Lisboa: entramos de manhã para trabalhar e depois, no final da tarde, saímos.
Como dizia Amílcar Cabral, uma pessoa só avança quando tem consciência de onde está inserida, e quando tem a consciência propriamente do mundo.
Economista
Como dizia Amílcar Cabral, uma pessoa só avança quando tem consciência de onde está inserida, e quando tem a consciência propriamente do mundo.
A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército
A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército
Ucrânia: “Cada deserção aproxima-nos da paz”
Era esse o titulo da página antimilitarista ‘Assembleia’ (Ассамблея) da cidade ucraniana de Kharkiv, no dia 24 de Fevereiro, quarto aniversário do início da guerra.
Nesta página web tomam a palavra desertores ucranianos — que, segundo números do governo, se contam por uns duzentos mil. Um dos testemunhos: “A Ucrânia é Zelensky, como o Império Romano era César. O Ocidente deu-lhe dinheiro para fazer a guerra e Moscovo deu-lhe garantias de segurança. Nem a sua autoridade nem a sua integridade estão ameaçadas. A linha da frente, algures no Donbass, não mexe há quatro anos e continuará sem mexer mais três. O Exército ucraniano é um grupo de sem-abrigo (no sentido literal do termo) que combate contra outro grupo de sem-abrigo. Dão-te uma Kalachnikov, dois carregadores, duas granadas, e mandam-te combater. Dois exércitos de sem-abrigo que lutam sem a mínima perspectiva. Que moralidade se há-de esperar deles? (...) Vi um responsável de uma das nossas administrações militares a falar apaixonadamente. Sustentava, entusiasmado, que 50% dos soldados recrutados à força em rusgas de rua para serem mandados para a linha da frente se tornariam em soldados muito patriotas que tomariam de assalto as zonas ocupadas. Talvez fosse assim em 2023, até no primeiro semestre de 2024, mas tudo isso pertence ao passado. Mesmo entre os potencialmente motiváveis, o sistema abafa qualquer motivação logo à cabeça. Os soldados mobilizados ficam meses sem receber. (...) E por cada soldado ucraniano há dez chuis do alto comando e do SBU [serviços de segurança da Ucrânia, Ndr] a vigiá-lo.”
Rússia: “Sois cobardes?”
A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército. A directora Kirsanova reuniu então os 400 estudantes de dezoito anos de idade e lançou-se numa longa tirada de imprecações contra eles. A cena foi filmada por um estudante e vazada para as redes sociais. A directora acusou os jovens de só se terem inscrito no instituto para conseguirem adiar o serviço militar até “a guerra acabar”. Aos berros: “Gente, é a pátria que chama! Têm de aceitar! De que têm medo? Têm medo de regressar num caixão de zinco? De onde vos vem esse medo? Quem vo-lo inspirou? (...) Vocês são cobardolas, para aí sentados, aterrorizados?” A divulgação da cena nas redes sociais causou indignação. Houve alunos que se queixaram aos pais de os estarem a “manipular”. Não contente, a directora apresentou queixa ao FSB, a polícia política. Parece que nem a propaganda militarista do regime de Putin, nem a repressão nem a censura conseguem convencer a juventude a ir voluntariamente para o “matadouro”.
Alemanha: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”
Realizou-se em Göttingen, na Alemanha, nos dias 14 e 15 de Fevereiro, a primeira conferência nacional do movimento de greve escolar contra o serviço militar obrigatório. Participaram mais de 250 jovens e estudantes de 70 cidades. Excertos da resolução aprovada:
“No dia 5 de Dezembro, na manifestação de 55 mil jovens e estudantes, manifestámos claramente que “Não queremos serviço militar! Queremos ter um futuro!” Nesse mesmo dia, o Bundestag [o Parlamento federal] adoptou a lei dita de modernização do serviço militar, dando um passo para a restauração do serviço militar obrigatório. Logo em Janeiro, todo os jovens nascidos em 2008 começaram a receber questionários de avaliação das suas competências e motivação para o serviço militar. A conscrição obrigatória é para começar em 2027. O governo diz que o serviço militar obrigatório e o rearmamento são necessários para nos defendermos. Nós perguntamos: como há-de o rearmamento garantir a paz e porque havemos nós de precisar de ter o Exército mais poderoso da Europa para vivermos em segurança? O chanceler Merz fala numa nova “era de política de grandes potências”, na qual a Alemanha teria que actuar com confiança em si. Mas nós sabemos que política de grandes potências quer dizer disputa, recorrendo à força, de mercados, recursos e esferas de influência à custa de meter ainda mais dinheiro no Exército e na economia, e menos na educação, na protecção social e no ambiente. Quer dizer ampliar ainda mais a NATO, mesmo que o preço seja provocar novas guerras. No mundo que o Governo federal quer para nós, não sobra nenhuma perspectiva para o nosso futuro a não ser crescer na pobreza e aprender em escolas arruinadas, enquanto a crise climática progride sem dar tréguas.
O ministro da Defesa Pistorius quer-nos convencer de que a conscrição de uma geração inteira serve para defender a democracia. Nós dizemos que o que interessa a este Estado não é a nossa liberdade e a nossa opinião. O destacamento de tropas para o estrangeiro, a militarização e o serviço militar obrigatório são contra os nossos interesses. (...) Põem-se milhares de milhões no rearmamento, preparando o terreno para a próxima grande guerra. Enquanto isso, as cotações das acções de empresas de armamento como a Rheinmetall, ThyssenKrupp, KNDS e companhia sobem vertiginosamente. (...) Por tudo isto, preparamos desde já a greve à escola de 5 de Março e levaremos a cabo acções nas nossas escolas.”
A concluir, a resolução apela à generalização de comités de organização da greve à escola e a entrar em contacto com as secções de juventude dos sindicatos, com os sindicatos, os pais e professores. Conclui com o título deste artigo: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”
Irão, Estados Unidos: Generalização da guerra contra os povos e a juventude de todo o mundo
No Irão, a aliança israelo-americana continua a matar e a destruir sem piedade. Trump diz agora que só parará quando o Irão se render incondicionalmente. Ninguém sabe sequer o que tal significa.
Como escrevíamos no editorial da semana passada, as descabeladas justificações dadas por Trump e pela sua mafia para o ataque ao Irão — da destruição dos projectos nucleares do Irão (que Trump há meses declarara ter “obliterado” com as suas fantásticas bombas de perfuração profunda) a uma ameaça iminente (!) de ataque iraniano e ao inexistente programa de construção de mísseis intercontinentais do Irão — têm como única lógica a destruição de tudo o que possa fazer frente ao polícia sionista designado para o Médio Oriente.
Submetam-se ou morrem, é a palavra de ordem que sai da Casa Branca.
Do genocídio de Gaza à virtual anexação da Cisjordânia, da entrega do poder ao regime talibã no Afeganistão à entrega da Síria desfeita a um comandante do Daesh e aos bombardeamentos do Irão, há um fio condutor, um só: e não, não é a “democracia” nem o fim da ditadura teocrática dos mulás. É que mergulhem os povos e países no caos absoluto, que sobrem Estados “falhados” — o que interessa, a segurança do petróleo e dos respectivos lucros, ficará garantido pelo Exército sionista, por milícias privadas e, em última análise, pelo Pentágono. No fundo, a situação que campeia há décadas na África Central, a zona mais rica do mundo em minérios, onde as multinacionais prosseguem calmamente os seus negócios no meio da guerra e do caos permanentes. Não há actualmente solução mais barata para os imperialistas, enquanto eles preparam as próximas guerras.
Têm toda a razão, pois, os liceais alemães, os desertores e refractários ucranianos e russos, tal como a tem a população do Minnesota, que fez greve geral para correr com os esbirros nazis do ICE. Contra esta marcha para a generalização do caos e da guerra, a única saída está em organizar a resistência e lutar contra os opressores e seus cúmplices nos nossos próprios países.
Estas guerras não são nossas. Elas vão contra os interesses dos jovens e dos trabalhadores na Rússia, na Ucrânia, na Alemanha, no Irão, nos Estados Unidos — e em Portugal, onde um governo servil deixou os agressores norte-americanos usarem à vontade a base das Lajes, sem sequer lhe darem cavaco a ele, nem ele o dar ao povo.
Em parte alguma do mundo os trabalhadores e os jovens, destinados a ser ou carne para canhão ou “danos colaterais”, têm interesse em matar ou morrer pelas conquistas e os super-lucros do grande capital, que só servirão para explorar ainda mais quem sobreviver à matança.
Nos indicadores fundamentais em que houve inegável progresso, como o grau de escolarização e a saúde e longevidade da população, a grande mudança nada teve que ver com a CEE. Foi fruto directo da revolução portuguesa, da gestão democrática de escolas e hospitais.
Nos indicadores fundamentais em que houve inegável progresso, como o grau de escolarização e a saúde e longevidade da população, a grande mudança nada teve que ver com a CEE. Foi fruto directo da revolução portuguesa, da gestão democrática de escolas e hospitais.

Como apareceu a UE
As várias comunidades europeias (carvão e aço, energia atómica) que antecederam a CEE e, por fim, a UE foram criadas como elementos da nova ordem mundial criada pela Segunda Guerra Mundial.
