O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia
1.ª parte
Em 1894, em São Petersburgo, na Rússia, os trabalhadores da Fábrica Semiannikov, revoltaram-se contra o atraso sistemático no pagamento dos seus salários. A destruição do escritório e da entrada principal da fábrica expôs não apenas a precariedade das condições de vida do proletariado russo, mas também a total ausência de canais institucionais capazes de mediar o conflito entre trabalhadores e patrões. Para conter a revolta, bombeiros a mando do czar apontaram as mangueiras aos operários amotinados. Delas jorrou não apenas água gelada, mas o combustível que ajudaria a incendiar uma das maiores revoluções da história. Essa foi também a primeira ocasião em que surgiu um jovem de 24 anos que viria a ser conhecido como Lenine. Ele redigiu, junto com o seu camarada revolucionário Ivan Babushkin, um panfleto manuscrito endereçado aos grevistas.
(Historiador)
Em 23 de dezembro de 1894, em São Petersburgo, na Rússia, os trabalhadores da Fábrica Semiannikov, encravada na periferia industrial da capital imperial russa, deflagraram uma revolta de grandes proporções motivada por um pretexto aparentemente simples e rotineiro no contexto imperial: o atraso sistemático no pagamento de salários. A destruição do escritório administrativo e da entrada principal da fábrica expôs, de forma contundente, não apenas a precariedade das condições de vida do proletariado russo, mas também a total ausência de canais institucionais capazes de mediar o conflito entre trabalhadores e patrões. A reação imperial não tardou. Em pleno inverno russo, bombeiros a mando do czar apontaram suas mangueiras para operários amotinados e o que jorrou dali não foi apenas água gelada, mas o combustível que ajudaria a incendiar uma das maiores revoluções da história humana.
“Novas fábricas surgiam às dezenas, absorvendo ondas de camponeses que, expulsos pela miséria rural, chegavam às cidades russas sem qualquer experiência urbano-industrial e sem os rudimentos de organização coletiva que a vida industrial exigiria deles”
Foi precisamente nesse turbilhão que emergiu, pela primeira vez na cena política, a figura de Vladimir Ilitch Ulyanov, o futuro Lenine, então um jovem advogado, com apenas 24 anos, que redigiu, em colaboração com seu camarada revolucionário Ivan Babushkin, um panfleto manuscrito endereçado diretamente aos grevistas. Esse texto, produzido em apenas quatro cópias e lido às escondidas nas oficinas entre trabalhadores temerosos pela repressão, representaria, segundo a historiografia, o primeiro ensaio de Lenine no campo da agitação política dirigida às massas trabalhadoras, o ponto de partida de um processo que transformaria o mundo duas décadas depois. Bem, vejamos a seguir com detalhes como os factos se desenrolaram.
O caldeirão petersburguense
Para compreender o que aconteceu naquela tarde de dezembro de 1894, é preciso antes enxergar a cidade que a cercava. São Petersburgo era, naquele momento, um paradoxo arquitetónico e social: de um lado, palácios neoclássicos, avenidas monumentais e a pompa de uma corte imperial que se julgava eterna; de outro, bairros operários superlotados, fábricas que funcionavam dezasseis horas por dia e trabalhadores que viviam em condições de miséria extrema, sem qualquer proteção legal, sujeitos a descontos arbitrários nos salários, punições corporais e demissões imediatas por qualquer sinal de organização.
