Poesia

A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo António Carlos Cortez
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Poesia Humanismo IA Tecnofascismo

A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo

Quem são esses que aí vêm? Os nossos filhos e os nossos netos, isto é, aqueles a quem a educação mecânica e instrumental roubou a própria possibilidade de um quotidiano em paz e a construção de uma personalidade criativa, questionante, aberta ao outro.

António Carlos Cortez
Camões, nosso contemporâneo Elisa Costa Pinto
categoria-opinião Camões Ensaio Poesia edicao-2026-06-18 (32)

Camões, nosso contemporâneo

Resgatar Camões do pedestal baço em que foi colocado e devolver aos leitores a capacidade de compreensão da sua humanidade, através da decifração do estilo engenhoso dos seus poemas é o grande propósito de Para ler Camões, de António Carlos Cortez.

Elisa Costa Pinto
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Poesia Humanismo IA Tecnofascismo

A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo

COLUNA VERTEBRAL

Poesia e humanismo são dois conceitos afins. Se a poesia tem na sua origem o termo grego poiein (construir, fazer, moldar) e, no latim, já Quintiliano se referia a “fingere poemata”, o que nasce da faculdade da imaginação, o que resulta da capacidade de ficcionar mundos possíveis (faço uso de uma expressão cara a Manuel Gusmão em Tatuagem & Palimpsesto, 2010), o termo humanismo, de matriz iluminista, reenviando aos “studia humanitatis” dos séculos XV e XVI no contexto do Renascimento e do interesse pelas disciplinas de Retórica, Gramática e Literatura (grega e latina) deve ter em conta o que Friedrich Niethammer, em 1808, concebeu. Humanismo como criação de um currículo escolar assente no estudo dos clássicos. Tal currículo, nesse século maior da filologia, teria como horizonte o fortalecimento da autonomia espiritual do homem. Filosoficamente, o humanismo veio a significar a valorização do ser humano, da razão e da cultura contra o obscurantismo e o pensamento único. Estamos hoje, no ensino em Portugal, mas também no Ocidente, muito longe desse humanismo. 

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Com efeito, se tivermos de pensar o humanismo hoje, temos de recuperar esse outro conceito igualmente esquecido: poesia. Na luta incessante do “Homo technologicus” contra o pensamento livre, que lugar para o homem humano, humanista? Defrontam-se hoje, com uma força nova, alimentada pelas redes sociais e o tecnofascismo de Silicon Valley, suportadas essas forças pelo complexo industrial-militar que Eisenhower disse ser, avisando Kennedy, o poder secreto que ameaçava a democracia, esses dois tipos de homem. Confronto fratricida entre dois tipos de homem: aquele que persegue a libertação das malhas do obscurantismo e aquele outro, sedento de novas formas de paternalismo. Para este último, imaginar mundos possíveis é o que mais perigoso se lhe afigura. No fundo, o “Homo laborans” é copiado do “Homo technologicus” e estes são filhos do homem-massa teorizado por Ortega y Gasset num livro a reler: A Rebelião das Massas. É no mundo hipócrita do moralismo que conduz à guerra que o humanismo se deve construir. Mas como? Não vejo outra via: na e através de uma educação ancorada no poder do livro, dos clássicos, e, nomeadamente, da poesia. A palavra poética impõe-se pela sua chama imaginante. Transporta consigo a gramática da fantasia, o mundo de símbolos que hoje o homem maquinal e a caminho da autodestruição desconhece. 

