Lenine

O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 2
categoria-história Greve Lenine São Petersburgo edicao-2026-07-30 (38)

O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 2

Em 1894, em São Petersburgo, na Rússia, os trabalhadores da Fábrica Semiannikov, revoltaram-se contra o atraso sistemático no pagamento dos seus salários. A destruição do escritório e da entrada principal da fábrica...

Tobias Vilhena
O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 1
categoria-história Greve Lenine São Petersburgo edicao-2026-07-23 (37)

O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 1

Em 1894, em São Petersburgo, na Rússia, os trabalhadores da Fábrica Semiannikov, revoltaram-se contra o atraso sistemático no pagamento dos seus salários. A destruição do escritório e da entrada principal da fábrica...

Tobias Vilhena
Fritz Platten, o homem que salvou Lenine
Comunismo Lenine Platten categoria-história edicao-2026-05-14 (27)

Fritz Platten, o homem que salvou Lenine

Sem Fritz Platten (1883-1942), a história mundial teria seguido um curso diferente. Este comunista suíço é hoje principalmente recordado como o organizador do “vagão blindado” em que Lenine e os seus camaradas atravessaram a Alemanha, permitindo-lhes participar na Revolução Russa./en

Alex de Jong
categoria-história Greve Lenine São Petersburgo edicao-2026-07-30 (38)

O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 2

Em 1894, em São Petersburgo, na Rússia, os trabalhadores da Fábrica Semiannikov, revoltaram-se contra o atraso sistemático no pagamento dos seus salários. A destruição do escritório e da entrada principal da fábrica expôs não apenas a precariedade das condições de vida do proletariado russo, mas também a total ausência de canais institucionais capazes de mediar o conflito entre trabalhadores e patrões. Para conter a revolta, bombeiros a mando do czar apontaram as mangueiras aos operários amotinados. Delas jorrou não apenas água gelada, mas o combustível que ajudaria a incendiar uma das maiores revoluções da história. Essa foi também a primeira ocasião em que surgiu um jovem de 24 anos que viria a ser conhecido como Lenine. Ele redigiu, junto com o seu camarada revolucionário Ivan Babushkin, um panfleto manuscrito endereçado aos grevistas.

O jovem revolucionário e o primeiro panfleto

Entre os que acompanhavam de perto os acontecimentos estava um jovem advogado de 24 anos que havia chegado a São Petersburgo pouco mais de um ano antes, em 31 de agosto de 1893. Vladimir Ilitch Ulyanov, revolucionário russo que que só adotaria o pseudónimo Lenine anos mais tarde, tinha acabado de chegar à capital imperial nominalmente para trabalhar como assistente de um advogado moscovita. Na prática, sua atenção estava voltada para outro interesse: os círculos marxistas clandestinos que fermentavam nas universidades e fábricas da cidade.

O jovem Lenine (1891)

Desde a sua chegada, Lenine havia se integrado num grupo que ficaria conhecido no futuro como velhos marxistas, formado principalmente por estudantes e ex-estudantes do Instituto Tecnológico de São Petersburgo. Nomes como Stepan Radchenko, Gleb Krzhizhanovsky, Vasily Starkov e Anatoly Vaneyev formavam o núcleo desse grupo, que se dedicava a organizar círculos de estudo entre os operários e a fazer propaganda política nas fábricas. A rede era pequena, mas crescia rapidamente, e Lenine, com sua capacidade intelectual extraordinária e seu método didático cativante, tornou-se rapidamente figura central.

O operário Ivan Vasilievich Babushkin, mecânico que frequentava os círculos clandestinos e se tornaria um dos mais próximos colaboradores de Lenine, deixou em suas memórias uma descrição vívida da forma como o jovem revolucionário ensinava Marx aos trabalhadores naquele período: 

O palestrante nos apresentou esta ciência verbalmente, sem qualquer caderno, muitas vezes tentando nos provocar uma objeção ou um desejo de iniciar uma disputa e, em seguida, nos confortava, forçando-nos a provar o ponto de vista do outro. Assim, nossas palestras foram muito vivas, interessantes... Estávamos todos muito abertos a essas palestras e constantemente admirávamos a mente do nosso professor.

Era precisamente Babushkin, um mecânico da Fábrica Semiannikov e líder de um círculo marxista de São Petersburgo, que se reunia clandestinamente em seu apartamento e que mantinha Lenine informado sobre as condições dentro da fábrica. Por isso, quando a revolta eclodiu, em dezembro de 1894, Lenine soube quase imediatamente e reagiu da forma que marcaria sua trajetória: com palavras e organizando os trabalhadores.

