Camões, nosso contemporâneo
Resgatar Camões do pedestal baço em que foi colocado e devolver aos leitores a capacidade de compreensão da sua humanidade, através da decifração do estilo engenhoso dos seus poemas é o grande propósito de Para ler Camões, de António Carlos Cortez.
Quando as controversas comemorações do Quinto Centenário do Nascimento de Camões se aproximam do fim e podemos já fazer um primeiro balanço das publicações que ficarão para o futuro dos estudos camonianos, há que olhar com atenção para a produção ensaística e literária do poeta, crítico e professor António Carlos Cortez que, quer na sua obra literária (prosa e poesia), quer em artigos, crónicas ou ensaios publicados em jornais ou em livros, não tem poupado esforços para trazer até nós e, bem entendido, até aos estudantes e professores, a obra de Luís de Camões, restaurada e limpa do mofo ou da invisibilidade a que o mau uso, o oportunista aproveitamento ou a astuta minimização tão frequentemente a têm condenado.
Muito trabalho tem ACC desenvolvido em torno da poesia camoniana, em conferências, congressos, cursos, mas também dando-lhe vida ficcional (conto “Camões, um Regresso”, in Cenas Portuguesas), revisitando ou glosando poemas (“Errar todo o discurso de teus anos” in À Flor da Pele, “Erros, Eros” in Condor), publicando ensaios sobre o ensino da poesia (“Camões no Ensino. Segundo Amor Tiverdes” in O Fim da Educação) e dedicando ao ensino da épica e da lírica dois livros incontornáveis: Uma Estória de Os Lusíadas (a sair brevemente) e Para Ler Camões (2025).
É no último, Para Ler Camões, que aqui nos focamos. António Carlos Cortez publicou este livro a pensar nos professores e nos alunos dos ensinos secundário e universitário e também nos muitos leitores interessados em ler o poeta quinhentista. Trata-se, pois, de uma obra com claros objectivos didácticos, cumpridos pela escolha de uma linguagem muito clara, sempre que possível, simples, sem ser simplista, e pela apresentação, utilíssima de uma reflexão sobre a poesia, aplicação prática de propostas de análise de 35 poemas e, finalmente, da leitura crítica de textos essenciais de alguns camonistas.
Deste modo, o livro organiza-se em três grandes secções que comportam diferentes partes, como a consulta do índice revela.
1. Contra o entorpecimento dos ecrãs, a língua subversiva da poesia
Apresentando-se como uma advertência ao leitor (estudantes, pais, professores) sobre “o que se vai ler”, a primeira secção é, afinal, uma demorada e muito clara reflexão do autor sobre o contexto educativo e civilizacional em que vivemos e que determina o estado crítico da escola e as dificuldades que os estudantes enfrentam face a textos complexos, dificuldades acrescidas quando se trata de textos poéticos complexos e não contemporâneos.
A constatação é sombria, como não pode deixar de sê-lo a consciência de estarmos a viver numa “era de vazio”, anunciada por autores como Lipovetski, já nos anos 80, e agudizada hoje pelo domínio neoliberal que rege a vida e as sociedades por interesses meramente economicistas, servindo-se de trabalhadores acríticos, produtivos e descartáveis, sem tempo nem capacidade para a reflexão, a reunião solidária, a vida verdadeira. São trabalhadores assim que a escola dos ecrãs prepara, humanos quase humanoides, treinados na rapidez comandada pelo algoritmo, controlados por grelhas e pela competição desenfreada, entorpecidos e estupidificados pela velocidade e a fosforescência dos ecrãs.
Neste contexto, ler Camões é não só inútil, como até pernicioso à lógica do rei produtividade cega. Ler Camões – ler poesia – requer tempo, aprendizagem aprofundada, atenção ao humano que se ergue pela voz do texto, aquisição demorada das ferramentas linguísticas e estilísticas que permitem avançar na compreensão do outro e de si mesmo. Por isso, o tempo que a leitura da poesia requer é, para a máquina financeira e burocrática que domina o poder, tempo perdido. E assim fomos caminhando para uma escola de analfabetos muito escolarizados a quem a educação, esta educação redutora dos ecrãs, é capaz de dotar de capacidades técnicas e tecnológicas notáveis, mas à custa do empobrecimento do espírito, do humanismo, do prazer da imaginação e da construção colectiva, da cultura que, como a língua, eleva a ser humano acima dos outros animais.