Não haja dúvidas: não se trata apenas de um novo paradigma educativo o que muitos já defendem. A questão é a de um humanismo humano. O complexo de inferioridade das humanidades face às ciências duras, esse foi um erro de perspectiva criado nas universidades e hoje é por demais evidente que a própria ideia de universidade se corrompeu à custa de um modelo educativo centrado no equívoco de pôr os saberes universais ao serviço da ideia de mercado. Uma visão mecânica e lucrativa, eis o erro crasso do Ocidente que, espezinhando a linhagem do humanismo, escolheu a tecnociência. E se é certo que esse modelo nos deu a civilização mais tecnologicamente avançada de sempre, esta nossa civilização é a mais bestial de quantas houve. A prova disso mesmo está no egoísmo e no império do eu que caracteriza as relações sociais. O eu não pode ser desmentido. O eu contemporâneo é, portanto, o eu absoluto, pretensiosamente julgando que ele e só ele tem a verdade. Como agora se diz: a sua verdade. Ora, é justamente contra a verdade absoluta do “Eu fascista” e do “Eu totalitário” que a poesia funciona como surpresa e revelação. Revolução mental, se quisermos aceitar que, contra a lógica fechada, contra a letargia do sujeito anémico, a poesia é ainda a Esfinge que questiona o Homem, um poema instaura um quarto princípio que escapa aos três postulados da lógica aristotélica. É o princípio poético, o de Lupasco, assente na hipótese de 2+2 não serem 4, mas 22. É o princípio de Éluard: “A Terra é azul como uma laranja.” A poesia, como texto detentor de um fazer que produz nova uma realidade, a que nasce do poder da imaginação e de um saber técnico inscrito nos milhares de anos da sua tradição, é “um dedo apontado ao coração do homem” (Luiza Neto Jorge), um testemunho constante, defendeu Eugénio de Andrade, de pela linguagem e na linguagem, revelar o rosto integral do homem. Um poema, na verdade, abre o mundo fechado do eu às evidências do seu mundo, expondo a hipocrisia, a cobardia, os acordos e as mentiras que destroem o próprio homem. O humanismo de que a humanidade está sequiosa é o que nasce dos escombros do apocalipse da técnica, como prova o projecto europeu pós II Guerra Mundial. Imaginar uma Europa sem guerra, não foi, em si mesmo, um projecto político, mas um projecto poético, porque improvável. E no entanto...

Aquele que, em 2050, souber que a Terra é azul como uma laranja, esse será o último homem com poesia, humanismo e memória dentro de si.

Humanismo e poesia, desafio a tudo quanto seja mecanicismo, tecnicismo, pensamento-gestor, o que vivemos hoje é a ameaça de duas realidades terríveis: depois da automação do trabalho e da criação de um salário universal (decidido por quem?), depois da alienação estupidificante de gerações e gerações reféns das redes sociais, com que grau de consciência seremos ainda humanos? Com tempo para a morte das faculdades do imaginar e do fazer com as mãos, sem sabermos projectar um futuro, o homem que nasceu com a IA produzirá um futuro sem futuro. Uma espécie de presente contínuo sem problematização. Aquele que, em 2050, souber que a Terra é azul como uma laranja, esse será o último homem com poesia, humanismo e memória dentro de si. 

 “Não posso adiar o amor para outro século”, escreveu o grande poeta António Ramos Rosa. Quem compreenderá hoje a força destas palavras? Se a poesia foi feita para comer, como escreveu Natália Correia, mas já ninguém a semeia nas escolas e universidades do pregresso técnico, de que se irão alimentar os sub-alimentados do sonho? Quem são esses que aí vêm? Os nossos filhos e os nossos netos, isto é, aqueles a quem a educação mecânica e instrumental roubou a própria possibilidade de um quotidiano em paz e a construção de uma personalidade criativa, questionante, aberta ao outro. Não, a IA não promete o novo, o diferente, a pluralidade, a diferença. Ao contrário do humanismo inscrito na própria poesia, a IA reduz a realidade a uma superfície aplainada, igual em toda a sua extensão. Por isso, nunca como agora o tecnofascismo tem de ser enfrentado: não se trata de fazer participar a poesia no grande mercado das trocas que é outra forma de ditadura do lucro e do sucesso. Trata-se de a levar àquele coração que pulsa ainda nas crianças cujos pais recusam ceder às tecnologias. É em nome delas que o humanismo terá de renascer. Nunca o homem-massa saberá entender por que razão “a Terra é azul como uma laranja”. Nem o ditador aceita que Lorca o desafie. Mas que nos resta, senão combater com as armas de uma imaginação e de um humanismo vivos?

categoria-opinião Camões Ensaio Poesia edicao-2026-06-18 (32)

Camões, nosso contemporâneo

Quando as controversas comemorações do Quinto Centenário do Nascimento de Camões se aproximam do fim e podemos já fazer um primeiro balanço das publicações que ficarão para o futuro dos estudos camonianos, há que olhar com atenção para a produção ensaística e literária do poeta, crítico e professor António Carlos Cortez que, quer na sua obra literária (prosa e poesia), quer em artigos, crónicas ou ensaios publicados em jornais ou em livros, não tem poupado esforços para trazer até nós e, bem entendido, até aos estudantes e professores, a obra de Luís de Camões, restaurada e limpa do mofo ou da invisibilidade a que o mau uso, o oportunista aproveitamento ou a astuta minimização tão frequentemente a têm condenado. 

