A sua vitória é explicada por uma conjugação de factores, alguns globais, outros específicos, sendo o mais importante deles a distância física e mental que serve de barreira entre o resto do país e o Algarve, equivalente a uma ZEE, Zona Económica Especial, estatuto extraordinário conferido às cidades sweatshops chinesas.
Explica-se também pela pouca oposição existente durante os executivos de José Carlos Rolo, Carlos Silva e Sousa e Desidério Silva, que reduziram durante mais de duas décadas, as suas acções à assembleia municipal e ao período de campanha eleitoral, contribuindo para o legítimo sentimento de abandono de uma população cada vez mais empobrecida, envelhecida e em busca da bala de prata que o neoliberalismo promete para todos os que se ajoelharem diante da sua divindade.
Cristina fez uma única promessa durante a campanha, a de não dar casas a ciganos, assim como Trump, no primeiro mandato, construiu a sua campanha sobre o muro na fronteira com o México. O discurso contra a comunidade cigana já era recorrente em Albufeira muito antes de ser o branding fundacional da extrema-direita nas televisões, e ninguém se coibia de o proferir, pelo que, Cristina veio institucionalizar a ideia de que os ciganos são o problema também em Albufeira e por sua culpa, não há casas onde morar, ainda que uma grande maioria viva nos dois acampamentos próximos da minha casa.
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Embora não seja noticiado, todos os anos há vários pequenos incêndios florestais no perímetro em redor dos acampamentos ciganos e em várias ocasiões em que assisti à actuação dos bombeiros, a conclusão, tanto de civis como de bombeiros, é de culpabilização da comunidade cigana, mesmo sem provas. Recordo-me de ter ligado para os bombeiros há poucos meses para avisar de um incêndio e o primeiro comentário do outro lado foi: “Isso são os ciganos.”
Não é, portanto, surpreendente ter sido um bombeiro que afirma não perceber nada de política a vencer a freguesia de Albufeira e de Olhos de Água. Também não são surpreendentes as conversas que tive com um membro do executivo de Cristina, que afirmava não ter nada contra os ciganos, mas “isto é o que as pessoas querem ouvir”, insistia depois de eu tentar explicar que não podia estigmatizar toda uma comunidade para seu proveito político, ilustrando, involuntariamente, o populismo da forma mais exemplar possível.
Uma vez que os ciganos são pouco visíveis no quotidiano da cidade e raramente na zona litoral, foi necessário um bode expiatório com as costas mais largas, e eis que entram os imigrantes em cena.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita, ainda no executivo de José Carlos Rolo, o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”. A acusação contra os imigrantes ficou no ar e nos cartazes de Ventura, mas não nos de Cristina, talvez por ter compreendido rapidamente que, sem eles, todas as empresas voltariam a ter falta de mão de obra num nível de desespero tão grande, que, tanto a Sonae, como a Jerónimo Martins e o supermercado Apolónia faziam campanhas de recrutamento e ostentavam cartazes de oferta de emprego, o ano todo.
Os bots de André nas redes sociais trataram do resto e bastava estar em qualquer grupo de Facebook remotamente relacionado com Albufeira para assistir à regurgitação ad nauseam de comentários sobre o sentimento de insegurança, cujas razões o RASI veio desmentir, ao ver passar os grupos de “indianos”, apesar de nunca ter havido qualquer aumento de criminalidade relacionado, nem aqui, nem no resto do país.
Neste ponto em particular, o executivo anterior abriu caminho para a vitória do seu oponente mais à direita, primeiro por negar o aumento de criminalidade ao mesmo tempo que aumentava o policiamento e depois, ao permitir que seis autocarros descarregassem 300 nazis de fora da cidade para marcharem pelas ruas de Albufeira, em cânticos e erguendo tochas como se estivéssemos na Itália de Mussolini.
Aqui e em todo o lado – Israel prova-o –, se há cor que os racistas respeitam mais do que o branco da pele, é o verde do dinheiro, por isso basta considerar a questão étnica no âmbito da luta de classes para perceber que os grupos de homens imigrantes, a vaguear pelas ruas sozinhos por terem sido impedidos de trazer as famílias, assustavam por “não se enquadrarem”, mas os asiáticos donos das cadeias hoteleiras a passear em carros topo de gama estão tão bem inseridos como as comunidades inglesas que vivem numa bolha, qual reformado da Florida.
Essa é uma das ideias que me surge recorrentemente quando penso sobre esta zona: Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
A esmagadora maioria das pessoas locais entre os 25 e os 55 anos conseguem permanecer em Albufeira (e no Algarve) porque não têm de pagar renda, ou por terem herdado uma casa de família, terem recuperado uma ruína ou comprarem casas de aço ou madeira, dado que, muito antes de a gentrificação ser considerada um problema nacional por acontecer em Lisboa e no Porto, já o era no Algarve.
Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
Os outros não só não encontram casas disponíveis como não conseguem pagar as que encontram, ou, nos raros casos em que tal é possível, deparam-se com a escolha entre sobreviver na precariedade do turismo ou arriscar na criação do próprio emprego numa zona onde se promove sol, noite e mar, mas quando a festa é permanente, é mera encenação a cobrir o vazio.
Quando a única coisa que há para oferecer é isso (ao contrário de Lisboa, onde existe oferta cultural), o consumo segue a lei da oferta e da procura, mudando-se para onde o preço for mais baixo, sejam as Balcãs, o Norte de África ou Espanha, revelando a bolha que é o turismo.
Uma vez rebentada a bolha, Albufeira entra em desespero, como aconteceu na grande crise de 2008 e está a acontecer agora, com taxas de ocupação em Julho na casa dos 30% e o pânico instalado dado a noite da Rua da Oura estar abaixo do esperado.
Mesmo dentro dos trâmites da arquitectura predatória turística, Cristina está em modo de implosão, como seria expectável de um partido composto essencialmente por refugo do PSD.
Além de atingir Albufeira no seu orgulhoso centro, o turismo, o executivo de Cristina tem vindo a devastar as poucas efemérides que restavam orientadas para os residentes e não para os visitantes. São exemplos disso o fim do mercado quinzenal e da Festa de Natal, no ano passado reduzida a uma tenda com um ringue de patinagem.
Em seu lugar recebe-se um concurso de street food do melhor hambúrguer, confirmando mais do que o apagamento dos resquícios da identidade de Albufeira, aqui sim, a sua Grande Substituição por paródias malparidas de modelos anglo-saxónicos.
O culminar dos constantes tiros no pé de Cristina, como aconteceu em Mora, onde o Chega ganhou, materializa-se na grotesca farsa de transformar a festa do Dia do Município, habitualmente na praia dos Pescadores com presença da comunidade e animação em palco, num provinciano espectáculo de luz projectada na fachada da autarquia.
Faz sentido para uma autarquia que é apenas fachada, onde a gramática do medo assenta menos em o Outro vir tomar o lugar dos que cá estão, uma vez que existem mais lugares do que ocupantes, do que em o Outro não vir tomar o lugar que lhe é reservado com reverência. Cristina, qual Salazar sulista com toques de KKK em modo messias, enquanto, tal como Cavaco e Montenegro, roga que o deixem trabalhar, faz ajustes directos no valor de 239 mil euros a uma empresa apoiante do CH (ver revista Sábado), contrata a irmã sem concurso público (ver jornal Público), descapitaliza o Imortal até ao ponto de ameaçar as equipas profissionais de um clube que foi campeão sub-18 há um ano. Numa autarquia onde a cultura se resume a comer, beber e servir, o desporto assume um papel de inserção social tão importante como em bairros problemáticos, embora os desertos sejam diferentes.
Entretanto, com temperaturas acima dos 30 graus há várias semanas, a população a decaduplicar durante o verão e as canibalizantes culturas de regadio de alta intensidade, como o abacate e a laranja, cuja figura de proa é Macário Correia, eleito presidente da Assembleia Municipal de Faro com o apoio do Chega, Cristina manifesta-se contra a dessalinizadora. Desta forma, a direita coopta a pouca resistência ambiental existente, deixando os deserdados da esquerda e dos movimentos populares num beco sem saída entre o silêncio e o alinhar de interesses com o Chega.
Os motivos de Cristina, é claro, são menos do que puros e procuram defender, não o ambiente, mas a hotelaria junto da praia da Falésia, que receberá as descargas de água com metais pesados provenientes do processo da dessalinizadora, resultando na destruição da que é considerada uma das mais belas praias da Europa e de todo o seu turismo.
O deprimente é que Cristina foi o político mais activo contra a dessalinizadora e tem razão sobre a sua futilidade. Não por as barragens estarem cheias, mas porque colmatará apenas as perdas de água de rebentamento de condutas e beneficiará, não a população, mas os abacateiros de Macário e a hotelaria.
Doze meses depois de Rui Cristina, que, nas poucas vezes em que aparece nas ruas rodeado de seguranças, é para tiktoks ou fotografias, ter tomado posse, alguns dos apoiantes começam a ser seus críticos, atestando que deixar o Chega autodestruir-se poderá ser a via mais rápida para nos livrarmos dele.
Vários órgãos de imprensa, nomeadamente o Expresso, o Público e a CNN, reproduziram elementos filtrados do dossiê da acusação do Ministério Público ao grupo armado nazi Movimento Armilar Lusitano (MAL).
Referem que o grupo mantinha uma lista de “alvos” potenciais que incluía personalidades políticas e jornalísticas, associações e partidos, na maioria ligados ao movimento dos trabalhadores e à esquerda — incluindo Raquel Varela, da associação Maio em Movimento, que publica o Maio, bem como outros membros associados do Maio ou que com ele colaboram, dirigentes sindicais, e que são também visados nesta ignomínia, uma “lista negra” de homens e mulheres de luta e liberdade.
Não aceitamos ataques aos intelectuais públicos, aos trabalhadores organizados, aos dirigentes sindicais, associações populares e democráticas que se batem pela democracia, pelos direitos de quem trabalha, pelas minorias oprimidas, pelo socialismo. Este último é o campo do Maio. Eles não nos intimidarão. Tal como o pacote laboral, não passarão.
A imprensa deu destaque, nesta lista, às “ameaças” ao atual primeiro-ministro, que, como outros dirigentes do PSD e do jornalismo institucional, também constam da lista. A detenção dos suspeitos do MAL ocorreu em 2025. O momento destas revelações não será, pois, mera coincidência, quando Montenegro se propunha selar uma aliança de governo de facto com o Chega, depois de aprovar o “pacote laboral” de precarização geral do trabalho e de destruição dos direitos dos trabalhadores, nomeadamente dos sindicais e da greve (no que falhou).
Queria-se fazer parecer que a separação era entre “todos os democratas”, de um lado, e uns “mauzões” nazis; e que não só Montenegro, mas até Ventura, faziam parte dos primeiros — quando é público e notório que muitos dos grupos nazis são públicos apoiantes do Chega, que tem entre os seus dirigentes e membro da AR um dos chefes políticos do grupo terrorista de extrema-direita ELP/MDLP de 1975.
A verdadeira separação é entre quem trabalha e quem explora trabalho, é entre quem defende a igualdade, a liberdade e a fraternidade, reais, e quem cultiva a violência contra os trabalhadores e homens e mulheres da cultura.
Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA.
Bruno Mascarenhas, vereador da Câmara de Lisboa pelo Partido Chega, chamou a sua namorada Mafalda Livermore para ganhar uns tostões na autarquia. Dito e feito. Porém, esta já andava a fazer das suas. Alugava quartos infectos e insalubres a imigrantes e ganhava por cada cubículo 500 ou 600 euros. É de bradar aos céus tanta hipocrisia. As bocas que gritam contra imigrantes são as mesmas que se aproveitam deles. André Ventura assobiou para norte e foi à missa das 22 horas a São Nicolau. Mas estas comezainas, que deram barafunda, não terminam aqui. É que, entretanto, Ana Simões e Silva, vereadora eleita pelo Chega, desfiliou-se deste partido porque comia menos que Mascarenhas, e virou independente ao mesmo tempo que passava para outro comedouro. Carlos Moedas, todo contente, atribuiu-lhe o pelouro do Desperdício Alimentar e da Saúde. É de rir! Isto só prova que o Chega é mesmo o partido dos tachos, contrariando o que o chefe Ventura proclamava bem alto, desde o princípio, que era contra os tachos. O certo é que eles comem tudo e não querem deixar nada1.
Mas a gastrochegalice continua. Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA. Bruno Mascarenhas abria um cesto de 300 euros que continha um prato de comida selecta e uma garrafa de vinho para dois, enquanto a Livermore se contentava com o seu mais modesto, de 150 euros, que só continha meio prato. Era para turista ver! Quanto à ex-vereadora do partido Chega Ana Simões e Silva, agora filiada na pura independência, só a vimos no final: andava a ver por todo o lado se havia desperdícios de comida. Esta festa teve o apoio de Carlos Moedas, que ofereceu 75 mil euros. À boca da estação de metro do Marquês de Pombal, pensámos que o casal maravilha pode permitir-se tudo com o dinheiro exorbitante das rendas de casa pagas por imigrantes. Um dia destes ainda veremos o casal maravilha em piquenique na Arruda dos Vinhos, com o Cesário Verde na mão, numa tentativa desesperada de chamar a si mais gente com problemas de alojamento!
Vejamos o palmarés do deputado Miguel Arruda: primeiro, foi executante da saudação nazi no Parlamento; segundo, foi o único deputado contra o voto de pesar pela morte da escritora Maria Teresa Horta e, terceiro, foi pária, passando os seus últimos dias na Assembleia em jogos relaxantes no telemóvel.
É um caso muito singular e que deu a volta ao mundo. Durante um período de mais de três meses, mais exactamente entre Outubro de 2024 e Janeiro de 2025, o deputado do Chega Miguel Arruda roubou 20 malas no aeroporto Humberto Delgado e enquanto viajante anónimo nas suas deslocações entre Ponta Delgada e Lisboa. À medida que as furtava, ia-as colocando em sua casa ou no seu gabinete na Assembleia da República, tendo também alguns dos pertences alheios sido encontrados à venda na Internet. Porém, foi apanhado e expulso do partido, tendo depois continuado no Parlamento como deputado não inscrito durante alguns meses.
Sabe-se que este eleito açoriano esteve de cara tapada nos finais de 2024 numa manifestação do grupo neonazi 1143, já que era simpatizante do seu líder. Vejamos o palmarés do deputado Miguel Arruda: primeiro, foi executante da saudação nazi no Parlamento; segundo, foi o único deputado contra o voto de pesar pela morte da escritora Maria Teresa Horta e, terceiro, foi pária, passando os seus últimos dias na Assembleia em jogos relaxantes no telemóvel. Não pensem que o Arruda deixou de pensar em malas. Por estes dias chuvosos, quem for ao corredor do metro, no Martim Moniz, fica surpreendido. Abriu uma loja de malas, mochilas, malinhas de mão e outros objectos de viagem mesmo diante de outra que já lá estava há muito tempo e que pertence a um senhor paquistanês chamado Basim Sharif. “Arruda & Arruda”, é o nome do estabelecimento.
Mas o ex-deputado do Chega, na sua febre de fuga para a frente é que é o caminho, não se ficou por aqui. Na Avenida da Liberdade teve o descaramento de abrir uma loja moderna sempre com o mesmo nome “Arruda & Arruda – Artigos baratos de viagem”, mesmo ao lado do famosíssimo estabelecimento francês Louis Vuitton. Não sabemos qual é o objectivo do ilhéu com estes dois comércios. Mas sabemos que ainda continua com sequelas de um lumbago que contraiu em Dezembro de 2024 quando transportava pacatamente malas pesadas por lugares com escadas rolantes e elevadores avariados. Boa sorte ao empreendedor, que a este ritmo empresarial estará brevemente nos corredores dos supermercados e até do Contenente. É que neste ramo de negócio não há nada melhor do que a autopromoção.
Manuel Magno Alves foi eleito pelo círculo eleitoral Fora da Europa e é um senhor baixinho e parece que não mexe uma palha. De longe, parece um desses campónios que vieram com bosta nos sapatos para conquistar a cidade, mas trazem sempre com eles um cheiro a vacas leiteiras. Emigrou para o Brasil aos cinco anos e hoje é contra os imigrantes que vivem em Portugal. Pois este advogado, que pensa muito na sua carteira, pediu o reembolso de viagens à Assembleia da República fora de prazo e nas mesmas datas em que alegou doença para se ausentar do Parlamento. Passados alguns dias, vendo que tinha obtido vitória financeira, pediu outra vez, e fora de prazo, reembolso das suas deslocações ao Brasil. Porém, desta vez o presidente da AR Aguiar Branco não foi na fita e recusou.
Esta negativa constitui um problema, pois o viajante compulsivo e deputado do Chega já tinha realizado antes várias viagens à Alemanha e tencionava fazer-se reembolsar. Tinha viajado para o passado e assistira em 1934 ao 4º Congresso do Reich em Nuremberga, intitulado “Congresso do Poder”, e onde, do meio da multidão, batera palmas ao Führer. Em 1936, assistira no dia 1 de Agosto à abertura dos Jogos Olímpicos de Berlim e ficara contente, pois não encontrara nenhum cigano na cidade, já que os 800 que ali viviam tinham sido presos e confinados num campo especial num bairro periférico. Em 1939, em Colónia assistira à espectacular e monumental parada nazi na Praça Adolf Hitler e depois fora comer uma chucrute a uma cervejaria famosa.
Este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem.
Candidato do Chega à União das Freguesias de Sé e São Lourenço em Portalegre, este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem. Estas poses eróticas e narcísicas foram divulgadas pelo Correio da Manhã e parece que localmente tiveram repercussão, pois o esbelto do Chega obteve 492 votos e um mandato. É caso para se dizer: mostra-te como és e serás recompensado.