*/Banner Maio*/

Um panfleto foi redigido às pressas, a duas mãos, uma colaboração estreita entre Lenine e Babushkin, copiado à mão em letras maiúsculas, visto que não havia recursos tipográficos disponíveis. Um panfleto reproduzido em apenas quatro exemplares. Dois foram confiscados pelos guardas da fábrica antes de chegarem às mãos dos operários. Os outros dois circularam de forma clandestina entre as oficinas, lidos em voz alta e às escondidas dos capatazes.

Nadejda Krupskaia, futura esposa de Lenine e então educadora nos bairros operários de São Petersburgo, testemunhou o impacto do texto. Em suas memórias, ela recorda que o panfleto foi recebido pelos trabalhadores com uma atenção intensa, quase reverente, não por ser um documento erudito, com vocabulário rebuscado, mas precisamente por não o ser: a linguagem era direta, combativa, e falava exatamente do que os operários viviam.

O que dizia o panfleto

O texto do panfleto, do qual o início não foi preservado, mas cuja parte central sobreviveu em cópias posteriores, é uma peça política de notável habilidade para um autor de apenas 24 anos. Lenine começa por reconhecer o que acabou de acontecer na fábrica, mas imediatamente se recusa a tratar a revolta espontânea como um modelo a ser repetido. O argumento central é que a ação desorganizada, por mais compreensível que seja, não é frutífera e joga os trabalhadores direto nas mãos dos opressores. Escreve Lenine:

Como vocês sabem, há um brinquedo em que você aperta a mola e um soldado com um sabre salta. Foi isso que aconteceu na fábrica de Semiannikov, e vai acontecer em todos os lugares: os donos da fábrica e seus capangas são a mola: aperte-a uma vez e os bonecos que ela aciona aparecerão: promotores, polícias e gendarmes.

A metáfora é reveladora da mentalidade do jovem revolucionário: não uma recusa à luta ou um pacifismo infantil, mas uma crítica da luta mal organizada. O panfleto continua com uma análise comparativa surpreendentemente sofisticada para ser lida em voz alta numa oficina:

os trabalhadores ingleses ganham três vezes mais que os russos, os americanos, seis vezes, e ambos têm o direito de se reunir, publicar jornais e participar da política. Como chegaram lá? Pela luta organizada, incansável e persistente.

Logo, para Lenine, aquela luta específica ali, em um bairro operário de uma cidade russa, deve ser enxergada dentro de um escopo maior de luta global dos trabalhadores.

“A capacidade de lutar só pode ser realmente desenvolvida por meio da luta”, sentencia o texto. E depois, na conclusão, o chamado que resumia o programa: “Luta e conhecimento! – é isso que a vida russa exige do operário russo.”

Para os trabalhadores da Semiannikov, que acabavam de ver seus companheiros encharcados de água gelada por tentarem simplesmente receber o salário que lhes era devido, essas palavras tinham o peso de uma revelação.

O contexto mais amplo: uma geração de revolucionários

O motim de 1894 não pode ser entendido isoladamente. Todo o movimento se insere num processo de organização que vinha ganhando forma havia anos em São Petersburgo. Os círculos marxistas, embora pequenos (clandestinos em boa parte) e constantemente ameaçados pela polícia secreta do czar, começavam a se enraizar de forma constante no movimento operário.

Lenine, desde sua chegada à cidade, havia percebido que a tarefa imediata não era a propaganda restrita a grupos de iniciados, mas a agitação entre as grandes massas trabalhadoras. Os panfletos – textos curtos, diretos, endereçados especificamente aos operários de cada fábrica e às suas demandas concretas – eram o instrumento ideal para essa passagem. O episódio de Semiannikov foi, nesse sentido, tanto uma aprendizagem como uma definição dos procedimentos a serem adotados.

Em novembro de 1895, menos de um ano depois da greve, Lenine e seus companheiros formalizaram essa estratégia na criação da União de Luta pela Emancipação da Classe Operária. Essa organização conseguiu estabelecer laços clandestinos com mais de setenta fábricas em São Petersburgo e produziu dezenas de panfletos dirigidos a trabalhadores específicos em conflitos concretos. O comitê dirigente reunia, além de Lenine, figuras como Krzhizhanovsky, Starkov, Vaneyev e Julius Martov, nomes que marcariam profundamente a história do movimento socialista russo.

Membros da União, 1897

Contudo, a repressão czarista também acelerou o passo. Em dezembro de 1895, Lenine foi preso. Seguiram-se anos de exílio na Sibéria, durante os quais continuaria a escrever, organizar e teorizar, alimentado, em parte, pela experiência acumulada nos anos anteriores, incluindo a lição de Semiannikov.

