













GREVE GERAL GREVE GERALReportagem em Braga, Coimbra, Évora, Grande Lisboa, Grande Porto, Marinha Grande, Portimão, Viana do Castelo.Jornal MaioJornal Maio
A ciência, a poesia e o futuro: o voo ambicioso de Butterfly Chronicles. A editora Escorpião Azul acaba de lançar Butterfly Chronicles, a mais recente obra de João Mascarenhas, autor veterano e presença reconhecida da banda desenhada portuguesa. A obra, que nasceu como webcomic há mais de uma década, chega






A editora Escorpião Azul acaba de lançar Butterfly Chronicles, a mais recente obra de João Mascarenhas, autor veterano e presença reconhecida da banda desenhada portuguesa. A obra, que nasceu como webcomic há mais de uma década, chega finalmente ao formato de álbum físico, agora com a história concluída — um desfecho aguardado pelos leitores que acompanharam o projeto desde os seus primeiros passos digitais.
A premissa que sustenta Butterfly Chronicles é de imediato intrigante: poderá a memória individual ser acedida através do ADN? A questão, simultaneamente científica e filosófica, serve de porta de entrada para uma narrativa que começa de forma contemplativa, quase meditativa, antes de mergulhar no ambiente dinâmico da Investigação em Bio-Robótica da Universidade de Kymera, em Tóquio. É ali que uma equipa de investigadores trabalha na leitura da chamada “memória da espécie”, procurando extrair dos genes de determinados animais informações para melhorar o desempenho de robôs desportivos no competitivo universo do Droidball, um desporto mecanizado longe de ser apenas “futebol com robôs”, que Mascarenhas explora de forma conceptual.
O enredo adensa-se quando a equipa descobre que este método permite ir mais longe: não só a memória genética coletiva, mas também a memória individual se revela acessível. O salto científico abre, então, caminho a questões éticas, psicológicas e sociais que conduzem a narrativa para territórios mais profundos: a privacidade biológica, a identidade e os limites da ciência são temas que ecoam ao longo do álbum e que têm eco no tempo presente em que vivemos quando a evolução tecnológica parece mais rápida do que nunca.
João Mascarenhas constrói aqui uma ficção científica que não se afasta do plausível; antes, apoia-se em bases reais da genética e da robótica para projetar um futuro que se apresenta credível e inquietante. Essa ponte entre rigor científico e imaginação, por vezes com contornos poéticos, torna Butterfly Chronicles num livro estimulante, daqueles que, uma vez abertos, custam a pousar.
A amplitude temática impressiona: ciência, cultura japonesa, humor, crime organizado, música, reflexão ética. À primeira instância, poder-se-ia pensar que são temas a mais, mas Mascarenhas consegue entrelaçá-los com habilidade, garantindo que o enredo nunca se dispersa em excesso. É verdade que algumas personagens poderiam beneficiar de maior desenvolvimento, mas o equilíbrio entre entretenimento e profundidade mantém-se sólido.
Graficamente, Mascarenhas apresenta um traço preto e branco enriquecido com tramas densas, num estilo que bebe do mangá sem nunca perder identidade própria. Os grandes planos das personagens são particularmente eficazes, transmitindo subtileza emocional e profundidade psicológica. Nota-se, porém, alguma irregularidade entre páginas de grande impacto visual e outras onde a proporção ou a fluidez do desenho não atingem o mesmo nível de excelência.
No conjunto, Butterfly Chronicles afirma-se como uma das obras mais completas de João Mascarenhas desde O Menino Triste. Embora diferente em temática e estética, partilha com essa obra maior a sensibilidade rara e a capacidade de provocar reflexão profunda no leitor. É uma narrativa intelectualmente desafiadora, movida pela ciência, emoção e uma inesperada metáfora poética da borboleta, símbolo de identidade, mudança e fragilidade humana. Uma contribuição relevante para a banda desenhada portuguesa contemporânea, sobretudo na sua vertente de ficção científica especulativa.
A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870.
A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870.
A bolha da inteligência artificial (IA) continua a inchar. Os Sete Magníficos da tecnologia continuam, em conjunto com as empresas de IA, a puxar pelo mercado accionista dos EUA. As cotações das dez empresas americanas com maior valor em bolsa, detentoras de mais de 40% da capitalização do índice S&P 500, têm continuado a subir, e muito acima da subida dos seus proveitos (lucros) registados.


Os resultados mais recentes das principais empresas de “hiper-escala” (empresas de desenvolvimento de IA) norte-americanas indicam que as vendas continuam em crescimento robusto. No entanto, os fluxos de caixa livres (cash flow) são absorvidos pela despesa de capital, que está em aceleração. As empresas têm de recorrer ao leasing e endividar-se se querem continuar na corrida ao desenvolvimento da IA. No ano transacto, as empresas que investem em IA representaram 75% do rendimento obtido pelas empresas integrantes do índice S&P 500, 80% do crescimento dos lucros e quase 90% do crescimento das despesas de capital. O investimento global em infra-estruturas de IA está próximo de atingir 400 mil milhões de dólares, em 2025, e a despesa acumulada poderá passar 5 ou mesmo 7 biliões (milhões de milhões) de dólares até 2030. Aproximadamente 60% desse investimento irá para semicondutores e computadores — um nível de investimento sem precedentes para uma nova tecnologia que mal começou a ter uso comercial.

Que o investimento em tecnologia da informação seja o único motor da actividade económica dos EUA não é toda a verdade. Muito do equipamento que entra nos centros de dados é importado, havendo, por conseguinte, efeitos negativos de contrabalanço ao PIB. Mesmo assim, a “montanha de silício” continua em erupção vertical.
A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870. Naquele tempo, também as ferrovias eram vistas como uma poderosa nova tecnologia capaz de transformar os transportes e as viagens e, assim, impulsionar a produtividade. Isso deu azo a uma especulação desenfreada com as acções das ferroviárias, à medida que as empresas inauguravam, umas atrás das outras, novas linhas ferroviárias pela Grã-Bretanha fora durante a década de 1840 — e, mais tarde, por todos os Estados Unidos, na década de 1870, culminando na ligação ferroviária transcontinental.

No Reino Unido, a mania atingiu o seu auge em 1846, ano em que o Parlamento aprovou 263 actos de criação de novas empresas ferroviárias, totalizando as rotas propostas 9500 milhas (15 300 km). Cerca de um terço das ferrovias autorizadas nunca se construíram — as empresas ou faliram por mau planeamento financeiro, ou foram compradas por concorrentes maiores antes de construírem a sua linha ou revelaram-se empreendimentos fraudulentos para canalizar o dinheiro dos investidores para outros negócios.
Entre as décadas de 1860 e 1900, as linhas ferroviárias transcontinentais transformaram a América. Ajudaram a povoar o Oeste e, tal como na Grã-Bretanha, desenvolveram uma nova forma de empresa capitalista, a sociedade por acções, ou seja, empresas cuja propriedade e financiamento eram públicos (no sentido de ‘publicamente transaccionáveis, em mercados abertos’ — nota do tradutor). A ferrovia ajudou a transformar os EUA numa superpotência que se estendia de oceano a oceano e revolucionou a finança. Como escreveu o historiador Richard White na sua história das transcontinentais, Railroaded, “ela criou a modernidade tanto por via dos seus fracassos como dos seus êxitos”, deixando atrás de si “um legado de falências, duas depressões, prejuízos ambientais, crises financeiras e agitação social”.
Para já, o boom do investimento em IA ainda não atingiu a dimensão do investimento ferroviário do século XIX, que chegou a alcançar 6% do PIB dos EUA, a comparar com, por agora, 1,2% do PIB em investimentos em centros de dados de IA e 4% do PIB em tecnologia de informação globalmente. Mas para lá caminha.

Na “ferromania”, a bolha bolsista acabou por estourar. Nos EUA, o rastilho do pânico de 1873 foi acendido pela falência da Jay Cooke & Co., primeira instituição bancária da América. Cooke, que se fizera como financiador número um do Exército da União, concordou em financiar o projecto da Northern Pacific Railway de ligar a costa do Oregon à rede ferroviária existente no Nordeste. Contudo, já não era a primeira linha transcontinental, e preocupações com excesso de capacidade, juntamente com desconfiança crescente nos títulos de dívida das ferroviárias, fizeram que os preços das obrigações da Northern Pacific caíssem. A empresa de Cooke faliu em Setembro de 1873, precipitando o pânico na bolsa de acções que acabou por originar a depressão mundial que se estendeu pela década de 1890 adentro.
Marx comentou na altura que a enorme concentração dos investimentos dos mercados de acções nas empresas ferroviárias dos EUA “deu, numa palavra, um ímpeto insuspeito à concentração de capital e também à imensa aceleração e expansão da actividade cosmopolita do capital mutuável, assim envolvendo o mundo inteiro numa rede de aldrabice financeira e endividamento mútuo que é a forma capitalista da ‘fraternidade internacional’”. Quando as acções das ferroviárias caíram, caiu o resto do mercado, abrindo-se uma recessão económica.
Na Grã-Bretanha, a bolha ferroviária rebentou por volta de 1847. Marx só analisou a bolha cerca de 20 anos depois, no volume 3 de O Capital. Chamou-lhe a “grande aldrabice ferroviária”, para salientar como tinham sido deliberadamente empoladas as promessas das empresas ferroviárias dos enormes lucros que haveria a colher. Os investidores injectaram ingenuamente capital em projectos significativamente menos lucrativos do que eles esperavam e do que os promotores e directores haviam prometido. A ferromania da década de 1840 ocorreu quando a taxa média de lucro na Grã-Bretanha estava em queda – e em queda continuou ao longo da década. Marx observou que “na aldrabice ferroviária do Verão de 1844, os investidores nas ferrovias pareceram estar à espera de uma taxa de lucro muito superior à taxa média”. Chegados a 1847, tais esperanças tinham saído furadas.