Só que há um mas. Luís Portilheiro, que é licenciado em Psicologia, trabalha no Centro Distrital de Portalegre e é interlocutor em programas de colónias de férias, famílias de acolhimento e da Associação Ser Criança. É também responsável por programas ligados à infância, à deficiência e à proteção de crianças em risco. Perguntamos só isto: se fosse alentejano, confiaria a sua criança a um chegadinho destes?
Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e ali, com alguns dos principais pensadores atuais e históricos do campo do pensamento crítico e da reflexão sobre a extrema-direita e o fascismo (ex: Theodor Adorno, Zygmunt Bauman, Benito Mussolini, Giuliano da Empoli, Enzo Traverso e Bruno Latour), ajudando a enquadrar algumas das evidências apresentadas e a colocar em perspetiva a leitura que é feita. Este permanente vaivém entre a análise crítica fundada na teoria e os detalhes empíricos de quem andou a palmilhar o terreno durante os últimos seis anos, os pequenos episódios que dão vida ao conjunto, fazem desta obra um verdadeiro exercício de tapeçaria interpretativa do Chega e da sociedade portuguesa contemporânea. Num tempo em que, como canta a Capicua “não há quem não sinta um cheio a anos 30“1, é uma leitura fundamental e regista para memória futura aquilo que não devemos esquecer.
Ao mergulhar bem fundo nos bastidores do Chega, permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam, aqueles que permanecem na sombra a financiar a sua atividade e a alimentar aquilo que lhe dá força e vitalidade, isto é, a desinformação e a paranoia, o ressentimento, o preconceito e o ódio. Permite-nos compreender como foi possível termos deixado inscrever-se na sociedade portuguesa um agente patológico que corrói e ataca as fundações de uma democracia em acelerada degenerescência, a nossa, a partir do seu interior, enquanto, dominando com habilidade a narrativa mediática e cavalgando as redes sociais, consegue convencê-la de que é vítima e não carrasco.
Permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam…
Logo a abrir, um alerta que devemos ter em conta: é importante que façamos um esforço intelectual e político para distinguir o eleitorado do Chega de quem “manda, dirige ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta” (p. 20). Depois, explora-se o carácter messiânico do líder do Chega, André Ventura, também conhecido internamente como “Kim Jong-un de Mem Martins” (p. 578). Amadurecido nos debates futebolísticos que abundam na televisão portuguesa, onde terá exercitado o seu “galope de Gish”, isto é, uma estratégia retórica que passa por paralisar qualquer oponente debaixo de um jorro torrencial de argumentos, independentemente da sua validade, tornando impossível qualquer refutação, Ventura arrastou um séquito de fiéis provenientes de diferentes quadrantes, que incluiu, no congresso fundador realizado em Viseu, no final de fevereiro de 2020, “polícias, militares e seguranças adictos da ordem, da disciplina e da autoridade, mas também mulheres e homens “cansados de impunidades e compadrios” (…) [e] outros, já fartos de “parasitas com Mercedes à porta de casa” [que] desejavam simplesmente pôr os ciganos “nos eixos” (p. 40) (…) casais com bebés e crianças, um campeão de hipismo, um coronel da GNR aposentado e celebridades locais como João Tilly2 (p. 43)”.
André Ventura, diz-nos Miguel Carvalho, “intui como poucos os ressabiamentos, as ruminações e os preconceitos populares subterrâneos que borbulhavam pelo país” (p. 41). E prossegue para uma certa genealogia do Chega que abrange atores relativamente conhecidos do grande público, como o Partido Nacional Renovador ou o movimento Hammerskin, e outros mais obscuros como a Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro (P1) ou o Escudo Identitário. Os contornos de toda esta constelação de extrema-direita e das suas fontes doutrinárias nacionalistas e saudosistas de Salazar, com destaque para Jaime Nogueira Pinto3, mas também as referências internacionais como, por exemplo, Viktor Órban, líder do governo húngaro, ou Alexander Dugin, alegado ideólogo e “líder espiritual” de Vladimir Putin, são muito bem delineados, oferecendo-nos um retrato nítido do caldo cultural, relacional e institucional que possibilitou o aparecimento do Chega.
Também Ventura é colocado no divã e o seu trajeto suburbano, banalíssimo, sujeito a escrutínio. A sua história na freguesia de Algueirão-Mem Martins, Sintra, diz-nos Miguel Carvalho, “é a de um rapaz pacato de periferia, de raiz pequeno-burguesa, a quem a família pagava os estudos com dificuldade” (p. 60), filho de um ex-combatente na guerra colonial, que geria uma mercearia, e de uma secretária administrativa, depois doméstica; todos coabitando num lar onde abundavam livros sobre salazarismo e o pós-revolução.
Benfiquista inveterado, ocasional e dissimulado fumador de haxixe, vítima de bullying na escola, acabaria por descobrir Deus aos catorze anos, revelando um perfil obsessivo e fundamentalista habitual em convertidos tardios. Segue-se uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde despontam, por um lado, o seu carácter camaleónico e, por outro, um certo “oportunismo” que talvez possa ser sociologicamente associado ao alpinismo social que caracteriza a pequena burguesia em ascensão4. Seria um dos melhores alunos de sempre da Nova, terminando o curso com 19 valores, seguindo-se, a partir de 2008, uma estada em Cork, onde faz o seu doutoramento e nele cita extensivamente Boaventura de Sousa Santos, figura cimeira da teoria social crítica. De permeio, ensaia uma incursão como romancista publicando A Última Madrugada do Islão, obra que seria objeto da crítica literária do Jovem Conservador de Direita, para quem se tratava de “uma espécie de thriller erótico-político com a qualidade literária de uma ata de condomínio. O ‘50 sombras de Maomé’ que ninguém pediu” (p. 78). De regresso a Portugal, primeiro, torna-se inspetor da Autoridade Tributária, depois, apadrinhado por Jorge Bacelar Gouveia, converte-se em professor na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo como assistente o deputado Rodrigo Taxa. Toda esta densa trama e o modo como o Ventura messiânico e camaleónico foi urdindo as suas redes de capital social, nas imediações de vários tipos de poderes (jurídico, económico-empresarial, do “comentariado” futebolístico, mediático, etc.), onde, entre outras, pontificam destacadas figuras da extrema-direita bombista hoje convertidas em ilustres democratas, como José Manuel Júdice ou Diogo Pacheco de Amorim. Daí até ao ato “ciganófobo” falhado de 2017 em Loures, já com Ventura no PSD, à inspiração evangélica e bolsonarista, pouco depois, ou à falsificação de assinaturas que viria a ameaçar o registo do Chega enquanto partido político, foi um saltinho.
Desta fase formadora, aquilo que resulta claro é que as pessoas que no Chega procuraram infundir alguma espessura e consistência ideológica ao projeto político acabaram, quase todas, empurradas ou convidadas a sair. O importante foi promover um projeto de poder pessoal onde sempre imperou a navegação à vista. Impressiona também o modo como o WhatsApp é utilizado como suporte para a reflexão coletiva e o Facebook constitui uma plataforma sem a qual não haveria Chega como, de resto, concede uma das pessoas entrevistadas no livro5. Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas. Naturalmente, não prescindindo de financiamento mais ou menos expressivo proveniente de diversas personalidades das elites económicas e empresariais portuguesas: Pedro José de Mello, Mafalda Champalimaud e Miguel Sommer Champalimaud, Francisco Van Uden, Salvador Posser de Andrade, Francisco Cruz Martins, Anthony Stilwell, entre outros. E todo este contexto, permitiu seduzir aquilo a que Miguel Carvalho chama “liga de esquecidos”.
O livro explora também as ligações mais ou menos obscuras do Chega com famílias de “privilegiados do antigo império” (p. 343), burgueses poderosos ligados à escravatura, ao colonialismo, à ditadura fascista do Estado Novo e à guerra colonial como, por exemplo, a família de João Maria Bravo, cuja fortuna começa a ganhar forma no negócio do tabaco, ainda no século XIX, no Brasil; de Miguel Félix da Costa, ligado à filial portuguesa da multinacional Castrol, mas também com participações no imobiliário de luxo, hotelaria e turismo; de Paulo Côrte-Real Mirpuri, que liderou a Air Luxor e tem negócios na aviação, imobiliário, florestas, agricultura e saúde; de Jorge Ortigão Costa, presidente da holding alimentar Sogepoc, e muitos outros. Trata-se, naturalmente, da fina flor da fidalguia lusitana. O facto de todos serem reconhecidos por três nomes é, em si mesmo, um marcador de distinção social. Modos de dizer, categorizar e nomear são tudo menos neutros6.
Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas.
Também a este respeito, impera alguma diversidade: “baronesas, condes, advogados, figuras da alta finança, gestores de fundos imobiliários, empresários de sucesso, membros de movimentos ultracatólicos, salazaristas convictos e descendentes de admiradores do nazismo, o rol de financiadores ocasionais ou habituais do Chega assemelhava-se a uma grande família onde cada um dava o que podia” (p. 350). Daqui resulta que a pátria do Chega é verdadeiramente o vil metal e a noção de que se trata de um partido antissistema não podia estar mais distante da realidade material que o sustenta.
Descreve-se com grande minúcia o tristemente célebre segundo congresso do Chega, realizado em Évora no final de 2020, num capítulo sugestivamente intitulado “Bem-vindos ao lodo”, onde o conspiracionismo à la QAnon7, as ameaças grotescas entre militantes, os golpes palacianos e as lutas intestinas pelo poder tiveram rédea-solta, e onde tudo se podia dizer. Perder-se-iam milhares de militantes e a imagem do Chega passaria a ser a de uma turba ululante. Patrícia Sousa Uva acrescenta: “somos a maior fraude da história da política portuguesa. Fazemos cá dentro tudo o que dissemos que íamos combater” (p. 405). Mais adiante, Carlos Furtado, deputado eleito em 2020 nos Açores, assegura: “O Chega não é conservador, nem de extrema-direita, mas sim de extremo oportunismo” (p. 417).
O modo como o PSD, por intermédio do seu líder de então, Rui Rio, contribuiu para legitimar e normalizar o Chega gerou alguma celeuma junto de destacadas figuras do partido, como Rui Machete, Pacheco Pereira, Jorge Moreira da Silva ou Teresa Leal Coelho, mas, paulatinamente, foi-se impondo, com a anuência de “barões” como Mota Amaral, Manuela Ferreira Leite e Pinto Balsemão. No que toca à sua afirmação na paisagem política portuguesa, o acordo entre PSD e Chega nos Açores, em 2020, acabaria por ter um desfecho favorável. Mais recentemente, a coligação AD liderada por Luís Montenegro, formalizaria acordos parlamentares sobre o IRS, as restrições à imigração e à obtenção da nacionalidade. Das cercas sanitárias ao “não é não”, tudo isso foi borda fora. Afinal de contas, o poder é a alma do negócio e a direita, ao contrário da esquerda, sempre foi mais psicótica do que neurótica.
A implantação autárquica do Chega, primeiro em 2021 e, depois, em 2025, também demonstra que o seu processo de expansão é mais complexo e ziguezagueante do que parece. Miguel Carvalho demonstra, com recurso a evidências muito sólidas, que os quadros são recrutados sem quaisquer critérios mínimos de qualidade ou competência, levando a inúmeras situações caricatas de desistência, abandono, mas também à incorporação nas estruturas do partido de delinquentes e criminosos. Neonazis, extremistas de direita radical, teóricos da conspiração e fervorosos prosélitos de vários credos, inclusive do Opus Dei e da maçonaria, sentem-se atraídos pelo partido. Não surpreende, pois, que uma personalidade como Gabriel Mithá Ribeiro, que parece ter feito um esforço honesto para densificar ideologicamente o partido, acabasse – também com um “empurrãozinho” deste Por Dentro do Chega – por abandoná-lo. Tal como escreveu Isabela Figueiredo, sua colega na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, tal como Mithá, nascida em Moçambique, “O Gabriel pode não ser solidário, mas é um intelectual, reto, profundamente educado. No Chega ele parecia-me uma célula anómala. Nunca compreendi8“.
Por sua vez, o eleitorado do Chega caracteriza-se por uma excessiva credulidade relativamente a quaisquer conteúdos ou “factos alternativos”, isto é, ausência ou desvalorização de qualquer ceticismo ou pensamento crítico, consumos de informação pobres assentes em tabloides e entretenimento. Tendencialmente, são jovens do sexo masculino, religiosos e rurais ou, diria eu, reféns de mentalidades algo provincianas, com pouco mundo e sem grande espessura ou curiosidade intelectual. Henrique Raposo, escritor católico de direita, citado no livro, põe as coisas em perspetiva afirmando que: “hoje em dia, as pessoas são átomos separados e não têm um sentido de corpo, um sentido de comunidade” (p. 657). Para muitas delas, vítimas da atomização inscrita nos seus corpos e mentes no quadro da hegemonia neoliberal, o Chega tem funcionado como um verdadeiro íman. Gente que por se sentir devastada sente um desejo profundo de destruir os outros.
Miguel Carvalho aborda também a proposta de criação de uma nova central sindical para ombrear com CGTP e UGT, feita por Lucinda Estrela, num congresso em 2021, que seria recebida com enorme acrimónia. Curiosamente, um ano volvido, Ventura anunciaria publicamente a criação do Solidariedade (apelando à memória do sindicato polaco antissoviético liderado por Walesa e financiado pela CIA). Passaram quatro anos e nada. Pura navegação à vista. O que interessa é ocupar tempo de antena e, para o Chega, o vale-tudo não é só uma arte marcial, é uma forma de estar na política. Por isso, não surpreende que atraia oportunistas e alpinistas sociais como, por exemplo, Paulo Ralha que andou pelo PS, passou pelo BE, navegou nas águas do Congresso Democrático das Alternativas, foi dirigente no Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos e acabaria candidato à Câmara de Barcelos pelo Chega, em 2025. Como afirmava Riccardo Marchi, citado por Miguel Carvalho, o Chega é “um saco de gatos com gente de todos os lados” (p. 600).
A capacidade de penetração do Chega nas forças de segurança, junto dos profissionais da GNR e da PSP no ativo, mesmo estando estes legalmente impedidos de se filiar em partidos políticos, mostra também quão fértil estava já este terreno. O aspeto mais preocupante retratado por Miguel Carvalho é o facto de, contrariamente à narrativa dominante, as afinidades com o Chega não traduzirem tanto a existência de “maçãs podres” ou casos excecionais, mas sim um quadro sociológico global bastante alinhado com o discurso do partido. Parece existir uma espécie de submundo policial e militar onde a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e o ódio, sobretudo a coberto do anonimato das redes sociais, atingem um nível desmedido. A este respeito, aliás, menciona-se um tal Manuel C., agente do Comando Distrital de Évora da PSP que, em 2022, coordenava as concelhias do Chega no Alentejo.
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O Alentejo surge, aliás, várias vezes ao longo do livro, ainda que de modo mais desenvolvido quando se descreve o trabalho de campo realizado em Moura. E não é difícil perceber porque é que isto acontece. Hoje, o Alentejo constitui o melhor exemplo daquilo que se tem vindo a designar como “left-behind places9” ou geografias do ressentimento10, isto é, territórios que experienciam vários mecanismos que são percecionados como configurando situações de abandono. Desde o encerramento de serviços públicos, escolas primárias, farmácias, postos dos correios, agências bancárias e até caixas multibanco, passando pela reorganização administrativa que fundiu freguesias e aumentou as distâncias aos centros de poder local, até ao número muito reduzido de deputados eleitos pela região do Alentejo e a grande distância simbólica a Lisboa, que parece desprezar e ignorar a região, mas também o envelhecimento e o despovoamento, os baixos salários, a precariedade ou o empobrecimento, são muitos os motivos para que o desencanto e a falta de perspetivas de futuro se instalem, cresçam o ressentimento e a raiva. A tudo isto acresce a recente dinâmica migratória – marcada pela chegada de imigrantes provenientes de países terceiros, naturalmente, porque os “expats” nunca são um problema –, que, juntamente com as comunidades portuguesas de etnia cigana, constituem aquele “outro11” de que nos fala a teoria pós-colonial, que foi sempre instrumentalizado como bode expiatório.
Isto não significa, contrariamente ao que muitos dizem, que exista uma transferência maciça de votos diretos do PCP para o Chega, por exemplo. Isso é uma simplificação excessiva fruto de uma metodologia deficiente em que se fixa o espaço geográfico de referência – o Alentejo – e se fazem variar os resultados eleitorais, sem considerar as modificações na composição sociodemográfica do eleitorado que resultam da passagem do tempo. Para simplificar, aquilo que provavelmente sucede no Alentejo é a existência de uma modificação intergeracional do padrão de voto, isto é, avós e pais comunistas têm agora filhos e netos que votam Chega. Miguel Carvalho tem o cuidado de nunca cometer este erro de análise, tão comum no “comentariado” nacional, mencionando até um trabalho de investigação que demonstra que, sobretudo nas freguesias rurais do Sul, foi o PS a força política que transferiu mais eleitorado para o Chega12.
Por Dentro do Chega é, pois, uma obra fundamental para compreender a atualidade, perceber como aqui chegámos e começar a ganhar balanço para construir um futuro em que a verdade e a mentira não sejam sinónimos e em que possamos todos parar para pensar, sem sermos levados no fluxo torrencial de desinformação e pós-verdade com que somos diariamente inundados e que o Chega cavalga com mestria. A saturação permanente do espaço digital, o controlo da economia política da atenção, permite manipular as perceções, alimentar vieses cognitivos e, parafraseando Gilles Lipovetsky, criar uma espécie de Era do Vazio13, de que se alimenta o Chega.
