Jornal Maio

CANÇÕES DE LUTA

À Greve! (em memória de Chicho Sánchez Ferlosio)

Uma greve, quando gera enfrentamentos, provoca incertezas e pressões familiares por aderir ou não ao movimento. Afinal, também a família deve arcar com as consequências, mas é também por melhores condições para a vida familiar que os trabalhadores lutam. Este é o sentido da canção de Ferlosio que aqui interpretamos. Em “A la huelga”, um jovem trabalhador justifica à sua mãe porque irá aderir à greve.

Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa

Portugal assistiu, em 3 de junho, a mais uma greve geral, a segunda em menos de meio ano. Contudo, não é fácil encontrar canções que falem de greves, da sua organização, do seu significado. A própria palavra que usamos em português é de origem francesa e remete para uma praça de Paris – Place de la Grève –, onde os trabalhadores grevistas se reuniam.

Não há semelhança ou equivalência sequer em outras línguas latinas: strike, em inglês, Streik em alemão, sciopero em italiano e huelga em castelhano. E uma das canções que faz referência à paralisação dos trabalhadores em protesto por melhores condições de vida e trabalho é internacionalmente famosa: “A la huelga”. Gravada clandestinamente durante o período da ditadura franquista na Espanha (1936-1976), foi publicada pela primeira vez em 1964 pelo grupo editor da revista Clarté da Suécia num disco intitulado tão somente Canciones de la Resistencia Española, sem referência ao autor e intérprete que cantava as canções acompanhado da sua viola. 

O chileno Rolando Alarcón gravaria a canção em 1968, mas ela não foi incluída na sua famosa antologia Canciones de la Guerra Civil Espanõla porque havia sido criada muito tempo depois do final da guerra civil. O seu autor era um certo José Antonio, nome dado pelo pai em homenagem ao líder fascista espanhol que o filho acabou repudiando. Conhecido como Chicho Sánchez Ferlosio, filiou-se inicialmente no Partido Comunista Espanhol, que passou a divulgar a canção de apelo à greve pela sua rádio clandestina La Pirenaica, situada na fronteira com a França.

Ferlosio romperia com o PCE após conhecer o socialismo albanês e se converteria ao anarquismo, gravando canções em homenagem ao herói anarquista espanhol Buenaventura Durruti e à Federação Anarquista Ibérica. Ficaria famoso com a canção que comparava a guerra civil a uma luta de galos – o “galo preto” fascista contra o “galo vermelho” comunista –, e essa metáfora inspirou a elaboração da imagem da capa do disco clandestino na Suécia.

Esta versão original que fizemos é uma homenagem à greve contra o pacote laboral, com o retrato de Ferlosio e imagens publicadas pelo jornal Maio. “A la huelga” é uma canção em que o jovem trabalhador justifica à sua mãe porque irá aderir à greve. A ruptura com a disciplina do trabalho sempre implicou possíveis represálias por parte dos patrões, como cortes de salário, despedimentos, violência policial, destruição dos sindicatos, prisões, banimentos do país ou até mesmo a morte dos organizadores do movimento, como lembramos nas celebrações do 1.º de Maio. 

Uma paralisação, quando gera enfrentamentos, provoca incertezas e pressões familiares por aderir ou não ao movimento. Afinal, também a família deve arcar com as consequências, mas é também por melhores condições para a vida familiar que os trabalhadores lutam. Este é o sentido da canção de Ferlosio e este é também o sentido da rejeição do Pacote Laboral, que só a organização dos trabalhadores pode impedir que se lhes imponha. 

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