O imperialismo americano, dela saído como potência militar e económica esmagadoramente dominante, permitia a reconstrução dos grandes países capitalistas da Europa para evitar o risco do “comunismo”. Mas impunha medidas que garantissem o fácil acesso aos mercados europeus dos seus próprios capitais e mercadorias, com o mínimo de obstáculos nas fronteiras nacionais. E criava dispositivos económicos (plano Marshall e essas comunidades) e militares (NATO) que garantissem tanto uma certa paz interna entre as potências beligerantes europeias quanto a subordinação de todas elas ao capital financeiro americano.
Como e porquê “quis Portugal” aderir à CEE
A revolução portuguesa foi, para a burguesia nacional, um traumático cortejo de desgraças: a perda das colónias, as ocupações de terras, as nacionalizações e expropriações, a fuga da família para o Rio de Janeiro, Madrid ou Paris.
Uma vez a contra-revolução encarrilada graças à ajuda americana, alemã e vaticana a partir do 25 de Novembro de 1975, era impossível à burguesia portuguesa reconstruir-se como antes.
O grande plano possível, encabeçado por Mário Soares, era a adesão à CEE e a aceitação dum papel muito subalterno no concerto europeu e internacional.
Mentiras, grandes mentiras e estatísticas
É costume dizer que, entre a data da adesão de Portugal à CEE, em 1986, e o presente, as estatísticas das condições de saúde, do PIB, dos rendimentos, dos salários mínimos e médios, da inflação, etc., “melhoraram” — daí saltando alegremente para a conclusão de que, graças à entrada na CEE (depois UE), Portugal fez grandes progressos nalguma ou em todas estas áreas.
O raciocínio tem vários vícios. Se olharmos para a Suíça, Noruega e muitos outros países, os indicadores que lhes correspondiam em 1986 e no presente também são indicativos de igual — ou ainda maior — “progresso”. Ora, esses países nunca aderiram à CEE/UE.
Ainda que se limite a alternativa de cenários ao “ter ou não ter aderido à CEE”, é claro que ninguém pode saber que valores Portugal hoje registaria se não tivesse aderido à CEE/UE. Dependeria de uma imensidão de factores; entre outros, do regime político, social e económico interno que o país tivesse seguido.
Mas da falácia do “antes da CEE — desgraça”, “depois da CEE — maravilha” (logo, tudo o que há de bom é “graças à CEE”) tão-pouco se ouve dizer que a sua premissa implícita é que “se Portugal não tivesse aderido à CEE/UE, estava tudo muito pior, 40 anos depois”. Ou seja, dá-se por demonstrado o que era preciso demonstrar.
No entanto, olhando para indicadores fundamentais em que houve inegável progresso, como o grau de escolarização e a saúde e longevidade da população, é óbvio que a grande mudança nada teve que ver com a CEE. Ela foi fruto directo da revolução portuguesa, da gestão democrática de escolas e hospitais — que, se bem que tivesse durado pouco, abriu caminho à massificação da escolaridade a todos os níveis e à criação na prática do serviço nacional de saúde, que a Constituição e a lei se limitaram depois a codificar — e restringir; e, depois, a tentar pacientemente demolir.
Outro argumento para ter sido “tudo graças à CEE” (também ele, diga-se de passagem, de preferência deixado “implícito” com um piscar de olhos envergonhado) reside nisto: afinal de contas, a CEE mandou para cá dinheiro a rodos…
“Para cá” é um óbvio eufemismo. Primeiro, nunca se refere que o Estado português também “para lá” enviou muito dinheiro, embora, em todo o caso até à criação do euro e aos alargamentos, menos.
Dinheiro que entra, dinheiro que sai
Mas “dinheiro para cá” é um eufemismo interessado também noutros aspectos. Para começar, toda a gente sabe que o dinheiro nunca vai para cá nem para lá; a pergunta certa não é “para onde”, é “para quem” e “para quê”.
O “dinheiro a rodos que para cá veio” serviu, por exemplo, para construir auto-estradas e modernizar portos — em troca da exigência, nuclear na CEE/UE, de abertura irrestrita dos mercados internos de bens e capitais.
Ora, a consequência da abertura dos mercados foi que a indústria portuguesa, sobretudo a grande indústria, deixou de ser concorrencial; fechou. O “dinheiro a rodos” que entrava passou a ser usado para pagar produtos industriais e bens de equipamento — onde se concentra o essencial do “valor acrescentado” — alemães, franceses, etc., que as novas vias de comunicação construídas ou ampliadas tornavam mais concorrenciais, ao embaratecerem o custo do transporte.
Descontando todo esse “valor acrescentado” que voltou imediatamente “para lá”, o que ficou “por cá”?
Os salários pagos aos trabalhadores empregados por esses grandes investimentos; os lucros das empresas de construção e outras beneficiárias; os juros ganhos pelos bancos em todas essas operações; e alguns impostos.
Esmiuçando, porém
Em contrapartida dos novos salários, desapareceram os salários pagos aos trabalhadores despedidos da indústria nacional falida. Há boas razões para crer que o saldo entre ambos tenha sido negativo por muito tempo.
Também as “novas” receitas de impostos vieram substituir, se tanto, as receitas de impostos antes arrecadados às indústrias agora falidas; mais: as novas despesas de consumo e investimento do Estado pagas com a receita dos novos impostos foram cada vez mais para pagar produtos vindos “de lá”, pois “cá” já não se faziam. Mais “valor acrescentado” a voltar rapidamente “para lá”…
Além disso, os lucros das empresas de construção e outras beneficiárias da “cornucópia da abundância” passaram rapidamente a ser mandados para novas sedes em paraísos fiscais (Holanda, por exemplo): para “lá”.
Enriqueceram também: os bancos, o capital financeiro, por quem tudo passa, os especuladores imobiliários, os muitos intermediários e burocratas ligados à gestão e “canalização” dos fundos europeus, grandes escritórios de advogados, lobistas … Muitos deles, entretanto, em mãos de grandes empresas “de lá”.
A maior parte do dinheiro vindo “para cá” voltou a alta velocidade “para lá”, enquanto a nova especialização industrial deixava “cá” apenas indústrias de baixo valor acrescentado e/ou de raiz estritamente local (turismo), sem interesse para o grande capital europeu e dependentes da capacidade de governo e do patronato de manterem os salários baixos.
E assim sucessivamente. Ou seja, a maior parte do dinheiro vindo “para cá” voltou a alta velocidade “para lá”, enquanto a nova especialização industrial deixava “cá” apenas indústrias de baixo valor acrescentado e/ou de raiz estritamente local (turismo), sem interesse para o grande capital europeu e dependentes da capacidade de governo e do patronato de manterem os salários baixos.
Os fundos europeus, mesmo quando o saldo oficial de entradas e saídas era favorável a Portugal, funcionaram, assim, essencialmente como subsídios comunitários ao investimento do grande capital europeu e americano no mercado português.
A união monetária, “golpe de misericórdia” na soberania democrática: para que foi criada a moeda única
Quando, com a união monetária (euro, tratado de Maastricht), a moeda única se somou, nos tratados europeus, ao mercado único e à livre circulação de mercadorias, de capital e de trabalhadores entre os Estados-membros, o país ficou definitivamente privado de soberania monetária. As “variáveis de ajustamento” económicas clássicas (taxas de câmbio, taxas de juro, política comercial) ficaram definitivamente afastadas das opções de política económica dos governos. Restou a tal política salarial: a política de reprimir o “custo do trabalho”, mantendo os salários baixos.
Só que nada disto foram “danos colaterais”.
Estes efeitos eram conhecidos e desejados pelos teóricos e criadores da união. Eram o objectivo da união monetária.
O poderoso patrão do Banco Central Alemão da época, Hans Tietmeyer, explicou em pormenor, numa série de discursos preparatórios, o que era e para que serviria a moeda única: “ao renunciarem à taxa de câmbio, os países renunciam definitivamente ao mecanismo que até então lhes permitia amortecer diferenças para outros países na inflação, na produtividade ou na dinâmica da dívida pública. Ora, uma vez esgotada a margem de manobra da política orçamental, em caso de diferença na evolução da produtividade, o ónus do ajustamento recai quase exclusivamente nos custos do trabalho. Daqui podem resultar não só perigosos conflitos salariais, como também mais desemprego e uma sobrecarga dos sistemas sociais. E, numa união monetária, daí podem resultar facilmente conflitos entre os países participantes ou com a política monetária supranacional. Considerando como os erários públicos já hoje estão vazios e como é pouca a predisposição para isso, transferências para apoiar países economicamente mais fracos não são certamente alternativa.”1
Tietmeyer chamava a atenção, note-se, para os riscos, não tanto para as vantagens da união monetária: é que, concentrando tudo na luta contra os salários, ela poderia exacerbar perigosamente a luta de classes.
Em todo o caso, o propósito expresso da moeda única era obrigar os países em “perda de competitividade” no mercado único a fazerem o seu ajustamento económico pelo “custo do trabalho”.
Os capitalistas, pelo seu lado, além de passarem a ter ao seu dispor uma só moeda, sem câmbios, ficavam, para investirem em qualquer ponto do mercado único e colocarem os seus produtos sem incómodos fronteiriços, com a possibilidade de mobilizar capitais e, se necessário, força de trabalho em qualquer lado. No caso específico do mercado de trabalho (“livre circulação do trabalho”), isso trazia a vantagem adicional de pôr os trabalhadores dos países com salários mais altos em concorrência directa com os de países com salários inferiores, pressionando-os a todos à baixa.