Tratando-se de uma obra colossal, por vezes quase colapsa sob o peso imenso das fontes mobilizadas. Consegue aguentar-se porque a abordagem é ágil, simples e direta. São episódios, recortes, narrativas curtas, pequenos contos, que nos transportam para este mundo tão peculiar, sem exaltação de virtude, superioridade moral ou sobranceria. Ainda assim, a inclusão no livro de um esquema ou árvore de ligações articulando os vários protagonistas identificados, um guia visual para a navegação, teria sido vantajoso para o leitor interessado. Quanto mais não seja, para se perceber melhor o modo como o Chega não passa de uma grande família, onde o nepotismo e o tráfico de influências são tão ou mais comuns do que nos partidos que diaboliza.
Percebemos também que o Chega, partido neofascista ou pós-fascista, na terminologia de Enzo Traverso14, não concebe a incoerência programática ou a indefinição ideológica como problemas. Existe intencionalidade na ambiguidade estratégica adotada e no reconhecimento de que tudo deve estar subordinado a uma lógica de ação. Há 100 anos, o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, num texto intitulado “Mussolini e o fascismo”, escreveu: “O programa do fascismo é confuso, contraditório, heterogéneo: contém conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Melhor dito, Mussolini não deu ao fascismo um verdadeiro programa, deu-lhe um plano de ação15“.
O que este Por Dentro do Chega sugere é que Ventura lidera o plano de ação do fascismo para Portugal e o Chega é o seu instrumento. A resposta, afirma Miguel Carvalho, poderá passar por escutar e dialogar com a geografia eleitoral do Chega para a resgatar do extremismo, reconstruir o valor da palavra dada e da promessa cumprida, explorar as infinitas possibilidades do encontro com o “outro”, o estranho, o diferente. É preciso cultivar bondade, generosidade e empatia. Para começo de conversa, não está nada mal.
Letra do single “Danúbio” que integra o álbum “Um gelado antes do fim do mundo” (2025).
Engenheiro, professor de Matemática, fundador da Juventude Socialista em Seia, posteriormente militante do PSD, incendiário das redes sociais e agora deputado eleito na AR pelo Chega.
Ficamos a saber que O fim do Estado Novo e as origens do 25 de Abril (1995) é um dos livros de cabeceira de André Ventura.
Processo retratado em obras literárias como Regresso a Reims de Didier Eribon, Os Anos de Annie Ernaux ou Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule de Édouard Louis.
5.Trata-se de Patrícia Sousa Uva, “mandatária nacional da candidatura presidencial de Ventura quando se demitiu” (p. 400).
Ver, por exemplo, o dossiê "Outros nomes, histórias cruzadas: os nomes de pessoa em português", publicado sob direção de João de Pina-Cabral, na revista Etnográfica, n.º 12(1), disponível em: https://journals.openedition.org/etnografica/1583 ou a obra seminal O que Falar Quer Dizer (Bourdieu, 1988).
Teoria da conspiração de extrema-direita, surgida em 2017, nos Estados Unidos, segundo a qual existiu uma cabala de esquerda, constituída por adoradores de Satanás, pedófilos e canibais, que dirigiu uma rede global de tráfico sexual de menores, e conspirou contra Donald Trump durante o seu primeiro mandato presidencial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/QAnon.
Ver Rodríguez-Pose, Terrero-Dávila e Lee (2023) Left-behind versus unequal places: interpersonal inequality, economic decline and the rise of populism in the USA and Europe. Journal of Economic Geography, 23, 951-977.
Ver Madeira, Silva e Malheiros (2021) A geografia da direita nacionalista em Portugal: contornos de um processo emergente. Cad. Metrop., São Paulo, 23(51), 469-498.
Conceito central para a reflexão pós-colonial, o “outro” é objeto de discussão aprofundada em obras Postcolonialism (Jazeel, 2019) ou Geographies of Postcolonialism: Spaces of Power and Representation (Sharp, 2009).
Ver Magalhães e Cancela (2025) Political neglect and support for the radical right: The case of rural Portugal. Political Geography, 116, 103224.
Em A Era do Vazio: Ensaios sobre o Individualismo Contemporâneo (2013), Gilles Lipovetsky aborda o processo de individualização das sociedades ocidentais contemporâneas, nas quais o narcisismo e formas quási-niilistas de hedonismo emergem como atributos definidores dos sujeitos.
Ver As Novas Faces do Fascismo: Populismo e a Extrema Direita (Traverso, 2024).
Teoria da conspiração de extrema-direita, surgida em 2017, nos Estados Unidos, segundo a qual existiu uma cabala de esquerda, constituída por adoradores de Satanás, pedófilos e canibais, que dirigiu uma rede global de tráfico sexual de menores, e conspirou contra Donald Trump durante o seu primeiro mandato presidencial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/QAnon.
Ver Rodríguez-Pose, Terrero-Dávila e Lee (2023) Left-behind versus unequal places: interpersonal inequality, economic decline and the rise of populism in the USA and Europe. Journal of Economic Geography, 23, 951-977.
Ver Madeira, Silva e Malheiros (2021) A geografia da direita nacionalista em Portugal: contornos de um processo emergente. Cad. Metrop., São Paulo, 23(51), 469-498.
Conceito central para a reflexão pós-colonial, o “outro” é objeto de discussão aprofundada em obras Postcolonialism (Jazeel, 2019) ou Geographies of Postcolonialism: Spaces of Power and Representation (Sharp, 2009).
Ver Magalhães e Cancela (2025) Political neglect and support for the radical right: The case of rural Portugal. Political Geography, 116, 103224.
Em A Era do Vazio: Ensaios sobre o Individualismo Contemporâneo (2013), Gilles Lipovetsky aborda o processo de individualização das sociedades ocidentais contemporâneas, nas quais o narcisismo e formas quási-niilistas de hedonismo emergem como atributos definidores dos sujeitos.
Ver As Novas Faces do Fascismo: Populismo e a Extrema Direita (Traverso, 2024).
O Chega fez a sua primeira acção de milícias. Para a justificar socorreu-se da lógica formal, que há muito tomou conta do espaço público: se estudantes ocupam, disse o Chega, porque não invadimos também? A acção desta milícia, foi – não é de somenos! – contra um órgão de informação e na academia. Ou seja, a esfera pública que não controlam. Ora a greve, parar a produção, é legal, para defender os trabalhadores, mas parar a produção pelos patrões, lockout, é ilegal. Matar um judeu, comunista, cigano ou homossexual na II Guerra Mundial era matar; matar um nazi também é matar. Ambos os lados matavam, uns para impor a barbárie, outros estavam na resistência para defender-nos da barbárie. Prender um nazi assassino é proteger a sociedade, prender um opositor político é impor uma ditadura à sociedade. O Chega não é um partido, é uma milícia fascista, foi exatamente isso que foi ontem, às claras: uma milícia contra estudantes e jornalistas. Quem achar que é uma brincadeira o que se passou em Coimbra não percebe nada de política.
Matar um judeu, comunista, cigano ou homossexual na II Guerra Mundial era matar; matar um nazi também é matar. Ambos os lados matavam, uns para impor a barbárie, outros para defender-nos dela.
Ocupar uma praça para lutar pelo direito à habitação é ocupar um espaço público para defender a dignidade humana contra o roubo pelos fundos imobiliários, os que o Chega aprovou há duas semanas com o PSD e a IL; ocupar as terras e impedir máquinas de minas de avançarem e destruírem a água potável é lutar pelo direito à vida. Tudo isto é resistir, direito inscrito em todas as Constituições modernas. Já um partido fascista como o Chega invadir um órgão de comunicação social é esmagar o direito de os jornalistas decidirem quem entrevistam, como e quando. É usar da violência para impor uma ideologia que justifica a morte e perseguição de quem consideram indigno de viver ou ter direitos.
Se um israelita atira uma pedra a um palestiniano está a lutar por roubar-lhe as terras, se um palestiniano atira uma pedra a um israelita está a lutar para não ser roubado.
O Chega é um partido-milícia fascista. Não vivemos hoje num regime fascista, nem acho que sejam favas contadas lá chegarmos; a resistência na Europa ergue-se e apenas começa. Mas o Chega é uma criação monstruosa das classes dirigentes portuguesas que, com medo de greves e resistência popular aos salários miseráveis e horários de escravatura, financiam, apoiam e entrevistam vezes sem conta, nos jornais e nas televisões privadas e também do Estado, esta organização de violência e morte, que espalha pelo país a mais elementar manipulação e violência. Ontem silenciaram uma rádio, mas há anos que calam jornalistas e deputados, aos gritos e com ofensas. Já eram uma milícia, só não via quem não queria.
Precisamos de salvar Portugal do Chega. Não vai ser com o PS, já se percebeu, nem vai ser com queixinhas no Facebook. Organizemo-nos! Como dizem os bravos de Covas do Barroso, o povo tem de se juntar e impor a justiça, precisamos mesmo de nos juntar, organizar, porque há um mundo novo de paz que quer nascer. Para isso, precisamos de tirar da frente estas milícias da morte e da guerra, como o Chega.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas. De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
Não sei se tiveram hipótese de perder quatro preciosas horas da vossa vida a troco da penosa comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, o “hit” deste verão.
Imagino que não. Vocês parecem ser pessoas bem mais sensatas do que eu.
Todo aquele espectáculo, sim, mesmo deprimente não deixou de ser um espectáculo, é um resumo perfeito do estado do País, em particular da governação de Montenegro.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando.
Não vou discutir tanques, atrelados ou sobras da CP. Nada disso me interessa e, já agora, nem ao Chega. O “crime” do actual ministro da Administração Interna, aquilo que realmente Ventura nunca conseguiu perdoar, foi a clareza com que Neves, ainda na posição de director da PJ, dizimou as teorias da extrema-direita de associar a insegurança ao aumento da imigração. Luís Neves muniu-se de factos e dados do INE, o Chega tinha as “verdades” das sensações e os estudos do tik-tok. Não é difícil adivinhar quem saiu por cima nesse despique.
Há meses que o Chega persegue Luís Neves e, depois de toda a gritaria nas redes sociais e nas 15 entrevistas “exclusivas” do Ventura (quando é que lhe arranjam uma caravana para acampar entre os estúdios da CNN e do NOW?), chegaram à CPI sem uma pergunta relevante para fazer.
O nível de incompetência, a falta de preparação e até as dificuldades de articular frases em português correcto dos deputados do Chega são tão gritantes, que acabo por ser forçado a concluir duas coisas. A primeira, e que já todos sabíamos, é que o Chega não está minimamente interessado na queda de Luís Neves. Precisam de um alvo para fingir que fazem oposição e que lhes alimente o barulho. É tudo o que sobra a quem não tem programa. A outra conclusão, mais popular, mas também simples de compreender, é que de facto, quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Montenegro também deve estar contentíssimo com todo este forró. Quanto mais a vara de marmeleiro aponta ao MAI, mais folgam as costas do CEO da Spinumviva. Se não quiséssemos pensar muito, bastar-nos-ia isto. Um país que elege, duas vezes, um empresário que tudo o que tinha para vender era a sua lista telefónica, quer assim tanto saber de tanques em Odemira ou carros apreendidos e legalmente utilizados? Vá lá, temos de começar a olhar para os movimentos da extrema-direita com os olhos abertos.
A dada altura, Pedro Pinto, esse Churchill do aposento da Moita, quis que Luís Neves falasse dos percevejos nas esquadras não sei de onde. O Chega deve ter extraído daquelas quatro horas uns bons três ou quatro vídeos de 30 segundos para alimentar aquela legião de fãs acrítica e adormecida que ainda acha que dali chegam as verdades.
Cá fora, no mundo real, o BCE aumentava pela segunda vez, no espaço de dois meses, as taxas de juro. A gasolina chegava a 2,2 euros por litro, os níveis de leitura e matemática da escola pública regrediam 20 anos.
Os Portugueses, cada vez mais pobres e endividados, sem conseguirem chegar ao fim do mês e sem perceberem como é que o trabalho, o estudo ou o esforço lhes podem trazer novos patamares no elevador social.
Perante este quadro de miséria, a AR discute o carro do Xuxas e todo o nosso debate político gira à volta de um tanque em Odemira. Nada, absolutamente nada, do que é relevante para a vida dos Portugueses é debatido pelos deputados da nação.
É uma mediocridade que agrada a Luís Montenegro porque lhe permite continuar a viver de propaganda e tentativas de reforma. É óptima para o Chega porque perpetua a pobreza que lhes dá votos e alimenta a gritaria de que vivem. E é também excelente para os liberais porque, perante a inoperância do Governo ou as limitações da extrema-direita, os discípulos de Milei, que até sabem usar talheres, quase que passam por gente que se preocupa com a populaça.
Não tenho grandes dúvidas sobre o abandono a que este Governo e os partidos de direita, da mais tradicional até aos extremistas, sujeitaram os Portugueses. Em especial aqueles que vivem do seu trabalho. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas.
De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
“Como é viver no município onde o Chega ganhou?” Esta é a pergunta que mais tenho ouvido no último ano, quase ex-aequo com “como é que o Chega ganhou Albufeira?”
Quero acreditar que a minha condição de desenraizado, alguém sem terra depois de se ter mudado de Lisboa para Albufeira há 9 anos, sem conseguir pertencer a nenhum dos locais, também eles desterritorializados, me permite ter uma visão mais clara da situação.
Estou igualmente distante do bairrismo local que se orgulha da sua própria destruição ao ser a capital do turismo, não apenas por discordar dessa valorização, como do Lisboa-centrismo que leva a interpretar o país à luz do que acontece na capital. Aliás, em jeito de piada costumo dizer aos meus amigos de Lisboa que brincam comigo por eu viver em terra de Chega, que ele estão pior, têm o Chega e o Moedas, um agente infiltrado.
Praticamente um ano depois da vitória de Rui Cristina em Albufeira e do seu partido em 3 das 4 freguesias, é já dolorosamente evidente que, tanto o presidente como o próprio CH operam na lógica de continuidade do PSD, acelerando, apesar de tudo, os efeitos colapsantes das suas políticas.
Muitos dos problemas de Albufeira já existiam antes de Rui Cristina assumir o cargo, mas a partir desse momento questões essenciais como a existência de passeios, iluminação pública, limpeza, recolha de lixo e gestão hídrica tornaram-se responsabilidade sua. Uma responsabilidade que escolheu, tal como os seus antecessores, ignorar, socorrendo-se do que aqui é louvado como a panaceia para todos os males: o turismo.
É para manter a indústria mais extractiva de todas que Albufeira se tem vindo a sacrificar desde o fim dos anos 70. Por si existe a cintilante Albufeira litoral, pintada de branco, todas as manhãs limpa e ordenada depois das noites turísticas cujo principal interesse é a alcoolização. Essa vitrina, incorpora spas, gastronomia tradicional portuguesa e um modus vivendi estilo Benidorm, consome implacavelmente todos os recursos, individuais e colectivos da outra Albufeira, a simultaneamente real e invisível.
Essa Albufeira, a dos que moram sem vista para o mar ou tempo para o visitar, que encontram todos os dias entulho e detritos junto ao contentor, que precisam de se deslocar de automóvel para fazer a reciclagem a mais de 1 km de distância, como também dele necessitam para tudo o resto, a menos que estejam dispostos a arriscar a vida de bicicleta nas estradas saturadas do verão, como eu e mais alguns loucos, é a Albufeira que acreditou nos cartazes que ostentavam a frase: “O Chega resolve.”
É importante ler o livro do Miguel Carvalho para perceber que o eleitorado do Chega não é necessariamente igual aos tipos abomináveis que se passeiam no parlamento como um fidalgo pela sua ganadaria no século XIX, e tentar compreender as razões pelas quais o partido de André persevera, embora as realidades locais e nacionais sejam distintas em alguns pontos.
Depois de acompanhar todos os debates, não fiquei surpreendido quando Cristina conquistou a câmara, pois numa prova cega, ele sairia certamente vencedor. Não por mérito próprio, mas por demérito dos oponentes, onde se contavam um candidato do PS sem retórica ou ideias que não a reprodução do insustentável estilo de vida vigente, sob cuja alçada, tanto Livre como BE se anularam numa coligação, a IL com o seu discurso de fetichismo thatcherista a promover o mercado livre como a igreja a terra prometida, um PSD estafado cuja melhor ideia que apresentou foi fazer um dinoparque igual ao da Lourinhã, e a ausência do PCP.
Cristina não é a explicação da sua própria vitória, não possui magnetismo pessoal, não é da terra ou tem o carisma de grande líder que uma certa facção portuguesa adora. A sua vitória deve-se ao que não parecia ser. Não parecia ser continuidade.
A sua vitória é explicada por uma conjugação de factores, alguns globais, outros específicos, sendo o mais importante deles a distância física e mental que serve de barreira entre o resto do país e o Algarve, equivalente a uma ZEE, Zona Económica Especial, estatuto extraordinário conferido às cidades sweatshops chinesas.
Explica-se também pela pouca oposição existente durante os executivos de José Carlos Rolo, Carlos Silva e Sousa e Desidério Silva, que reduziram durante mais de duas décadas, as suas acções à assembleia municipal e ao período de campanha eleitoral, contribuindo para o legítimo sentimento de abandono de uma população cada vez mais empobrecida, envelhecida e em busca da bala de prata que o neoliberalismo promete para todos os que se ajoelharem diante da sua divindade.
Cristina fez uma única promessa durante a campanha, a de não dar casas a ciganos, assim como Trump, no primeiro mandato, construiu a sua campanha sobre o muro na fronteira com o México. O discurso contra a comunidade cigana já era recorrente em Albufeira muito antes de ser o branding fundacional da extrema-direita nas televisões, e ninguém se coibia de o proferir, pelo que, Cristina veio institucionalizar a ideia de que os ciganos são o problema também em Albufeira e por sua culpa, não há casas onde morar, ainda que uma grande maioria viva nos dois acampamentos próximos da minha casa.