Agora estamos na mesma. Se o retorno dos enormes investimentos em IA for menor do que o esperado e prometido, o resultado será uma correcção severa no mercado de acções. Por outras palavras, o mecanismo pelo qual o rebentamento da bolha da IA poderá causar uma recessão não é o de uma baixa repentina do crescimento, mas o da não obtenção do rendimento esperado do investimento.
Por enquanto, no sector da “tech” ainda reina o optimismo. Mark Zuckerberg previu recentemente que, dentro de um ano, metade do código da Meta seria escrito por IA. Até agora, porém, a maioria das empresas pouco ou nenhum benefício está a ver dos seus investimentos iniciais. Um estudo do MIT muito citado chegou à conclusão de que, por agora, 95% dos projectos de ‘IA generativa’ não se traduzem nem em crescimento de produtividade nem em lucros. Para justificar o investimento necessário, as receitas anuais dos centros de dados teriam de centuplicar dos actuais 20 mil milhões de dólares para cerca de 2 biliões de dólares. Às receitas existentes vão faltar 800 mil milhões de dólares, segundo a Bain & Company. Mesmo contando com ganhos de eficiência esperados, a diferença ilustra quanto as cotações actuais dependem de fluxos de receitas por demonstrar. A diferença terá de ser colmatada com empréstimos e aumentos de capital.
O investimento em activos ligados à IA é cada vez mais financiado por empréstimos e financiamentos contraídos pelas empresas de IA, ao passo que os investidores em acções contraem, por sua vez, mais empréstimos para alavancar as suas apostas financeiras na IA. Os parceiros dos centros de dados da OpenAI estão a caminho de acumular quase 100 mil milhões de dólares em empréstimos para investimento nesta. O SoftBank, a Oracle e a CoreWeave contraíram empréstimos no valor de, pelo menos, 30 mil milhões de dólares para investir, e um grupo de bancos está a negociar mais 38 mil milhões de dólares para emprestar à Oracle e à construtora de centros de dados Vantage, para financiar novos locais para a OpenAI. O grupo de investimentos Blue Owl Capital e empresas de infra-estruturas informáticas, como a Crusoe, contam também com acordos com a OpenAI para o serviço de dívidas no valor de cerca de 28 mil milhões. Os credores bancários e obrigacionistas começam a ficar preocupados e estão a reforçar as apólices de seguros de incumprimento sobre a Oracle, para o caso de esta ficar incapaz de pagar o serviço da dívida.

A ex-economista-chefe do FMI Gita Gopinath calculou que um estouro do mercado de acções ligado à IA equivalente àquele em que terminou o boom das dot.com riscaria do património das famílias americanas cerca de 20 biliões de dólares, e mais outros 15 biliões no estrangeiro: o suficiente para estrangular a despesa dos consumidores e induzir uma recessão global. Contudo, vê-se desenvolver-se o argumento de que, mesmo que haja um estouro financeiro, e ainda que a essa crise se siga uma recessão, sobreviverão então as melhores empresas, e os enormes ganhos de produtividade decorrentes da aplicação da IA em todos os sectores da economia acabarão por reverter numa mudança qualitativa no crescimento da produtividade do trabalho. A produção aumentará porque a IA substituirá trabalho
humano, reduzindo os custos das empresas e aumentando a rentabilidade. Não foi o que aconteceu antes, quando, apesar de o pânico de 1873 ter causado a ruína do mercado das acções ferroviárias e uma recessão profunda, os EUA acabaram por ficar com uma rede ferroviária em todo o continente? E na Grã-Bretanha, analogamente, após a recessão do final da década de 1840, não assentou o longo boom subsequente da década de 1850, em parte, nas 6000 milhas da rede ferroviária, que foi a espinha dorsal do sistema de transportes do país e ajudou a Grã-Bretanha a manter a sua hegemonia global?
Fará a IA o mesmo pelo capitalismo americano, que actualmente enfrenta rivalidade crescente à sua hegemonia global? É bem possível que não. Basta dizer que podem os Sete Magníficos estar na mó de cima nas bolsas de valores, mas a sua vantagem tecnológica está seriamente ameaçada. No ano passado, a China lançou o DeepSeek, um modelo de linguagem de grande escala (LLM) muito mais barato, mas quase tão bom como o ChatGPT da OpenAi. E este ano, houve novos lançamentos de LLMs chineses com desempenho semelhante, mas custo muitíssimo inferior ao investido pelas empresas norte-americanas.
Os economistas tradicionais continuam divididos sobre se a IA virá a ter o mesmo impacto que as ferrovias tiveram no século XIX, ou a internet no final do século XX. O economista da Universidade de Stanford Eric Brynjolfsson prevê que a IA seguirá uma “curva em J”, com um efeito inicial de produtividade lento, e até negativo, conforme as empresas investem maciçamente na tecnologia antes de colherem finalmente os seus frutos. Só então vem o boom. Pode-se observar a curva em J no crescimento da produtividade industrial dos EUA, que caiu em meados da década de 1980 e, após a recessão de 1991, acelerou fortemente até meados da década de 2000.

Contudo, Daron Acemoglu, economista do MIT e vencedor do Prémio Nobel de 2024, argumenta que os ganhos de produtividade da IA generativa serão muito menores e levarão muito mais tempo do que pensam os optimistas da IA. Além de que as empresas de IA estão demasiado focadas no ChatGPT e noutros produtos de IA que têm pouca relevância para a maior parte dos sectores. Há quem aponte que, apesar de smartphones, redes sociais e aplicações como a Slack e a Uber, as tecnologias digitais passadas pouco contribuíram para que a economia crescesse. O ano que vem mostrará quem tem razão.
Tradução de Adriano Zilhão.
O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
O Governo prepara um pacote laboral que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha.
O Governo prepara um pacote laboral que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha.
O chamado “Trabalho XXI” que Luís Montenegro quer impor ao país é, na verdade, um regresso acelerado ao passado mais duro das relações laborais. Sob o pretexto da modernização e da competitividade, o Governo prepara um pacote que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha. Fala-se em “flexibilizar horários”, mas o que está em cima da mesa é o aumento das jornadas, o crescimento das horas extraordinárias obrigatórias e a normalização de horários irregulares que impedem qualquer conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar.
E quando se destrói essa conciliação, destrói-se também a família. Não há família sólida quando os pais chegam sempre tarde, esgotados e ausentes. Não há natalidade sustentável quando ter filhos significa empobrecer ou perder o emprego. Não há sociedade equilibrada quando se pede às mães e aos pais que sacrifiquem o lar para salvar os lucros de alguns. O ataque aos direitos laborais é, inevitavelmente, um ataque à parentalidade e ao futuro do país.
Chamam-lhe liberdade; nós chamamos-lhe exploração.
Fala-se em “simplificar vínculos”, mas a proposta é abrir portas a contratos cada vez mais curtos e intermitentes, generalizando a precariedade a gerações inteiras. Fala-se em “reduzir encargos”, mas o que o Governo quer é baixar as contribuições para a Segurança Social, fragilizando o sistema e deixando para amanhã uma bomba-relógio que pagaremos todos, sobretudo os mais jovens. Fala-se em “adaptabilidade”, mas o objetivo real é permitir despedimentos mais fáceis e mais baratos, onde a suposta “inadequação” do trabalhador à empresa basta para o pôr na rua. Entre sorrisos liberais e discursos de oportunidade, o que está a ser preparado é um mercado de trabalho onde quem manda decide tudo e quem trabalha cala e obedece, ou perde o sustento.
O novo pacote laboral não é progresso, é uma agenda ideológica de submissão, mascarada de futuro.
Isto não é progresso. Isto é uma agenda ideológica de submissão, mascarada de futuro. E não podemos assistir calados enquanto direitos que custaram gerações de luta são rasgados em meia dúzia de reuniões de Conselho de Ministros ou em simulacros de negociação.
O país não pode aceitar que a dignidade laboral seja tratada como empecilho. Os trabalhadores portugueses já deram demasiado: salários baixos, produtividade a subir, lucros empresariais em máximos históricos. E agora querem dizer-nos que ainda é pouco, que temos de trabalhar mais horas, com menos proteção e com a vida toda posta de joelhos perante o patrão.
Pois não. Não aceitaremos.
Foi a luta coletiva que conquistou férias pagas, limite de horas de trabalho, Segurança Social, descanso semanal, contratação coletiva. E é pela mesma luta que impediremos este retrocesso. A greve geral de 11 de dezembro é o momento de dizer, claramente, que o país não se governa contra quem o constrói todos os dias, que não deixaremos que nos transformem em instrumentos descartáveis da economia. O Governo quer levar-nos ao século XIX em nome do século XXI. Aqui, agora, é o momento de travar esta marcha atrás. Quem trabalha merece respeito, estabilidade, tempo para viver e tempo para cuidar da sua família e dos seus filhos. Merece um país decente. E esse país não se pede de joelhos. Conquista-se de pé.
Dia 11, paramos para avançar. Porque os direitos não se negociam — defendem-se. Sempre.
Raquel Varela entrevistou Iain Ferguson, professor de serviço social e militante do Socialist Workers Party britânico, sobre as transformações em curso no serviço social no sentido de o mercantilizar e as resistências a essa deriva.