A Fábrica Semiannikov, conhecida formalmente como Fundição e Fábrica Mecânica Nevsky, consolidou-se como um robusto complexo metalúrgico e naval fundado por Piotr Semiannikov e Alexandre Poletika décadas antes, chegando a ser uma das maiores instalações industriais de São Petersburgo. Seus pátios barulhentos, cobertos de fuligem e vapor, abrigavam centenas de operários envolvidos na fabricação de máquinas, estruturas metálicas e embarcações para a Marinha Imperial. Era, assim, o coração pulsante da industrialização czarista: uma engrenagem poderosa e complexa que dependia inteiramente do suor e do esforço dos que nela trabalhavam.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Esse silêncio, no entanto, havia muito estava prestes a romper-se. Desde o fim dos anos 1880, a Rússia vivia uma transformação industrial acelerada, financiada em grande parte por capital estrangeiro e pela política económica do ministro Serguei Witte, que buscava atrair capital estrangeiro para acelerar a industrialização da Rússia. Novas fábricas surgiam às dezenas, absorvendo ondas de camponeses que, expulsos pela miséria rural, chegavam às cidades russas sem qualquer experiência urbano-industrial e sem os rudimentos de organização coletiva que a vida industrial exigiria deles. O resultado era uma classe operária jovem, numerosa, fisicamente concentrada nos grandes estabelecimentos industriais e, como ficará evidente nos parágrafos a seguir, politicamente volátil.

Fábrica Semiannikov, 1910.
A centelha: o atraso nos salários
O estopim da greve de dezembro de 1894 foi, a princípio, de natureza puramente económica. A administração da Fábrica Semiannikov vinha atrasando sistematicamente o pagamento dos salários, prática que, embora ilegal mesmo pelos frágeis padrões da legislação imperial, era amplamente tolerada pelo aparelho estatal. Para os operários, que viviam sem qualquer reserva financeira e dependiam de cada rublo para alimentar suas famílias e se aquecer no inverno russo, o atraso não era uma inconveniência burocrática, era o caminho para a fome e para a hipotermia.
A situação se tornou insuportável nas vésperas do Natal, festa religiosa de enorme importância no calendário russo ortodoxo, quando os trabalhadores aguardavam o pagamento integral dos salários acumulados ao longo do ano. Ao perceberem que a administração não tinha intenção de cumprir o compromisso, a fúria contida explodiu em ação coletiva.

A revolta foi imediata. A entrada principal da fábrica foi destruída. O escritório administrativo, símbolo da autoridade patronal, foi invadido e demolido. Em meio à exaltação da massa, um grupo tentou incendiar o apartamento do gerente-geral. Não havia liderança propriamente organizada, não havia demandas formalmente articuladas, havia muito mais a raiva acumulada de trabalhadores que, por anos, tinham sido tratados como peças descartáveis de uma máquina que os consumia pouco a pouco.
A resposta czarista: cossacos e duche de água fria
A reação do Estado foi rápida, brutal e reveladora de algo mais profundo do que a simples repressão policial: ela mostrava a total incompatibilidade entre o regime czarista e qualquer noção de mediação social. Não havia inspetores do trabalho com autoridade real, não havia sindicatos legais, não havia instâncias de negociação. Havia apenas a polícia, os cossacos e, naquela ocasião particular, os bombeiros atirando água gelada contra os trabalhadores.
Chega a ser irónico que os bombeiros militares transformassem seus equipamentos de resgate em instrumentos de repressão, disparando jatos de água gelada contra os operários amotinados em pleno inverno petersburguense, com temperaturas que podiam chegar a vinte e cinco graus abaixo de zero. A cena era um símbolo perfeito da lógica czarista: em vez de negociar, atacar. Em vez de ouvir, congelar. A água fria como uma metáfora da violência czarista. O que as autoridades chamavam de “restabelecimento da ordem” era, na prática, a demonstração de que a única linguagem do Estado imperial era a coerção.
Entretanto, não funcionou. A repressão não sufocou o movimento. Ao contrário, ampliou-o. Durante a semana seguinte, operários das oficinas portuárias de São Petersburgo, envolvidos na construção do couraçado Petropavlovsk, também deflagraram outro motim e conseguiram obter concessões. O movimento repercutiu em outras unidades industriais como a Fábrica Thornton, o Novo Almirantado e diversas outras empresas. Assim, em um ciclo de agitação alimentado por palavras e ideias, passaram a circular novas formas de organização (clandestina, ou não) entre os trabalhadores.
(continua)