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Embora não seja noticiado, todos os anos há vários pequenos incêndios florestais no perímetro em redor dos acampamentos ciganos e em várias ocasiões em que assisti à actuação dos bombeiros, a conclusão, tanto de civis como de bombeiros, é de culpabilização da comunidade cigana, mesmo sem provas. Recordo-me de ter ligado para os bombeiros há poucos meses para avisar de um incêndio e o primeiro comentário do outro lado foi: “Isso são os ciganos.”
Não é, portanto, surpreendente ter sido um bombeiro que afirma não perceber nada de política a vencer a freguesia de Albufeira e de Olhos de Água. Também não são surpreendentes as conversas que tive com um membro do executivo de Cristina, que afirmava não ter nada contra os ciganos, mas “isto é o que as pessoas querem ouvir”, insistia depois de eu tentar explicar que não podia estigmatizar toda uma comunidade para seu proveito político, ilustrando, involuntariamente, o populismo da forma mais exemplar possível.
Uma vez que os ciganos são pouco visíveis no quotidiano da cidade e raramente na zona litoral, foi necessário um bode expiatório com as costas mais largas, e eis que entram os imigrantes em cena.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita, ainda no executivo de José Carlos Rolo, o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”. A acusação contra os imigrantes ficou no ar e nos cartazes de Ventura, mas não nos de Cristina, talvez por ter compreendido rapidamente que, sem eles, todas as empresas voltariam a ter falta de mão de obra num nível de desespero tão grande, que, tanto a Sonae, como a Jerónimo Martins e o supermercado Apolónia faziam campanhas de recrutamento e ostentavam cartazes de oferta de emprego, o ano todo.
Os bots de André nas redes sociais trataram do resto e bastava estar em qualquer grupo de Facebook remotamente relacionado com Albufeira para assistir à regurgitação ad nauseam de comentários sobre o sentimento de insegurança, cujas razões o RASI veio desmentir, ao ver passar os grupos de “indianos”, apesar de nunca ter havido qualquer aumento de criminalidade relacionado, nem aqui, nem no resto do país.
Neste ponto em particular, o executivo anterior abriu caminho para a vitória do seu oponente mais à direita, primeiro por negar o aumento de criminalidade ao mesmo tempo que aumentava o policiamento e depois, ao permitir que seis autocarros descarregassem 300 nazis de fora da cidade para marcharem pelas ruas de Albufeira, em cânticos e erguendo tochas como se estivéssemos na Itália de Mussolini.
Aqui e em todo o lado – Israel prova-o –, se há cor que os racistas respeitam mais do que o branco da pele, é o verde do dinheiro, por isso basta considerar a questão étnica no âmbito da luta de classes para perceber que os grupos de homens imigrantes, a vaguear pelas ruas sozinhos por terem sido impedidos de trazer as famílias, assustavam por “não se enquadrarem”, mas os asiáticos donos das cadeias hoteleiras a passear em carros topo de gama estão tão bem inseridos como as comunidades inglesas que vivem numa bolha, qual reformado da Florida.
Essa é uma das ideias que me surge recorrentemente quando penso sobre esta zona: Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
A esmagadora maioria das pessoas locais entre os 25 e os 55 anos conseguem permanecer em Albufeira (e no Algarve) porque não têm de pagar renda, ou por terem herdado uma casa de família, terem recuperado uma ruína ou comprarem casas de aço ou madeira, dado que, muito antes de a gentrificação ser considerada um problema nacional por acontecer em Lisboa e no Porto, já o era no Algarve.
Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
Os outros não só não encontram casas disponíveis como não conseguem pagar as que encontram, ou, nos raros casos em que tal é possível, deparam-se com a escolha entre sobreviver na precariedade do turismo ou arriscar na criação do próprio emprego numa zona onde se promove sol, noite e mar, mas quando a festa é permanente, é mera encenação a cobrir o vazio.
Quando a única coisa que há para oferecer é isso (ao contrário de Lisboa, onde existe oferta cultural), o consumo segue a lei da oferta e da procura, mudando-se para onde o preço for mais baixo, sejam as Balcãs, o Norte de África ou Espanha, revelando a bolha que é o turismo.
Uma vez rebentada a bolha, Albufeira entra em desespero, como aconteceu na grande crise de 2008 e está a acontecer agora, com taxas de ocupação em Julho na casa dos 30% e o pânico instalado dado a noite da Rua da Oura estar abaixo do esperado.
Mesmo dentro dos trâmites da arquitectura predatória turística, Cristina está em modo de implosão, como seria expectável de um partido composto essencialmente por refugo do PSD.
Além de atingir Albufeira no seu orgulhoso centro, o turismo, o executivo de Cristina tem vindo a devastar as poucas efemérides que restavam orientadas para os residentes e não para os visitantes. São exemplos disso o fim do mercado quinzenal e da Festa de Natal, no ano passado reduzida a uma tenda com um ringue de patinagem.
Em seu lugar recebe-se um concurso de street food do melhor hambúrguer, confirmando mais do que o apagamento dos resquícios da identidade de Albufeira, aqui sim, a sua Grande Substituição por paródias malparidas de modelos anglo-saxónicos.
O culminar dos constantes tiros no pé de Cristina, como aconteceu em Mora, onde o Chega ganhou, materializa-se na grotesca farsa de transformar a festa do Dia do Município, habitualmente na praia dos Pescadores com presença da comunidade e animação em palco, num provinciano espectáculo de luz projectada na fachada da autarquia.
Faz sentido para uma autarquia que é apenas fachada, onde a gramática do medo assenta menos em o Outro vir tomar o lugar dos que cá estão, uma vez que existem mais lugares do que ocupantes, do que em o Outro não vir tomar o lugar que lhe é reservado com reverência. Cristina, qual Salazar sulista com toques de KKK em modo messias, enquanto, tal como Cavaco e Montenegro, roga que o deixem trabalhar, faz ajustes directos no valor de 239 mil euros a uma empresa apoiante do CH (ver revista Sábado), contrata a irmã sem concurso público (ver jornal Público), descapitaliza o Imortal até ao ponto de ameaçar as equipas profissionais de um clube que foi campeão sub-18 há um ano. Numa autarquia onde a cultura se resume a comer, beber e servir, o desporto assume um papel de inserção social tão importante como em bairros problemáticos, embora os desertos sejam diferentes.
Entretanto, com temperaturas acima dos 30 graus há várias semanas, a população a decaduplicar durante o verão e as canibalizantes culturas de regadio de alta intensidade, como o abacate e a laranja, cuja figura de proa é Macário Correia, eleito presidente da Assembleia Municipal de Faro com o apoio do Chega, Cristina manifesta-se contra a dessalinizadora. Desta forma, a direita coopta a pouca resistência ambiental existente, deixando os deserdados da esquerda e dos movimentos populares num beco sem saída entre o silêncio e o alinhar de interesses com o Chega.
Os motivos de Cristina, é claro, são menos do que puros e procuram defender, não o ambiente, mas a hotelaria junto da praia da Falésia, que receberá as descargas de água com metais pesados provenientes do processo da dessalinizadora, resultando na destruição da que é considerada uma das mais belas praias da Europa e de todo o seu turismo.
O deprimente é que Cristina foi o político mais activo contra a dessalinizadora e tem razão sobre a sua futilidade. Não por as barragens estarem cheias, mas porque colmatará apenas as perdas de água de rebentamento de condutas e beneficiará, não a população, mas os abacateiros de Macário e a hotelaria.
Doze meses depois de Rui Cristina, que, nas poucas vezes em que aparece nas ruas rodeado de seguranças, é para tiktoks ou fotografias, ter tomado posse, alguns dos apoiantes começam a ser seus críticos, atestando que deixar o Chega autodestruir-se poderá ser a via mais rápida para nos livrarmos dele.
A questão é se sobreviveremos ao processo.
Declaração do Maio
Vários órgãos de imprensa, nomeadamente o Expresso, o Público e a CNN, reproduziram elementos filtrados do dossiê da acusação do Ministério Público ao grupo armado nazi Movimento Armilar Lusitano (MAL).
Referem que o grupo mantinha uma lista de “alvos” potenciais que incluía personalidades políticas e jornalísticas, associações e partidos, na maioria ligados ao movimento dos trabalhadores e à esquerda — incluindo Raquel Varela, da associação Maio em Movimento, que publica o Maio, bem como outros membros associados do Maio ou que com ele colaboram, dirigentes sindicais, e que são também visados nesta ignomínia, uma “lista negra” de homens e mulheres de luta e liberdade.
Não aceitamos ataques aos intelectuais públicos, aos trabalhadores organizados, aos dirigentes sindicais, associações populares e democráticas que se batem pela democracia, pelos direitos de quem trabalha, pelas minorias oprimidas, pelo socialismo. Este último é o campo do Maio. Eles não nos intimidarão. Tal como o pacote laboral, não passarão.
A imprensa deu destaque, nesta lista, às “ameaças” ao atual primeiro-ministro, que, como outros dirigentes do PSD e do jornalismo institucional, também constam da lista. A detenção dos suspeitos do MAL ocorreu em 2025. O momento destas revelações não será, pois, mera coincidência, quando Montenegro se propunha selar uma aliança de governo de facto com o Chega, depois de aprovar o “pacote laboral” de precarização geral do trabalho e de destruição dos direitos dos trabalhadores, nomeadamente dos sindicais e da greve (no que falhou).
Queria-se fazer parecer que a separação era entre “todos os democratas”, de um lado, e uns “mauzões” nazis; e que não só Montenegro, mas até Ventura, faziam parte dos primeiros — quando é público e notório que muitos dos grupos nazis são públicos apoiantes do Chega, que tem entre os seus dirigentes e membro da AR um dos chefes políticos do grupo terrorista de extrema-direita ELP/MDLP de 1975.
A verdadeira separação é entre quem trabalha e quem explora trabalho, é entre quem defende a igualdade, a liberdade e a fraternidade, reais, e quem cultiva a violência contra os trabalhadores e homens e mulheres da cultura.
Os tachistas oportunistas #6
Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA.
Bruno Mascarenhas, vereador da Câmara de Lisboa pelo Partido Chega, chamou a sua namorada Mafalda Livermore para ganhar uns tostões na autarquia. Dito e feito. Porém, esta já andava a fazer das suas. Alugava quartos infectos e insalubres a imigrantes e ganhava por cada cubículo 500 ou 600 euros. É de bradar aos céus tanta hipocrisia. As bocas que gritam contra imigrantes são as mesmas que se aproveitam deles. André Ventura assobiou para norte e foi à missa das 22 horas a São Nicolau. Mas estas comezainas, que deram barafunda, não terminam aqui. É que, entretanto, Ana Simões e Silva, vereadora eleita pelo Chega, desfiliou-se deste partido porque comia menos que Mascarenhas, e virou independente ao mesmo tempo que passava para outro comedouro. Carlos Moedas, todo contente, atribuiu-lhe o pelouro do Desperdício Alimentar e da Saúde. É de rir! Isto só prova que o Chega é mesmo o partido dos tachos, contrariando o que o chefe Ventura proclamava bem alto, desde o princípio, que era contra os tachos. O certo é que eles comem tudo e não querem deixar nada1.
Mas a gastrochegalice continua. Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA. Bruno Mascarenhas abria um cesto de 300 euros que continha um prato de comida selecta e uma garrafa de vinho para dois, enquanto a Livermore se contentava com o seu mais modesto, de 150 euros, que só continha meio prato. Era para turista ver! Quanto à ex-vereadora do partido Chega Ana Simões e Silva, agora filiada na pura independência, só a vimos no final: andava a ver por todo o lado se havia desperdícios de comida. Esta festa teve o apoio de Carlos Moedas, que ofereceu 75 mil euros. À boca da estação de metro do Marquês de Pombal, pensámos que o casal maravilha pode permitir-se tudo com o dinheiro exorbitante das rendas de casa pagas por imigrantes. Um dia destes ainda veremos o casal maravilha em piquenique na Arruda dos Vinhos, com o Cesário Verde na mão, numa tentativa desesperada de chamar a si mais gente com problemas de alojamento!
Os tachistas oportunistas #5
Vejamos o palmarés do deputado Miguel Arruda: primeiro, foi executante da saudação nazi no Parlamento; segundo, foi o único deputado contra o voto de pesar pela morte da escritora Maria Teresa Horta e, terceiro, foi pária, passando os seus últimos dias na Assembleia em jogos relaxantes no telemóvel.
É um caso muito singular e que deu a volta ao mundo. Durante um período de mais de três meses, mais exactamente entre Outubro de 2024 e Janeiro de 2025, o deputado do Chega Miguel Arruda roubou 20 malas no aeroporto Humberto Delgado e enquanto viajante anónimo nas suas deslocações entre Ponta Delgada e Lisboa. À medida que as furtava, ia-as colocando em sua casa ou no seu gabinete na Assembleia da República, tendo também alguns dos pertences alheios sido encontrados à venda na Internet. Porém, foi apanhado e expulso do partido, tendo depois continuado no Parlamento como deputado não inscrito durante alguns meses.
Sabe-se que este eleito açoriano esteve de cara tapada nos finais de 2024 numa manifestação do grupo neonazi 1143, já que era simpatizante do seu líder. Vejamos o palmarés do deputado Miguel Arruda: primeiro, foi executante da saudação nazi no Parlamento; segundo, foi o único deputado contra o voto de pesar pela morte da escritora Maria Teresa Horta e, terceiro, foi pária, passando os seus últimos dias na Assembleia em jogos relaxantes no telemóvel. Não pensem que o Arruda deixou de pensar em malas. Por estes dias chuvosos, quem for ao corredor do metro, no Martim Moniz, fica surpreendido. Abriu uma loja de malas, mochilas, malinhas de mão e outros objectos de viagem mesmo diante de outra que já lá estava há muito tempo e que pertence a um senhor paquistanês chamado Basim Sharif. “Arruda & Arruda”, é o nome do estabelecimento.
Mas o ex-deputado do Chega, na sua febre de fuga para a frente é que é o caminho, não se ficou por aqui. Na Avenida da Liberdade teve o descaramento de abrir uma loja moderna sempre com o mesmo nome “Arruda & Arruda – Artigos baratos de viagem”, mesmo ao lado do famosíssimo estabelecimento francês Louis Vuitton. Não sabemos qual é o objectivo do ilhéu com estes dois comércios. Mas sabemos que ainda continua com sequelas de um lumbago que contraiu em Dezembro de 2024 quando transportava pacatamente malas pesadas por lugares com escadas rolantes e elevadores avariados. Boa sorte ao empreendedor, que a este ritmo empresarial estará brevemente nos corredores dos supermercados e até do Contenente. É que neste ramo de negócio não há nada melhor do que a autopromoção.
Os tachistas oportunistas #4
Manuel Magno Alves foi eleito pelo círculo eleitoral Fora da Europa e é um senhor baixinho e parece que não mexe uma palha. De longe, parece um desses campónios que vieram com bosta nos sapatos para conquistar a cidade, mas trazem sempre com eles um cheiro a vacas leiteiras. Emigrou para o Brasil aos cinco anos e hoje é contra os imigrantes que vivem em Portugal. Pois este advogado, que pensa muito na sua carteira, pediu o reembolso de viagens à Assembleia da República fora de prazo e nas mesmas datas em que alegou doença para se ausentar do Parlamento. Passados alguns dias, vendo que tinha obtido vitória financeira, pediu outra vez, e fora de prazo, reembolso das suas deslocações ao Brasil. Porém, desta vez o presidente da AR Aguiar Branco não foi na fita e recusou.
Esta negativa constitui um problema, pois o viajante compulsivo e deputado do Chega já tinha realizado antes várias viagens à Alemanha e tencionava fazer-se reembolsar. Tinha viajado para o passado e assistira em 1934 ao 4º Congresso do Reich em Nuremberga, intitulado “Congresso do Poder”, e onde, do meio da multidão, batera palmas ao Führer. Em 1936, assistira no dia 1 de Agosto à abertura dos Jogos Olímpicos de Berlim e ficara contente, pois não encontrara nenhum cigano na cidade, já que os 800 que ali viviam tinham sido presos e confinados num campo especial num bairro periférico. Em 1939, em Colónia assistira à espectacular e monumental parada nazi na Praça Adolf Hitler e depois fora comer uma chucrute a uma cervejaria famosa.
Manuel Ramos
Os tachistas oportunistas #3
Este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem.
Candidato do Chega à União das Freguesias de Sé e São Lourenço em Portalegre, este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem. Estas poses eróticas e narcísicas foram divulgadas pelo Correio da Manhã e parece que localmente tiveram repercussão, pois o esbelto do Chega obteve 492 votos e um mandato. É caso para se dizer: mostra-te como és e serás recompensado.
Só que há um mas. Luís Portilheiro, que é licenciado em Psicologia, trabalha no Centro Distrital de Portalegre e é interlocutor em programas de colónias de férias, famílias de acolhimento e da Associação Ser Criança. É também responsável por programas ligados à infância, à deficiência e à proteção de crianças em risco. Perguntamos só isto: se fosse alentejano, confiaria a sua criança a um chegadinho destes?
(Objectiva, setembro de 2025)
Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e ali, com alguns dos principais pensadores atuais e históricos do campo do pensamento crítico e da reflexão sobre a extrema-direita e o fascismo (ex: Theodor Adorno, Zygmunt Bauman, Benito Mussolini, Giuliano da Empoli, Enzo Traverso e Bruno Latour), ajudando a enquadrar algumas das evidências apresentadas e a colocar em perspetiva a leitura que é feita. Este permanente vaivém entre a análise crítica fundada na teoria e os detalhes empíricos de quem andou a palmilhar o terreno durante os últimos seis anos, os pequenos episódios que dão vida ao conjunto, fazem desta obra um verdadeiro exercício de tapeçaria interpretativa do Chega e da sociedade portuguesa contemporânea. Num tempo em que, como canta a Capicua “não há quem não sinta um cheio a anos 30“1, é uma leitura fundamental e regista para memória futura aquilo que não devemos esquecer.