O empobrecimento e subalternização das humanidades – literatura, história, filosofia – e das artes é, segundo o ponto de vista crítico do autor, consequência do projecto social neoliberal e causa da ignorância que, em última instância, alimenta o populismo e mata a democracia.
É a essa luta contra este estado da educação em fim de estação que o autor tem dado voz, incessantemente, e é nela que a publicação deste livro se inscreve, defendendo que o olhar desencantado sobre a educação não pode significar desistência.
“É por estas e outras questões factuais que escrevo este livro no quadro dos quinhentos anos do nascimento de Camões. Por acreditar, enfim, que, pese embora as sucessivas guerras movidas contra a literatura, contra as humanidades e as artes, há no lugar mais fundo dos estudantes dos mais diversos graus de ensino, bem como numa larga maioria de docentes, um coração que pulsa de vida, uma imaginação que espera por ser agitada” (p. 31).
Na verdade, o primeiro capítulo, enunciador e anunciador dos “pontos cardeais para ler Camões”, vai para além de Camões, convida a uma profunda reflexão sobre a essência da poesia, “arte verbal” que fortalece o pensamento, apela a um imaginário potenciador do conhecimento de si mesmo e do outro, enriquece, poderosamente, a capacidade do uso da linguagem dotada de possibilidades livres e libertadoras. Nesse sentido, o autor chama a atenção para o carácter transgressor da poesia, esse modo único, estranho e alternativo de exprimir o pensamento, o valor explosivo da metáfora, a consciência da audição ou aquisição de uma voz humana singular e, por isso, aberta à interpretação atenta. Assim deve ser lido Camões nas escolas, liberto da poeira laudatória e devolvido à sua humanidade, orientando os estudantes num percurso leitor aberto ao desvendamento do mistério do seu discurso poético único e maravilhoso.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
“Daqui deriva outra finalidade deste trabalho: considerar que, sendo a poesia uma eternização do efémero, transferência do vivido para o pensado e do pensado para o revivido na escrita, é no acto de se ler bem a poesia que se pode ter na leitura do texto literário uma das mais revolucionárias armas contra o processo de destruição da sensibilidade. O livro é um corpo, um organismo vivo que todo o estudante pode e deve descobrir para, no fundo, alcançar o grande desígnio da educação, já inscrito em Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”, da Antiguidade” (p. 30).
2. Celebrar Camões: ler Camões, libertar Camões
A segunda secção deste livro ficará, em nossa opinião, registada para o futuro como um momento de assinalável importância nos estudos camonianos. O autor escolhe 30 sonetos, quatro redondilhas e duas canções e para cada poema propõe uma análise interpretativa que os estudantes, os professores e os leitores em geral muito ganharão em ler. É este o caminho para devolver Camões aos leitores? É este o caminho, sim, porque a selecção, longe de ser arbitrária, é perfeita na construção de um quadro mental e estético da poesia lírica de Camões e porque as propostas interpretativas são muito atenta e fundamentadamente apresentadas, optando o autor pelo uso de uma linguagem simples, dentro da inevitável complexidade, rigorosa e de agradável leitura. Caminhar na leitura de cada poema na companhia deste livro de António Carlos Cortez é uma experiência muito compensadora, porque, liberto o poema da ganga metaliterária, esquemática e biografista empobrecedora, é como se o lêssemos pela primeira vez, lendo com o ensaísta a possibilidade de sentidos a que as portas por ele abertas permitem aceder e iluminam.
Não se pense, no entanto, que ACC aligeira o tom e evita as dificuldades. Pelo contrário, aquilo que ele propõe é uma análise interpretativa profunda, e fá-lo convocando, com natural pertinência e eficiência, os mais diversos instrumentos necessários à decifração do texto, naquilo que o poeta diz e como o diz. Por isso, cada poema é um universo de sentido que é lido na sua singularidade, recorrendo o autor a referentes dos estudos literários e da estilística, da história, da filosofia, da história da arte, das religiões, da estética, enfim, a todas as disciplinas e conhecimento que faça sentido no desvendamento do sentido e no modo do poema.
O que este livro nos ensina a reconhecer é um Camões renovado, diríamos, um Camões nosso contemporâneo.
