Hino do 1º de Maio A luta, a greve e a ação cultural
Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa
A partir de 1890, o 1º de Maio passa a ser um dia de greves no mundo inteiro em defesa da redução da jornada de trabalho. Em Itália, o advogado anarquista Pietro Gori, preocupado com desenvolver alguma tática para convencer as famílias trabalhadoras a aderirem à greve, resolve escrever uma peça de teatro, “O Primeiro de Maio”. Em fundo, era entoada a canção, com a melodia da ária “Va, pensiero”, da ópera Nabucco, de Verdi, que representava o cativeiro do povo hebreu na Babilónia. Esse canto de libertação dos oprimidos passou a ter o significado de um apelo ao levantamento da classe trabalhadora contra a exploração capitalista.
Em 1876 ocorreu, em Nova Iorque, a dissolução da Associação Internacional dos Trabalhadores. Dez anos depois, organizam-se no dia 1º de Maio manifestações nos Estados Unidos em defesa da redução da jornada de trabalho para 8 horas. Em Chicago, a explosão de uma bomba durante uma manifestação no dia 4 de maio de 1886 provocou a morte de um polícia e outros ferimentos que levaram a polícia a abrir fogo contra os manifestantes.
Os sindicalistas que organizaram a manifestação foram julgados como responsáveis pela violência, num julgamento questionado por falta de provas, levando à condenação de cinco deles à morte por enforcamento. Os “mártires de Chicaco” inspirariam campanhas de solidariedade no mundo inteiro. Em Paris, no processo de uma nova organização internacional dos trabalhadores, a Segunda Internacional, a data do 1º de Maio foi escolhida em 1889 como dia mundial de luta pela jornada de oito horas de trabalho.
A partir de 1890, o 1º de Maio passa a ser um dia de greves no mundo inteiro em defesa da redução da jornada de trabalho. Foram necessárias campanhas de propaganda em jornais, cartazes, realização de festas e eventos voltados para a consciencialização da necessidade de paralisação do trabalho. Na Itália, o advogado anarquista Pietro Gori estava preocupado com desenvolver alguma tática para convencer as famílias trabalhadoras a aderirem à greve. Resolve escrever uma peça de teatro, “O Primeiro de Maio”, que deveria ser encenada na noite da véspera da data, dia 30 de abril.
A peça concebida por Pietro Gori para ser encenada no palco não trazia referências sobre a luta dos trabalhadores em Chicago. Pelo contrário, consistia numa jovem camponesa dedicada a convencer os trabalhadores que encontrava a não trabalharem no 1º de Maio. Em fundo, era entoada a canção sobre a melodia da ária “Va, pensiero”, da ópera Nabucco, de Giuseppe Verdi, que representava o cativeiro do povo hebreu na Babilónia. Esse canto de libertação dos oprimidos, que fora interpretado no processo de unificação da Itália como canto dos Italianos contra o jugo do Império Austríaco, passava a ter o significado de um apelo ao levantamento da classe trabalhadora contra a exploração capitalista.
A peça O Primeiro de Maio correu a Europa, traduzida para vários idiomas. Na viragem do século XIX para o XX, Pietro Gori atuou pessoalmente como propagandista e organizador de sindicatos nos Estados Unidos e na Argentina, contexto em que ele estava praticamente exilado em função das perseguições políticas e ameaças de prisão que sofria em Itália.
A peça também foi traduzida para o português no Brasil no início do século XX. Era encenada anualmente no Salão Celso Garcia, espaço da Associação das Classes Laboriosas no bairro operário do Brás, em São Paulo. Elvira Boni, que foi organizadora sindical das costureiras e presidente de mesa no 3º Congresso Operário Brasileiro em 1920, lembrava ainda a letra do Hino do 1º de Maio aos 80 anos, relatando que a canção não era entoada apenas na peça de teatro, mas também nas manifestações de rua ocorridas naquela data.
Graças ao esforço de propaganda e organização de Pietro Gori e outros militantes sindicais de diversas orientações socialistas, o 1º de Maio acabou por consolidar-se com um dia de luto e luta. Luto pelos sindicalistas condenados à morte por defenderem os direitos da classe trabalhadora. Dia de luta mundial pela jornada de 8 horas de trabalho. E também dia de festa, de congregação das famílias trabalhadores, como nos piqueniques organizados em São Paulo pelo jornal A Plebe em 1917.
Com a implementação de leis de proteção dos trabalhadores e a regulamentação da jornada de trabalho a partir da União Soviética, muitos países, como o Brasil sob a ditadura de Getúlio Vargas, instituíram a jornada de 8 horas de trabalho. Também decretaram o 1º de Maio como “Dia do Trabalho”, buscando assim esvaziar o seu significado como marco da memória das lutas, dia de mobilização por direitos laborais e de festa em defesa da unidade de ação sindical.
Dedicamos aqui uma versão original do Hino do 1º de Maio em português, diferente daquela que circulava no Brasil no início do século. Procuramos uma versão que fosse fiel às imagens poéticas de Pietro Gori, mas relacionando com a história e as lutas que marcam a data. Um dos seus versos finais acabaria por tornar-se epígrafe de muitos textos no Brasil sobre a revolução socialista: “Dêem flores aos rebeldes fracassados” – embora a noção de fracasso esteja ausente do poema de Gori, que fala em caídos na luta.
Ao invés da valsa original de Giuseppe Verdi, buscamos aproveitar o compasso ternário para fazer uma adaptação em género blues, canção de libertação dos negros do Mississipi que migraram para Chicago na busca de liberdade e oportunidades e de trabalho musical profissional e do género blues eletrificado que ficaria conhecido como Rhythm’n Blues. Procuramos devolver à cidade de Chicago a canção inspirada nas lutas que nela se travaram.
Os desenhos feitos na animação que organizam o sentido das lutas das organizações internacionais, os eventos de Chicago e a atualidade da necessidade de mobilização constante da classe trabalhadora foram feitos em 2015, na campanha italiana “Uma outra Europa”, que apoiava o grego Tsipras para presidente da União Europeia. A campanha foi derrotada, assim como todas as estratégias calcadas na mera disputa eleitoral e que parecem esquecer a frase que serviu como lema da Primeira Internacional: “A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”, e não de partidos e governos que dizem representá-los mas parecem não ter como defendê-los.
Por isso tudo, o 1º de Maio não é apenas uma data, mas o espírito de quem acredita que após o inverno virá a primavera, que contra a frieza e o egoísmo triunfará a solidariedade e a construção coletiva no jardim humano em que brotarão os frutos da mobilização da classe trabalhadora. Esse é o sentido do Maio que apoiamos, onde germinam ideias para um mundo melhor.