Muito trabalho tem ACC desenvolvido em torno da poesia camoniana, em conferências, congressos, cursos, mas também dando-lhe vida ficcional (conto “Camões, um Regresso”, in Cenas Portuguesas), revisitando ou glosando poemas (“Errar todo o discurso de teus anos” in À Flor da Pele, “Erros, Eros” in Condor), publicando ensaios sobre o ensino da poesia (“Camões no Ensino. Segundo Amor Tiverdes” in O Fim da Educação) e dedicando ao ensino da épica e da lírica dois livros incontornáveis: Uma Estória de Os Lusíadas (a sair brevemente) e Para Ler Camões (2025). 

É no último, Para Ler Camões, que aqui nos focamos. António Carlos Cortez publicou este livro a pensar nos professores e nos alunos dos ensinos secundário e universitário e também nos muitos leitores interessados em ler o poeta quinhentista. Trata-se, pois, de uma obra com claros objectivos didácticos, cumpridos pela escolha de uma linguagem muito clara, sempre que possível, simples, sem ser simplista, e pela apresentação, utilíssima de uma reflexão sobre a poesia, aplicação prática de propostas de análise de 35 poemas e, finalmente, da leitura crítica de textos essenciais de alguns camonistas.

Deste modo, o livro organiza-se em três grandes secções que comportam diferentes partes, como a consulta do índice revela.

1. Contra o entorpecimento dos ecrãs, a língua subversiva da poesia

Apresentando-se como uma advertência ao leitor (estudantes, pais, professores) sobre “o que se vai ler”, a primeira secção é, afinal, uma demorada e muito clara reflexão do autor sobre o contexto educativo e civilizacional em que vivemos e que determina o estado crítico da escola e as dificuldades que os estudantes enfrentam face a textos complexos, dificuldades acrescidas quando se trata de textos poéticos complexos e não contemporâneos. 

A constatação é sombria, como não pode deixar de sê-lo a consciência de estarmos a viver numa “era de vazio”, anunciada por autores como Lipovetski, já nos anos 80, e agudizada hoje pelo domínio neoliberal que rege a vida e as sociedades por interesses meramente economicistas, servindo-se de trabalhadores acríticos, produtivos e descartáveis, sem tempo nem capacidade para a reflexão, a reunião solidária, a vida verdadeira. São trabalhadores assim que a escola dos ecrãs prepara, humanos quase humanoides, treinados na rapidez comandada pelo algoritmo, controlados por grelhas e pela competição desenfreada, entorpecidos e estupidificados pela velocidade e a fosforescência dos ecrãs. 

Neste contexto, ler Camões é não só inútil, como até pernicioso à lógica do rei produtividade cega. Ler Camões – ler poesia – requer tempo, aprendizagem aprofundada, atenção ao humano que se ergue pela voz do texto, aquisição demorada das ferramentas linguísticas e estilísticas que permitem avançar na compreensão do outro e de si mesmo. Por isso, o tempo que a leitura da poesia requer é, para a máquina financeira e burocrática que domina o poder, tempo perdido. E assim fomos caminhando para uma escola de analfabetos muito escolarizados a quem a educação, esta educação redutora dos ecrãs, é capaz de dotar de capacidades técnicas e tecnológicas notáveis, mas à custa do empobrecimento do espírito, do humanismo, do prazer da imaginação e da construção colectiva, da cultura que, como a língua, eleva a ser humano acima dos outros animais.

O empobrecimento e subalternização das humanidades – literatura, história, filosofia – e das artes é, segundo o ponto de vista crítico do autor, consequência do projecto social neoliberal e causa da ignorância que, em última instância, alimenta o populismo e mata a democracia. 

É a essa luta contra este estado da educação em fim de estação que o autor tem dado voz, incessantemente, e é nela que a publicação deste livro se inscreve, defendendo que o olhar desencantado sobre a educação não pode significar desistência. 

