Sob cada uniforme de soldado há um operário
Durante a II Guerra Mundial, na França ocupada pelos nazis, militantes trotskistas no arsenal da Marinha alemã em Brest criaram uma célula comunista dentro do Exército Alemão para publicar um jornal clandestino chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado). Muitos pagaram com a vida o arrojo internacionalista.
Durante a primeira grande guerra imperialista mundial, iniciada em 1914, a direção da II Internacional, capitaneada pelos social-democratas alemães, aderiu em cada país ao patriotismo bélico inoculado pelas grandes burguesias das suas nações, atrelando-se assim de corpo e alma às disputas militares pelo controle do mercado mundial.
Esses dirigentes, alguns deles notáveis figuras que se reivindicavam do marxismo, mesmo depois de conferências mundiais, como a de Basileia em 1912, onde juraram enfrentar a ameaça da iminente guerra capitalista com greves gerais e revoluções, passaram a defender que a Internacional era “essencialmente um instrumento para a paz” e “não uma ferramenta eficiente para tempos de guerra”, decretando a “suspensão” da validade do grande lema do Manifesto Comunista: “Proletários do mundo, uní-vos.”
Essa capitulação desavergonhada denunciada por Lenine, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Karl Liebknecht e outros, facilitou aos capitalistas usarem a classe trabalhadora de cada país como mão de obra armada e carne para canhão ao serviço de grandes grupos económicos que disputavam territórios para as suas mercadorias e capitais. Os trabalhadores matavam-se uns aos outros, aos milhões, pela ampliação dos lucros da sua burguesia nacional imperialista. Era o que Lenine apelidou de política social-chauvinista.
A Revolução Russa, dirigida pelo Partido Bolchevique, reacendeu as chamas e fez renascer o internacionalismo proletário, resultando na fundação da Internacional Comunista, ou III Internacional, em 1919. A Revolução Russa e a reanimação de um sentimento de solidariedade internacional do proletariado fez soar o alerta dos riscos para as burguesias beligerantes, o que precipitou o fim da guerra, antes que a situação derivasse para uma sublevação revolucionária generalizada da classe trabalhadora.
O advento da segunda guerra mundial imperialista, em 1939, pôs à prova, mais uma vez, aqueles que se declaravam a direção mundial do proletariado. Desta feita coube à Internacional Comunista, agora sob o controle de Estaline e da burocracia que se apropriou do poder político na União Soviética, sucumbir diante de um novo conflito necessário para o capitalismo. Para os capitalistas, era incontornável responder com uma nova redivisão económica do planeta diante do aumento da capacidade crescente das forças produtivas e a contradição com a camisa de forças de um mercado mundial incapaz de absorver esse possível crescimento da produção se mantida a lógica do lucro e constrangimento das fronteiras nacionais. Lenine já tinha alertado no seu livro O imperialismo, fase superior do capitalismo, para a tendência de expansão dos monopólios e para o facto de que esse período seria marcado por crise permanente do capital em declínio, gerando uma sucessão de “guerras e revoluções”.
Hoje, há uma associação que preserva a memória destes combatentes socialistas, incluindo militantes e historiadores franceses e alemães.
Depois de acordos com Hitler, Estaline, traído pelo “Führer”, que invadiu a União Soviética em 1941, adotou como orientação para os partidos comunistas do mundo todo a aliança com as suas burguesias democráticas contra o nazismo. Mais uma vez estava suspensa a fórmula do Manifesto Comunista de Marx e Engels de unidade mundial da classe trabalhadora, alistando o proletariado nos exércitos dos seus opressores para se matarem uns aos outros em nome da pátria. O social-chauvinismo da Primeira Guerra tinha sucessores.
Sempre ressabiada com os perigos de qualquer traço, por mínimo que fosse, de internacionalismo proletário nas circunstâncias de instabilidades sociais de uma guerra, a burguesia imperialista “democrática” viu com bons olhos Estaline decretar unilateralmente, em 1943, o fim da Internacional Comunista.
O trabalho de confraternização internacionalista dentro do exército alemão
É neste contexto que a decisão dos trotskistas de criarem, em 1943, na França ocupada pelos nazis, no arsenal da Marinha alemã, em Brest, uma célula comunista dentro do Exército Alemão e publicar um pequeno e precário jornal clandestino chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado) para distribuir mensalmente (quando possível) entre esses soldados, é um ato de lealdade de consciência ao internacionalismo proletário, de luta contra a guerra e a exploração capitalista.
Num artigo publicado no n.º 2 do Arbeiter und Soldat, de agosto de 1943, quando o regime nazi já cambaleava perante a derrota em Estalinegrado, um trecho demonstra bem o tipo de mensagem de classe que o jornal procurava passar àqueles trabalhadores enfiados em uniformes:
“Já passou da hora de os capitalistas anglo-americanos se prepararem para salvar o capital alemão e europeu. Por mais fervorosamente que os membros da alta finança guerreiem entre si com o sangue dos trabalhadores, eles ajudar-se-ão mútua e fraternalmente quando o sagrado direito à propriedade e à exploração capitalista for questionado. Esses senhores sabem como as revoluções operárias podem ser contagiosas, hoje mais do que nunca.”
E o que se passou depois do fim da segunda guerra imperialista senão os acordos de Ialta e Potsdam, onde os chefes imperialistas vitoriosos – junto com Estaline – tudo fizeram para preservar o predomínio do capitalismo, inclusive salvaguardando interesses económicos dos grandes grupos industriais da Alemanha?
A célula trotskista que organizava a publicação e distribuição do Arbeiter und Soldat foi desbaratada em 1944, com membros fuzilados e enviados para campos de concentração.
Hoje, há uma associação que preserva a memória destes combatentes socialistas, incluindo militantes e historiadores franceses e alemães. Eles publicam materiais de valor inestimável para a preservação da luta pelo internacionalismo proletário que podem ser acedidos pelo link https://arbeiter-und-soldat.org/de/publikationen.
Neste momento da conjuntura mundial, onde os gastos militares, o incremento sem amarras da indústria bélica, as guerras em curso e as que estão a ser anunciadas são apresentados como soluções para a expansão dos lucros capitalistas à custa de maior empobrecimento e exploração dos trabalhadores e da juventude, a pergunta que devemos fazer, espelhando-nos em exemplos como os de Brest, é: como construir a unidade mundial dos trabalhadores contra a guerra e a exploração? Como forjar a internacional operária necessária para revolucionariamente acabar com a propriedade privada dos grandes meios de produção e derrotar os inimigos de classe?
Anísio Homem é militante socialista brasileiro