Vinho

Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha
Chá Pobreza Vinho categoria-o cozinheiro vermelho edicao-2026-05-28 (29)

Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha

A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibili

Sofia Garrido
Vinho de talha, património milenar
categoria-património Alentejo Vinho edicao-2026-01-08 (10)

Vinho de talha, património milenar

Com este texto de Eduardo M. Raposo, o Maio inaugura uma secção sobre Património.

Eduardo M. Raposo
Chá Pobreza Vinho categoria-o cozinheiro vermelho edicao-2026-05-28 (29)

Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha

Receita: Sopas de cavalo cansado com aveia e pera muito bêbeda

A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibilidade de substituir os cavalos cansados por animais frescos, era-lhes dada uma mistura energética de pão embebido em vinho e açúcar.

A história do consumo das sopas de cavalo cansado em Portugal é mais complexa do que a caricatura a que frequentemente são reduzidas. Se, por um lado, tentam evocar um nostálgico universo rural de tradição, resistência e identidade popular, são sobretudo símbolo de pobreza extrema, de subalimentação e de práticas alimentares de recurso numa cultura nacionalista da alegre e modesta casinha, onde tudo o resto falha.

A origem da designação parece remontar ao século XIX, numa época anterior aos caminhos de ferro, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Ao longo do percurso, existiam pousadas onde viajantes e animais recuperavam forças. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibilidade de substituir os cavalos cansados por animais frescos, era-lhes dada uma mistura energética de pão embebido em vinho e açúcar. Dessa prática teria surgido a expressão “sopas de cavalo cansado”.

Embora não existam fontes históricas definitivas que comprovem esta origem, a mesma interpretação aparece também na tradição galega, onde existem designações semelhantes, como sopas de cabalo cansado, sopas de burro cansado, sopas borrachas ou simplesmente sopas de viño. Em Portugal, além da expressão mais conhecida, registam-se igualmente variantes como “sopas de burro cansado” ou “sopas de vinho”, sobretudo em Trás-os-Montes e no Alto Douro.

Com o tempo, aquilo que terá começado como um alimento de recuperação para animais, transformou-se num pequeno-almoço comum entre as populações rurais pobres, sobretudo do Norte de Portugal. A dureza do trabalho agrícola, associada à escassez alimentar crónica, fazia do vinho não apenas uma bebida, mas também uma fonte de calorias e um elemento central da dieta quotidiana.

Existem outras sopas na cultura popular europeia que incluem vinho na sua composição, desde a sopa de cebola francesa, enriquecida com vinho branco ou xerez, as sopas alemãs e suíças de Riesling, passando pelas Weinsuppen do Norte de Itália, mas todas são bem mais sofisticadas e não refletem, como as nossas, uma utilização do vinho como ingrediente de reforço alimentar e energético.

A receita das sopas variava consoante a região e os recursos disponíveis. Na sua forma mais simples, consistia em pão duro demolhado em vinho tinto com açúcar. Noutras versões mais enriquecidas podiam juntar-se gema de ovo, mel, canela, broa de milho esfarelada ou vinho verde tinto. Servia-se numa malga ou tigela funda e era entendida como um alimento altamente energético, adequado ao desgaste físico do trabalho agrícola.

Estas práticas alimentares surgem num contexto histórico marcado por profundas carências económicas e sociais. Durante as décadas de 1930 e 1940 grande parte da população vivia em condições de miséria extrema, onde o salário do chamado “chefe de família” era insuficiente para assegurar sequer uma alimentação básica. Para sobreviver, era necessário o trabalho de todos os membros da família, incluindo crianças.

As sopas de cavalo cansado não eram, assim, apenas uma tradição gastronómica da ruralidade: eram uma resposta pragmática à fome, ao desgaste físico e à ausência de alternativas alimentares. O vinho, diluído no quotidiano rural, era encarado como um alimento fortalecedor, quase medicinal.

A vitivinicultura em Portugal, abençoado com o maior número de castas autóctones do mundo, umas notáveis 250, era um dos pilares da economia portuguesa. Nos anos 1940, a vinha ocupava 320 mil hectares repartidos por mais de 300 mil produtores, quase todos de pequena ou muito pequena dimensão, e era a que mobilizava mais mão de obra e durante mais tempo. O vinho representava uma das principais exportações nacionais, apenas ultrapassada pela da cortiça. Organismos como a Junta Nacional do Vinho, criada em 1937, ou o Grémio dos Armazenistas de Vinho controlavam preços, produção e propaganda, e promoviam intensamente a produção e o consumo de vinho como símbolo da identidade nacional, difundindo a ideia de que “beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses”.