Raquel Varela entrevistou Iain Ferguson, professor de serviço social e militante do Socialist Workers Party britânico, sobre as transformações em curso no serviço social no sentido de o mercantilizar e as resistências a essa deriva.

Raquel Varela (RV): Iain, quando pensamos em serviço social, pensamos que é um departamento do Estado que existe para aliviar os pobres, mas também para controlá-los. Isso é ou pode ser serviço social?
Iain Ferguson (IF): Acho que sempre houve diferentes tradições no serviço social. A tradição dominante é muito individualista, tende a localizar os problemas que as pessoas enfrentam no indivíduo. Por isso, são vistos como indivíduos fracos ou incompetentes, incapazes de gerir as suas próprias vidas. A Grã-Bretanha foi provavelmente o berço de uma organização chamada Charity Organization Society no final do século XIX –, cujo objetivo principal era ajudar as pessoas a gerir as suas parcas finanças a fim de as manter longe do álcool e desse tipo de problemas. Era essa a tradição dominante.
RV: Creio que isso vem de uma tradição religiosa.
IF: A religião era um elemento muito importante. É claro que podemos recuar muito mais no tempo e encontrar formas religiosas de ajuda. Mas havia ainda uma outra dimensão. O serviço social, tal como o conhecemos, desenvolveu-se realmente no final do século XIX. Assim, a razão para o seu crescimento era em parte a preocupação social, em parte religiosa, mas também o medo dos pobres. E, particularmente em Londres, um livro maravilhoso chamado Outcast London refere isso. E havia o medo da multidão e de motins, motins por pão, por comida, etc. Portanto, desde o seu início, o trabalho social sempre teve a ver com assistência e controlo, com controlar os pobres, certo? Essa foi uma vertente. Uma segunda vertente, que não temos necessariamente tempo para aprofundar, diz respeito ao desenvolvimento comunitário. E isso estava frequentemente muito ligado ao imperialismo, ao colonialismo. Por exemplo, o desenvolvimento comunitário como o conhecemos hoje foi muito desenvolvido pelo Império Britânico à medida que as colónias, o colonialismo chegava ao fim. E tratava-se de tornar as novas instituições na Índia e noutros lugares seguros para o capitalismo. Mas convenhamos que houve sempre uma terceira vertente, que é a radical ou ativista. E eu e os meus colegas fizemos um longo trabalho de investigação sobre esse aspeto, que remonta, por exemplo, a Sylvia Pankhurst, em Londres, na década de 1920 e assim por diante, que trabalhava com mulheres pobres para as organizar em coisas como cozinhas comunitárias, mas também em formas mais radicais de campanha. E nos Estados Unidos havia o que se chamava de movimento de colonização, baseado principalmente em Chicago, em torno de um lugar chamado Hull House. E isso tinha muito a ver com desafiar a violência doméstica, desafiar o racismo e organizar, etc. Uma das fundadoras do serviço social americano disse que sempre houve duas vertentes. Uma que trata de caridade e outra que trata de solidariedade. E a constatação de que os problemas das pessoas não decorrem de carências individuais, mas de questões estruturais como pobreza, racismo, opressão das mulheres. Portanto, sempre houve essas três vertentes.
A tradição dominante é muito individualista, tende a localizar os problemas que as pessoas enfrentam no indivíduo.
RV: Não percebi muito bem esta segunda vertente, quando diz que é uma abordagem comunitária.
IF: O desenvolvimento comunitário pode ser, repito, muito progressista quando leva à ação comunitária, mas também pode ser muito relacionado com as comunidades ajudarem-se a si próprias a desenrascarem-se. Isto quer dizer que temos de tornar as comunidades mais autossuficientes e usar os recursos comunitários, como empoderamento comunitário, é este o jargão usado. Portanto, tudo tem sido ambíguo. E talvez valha a pena mencionar, como eu disse, que a vertente dominante tem sido sempre a primeira. E assim, o que as pessoas são, a imagem, a autoimagem do serviço social é essencialmente a da ética kantiana, de se preocupar e cuidar. A realidade é que o serviço social tem muitas das chamadas histórias horríveis.
RV: Que histórias horríveis são essas?
IF: Há muitos exemplos dessas histórias horríveis. Por exemplo, nas colónias, havia o costume de retirar crianças de famílias nativas, de famílias aborígenes e de famílias canadianas nativas, e muitas vezes elas eram adotadas por famílias brancas. Basicamente, as práticas de criação dos filhos dos nativos americanos ou dos agricultores aborígenes não eram consideradas suficientemente boas. Por isso, as crianças eram criadas na fé cristã. E, da mesma forma, parte das histórias horríveis na Grã-Bretanha envolveu a deportação, até à década de 1960, de dezenas de milhares de crianças pobres. Às vezes órfãs, mas às vezes sem o conhecimento ou a permissão dos pais, e muitas vezes deportadas para trabalhar como mão de obra barata na Austrália ou no Canadá, que eram colónias britânicas.
RV: Como vê o serviço social atualmente? Estes três corações ainda batem?
IF: Sim e não. Havia um lado positivo, havia... Apesar de todas as suas limitações, era visto como baseado no relacionamento. Particularmente no período pós-guerra. No serviço social britânico, as teorias freudianas eram muito comuns, enfatizando a relação entre o assistente social e o utente. Mas, apesar de todas as suas fraquezas, muitas vezes dependia de uma boa relação. A mudança fundamental que ocorreu no passado, desde o final da década de 1980, início da década de 1990, foi a mudança para o que chamamos de serviço social neoliberal. Portanto, trata-se da mercantilização do serviço social. Há uma mudança do foco na relação entre o trabalhador e o cliente para o papel de o trabalhador ser visto como avaliador dos problemas do cliente e preparador do que se chama o pacote de cuidados. E, muitas vezes, isso encaixa com o padrão geral do neoliberalismo. O que temos visto na assistência social é o que eles chamam economia mista da assistência, que significa essencialmente que as autoridades locais prestam cada vez menos serviços. Estes são terceirizados para organizações privadas ou do terceiro sector. Há muito menos foco no relacionamento e mais na preparação de pacotes. E, claro, quando o capitalismo entrou em crise em 2008, na era da austeridade, todo o foco passou a ser o corte de orçamentos com pacotes cada vez menores, o que significa que, para atualizar a situação, para obter ajuda do serviço social na Grã-Bretanha, por exemplo, as pessoas precisam quase de ter tendências suicidas ou estar à beira da morte para poderem receber alguma ajuda. Chamam-lhe critérios de elegibilidade mais elevados e agora há diretrizes muito rígidas antes de se poder obter a ajuda necessária.
RV: Iain, parece-me que estamos a entrar agora no mundo dos filmes de Ken Loach, onde temos um assistente social exausto, deprimido, sem essa sensação de mudar a sociedade e, ao mesmo tempo, sem meios para realmente causar algum impacto, enquanto milhares de empresas estão a ganhar dinheiro com isso. Vê isso de forma semelhante quando assiste aos filmes de Ken Loach? Reconhece o trabalho social neles?
IF: Com certeza. O que consideramos esgotamento é um problema enorme no serviço social. E outro fator que contribui para isso é a atomização dos assistentes sociais. Tal como nos filmes de Ken Loach, o melhor assistente social é visto como aquele que consegue cortar mais orçamentos. Eu diria que eles são reconhecidos pela administração. Mas nós pensamos dialeticamente. Portanto, há outro lado disso, e é aí que entramos. O que aconteceu no início dos anos 2000, através da pesquisa de um colega da Universidade de Liverpool que conversou com uma ampla gama de assistentes sociais muito experientes, foi que havia um sentimento real de indignação em relação ao que o serviço social se tinha tornado. E em 2004 convocámos uma reunião em Glasgow e chamámos-lhe “Não entrei no serviço social para isto”. E apareceram cerca de 60 pessoas. Depois, produzimos um manifesto chamado “Por um novo serviço social empenhado”. Por um lado, associámos isso ao que estava a acontecer no serviço social, mas também associámos ao surgimento de movimentos anticapitalistas após Seattle. Convocámos a nossa primeira conferência em Liverpool, em 2006, e esgotámos os lugares, com mais de 300 pessoas de todo o país. Basicamente, isso levou-nos a criar algo chamado Rede de Ação do Serviço Social. Vou tentar resumir ao máximo, mas, essencialmente, até há dois anos, por outras razões, realizávamos conferências todos os anos, grandes conferências, com até 400 assistentes sociais, estudantes etc. Fizemos campanhas a favor dos refugiados, contra os cortes, contra o gerencialismo. E isso levou, em 2013, à criação da revista Critical and Radical Social Work, que ainda é publicada e agora sai seis vezes por ano, creio eu. Um colega e eu éramos os editores da revista e eu permaneci como editor por vários anos. Isso levou à formação do que chamamos Swan International. Porque rapidamente percebemos que o gerencialismo e a mercantilização do serviço social não eram um problema exclusivo do Reino Unido, mas, como o neoliberalismo é uma ideologia e um sistema global, rapidamente entramos em contacto com colegas de todo o mundo. Então, basicamente, entre 2002 e 2020, viajamos pelo mundo inteiro – América Latina, África do Sul, Hong Kong, Grécia, etc. Assistimos também à criação de grupos de ação em rede de serviço social nesses países, na África do Sul, um grupo muito ativo na Grécia, colegas em Hong Kong, etc. Então, decidimos que, durante a pandemia, realizaríamos a primeira conferência online de serviço social radical. Neste momento, como as coisas estão tão difíceis, o movimento está mais fraco no Reino Unido. Mas acho que o que conseguimos, e o que eu não mencionei, foi o que referi sobre o início do movimento com Sylvia Pankhurst. O radicalismo principal, se falarmos com as pessoas sobre o trabalho social radical, é muitas vezes associado a um movimento que se desenvolveu na década de 1970, principalmente nos países de língua inglesa. Assim, na Grã-Bretanha, na Austrália, no Canadá e nos EUA, desenvolveu-se um movimento significativo de trabalho social radical. E as pessoas ainda tendem, até começarmos este trabalho, a associar o trabalho social radical a esse período. Mas uma das coisas que descobrimos através de pessoas como Elaine Bearing e outras foi que existe um relatório chamado Movimento de Reconceitualização na América Latina, particularmente em torno das ideias de Paulo Freire. E há um trabalho social muito mais declaradamente marxista na América Latina. Por isso, estabelecemos contactos muito bons com eles.