Ao mergulhar bem fundo nos bastidores do Chega, permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam, aqueles que permanecem na sombra a financiar a sua atividade e a alimentar aquilo que lhe dá força e vitalidade, isto é, a desinformação e a paranoia, o ressentimento, o preconceito e o ódio. Permite-nos compreender como foi possível termos deixado inscrever-se na sociedade portuguesa um agente patológico que corrói e ataca as fundações de uma democracia em acelerada degenerescência, a nossa, a partir do seu interior, enquanto, dominando com habilidade a narrativa mediática e cavalgando as redes sociais, consegue convencê-la de que é vítima e não carrasco.
Permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam…
Logo a abrir, um alerta que devemos ter em conta: é importante que façamos um esforço intelectual e político para distinguir o eleitorado do Chega de quem “manda, dirige ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta” (p. 20). Depois, explora-se o carácter messiânico do líder do Chega, André Ventura, também conhecido internamente como “Kim Jong-un de Mem Martins” (p. 578). Amadurecido nos debates futebolísticos que abundam na televisão portuguesa, onde terá exercitado o seu “galope de Gish”, isto é, uma estratégia retórica que passa por paralisar qualquer oponente debaixo de um jorro torrencial de argumentos, independentemente da sua validade, tornando impossível qualquer refutação, Ventura arrastou um séquito de fiéis provenientes de diferentes quadrantes, que incluiu, no congresso fundador realizado em Viseu, no final de fevereiro de 2020, “polícias, militares e seguranças adictos da ordem, da disciplina e da autoridade, mas também mulheres e homens “cansados de impunidades e compadrios” (…) [e] outros, já fartos de “parasitas com Mercedes à porta de casa” [que] desejavam simplesmente pôr os ciganos “nos eixos” (p. 40) (…) casais com bebés e crianças, um campeão de hipismo, um coronel da GNR aposentado e celebridades locais como João Tilly2 (p. 43)”.
André Ventura, diz-nos Miguel Carvalho, “intui como poucos os ressabiamentos, as ruminações e os preconceitos populares subterrâneos que borbulhavam pelo país” (p. 41). E prossegue para uma certa genealogia do Chega que abrange atores relativamente conhecidos do grande público, como o Partido Nacional Renovador ou o movimento Hammerskin, e outros mais obscuros como a Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro (P1) ou o Escudo Identitário. Os contornos de toda esta constelação de extrema-direita e das suas fontes doutrinárias nacionalistas e saudosistas de Salazar, com destaque para Jaime Nogueira Pinto3, mas também as referências internacionais como, por exemplo, Viktor Órban, líder do governo húngaro, ou Alexander Dugin, alegado ideólogo e “líder espiritual” de Vladimir Putin, são muito bem delineados, oferecendo-nos um retrato nítido do caldo cultural, relacional e institucional que possibilitou o aparecimento do Chega.
Também Ventura é colocado no divã e o seu trajeto suburbano, banalíssimo, sujeito a escrutínio. A sua história na freguesia de Algueirão-Mem Martins, Sintra, diz-nos Miguel Carvalho, “é a de um rapaz pacato de periferia, de raiz pequeno-burguesa, a quem a família pagava os estudos com dificuldade” (p. 60), filho de um ex-combatente na guerra colonial, que geria uma mercearia, e de uma secretária administrativa, depois doméstica; todos coabitando num lar onde abundavam livros sobre salazarismo e o pós-revolução.
Benfiquista inveterado, ocasional e dissimulado fumador de haxixe, vítima de bullying na escola, acabaria por descobrir Deus aos catorze anos, revelando um perfil obsessivo e fundamentalista habitual em convertidos tardios. Segue-se uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde despontam, por um lado, o seu carácter camaleónico e, por outro, um certo “oportunismo” que talvez possa ser sociologicamente associado ao alpinismo social que caracteriza a pequena burguesia em ascensão4. Seria um dos melhores alunos de sempre da Nova, terminando o curso com 19 valores, seguindo-se, a partir de 2008, uma estada em Cork, onde faz o seu doutoramento e nele cita extensivamente Boaventura de Sousa Santos, figura cimeira da teoria social crítica. De permeio, ensaia uma incursão como romancista publicando A Última Madrugada do Islão, obra que seria objeto da crítica literária do Jovem Conservador de Direita, para quem se tratava de “uma espécie de thriller erótico-político com a qualidade literária de uma ata de condomínio. O ‘50 sombras de Maomé’ que ninguém pediu” (p. 78). De regresso a Portugal, primeiro, torna-se inspetor da Autoridade Tributária, depois, apadrinhado por Jorge Bacelar Gouveia, converte-se em professor na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo como assistente o deputado Rodrigo Taxa. Toda esta densa trama e o modo como o Ventura messiânico e camaleónico foi urdindo as suas redes de capital social, nas imediações de vários tipos de poderes (jurídico, económico-empresarial, do “comentariado” futebolístico, mediático, etc.), onde, entre outras, pontificam destacadas figuras da extrema-direita bombista hoje convertidas em ilustres democratas, como José Manuel Júdice ou Diogo Pacheco de Amorim. Daí até ao ato “ciganófobo” falhado de 2017 em Loures, já com Ventura no PSD, à inspiração evangélica e bolsonarista, pouco depois, ou à falsificação de assinaturas que viria a ameaçar o registo do Chega enquanto partido político, foi um saltinho.
Desta fase formadora, aquilo que resulta claro é que as pessoas que no Chega procuraram infundir alguma espessura e consistência ideológica ao projeto político acabaram, quase todas, empurradas ou convidadas a sair. O importante foi promover um projeto de poder pessoal onde sempre imperou a navegação à vista. Impressiona também o modo como o WhatsApp é utilizado como suporte para a reflexão coletiva e o Facebook constitui uma plataforma sem a qual não haveria Chega como, de resto, concede uma das pessoas entrevistadas no livro5. Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas. Naturalmente, não prescindindo de financiamento mais ou menos expressivo proveniente de diversas personalidades das elites económicas e empresariais portuguesas: Pedro José de Mello, Mafalda Champalimaud e Miguel Sommer Champalimaud, Francisco Van Uden, Salvador Posser de Andrade, Francisco Cruz Martins, Anthony Stilwell, entre outros. E todo este contexto, permitiu seduzir aquilo a que Miguel Carvalho chama “liga de esquecidos”.
O livro explora também as ligações mais ou menos obscuras do Chega com famílias de “privilegiados do antigo império” (p. 343), burgueses poderosos ligados à escravatura, ao colonialismo, à ditadura fascista do Estado Novo e à guerra colonial como, por exemplo, a família de João Maria Bravo, cuja fortuna começa a ganhar forma no negócio do tabaco, ainda no século XIX, no Brasil; de Miguel Félix da Costa, ligado à filial portuguesa da multinacional Castrol, mas também com participações no imobiliário de luxo, hotelaria e turismo; de Paulo Côrte-Real Mirpuri, que liderou a Air Luxor e tem negócios na aviação, imobiliário, florestas, agricultura e saúde; de Jorge Ortigão Costa, presidente da holding alimentar Sogepoc, e muitos outros. Trata-se, naturalmente, da fina flor da fidalguia lusitana. O facto de todos serem reconhecidos por três nomes é, em si mesmo, um marcador de distinção social. Modos de dizer, categorizar e nomear são tudo menos neutros6.
Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas.
Também a este respeito, impera alguma diversidade: “baronesas, condes, advogados, figuras da alta finança, gestores de fundos imobiliários, empresários de sucesso, membros de movimentos ultracatólicos, salazaristas convictos e descendentes de admiradores do nazismo, o rol de financiadores ocasionais ou habituais do Chega assemelhava-se a uma grande família onde cada um dava o que podia” (p. 350). Daqui resulta que a pátria do Chega é verdadeiramente o vil metal e a noção de que se trata de um partido antissistema não podia estar mais distante da realidade material que o sustenta.
Descreve-se com grande minúcia o tristemente célebre segundo congresso do Chega, realizado em Évora no final de 2020, num capítulo sugestivamente intitulado “Bem-vindos ao lodo”, onde o conspiracionismo à la QAnon7, as ameaças grotescas entre militantes, os golpes palacianos e as lutas intestinas pelo poder tiveram rédea-solta, e onde tudo se podia dizer. Perder-se-iam milhares de militantes e a imagem do Chega passaria a ser a de uma turba ululante. Patrícia Sousa Uva acrescenta: “somos a maior fraude da história da política portuguesa. Fazemos cá dentro tudo o que dissemos que íamos combater” (p. 405). Mais adiante, Carlos Furtado, deputado eleito em 2020 nos Açores, assegura: “O Chega não é conservador, nem de extrema-direita, mas sim de extremo oportunismo” (p. 417).
O modo como o PSD, por intermédio do seu líder de então, Rui Rio, contribuiu para legitimar e normalizar o Chega gerou alguma celeuma junto de destacadas figuras do partido, como Rui Machete, Pacheco Pereira, Jorge Moreira da Silva ou Teresa Leal Coelho, mas, paulatinamente, foi-se impondo, com a anuência de “barões” como Mota Amaral, Manuela Ferreira Leite e Pinto Balsemão. No que toca à sua afirmação na paisagem política portuguesa, o acordo entre PSD e Chega nos Açores, em 2020, acabaria por ter um desfecho favorável. Mais recentemente, a coligação AD liderada por Luís Montenegro, formalizaria acordos parlamentares sobre o IRS, as restrições à imigração e à obtenção da nacionalidade. Das cercas sanitárias ao “não é não”, tudo isso foi borda fora. Afinal de contas, o poder é a alma do negócio e a direita, ao contrário da esquerda, sempre foi mais psicótica do que neurótica.
A implantação autárquica do Chega, primeiro em 2021 e, depois, em 2025, também demonstra que o seu processo de expansão é mais complexo e ziguezagueante do que parece. Miguel Carvalho demonstra, com recurso a evidências muito sólidas, que os quadros são recrutados sem quaisquer critérios mínimos de qualidade ou competência, levando a inúmeras situações caricatas de desistência, abandono, mas também à incorporação nas estruturas do partido de delinquentes e criminosos. Neonazis, extremistas de direita radical, teóricos da conspiração e fervorosos prosélitos de vários credos, inclusive do Opus Dei e da maçonaria, sentem-se atraídos pelo partido. Não surpreende, pois, que uma personalidade como Gabriel Mithá Ribeiro, que parece ter feito um esforço honesto para densificar ideologicamente o partido, acabasse – também com um “empurrãozinho” deste Por Dentro do Chega – por abandoná-lo. Tal como escreveu Isabela Figueiredo, sua colega na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, tal como Mithá, nascida em Moçambique, “O Gabriel pode não ser solidário, mas é um intelectual, reto, profundamente educado. No Chega ele parecia-me uma célula anómala. Nunca compreendi8“.
Por sua vez, o eleitorado do Chega caracteriza-se por uma excessiva credulidade relativamente a quaisquer conteúdos ou “factos alternativos”, isto é, ausência ou desvalorização de qualquer ceticismo ou pensamento crítico, consumos de informação pobres assentes em tabloides e entretenimento. Tendencialmente, são jovens do sexo masculino, religiosos e rurais ou, diria eu, reféns de mentalidades algo provincianas, com pouco mundo e sem grande espessura ou curiosidade intelectual. Henrique Raposo, escritor católico de direita, citado no livro, põe as coisas em perspetiva afirmando que: “hoje em dia, as pessoas são átomos separados e não têm um sentido de corpo, um sentido de comunidade” (p. 657). Para muitas delas, vítimas da atomização inscrita nos seus corpos e mentes no quadro da hegemonia neoliberal, o Chega tem funcionado como um verdadeiro íman. Gente que por se sentir devastada sente um desejo profundo de destruir os outros.
Miguel Carvalho aborda também a proposta de criação de uma nova central sindical para ombrear com CGTP e UGT, feita por Lucinda Estrela, num congresso em 2021, que seria recebida com enorme acrimónia. Curiosamente, um ano volvido, Ventura anunciaria publicamente a criação do Solidariedade (apelando à memória do sindicato polaco antissoviético liderado por Walesa e financiado pela CIA). Passaram quatro anos e nada. Pura navegação à vista. O que interessa é ocupar tempo de antena e, para o Chega, o vale-tudo não é só uma arte marcial, é uma forma de estar na política. Por isso, não surpreende que atraia oportunistas e alpinistas sociais como, por exemplo, Paulo Ralha que andou pelo PS, passou pelo BE, navegou nas águas do Congresso Democrático das Alternativas, foi dirigente no Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos e acabaria candidato à Câmara de Barcelos pelo Chega, em 2025. Como afirmava Riccardo Marchi, citado por Miguel Carvalho, o Chega é “um saco de gatos com gente de todos os lados” (p. 600).
A capacidade de penetração do Chega nas forças de segurança, junto dos profissionais da GNR e da PSP no ativo, mesmo estando estes legalmente impedidos de se filiar em partidos políticos, mostra também quão fértil estava já este terreno. O aspeto mais preocupante retratado por Miguel Carvalho é o facto de, contrariamente à narrativa dominante, as afinidades com o Chega não traduzirem tanto a existência de “maçãs podres” ou casos excecionais, mas sim um quadro sociológico global bastante alinhado com o discurso do partido. Parece existir uma espécie de submundo policial e militar onde a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e o ódio, sobretudo a coberto do anonimato das redes sociais, atingem um nível desmedido. A este respeito, aliás, menciona-se um tal Manuel C., agente do Comando Distrital de Évora da PSP que, em 2022, coordenava as concelhias do Chega no Alentejo.
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O Alentejo surge, aliás, várias vezes ao longo do livro, ainda que de modo mais desenvolvido quando se descreve o trabalho de campo realizado em Moura. E não é difícil perceber porque é que isto acontece. Hoje, o Alentejo constitui o melhor exemplo daquilo que se tem vindo a designar como “left-behind places9” ou geografias do ressentimento10, isto é, territórios que experienciam vários mecanismos que são percecionados como configurando situações de abandono. Desde o encerramento de serviços públicos, escolas primárias, farmácias, postos dos correios, agências bancárias e até caixas multibanco, passando pela reorganização administrativa que fundiu freguesias e aumentou as distâncias aos centros de poder local, até ao número muito reduzido de deputados eleitos pela região do Alentejo e a grande distância simbólica a Lisboa, que parece desprezar e ignorar a região, mas também o envelhecimento e o despovoamento, os baixos salários, a precariedade ou o empobrecimento, são muitos os motivos para que o desencanto e a falta de perspetivas de futuro se instalem, cresçam o ressentimento e a raiva. A tudo isto acresce a recente dinâmica migratória – marcada pela chegada de imigrantes provenientes de países terceiros, naturalmente, porque os “expats” nunca são um problema –, que, juntamente com as comunidades portuguesas de etnia cigana, constituem aquele “outro11” de que nos fala a teoria pós-colonial, que foi sempre instrumentalizado como bode expiatório.
Isto não significa, contrariamente ao que muitos dizem, que exista uma transferência maciça de votos diretos do PCP para o Chega, por exemplo. Isso é uma simplificação excessiva fruto de uma metodologia deficiente em que se fixa o espaço geográfico de referência – o Alentejo – e se fazem variar os resultados eleitorais, sem considerar as modificações na composição sociodemográfica do eleitorado que resultam da passagem do tempo. Para simplificar, aquilo que provavelmente sucede no Alentejo é a existência de uma modificação intergeracional do padrão de voto, isto é, avós e pais comunistas têm agora filhos e netos que votam Chega. Miguel Carvalho tem o cuidado de nunca cometer este erro de análise, tão comum no “comentariado” nacional, mencionando até um trabalho de investigação que demonstra que, sobretudo nas freguesias rurais do Sul, foi o PS a força política que transferiu mais eleitorado para o Chega12.
Por Dentro do Chega é, pois, uma obra fundamental para compreender a atualidade, perceber como aqui chegámos e começar a ganhar balanço para construir um futuro em que a verdade e a mentira não sejam sinónimos e em que possamos todos parar para pensar, sem sermos levados no fluxo torrencial de desinformação e pós-verdade com que somos diariamente inundados e que o Chega cavalga com mestria. A saturação permanente do espaço digital, o controlo da economia política da atenção, permite manipular as perceções, alimentar vieses cognitivos e, parafraseando Gilles Lipovetsky, criar uma espécie de Era do Vazio13, de que se alimenta o Chega.
Tratando-se de uma obra colossal, por vezes quase colapsa sob o peso imenso das fontes mobilizadas. Consegue aguentar-se porque a abordagem é ágil, simples e direta. São episódios, recortes, narrativas curtas, pequenos contos, que nos transportam para este mundo tão peculiar, sem exaltação de virtude, superioridade moral ou sobranceria. Ainda assim, a inclusão no livro de um esquema ou árvore de ligações articulando os vários protagonistas identificados, um guia visual para a navegação, teria sido vantajoso para o leitor interessado. Quanto mais não seja, para se perceber melhor o modo como o Chega não passa de uma grande família, onde o nepotismo e o tráfico de influências são tão ou mais comuns do que nos partidos que diaboliza.
Percebemos também que o Chega, partido neofascista ou pós-fascista, na terminologia de Enzo Traverso14, não concebe a incoerência programática ou a indefinição ideológica como problemas. Existe intencionalidade na ambiguidade estratégica adotada e no reconhecimento de que tudo deve estar subordinado a uma lógica de ação. Há 100 anos, o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, num texto intitulado “Mussolini e o fascismo”, escreveu: “O programa do fascismo é confuso, contraditório, heterogéneo: contém conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Melhor dito, Mussolini não deu ao fascismo um verdadeiro programa, deu-lhe um plano de ação15“.