“É por estas e outras questões factuais que escrevo este livro no quadro dos quinhentos anos do nascimento de Camões. Por acreditar, enfim, que, pese embora as sucessivas guerras movidas contra a literatura, contra as humanidades e as artes, há no lugar mais fundo dos estudantes dos mais diversos graus de ensino, bem como numa larga maioria de docentes, um coração que pulsa de vida, uma imaginação que espera por ser agitada” (p. 31). 

Na verdade, o primeiro capítulo, enunciador e anunciador dos “pontos cardeais para ler Camões”, vai para além de Camões, convida a uma profunda reflexão sobre a essência da poesia, “arte verbal” que fortalece o pensamento, apela a um imaginário potenciador do conhecimento de si mesmo e do outro, enriquece, poderosamente, a capacidade do uso da linguagem dotada de possibilidades livres e libertadoras. Nesse sentido, o autor chama a atenção para o carácter transgressor da poesia, esse modo único, estranho e alternativo de exprimir o pensamento, o valor explosivo da metáfora, a consciência da audição ou aquisição de uma voz humana singular e, por isso, aberta à interpretação atenta. Assim deve ser lido Camões nas escolas, liberto da poeira laudatória e devolvido à sua humanidade, orientando os estudantes num percurso leitor aberto ao desvendamento do mistério do seu discurso poético único e maravilhoso.

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“Daqui deriva outra finalidade deste trabalho: considerar que, sendo a poesia uma eternização do efémero, transferência do vivido para o pensado e do pensado para o revivido na escrita, é no acto de se ler bem a poesia que se pode ter na leitura do texto literário uma das mais revolucionárias armas contra o processo de destruição da sensibilidade. O livro é um corpo, um organismo vivo que todo o estudante pode e deve descobrir para, no fundo, alcançar o grande desígnio da educação, já inscrito em Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”, da Antiguidade” (p. 30). 

2. Celebrar Camões: ler Camões, libertar Camões

A segunda secção deste livro ficará, em nossa opinião, registada para o futuro como um momento de assinalável importância nos estudos camonianos. O autor escolhe 30 sonetos, quatro redondilhas e duas canções e para cada poema propõe uma análise interpretativa que os estudantes, os professores e os leitores em geral muito ganharão em ler. É este o caminho para devolver Camões aos leitores? É este o caminho, sim, porque a selecção, longe de ser arbitrária, é perfeita na construção de um quadro mental e estético da poesia lírica de Camões e porque as propostas interpretativas são muito atenta e fundamentadamente apresentadas, optando o autor pelo uso de uma linguagem simples, dentro da inevitável complexidade, rigorosa e de agradável leitura. Caminhar na leitura de cada poema na companhia deste livro de António Carlos Cortez é uma experiência muito compensadora, porque, liberto o poema da ganga metaliterária, esquemática e biografista empobrecedora, é como se o lêssemos pela primeira vez, lendo com o ensaísta a possibilidade de sentidos a que as portas por ele abertas permitem aceder e iluminam.

Não se pense, no entanto, que ACC aligeira o tom e evita as dificuldades. Pelo contrário, aquilo que ele propõe é uma análise interpretativa profunda, e fá-lo convocando, com natural pertinência e eficiência, os mais diversos instrumentos necessários à decifração do texto, naquilo que o poeta diz e como o diz. Por isso, cada poema é um universo de sentido que é lido na sua singularidade, recorrendo o autor a referentes dos estudos literários e da estilística, da história, da filosofia, da história da arte, das religiões, da estética, enfim, a todas as disciplinas e conhecimento que faça sentido no desvendamento do sentido e no modo do poema.

O que este livro nos ensina a reconhecer é um Camões renovado, diríamos, um Camões nosso contemporâneo.

Independentemente da singularidade de cada poema, o autor estabelece uma riquíssima rede de relações intertextuais, quer relacionando poemas do poeta em estudo, quer estabelecendo pontes com poetas anteriores e posteriores a Camões. No primeiro caso, registamos, como exemplo, a sugestão da “obrigatoriedade” de leitura do tríptico da fonte, completo, ou seja, a leitura das redondilhas “Descalça vai para a fonte”, “Descalça vai pela neve” e “Na fonte está Lianor” e não o isolamento da secção mais conhecida, que é a primeira. No segundo caso, um exemplo muito curioso, para além das relações estabelecidas entre poemas de Camões e diversos poetas portugueses contemporâneos (Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira, Ruy Belo, Gastão Cruz…), é o caso da intertextualidade despertada pelo soneto “Que me quereis perpétuas saudades” com dois poetas de línguas diferentes: Aragon (“Que cherchez-vous de moi perpétuels orages”) e Carlos de Oliveira (“Que me quereis perpétuas miragens”). A este propósito, escreve ACC:

“Tal facto prova algo que não devemos perder de vista: ler um clássico é sempre um gesto que nos levará a ler contemporâneos. O movimento contrário é igualmente verdade. Como defendeu T. S. Eliot, um poeta de agora, se for dotado de uma individualidade própria, obrigar-nos-á a ler os poetas de ontem” (p. 107).