O protesto como prelúdio: 1894 e o caminho para 1905

A relevância histórica da Semiannikov transcende, no entanto, a dimensão biográfica de Lenine. Inserida num ciclo mais amplo de tensões sociais que marcaria o ocaso do Império Russo, ela antecipa elementos estruturais que culminariam na Revolução de 1905: a contradição entre a expansão industrial acelerada e a ausência total de direitos laborais; a brutalidade de um aparelho repressivo que só sabia responder às reivindicações sociais com violência; e a emergência, no interior das próprias fábricas, de uma consciência política que não pedia mais do que dignidade, mas que, sistematicamente negada, tornava-se cada vez mais radical.

O motim de 1894 não foi, em si mesmo, um evento de grandes consequências imediatas. Os operários foram dispersos, alguns dos mais combativos foram deportados para longe de São Petersburgo, os salários acabaram por ser pagos e tudo voltou, na superfície, à aparente normalidade. Todavia, algo havia mudado de forma irreversível: os trabalhadores tinham descoberto, na prática, que eram capazes de pressionar o sistema, e os revolucionários tinham descoberto, também na prática, que a linguagem direta e ancorada em exigências concretas era capaz de atravessar a barreira entre a teoria marxista e a experiência quotidiana dos operários.

Nos anos seguintes, episódios semelhantes se multiplicariam por toda a Rússia industrial. O Domingo Sangrento de janeiro de 1905, quando uma manifestação pacífica de trabalhadores liderada pelo padre Gapon foi fuzilada diante do Palácio de Inverno, seria apenas o momento mais dramático de um processo iniciado que, como vimo aqui, bem antes e do qual os factos ocorridos na Fábrica Semiannikov foi, sem exagero, uma das primeiras expressões visíveis.

A memória construída: monumentos e mitos fundadores

Décadas depois dos eventos, quando a Revolução de Outubro havia transformado a Rússia numa potência mundial, o Estado soviético voltou seus olhos para episódios como o de Semiannikov com uma atenção muito particular. A fábrica (rebatizada como Estaleiro Nevsky e, mais tarde, como Fábrica Lenine) foi transformada em lugar de memória, um daqueles espaços em que o passado é cuidadosamente materializado para legitimar o presente.

Em 1926, dois anos após a morte de Lenine, foi inaugurado diante do Estaleiro Nevsky um monumento ao líder bolchevique, obra do escultor Matvey Kharlamov, um filho de um antigo servo, formado na Academia Imperial de Artes e convertido, depois da Revolução, num dos principais artífices da iconografia leninista. O monumento não era apenas uma homenagem pessoal: era uma declaração de origem, uma inscrição no espaço urbano da narrativa segundo a qual a Revolução de 1917 tinha raízes profundas no movimento operário do fim do século XIX, e que Lenine havia estado presente desde o princípio. 

Inauguração do monumento a V. I. Lenine na fábrica Nevsky em 1926.

Nas décadas seguintes, outros elementos patrimoniais se acumularam no local e nos arredores: nomes de ruas, placas comemorativas, um memorial em forma de estrela vermelha metálica que até hoje se encontra nos terrenos da antiga fábrica, com a inscrição em russo: “Em 1894, V. I. Lenine escreveu seu primeiro panfleto aos trabalhadores da antiga Fábrica Semiannikov.” Quadros pintados por artistas soviéticos, vistos nas ilustrações deste texto, como a obra de Anatoly Pavlovich Shepelyuk retratando operários destruindo o brasão de armas do portão da fábrica, circularam pelos museus e pelas publicações oficiais, fixando na imaginação coletiva uma imagem heroica do episódio.

Monumento comemorativo do primeiro panfleto de Lenine, 2026 (foto de Tobias Vilhena)

Essa construção memorial tem, evidentemente, suas tensões e seus limites. A historiografia soviética, ao elevar o motim e o panfleto à condição de mitos fundadores (quase uma carta de batismo revolucionária) de certo culto a Lenine, tendeu a apagar o protagonismo autónomo dos trabalhadores, que inicialmente se revoltaram de forma espontânea, violenta e não dirigida, antes que qualquer panfleto chegasse às suas mãos. A leitura que reduz o episódio a um prelúdio da genialidade organizativa de Lenine obscurece o facto de que foram os operários os primeiros a agir, movidos por necessidades concretas e imediatas.