O “bom trabalho” da união monetária
Neste sentido, a moeda única tem feito o seu trabalho muito bem. Os salários reais estagnam ou baixam em toda a Europa — mas, sobretudo, nos países menos avançados e nos sectores mais trabalho-intensivos, menos qualificados e com mais trabalhadores imigrantes, dos países mais avançados — , e a parte dos lucros no rendimento nacional dispara, concentrando-se os lucros nos países de capitais mais fortes.
A eficiência da união monetária transparece de numerosos dados estatísticos — que não são necessariamente os mais sonoramente apregoados pelos Sócrates/Passos/Costas/Montenegros2.
O custo médio da hora de trabalho portuguesa era, em 2008, um pouco mais de metade (58,2%) do custo da hora de trabalho média da UE. Em 2024 já baixara para 54,3% (se se considerar apenas a zona euro, para menos de metade, 48,8%). Do mesmo modo, o investimento em Portugal (medido em percentagem do PIB ou riqueza anual criada) tem sido, desde 2015, sempre inferior à média da UE: na média dos dez anos, 18,4% por ano, contra 21,2% na UE como um todo. Entre 2010 e 2024, dados da Comissão Europeia mostram que o stock de capital líquido por empregado em Portugal baixou de 127 mil para 118 mil euros. São valores que ilustram drasticamente a concentração crescente da economia portuguesa em sectores de baixo valor acrescentado.
O estranho caso do (des)investimento público
O caso do investimento público é bem pior: ele tem sido sistemática e catastroficamente inferior à média da UE (entre um quarto e um terço abaixo) — apesar de nesta prevalecer a mesma política de austeridade. Este facto é um espelho do corte à catanada daquilo que agora é moda chamar “custos de contexto”: os custos dos elementos colectivos e diferidos do salário, conquistados pelos trabalhadores graças à revolução (serviços de ensino e saúde gratuitos, transportes e habitação acessíveis, etc.).
Entre 2012 e 2023, o investimento público foi negativo todos os anos: não chegou sequer para manter e repor os equipamentos existentes. Para ter uma noção, o novo investimento ficou, nesse decénio, mais de 16 mil milhões de euros abaixo do “consumo de capital fixo”. Em português: destruiu-se entre um terço e metade, em valor, do equipamento público já instalado! E assim continua.
Estas indicações, note-se, referem-se só ao investimento, não incluem a degradação salarial, que incita, por sua vez, muitos trabalhadores mais qualificados do SNS e do ensino a fugir para o estrangeiro ou para o privado; nem inclui o facto de os montantes orçamentados nunca serem inteiramente executados.
A remuneração média na administração pública portuguesa passou, entre 2014 e 2022, de 1529 para 1642 euros (+7%), enquanto a inflação total do período foi de 13% — ou seja, os salários baixaram em valor real mais de 5%.
A situação da classe trabalhadora em Portugal agrava-se constantemente. Em Novembro de 2025, quase dois milhões e meio de trabalhadores (55,9% do total) recebiam uma remuneração média mensal inferior a 890 euros/mês. 80% recebiam menos de 1.500 euros brutos. A pensão média de velhice das mulheres era de 543 e a dos homens de 869 euros/mês. Entre 2012 e 2025, o salário mínimo (que subiu de uma base muito baixa), passou de representar 53% a 64% do salário médio: cada vez mais trabalhadores estão mais perto do salário mínimo.
Enquanto isto, os preços da alimentação subiam muito acima da inflação média. E o preço da habitação explodia: o preço médio de um T2 entre 2000 e 2025 subiu cerca de 450% em Lisboa e 350% no Porto, a renda média dum T2 novo cerca de 300% em ambas as cidades.
Por outro lado, relatórios da Oxfam, mas também a revista Forbes, têm indicado os simultâneos aumentos astronómicos das fortunas dos mil multimilionários mais ricos do mundo, que incluem meia dúzia de portugueses.
A conclusão é cristalina: tudo o que a UE “deu” a poucos, nos anos “de fartura” do pós-adesão, a UE retirou com juros violentos a muitos, desde a união monetária.
E a troika não foi um momento de excepção. A troika é a forma de vida da união monetária, plasmada nos critérios do défice e da dívida e na repressão directa dos “pecadores”.
A finalidade expressa da CEE/União Europeia (não é a da propaganda)
É importante dizer em abono da União Europeia que o seu propósito real está claramente vertido nos tratados. O único princípio constitucional realmente operacional dos tratados é o da “concorrência livre e sem entraves” entre proprietários de capitais no mercado único. Tudo o mais a isso se subordina.
As grandes frases dos preâmbulos e dos discursos, sobre paz, direitos humanos e “valores europeus”, são moldura propagandística.
Se, na teoria e na propaganda “liberal”, paz e democracia resultam mecanicamente da união de mercados e moedas, na prática real, paz foi, por exemplo, a destruição sangrenta da Iugoslávia orquestrada pela UE e pelo FMI; paz é a participação da UE nas guerras americanas contra os povos, pelo mundo fora.
Na prática real, “democracia” é marimbar-se nos referendos de cada vez que os povos rejeitaram novos tratados (quase sempre que algum lhes foi submetido); é impor a ditadura da troika aos países que saem da linha; é ungir Orbán ditador da Hungria; é chamar “parlamento europeu” a uma câmara faustosa e cheia de jactância, mas vazia de poder parlamentar e de legitimidade popular; e um longo etc…
A adesão de Portugal à União Europeia foi indispensável para dar um novo sopro de vida à burguesia portuguesa, como supletivo das grandes burguesias imperialistas da Europa e da América. À imensa maioria da população trouxe, primeiro, uma ilusão de prosperidade, depois a realidade da marcha para a miséria e a guerra.
No ponto de vista da população trabalhadora, não é que a saída esteja no nacionalismo e na autarcia, “soluções” que radicam na utopia reaccionária usada como isco por fascistas e vendedores de banha da cobra.
A solução está na aliança e na cooperação estreita dos trabalhadores de todas as nações, baseada não na concorrência na busca do lucro, mas no planeamento racional e cooperativo das necessidades básicas e no progresso de todos. O grau de produtividade atingido pela economia permite-o sem problema. Só por si, os incontáveis biliões hoje desviados para a economia da destruição e da guerra permitiriam resolver todos os problemas da humanidade num prazo curto.
A solução está numa Europa dos trabalhadores contra esta Europa do capital.
Para transformar a realidade, é preciso conhecer a sua verdade.
1 Discurso do Presidente do Banco Central Alemão, Hans Tietmeyer, ao congresso sobre política orçamental da Goldman, Sachs, Franqueforte, 27 de Fevereiro de 1997, tradução do autor.
2 Salvo indicação contrária, os dados que se seguem provêm de vários estudos recentes de Eugénio Rosa (https://www.eugeniorosa.com/), por sua vez assentes, em geral, em dados do INE e da Comissão Europeia.
De “algures na Rússia” chega-nos uma denúncia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e das consequências diametralmente opostas que tem para o povo e para os oligarcas.
De “algures na Rússia” chega-nos uma denúncia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e das consequências diametralmente opostas que tem para o povo e para os oligarcas.

Começou há quatro anos a “Operação Militar Especial” (SVO), a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.
Para o Governo Russo, era para ser uma “guerrita vitoriosa”, uma blitzkrieg que em pouco tempo daria “resultados excepcionais”.
Entramos no quinto ano de lei marcial. Não obstante, os dirigentes russos continuam a afirmar que a guerra é uma bênção, que puxa a economia para êxitos sem precedentes. Será verdade? Tentemos perceber.
A SVO: para os trabalhadores, morte; para os oligarcas, lucros
Olhemos para os números. Primeiro número: 1461 dias. O tempo que a guerra já dura. Para comparação, a Grande Guerra Patriótica (1941-1945), a mais terrível para o nosso povo, durou 1418 dias. Sobrevivemos. Mas nessa altura, o povo sabia que estava a defender as conquistas do sistema socialista contra os invasores fascistas. Hoje, em nome de que interesses são os soldados mandados para a frente de batalha?
Outro número: 1,2 milhões de pessoas. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) dos Estados Unidos, é o número de baixas russas até ao final de 2025 (mortos, feridos e desaparecidos). As baixas combinadas de ambos os lados aproximam-se de 2 milhões. Mais do que em qualquer outra guerra, desde a Segunda Guerra Mundial. Por trás de cada número há um trabalhador, um irmão nosso enviado para o matadouro pelos dois lados.
Quem lucra com esta carnificina? Terceiro número: 146. O número de milionários com mais de mil milhões de dólares que a Rússia tinha em 2025. Número que, durante a guerra, subiu de 125 para 146. A sua riqueza combinada atingiu o valor recorde de 625 500 milhões de dólares.
1,2 milhões de pessoas. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) dos Estados Unidos, é o número de baixas russas até ao final de 2025.
Quarto número: 90%. Menos de 1% da população russa é detentora de mais de 90% dos depósitos bancários.
Não contente em lucrar com a guerra, o capital concentra-se mais do que nunca nas mãos de um punhado de oligarcas. Quanto ao comércio da Rússia com a Europa, não parou. O petróleo e o gás fluem, desde que sejam pagos. Não é um “choque de civilizações”, como afirma a televisão. É uma guerra imperialista clássica, por mercados e por lucros.
O Estado está a construir um campo de concentração digital
Para silenciar a população enquanto a espolia e sacrifica, o governo cria um sistema de controlo total sobre a internet.
Segundo o site OVD-Info, de 24 de Fevereiro de 2022 a 17 de Fevereiro de 2025, 20 081 pessoas foram detidas por manifestarem a sua oposição ao conflito. Censura total e inaceitável.