Independentemente da singularidade de cada poema, o autor estabelece uma riquíssima rede de relações intertextuais, quer relacionando poemas do poeta em estudo, quer estabelecendo pontes com poetas anteriores e posteriores a Camões. No primeiro caso, registamos, como exemplo, a sugestão da “obrigatoriedade” de leitura do tríptico da fonte, completo, ou seja, a leitura das redondilhas “Descalça vai para a fonte”, “Descalça vai pela neve” e “Na fonte está Lianor” e não o isolamento da secção mais conhecida, que é a primeira. No segundo caso, um exemplo muito curioso, para além das relações estabelecidas entre poemas de Camões e diversos poetas portugueses contemporâneos (Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira, Ruy Belo, Gastão Cruz…), é o caso da intertextualidade despertada pelo soneto “Que me quereis perpétuas saudades” com dois poetas de línguas diferentes: Aragon (“Que cherchez-vous de moi perpétuels orages”) e Carlos de Oliveira (“Que me quereis perpétuas miragens”). A este propósito, escreve ACC:
“Tal facto prova algo que não devemos perder de vista: ler um clássico é sempre um gesto que nos levará a ler contemporâneos. O movimento contrário é igualmente verdade. Como defendeu T. S. Eliot, um poeta de agora, se for dotado de uma individualidade própria, obrigar-nos-á a ler os poetas de ontem” (p. 107).
Do mesmo modo procede o ensaísta que homenageia os camonistas que o precederam, alguns seus mestres, convocando-os, ao longo do ensaio e sempre que a análise de um poema bebe em fontes alheias. Assim, nesta segunda secção, encontramos referências ou citações de outros que se confrontaram com a lírica camoniana, como Maria Vitalina Leal de Matos, Jacinto do Prado Coelho, Rita Marnoto, António José Saraiva, Maria de Lurdes Saraiva, Jorge de Sena, António Sérgio, Hernâni Cidade, Vítor Manuel Aguiar e Silva, Fiama Hasse Pais Brandão. As suas opções interpretativas são sempre identificadas, num gesto de seriedade intelectual que não podemos deixar de assinalar.
3. Ensaios iluminadores da leitura do texto literário
Se, já nos comentários dos poemas, ACC aponta os nomes e as opções interpretativas de que se serve ou que rejeita, na terceira secção deste livro, intitulada “Leituras de Camões”, o autor convida à reflexão sobre as razões da dificuldade de navegar na ensaística camoniana, autêntico labirinto, muitas vezes tecido de contraditórios caminhos. Clarificando, propõe um olhar focado em quatro camonistas cuja obra, diversa e fundamental, ilustra a riqueza e diversidade da abordagem da obra poética de Camões: Aguiar e Silva, Helder Macedo, Yvette Centeno e Fiama Hasse Pais Brandão. Das proposta filológica e hermenêutica de Aguiar e Silva às inscritas nos estudos simbólicos de Helder Mcedo, Yvette Centeno e Fiama (estes três, não por acaso, poetas), não existe contradição, antes linhas diversas que se enriquecem e contribuem para a consciência da riqueza que a poesia de Camões encerra.
A fechar o livro, dois notáveis ensaístas são trazidos para a reflexão em torno do ensino da literatura: Óscar Lopes e Manuel Gusmão, o primeiro referenciado na sua persistente publicação ensaística em busca do sentido da obra inscrita no contexto – histórico, sociológico, cultural – e da instauração de um humanismo de rosto social, o segundo, analisando e elaborando da sua obra crítica de abertura ao mundo, interpretado pela especificidade da linguagem literária, expressão múltipla e excepcional do humano, e considerando a sua obra “Uma Razão Dialógica” de imprescindível importância pedagógica e crítica, na defesa da literatura como diálogo entre humanos, cooperativo e transformador.
Enfim, o modo como este livro fornece aos leitores instrumentos eficazes para a compreensão aprofundada da obra do poeta, aproximando o seu rosto humano da nossa humanidade contemporânea e, com ele, do mundo em que viveu, palco de contradições e mudanças como o nosso mundo, fazem dele um útil instrumento de trabalho. O que este livro nos ensina a reconhecer é um Camões renovado, diríamos, um Camões nosso contemporâneo.
António Carlos Cortez, Para ler Camões,
Ed. Página a Página (2025)