Historiadores contemporâneos, distanciados do fervor apologético do período soviético, têm sido mais cautelosos. O episódio de Semiannikov, observam eles, insere-se num ciclo muito mais amplo de explosões operárias no fim do século XIX, a maioria das quais não teve qualquer relação direta com a ação de revolucionários marxistas. A importância histórica do panfleto de Lenine resulta menos de seu impacto imediato sobre os grevistas, que iniciaram sua luta sem aguardar instruções teóricas, e mais da elaboração posterior de uma memória revolucionária que situou o episódio como ponto inaugural da fusão entre movimento operário e ideologia socialista.

O legado vivo de uma manifestação esquecida

Hoje, décadas após o colapso da União Soviética, o complexo industrial da antiga Fábrica Semiannikov encontra-se protegido como bem do património cultural de São Petersburgo, reconhecido por decreto oficial como conjunto histórico-industrial de valor arquitetónico e urbanístico. O monumento a Lenine ainda se ergue diante do antigo estaleiro, embora num contexto político radicalmente diferente daquele em que foi concebido. A estrela vermelha com a inscrição sobre o primeiro panfleto ainda existe, enferrujada e pouco visitada, num terreno que a maioria dos petersburguenses de hoje provavelmente não saberia localizar. Na região da antiga fábrica, também o nome de Babushkin é relembrado através do nome de um parque e o nome de uma avenida, assim como através de uma placa de sinalização.

Entretanto, o que os acontecimentos de 1894 têm a dizer ao mundo contemporâneo, além de seu interesse estritamente histórico? Talvez, antes de tudo, uma lição sobre como as grandes transformações históricas raramente nascem de um único golpe de génio ou de uma única decisão heroica. Elas nascem, na maioria das vezes, da acumulação silenciosa de sofrimentos e indignações, do ponto em que a miséria quotidiana se converte em ação coletiva – mesmo que imperfeita, mesmo que violenta, mesmo que destinada ao fracasso imediato. O que distingue o motim de Semiannikov de centenas de outras revoltas que não deixaram traços não é que ela encontrou, naquele momento preciso, pessoas capazes de escutá-la, de entendê-la e de transformá-la em linguagem política.

Lenine, um jovem brilhante, ainda distante da figura monumental em que seria transformado, fez exatamente isso. Não criou a revolta. Não a liderou. Mesmo assim, soube ouvir o que ela dizia e soube traduzi-la para os trabalhadores numa forma que eles podiam reconhecer como sua. É uma capacidade rara em qualquer época: a de transformar a experiência vivida de pessoas comuns num argumento político capaz de mover a história.

A água gelada dos bombeiros czaristas secou há muito tempo. No entanto, a faísca que acendeu naquele dezembro de 1894, nas margens geladas do rio Neva, continua ardendo nas páginas da história de São Petersburgo, da Rússia e do mundo.

Monumento a Lenine em 2026 (Foto de Tobias Vilhena).

O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 1
Em 1894, em São Petersburgo, na Rússia, os trabalhadores da Fábrica Semiannikov, revoltaram-se contra o atraso sistemático no pagamento dos seus salários. A destruição do escritório e da entrada principal da fábrica…
categoria-história Greve Lenine São Petersburgo edicao-2026-07-23 (37)

O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 1

Em 1894, em São Petersburgo, na Rússia, os trabalhadores da Fábrica Semiannikov, revoltaram-se contra o atraso sistemático no pagamento dos seus salários. A destruição do escritório e da entrada principal da fábrica expôs não apenas a precariedade das condições de vida do proletariado russo, mas também a total ausência de canais institucionais capazes de mediar o conflito entre trabalhadores e patrões. Para conter a revolta, bombeiros a mando do czar apontaram as mangueiras aos operários amotinados. Delas jorrou não apenas água gelada, mas o combustível que ajudaria a incendiar uma das maiores revoluções da história. Essa foi também a primeira ocasião em que surgiu um jovem de 24 anos que viria a ser conhecido como Lenine. Ele redigiu, junto com o seu camarada revolucionário Ivan Babushkin, um panfleto manuscrito endereçado aos grevistas.

Em 23 de dezembro de 1894, em São Petersburgo, na Rússia, os trabalhadores da Fábrica Semiannikov, encravada na periferia industrial da capital imperial russa, deflagraram uma revolta de grandes proporções motivada por um pretexto aparentemente simples e rotineiro no contexto imperial: o atraso sistemático no pagamento de salários. A destruição do escritório administrativo e da entrada principal da fábrica expôs, de forma contundente, não apenas a precariedade das condições de vida do proletariado russo, mas também a total ausência de canais institucionais capazes de mediar o conflito entre trabalhadores e patrões. A reação imperial não tardou. Em pleno inverno russo, bombeiros a mando do czar apontaram suas mangueiras para operários amotinados e o que jorrou dali não foi apenas água gelada, mas o combustível que ajudaria a incendiar uma das maiores revoluções da história humana. 