Do mesmo modo procede o ensaísta que homenageia os camonistas que o precederam, alguns seus mestres, convocando-os, ao longo do ensaio e sempre que a análise de um poema bebe em fontes alheias. Assim, nesta segunda secção, encontramos referências ou citações de outros que se confrontaram com a lírica camoniana, como Maria Vitalina Leal de Matos, Jacinto do Prado Coelho, Rita Marnoto, António José Saraiva, Maria de Lurdes Saraiva, Jorge de Sena, António Sérgio, Hernâni Cidade, Vítor Manuel Aguiar e Silva, Fiama Hasse Pais Brandão. As suas opções interpretativas são sempre identificadas, num gesto de seriedade intelectual que não podemos deixar de assinalar.

3. Ensaios iluminadores da leitura do texto literário

Se, já nos comentários dos poemas, ACC aponta os nomes e as opções interpretativas de que se serve ou que rejeita, na terceira secção deste livro, intitulada “Leituras de Camões”, o autor convida à reflexão sobre as razões da dificuldade de navegar na ensaística camoniana, autêntico labirinto, muitas vezes tecido de contraditórios caminhos. Clarificando, propõe um olhar focado em quatro camonistas cuja obra, diversa e fundamental, ilustra a riqueza e diversidade da abordagem da obra poética de Camões: Aguiar e Silva, Helder Macedo, Yvette Centeno e Fiama Hasse Pais Brandão. Das proposta filológica e hermenêutica de Aguiar e Silva às inscritas nos estudos simbólicos de Helder Mcedo, Yvette Centeno e Fiama (estes três, não por acaso, poetas), não existe contradição, antes linhas diversas que se enriquecem e contribuem para a consciência da riqueza que a poesia de Camões encerra. 

A fechar o livro, dois notáveis ensaístas são trazidos para a reflexão em torno do ensino da literatura: Óscar Lopes e Manuel Gusmão, o primeiro referenciado na sua persistente publicação ensaística em busca do sentido da obra inscrita no contexto – histórico, sociológico, cultural – e da instauração de um humanismo de rosto social, o segundo, analisando e elaborando da sua obra crítica de abertura ao mundo, interpretado pela especificidade da linguagem literária, expressão múltipla e excepcional do humano, e considerando a sua obra “Uma Razão Dialógica” de imprescindível importância pedagógica e crítica, na defesa da literatura como diálogo entre humanos, cooperativo e transformador.

Enfim, o modo como este livro fornece aos leitores instrumentos eficazes para a compreensão aprofundada da obra do poeta, aproximando o seu rosto humano da nossa humanidade contemporânea e, com ele, do mundo em que viveu, palco de contradições e mudanças como o nosso mundo, fazem dele um útil instrumento de trabalho. O que este livro nos ensina a reconhecer é um Camões renovado, diríamos, um Camões nosso contemporâneo.

António Carlos Cortez, Para ler Camões,

Ed. Página a Página (2025)

A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo
Camões, nosso contemporâneo
A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo António Carlos Cortez
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A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo

Quem são esses que aí vêm? Os nossos filhos e os nossos netos, isto é, aqueles a quem a educação mecânica e instrumental roubou a própria possibilidade de um quotidiano em paz e a construção de uma personalidade criativa, questionante, aberta ao outro.

António Carlos Cortez
Camões, nosso contemporâneo Elisa Costa Pinto
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Camões, nosso contemporâneo

Resgatar Camões do pedestal baço em que foi colocado e devolver aos leitores a capacidade de compreensão da sua humanidade, através da decifração do estilo engenhoso dos seus poemas é o grande propósito de Para ler Camões, de António Carlos Cortez.

Elisa Costa Pinto

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