A saúde? O Estado capitalista advoga a “optimização” dos serviços públicos. Em vez de nos tratar, o Estado aconselha-nos a “praticar desporto em vez de ir ao médico”. Não é uma piada, é a realidade nua e crua. As consequências desta “optimização” são dramáticas: a prevalência do sarampo aumentou onze vezes, a da rubéola seis vezes, a da tosse convulsa 4,5 vezes e a da papeira 3,5 vezes.
Metade dos doentes afectados por doenças raras foram obrigados a interromper o tratamento em 2024 por falta de subsídios estatais para medicamentos. Em Kaliningrado, tenta-se privatizar os serviços de emergência: as chamadas vão passar a ser cobradas. Diz-se com todas as letras à classe trabalhadora: não precisamos de vocês, vão-se lixar. Um trabalhador que se atreva a protestar fica sujeito à lei que pune “ofensas à reputação do Exército”. Criticar a carestia ou exigir salários dignos é considerado “ofensa à reputação do Exército”, com o consequente cortejo de processos judiciais, penas de prisão e revistas.
Duas Rússias frente a frente
A guerra pôs duas Rússias uma contra a outra. A primeira, menos de 1% da população, tudo possui. A outra, que trabalha e combate na linha da frente, endividada e pobre. Quinto número: 50 milhões. É o número de russos fortemente endividados, 40% da população solvente.
A propaganda oficial alardeia que “a taxa de desemprego está historicamente baixa”. Entretanto, os trabalhadores das fábricas de armamento matam-se a trabalhar, em três turnos, e vêem os salários comidos pela inflação. Mais: quando acabar a economia de guerra, estes trabalhadores vão parar à rua; esperam-se despedimentos em massa.
A campanha anti-imigração lançada nos últimos anos prejudica igualmente os interesses dos trabalhadores. O governo, que se atreve a intitular-se “antifascista”, organiza rusgas policiais de mãos dadas com grupos de extrema-direita como a Russkaïa Obchtchina (Comunidade Russa) e a Severny Chelovek (Homem do Norte). Em algumas regiões, os imigrantes estão proibidos de trabalhar ou de receber tratamento médico, e os filhos, impedidos de frequentar a escola. Países da Ásia Central, como o Quirguistão, têm protestado. Os sentimentos nacionalistas estão a ganhar terreno, minando a solidariedade internacional do proletariado.
Negociações: a ilusão da paz
Há um ano, nós, comunistas, avisámos que as negociações não passam de uma forma alternativa da competição imperialista. Assim acontece. Com Trump, os Estados Unidos mudaram de discurso, não porque desejem a paz, mas para atrair a Rússia para o seu lado e desviá-la da China. Apesar das fanfarronadas do secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Sergei Shoigu, as armas russas vendem-se cada vez menos.
Que lições para a classe trabalhadora?
Lenine demonstrou que os trabalhadores só conseguem dos seus exploradores condições melhores se as conquistarem pela sua própria luta. A greve na fábrica Morozov, em 1885, obrigara os patrões a fazerem concessões graças à acção colectiva e consciente dos trabalhadores.
A lição mantém a sua relevância. Enquanto permitirmos que os capitalistas nos dividam por nacionalidade, enquanto confiarmos na televisão e enquanto temermos ser processados por “ofensa à reputação do Exército”, eles continuarão a enviar-nos para o matadouro para exclusivo lucro dos oligarcas.
Os números apresentados revelam a verdadeira face da guerra imperialista. Só a união pelos nossos interesses de classe e contra o nosso inimigo comum — o capital e o Estado — lhe poderá pôr termo.
Abaixo a guerra imperialista! Viva a luta consciente da classe trabalhadora! Pela revolução socialista!
Algures na Rússia, 20 de Fevereiro de 2026.
“A grande imprensa chama a tudo isto ‘o caso Epstein’. Porém, quando quem está envolvido são capitalistas de primeira linha, dois presidentes da principal potência imperialista e altos dirigentes, a rubrica jornalística certa já não é a crónica social.”
“A grande imprensa chama a tudo isto ‘o caso Epstein’. Porém, quando quem está envolvido são capitalistas de primeira linha, dois presidentes da principal potência imperialista e altos dirigentes, a rubrica jornalística certa já não é a crónica social.”

Forçado por uma votação no Congresso dos EUA, o Departamento (ministério) da Justiça dos EUA abriu ao acesso público três milhões de elementos de correspondência, fotos e vídeos do processo Epstein.
Jeffrey Epstein é o homem de negócios americano condenado, em 2008, a dezoito meses de prisão por “solicitação de prostituição e aliciamento de menores para a prostituição”. Cumpriu, na altura, treze meses dessa pena. Foi novamente detido em 2019 por “tráfico sexual de menores”. Morreu na prisão, “suicidado”, em Agosto de 2019.
Epstein foi um criminoso sexual que, com toda a probabilidade, fez centenas de vítimas, principalmente raparigas muito jovens. Mas foi mais do que isso: durante vinte e cinco anos, frequentou as grandes sumidades do mundo. Organizava-lhes orgias nas suas luxuosas propriedades e ligava-se-lhes por esquemas financeiros.
Entre os envolvidos: Trump e o seu antecessor democrata, Clinton; multimilionários como Bill Gates, Elon Musk e Robert Maxwell (ex-sogro de Epstein); o “príncipe” André da Grã-Bretanha; o ex-primeiro-ministro israelita Ehud Barak; membros da família real saudita; a “princesa” herdeira da Noruega; Steve Bannon (ideólogo da extrema-direita americana); o ex-ministro francês Jack Lang; o chefe de gabinete do primeiro-ministro britânico Starmer… e falta o espaço para enumerá-los a todos. Sem falar dos laços estreitos de Epstein com os serviços de informação americanos, russos e israelitas.
A grande imprensa chama a tudo isto “o caso Epstein”. Porém, quando quem está envolvido são capitalistas de primeira linha, dois presidentes da principal potência imperialista e altos dirigentes, a rubrica jornalística certa já não é a “crónica social”.
O que o “caso Epstein” põe a nu é o grau de degenerescência e corrupção (material e moral) atingido pela classe capitalista que nos governa.
Os cúmplices de Epstein são exactamente a mesma gente que anda por aí a dar lições de moral e de “democracia” ao mundo inteiro. São os que decidem planos de despedimento e orçamentos de austeridade. Os que oferecem em holocausto centenas de milhares de mulheres, homens e crianças nas suas miseráveis guerras.
Não é que tudo isto seja especialmente novo. A Igreja Católica prestou durante séculos este género de serviços aos poderosos do mundo, servindo-se dos seus conventos e orfanatos.
Nos anos de decadência da ditadura salazar-marcelista, estalou o escândalo dos “ballets roses”, um esquema de tráfico e exploração sexual de menores que envolveu, em Portugal, os maiores capitalistas e especuladores e muitos dignitários do regime.
E esse é o ponto. Não sendo nada disto novo, quando o grau de decadência da burguesia, reflexo da agonia sem fim do sistema capitalista assente na propriedade privada dos meios de produção, se combina com a putrefacção do seu sistema político de dominação, os escândalos vêm a lume. É um sinal dos tempos: em cima, tudo apodrece, até o sistema de encobrimento.
Só os trabalhadores organizados poderão varrer esta podridão, varrendo esta classe exploradora degenerada e o seu sistema.
O programa para abater os “pilares do declínio” é o programa que Estados e governos europeus aplicam sob a batuta da Comissão Europeia
O programa para abater os “pilares do declínio” é o programa que Estados e governos europeus aplicam sob a batuta da Comissão Europeia. Acabar com a segurança do emprego e os direitos dos funcionários; destruir a segurança social e as pensões, acabar com a indústria “obsoleta” e com um ensino público que forma cidadãos em vez de empresários — eis o molde comum de todos os programas em aplicação na UE de Von der Leyen.

Às vezes, a franqueza brutal acontece: assim em Novembro passado, numa publicação alemã (The Pioneer), detida por um conhecido jornalista liberal e pelo grande grupo alemão da comunicação social Springer.
O artigo1 referia-se ao caso da Alemanha. Descrevia as razões que, segundo ele, estavam por trás do declínio económico do país.
Mas é fácil ver que o diagnóstico “liberal” se aplica a todos os países em que ainda há conquistas incómodas dos trabalhadores, incluindo Portugal.
As cinco razões para a ineficiência do “modelo económico” alemão são assim descritas:
1. “O Estado de funcionários começou por ser uma conquista; hoje é um pesado fardo”
As características do Estado que, sob o domínio prussiano, foi a espinha dorsal da unificação alemã, mas hoje é um “pesado fardo” são: “carreiras vitalícias”; uma “lógica de departamentos em vez de gestão flexível de projectos”; “regulamentos complexos em vez de governação pelo resultado”; e “controle, em vez de inovação, como leitmotiv da acção administrativa.”
2. “O sistema de segurança social [com que] Bismarck quis comprar os operários”
A origem do sistema alemão de segurança social remonta ao chanceler Bismarck, “político realista” e “homem do imperador” no século XIX. Em 1878, Bismarck decretou “leis anti-socialistas” fortemente repressivas. Contudo, “rapidamente se deu conta de que, só por si, a repressão não barraria o caminho ao movimento operário. Tirou daí as devidas consequências, inventando, entre 1883 e 1889, aquilo que hoje conhecemos como o modelo alemão de segurança social: [o] seguro de doença (1883), [o] seguro de acidente (1884) [e o] seguro de invalidez e velhice (1889)”. Diagnostica, preocupado, The Pioneer, que “o sistema bismarckiano devia servir para afastar os operários da revolução. Ora, no ano de 2025, ele já só funciona graças a subvenções estatais maciças. Há muito que perdeu a capacidade de acomodar razoavelmente as convulsivas carreiras profissionais da era moderna, as baixas taxas de natalidade e a exposição a uma duríssima concorrência salarial internacional.”