“Novas fábricas surgiam às dezenas, absorvendo ondas de camponeses que, expulsos pela miséria rural, chegavam às cidades russas sem qualquer experiência urbano-industrial e sem os rudimentos de organização coletiva que a vida industrial exigiria deles”

 Foi precisamente nesse turbilhão que emergiu, pela primeira vez na cena política, a figura de Vladimir Ilitch Ulyanov, o futuro Lenine, então um jovem advogado, com apenas 24 anos, que redigiu, em colaboração com seu camarada revolucionário Ivan Babushkin, um panfleto manuscrito endereçado diretamente aos grevistas. Esse texto, produzido em apenas quatro cópias e lido às escondidas nas oficinas entre trabalhadores temerosos pela repressão, representaria, segundo a historiografia, o primeiro ensaio de Lenine no campo da agitação política dirigida às massas trabalhadoras, o ponto de partida de um processo que transformaria o mundo duas décadas depois. Bem, vejamos a seguir com detalhes como os factos se desenrolaram.

O caldeirão petersburguense

Para compreender o que aconteceu naquela tarde de dezembro de 1894, é preciso antes enxergar a cidade que a cercava. São Petersburgo era, naquele momento, um paradoxo arquitetónico e social: de um lado, palácios neoclássicos, avenidas monumentais e a pompa de uma corte imperial que se julgava eterna; de outro, bairros operários superlotados, fábricas que funcionavam dezasseis horas por dia e trabalhadores que viviam em condições de miséria extrema, sem qualquer proteção legal, sujeitos a descontos arbitrários nos salários, punições corporais e demissões imediatas por qualquer sinal de organização.

A Fábrica Semiannikov, conhecida formalmente como Fundição e Fábrica Mecânica Nevsky, consolidou-se como um robusto complexo metalúrgico e naval fundado por Piotr Semiannikov e Alexandre Poletika décadas antes, chegando a ser uma das maiores instalações industriais de São Petersburgo. Seus pátios barulhentos, cobertos de fuligem e vapor, abrigavam centenas de operários envolvidos na fabricação de máquinas, estruturas metálicas e embarcações para a Marinha Imperial. Era, assim, o coração pulsante da industrialização czarista: uma engrenagem poderosa e complexa que dependia inteiramente do suor e do esforço dos que nela trabalhavam.

*/Banner Maio*/

Esse silêncio, no entanto, havia muito estava prestes a romper-se. Desde o fim dos anos 1880, a Rússia vivia uma transformação industrial acelerada, financiada em grande parte por capital estrangeiro e pela política económica do ministro Serguei Witte, que buscava atrair capital estrangeiro para acelerar a industrialização da Rússia. Novas fábricas surgiam às dezenas, absorvendo ondas de camponeses que, expulsos pela miséria rural, chegavam às cidades russas sem qualquer experiência urbano-industrial e sem os rudimentos de organização coletiva que a vida industrial exigiria deles. O resultado era uma classe operária jovem, numerosa, fisicamente concentrada nos grandes estabelecimentos industriais e, como ficará evidente nos parágrafos a seguir, politicamente volátil.

Fábrica Semiannikov, 1910.
Fábrica Semiannikov, 1910.

 A centelha: o atraso nos salários

O estopim da greve de dezembro de 1894 foi, a princípio, de natureza puramente económica. A administração da Fábrica Semiannikov vinha atrasando sistematicamente o pagamento dos salários, prática que, embora ilegal mesmo pelos frágeis padrões da legislação imperial, era amplamente tolerada pelo aparelho estatal. Para os operários, que viviam sem qualquer reserva financeira e dependiam de cada rublo para alimentar suas famílias e se aquecer no inverno russo, o atraso não era uma inconveniência burocrática, era o caminho para a fome e para a hipotermia.

A situação se tornou insuportável nas vésperas do Natal, festa religiosa de enorme importância no calendário russo ortodoxo, quando os trabalhadores aguardavam o pagamento integral dos salários acumulados ao longo do ano. Ao perceberem que a administração não tinha intenção de cumprir o compromisso, a fúria contida explodiu em ação coletiva.

A revolta foi imediata. A entrada principal da fábrica foi destruída. O escritório administrativo, símbolo da autoridade patronal, foi invadido e demolido. Em meio à exaltação da massa, um grupo tentou incendiar o apartamento do gerente-geral. Não havia liderança propriamente organizada, não havia demandas formalmente articuladas, havia muito mais a raiva acumulada de trabalhadores que, por anos, tinham sido tratados como peças descartáveis de uma máquina que os consumia pouco a pouco.