O que este Por Dentro do Chega sugere é que Ventura lidera o plano de ação do fascismo para Portugal e o Chega é o seu instrumento. A resposta, afirma Miguel Carvalho, poderá passar por escutar e dialogar com a geografia eleitoral do Chega para a resgatar do extremismo, reconstruir o valor da palavra dada e da promessa cumprida, explorar as infinitas possibilidades do encontro com o “outro”, o estranho, o diferente. É preciso cultivar bondade, generosidade e empatia. Para começo de conversa, não está nada mal.
Letra do single “Danúbio” que integra o álbum “Um gelado antes do fim do mundo” (2025).
Engenheiro, professor de Matemática, fundador da Juventude Socialista em Seia, posteriormente militante do PSD, incendiário das redes sociais e agora deputado eleito na AR pelo Chega.
Ficamos a saber que O fim do Estado Novo e as origens do 25 de Abril (1995) é um dos livros de cabeceira de André Ventura.
Processo retratado em obras literárias como Regresso a Reims de Didier Eribon, Os Anos de Annie Ernaux ou Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule de Édouard Louis.
5.Trata-se de Patrícia Sousa Uva, “mandatária nacional da candidatura presidencial de Ventura quando se demitiu” (p. 400).
Ver, por exemplo, o dossiê "Outros nomes, histórias cruzadas: os nomes de pessoa em português", publicado sob direção de João de Pina-Cabral, na revista Etnográfica, n.º 12(1), disponível em: https://journals.openedition.org/etnografica/1583 ou a obra seminal O que Falar Quer Dizer (Bourdieu, 1988).
Teoria da conspiração de extrema-direita, surgida em 2017, nos Estados Unidos, segundo a qual existiu uma cabala de esquerda, constituída por adoradores de Satanás, pedófilos e canibais, que dirigiu uma rede global de tráfico sexual de menores, e conspirou contra Donald Trump durante o seu primeiro mandato presidencial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/QAnon.
Ver Rodríguez-Pose, Terrero-Dávila e Lee (2023) Left-behind versus unequal places: interpersonal inequality, economic decline and the rise of populism in the USA and Europe. Journal of Economic Geography, 23, 951-977.
Ver Madeira, Silva e Malheiros (2021) A geografia da direita nacionalista em Portugal: contornos de um processo emergente. Cad. Metrop., São Paulo, 23(51), 469-498.
Conceito central para a reflexão pós-colonial, o “outro” é objeto de discussão aprofundada em obras Postcolonialism (Jazeel, 2019) ou Geographies of Postcolonialism: Spaces of Power and Representation (Sharp, 2009).
Ver Magalhães e Cancela (2025) Political neglect and support for the radical right: The case of rural Portugal. Political Geography, 116, 103224.
Em A Era do Vazio: Ensaios sobre o Individualismo Contemporâneo (2013), Gilles Lipovetsky aborda o processo de individualização das sociedades ocidentais contemporâneas, nas quais o narcisismo e formas quási-niilistas de hedonismo emergem como atributos definidores dos sujeitos.
Ver As Novas Faces do Fascismo: Populismo e a Extrema Direita (Traverso, 2024).
O Chega fez a sua primeira acção de milícias. Para a justificar socorreu-se da lógica formal, que há muito tomou conta do espaço público: se estudantes ocupam, disse o Chega, porque não invadimos também? A acção desta milícia, foi – não é de somenos! – contra um órgão de informação e na academia. Ou seja, a esfera pública que não controlam. Ora a greve, parar a produção, é legal, para defender os trabalhadores, mas parar a produção pelos patrões, lockout, é ilegal. Matar um judeu, comunista, cigano ou homossexual na II Guerra Mundial era matar; matar um nazi também é matar. Ambos os lados matavam, uns para impor a barbárie, outros estavam na resistência para defender-nos da barbárie. Prender um nazi assassino é proteger a sociedade, prender um opositor político é impor uma ditadura à sociedade. O Chega não é um partido, é uma milícia fascista, foi exatamente isso que foi ontem, às claras: uma milícia contra estudantes e jornalistas. Quem achar que é uma brincadeira o que se passou em Coimbra não percebe nada de política.
Matar um judeu, comunista, cigano ou homossexual na II Guerra Mundial era matar; matar um nazi também é matar. Ambos os lados matavam, uns para impor a barbárie, outros para defender-nos dela.
Ocupar uma praça para lutar pelo direito à habitação é ocupar um espaço público para defender a dignidade humana contra o roubo pelos fundos imobiliários, os que o Chega aprovou há duas semanas com o PSD e a IL; ocupar as terras e impedir máquinas de minas de avançarem e destruírem a água potável é lutar pelo direito à vida. Tudo isto é resistir, direito inscrito em todas as Constituições modernas. Já um partido fascista como o Chega invadir um órgão de comunicação social é esmagar o direito de os jornalistas decidirem quem entrevistam, como e quando. É usar da violência para impor uma ideologia que justifica a morte e perseguição de quem consideram indigno de viver ou ter direitos.
Se um israelita atira uma pedra a um palestiniano está a lutar por roubar-lhe as terras, se um palestiniano atira uma pedra a um israelita está a lutar para não ser roubado.
O Chega é um partido-milícia fascista. Não vivemos hoje num regime fascista, nem acho que sejam favas contadas lá chegarmos; a resistência na Europa ergue-se e apenas começa. Mas o Chega é uma criação monstruosa das classes dirigentes portuguesas que, com medo de greves e resistência popular aos salários miseráveis e horários de escravatura, financiam, apoiam e entrevistam vezes sem conta, nos jornais e nas televisões privadas e também do Estado, esta organização de violência e morte, que espalha pelo país a mais elementar manipulação e violência. Ontem silenciaram uma rádio, mas há anos que calam jornalistas e deputados, aos gritos e com ofensas. Já eram uma milícia, só não via quem não queria.
Precisamos de salvar Portugal do Chega. Não vai ser com o PS, já se percebeu, nem vai ser com queixinhas no Facebook. Organizemo-nos! Como dizem os bravos de Covas do Barroso, o povo tem de se juntar e impor a justiça, precisamos mesmo de nos juntar, organizar, porque há um mundo novo de paz que quer nascer. Para isso, precisamos de tirar da frente estas milícias da morte e da guerra, como o Chega.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas. De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
Não sei se tiveram hipótese de perder quatro preciosas horas da vossa vida a troco da penosa comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, o “hit” deste verão.
Imagino que não. Vocês parecem ser pessoas bem mais sensatas do que eu.
Todo aquele espectáculo, sim, mesmo deprimente não deixou de ser um espectáculo, é um resumo perfeito do estado do País, em particular da governação de Montenegro.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando.
Não vou discutir tanques, atrelados ou sobras da CP. Nada disso me interessa e, já agora, nem ao Chega. O “crime” do actual ministro da Administração Interna, aquilo que realmente Ventura nunca conseguiu perdoar, foi a clareza com que Neves, ainda na posição de director da PJ, dizimou as teorias da extrema-direita de associar a insegurança ao aumento da imigração. Luís Neves muniu-se de factos e dados do INE, o Chega tinha as “verdades” das sensações e os estudos do tik-tok. Não é difícil adivinhar quem saiu por cima nesse despique.
Há meses que o Chega persegue Luís Neves e, depois de toda a gritaria nas redes sociais e nas 15 entrevistas “exclusivas” do Ventura (quando é que lhe arranjam uma caravana para acampar entre os estúdios da CNN e do NOW?), chegaram à CPI sem uma pergunta relevante para fazer.
O nível de incompetência, a falta de preparação e até as dificuldades de articular frases em português correcto dos deputados do Chega são tão gritantes, que acabo por ser forçado a concluir duas coisas. A primeira, e que já todos sabíamos, é que o Chega não está minimamente interessado na queda de Luís Neves. Precisam de um alvo para fingir que fazem oposição e que lhes alimente o barulho. É tudo o que sobra a quem não tem programa. A outra conclusão, mais popular, mas também simples de compreender, é que de facto, quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Montenegro também deve estar contentíssimo com todo este forró. Quanto mais a vara de marmeleiro aponta ao MAI, mais folgam as costas do CEO da Spinumviva. Se não quiséssemos pensar muito, bastar-nos-ia isto. Um país que elege, duas vezes, um empresário que tudo o que tinha para vender era a sua lista telefónica, quer assim tanto saber de tanques em Odemira ou carros apreendidos e legalmente utilizados? Vá lá, temos de começar a olhar para os movimentos da extrema-direita com os olhos abertos.
A dada altura, Pedro Pinto, esse Churchill do aposento da Moita, quis que Luís Neves falasse dos percevejos nas esquadras não sei de onde. O Chega deve ter extraído daquelas quatro horas uns bons três ou quatro vídeos de 30 segundos para alimentar aquela legião de fãs acrítica e adormecida que ainda acha que dali chegam as verdades.
Cá fora, no mundo real, o BCE aumentava pela segunda vez, no espaço de dois meses, as taxas de juro. A gasolina chegava a 2,2 euros por litro, os níveis de leitura e matemática da escola pública regrediam 20 anos.
Os Portugueses, cada vez mais pobres e endividados, sem conseguirem chegar ao fim do mês e sem perceberem como é que o trabalho, o estudo ou o esforço lhes podem trazer novos patamares no elevador social.
Perante este quadro de miséria, a AR discute o carro do Xuxas e todo o nosso debate político gira à volta de um tanque em Odemira. Nada, absolutamente nada, do que é relevante para a vida dos Portugueses é debatido pelos deputados da nação.
É uma mediocridade que agrada a Luís Montenegro porque lhe permite continuar a viver de propaganda e tentativas de reforma. É óptima para o Chega porque perpetua a pobreza que lhes dá votos e alimenta a gritaria de que vivem. E é também excelente para os liberais porque, perante a inoperância do Governo ou as limitações da extrema-direita, os discípulos de Milei, que até sabem usar talheres, quase que passam por gente que se preocupa com a populaça.
Não tenho grandes dúvidas sobre o abandono a que este Governo e os partidos de direita, da mais tradicional até aos extremistas, sujeitaram os Portugueses. Em especial aqueles que vivem do seu trabalho. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas.
De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
“Como é viver no município onde o Chega ganhou?” Esta é a pergunta que mais tenho ouvido no último ano, quase ex-aequo com “como é que o Chega ganhou Albufeira?”
Quero acreditar que a minha condição de desenraizado, alguém sem terra depois de se ter mudado de Lisboa para Albufeira há 9 anos, sem conseguir pertencer a nenhum dos locais, também eles desterritorializados, me permite ter uma visão mais clara da situação.
Estou igualmente distante do bairrismo local que se orgulha da sua própria destruição ao ser a capital do turismo, não apenas por discordar dessa valorização, como do Lisboa-centrismo que leva a interpretar o país à luz do que acontece na capital. Aliás, em jeito de piada costumo dizer aos meus amigos de Lisboa que brincam comigo por eu viver em terra de Chega, que ele estão pior, têm o Chega e o Moedas, um agente infiltrado.
Praticamente um ano depois da vitória de Rui Cristina em Albufeira e do seu partido em 3 das 4 freguesias, é já dolorosamente evidente que, tanto o presidente como o próprio CH operam na lógica de continuidade do PSD, acelerando, apesar de tudo, os efeitos colapsantes das suas políticas.
Muitos dos problemas de Albufeira já existiam antes de Rui Cristina assumir o cargo, mas a partir desse momento questões essenciais como a existência de passeios, iluminação pública, limpeza, recolha de lixo e gestão hídrica tornaram-se responsabilidade sua. Uma responsabilidade que escolheu, tal como os seus antecessores, ignorar, socorrendo-se do que aqui é louvado como a panaceia para todos os males: o turismo.
É para manter a indústria mais extractiva de todas que Albufeira se tem vindo a sacrificar desde o fim dos anos 70. Por si existe a cintilante Albufeira litoral, pintada de branco, todas as manhãs limpa e ordenada depois das noites turísticas cujo principal interesse é a alcoolização. Essa vitrina, incorpora spas, gastronomia tradicional portuguesa e um modus vivendi estilo Benidorm, consome implacavelmente todos os recursos, individuais e colectivos da outra Albufeira, a simultaneamente real e invisível.
Essa Albufeira, a dos que moram sem vista para o mar ou tempo para o visitar, que encontram todos os dias entulho e detritos junto ao contentor, que precisam de se deslocar de automóvel para fazer a reciclagem a mais de 1 km de distância, como também dele necessitam para tudo o resto, a menos que estejam dispostos a arriscar a vida de bicicleta nas estradas saturadas do verão, como eu e mais alguns loucos, é a Albufeira que acreditou nos cartazes que ostentavam a frase: “O Chega resolve.”
É importante ler o livro do Miguel Carvalho para perceber que o eleitorado do Chega não é necessariamente igual aos tipos abomináveis que se passeiam no parlamento como um fidalgo pela sua ganadaria no século XIX, e tentar compreender as razões pelas quais o partido de André persevera, embora as realidades locais e nacionais sejam distintas em alguns pontos.
Depois de acompanhar todos os debates, não fiquei surpreendido quando Cristina conquistou a câmara, pois numa prova cega, ele sairia certamente vencedor. Não por mérito próprio, mas por demérito dos oponentes, onde se contavam um candidato do PS sem retórica ou ideias que não a reprodução do insustentável estilo de vida vigente, sob cuja alçada, tanto Livre como BE se anularam numa coligação, a IL com o seu discurso de fetichismo thatcherista a promover o mercado livre como a igreja a terra prometida, um PSD estafado cuja melhor ideia que apresentou foi fazer um dinoparque igual ao da Lourinhã, e a ausência do PCP.
Cristina não é a explicação da sua própria vitória, não possui magnetismo pessoal, não é da terra ou tem o carisma de grande líder que uma certa facção portuguesa adora. A sua vitória deve-se ao que não parecia ser. Não parecia ser continuidade.
A sua vitória é explicada por uma conjugação de factores, alguns globais, outros específicos, sendo o mais importante deles a distância física e mental que serve de barreira entre o resto do país e o Algarve, equivalente a uma ZEE, Zona Económica Especial, estatuto extraordinário conferido às cidades sweatshops chinesas.
Explica-se também pela pouca oposição existente durante os executivos de José Carlos Rolo, Carlos Silva e Sousa e Desidério Silva, que reduziram durante mais de duas décadas, as suas acções à assembleia municipal e ao período de campanha eleitoral, contribuindo para o legítimo sentimento de abandono de uma população cada vez mais empobrecida, envelhecida e em busca da bala de prata que o neoliberalismo promete para todos os que se ajoelharem diante da sua divindade.
Cristina fez uma única promessa durante a campanha, a de não dar casas a ciganos, assim como Trump, no primeiro mandato, construiu a sua campanha sobre o muro na fronteira com o México. O discurso contra a comunidade cigana já era recorrente em Albufeira muito antes de ser o branding fundacional da extrema-direita nas televisões, e ninguém se coibia de o proferir, pelo que, Cristina veio institucionalizar a ideia de que os ciganos são o problema também em Albufeira e por sua culpa, não há casas onde morar, ainda que uma grande maioria viva nos dois acampamentos próximos da minha casa.
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Embora não seja noticiado, todos os anos há vários pequenos incêndios florestais no perímetro em redor dos acampamentos ciganos e em várias ocasiões em que assisti à actuação dos bombeiros, a conclusão, tanto de civis como de bombeiros, é de culpabilização da comunidade cigana, mesmo sem provas. Recordo-me de ter ligado para os bombeiros há poucos meses para avisar de um incêndio e o primeiro comentário do outro lado foi: “Isso são os ciganos.”
Não é, portanto, surpreendente ter sido um bombeiro que afirma não perceber nada de política a vencer a freguesia de Albufeira e de Olhos de Água. Também não são surpreendentes as conversas que tive com um membro do executivo de Cristina, que afirmava não ter nada contra os ciganos, mas “isto é o que as pessoas querem ouvir”, insistia depois de eu tentar explicar que não podia estigmatizar toda uma comunidade para seu proveito político, ilustrando, involuntariamente, o populismo da forma mais exemplar possível.
Uma vez que os ciganos são pouco visíveis no quotidiano da cidade e raramente na zona litoral, foi necessário um bode expiatório com as costas mais largas, e eis que entram os imigrantes em cena.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita, ainda no executivo de José Carlos Rolo, o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”. A acusação contra os imigrantes ficou no ar e nos cartazes de Ventura, mas não nos de Cristina, talvez por ter compreendido rapidamente que, sem eles, todas as empresas voltariam a ter falta de mão de obra num nível de desespero tão grande, que, tanto a Sonae, como a Jerónimo Martins e o supermercado Apolónia faziam campanhas de recrutamento e ostentavam cartazes de oferta de emprego, o ano todo.
Os bots de André nas redes sociais trataram do resto e bastava estar em qualquer grupo de Facebook remotamente relacionado com Albufeira para assistir à regurgitação ad nauseam de comentários sobre o sentimento de insegurança, cujas razões o RASI veio desmentir, ao ver passar os grupos de “indianos”, apesar de nunca ter havido qualquer aumento de criminalidade relacionado, nem aqui, nem no resto do país.
Neste ponto em particular, o executivo anterior abriu caminho para a vitória do seu oponente mais à direita, primeiro por negar o aumento de criminalidade ao mesmo tempo que aumentava o policiamento e depois, ao permitir que seis autocarros descarregassem 300 nazis de fora da cidade para marcharem pelas ruas de Albufeira, em cânticos e erguendo tochas como se estivéssemos na Itália de Mussolini.
Aqui e em todo o lado – Israel prova-o –, se há cor que os racistas respeitam mais do que o branco da pele, é o verde do dinheiro, por isso basta considerar a questão étnica no âmbito da luta de classes para perceber que os grupos de homens imigrantes, a vaguear pelas ruas sozinhos por terem sido impedidos de trazer as famílias, assustavam por “não se enquadrarem”, mas os asiáticos donos das cadeias hoteleiras a passear em carros topo de gama estão tão bem inseridos como as comunidades inglesas que vivem numa bolha, qual reformado da Florida.
