Jornal Maio

Pacote laboral: enquanto não for enterrado, a ameaça persiste

O Governo enfrentou ontem, 3 de junho, a segunda greve geral contra o seu pacote laboral. Seu e do patronato. Não por acaso, só os patrões e as suas associações apoiam este pacote laboral. Nem é por acaso que os números que a ministra do Trabalho, a milionária Palma Ramalho, cita sempre, quando se trata de fazer comparações entre as adesões à greve geral de 11 de dezembro e esta, são os números dos patrões. Há até aspetos anedóticos: a cadeia de supermercados Intermarché integrou-se na luta pelo pacote laboral dando uma borla de 10€, apenas ontem, dia da greve, a quem abastecesse pelos menos 50€ de combustível nas suas gasolineiras. E ainda há quem diga que a luta de classes não existe!

Tal como em dezembro, Palma Ramalho citou os “representantes do sector privado” para dizer que aí a “adesão foi residual”. Não foi. Ao final do dia, a CGTP enviou às empresas de comunicação social um documento de 55 páginas a dar conta das empresas paradas ou com altos níveis de adesão à greve geral. O secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, falou numa paralisação “de dimensão idêntica à levada a cabo em dezembro”. É verdade que no sector público a adesão foi muitíssimo maior. O Metro de Lisboa parou, quatro linhas do Metro do Porto também. Os STCP no Porto e a Carris e a Carris Metropolitana na região de Lisboa, apesar do recurso intensivo a trabalhadores imigrantes (precários), andaram a meio gás. Escolas e hospitais fecharam ou estiveram a trabalhar em regime de serviços mínimos.

De conjunto, a greve e as manifestações que a acompanharam terão tido uma participação inferior à de 11 de dezembro, ao que não foi alheio o facto de a UGT desta vez ter ficado de fora, de o pacote laboral ter sido encaminhado para a Assembleia da República, onde a sua sorte é incerta, de António José Seguro ter afirmado que o vetaria se se mantivesse como está e da estranha campanha pela imprensa fora — e também de sectores da esquerda oficial — a dizer que o pacote “já está morto”.

Por muita propaganda e negociatas de bastidores com o Chega que o Governo faça, a rejeição do pacote laboral atinge os 80% da população, como demonstrado pelas greves, pela eleição presidencial (a entretanto ocorrida, onde o seu candidato foi cilindrado) e até por sondagens recentes. 

Não que isso impeça o governo, empurrado pelas confederações patronais, de tentar impô-lo na Assembleia. 

Por isso, a vigilância tem de ser máxima. É necessário que a parte desses 80% que ontem hesitou em aderir à greve esteja preparada para se juntar aos outros para derrubar este pacote, que só lhes retira direitos. Não podemos confiar que a AR, o Presidente da República ou a Senhora de Fátima façam o milagre de nos livrar “sem dor” do pacote. Enquanto não for enterrado, a possibilidade de, no todo ou em parte, este pacote de medidas contra os trabalhadores ser aprovado é uma ameaça para as nossas vidas.