RV: Como é que isso se materializa na realidade? Então, se és assistente social, fazes o que se espera que faças no neoliberalismo? Como é que ages numa comunidade? Como é que isso se concretiza em termos práticos?
IF: Ora bem, isso é a parte difícil. Porque acho que a coisa mais importante que fizemos foi ao nível das ideias. Mas não deixa de ser uma boa observação, porque o que constatámos nas nossas conferências é que os principais participantes eram académicos, estudantes de serviço social e utentes dos serviços. A parte difícil, quero dizer, sempre tivemos assistentes sociais presentes, mas muitos deles diziam: “Passo cinco dias por semana a fazer trabalho social. Não quero passar os meus fins de semana a falar sobre trabalho social.” E o problema tem sido: como traduzir essas ideias em práticas reais de trabalho social? E isso é muito difícil, porque – e eu participei em muitas reuniões sobre este tema – no âmbito do serviço social estatutário, muitos trabalhadores falam sobre um clima de medo. Mas é muito difícil contestar isso. E numa palestra que dei, chamei-lhe “Just do it”, porque aos assistentes sociais que contestavam alguns dos sistemas dizia-se: “Just do it.” A forma como tentámos contornar isso foi criando laços estreitos com os principais sindicatos de assistentes sociais e, assim, apoiámos greves sempre que elas aconteciam, com as nossas bandeiras nas frentes de piquete. Apoiámos manifestações contra cortes, etc. E criámos laços estreitos. Por exemplo, em Glasgow, estavam a cortar os serviços de saúde mental. Estabelecemos laços estreitos com os trabalhadores e os utentes dos serviços que se opunham a isso. Mas o teu argumento está correto no sentido de que, onde temos sido menos bem-sucedidos, e isso continua a ser um grande desafio, é traduzir isso em novas formas de prática. Isso levou a um pequeno debate entre mim e o meu colega, o outro colega que estava mais envolvido, porque ele começou a desenvolver ideias do que chamava de serviço social popular, com o que se referia, por exemplo, ao tipo de projetos que estavam a ser desenvolvidos, digamos, na Palestina, em torno da saúde mental e assim por diante. Agora, acho que esses são bons. Acho que há duas limitações nesse argumento. Uma é que popular significa trabalho social cristão? O Exército da Salvação é trabalho social popular? Então, acho que é um conceito ambíguo. A minha outra reserva sobre isso era que falar sobre assistência social popular não aborda realmente as preocupações dos 90% dos assistentes sociais na Grã-Bretanha que trabalham para o Estado. Temos que nos relacionar com eles também. Portanto, não, eles não estão uns contra os outros. Mas acho que muitas vezes o que o meu amigo Michael chama de trabalho social popular é, na verdade, uma resposta de emergência. É algo positivo, da mesma forma que, por exemplo, durante as revoluções, as pessoas revoltam-se e criam novas formas de organização. E isso é ótimo durante situações de revolução. Mas em situações de não regulamentação, pode simplesmente tornar-se um meio pelo qual as coisas que o Estado deveria fornecer são fornecidas pelas próprias pessoas. Portanto, é um pouco ambíguo. É aí que estamos agora. Isso leva-nos à questão da exaustão. Eu aposentei-me há alguns anos. Michael também se aposentou agora. E conversámos durante muito tempo sobre como tentar atrair mais gente. Nunca tivemos dinheiro, certo? Não temos organizadores a tempo inteiro. Por isso, acho que causámos impacto. Agora, muitos assistentes sociais vão mencionar, vamos falar sobre Swan, certo? Há um livro que vou dar-lhe, sobre isso, um dos livros recentes. Mas se pegar agora na maioria dos livros de serviço social no Reino Unido, eles têm um capítulo sobre serviço social radical. Há 20 anos isso não teria acontecido. Então, agora, na maioria dos cursos de serviço social no Reino Unido, eles vão sentir essa necessidade.
RV: Portanto, diria que o trabalho social radical está, pelo menos, a lutar por uma nova consciência sobre qual é a situação das pessoas e por novas ideias para a mudar, e não apenas a gerir problemas individuais?
IF: Precisamente.
RV: Iain, em Portugal, não tenho os números, mas uma grande parte do trabalho social tem sido canalizado para o sector terciário, ou seja, a Igreja, a Igreja Católica. E vejo que no Brasil também parte dele, ou na América, e até mesmo na Europa, estamos a assistir ao aumento do trabalho social que não recebe dinheiro do Estado, o que representa uma enorme influência da extrema-direita, que é o pentecostalismo. Como vês todas estas mudanças? Porque conheço muitas pessoas no meu bairro, vindas do Brasil, que têm algum apoio social da igreja pentecostal. Elas pagam 200 euros por mês à igreja, coisa que não pagam por um jornal ou partido revolucionário. E também recebem alguns serviços sociais daí. Como chegamos aqui e como saímos daqui?
IF: Acho que é por isso que é importante termos revistas de teoria crítica para compreender o que está a acontecer. Porque é semelhante. Um grupo de assistentes sociais de quem gosto muito, assistentes sociais radicais, está na Hungria. Eles foram um dos primeiros grupos com quem entramos em contacto, e eu conheci-os há alguns anos. Viktor Orbán introduziu uma lei na Hungria para criminalizar os sem-abrigo. Então, esse grupo de assistentes sociais reuniu-se no centro de Budapeste para protestar contra isso. Um deles, Norbert Ferencz, foi preso e poderia ter sido condenado à prisão. Então, houve uma campanha real em torno disso. Mas na Hungria, por exemplo, as famílias que têm mais filhos recebem benefícios do Estado. Não me lembro do nome disso no Brasil, mas acho que foi o Lula quem o introduziu pela primeira vez.
RV: Bolsa Família...
IF: Sim, então vemos coisas como essa a serem introduzidas, o que pode ser progressista ou pode reforçar posições conservadoras. Acho que está sempre a mudar. Não temos isso na Grã-Bretanha, a Grã-Bretanha é diferente nesse aspeto, porque, de facto, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, está a mudar. Eu diria que as organizações religiosas têm desempenhado um papel muito menor do que noutros países. Portanto, há diferenças, acho que tudo o que posso dizer é que há desafios diferentes em países diferentes. Quero dizer, o mesmo problema existe na Itália. O serviço social é muito fraco na Itália porque a Igreja tem desempenhado um papel muito importante.
O que temos visto na assistência social é o que eles chamam economia mista da assistência, que significa essencialmente que [esses] serviços são terceirizados para organizações privadas ou do terceiro sector.
RV: Vimos os trabalhadores lutarem por um Estado social universal após a guerra e em Portugal após a Revolução dos Cravos. E, nos anos 80, assistimos à introdução da assistência social em vez do Estado social universal. Assim, obtém-se alguma ajuda, alguma educação, alguma assistência se se for pobre ou extremamente pobre. Não é universal. Depende da economia. Esta é uma grande mudança no trabalho social, é também uma grande mudança para a esquerda, porque desde então vemos a esquerda a lutar pelo subsídio de desemprego, mas não pelo desemprego total e pela redução do horário de trabalho. Vemos a esquerda a lutar pela assistência social aos pobres em vez de um aumento dramático dos salários e do desemprego. E isso também abriu espaço para a extrema direita, porque em vez de lutar pela divisão do trabalho para todos, estamos a lutar por um auxílio subsidiado. E isso cria uma ideia enorme de injustiça. Como vês isso?