Essa é uma das ideias que me surge recorrentemente quando penso sobre esta zona: Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
A esmagadora maioria das pessoas locais entre os 25 e os 55 anos conseguem permanecer em Albufeira (e no Algarve) porque não têm de pagar renda, ou por terem herdado uma casa de família, terem recuperado uma ruína ou comprarem casas de aço ou madeira, dado que, muito antes de a gentrificação ser considerada um problema nacional por acontecer em Lisboa e no Porto, já o era no Algarve.
Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
Os outros não só não encontram casas disponíveis como não conseguem pagar as que encontram, ou, nos raros casos em que tal é possível, deparam-se com a escolha entre sobreviver na precariedade do turismo ou arriscar na criação do próprio emprego numa zona onde se promove sol, noite e mar, mas quando a festa é permanente, é mera encenação a cobrir o vazio.
Quando a única coisa que há para oferecer é isso (ao contrário de Lisboa, onde existe oferta cultural), o consumo segue a lei da oferta e da procura, mudando-se para onde o preço for mais baixo, sejam as Balcãs, o Norte de África ou Espanha, revelando a bolha que é o turismo.
Uma vez rebentada a bolha, Albufeira entra em desespero, como aconteceu na grande crise de 2008 e está a acontecer agora, com taxas de ocupação em Julho na casa dos 30% e o pânico instalado dado a noite da Rua da Oura estar abaixo do esperado.
Mesmo dentro dos trâmites da arquitectura predatória turística, Cristina está em modo de implosão, como seria expectável de um partido composto essencialmente por refugo do PSD.
Além de atingir Albufeira no seu orgulhoso centro, o turismo, o executivo de Cristina tem vindo a devastar as poucas efemérides que restavam orientadas para os residentes e não para os visitantes. São exemplos disso o fim do mercado quinzenal e da Festa de Natal, no ano passado reduzida a uma tenda com um ringue de patinagem.
Em seu lugar recebe-se um concurso de street food do melhor hambúrguer, confirmando mais do que o apagamento dos resquícios da identidade de Albufeira, aqui sim, a sua Grande Substituição por paródias malparidas de modelos anglo-saxónicos.
O culminar dos constantes tiros no pé de Cristina, como aconteceu em Mora, onde o Chega ganhou, materializa-se na grotesca farsa de transformar a festa do Dia do Município, habitualmente na praia dos Pescadores com presença da comunidade e animação em palco, num provinciano espectáculo de luz projectada na fachada da autarquia.
Faz sentido para uma autarquia que é apenas fachada, onde a gramática do medo assenta menos em o Outro vir tomar o lugar dos que cá estão, uma vez que existem mais lugares do que ocupantes, do que em o Outro não vir tomar o lugar que lhe é reservado com reverência. Cristina, qual Salazar sulista com toques de KKK em modo messias, enquanto, tal como Cavaco e Montenegro, roga que o deixem trabalhar, faz ajustes directos no valor de 239 mil euros a uma empresa apoiante do CH (ver revista Sábado), contrata a irmã sem concurso público (ver jornal Público), descapitaliza o Imortal até ao ponto de ameaçar as equipas profissionais de um clube que foi campeão sub-18 há um ano. Numa autarquia onde a cultura se resume a comer, beber e servir, o desporto assume um papel de inserção social tão importante como em bairros problemáticos, embora os desertos sejam diferentes.
Entretanto, com temperaturas acima dos 30 graus há várias semanas, a população a decaduplicar durante o verão e as canibalizantes culturas de regadio de alta intensidade, como o abacate e a laranja, cuja figura de proa é Macário Correia, eleito presidente da Assembleia Municipal de Faro com o apoio do Chega, Cristina manifesta-se contra a dessalinizadora. Desta forma, a direita coopta a pouca resistência ambiental existente, deixando os deserdados da esquerda e dos movimentos populares num beco sem saída entre o silêncio e o alinhar de interesses com o Chega.
Os motivos de Cristina, é claro, são menos do que puros e procuram defender, não o ambiente, mas a hotelaria junto da praia da Falésia, que receberá as descargas de água com metais pesados provenientes do processo da dessalinizadora, resultando na destruição da que é considerada uma das mais belas praias da Europa e de todo o seu turismo.
O deprimente é que Cristina foi o político mais activo contra a dessalinizadora e tem razão sobre a sua futilidade. Não por as barragens estarem cheias, mas porque colmatará apenas as perdas de água de rebentamento de condutas e beneficiará, não a população, mas os abacateiros de Macário e a hotelaria.
Doze meses depois de Rui Cristina, que, nas poucas vezes em que aparece nas ruas rodeado de seguranças, é para tiktoks ou fotografias, ter tomado posse, alguns dos apoiantes começam a ser seus críticos, atestando que deixar o Chega autodestruir-se poderá ser a via mais rápida para nos livrarmos dele.
Vários órgãos de imprensa, nomeadamente o Expresso, o Público e a CNN, reproduziram elementos filtrados do dossiê da acusação do Ministério Público ao grupo armado nazi Movimento Armilar Lusitano (MAL).
Referem que o grupo mantinha uma lista de “alvos” potenciais que incluía personalidades políticas e jornalísticas, associações e partidos, na maioria ligados ao movimento dos trabalhadores e à esquerda — incluindo Raquel Varela, da associação Maio em Movimento, que publica o Maio, bem como outros membros associados do Maio ou que com ele colaboram, dirigentes sindicais, e que são também visados nesta ignomínia, uma “lista negra” de homens e mulheres de luta e liberdade.
Não aceitamos ataques aos intelectuais públicos, aos trabalhadores organizados, aos dirigentes sindicais, associações populares e democráticas que se batem pela democracia, pelos direitos de quem trabalha, pelas minorias oprimidas, pelo socialismo. Este último é o campo do Maio. Eles não nos intimidarão. Tal como o pacote laboral, não passarão.
A imprensa deu destaque, nesta lista, às “ameaças” ao atual primeiro-ministro, que, como outros dirigentes do PSD e do jornalismo institucional, também constam da lista. A detenção dos suspeitos do MAL ocorreu em 2025. O momento destas revelações não será, pois, mera coincidência, quando Montenegro se propunha selar uma aliança de governo de facto com o Chega, depois de aprovar o “pacote laboral” de precarização geral do trabalho e de destruição dos direitos dos trabalhadores, nomeadamente dos sindicais e da greve (no que falhou).
Queria-se fazer parecer que a separação era entre “todos os democratas”, de um lado, e uns “mauzões” nazis; e que não só Montenegro, mas até Ventura, faziam parte dos primeiros — quando é público e notório que muitos dos grupos nazis são públicos apoiantes do Chega, que tem entre os seus dirigentes e membro da AR um dos chefes políticos do grupo terrorista de extrema-direita ELP/MDLP de 1975.
A verdadeira separação é entre quem trabalha e quem explora trabalho, é entre quem defende a igualdade, a liberdade e a fraternidade, reais, e quem cultiva a violência contra os trabalhadores e homens e mulheres da cultura.
Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA.
Bruno Mascarenhas, vereador da Câmara de Lisboa pelo Partido Chega, chamou a sua namorada Mafalda Livermore para ganhar uns tostões na autarquia. Dito e feito. Porém, esta já andava a fazer das suas. Alugava quartos infectos e insalubres a imigrantes e ganhava por cada cubículo 500 ou 600 euros. É de bradar aos céus tanta hipocrisia. As bocas que gritam contra imigrantes são as mesmas que se aproveitam deles. André Ventura assobiou para norte e foi à missa das 22 horas a São Nicolau. Mas estas comezainas, que deram barafunda, não terminam aqui. É que, entretanto, Ana Simões e Silva, vereadora eleita pelo Chega, desfiliou-se deste partido porque comia menos que Mascarenhas, e virou independente ao mesmo tempo que passava para outro comedouro. Carlos Moedas, todo contente, atribuiu-lhe o pelouro do Desperdício Alimentar e da Saúde. É de rir! Isto só prova que o Chega é mesmo o partido dos tachos, contrariando o que o chefe Ventura proclamava bem alto, desde o princípio, que era contra os tachos. O certo é que eles comem tudo e não querem deixar nada1.
Mas a gastrochegalice continua. Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA. Bruno Mascarenhas abria um cesto de 300 euros que continha um prato de comida selecta e uma garrafa de vinho para dois, enquanto a Livermore se contentava com o seu mais modesto, de 150 euros, que só continha meio prato. Era para turista ver! Quanto à ex-vereadora do partido Chega Ana Simões e Silva, agora filiada na pura independência, só a vimos no final: andava a ver por todo o lado se havia desperdícios de comida. Esta festa teve o apoio de Carlos Moedas, que ofereceu 75 mil euros. À boca da estação de metro do Marquês de Pombal, pensámos que o casal maravilha pode permitir-se tudo com o dinheiro exorbitante das rendas de casa pagas por imigrantes. Um dia destes ainda veremos o casal maravilha em piquenique na Arruda dos Vinhos, com o Cesário Verde na mão, numa tentativa desesperada de chamar a si mais gente com problemas de alojamento!
Vejamos o palmarés do deputado Miguel Arruda: primeiro, foi executante da saudação nazi no Parlamento; segundo, foi o único deputado contra o voto de pesar pela morte da escritora Maria Teresa Horta e, terceiro, foi pária, passando os seus últimos dias na Assembleia em jogos relaxantes no telemóvel.
É um caso muito singular e que deu a volta ao mundo. Durante um período de mais de três meses, mais exactamente entre Outubro de 2024 e Janeiro de 2025, o deputado do Chega Miguel Arruda roubou 20 malas no aeroporto Humberto Delgado e enquanto viajante anónimo nas suas deslocações entre Ponta Delgada e Lisboa. À medida que as furtava, ia-as colocando em sua casa ou no seu gabinete na Assembleia da República, tendo também alguns dos pertences alheios sido encontrados à venda na Internet. Porém, foi apanhado e expulso do partido, tendo depois continuado no Parlamento como deputado não inscrito durante alguns meses.
Sabe-se que este eleito açoriano esteve de cara tapada nos finais de 2024 numa manifestação do grupo neonazi 1143, já que era simpatizante do seu líder. Vejamos o palmarés do deputado Miguel Arruda: primeiro, foi executante da saudação nazi no Parlamento; segundo, foi o único deputado contra o voto de pesar pela morte da escritora Maria Teresa Horta e, terceiro, foi pária, passando os seus últimos dias na Assembleia em jogos relaxantes no telemóvel. Não pensem que o Arruda deixou de pensar em malas. Por estes dias chuvosos, quem for ao corredor do metro, no Martim Moniz, fica surpreendido. Abriu uma loja de malas, mochilas, malinhas de mão e outros objectos de viagem mesmo diante de outra que já lá estava há muito tempo e que pertence a um senhor paquistanês chamado Basim Sharif. “Arruda & Arruda”, é o nome do estabelecimento.
Mas o ex-deputado do Chega, na sua febre de fuga para a frente é que é o caminho, não se ficou por aqui. Na Avenida da Liberdade teve o descaramento de abrir uma loja moderna sempre com o mesmo nome “Arruda & Arruda – Artigos baratos de viagem”, mesmo ao lado do famosíssimo estabelecimento francês Louis Vuitton. Não sabemos qual é o objectivo do ilhéu com estes dois comércios. Mas sabemos que ainda continua com sequelas de um lumbago que contraiu em Dezembro de 2024 quando transportava pacatamente malas pesadas por lugares com escadas rolantes e elevadores avariados. Boa sorte ao empreendedor, que a este ritmo empresarial estará brevemente nos corredores dos supermercados e até do Contenente. É que neste ramo de negócio não há nada melhor do que a autopromoção.
Manuel Magno Alves foi eleito pelo círculo eleitoral Fora da Europa e é um senhor baixinho e parece que não mexe uma palha. De longe, parece um desses campónios que vieram com bosta nos sapatos para conquistar a cidade, mas trazem sempre com eles um cheiro a vacas leiteiras. Emigrou para o Brasil aos cinco anos e hoje é contra os imigrantes que vivem em Portugal. Pois este advogado, que pensa muito na sua carteira, pediu o reembolso de viagens à Assembleia da República fora de prazo e nas mesmas datas em que alegou doença para se ausentar do Parlamento. Passados alguns dias, vendo que tinha obtido vitória financeira, pediu outra vez, e fora de prazo, reembolso das suas deslocações ao Brasil. Porém, desta vez o presidente da AR Aguiar Branco não foi na fita e recusou.
Esta negativa constitui um problema, pois o viajante compulsivo e deputado do Chega já tinha realizado antes várias viagens à Alemanha e tencionava fazer-se reembolsar. Tinha viajado para o passado e assistira em 1934 ao 4º Congresso do Reich em Nuremberga, intitulado “Congresso do Poder”, e onde, do meio da multidão, batera palmas ao Führer. Em 1936, assistira no dia 1 de Agosto à abertura dos Jogos Olímpicos de Berlim e ficara contente, pois não encontrara nenhum cigano na cidade, já que os 800 que ali viviam tinham sido presos e confinados num campo especial num bairro periférico. Em 1939, em Colónia assistira à espectacular e monumental parada nazi na Praça Adolf Hitler e depois fora comer uma chucrute a uma cervejaria famosa.
Este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem.
Candidato do Chega à União das Freguesias de Sé e São Lourenço em Portalegre, este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem. Estas poses eróticas e narcísicas foram divulgadas pelo Correio da Manhã e parece que localmente tiveram repercussão, pois o esbelto do Chega obteve 492 votos e um mandato. É caso para se dizer: mostra-te como és e serás recompensado.
Só que há um mas. Luís Portilheiro, que é licenciado em Psicologia, trabalha no Centro Distrital de Portalegre e é interlocutor em programas de colónias de férias, famílias de acolhimento e da Associação Ser Criança. É também responsável por programas ligados à infância, à deficiência e à proteção de crianças em risco. Perguntamos só isto: se fosse alentejano, confiaria a sua criança a um chegadinho destes?
Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e ali, com alguns dos principais pensadores atuais e históricos do campo do pensamento crítico e da reflexão sobre a extrema-direita e o fascismo (ex: Theodor Adorno, Zygmunt Bauman, Benito Mussolini, Giuliano da Empoli, Enzo Traverso e Bruno Latour), ajudando a enquadrar algumas das evidências apresentadas e a colocar em perspetiva a leitura que é feita. Este permanente vaivém entre a análise crítica fundada na teoria e os detalhes empíricos de quem andou a palmilhar o terreno durante os últimos seis anos, os pequenos episódios que dão vida ao conjunto, fazem desta obra um verdadeiro exercício de tapeçaria interpretativa do Chega e da sociedade portuguesa contemporânea. Num tempo em que, como canta a Capicua “não há quem não sinta um cheio a anos 30“1, é uma leitura fundamental e regista para memória futura aquilo que não devemos esquecer.
Ao mergulhar bem fundo nos bastidores do Chega, permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam, aqueles que permanecem na sombra a financiar a sua atividade e a alimentar aquilo que lhe dá força e vitalidade, isto é, a desinformação e a paranoia, o ressentimento, o preconceito e o ódio. Permite-nos compreender como foi possível termos deixado inscrever-se na sociedade portuguesa um agente patológico que corrói e ataca as fundações de uma democracia em acelerada degenerescência, a nossa, a partir do seu interior, enquanto, dominando com habilidade a narrativa mediática e cavalgando as redes sociais, consegue convencê-la de que é vítima e não carrasco.
Permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam…
Logo a abrir, um alerta que devemos ter em conta: é importante que façamos um esforço intelectual e político para distinguir o eleitorado do Chega de quem “manda, dirige ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta” (p. 20). Depois, explora-se o carácter messiânico do líder do Chega, André Ventura, também conhecido internamente como “Kim Jong-un de Mem Martins” (p. 578). Amadurecido nos debates futebolísticos que abundam na televisão portuguesa, onde terá exercitado o seu “galope de Gish”, isto é, uma estratégia retórica que passa por paralisar qualquer oponente debaixo de um jorro torrencial de argumentos, independentemente da sua validade, tornando impossível qualquer refutação, Ventura arrastou um séquito de fiéis provenientes de diferentes quadrantes, que incluiu, no congresso fundador realizado em Viseu, no final de fevereiro de 2020, “polícias, militares e seguranças adictos da ordem, da disciplina e da autoridade, mas também mulheres e homens “cansados de impunidades e compadrios” (…) [e] outros, já fartos de “parasitas com Mercedes à porta de casa” [que] desejavam simplesmente pôr os ciganos “nos eixos” (p. 40) (…) casais com bebés e crianças, um campeão de hipismo, um coronel da GNR aposentado e celebridades locais como João Tilly2 (p. 43)”.
André Ventura, diz-nos Miguel Carvalho, “intui como poucos os ressabiamentos, as ruminações e os preconceitos populares subterrâneos que borbulhavam pelo país” (p. 41). E prossegue para uma certa genealogia do Chega que abrange atores relativamente conhecidos do grande público, como o Partido Nacional Renovador ou o movimento Hammerskin, e outros mais obscuros como a Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro (P1) ou o Escudo Identitário. Os contornos de toda esta constelação de extrema-direita e das suas fontes doutrinárias nacionalistas e saudosistas de Salazar, com destaque para Jaime Nogueira Pinto3, mas também as referências internacionais como, por exemplo, Viktor Órban, líder do governo húngaro, ou Alexander Dugin, alegado ideólogo e “líder espiritual” de Vladimir Putin, são muito bem delineados, oferecendo-nos um retrato nítido do caldo cultural, relacional e institucional que possibilitou o aparecimento do Chega.