A resposta czarista: cossacos e duche de água fria

A reação do Estado foi rápida, brutal e reveladora de algo mais profundo do que a simples repressão policial: ela mostrava a total incompatibilidade entre o regime czarista e qualquer noção de mediação social. Não havia inspetores do trabalho com autoridade real, não havia sindicatos legais, não havia instâncias de negociação. Havia apenas a polícia, os cossacos e, naquela ocasião particular, os bombeiros atirando água gelada contra os trabalhadores.

Chega a ser irónico que os bombeiros militares transformassem seus equipamentos de resgate em instrumentos de repressão, disparando jatos de água gelada contra os operários amotinados em pleno inverno petersburguense, com temperaturas que podiam chegar a vinte e cinco graus abaixo de zero. A cena era um símbolo perfeito da lógica czarista: em vez de negociar, atacar. Em vez de ouvir, congelar. A água fria como uma metáfora da violência czarista. O que as autoridades chamavam de "restabelecimento da ordem" era, na prática, a demonstração de que a única linguagem do Estado imperial era a coerção.

Entretanto, não funcionou. A repressão não sufocou o movimento. Ao contrário, ampliou-o. Durante a semana seguinte, operários das oficinas portuárias de São Petersburgo, envolvidos na construção do couraçado Petropavlovsk, também deflagraram outro motim e conseguiram obter concessões. O movimento repercutiu em outras unidades industriais como a Fábrica Thornton, o Novo Almirantado e diversas outras empresas. Assim, em um ciclo de agitação alimentado por palavras e ideias, passaram a circular novas formas de organização (clandestina, ou não) entre os trabalhadores.

(continua)


O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 2
Em 1894, em São Petersburgo, na Rússia, os trabalhadores da Fábrica Semiannikov, revoltaram-se contra o atraso sistemático no pagamento dos seus salários. A destruição do escritório e da entrada principal da fábrica…
Comunismo Lenine Platten categoria-história edicao-2026-05-14 (27)

Fritz Platten, o homem que salvou Lenine

Sem Fritz Platten (1883-1942), a história mundial teria seguido um curso diferente. Este comunista suíço é hoje principalmente recordado como o organizador do “vagão blindado” em que Lenine e os seus camaradas atravessaram a Alemanha, permitindo-lhes participar na Revolução Russa. É provável que Platten tenha, pouco depois, salvado Lenine de uma tentativa de assassinato. Tal como muitos outros comunistas, Platten foi assassinado pelo estalinismo.

Nascido numa família da classe trabalhadora, Platten tornou-se politicamente activo ainda jovem. Aprendiz na empresa industrial Escher Wyss & Cie, organizou a que se diz ter sido a primeira greve de aprendizes. No Clube dos Socialistas Internacionais de Zurique, Platten conheceu camaradas da Letónia. Quando a revolução eclodiu no império czarista, em 1905, eles pediram-lhe que passasse de contrabando pistolas e material de propaganda para Riga. Platten ficou em Riga e, em Maio de 1907, foi detido durante uma rusga policial. Acusado de filiação no Partido Social-Democrata, ilegal, impendeu sobre ele uma pena de prisão de entre oito e vinte anos de trabalhos forçados. Após oito meses na prisão, adoeceu gravemente e foi libertado sob fiança. A fiança foi paga por Lina Hait, filha de uma família abastada. Os dois casaram-se algum tempo depois. Platten acabou por conseguir fugir da Letónia com a ajuda de marinheiros que o esconderam num barco com destino a Hamburgo. Em 1908, Platten, “o único socialista suíço que participou na primeira Revolução Russa”, regressou à Suíça1.

Regressado à Suíça, Platten assumiu várias funções dirigentes no movimento socialista e operário. Em 1912, os operários convocaram uma greve geral de 24 horas em Zurique em resposta a uma tentativa de proibição de piquetes. Alguém que participou na greve descreveu Platten, mais tarde, como “o nosso general”, que se deslocava de piquete em piquete no único táxi que ainda operava. Platten desempenhou, ainda, papel significativo na greve geral nacional de Novembro de 1918. O Partido Social-Democrata suíço tinha decidido comemorar o primeiro aniversário da Revolução de Outubro com comícios públicos e um manifesto. O manifesto, que se diz ter sido redigido por Platten, exortava a classe operária suíça a ocupar o seu lugar na nova Internacional, vir em socorro da Revolução de Outubro em perigo e livrar-se do seu próprio jugo.