3. A “reforma das pensões de 1957”
O então chanceler Konrad Adenauer “criou o actual seguro de pensões, introduzindo (…) o sistema distributivo. Transformou a pensão num “sucedâneo do salário” — com potente efeito político e arriscado efeito económico”. Segundo The Pioneer, o prognóstico de Adenauer de que “crianças há-de haver sempre” falhou, e a proporção entre pensionistas e contribuintes para o seguro de aposentação legal alterou-se de tal maneira, que o sistema se tornou inviável. Conclusão da publicação: “Procura-se agora fazer política contra a matemática, recorrendo ao financiamento público e a mini-reformas. Não vai dar. A matemática é mais forte.”
4. “O ADN industrial – o motor de combustão interna”
Problema: “A base da indústria alemã continua ainda hoje a ser dada pelas inovações da era dos fundadores. Cerca de metade dos pesos pesados do índice [bolsista] alemão, o Dax, teve a sua origem entre 1840 e 1900.”
Conclusão: a Alemanha foi o Silicon Valley do século XIX, mas, entretanto, passou a “parque jurássico” de indústrias velhas — há que desmantelá-las.
5. “O sistema educativo – o ideal de 1810 de Wilhelm von Humboldt”
Vale a pena citar na íntegra o “diagnóstico” dos liberais alemães sobre este “pilar”: “Em 1810, Wilhelm von Humboldt criou um sistema educativo cujos pilares eram a autonomia, a formação geral e o desenvolvimento da personalidade. Foi um modelo pioneiro – ainda hoje é a base do sistema educativo alemão. Só que não sofreu praticamente nenhum desenvolvimento desde essa altura. A ideia humboldtiana obedecia a uma ideia humanista, não a um princípio económico. Em primeiro plano estava não o fomento do núcleo produtivo do país, mas a promoção do indivíduo. Aprender não servia para desenvolver, digamos, o potencial económico, mas a personalidade. A educação bastava-se a si mesma. A aprendizagem educou os estudantes para serem eruditos, espíritos cultos, mas não empresários, e é isso que explica que não se veja surgir à volta de nenhuma universidade alemã uma cena de start-ups comparável à da Universidade de Stanford, na Califórnia.”
Respirar fundo… Diz Fernando Alexandre: Desculpem lá, o Estado não pode andar a gastar dinheiro numa educação que se baste a si mesma, que sirva para formar indivíduos autónomos, bem formados e com uma personalidade desenvolvida. Não, em vez de ideias humanistas, precisamos de “princípios económicos”. Gaste-se dinheiro não a desenvolver personalidades, mas “potenciais económicos”. Em vez de eruditos e espíritos cultos, são precisos empresários. Dizer isto, não diz. Mas é assim que age.
Com caracterizações tão claras dos “problemas”, não surpreende que a conclusão geral de The Pioneer seja cristalina: “Os cinco módulos fundacionais desenvolvidos entre 1800 e 1957 – o Estado de funcionários prussiano, o sistema de segurança social bismarckiano, o sistema redistributivo de Adenauer, o ideal educativo humboldtiano e a lógica industrial da era dos fundadores – deixaram de servir verdadeiramente o nosso país. Por causa deles, a Alemanha dá uma aparência de desaceleração e degradação no plano internacional. A nostalgia não é modelo de negócio.”
Mais vale falar novilíngua…
Admita-se: não é fácil o trabalho de um político burguês dos nossos dias, intitule-se ele “social-democrata” (o PSD só, precisamente, por “novilíngua” se chamou assim, para ver se ganhava uns votos de um povo que odiava a ditadura; historicamente social-democrata é o PS, não o PSD), “democrata-cristão” ou mesmo chegoso.
Não é fácil dizer na cara dos eleitores, por exemplo, que uma dada política serve para aumentar os lucros dos grandes grupos económicos e os dividendos dos accionistas e para reduzir o salário real de 90% da população trabalhadora; que a política do governo serve para acabar com a saúde pública gratuita, porque sai muito cara; e serve para acabar com o ensino público, de modo que a qualidade do ensino passe a depender das posses dos pais.
Logicamente, não é todos os dias que se ouvem defensores políticos dos nossos governos a descrever com esta clareza brutal os objectivos das políticas em curso.
É politicamente muito mais seguro dizer coisas deste género: “é fundamental atrair os investidores”; “é necessário criar riqueza para depois poder distribuí-la”; “visamos um aumento do salário médio para 1500 euros em 2030”; “há que combinar os pilares, público, privado e social do ‘sistema’ de saúde”; “é preciso regionalizar o país e descentralizar a contratação de professores” e por aí fora, segundo a inspiração das empresas de comunicação contratadas por bom dinheiro.
Não é todos os dias que se ouvem defensores políticos dos nossos governos a descrever com esta clareza brutal os objectivos das políticas em curso.
Bom, mas o que interessam os problemas da Alemanha ao trabalhador português?
Interessam muito. O programa para abater estes “pilares do declínio” é exactamente o programa que todos os Estados e governos europeus estão a aplicar sob a batuta centralizada da Comissão Europeia — embora usando, naturalmente, linguagem mais mendaz e sub-reptícia.
Acabar com a segurança do emprego e os direitos dos funcionários; destruir a segurança social e as “pensões-sucedâneo-do-salário”; acabar com a indústria “obsoleta” e com um ensino público que forma cidadãos em vez de empresários — tal é o molde comum de todos os programas em aplicação na era Von der Leyen.
Por exemplo, as pensões
Pouco tem transpirado, por exemplo, do que se prepara nos bastidores de Bruxelas em matéria de pensões.
Os ministros das Finanças em funções de França e da Alemanha convidaram o antigo ministro das Finanças alemão, Jörg Kukies, e o antigo governador do Banco de França, Christian Noyer, a proporem medidas concretas e viáveis para melhorar o acesso das “empresas [europeias] de elevado crescimento” aos capitais de que precisam. O pedido insere-se na agenda de promoção da União Europeia de Poupanças e investimentos (SIU), cujo chefe de fila é uma tal comissária Maria Luís Albuquerque, de troikana memória.
O relatório das eminências foi entregue no mês de Janeiro de 2026. Conclui que a principal causa de não ter surgido na Europa nenhuma das empresas de tecnologia com capitalização em bolsa de cem mil milhões de euros ou mais (surgiram todas nos EUA) nos últimos cinquenta anos “radica profundamente no sistema [europeu] de previdência na velhice. As pensões de financiamento distributivo da Europa não geram praticamente alfobres (pools) de capital para investimento: os activos de pensões representam meros 25% do PIB — contra 150% nos EUA. O efeito é decisivo: mais de 70% do capital de risco americano provém de investidores institucionais, um “ecossistema” de que a Europa carece”.
Ao noticiar a publicação deste relatório, no dia 22 de Janeiro, a mesma The Pioneer conclui que o “problema da Europa com a inovação não é um problema de ideias, é um problema de capital. Sem mercados de capitais mais profundos, sem capital de longo prazo movido pelas pensões e sem determinação política, enquanto outros continuam a dar saltos de escala, a Europa vai continuar a inventar”.
A solução deles é simples: transformar o património da segurança social em capital posto à disposição dos capitalistas, para estes com ele poderem especular, fazer fortunas — ou ir à falência, como aconteceu amiúde no Chile ou nos Estados Unidos, destruindo as pensões futuras dos trabalhadores.
O património da segurança social não é capital; é salário diferido dos trabalhadores. As pensões saem dos descontos aos nossos salários actuais, que esse património guarda para o futuro.
A alquimia liberal: transformar esse salário em capital, tirando-o aos trabalhadores e devolvendo-o aos patrões.
Contra o programa de demolição do capital, um programa dos trabalhadores
Tal é, a nu na sua promessa de miséria e barbárie, o programa de demolição de todas as conquistas dos movimentos operários europeus conseguidas no pós-II Guerra Mundial.
A ofensiva é, como se vê, concertada e séria, discutida entre os grandes banqueiros e políticos e arejada na imprensa que os serve.
Só será possível derrotar este programa com outro programa, igualmente claro, o programa do próprio movimento operário, que transforme o capital em património social, retirando-o aos capitalistas e entregando-o à democracia.
Esse programa: abertura dos livros de contas dos capitalistas e controle operário; expropriação sem indemnização da banca e das grandes empresas dos sectores básicos da economia, sob controle dos trabalhadores; restauração do ensino público universal, democraticamente gerido pelos próprios professores e estudantes; serviço nacional de saúde público, gratuito e universal; municipalização dos solos urbanos; rendas nunca superiores a um terço do rendimento das famílias; nem um tostão, nem um homem para a guerra, ruptura com a NATO/UE; programa de obras públicas em grande escala que crie habitação digna para todos, hospitais e centros de saúde, escolas e transportes públicos ao serviço dos trabalhadores; crédito barato aos pequenos agricultores e artesãos e à pequena empresa.
1 “Outdated: Das Betriebssystem der Bundesrepublik” (O sistema operativo da Alemanha está desatualizado), The Pioneer, 21/11/2025.
Porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”?
Porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”? Porque se plantam espécies florestais quase sempre em monocultura, de maneira que, quando acontece alguma coisa, a devastação é total, seja incêndio ou vendaval?
Além do ímpeto solidário de acudir às populações que mais sofreram, as violentas tempestades que assolaram o país suscitam muita reflexão, muitos porquês.
Porque foram as populações forçadas a abandonar quase todo o país e a concentrar-se numas poucas zonas urbanas no litoral?
Porque se faz, nestas zonas, a construção cada vez mais longe dos centros (mesmo quando há espaço nestes), com materiais inadequados para as condições climáticas e para o conforto dos habitantes, sem planeamento urbano, transportes acessíveis, equipamentos adequados de saúde e ensino, zonas verdes e espaços seguros para crianças?
Porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”?
Porque se plantam espécies florestais quase sempre em monocultura, de maneira que, quando acontece alguma coisa, a devastação é total, seja incêndio ou vendaval?
Os economistas costumam usar uma palavra muito “técnica”, novilinguística, para se referirem a estas consequências nefastas do desenvolvimento capitalista: externalidades.
O princípio básico da “economia de mercado” capitalista é simples: todas as relações económicas e sociais ocorrem em mercados. Nada do que se produz se faz para satisfazer as necessidades do produtor ou da comunidade a que pertence. Tudo se produz a pensar em encontrar compradores num mercado, próximo ou longínquo, onde se possa vender o produto com lucro.
Tanto a produção de bens e serviços como o seu consumo pelos indivíduos e famílias não têm, portanto, nada que ver com as deliberações de cada comunidade sobre o que se há-de produzir, como, quando, para quê e para quem.
Em vez disso, “investidores” que dispõem de capitais estimam quanto custarão nos mercados as fábricas que terão de construir, as máquinas e matérias-primas que terão de comprar e os salários que terão de pagar aos trabalhadores que precisarem de empregar; se virem que há ou haverá mercado lucrativo para o que se propõem produzir, avançam.
A doutrina liberal ensina que nenhum método de organização social é superior a este: a miríade de decisões independentes de investimento com fim lucrativo terá o efeito miraculoso de os recursos sociais disponíveis serem usados da maneira mais eficiente possível para a sociedade como um todo. Uma espécie de mão invisível guiaria as decisões egoístas de cada capitalista para um resultado global que, nas condições dadas, é, no fundo, “altruísta”, uma vez que socialmente melhor não será possível.
O observador céptico pode achar: “Bem, se eu fosse um desses capitalistas que quer fazer dinheiro, acharia esta teoria utilíssima — apesar de parecer um bocado estapafúrdia…” Estapafúrdia, realmente: vendo bem, o único resultado evidente de organizar assim os recursos da sociedade é que o capitalista, pelo menos o capitalista bem-sucedido, atinge o seu fim, que é multiplicar o seu capital. Quanto ao mais…
Voltemos às “externalidades”.
Os produtos ou serviços em cuja produção o capitalista decidiu investir não são a única consequência do seu investimento.
Por exemplo, a exploração mineira, depois de o respectivo capitalista ter comprado ou concessionado o terreno, comprado ou alugado maquinaria e combustíveis, contratado pessoal e pagado impostos, não produz apenas matérias-primas prontas para vender a compradores industriais. Também produz uma transformação profunda do território em que se faz; pode obrigar populações a deslocarem-se; polui cursos de água e a atmosfera; causa doenças graves aos operários e aos habitantes; altera ou destrói ecossistemas.
O mesmo no caso da indústria transformadora; e da agricultura intensiva; e da exploração florestal.
No entanto, na sua esmagadora maioria, estes “efeitos colaterais" da produção capitalista não têm preço em nenhum mercado. O capitalista não tem de pagar por eles nem de incluí-los nos seus cálculos de rentabilidade.
Os efeitos colaterais não são “privados”. São custos sociais futuros. Terão, aliás, mais tarde ou mais cedo, de ser pagos: no custo de brigadas de bombeiros, de tratamentos hospitalares, de evacuações de populações, de despoluição de territórios.
Para o capitalista investidor, porém, não são custo algum.
Melhor: o preço da eventual reparação futura desses efeitos será pago por quem sofre os danos ou pelo Estado; neste caso, com o dinheiro cobrado em impostos à população em geral. Que é usado para comprar produtos e serviços em mercados — lucrativos — de construção civil, manutenção de infra-estruturas, etc.
Mas porque não têm esses capitalistas, que investem para ganhar dinheiro e, nisso, transformam “colateralmente” a natureza e a organização social e territorial, que pagar por esses efeitos colaterais?
As catástrofes total ou parcialmente resultantes de efeitos colaterais de investimentos capitalistas geram, assim, novos mercados para os mesmos capitalistas, ou outros, poderem fazer negócios lucrativos.
Pergunta-se: mas porque não têm esses capitalistas, que investem para ganhar dinheiro e, nisso, transformam “colateralmente” a natureza e a organização social e territorial, que pagar por esses efeitos colaterais?
Há uma resposta simples, que eles próprios poderiam dar: se todos esses efeitos colaterais previsíveis fossem carregados a custo do investimento privado, nenhum investimento privado se faria, porque não seria lucrativo. Ora, os tais efeitos ocorrem; e ocorrendo, têm um custo.
Esse custo representa, consequentemente, uma gigantesca subvenção dada ao capital pelo Estado — essencialmente, aliás, pelos trabalhadores em geral, que, além de arcarem quase sempre com os efeitos directos das catástrofes na saúde, nas condições de vida e de trabalho, são quem paga os impostos de onde o Estado paga as subvenções virtuais ao capital.
A conclusão, para quem não tenha antolhos: numa sociedade complexa, em que todo o país é afectado por tudo o que se faz social e economicamente em qualquer parte do território (o mesmo se aplica ao mundo), só é possível controlar o destino social, económico e ambiental do país e do mundo se todas as decisões importantes, nos domínios social, económico e ambiental, forem tomadas não por investidores empenhados em tirar as castanhas do lume (sem se importarem que o lume pegue fogo a tudo o resto), apoiados para o efeito na propriedade privada dos meios de produção, mas por toda a população trabalhadora, democraticamente.
A nova milícia fascista de Trump, a ICE, tem licença para matar. Mas o imperialismo americano, que Trump comanda, mata e intimida pelo mundo fora.
A nova milícia fascista de Trump, a ICE, tem licença para matar. Mas o imperialismo americano, que Trump comanda, mata e intimida pelo mundo fora.

No passado dia 7 de Janeiro, em Minneapolis, no estado americano de Minnesota, Renee Good, uma mulher de 37 anos, mãe de três filhas, fez uma manobra com o carro para se afastar do local de uma rusga da polícia anti-imigrantes, a ICE. Um dos agentes assassinou-a a sangue frio, disparando-lhe vários tiros na cabeça à queima-roupa.
A ICE (Immigration and Customs Enforcement) era, até há pouco mais de um ano, o “SEF” norte-americano: guarda fiscal e de fronteiras.
Trump mudou-lhe a natureza. Em poucos meses, fê-la passar de seis para dezasseis mil agentes, dobrando-lhe o orçamento para 2 mil milhões de dólares.
Os novos recrutas foram atraídos por anúncios de teor abertamente racista e homicida. Ao fim de poucas semanas de treino, foram armados até aos dentes, com licença para disparar e matar a seu bel-prazer, com imunidade conferida pelo presidente.
A ICE é hoje uma organização paramilitar fascista encarregada de dar caça a quem quer que “pareça” mais ou menos imigrante (ou seja, pouco “ariano”). Foi transformada numa versão americana das SS nazis. Muitos comentadores norte-americanos comparam-na abertamente com a Gestapo de Hitler (por exemplo Robert Reich, antigo ministro do Trabalho de Clinton). Venha o diabo e escolha.
No mesmo dia em que os seus esbirros executavam Renee Good, Trump anunciou que tencionava aumentar o orçamento militar dos EUA dos cerca de 900 mil milhões de dólares previstos para 2026 para 1,5 biliões (1.500.000.000.000) de dólares em 2027.
É um aumento de 66% de um ano para o outro. De um orçamento que já era superior à soma dos orçamentos militares de todas as quatorze potências militares que se lhe seguiam: China, Rússia, Alemanha, Reino Unido, Índia, Arábia Saudita, Japão, Ucrânia, França, Coreia do Sul, Itália, Israel, Polónia e Austrália….
Para ter uma ideia: o novo valor é sensivelmente equivalente a tudo o que os quase 50 milhões de trabalhadores do Estado espanhol produzem num ano.
Só o aumento pedido é tanto como o total do gasto militar somado da China, Rússia, Alemanha, Reino Unido e Índia em 2025.
A coincidência destes dois eventos é tudo menos coincidência.
O mundo que Trump promete, depois do genocídio em Gaza, da invasão da Venezuela e do rapto de Maduro, é um mundo de submissão do mundo inteiro à bota americana (a Estratégia de Segurança Nacional 2025 di-lo com todas as letras).
Quem não se submete morre.
Mas atenção: a ofensiva imperialista não se limita nem à América Latina nem à guerra interna contra os trabalhadores americanos insubmissos.
Na mesma “lógica” da pilhagem do petróleo venezuelano, Trump também quer a Gronelândia. A ilha é um imenso território árctico, sob domínio da Dinamarca — e, consequentemente, membro da NATO — , com um subsolo rico em zinco, grafite, cobre, lítio, terras raras...