Também Ventura é colocado no divã e o seu trajeto suburbano, banalíssimo, sujeito a escrutínio. A sua história na freguesia de Algueirão-Mem Martins, Sintra, diz-nos Miguel Carvalho, “é a de um rapaz pacato de periferia, de raiz pequeno-burguesa, a quem a família pagava os estudos com dificuldade” (p. 60), filho de um ex-combatente na guerra colonial, que geria uma mercearia, e de uma secretária administrativa, depois doméstica; todos coabitando num lar onde abundavam livros sobre salazarismo e o pós-revolução.
Benfiquista inveterado, ocasional e dissimulado fumador de haxixe, vítima de bullying na escola, acabaria por descobrir Deus aos catorze anos, revelando um perfil obsessivo e fundamentalista habitual em convertidos tardios. Segue-se uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde despontam, por um lado, o seu carácter camaleónico e, por outro, um certo “oportunismo” que talvez possa ser sociologicamente associado ao alpinismo social que caracteriza a pequena burguesia em ascensão4. Seria um dos melhores alunos de sempre da Nova, terminando o curso com 19 valores, seguindo-se, a partir de 2008, uma estada em Cork, onde faz o seu doutoramento e nele cita extensivamente Boaventura de Sousa Santos, figura cimeira da teoria social crítica. De permeio, ensaia uma incursão como romancista publicando A Última Madrugada do Islão, obra que seria objeto da crítica literária do Jovem Conservador de Direita, para quem se tratava de “uma espécie de thriller erótico-político com a qualidade literária de uma ata de condomínio. O ‘50 sombras de Maomé’ que ninguém pediu” (p. 78). De regresso a Portugal, primeiro, torna-se inspetor da Autoridade Tributária, depois, apadrinhado por Jorge Bacelar Gouveia, converte-se em professor na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo como assistente o deputado Rodrigo Taxa. Toda esta densa trama e o modo como o Ventura messiânico e camaleónico foi urdindo as suas redes de capital social, nas imediações de vários tipos de poderes (jurídico, económico-empresarial, do “comentariado” futebolístico, mediático, etc.), onde, entre outras, pontificam destacadas figuras da extrema-direita bombista hoje convertidas em ilustres democratas, como José Manuel Júdice ou Diogo Pacheco de Amorim. Daí até ao ato “ciganófobo” falhado de 2017 em Loures, já com Ventura no PSD, à inspiração evangélica e bolsonarista, pouco depois, ou à falsificação de assinaturas que viria a ameaçar o registo do Chega enquanto partido político, foi um saltinho.
Desta fase formadora, aquilo que resulta claro é que as pessoas que no Chega procuraram infundir alguma espessura e consistência ideológica ao projeto político acabaram, quase todas, empurradas ou convidadas a sair. O importante foi promover um projeto de poder pessoal onde sempre imperou a navegação à vista. Impressiona também o modo como o WhatsApp é utilizado como suporte para a reflexão coletiva e o Facebook constitui uma plataforma sem a qual não haveria Chega como, de resto, concede uma das pessoas entrevistadas no livro5. Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas. Naturalmente, não prescindindo de financiamento mais ou menos expressivo proveniente de diversas personalidades das elites económicas e empresariais portuguesas: Pedro José de Mello, Mafalda Champalimaud e Miguel Sommer Champalimaud, Francisco Van Uden, Salvador Posser de Andrade, Francisco Cruz Martins, Anthony Stilwell, entre outros. E todo este contexto, permitiu seduzir aquilo a que Miguel Carvalho chama “liga de esquecidos”.
O livro explora também as ligações mais ou menos obscuras do Chega com famílias de “privilegiados do antigo império” (p. 343), burgueses poderosos ligados à escravatura, ao colonialismo, à ditadura fascista do Estado Novo e à guerra colonial como, por exemplo, a família de João Maria Bravo, cuja fortuna começa a ganhar forma no negócio do tabaco, ainda no século XIX, no Brasil; de Miguel Félix da Costa, ligado à filial portuguesa da multinacional Castrol, mas também com participações no imobiliário de luxo, hotelaria e turismo; de Paulo Côrte-Real Mirpuri, que liderou a Air Luxor e tem negócios na aviação, imobiliário, florestas, agricultura e saúde; de Jorge Ortigão Costa, presidente da holding alimentar Sogepoc, e muitos outros. Trata-se, naturalmente, da fina flor da fidalguia lusitana. O facto de todos serem reconhecidos por três nomes é, em si mesmo, um marcador de distinção social. Modos de dizer, categorizar e nomear são tudo menos neutros6.
Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas.
Também a este respeito, impera alguma diversidade: “baronesas, condes, advogados, figuras da alta finança, gestores de fundos imobiliários, empresários de sucesso, membros de movimentos ultracatólicos, salazaristas convictos e descendentes de admiradores do nazismo, o rol de financiadores ocasionais ou habituais do Chega assemelhava-se a uma grande família onde cada um dava o que podia” (p. 350). Daqui resulta que a pátria do Chega é verdadeiramente o vil metal e a noção de que se trata de um partido antissistema não podia estar mais distante da realidade material que o sustenta.
Descreve-se com grande minúcia o tristemente célebre segundo congresso do Chega, realizado em Évora no final de 2020, num capítulo sugestivamente intitulado “Bem-vindos ao lodo”, onde o conspiracionismo à la QAnon7, as ameaças grotescas entre militantes, os golpes palacianos e as lutas intestinas pelo poder tiveram rédea-solta, e onde tudo se podia dizer. Perder-se-iam milhares de militantes e a imagem do Chega passaria a ser a de uma turba ululante. Patrícia Sousa Uva acrescenta: “somos a maior fraude da história da política portuguesa. Fazemos cá dentro tudo o que dissemos que íamos combater” (p. 405). Mais adiante, Carlos Furtado, deputado eleito em 2020 nos Açores, assegura: “O Chega não é conservador, nem de extrema-direita, mas sim de extremo oportunismo” (p. 417).
O modo como o PSD, por intermédio do seu líder de então, Rui Rio, contribuiu para legitimar e normalizar o Chega gerou alguma celeuma junto de destacadas figuras do partido, como Rui Machete, Pacheco Pereira, Jorge Moreira da Silva ou Teresa Leal Coelho, mas, paulatinamente, foi-se impondo, com a anuência de “barões” como Mota Amaral, Manuela Ferreira Leite e Pinto Balsemão. No que toca à sua afirmação na paisagem política portuguesa, o acordo entre PSD e Chega nos Açores, em 2020, acabaria por ter um desfecho favorável. Mais recentemente, a coligação AD liderada por Luís Montenegro, formalizaria acordos parlamentares sobre o IRS, as restrições à imigração e à obtenção da nacionalidade. Das cercas sanitárias ao “não é não”, tudo isso foi borda fora. Afinal de contas, o poder é a alma do negócio e a direita, ao contrário da esquerda, sempre foi mais psicótica do que neurótica.
A implantação autárquica do Chega, primeiro em 2021 e, depois, em 2025, também demonstra que o seu processo de expansão é mais complexo e ziguezagueante do que parece. Miguel Carvalho demonstra, com recurso a evidências muito sólidas, que os quadros são recrutados sem quaisquer critérios mínimos de qualidade ou competência, levando a inúmeras situações caricatas de desistência, abandono, mas também à incorporação nas estruturas do partido de delinquentes e criminosos. Neonazis, extremistas de direita radical, teóricos da conspiração e fervorosos prosélitos de vários credos, inclusive do Opus Dei e da maçonaria, sentem-se atraídos pelo partido. Não surpreende, pois, que uma personalidade como Gabriel Mithá Ribeiro, que parece ter feito um esforço honesto para densificar ideologicamente o partido, acabasse – também com um “empurrãozinho” deste Por Dentro do Chega – por abandoná-lo. Tal como escreveu Isabela Figueiredo, sua colega na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, tal como Mithá, nascida em Moçambique, “O Gabriel pode não ser solidário, mas é um intelectual, reto, profundamente educado. No Chega ele parecia-me uma célula anómala. Nunca compreendi8“.
Por sua vez, o eleitorado do Chega caracteriza-se por uma excessiva credulidade relativamente a quaisquer conteúdos ou “factos alternativos”, isto é, ausência ou desvalorização de qualquer ceticismo ou pensamento crítico, consumos de informação pobres assentes em tabloides e entretenimento. Tendencialmente, são jovens do sexo masculino, religiosos e rurais ou, diria eu, reféns de mentalidades algo provincianas, com pouco mundo e sem grande espessura ou curiosidade intelectual. Henrique Raposo, escritor católico de direita, citado no livro, põe as coisas em perspetiva afirmando que: “hoje em dia, as pessoas são átomos separados e não têm um sentido de corpo, um sentido de comunidade” (p. 657). Para muitas delas, vítimas da atomização inscrita nos seus corpos e mentes no quadro da hegemonia neoliberal, o Chega tem funcionado como um verdadeiro íman. Gente que por se sentir devastada sente um desejo profundo de destruir os outros.
Miguel Carvalho aborda também a proposta de criação de uma nova central sindical para ombrear com CGTP e UGT, feita por Lucinda Estrela, num congresso em 2021, que seria recebida com enorme acrimónia. Curiosamente, um ano volvido, Ventura anunciaria publicamente a criação do Solidariedade (apelando à memória do sindicato polaco antissoviético liderado por Walesa e financiado pela CIA). Passaram quatro anos e nada. Pura navegação à vista. O que interessa é ocupar tempo de antena e, para o Chega, o vale-tudo não é só uma arte marcial, é uma forma de estar na política. Por isso, não surpreende que atraia oportunistas e alpinistas sociais como, por exemplo, Paulo Ralha que andou pelo PS, passou pelo BE, navegou nas águas do Congresso Democrático das Alternativas, foi dirigente no Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos e acabaria candidato à Câmara de Barcelos pelo Chega, em 2025. Como afirmava Riccardo Marchi, citado por Miguel Carvalho, o Chega é “um saco de gatos com gente de todos os lados” (p. 600).
A capacidade de penetração do Chega nas forças de segurança, junto dos profissionais da GNR e da PSP no ativo, mesmo estando estes legalmente impedidos de se filiar em partidos políticos, mostra também quão fértil estava já este terreno. O aspeto mais preocupante retratado por Miguel Carvalho é o facto de, contrariamente à narrativa dominante, as afinidades com o Chega não traduzirem tanto a existência de “maçãs podres” ou casos excecionais, mas sim um quadro sociológico global bastante alinhado com o discurso do partido. Parece existir uma espécie de submundo policial e militar onde a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e o ódio, sobretudo a coberto do anonimato das redes sociais, atingem um nível desmedido. A este respeito, aliás, menciona-se um tal Manuel C., agente do Comando Distrital de Évora da PSP que, em 2022, coordenava as concelhias do Chega no Alentejo.
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O Alentejo surge, aliás, várias vezes ao longo do livro, ainda que de modo mais desenvolvido quando se descreve o trabalho de campo realizado em Moura. E não é difícil perceber porque é que isto acontece. Hoje, o Alentejo constitui o melhor exemplo daquilo que se tem vindo a designar como “left-behind places9” ou geografias do ressentimento10, isto é, territórios que experienciam vários mecanismos que são percecionados como configurando situações de abandono. Desde o encerramento de serviços públicos, escolas primárias, farmácias, postos dos correios, agências bancárias e até caixas multibanco, passando pela reorganização administrativa que fundiu freguesias e aumentou as distâncias aos centros de poder local, até ao número muito reduzido de deputados eleitos pela região do Alentejo e a grande distância simbólica a Lisboa, que parece desprezar e ignorar a região, mas também o envelhecimento e o despovoamento, os baixos salários, a precariedade ou o empobrecimento, são muitos os motivos para que o desencanto e a falta de perspetivas de futuro se instalem, cresçam o ressentimento e a raiva. A tudo isto acresce a recente dinâmica migratória – marcada pela chegada de imigrantes provenientes de países terceiros, naturalmente, porque os “expats” nunca são um problema –, que, juntamente com as comunidades portuguesas de etnia cigana, constituem aquele “outro11” de que nos fala a teoria pós-colonial, que foi sempre instrumentalizado como bode expiatório.
Isto não significa, contrariamente ao que muitos dizem, que exista uma transferência maciça de votos diretos do PCP para o Chega, por exemplo. Isso é uma simplificação excessiva fruto de uma metodologia deficiente em que se fixa o espaço geográfico de referência – o Alentejo – e se fazem variar os resultados eleitorais, sem considerar as modificações na composição sociodemográfica do eleitorado que resultam da passagem do tempo. Para simplificar, aquilo que provavelmente sucede no Alentejo é a existência de uma modificação intergeracional do padrão de voto, isto é, avós e pais comunistas têm agora filhos e netos que votam Chega. Miguel Carvalho tem o cuidado de nunca cometer este erro de análise, tão comum no “comentariado” nacional, mencionando até um trabalho de investigação que demonstra que, sobretudo nas freguesias rurais do Sul, foi o PS a força política que transferiu mais eleitorado para o Chega12.
Por Dentro do Chega é, pois, uma obra fundamental para compreender a atualidade, perceber como aqui chegámos e começar a ganhar balanço para construir um futuro em que a verdade e a mentira não sejam sinónimos e em que possamos todos parar para pensar, sem sermos levados no fluxo torrencial de desinformação e pós-verdade com que somos diariamente inundados e que o Chega cavalga com mestria. A saturação permanente do espaço digital, o controlo da economia política da atenção, permite manipular as perceções, alimentar vieses cognitivos e, parafraseando Gilles Lipovetsky, criar uma espécie de Era do Vazio13, de que se alimenta o Chega.
Tratando-se de uma obra colossal, por vezes quase colapsa sob o peso imenso das fontes mobilizadas. Consegue aguentar-se porque a abordagem é ágil, simples e direta. São episódios, recortes, narrativas curtas, pequenos contos, que nos transportam para este mundo tão peculiar, sem exaltação de virtude, superioridade moral ou sobranceria. Ainda assim, a inclusão no livro de um esquema ou árvore de ligações articulando os vários protagonistas identificados, um guia visual para a navegação, teria sido vantajoso para o leitor interessado. Quanto mais não seja, para se perceber melhor o modo como o Chega não passa de uma grande família, onde o nepotismo e o tráfico de influências são tão ou mais comuns do que nos partidos que diaboliza.
Percebemos também que o Chega, partido neofascista ou pós-fascista, na terminologia de Enzo Traverso14, não concebe a incoerência programática ou a indefinição ideológica como problemas. Existe intencionalidade na ambiguidade estratégica adotada e no reconhecimento de que tudo deve estar subordinado a uma lógica de ação. Há 100 anos, o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, num texto intitulado “Mussolini e o fascismo”, escreveu: “O programa do fascismo é confuso, contraditório, heterogéneo: contém conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Melhor dito, Mussolini não deu ao fascismo um verdadeiro programa, deu-lhe um plano de ação15“.
O que este Por Dentro do Chega sugere é que Ventura lidera o plano de ação do fascismo para Portugal e o Chega é o seu instrumento. A resposta, afirma Miguel Carvalho, poderá passar por escutar e dialogar com a geografia eleitoral do Chega para a resgatar do extremismo, reconstruir o valor da palavra dada e da promessa cumprida, explorar as infinitas possibilidades do encontro com o “outro”, o estranho, o diferente. É preciso cultivar bondade, generosidade e empatia. Para começo de conversa, não está nada mal.
Letra do single “Danúbio” que integra o álbum “Um gelado antes do fim do mundo” (2025).
Engenheiro, professor de Matemática, fundador da Juventude Socialista em Seia, posteriormente militante do PSD, incendiário das redes sociais e agora deputado eleito na AR pelo Chega.
Ficamos a saber que O fim do Estado Novo e as origens do 25 de Abril (1995) é um dos livros de cabeceira de André Ventura.
Processo retratado em obras literárias como Regresso a Reims de Didier Eribon, Os Anos de Annie Ernaux ou Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule de Édouard Louis.
5.Trata-se de Patrícia Sousa Uva, “mandatária nacional da candidatura presidencial de Ventura quando se demitiu” (p. 400).
Ver, por exemplo, o dossiê "Outros nomes, histórias cruzadas: os nomes de pessoa em português", publicado sob direção de João de Pina-Cabral, na revista Etnográfica, n.º 12(1), disponível em: https://journals.openedition.org/etnografica/1583 ou a obra seminal O que Falar Quer Dizer (Bourdieu, 1988).
Teoria da conspiração de extrema-direita, surgida em 2017, nos Estados Unidos, segundo a qual existiu uma cabala de esquerda, constituída por adoradores de Satanás, pedófilos e canibais, que dirigiu uma rede global de tráfico sexual de menores, e conspirou contra Donald Trump durante o seu primeiro mandato presidencial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/QAnon.
Ver Rodríguez-Pose, Terrero-Dávila e Lee (2023) Left-behind versus unequal places: interpersonal inequality, economic decline and the rise of populism in the USA and Europe. Journal of Economic Geography, 23, 951-977.
Ver Madeira, Silva e Malheiros (2021) A geografia da direita nacionalista em Portugal: contornos de um processo emergente. Cad. Metrop., São Paulo, 23(51), 469-498.
Conceito central para a reflexão pós-colonial, o “outro” é objeto de discussão aprofundada em obras Postcolonialism (Jazeel, 2019) ou Geographies of Postcolonialism: Spaces of Power and Representation (Sharp, 2009).
Ver Magalhães e Cancela (2025) Political neglect and support for the radical right: The case of rural Portugal. Political Geography, 116, 103224.
Em A Era do Vazio: Ensaios sobre o Individualismo Contemporâneo (2013), Gilles Lipovetsky aborda o processo de individualização das sociedades ocidentais contemporâneas, nas quais o narcisismo e formas quási-niilistas de hedonismo emergem como atributos definidores dos sujeitos.
Ver As Novas Faces do Fascismo: Populismo e a Extrema Direita (Traverso, 2024).