O regime utilizava a iconografia rural e vínica como instrumento de propaganda nacionalista, apresentando um país harmonioso e tradicional que contrastava fortemente com a realidade de pobreza vivida por grande parte da população.

Em 1938, surgia um cartaz do Grémio dos Armazenistas de Vinho, conhecido como o Cartaz das Tabernas, que misturava com pouco rigor regras sanitárias e alegados argumentos científicos. O cartaz proclamava coisas extraordinárias como: “o alcoolismo é combatido pelo consumo de vinho”, frase atribuída a um misterioso Dr. Bertillon. Citava ainda, supostamente, Louis Pasteur com “o vinho é a mais sã e higiénica das bebidas”, demonizando as bebidas destiladas estrangeiras, onde se inclui a cerveja, essas sim, fontes de decadência social e moral. A propaganda chegava ao ponto de declarar que “um litro de vinho de 10º corresponde, como alimento, a 90 cl de leite, 370 g de pão, 585 g de carne ou cinco ovos”.

Contudo, a relação social com o álcool transformou-se profundamente ao longo do século XX e início do século XXI. Se durante décadas o consumo de vinho foi associado à força física, ao convívio, à celebração e até à saúde, hoje cresce uma visão muito mais crítica sobre o álcool e os seus impactos sociais e sanitários.

Depois do aumento do consumo durante o confinamento, houve um declínio geral no hábito de beber: as pessoas mais velhas continuam a ser as que mais bebem, enquanto os menos propensos ao consumo têm entre 16 e 24 anos, sendo que 26% dessa faixa etária é totalmente abstémia. São muitos jovens sóbrios. A cultura da grande bebedeira como evento olímpico regular que marcou os anos 1980 e 1990 perde prestígio social e o álcool deixa de ser um ritual obrigatório de integração juvenil e passa, para muitos, a representar algo antiquado, dispendioso e pouco desejável. Surgem agora as raves sem álcool, em cafés e padarias, apenas movidas a boas vibrações e o kombucha. Quantos Salazares seriam hoje precisos para devolver a alma genuinamente boémia ao dancefloor?

As razões para esta mudança são várias. Sair à noite tornou-se muito mais caro, mas sobretudo há alterações culturais profundas: maior preocupação com a saúde mental e física, novas formas de socialização, transformação das relações e menor pressão social para beber. Paralelamente, muitos espaços tradicionais de convívio noturno enfrentam dificuldades económicas e muitos encerram, pressionados pela gentrificação urbana, pelo aumento dos custos operacionais, mas, em grande parte, pela diminuição do consumo de álcool.

Sopas de cavalo cansado com aveia e pera muito bêbeda

Ingredientes:

  • 1 pera bem firme
  • 2 copos generosos de vinho tinto
  • 1 cálice de vinho do porto
  • 1 cálice de aguardente velha
  • 3 colheres de sopa de açúcar
  • 3 colheres de sopa de flocos de aveia finos
  • 1 estrela de anis
  • 2 cravinhos
  • 1 pau de canela
  • Raspas de chocolate negro

Descasque a pera mantendo-a inteira e leve a lume moderado com todos os outros ingredientes, exceto a aveia e o chocolate. Deixe cozer a pera cerca de 10 minutos, retire-a e reserve.

Acrescente os flocos de aveia e deixe que cozinhem enquanto o molho reduz, mexendo sempre.

Sirva esta mistura numa taça, coloque por cima a pera e finalize com as raspas de chocolate

categoria-património Alentejo Vinho edicao-2026-01-08 (10)

Vinho de talha, património milenar

(…) Toda a perspectiva progressista é compatível com aspectos conservadores da cultura que se pretende conservar. (…)
José Afonso

Pretendemos, através de algumas viagens ao Património, destacar aspectos patrimoniais especialmente no Sul mediterrânico e nomeadamente na região transtagana, traços identitários que possibilitam a autoestima das gentes e a coesão destas sociedades, em acelerado processo de desertificação. Estes territórios, que guardam a essência peculiar das terras e das gentes face à imposição imperialista da mercantilização anulando os valores identitários e impondo, por vezes através da turistificação, a mediania dos aspectos mais perversos da globalização, onde o entretenimento substitui a cultura. Este será o nosso modesto contributo para valorizar os nossos patrimónios, na defesa da liberdade e no aprofundamento da democracia – a forma mais eficaz de a defender.