IF: Acho que o ponto de partida geral é lutarmos por benefícios universais. É por aí que devemos começar. E isso tem sido constante, porque esse era essencialmente um dos princípios subjacentes ao sistema de bem-estar social britânico, em teoria. Mas o que vemos constantemente são tentativas de avançar para benefícios seletivos. Então, acho que a nossa posição geral é de resistência a isso. Uma ou duas observações. Acho que o serviço social no Reino Unido nunca esteve, ao contrário de outros países, por exemplo, como a Dinamarca, intimamente ligado ao emprego. O foco tem sido muito mais nas famílias problemáticas do que no emprego. Não é a mesma coisa, é diferente nos países escandinavos. E uma consequência disso, que considero um desenvolvimento interessante, é que no Reino Unido, nos últimos 10, 20 anos, o serviço social está cada vez mais afastado das estratégias de bem-estar social. Eu diria que agora o papel principal nas estratégias de emprego mudou. Os psicólogos desempenham um papel muito mais central. E se pensarmos no filme Eu, Daniel Blake, a ideia é que as pessoas não estão a conseguir emprego porque lhes faltam competências pessoais ou porque as suas ideias não são corretas. Então, vemos o uso da terapia cognitivo-comportamental com as pessoas, certo? Mas, como outro exemplo, e acho que este é um exemplo realmente interessante. Tenho uma pessoa que conheço que, há muitos anos, era uma socialista revolucionária e agora é a principal figura do serviço social na Escócia. E algo que foi muito, muito interessante foi que, durante a pandemia, todos os dias a primeira-ministra da Escócia aparecia na televisão sempre acompanhada por um profissional. Um dia era a diretora de enfermagem, depois talvez o chefe da polícia, mas nunca um assistente social. Então, escrevi para essa mulher e disse: “Confirme isso para mim, mas alguma vez os assistentes sociais foram convidados a aparecer com a primeira-ministra?” E ela respondeu: “Não, nunca.” Ora, ela não lutou por isso, nunca. Daí poder-se concluir que o papel do serviço social está a ser redefinido. E cada vez mais. E, outro exemplo, um dos principais desenvolvimentos, agora entrou em colapso por diferentes razões, mas a ideia de um sistema nacional de assistência social na Grã-Bretanha está em crise. Em termos de idosos, em termos de pessoas com deficiência, as pessoas estão a viver na miséria. Se eu fosse deficiente quando fosse muito velho, se tivesse sorte, talvez recebesse uma visita de quinze minutos por dia de um trabalhador muito mal remunerado e sem formação. Ok, então a estratégia central, a proposta legislativa fundamental do governo escocês do SNP era um sistema nacional de cuidados. Então, eles redigiram estas notas, não há colapso por diferentes razões, mas nas propostas do Sistema Nacional de Cuidados, o serviço social literalmente não foi mencionado. Foi completamente marginalizado. E o que estamos a ver, sem surpresa, é que os cuidados residenciais em especial, e também os cuidados especializados para crianças, todos esses serviços agora estão nas mãos de entidades privadas. Cerca de 90% da prestação de cuidados a idosos na Escócia está nas mãos de empresas pertencentes a sociedades de capital privado sediadas no Dubai ou nas Ilhas Caimão. E, sem surpresa, durante a pandemia, a grande maioria das mortes ocorreu em lares privados. Estamos, portanto, numa situação em que os assistentes sociais ainda estão a ser formados, mas estamos numa situação em que o papel dos assistentes sociais é cada vez mais cortar orçamentos, forçar as pessoas a viver com cada vez menos. Portanto, não é de surpreender que a maioria dos assistentes sociais abandone a profissão após dois ou três anos, esgotados, “stressados”, etc. É muito difícil e acho que isso também significa que, durante quase 20 anos, em termos da Rede de Ação em Serviço Social, mantivemos a resistência. Escrevi um artigo para uma conferência no Chile em 2006 chamado “Rumo a um Serviço Social de Resistência”, que ainda é bastante citado, mas a resistência está a enfraquecer. Essa é que é a realidade.
RV: Isso faz-me lembrar um artigo maravilhoso da Rosa Luxemburgo chamado “Desempregados”, onde diz que o desemprego é a pior situação possível. O pior emprego é melhor do que estar desempregado. Mas não podemos fazer nada a respeito disso. Porque no capitalismo o desemprego é normal, pois é assim que se controla o preço da mão de obra. O que podemos fazer como socialistas é organizar-nos, pensar noutra sociedade. Então, o que ela quer dizer é que... O nosso papel para sermos felizes no trabalho é sermos contra as regras do trabalho. Vês-te assim?
IF: Sim, quero dizer, o slogan que usamos é: outro trabalho social é possível, outro mundo é possível. E para terminar com uma nota positiva, no início deste ano, o governo britânico, o governo trabalhista, lançou um ataque massivo aos benefícios para pessoas com deficiência. Há uma organização muito boa chamada DPAC, Pessoas com Deficiência Contra os Cortes, e eles lançaram uma campanha massiva contra isso, que foi apoiada por alguns sindicatos, bem como por nós e outros, e eles venceram.
RV: Ótimo!
IF: E agora eles estão de volta, há um orçamento no final deste mês, eles vão voltar. Mas eles foram completamente forçados. Há um argumento muito político, eles estavam a cortar 5 mil milhões de libras do orçamento da previdência social, ao mesmo tempo que aumentavam os gastos com armas em 5 mil milhões de libras. Portanto, o argumento é a previdência social, não a guerra. E essa foi uma vitória significativa. Logo, há resistência. É difícil. Mas, na verdade, sim, aquele rap animou todos. Isso deu esperança a todos.
RV: Muito obrigada, Iain.
Descubra as diferenças neste pequeno extrato de “notícias” da CNN Portugal (18-11-25): “Um ataque terrorista contra israelitas na Cisjordânia provocou um morto e três feridos. O ataque terá sido orquestrado por terroristas palestinianos que atropelaram e atacaram com recurso a facas vários israelitas na Cisjordânia.” EM NOVILÍNGUA: “Colonos
Descubra as diferenças neste pequeno extrato de “notícias” da CNN Portugal (18-11-25):
“Um ataque terrorista contra israelitas na Cisjordânia provocou um morto e três feridos. O ataque terá sido orquestrado por terroristas palestinianos que atropelaram e atacaram com recurso a facas vários israelitas na Cisjordânia.”
EM NOVILÍNGUA:
“Colonos israelitas voltaram a incendiar casas e carros de palestinianos da Cisjordânia. Este novo ataque captado por câmaras de vigilância, levado a cabo por dezenas de homens mascarados, aconteceu ontem em [Beit] Jala, nos arredores de Belém. No mesmo dia, o PM israelita que na semana passada já tinha prometido medidas contra estes atos de violência, anunciou uma reunião de urgência sobre o tema. (...) Disse que estes distúrbios eram da autoria de um pequeno grupo extremista.”
*Pesquisado a partir de um post no FB de João Ramos de Almeida.
Adriano Zilhão entrevistou para o Maio Marcel Borges, presidente da ASITRAP – Associação dos Imigrantes e Trabalhadores por Aplicação, que nos falou sobre as condições de vida e de trabalho dos trabalhadores das grandes plataformas, como a Uber ou a Glovo e também dos TVDE
Adriano Zilhão entrevistou para o Maio Marcel Borges, presidente da ASITRAP – Associação dos Imigrantes e Trabalhadores por Aplicação, que nos falou sobre as condições de vida e de trabalho dos trabalhadores das grandes plataformas, como a Uber ou a Glovo e também dos TVDE e as consequências que para eles teria a aprovação do pacote laboral do Governo Montenegro.
Falo em meu nome e em nome e de todos os meus colegas da manutenção ferroviária em Portugal.
O meu nome é Ricardo. Sou ferroviário há 10 anos na área da manutenção. Gostaria de deixar aqui o meu testemunho:
Falo em meu nome e em nome e de todos os meus colegas da manutenção ferroviária em Portugal. Somos muitos, espalhados pelo país, e todos partilhamos as mesmas preocupações, os mesmos desafios e, infelizmente, a mesma falta de reconhecimento. Vivemos tempos que não são felizes, de instabilidade, insatisfação e incerteza.
“Somos nós que garantimos que os comboios circulam em segurança, que as linhas estão em condições e que tudo funciona como deve funcionar.”
O trabalho na manutenção ferroviária é exigente e, muitas vezes, ingrato. É um trabalho física e mentalmente pesado, que requer competências muito específicas e uma enorme responsabilidade. Somos nós que garantimos que os comboios circulam em segurança, que as linhas estão em condições e que tudo funciona como deve funcionar. Mas este esforço raramente é reconhecido. Continuamos a ser uma classe esquecida e desvalorizada, mesmo sendo uma das mais importantes para o funcionamento da ferrovia. Recebemos alguns pequenos subsídios complementares, mas de valor tão baixo que mal compensam o desgaste, o risco e a dedicação que o trabalho exige.
Tudo isto tem um custo humano enorme. O cansaço acumula-se, o corpo ressente-se, a mente esgota-se. E, por vezes, a vida pessoal e familiar acaba por ficar para segundo plano. É uma luta constante entre o dever e o equilíbrio, entre o amor ao trabalho e a falta de reconhecimento por ele.
Como se tudo isto não bastasse, paira agora sobre nós uma sombra aterradora de uma possível alteração à lei laboral por parte do governo, com propostas que nos deixaram incrédulos.
As entidades patronais, empregadoras e chefias, não só na ferrovia, mas também no geral, precisam de compreender que na vida, tal como na matemática, “mais com menos é igual a menos”. Apenas mais com mais é igual a mais. Mais respeito, mais justiça, mais equilíbrio entre vida profissional, familiar e social e mais reconhecimento trazem trabalhadores mais motivados, mais responsáveis mais competentes e mais produtivos. Trabalhadores que sentem orgulho no que fazem e que dão o melhor de si, não por obrigação, mas por gratidão e sentido de valor. Porque, no fim, cuidar de quem mantém a ferrovia em funcionamento é cuidar da própria ferrovia, da sua segurança, da sua qualidade e do seu futuro.
Desde que aquela máxima cristã – “Primeiramente a Deus” – fora abolida de sua vida, tornara-se uma pessoa mais livre. O mundo deixara de ser preto ou branco, bom ou mau. Havia muitas outras cores e nuances, havia mediações, já não havia nem céu e nem inferno. Embora não tenha sido
Desde que aquela máxima cristã – “Primeiramente a Deus” – fora abolida de sua vida, tornara-se uma pessoa mais livre. O mundo deixara de ser preto ou branco, bom ou mau. Havia muitas outras cores e nuances, havia mediações, já não havia nem céu e nem inferno. Embora não tenha sido fácil a passagem de um mundo a outro, o fato é que, para além do seu mundo, descobriu haver outro, ou outros modos de apreensão do mesmo mundo.
Até então, ela estivera sempre rodeada de cristãos, fossem colegas, amigos ou familiares. Todos os seus sentimentos eram aprisionados por um Deus onipresente, que invadia até (para não dizer predominantemente) a sua sexualidade. À volta, na sua solitária luta contra a pobreza, a cada ínfima conquista, estava alguém a lhe lembrar que devia agradecer a Deus. Ah, como Deus é bom! Você não percebe como Ele é bom pra você?