A declaração fez que o município de Zurique solicitasse ao Exército que estacionasse tropas na cidade. Vários trabalhadores foram baleados quando o Exército dispersou uma manifestação. Uma publicação soviética de 1978 descrevia efusivamente como se dizia que Platten, “o dirigente operário que toda a gente em Zurique conhecia”, caminhara na direcção dos soldados, “desarmado, com a cabeça orgulhosamente erguida, enfrentando corajosamente o perigo” para convencê-los a cessar fogo. Ao fim de cinco dias, a greve geral foi suspensa. No I Congresso da Internacional Comunista, Platten atribuiu o fracasso do movimento à atitude vacilante da direcção da greve e à sua relutância em apelar à constituição da milícia operária. Platten foi condenado a oito meses de prisão pelo papel que desempenhara na greve. O último grande contributo de Platten para o movimento operário suíço foi participar na fundação do Partido Comunista Suíço.

Encontrando-se na Rússia na altura do julgamento, Platten apenas cumpriu a sua pena de prisão em 1920. Ao que parece, Lenine tentou ajudar Platten, pedindo a A. M. Lejava, o comissário do povo para o Comércio Externo, que o nomeasse representante comercial soviético, assim lhe concedendo imunidade, mas não foi bem-sucedido. Platten conhecia Lenine desde 1915 e das conferências de Zimmerwald e Kienthal. Embora não participassem oficialmente na reunião de Zimmerwald, os social-democratas suíços permitiram que membros seus participassem a título pessoal. Platten participou, assim, na conferência de Kienthal de 1916 como representante do partido suíço. Em ambos os casos, apoiou a esquerda revolucionária.

Platten puxou instintivamente a cabeça de Lenine para baixo, tendo uma bala roçado a sua mão, que estava nesse momento pousada na cabeça de Lenine.

Após a Revolução de Fevereiro, os exilados do Império Russo na Suíça organizaram o Comité Central para o Retorno dos Refugiados Políticos da Rússia na Suíça. Este comité representava 560 exilados de mais de 10 organizações diferentes, desde anarquistas ao grupo Nache Slovo, de Trotsky, passando por mencheviques, bolcheviques e o Poale Zion*. O Comité pediu a outro socialista suíço, Robert Grimm, que os ajudasse a organizar o retorno. Grimm, que era simpatizante da ala esquerda dos mencheviques, tentou obter autorização legal do Governo Provisório para o retorno dos exilados. Com o passar do tempo, Lenine e outros radicais começaram a ficar impacientes e a suspeitar que Grimm e os mencheviques estavam a atrasar deliberadamente o regresso. Os radicais pediram por isso a Platten que os ajudasse a organizar a travessia da Alemanha a “título pessoal”. Com a ajuda dos contactos de Karl Radek, que foi na viagem, ficou acordado com as autoridades alemãs que os exilados seriam autorizados a passar sem lhes serem pedidos os nomes e que “os que fizessem a travessia gozariam da protecção de extra-territorialidade, ninguém tendo o direito de entabular qualquer tipo de negociação com eles durante a viagem”2. Platten viajou com os exilados para garantir pessoalmente que estes cumpriam as condições impostas.

Após esta viagem, Platten regressaria várias vezes à Rússia. Em 1918, Platten e Lenine assistiram a um desfile do Exército Vermelho em Petrogrado. O carro em que ambos seguiam depois do desfile foi alvejado, numa tentativa de assassinato. O relatório da investigação refere que “Platten puxou instintivamente a cabeça de Lenine para baixo, tendo uma bala roçado a sua mão, que estava nesse momento pousada na cabeça de Lenine”.

Em 1923, Platten começou a trabalhar para a organização de ajuda humanitária de Willi Münzenberg, a Internationale Arbeiterhilfe (IAH, Socorro Operário Internacional). A IAH apoiou, designadamente, a modernização da agricultura soviética, tendo-se Platten tornado presidente de uma cooperativa agrícola em Nova Lava, composta por comunistas suíços que se tinham mudado para a União Soviética. Custou, no entanto, à cooperativa, destinada a demonstrar o potencial das técnicas modernas, mostrar-se produtiva nas condições adversas da região do Volga. No ano seguinte, o relato de Platten sobre a famosa viagem de comboio foi publicado na editora de Münzenberg, Neuer Deutscher Verlag, refutando as acusações de que Lenine e os outros bolcheviques tinham agido como “agentes” da Alemanha.