A 11 de Janeiro, Trump avisou que os Estados Unidos, “dê lá por onde der”, assumiriam o controlo da Gronelândia — pois, “se não formos nós a fazê-lo, fazem-no a Rússia ou a China”. Seis dias depois, o ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês informou que a Dinamarca não “venderia” a ilha. Em resposta, Trump anunciou direitos aduaneiros sobre todas as importações de nove países europeus, em aumento progressivo. Entre os visados: Alemanha, Dinamarca, França, Suécia, Finlândia, Países Baixos. Todos eles membros da NATO.
Valente, a Dinamarca logo anunciou que organizaria manobras militares na Gronelândia.
Confirmando a sua lendária virilidade, a Alemanha enviou um contingente militar para participar nas manobras militares comandadas pela Dinamarca: nada menos que treze soldados.
Não menos enfaticamente, o chefe militar da Dinamarca declarou que, embora, nos últimos dois anos, nenhum navio de guerra russo ou chinês se tivesse avistado num raio de 2 mil quilómetros da Gronelândia, as manobras seriam dirigidas contra a ameaça… russa!
Enfim, o que são dois anos!? E o que são dois mil quilómetros!?
Noticiou-se, também, que 85% da população da ilha, incluindo a significativa fracção que não concorda com a suserania colonial dinamarquesa, se opõe aos desígnios de Trump.
(Mas alguém quer saber disso? Ficaram as multinacionais americanas impressionadas?)
A empresa imperialista diz respeito ao mundo inteiro.
Depois das instalações nucleares do Irão, Trump já mandou, no espaço de poucos dias, bombardear a Nigéria (27 de Dezembro), a Venezuela (3 de Janeiro) e a Síria (10 de Janeiro) — esta, já bombardeada por aviões franceses e britânicos no dia 4 de Janeiro.
O pretexto, no caso, não é o “narcoterrorismo”; é o “terrorismo jihadista”.
Mesmo?
A 6 de Janeiro, a administração norte-americana anunciou que “o novo governo da Síria e Israel vão criar uma estrutura comum, sob a supervisão dos Estados Unidos, para partilharem informações e fazer pela diminuição das tensões entre os dois países”. Trump não parece ter grandes problemas em apoiar-se no antigo chefe jihadista Al-Sharaa, actual presidente da Síria, cujas tropas, enquanto isso, bombardeiam a população curda de Alepo.
Às autênticas manifestações populares contra a carestia e o regime teocrático misturam-se tentativas igualmente autênticas de manipulá-las, orquestradas pelas forças monárquicas e pelos serviços secretos norte-americanos e israelitas.
Trump vai mantendo a incerteza: intervenção militar? Negociações com os aiatolas? Restauração da monarquia derrubada pela revolução popular em 1979?
No mesmo dia em que Trump anunciava o incomensurável aumento do orçamento militar e os seus esbirros nazis matavam Renee Good, os mercados reagiram da única maneira que sabem. Só nessa sessão, as acções das maiores empresas do armamento subiram: Lockheed Martin (LMT.N): 6.2%; General Dynamics (GD.N): 4.4%; RTX: 3.5%.
O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Em Novembro de 2025, Trump anunciou a nova Estratégia de Segurança Nacional norte-americana. Modestamente, como é seu hábito proclamou: “Este documento é um roteiro para garantir que os Estados Unidos continuem a ser a nação mais grandiosa e bem-sucedida da história
Em Novembro de 2025, Trump anunciou a nova Estratégia de Segurança Nacional norte-americana. Modestamente, como é seu hábito proclamou: “Este documento é um roteiro para garantir que os Estados Unidos continuem a ser a nação mais grandiosa e bem-sucedida da história da humanidade e o berço da liberdade na Terra.”
A publicação da “Estratégia de segurança nacional” (NSS) dos Estados Unidos em Novembro passado suscitou fortes emoções e reacções, principalmente na Europa institucional.
O documento regista, com efeito, o “declínio económico da Europa”.
Mais notável, no entanto, é ele considerar que esse declínio económico é “eclipsado” pela “perspectiva de obliteração da civilização” europeia a que as políticas dos dirigentes do continente levam — tornando “mais do que plausível” que, daqui a vinte anos, a Europa deixe de ser “europeia”. Subentende-se sem dificuldade: a “raça branca” europeia irá ser superada por “raças” africanas, árabes e asiáticas, inimigas da América branca.
A NSS reflecte, assim, sem pudor, a propaganda nazi sobre a “substituição populacional” na Europa. E é tudo menos velado o apoio que promete aos partidos e dirigentes neofascistas (“patriotas”) europeus: Meloni, Orban, Chega, Vox, AfD, RN…
Não obstante, não podia ser mais absurda a conclusão de alguns assustados comentadores europeus — e portugueses1 — de que a estratégia trumpiana designa a “Europa” como “inimigo principal” do império americano.
Em quase toda a extensão do documento, a administração Trump dedica-se a descrever como combater e atacar a China, apesar de a palavra ser pouco usada no documento2.
Assim, se a primeira prioridade da estratégia americana (O que queremos no e do mundo?) é o controle absoluto dos Estados Unidos sobre o “hemisfério ocidental”3, não se deixam dúvidas sobre o que está em disputa.
Essencialmente, trata-se de manter o hemisfério “livre das incursões hostis e da propriedade de activos essenciais” por “externos” (leia-se: pela China) e de manter o acesso dos EUA “a localizações estratégicas essenciais” (leia-se: expulsando, por exemplo, a empresa de Hong Kong proprietária dos portos do canal do Panamá e impedindo a entrada de capitais chineses no aço e nas “tecnológicas” americanas); “deter e reverter o mal que actores externos têm infligido à economia americana, mantendo, do mesmo passo, o Indo-Pacífico [não exactamente “hemisfério ocidental”!] livre e aberto, salvaguardando a liberdade de navegação em todas as rotas marítimas críticas e mantendo cadeias de abastecimento seguras e fiáveis, bem como o acesso a materiais críticos” (leia-se: manter o controle naval do canal do Suez, dos estreitos de Ormuz e de Malaca, do mar da China Meridional e das novas rotas do Ártico e o acesso às terras raras chinesas. Hemisfério ocidental?)
A maneira de assegurar tais desígnios é indicada sem subterfúgios diplomáticos: “queremos recrutar, treinar, equipar e pôr no terreno o exército mais poderoso, letal e tecnologicamente avançado do mundo para proteger os nossos interesses, deter guerras e — se necessário — ganhá-las rápida e decisivamente, com o mínimo de baixas das nossas forças”. Além, naturalmente, do “dissuasor nuclear mais robusto, credível e moderno do mundo, bem como defesas antimísseis de novíssima geração — incluindo uma Abóbada Dourada sobre a América — que protejam o povo americano, o património americano no estrangeiro e os aliados da América.”
Eis o que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário.
Falando directamente da China, a “estratégia de segurança nacional” refere que Trump reverteu mais de três décadas de suposições erradas a respeito daquele país, a saber, que a abertura de mercados à China, os incentivos ao investimento americano na China e à deslocalização industrial para a China conduziriam à integração daquele país na “chamada ordem internacional assente em regras” (a ordem mundial ao serviço dos interesses americanos) — coisa que “não aconteceu”.
Daí a necessidade de “reequilibrar a relação económica da América com a China”: acabando com “estratégias industriais e subsídios estatais predatórios; práticas comerciais injustas; a destruição de empregos e a desindustrialização; o roubo de propriedade industrial e a espionagem industrial em grande escala; ameaças às nossas cadeias de abastecimento que ponham em risco o acesso dos EUA a recursos críticos, designadamente minerais e terras raras; (...) propaganda, operações de influência e outras formas de subversão cultural”. Exige-se, para tal fim, o concurso da “Europa, do Japão, da Coreia, da Austrália, do Canadá, do México e de outras nações importantes”.
Corresponda ou não à prática do Estado chinês esta descrição, ela corresponde sem sombra de dúvida à caracterização que dela têm feito as administrações americanas.
Trata-se, portanto, sem equívoco, de acabar com o Estado chinês na sua forma actual por meio de uma estratégia política, comercial e militar que lembra fatalmente o cerco à União Soviética e o avanço inexorável da NATO sobre as fronteiras da URSS (e, depois, da Rússia) que caracterizaram a política americana pelo menos desde Reagan.
Todo o capítulo sobre a “dissuasão de ameaças militares” é dedicado à preparação do confronto político-militar com a China: “uma relação de forças militar convencional favorável continua a ser uma componente essencial da competição estratégica. O foco está muito, e bem, em Taiwan, em parte por esse país dominar a produção de semicondutores, mas, sobretudo, porque Taiwan dá acesso directo à Segunda Cadeia Insular [as ilhas onde os EUA detêm colónias e bases militares importantes situadas a oriente do Japão e doutras ilhas mais próximas do continente chinês], dividindo a Ásia em dois teatros [militares] distintos, Nordeste e Sudeste. O facto de dois terços do transporte marítimo passarem pelo mar da China Meridional tem implicações de primeira ordem para a economia americana. Deter um conflito por Taiwan, de preferência mantendo a nossa superioridade militar, é, pois, uma prioridade. (...) Poremos de pé uma força militar capaz de impedir agressões em qualquer ponto da Primeira Cadeia Insular. Contudo, as forças armadas americanas não podem nem devem ter de fazê-lo sozinhas. Os nossos aliados [Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, Nova Zelândia] têm de responder presente e gastar — e, ainda mais importante, fazer — muito mais pela defesa colectiva. (...) É imperioso desenvolver as medidas de força e dissuasão necessárias para manter essas rotas abertas, livres de “portagens” e não sujeitas a encerramento arbitrário por algum país.”