Sério?, perguntava-se.
Onde estava esse Deus que não lhe permitia guardar nenhuma daquelas fantasias que o mercado fomenta nas crianças? Nem Papai Noel, nem coelhinho da páscoa, nem fadas, nem príncipe encantado. Nada. Bolo de aniversário e parabéns nem pensar. Frescura de gente rica, diziam-lhe. Exercitaram nela a objetividade comum a quem nasce pobre, mas queriam lhe imprimir uma subjetividade que as suas experiências não sustentavam. Desde a infância, a vida fora tão escassa de romantismo que não ter-se tornado amarga já era quase um milagre. Como milagre não existe, talvez o romantismo do escritor José de Alencar e a literatura de cordel do seu avô respondessem pela sua capacidade de sonhar. Porque sim, ela ainda sonhava e não era graças a Deus.
Impingir a ideia de Deus aos pobres é mais uma maldade dos ricos. Ora, por que fazer um desgraçado de um trabalhador acreditar que há, no plano divino, um ente acima das classes, uma idealização de Estado universal, que zela por todos, sem qualquer discriminação, quando a realidade de quem é pobre está a negar essa afirmação cotidianamente? Por que esse ser de bondade permite que só uns poucos nasçam ricos e graças a essa condição estejam autorizados a explorar indefinidamente quem nasceu pobre?
Para nascer rico é preciso ter pais ricos. “Enriqueceram pelo trabalho”, dizem os herdeiros. Ninguém declara que as propriedades dos seus antecessores foram adquiridas mediante grilagem de terras e exploração do trabalho alheio, dentre outros roubos. Fácil compreender, assim como não há prostituta velha, não há avô ladrão.
Certo é que, se alguém deve ter um Deus a quem agradecer, essa gratidão só se justifica quando advinda dos nascidos ricos. Afinal, não fizeram nenhum esforço para ter o mundo a seus pés. Moradia, educação, saúde, cultura, lazer, fantasias, tudo lhe foi dado. De graça. Como se caídos do céu. Enquanto isso, a criança pobre, ao contrário, para ficar em um só item da sua vida plena de escassez, convive com a ideia de um Papai Noel que não sabe onde ela mora.
Uma criança rica jamais teria dúvida em exercitar a tradição de colocar o sapato na janela, para receber um presente de Natal. Bem diferente da criança pobre que ela foi e que não fazia isso por duas certezas: por saber que o seu código de endereçamento postal não constava das entregas do Papai Noel e, pior, pelo risco de levarem um pé do seu único par de sapatos. Não seria ela a acrescentar às alcunhas já existentes e nada elogiosas a de saci Pererê. Afinal, o risco nem se justificava. Tudo que desejava e que precisava não podia ser trazido pelo mensageiro de São Nicolau, mas tão somente por aquele outro Deus, que dia a dia estivera a descobrir, mas ainda não se atrevia a declarar.
As histórias infantis costumam ter rainha, rei, palácios, grandes festas, maravilhosos figurinos e negrinhos e negrinhas a cozinharem, a servirem à mesa, a abanarem leques…
O leitor já ouviu falar de Saci Pererê? Não por acaso, trata-se de um “negrinho” que, dentre outras versões lendárias, teria perdido uma perna dançando capoeira. Ele podia ser branco e ter perdido a perna num acidente de carruagem, ou numa queda do seu cavalo alazão. Mas não. O folclore, como outras expressões culturais, é cheio de personagens e histórias que ratificam a divisão de classes, entre outras, e reduzem o negro a papéis secundários, figuração que nem nome precisa ter. Note-se que as histórias infantis costumam ter rainha, rei, palácios, grandes festas, maravilhosos figurinos e negrinhos e negrinhas a cozinharem, a servirem à mesa, a abanarem leques para os seus senhores, a desamarrarem o espartilho da princesa, a tirarem as botas do príncipe, a sofrerem abusos do senhor e, por fim, como ninguém é de ferro, algumas vezes, a cantarem, dançarem, lutarem, nos interstícios da submissão que, não por acaso, também inclui um Deus.
A percepção adquirida não a fez uma pessoa feliz, apenas lúcida. Ela tem certeza de que há um Deus, este universal, único, poderoso, ao qual todos estão obrigados a fazer vênia. Na sua imensa sabedoria, esse Deus não dispensa e até incentiva o culto aos deuses que povoam as diferentes crenças, porque estes, em geral, o legitimam. A ausência de gratidão é uma ameaça. Cuida-se, portanto, não só para que a condição de saci seja aceitável, como, ainda, para que se preserve nessa gente de uma perna só a delicadeza do agradecimento.
Ora, gratidão por quê? Talvez porque gratidão e liberdade se oponham. O Deus Mercado não quer homens e mulheres livres, mas gratos. Mas, convenhamos, se gratidão é um sentimento a ser cultivado pelas dádivas recebidas, o verbo agradecer só se justifica no léxico dos ricos. Entretanto, agradecer a Deus é muito mais recorrente entre os pobres. Os trabalhadores agradecem por ter um trabalho. Agradecem a Deus e ao empregador. Ou a Deus e ao Mercado. Ou a Deus e ao Capitalismo. Juntos no mesmo altar, a serem adorados, quando deviam ser incompatíveis.
Até mesmo entre trabalhadores esclarecidos parece ser demasiada ousadia discordar dos “insondáveis mistérios da fé”. A crença em Deus é uma espécie de prisão, na qual o sujeito se coloca e opta por jogar a chave fora. Trabalhadores, na sua maioria, ao celebrar uma conquista começam por “Primeiramente a Deus”. Nem sempre honesto, o agradecimento parece guardar um medo real de que algo lhe seja suprimido se não reconhecer publicamente a substancial ajuda de Deus. Ora, é suposto Deus saber que o agradecimento é falso.
O novo filme de Kleber Mendonça Filho chegou às salas de cinema há pouco mais de duas semanas. A primeira informação que me chamou a atenção ao ver os créditos foi a sua duração: 2.41 horas. Bem diferente da última longa metragem do realizador, Retratos Fantasmas (1.33 h)

O novo filme de Kleber Mendonça Filho chegou às salas de cinema há pouco mais de duas semanas. A primeira informação que me chamou a atenção ao ver os créditos foi a sua duração: 2.41 horas. Bem diferente da última longa metragem do realizador, Retratos Fantasmas (1.33 h) e também de Bacurau (2.11 h) ou mesmo de Aquarius e de O som ao redor, ambos com também pouco mais de 2 horas. Ao assistir ao filme, o tempo se justificou pelas várias inserções de cenas aparentemente gratuitas no curso da narrativa do realizador recifense. Por exemplo, logo no início, Marcelo (Wagner Moura), recém-chegado ao novo apartamento, depois de ser recebido por Dona Sebastiana (Tânia Maria), coloca o disco Desabafo, do grupo musical recifense Conjunto Concerto Viola, para ouvir “Retiro / Tema de amor n.º 3”. Ou ainda a cena em que o personagem sai em meio ao carnaval de rua do Recife. E também os vários trechos que ajudam a contar a lenda da perna cabeluda que muitos de nós, no Sul do Brasil, conhecíamos apenas através da canção “Banditismo por uma questão de classe”, de Chico Science e Nação Zumbi, e que mereceria um novo texto em que se tratasse apenas do encontro entre essas duas obras dos artistas pernambucanos, tão fortes as relações que se pode supor que existam entre elas. A intenção, parece-me, é conceder à cultura popular do Nordeste brasileiro o lugar que lhe foi historicamente negado.
Neste espaço de que disponho, quero tratar de quatro elementos importantes para compreender a história do Brasil apresentada por Kleber Mendonça Filho em O agente secreto. Primeiro, Dona Sebastiana, que liga a história brasileira à internacional, as quais são atravessadas pelos fascismos de Mussolini na Itália e dos integralistas no Brasil na década de 1930, que são, no fundo, parte do mesmo armamento do capital global. Também o casal Tereza Vitória (Isabel Zuaa) e Antonio (Licínio Januário), que une a história de luta pela independência em África, que enfrentou o regime totalitário de Salazar até ao fim dos anos 1970, reproduzido nas antigas colônias pelos governos “nacionais” a serviço do imperialismo, às lutas contra a ditadura militar no Brasil, de modo que é possível compreendê-las como partes de um mesmo processo de enfrentamento do sistema capitalista mundial, que, embora se expresse de maneiras distintas em Angola e no Brasil, são, em verdade, um mesmo movimento em favor da libertação dos povos africano e brasileiro dos grilhões do capital internacional em suas formas mais brutais.
Além desses, o personagem Hans, interpretado por Udo Kier, também permite ao espectador aproximar a barbárie praticada pela ditadura empresarial-militar brasileira à nazista da Alemanha do segundo quartel do século XX. E, mais importante do que isso, sugere que os judeus buscaram refúgio em lugares do mundo tão distantes da sua terra natal quanto quaisquer outros refugiados que lutaram e lutam pela sobrevivência ao longo da história, tanto antes quanto depois dos terríveis episódios gestados pelo antissemitismo levado às últimas consequências por Hitler.