*/Banner Maio*/

No início dos anos 30, Platten viveu em Moscovo, onde trabalhou como tradutor, professor de línguas e investigador especializado do Instituto Agrário. Platten regressou brevemente à Suíça em 1931, naquela que viria a ser a sua última visita. Fez campanha pelos comunistas suíços, enaltecendo as alegadas conquistas da União Soviética em matéria de condições de vida, cuidados de saúde e educação. Era nessa altura sua companheira a comunista suíça Berthe Zimmermann (1902–1937), que trabalhava em Moscovo para o Departamento de Ligação Internacional da Internacional Comunista. Durante o terror estalinista, Zimmermann foi acusada de espionagem e morta. Platten recusou-se a denunciar a esposa e foi ele próprio detido, em Março de 1938. Foi condenado a quatro anos de trabalhos forçados.

Não é claro o pretexto exacto para a sua detenção. Um antigo aluno de Platten no Instituto de Línguas Estrangeiras escreveu mais tarde que o director do Instituto anunciou que Platten fora “desmascarado” como espião da Gestapo. Segundo outro relato, a acusação de espionagem foi afastada, tendo Platten sido condenado por “posse não autorizada de arma de fogo”: uma pistola do tempo da guerra civil que ele guardava como lembrança. Baseando-se no relato de outro prisioneiro, Roy Medvedev escreveu, em Let History Judge, que, de facto, Platten fora inicialmente acusado de ter sido espião alemão, e logo desde 1917. “Apesar da brutal tortura, ele recusou-se a assinar o depoimento, porque tal lançaria uma sombra sobre Lenine. Ele e o investigador chegaram ao seguinte acordo: ele confessaria ter feito espionagem para um país, mas não a Alemanha — os Estados Unidos ou a Argentina, a minha fonte não se recorda exactamente de qual”3.

Como estrangeiro e alguém com papel dirigente no movimento pré-revolucionário, Platten pertencia a diferentes grupos atingidos pelo terror estalinista com especial dureza. Independentemente disso, o seu destino estaria provavelmente selado porque, como presidente do Clube dos Comunistas Alemães de Moscovo, em 1928 Platten tinha manifestado apoio à Oposição de Esquerda, antes de o obrigarem a renunciar ao cargo.

Platten morreu em 22 de Abril de 1942 num campo de prisioneiros estalinista, em Nyandoma, no Noroeste da Rússia. A causa oficial do óbito foi “insuficiência cardíaca”, uma desculpa frequentemente usada. Anos mais tarde, disseram ao filho que o homem que tinha salvado a vida de Lenine, Fritz Platten, tinha sido fuzilado. Platten foi reabilitado em 1956, tendo uma rua de Nyandoma recebido o seu nome. A placa comemorativa descrevia-o como “amigo e companheiro de luta de Lenine”, mas sem mencionar como morrera.


Tradução: Adriano Zilhão


(*)NT: Grupo socialista sionista formado no império czarista depois de o Bund, principal organização operária judaica, ter rompido com o sionismo.


1 J.F. Anders, “Zur Biographie von Fritz Platten”, p. 135 em: Fritz Platten, Die Reise Lenins durch Deutschland im plombierten Wagen, Frankfurt am Main: ISP-Verlag, 1985. A narrativa que se segue baseia-se principalmente no esboço biográfico de Anders.
2 Karl Radek, “Through Germany in the Sealed Coach” (1924), online: marxists.org/archive/radek/1924/xx/train.htm
3 Roy Medvedev, Let History Judge. The Origins and Consequences of Stalinism, Oxford: Oxford University Press, 1989, p. 514.

O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 2
O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 1
Fritz Platten, o homem que salvou Lenine
O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 2
categoria-história Greve Lenine São Petersburgo edicao-2026-07-30 (38)

O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 2

Em 1894, em São Petersburgo, na Rússia, os trabalhadores da Fábrica Semiannikov, revoltaram-se contra o atraso sistemático no pagamento dos seus salários. A destruição do escritório e da entrada principal da fábrica...

Tobias Vilhena
O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 1
categoria-história Greve Lenine São Petersburgo edicao-2026-07-23 (37)

O motim na Fábrica Semiannikov e os primórdios da organização operária revolucionária na Rússia. Parte 1

Em 1894, em São Petersburgo, na Rússia, os trabalhadores da Fábrica Semiannikov, revoltaram-se contra o atraso sistemático no pagamento dos seus salários. A destruição do escritório e da entrada principal da fábrica...

Tobias Vilhena
Fritz Platten, o homem que salvou Lenine
Comunismo Lenine Platten categoria-história edicao-2026-05-14 (27)

Fritz Platten, o homem que salvou Lenine

Sem Fritz Platten (1883-1942), a história mundial teria seguido um curso diferente. Este comunista suíço é hoje principalmente recordado como o organizador do “vagão blindado” em que Lenine e os seus camaradas atravessaram a Alemanha, permitindo-lhes participar na Revolução Russa./en

Alex de Jong

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.