Viagem às Talhas

A primeira viagem fazemo-la às Talhas, em busca do vinho de talha. Partimos de Almada, depois de um almoço apressado, pois era necessário aproveitar a tarde, e neste sábado invernoso escassas horas de sol restavam. O objetivo era Vila Alva, Cuba, e desta vez fizemos o percurso por Ferreira, onde nos esperava a Céu, que nos seguiu no seu velho jipe. À entrada de Peroguarda, recordámos Michel Giacometti, que escolheu a sua última morada no pequeno cemitério caiado de branco, onde há mais de uma década depositámos uma papoila na campa rasa – símbolo frágil e perene deste Alentejo milenar multicultural, deste fraterno corso. Depois da passarmos na Cuba (Cuba no Alentejo designa-se por na ou à Cuba) chegámos finalmente a Vila Alva, que divide com Vila de Frades a centralidade de capital do vinho de talha.

Ainda que o vinho no Alentejo remonte ao século VI a.C., foram os romanos que, no que concerne ao vinho, deixaram mais marcas na região.

Logo à chegada verificámos que a Adega do Cerejo estava encerrada. Depois de passarmos pelo lavadouro público, entrámos na Adega do Manuel Fernando, onde fomos recebidos pelo seu filho, o senhor José Francisco. Os comensais eram raros e sentámo-nos numa mesa junto à lareira. Seguindo o conselho do amigo José Roque, fomos preparados com uns petiscos e assámos logo uma linguiça com que nos “aconchegámos” numa degustação onde juntámos uns queijinhos de cabra, torresmos, com o imprescindível “panito” e umas alcagoitas, enquanto nos deliciávamos com um delicioso branco de talha – excepto a Zé Pinto, que provou um tinto, menos encorpado – e depois da segunda rodada fomos falar com o taberneiro.

José Francisco tem 64 anos e é filho de quem deu o nome à adega, Manuel Fernando, Recorda que tinha 16 anos, há cerca de meio século, portanto, quando o pai comprou a adega à família dos Abreu Abrantes, uma família rica da vila. Depois de um curto período, trabalhou como mecânico, mas aos 22 anos começou a dedicar-se a esta vida, como diz.

Manuel Fernando, que explora um café na vila, todos os anos deixa tudo e, entre Novembro e Março, passa os seus dias na adega que é conhecida pelo nome do seu pai.

“É uma forma de estar com os amigos”, diz, sorrindo, mas, agora com um ar mais sério, depois de referir que este período de quase meio ano é passado completamente dedicado ao vinho de talha, remata: “É mantermos a nossa cultura, a nossa identidade.”

Depois fala de outros tempos, há 60 ou 70 anos, em que todas as seis ou sete famílias ricas de Vila Alva produziam vinho de talha, tinham pelo menos quatro ou cinco talhas cada uma, sobretudo para autoconsumo. Termina referindo que actualmente existem dezenas de talhas que não estão a ser utilizadas, o que é corroborado por um seu amigo e cliente habitual, João Campeão, que se juntou à conversa.

O que é o vinho de talha

Ainda que o vinho no Alentejo remonte ao século VI a.C., foram os romanos que, no que concerne ao vinho, deixaram mais marcas na região, como refere o amigo Manuel Baiôa, nomeadamente “os dolias” (dolium ou talhas de grandes dimensões) para a fermentação e o armazenamento e as ânforas para o armazenamento e o transporte do vinho.”

O produtor e amigo João Canena, da Cuba, considerado o maior produtor de vinho de talha, é responsável por mais de 100 mil litros de vinho, onde a maior parte tem o certificado DOC Talha, e na actualidade reparte com a Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito a visibilidade na divulgação de vinho de talha.

Todavia, é Vila Alva que parece manter a maior autenticidade na tradição do vinho de talha.

Está em curso uma candidatura do vinho de talha a Património da Humanidade, liderada pelo Município de Vidigueira, mas com a participação de outros 18 municípios alentejanos.


O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

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A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibili

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Com este texto de Eduardo M. Raposo, o Maio inaugura uma secção sobre Património.

Eduardo M. Raposo

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