Uma face abjeta do Sul do Brasil produz e reproduz o preconceito contra o povo do Norte e do Nordeste
Ainda, são bastante significativos os personagens que representam o “eles” no filme de Kleber Mendonça Filho. Bobbi (Gabriel Leone), Augusto (Roney Villela), Arlindo (Thomas Aquino), Euclides (Robério Diógenes) e Sergio (Igor de Araújo). No papel de milicianos, esses personagens são os agentes de uma perseguição violenta às ideias representadas por Marcelo, que é engenheiro e professor universitário. Há uma cena em que esses personagens estão dentro de um carro da polícia evocando repetidamente vocábulos que remetem às suas patentes militares, como “tenente” e “coronel”, em meio a uma macabra sequência de risadas e deboche, que ligam os fios de uma trama que narra a violência de Estado e a pilhagem praticada por eles. Augusto, ex-militar dispensado por problemas de disciplina e lealdade, e Bobbi, seu enteado, ainda servem como uma espécie de alegoria para uma família que tem lugar na história recente do Brasil como símbolo de uma virilidade forjada pela violência de gênero e pelo desejo de destruição do diferente. O passado desses personagens é reconstituído em parte no enredo por meio da revelação de uma sinistra aliança que envolve o assassinato da mãe de Bobbi. Dentro deste quadro também poderiam ser incluídos Ghirotti (Luciano Chirolli) e seu filho, Salvatore (Gregorio Graziosi), que representam uma face abjeta do Sul do Brasil, que produz e reproduz o preconceito contra o povo do Norte e do Nordeste, servindo de freio de mão do capital internacional para o desenvolvimento técnico e econômico do Brasil, como o espectador pode ver na cena em que Ghirotti e Salvatore vão à UFPB discutir os projetos do departamento coordenado por Marcelo, os quais buscam soluções para o desenvolvimento energético do país e que são enterrados pelo sulista, representante da Eletrobrás, entre outras razões, porque, conforme ele externaliza, a universidade “do Nordeste” deveria se preocupar com problemas “mais regionais”.
Como toda obra grandiosa, O agente secreto renderia muitas linhas mais. Mas considero que esta pode ser uma boa continuação do diálogo sobre o Brasil iniciado por este último filme de Kleber Mendonça Filho.
Há uma nova vaga de mobilizações em Itália contra o orçamento de guerra do governo e em solidariedade com o povo palestiniano.
Há uma nova vaga de mobilizações em Itália contra o orçamento de guerra do governo e em solidariedade com o povo palestiniano.

A palavra de ordem foi, mais uma vez, “bloquear tudo”. A greve geral de 28 de novembro, na passada sexta-feira, contra o rearmamento e a austeridade da primeira-ministra de extrema-direita, Giorgia Meloni, foi mais um episódio da crescente mobilização dos trabalhadores italianos e dos seus sindicatos. Esta greve geral junta-se a outras duas nos últimos dois meses, a de 22 de setembro e a de 3 de outubro, contra o genocídio do povo palestiniano às mãos do Estado de Israel. E mais greves virão.
O governo de Meloni tem sido cúmplice do genocídio do povo palestiniano ao fornecer armas e munições a Israel, ao se recusar a reconhecer o Estado palestiniano e a cortar laços diplomáticos ou comerciais com Telavive. Roma tem sido uma força de bloqueio na aplicação de sanções ao Estado de Israel, e por isso Meloni e dois dos seus ministros foram denunciados ao Tribunal Penal Internacional (TPI) por mais de 50 juristas palestinianos, organizados no grupo Juristas e Advogados pela Palestina.
Meloni mantém esta posição hipócrita enquanto assume a dianteira no apoio político, diplomático, militar e financeiro à Ucrânia, invadida pela Rússia, em nome da defesa da autodeterminação dos povos e do direito internacional. Dois pesos e duas medidas, como os líderes europeus já nos habituaram. O povo italiano, historicamente apoiante da causa palestiniana, está em oposição ferrenha à política militarista e genocida do seu governo. A linha que separa a humanidade e a decência da monstruosidade está a ser desenhada a sangue.
Daí que os trabalhadores italianos, em especial os estivadores, tenham avançado com duas greves gerais, em setembro e outubro, em apoio do povo palestiniano. Foram as greves gerais mais bem-sucedidas da história recente de Itália. Foram enormes mobilizações anti-guerra — as quais só têm equiparação com as manifestações contra a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003 — e espalharam-se a todo o país, não se limitaram aos redutos da esquerda italiana nem ao seu eleitorado.
A greve geral de 3 de outubro foi convocada pelas centrais sindicais CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho) e USB (União Sindical de Base), entre outras organizações, em resposta à intercepção israelita da flotilha Sumud, a 1 de outubro, e em solidariedade com o povo palestiniano, pelo fim do genocídio. Mobilizou dois milhões para as ruas italianas. Já a greve geral de setembro foi convocada por uma série de sindicatos de base e centrais sindicais mais pequenas, como a Confederação Unitária de Base (CUB), conseguindo mobilizar um milhão de pessoas.
No entanto, a mobilização tinha “acalmado” um pouco no último mês, por causa de uma certa ilusão (ou expectativa) em torno do suposto “acordo de paz” de Donald Trump, mas o gatilho para mais uma greve geral não se fez esperar: a proposta de Orçamento do Estado de 2026. A sua linha mestra é bastante clara e simples: cortes no Estado Social para canalizar verbas para o rearmamento do país, cumprindo os 5% de investimento em defesa impostos pelos Estados Unidos, Bruxelas e NATO. É, em suma, um orçamento de guerra e de ataque aos direitos de quem trabalha quando os salários reais diminuem e o custo de vida não pára de aumentar.
A proposta orçamental retira milhares de milhões da saúde, da educação, das pensões e dos serviços locais para os canalizar para a indústria do armamento. Os trabalhadores são, assim, forçados a financiar o “esforço de guerra”. Mas há mais: o orçamento, à semelhança das intenções do Governo de Luís Montenegro com o seu pacote laboral, também vai aprofundar a precariedade, ao expandir o outsourcing, desregular a contratação e incentivar os patrões a substituir empregos estáveis por empregos de curto prazo e baixos salários. Vai acelerar a privatização de bens públicos essenciais, como infraestruturas e serviços, beneficiando os interesses empresariais e financeiros.
Como se não bastassem os ataques aos direitos mais elementares dos trabalhadores, a nova proposta orçamental também vai aumentar os recursos financeiros para as forças e serviços de segurança. Isto depois de, no início de junho, o governo ter conseguido aprovar no Senado uma lei repressiva que criminaliza protestos, aumenta os poderes da polícia e fortalece os mecanismos de controlo sobre a dissidência. A nova lei até permite aos agentes do Estado cometerem certos crimes em sua defesa, sem que sejam acusados e condenados. Tudo para reprimir a contestação social que o governo sabe que estas medidas vão causar.
A resposta dos sindicatos apenas poderia ser uma: greve geral. Ao contrário da greve geral de 3 de outubro, os sindicatos de base Cobas, USB, SGB, CUB e a central sindical CGIL não uniram esforços. Os sindicatos convocaram greve geral de 24 horas para 28 de novembro, na passada sexta-feira, enquanto a CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho), a maior central sindical institucional do país, o fez para 12 de dezembro, também sexta-feira.
"Gostaríamos que a CGIL também participasse, para repetir a grande e forte união de 3 de outubro. Mas os nossos apelos caíram em ouvidos moucos. A CGIL preferiu entrar em greve sozinha e fora de época, a 12 de dezembro, quando o processo de aprovação da lei orçamental estará finalizado", afirmou a confederação Cobas, citado pelo jornal italiano Il Fatto Quotidiano.
A greve geral de 28 de novembro avançou na mesma e mobilizou dezenas de milhares de trabalhadores nos sectores públicos e privados nos transportes, saúde, educação, administração pública e indústria. As viagens ferroviárias e áreas foram seriamente afetadas e pelo menos 26 voos foram cancelados. O caderno reivindicativo? Travão na aprovação do Orçamento do Estado, investimento no Estado Social, reforço da lei laboral em prol dos trabalhadores, a não privatização de empresas públicas de energia, correios, telecomunicações, transporte público, saneamento ambiental, saúde e educação, a revogação da lei de segurança nacional, entre outras.
“Queremos pelo menos 2000 euros de salário base, reforma até aos 62 anos, fim da subcontratação, redução do horário de trabalho sem perda salarial, direitos à habitação garantidos, novas contratações no setor público e cuidados de saúde públicos universais e gratuitos”, afirmou, em comunicado, a USB. “Estas são necessidades urgentes num país exausto, necessidades incompatíveis com o belicismo do governo.”
Os líderes europeus veem na ameaça da guerra uma oportunidade económica e aproveitam-na para justificar a sua contrarrevolução social.
E, em mais um exemplo de como a mobilização dos trabalhadores interliga a solidariedade com o povo palestiniano e a oposição ao militarismo europeu, milhares de pessoas marcharam, no sábado, 29 de novembro, pelas ruas de Roma contra o genocídio. A marcha, organizada pela USB, foi encabeçada pela relatora especial das Nações Unidas Francesca Albanese, pela ativista Greta Thunberg e pelo ativista Thiago Ávila.
“Receio que o genocídio vá continuar, graças ao silenciamento da verdade”, avisou Albanese. “Mais de 50% da Faixa de Gaza está ocupada por tanques israelitas”, recordou a relatora especial, salientando que na Cisjordânia mais de 1200 palestinianos já foram mortos desde 7 de outubro de 2023. “Itália e União Europeia devem parar de transferir armas, realizar exercícios militares com Israel e de comercializar tecnologias que possam alimentar os crimes em curso.”
O próximo grande embate será a 12 de dezembro, mas o mês de dezembro está pejado de protestos e greves, mais um sinal da enorme e significativa mobilização da classe trabalhadora em Itália. Na segunda-feira passada, os trabalhadores do sector dos transportes da Sicília pararam entre as 10h30 e as 14h30. No dia 9 de dezembro, o sector público de Roma entrará em greve por 24 horas e todo o sector marítimo italiano por 48 horas, até 11 de dezembro. Depois, a 17 de dezembro, os controladores do tráfego, trabalhadores das companhias aéreas e dos aeroportos farão greve parcial entre as 13h e as 17h. E, por fim, a 22 de dezembro, mais uma greve, desta vez de 72 horas, no sector de logística.
A mobilização dos trabalhadores não se restringe a Itália. Na Bélgica, os sindicatos organizaram uma greve geral no dia 26 de novembro contra os cortes nas pensões e a redução dos benefícios sociais impostos pelo governo, enquanto aumentam os gastos na indústria da guerra. E a 11 de dezembro será a vez de os trabalhadores portugueses saírem à rua contra o pacote laboral do Governo de Montenegro, a primeira greve geral convocada em conjunto pela CGTP e a UGT desde 2013.
Não há dúvida de que todos estes protestos são um sinal da crescente mobilização das classes trabalhadoras europeias em oposição a uma crise mais alargada, seja dos regimes democrático-liberais seja do próprio capitalismo – e ainda estamos para ver como rebentará a brutal bolha financeira da Inteligência Artificial. Depois da pandemia de Covid-19 e da injeção de milhares de milhões de euros na economia, colmatando uma carência brutal de investimento público ao longo de dez anos, os governos europeus apostam agora no rearmamento para a economia continuar a girar. Fazem-no como sempre fizeram: pondo os trabalhadores a arcar com os prejuízos e os sacrifícios, seja nas empresas seja nas casernas, com a reintrodução de novas modalidades de serviços militares obrigatórios.
Os líderes europeus veem na ameaça da guerra uma oportunidade económica e aproveitam-na para justificar a sua contrarrevolução social. E já sabemos como será tratado quem se lhes opuser e os denunciar: será apelidado de putinista, de colaboracionista, de lacaio de Vladimir Putin, de traidor e antipatriota. Assim seja.
Imaginar uma sociedade onde o poder não reside no trono dos reinos, nas presidências vazias ou nas secretarias cheias de burocratas pode ser uma tarefa interessante, caso seja acompanhada da necessária visão crítica.
O poder, como o bosão de Higgs, é a manifestação desse campo de crenças colectivas e legitimidade concedida, conferindo ‘peso’ ao discurso do político, à opinião do especialista, à decisão do juiz.
“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas, continuarei a escrever. Como começar pelo princípio, se estas coisas acontecem antes de acontecer?”
A Hora da Estrela, Clarisse Lispector (1977)
Imaginar uma sociedade onde o poder não reside no trono dos reinos, nas presidências vazias ou nas secretarias cheias de burocratas pode ser uma tarefa interessante, caso seja acompanhada da necessária visão crítica. Uma das alternativas, falando simplesmente do campo da imaginação criativa, seria um poder inspirado nos avanços mais recentes da física de partículas, que reside nas sombras infinitesimais do invisível, nos fragmentos quânticos que tecem os contornos da existência. Uma alegoria possível aos humildes constituintes da matéria e do espírito humano, onde cada colisão, cada excitação fraccionária, revela forças capazes de reescrever o destino colectivo.
O poder pode, na nossa imaginação, ser qualquer coisa como a “imaginação ao poder”. Recuemos a Maio 68, em que Paris veria dez milhões de grevistas nas ruas e se convocava a imaginação como força motriz da arte, da inovação e da utopia, um hino global, em que a tomada de poder iria varrer as estruturas rígidas, burocráticas e opressivas da sociedade, governos, capitalismos e hierarquias tradicionais. Ficou, no seu tempo, como um manifesto para que a “criatividade liberte e governe”, transformando o mundo num palco de possibilidades infinitas, em vez de uma prisão de regras. Que partículas desse poder ficariam no ar, mesmo na perspectiva surreal, quase seis décadas depois? Um poder em partículas, que poderia então emergir das profundezas do cidadão e guindá-lo à categoria superior das possibilidades, num vislumbre para além do véu da realidade podre, desenhada pelos atores pífios que conhecemos hoje, particularmente no hemisfério norte.
No universo da física quântica, teoria fundamental desenvolvida na década de 70 do século passado, descrevem-se as partículas elementares da matéria, onde existe um campo que é responsável pela massa dessas partículas. O campo de Higgs é invisível, embora funcione como agregador de todo o espaço, onde as partículas elementares ganham massa ao interagir com este campo e oferecem resistência ao movimento, ou seja, quanto maior a interacção de uma partícula com o campo, maior é a "resistência" ao seu movimento, ganhando mais massa, e onde as partículas que interagem menos têm menos massa. A aparente complexidade do conceito pode ser adaptada ao tecido social, uma espécie de campo de Higgs relacional onde nos movemos. Alguns indivíduos interagem com intensidade com esse campo, sabemos quem são e como se comportam, líderes, comunicadores, "influenciadores", que vão adquirindo “massa social” na sequência das suas interacções. Essa “massa” não é obviamente um atributo intrínseco, mas um fenómeno relacional, constituindo uma arquitetura da legitimidade, conferindo poder em estruturas duradouras, concedido aliás pelo campo social em que se está inserido. O poder, como o bosão de Higgs, é a manifestação desse campo, conferindo “peso” ao discurso do político, à opinião do especialista, à decisão do juiz. Sem a interacção com esse campo de crenças colectivas e legitimidade concedida, o poder seria apenas um potencial, uma partícula sem massa correndo à velocidade da luz, mas incapaz de formar estruturas duradouras. Portanto, o poder é concedido pelo campo social em que se está inserido.
As questões do poder e do direito foram exploradas ao longo dos tempos. Por exemplo, o “direito” que prevalece não é necessariamente o mais justo ou verdadeiro, mas aquele que é sustentado pela partícula de poder mais eficaz naquele contexto. Para o filósofo inglês do século XVII, Thomas Hobbes, o poder, original ou natural e instrumental, não é absoluto por depender do reconhecimento de outrem, mas sim uma “concorrência” entre inúmeras partículas de poder para impor a sua versão do "direito". Já para o escritor e cientista alemão do século XVIII, Johann von Goethe, a origem do direito está na tradição e na herança do poder institucionalizado. O autor de Fausto, diz, pela boca de Mefistófeles, que o direito não é uma questão de justiça inerente, mas sim das regras que o poder conseguiu impor e fazer passar por legítimas ao longo do tempo. Goethe afirma de forma clara que o "direito" é uma construção do poder e não um princípio moral universal. Para Marx e Engels, o poder de classe baseado na economia sempre esteve concentrado e a aparente dispersão na superfície política e mediática esconde uma concentração sem precedentes de poder económico e tecnológico. O que afirmaram e defenderam mantém, ainda hoje, uma coerência notável. Se os pudéssemos consultar, possivelmente nos diriam que a solução não é celebrar a fragmentação do poder em partículas, mas superá-la através da organização consciente da classe trabalhadora para conquistar o poder real e efectivo. É mais, pela lógica das suas teses, que a narrativa do empoderamento individual através da tecnologia, que poderia ser vista como uma nova forma de falsa consciência, onde a pessoa acredita que está conquistando poder, enquanto permanece estruturalmente subordinada ao capital, ou seja, uma perfeita ilusão da emancipação individual.
Sabemos hoje que a matéria visível, estrelas, planetas, todos nós, compõe apenas cinco por cento do universo. O resto é matéria e energia escura, que não emite luz, mas cuja gravidade e pressão regem as leis do universo. Pelo mesmo diapasão se rege a maior parte do poder real. Que é, na maior parte das situações, "obscuro" e reside em acordos não escritos, em inter-relacionamentos de bastidores, em enviesamentos culturais inconscientes, que são a matéria escura que estrutura um sistema onde parece existir uma energia submersa em narrativas hegemónicas, forças expansivas e invisíveis, como o algoritmo de uma rede social ou a corrente subterrânea da opinião pública, que determinam o que é pensável e o que é inquestionável, sem nunca se revelarem completamente.
Restará provavelmente nesta alegoria definir o indivíduo como uma partícula de poder. É o que fazem os novos doutrinadores burgueses, os burocratas que utilizam o poder como castrador de consciências, pretendendo suprimir (e mesmo eliminar) a crítica e o pensamento livre. São os partidários de uma “democracia” que nos diz que a nossa voz, o nosso voto, a nossa participação online podem, em conjunto com outras partículas, gerar um "direito" novo. São os mesmos que incentivam o consumo e o “encarceramento” das pessoas em “centros especiais”, como os comerciais, onde parecemos ser iguais, uma ilusão falsa e enganadora. Hoje, a luta pelo poder já não é apenas controlar um trono ou um reino. É, acima de tudo, controlar uma narrativa, um algoritmo, as normas sociais e a atenção das pessoas. Nesta nova frente de luta, o aforismo de que a força (militar, económica, social ou algorítmica) define a legitimidade permanece terrivelmente verdadeiro, actuando de uma forma infinitamente mais complexa e subtil. O poder em partículas é uma metáfora que não invalida o aforismo. Pelo contrário, amplifica-o e complexifica-o. Os pequenos poderes, pulverizados, distribuídos e atomizados em inúmeras "partículas", representam hoje obstáculos visíveis e influentes na “resistência” às mudanças sociais e devem ser combatidos, em favor dos processos libertadores e revolucionários, para a construção programada e organizada da sociedade sem amos.
*Alfredo Soares-Ferreira, escritor e cronista, é licenciado em Engenharia de Telecomunicações, pós-graduado em Gestão e Estratégia Empresarial e em Administração Educacional. Atualmente aposentado, foi professor do ensino secundário, profissional e superior.
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