Pese aos comentadores que estranham a linguagem aparentemente menos hostil à China (e à Rússia) do que a usada na doutrina da primeira administração Trump, a NSS 2025 é transparente nas suas prioridades — e no número de páginas dedicado a cada “região”:
— acabar com a actual economia e Estado chinês, ainda predominantemente assente na propriedade estatal dos meios de produção;
— acabar com a guerra “lateral” da NATO com a Rússia pela Ucrânia, agora que a Rússia já está significativamente desgastada; ou então deixá-la supurar, mas exclusivamente à custa dos orçamentos e das economias dos imperialismos europeus e para lucro da indústria armamentista americana;
— promover um surto sem precedentes da economia do armamento e cavar a superioridade das forças armadas americanas, transferindo, de passagem, maciçamente lucros para o capital americano em prejuízo dos concorrentes menores, europeus e não só;
— no Médio Oriente, apoiar sem reservas os regimes feudais e Israel, acabando com quaisquer fantasias de “democratização”.
— explorar sem limites os recursos dos países do “terceiro mundo”, acabando com as fantasias da “ajuda ao desenvolvimento”.
Este é o mundo que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário. Um mundo de ditaduras e de destruição da democracia.
Todos os poderosos do mundo rastejam e capitulam, uns atrás dos outros.
A única oposição aos bárbaros desígnios do imperialismo é a que lhes montem as classes trabalhadoras: da América, da Europa, da Ásia e do mundo.
1 Por exemplo, no Expresso de 12 de Dezembro, Miguel Monjardino escreve que “o principal adversário dos EUA em todo o documento parece ser a União Europeia, vista agora em Washington como um projeto das elites liberais e internacionalistas que se opõe aos seus valores políticos e interesses tecnológicos e comerciais.”
2 A razão principal da aparência algo fantasmática do alvo chinês é dupla, como refere The Economist (26/12/25): a cimeira Trump-Xi Jinping de Abril de 2026, que os negociadores americanos estão a preparar intensamente, querendo evitar interferências diplomáticas até lá; e batalhas intestinas na administração americana, entre vários interesses que se cruzam.
3 Na definição da NSS, hemisfério ocidental parece referir-se principalmente às Américas, de Norte a Sul. No entanto, tradicionalmente, também inclui a Europa Ocidental. O documento deixa ambiguidade a este respeito, tratando a Europa à parte.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral ou, não podendo, aplaudia quem a fazia, o primeiro-ministro Montenegro e o seu inexpressivo ministro da propaganda Amaro encontraram um bom motivo para se ufanarem.
Entre o país parar e Montenegro e a sua ministra do Trabalho fugirem das câmaras como o diabo da cruz, saíra uma prenda inesperada na rifa do governo.
A revista The Economist anunciava a eleição da economia portuguesa como a “melhor da OCDE” em 2025.
The Economist é uma velha revista económica e política anglo-saxónica. Há mais de 150 anos que alimenta o diálogo interno das elites do capital financeiro mundial, longe das interferências do “grande público”. Não cultiva, do capitalismo, a propaganda vulgar das penas compradas, mas uma propaganda mais culta e refinada.
E ninguém parece ter ido ver as razões que exactamente fundamentaram a atribuição do galhardete, os critérios das “notas” de The Economist.
Ei-los aqui: “Em 2025 [Portugal] combinou um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma bolsa esfuziante.”
Crescimento do PIB: porque “o turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos”.
“Bolsa esfuziante”: porque lucros e dividendos subiram em flecha, não se conhece outra forma de a bolsa “esfuziar”.
“Inflação moderada” porque… The Economist tem o cuidado de retirar dos índices de inflação convencionais os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis: são “voláteis” — pesarão, talvez, na bolsa de quem trabalha; mas, para milionários, são amendoins!
O turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos.
Tudo isto, no mesmo momento em que a classe trabalhadora da “melhor economia da OCDE” entrava, pela primeira vez em mais de uma década, em greve geral unida, exasperada pela degradação dos salários, dos horários e ritmos de trabalho, da habitação, do SNS e dos serviços públicos e levada ao rubro pelo projecto de devolver as relações de trabalho ao nível da Idade Média.
É impossível não recordar 2012 e a troika.
Era primeiro-ministro Passos Coelho, de triste memória; era chefe do grupo parlamentar do PSD um Luís Montenegro ainda não spinum-renascido. O ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, saiu-se com uma sentença involuntária e inesquecivelmente brilhante: “O país está melhor, mas as pessoas estão pior.”
Os méritos de Gaspar no engrandecimento do país pelo empobrecimento dos seus habitantes foram inegáveis — e de tal modo ofuscaram os píncaros da finança mundial, na “pessoa” do FMI, que este em breve lhe proporcionou um cargo de direcção na augusta instituição. O tirocínio ministerial concluíra-se, com efeito, pouco antes, tendo-se o dito ministro, segundo lenda talvez urbana, demitido depois de ser alvo dos escarros dos seus concidadãos num supermercado de Lisboa (não se sabendo se terá dito “chateia-me que me cuspam em cima”).
O certo, porém, é que o gaspariano lema fez carreira. Tornou-se política oficial de todos os governos que lhe sucederam: uns, de mais delicada geringonça, outros de mais bruta matraca — como o actual, chefiado pelo poldro do multimilionário Violas dos casinos.
Regressemos, pois, à distinção dada pela revista da alta finança. Atentando nos critérios em que ela se baseou, vê-se que Montenegro teve a merecida homenagem por tornar, de facto, o “país cada vez melhor”, pondo “as pessoas cada vez pior”.
Mas “pessoas” é nome algo genérico. Abram-se honrosíssimas excepções para os proprietários dos novíssimos Porsches, Ferraris e outras altas cilindradas que sulcam as auto-estradas da melhor economia da OCDE.
Tal é a comenda e a sina de Montenegro: sim, põe o povo cada vez pior; mas que grande vida dá aos “estrangeiros ricos” que vivem dos impostos dos portugueses e imigrantes pobres, e para os portugueses ricos que vivem de manter o sistema que esmifra estes e beneficia aqueles!
Para The Economist como para Montenegro, “país” são os portugueses ricos e os novos estrangeiros ricos.
Para mal deles, as “pessoas”, os trabalhadores, portugueses e imigrantes, que estão cada vez pior, não estão dispostos a aguentar muito mais.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Adriano Zilhão entrevistou para o Maio Marcel Borges, presidente da ASITRAP – Associação dos Imigrantes e Trabalhadores por Aplicação, que nos falou sobre as condições de vida e de trabalho dos trabalhadores das grandes plataformas, como a Uber ou a Glovo e também dos TVDE
Adriano Zilhão entrevistou para o Maio Marcel Borges, presidente da ASITRAP – Associação dos Imigrantes e Trabalhadores por Aplicação, que nos falou sobre as condições de vida e de trabalho dos trabalhadores das grandes plataformas, como a Uber ou a Glovo e também dos TVDE e as consequências que para eles teria a aprovação do pacote laboral do Governo Montenegro.
Se o objectivo de Mamdani é realmente executar o programa com que se apresentou, o melhor é romper rapidamente com o Partido Democrático e convocar os trabalhadores e os jovens
Se o objectivo de Mamdani é realmente executar o programa com que se apresentou, o melhor é romper rapidamente com o Partido Democrático e convocar os trabalhadores e os jovens, em Nova Iorque e em todo o país, para lançar as bases de um autêntico Labor Party, que não hesite em reclamar-se do socialismo”.

Zohran Mamdani ganhou há dias as eleições para a Câmara Municipal de Nova Iorque com mais de 1 milhão de votos — mais de 50% dos votos expressos.
Mamdani ganhou as eleições com uma campanha radical, de mobilização. Trouxe para a rua dezenas de milhares de trabalhadores e jovens, por reivindicações que os chefes do Partido Democrático classificaram como demasiado radicais e Trump como “comunistas”: congelamento das rendas, creches gratuitas para todas as crianças de menos de 5 anos, transportes públicos gratuitos, mercearias populares. Tudo reivindicações que iam ao encontro da população trabalhadora e pobre de Nova Iorque, para quem viver numa das cidades mais caras do mundo é um inferno.
Mamdani concorrera antes às “primárias” do Partido Democrático e ganhara. Foi, assim, o candidato oficial do partido. O seu principal oponente era Andrew Cuomo, o ex-governador do Estado de Nova Iorque, democrata também, mas concorrendo como “independente”, porque derrotado por Mamdani nas primárias.
A votação foi esmagadora: mais de 1 milhão de votos para Mamdani, maioria absoluta. Sem precedentes, há décadas.
A vitória de Mamdani tem, porém, muitas singularidades. Há um ano, era um perfeito desconhecido. Imigrante de origem indiana nascido em África, era e é militante dos Democratic Socialists of America (DSA), uma organização política interna ao Partido Democrático. Nas fileiras dos DSA contam-se, por exemplo, Alexandria Ocasio-Cortez e alguns outros deputados democratas.
O Partido Democrático, saliente-se, é um dois partidos históricos do grande capital americano. É o partido dos grandes financeiros de Wall Street. De socialista, não tem nada. Foi o partido dos presidentes Kennedy e Johnson, da guerra do Vietname; de Clinton e Obama e Biden, das invasões e guerras sem fim no Médio Oriente…
Nós, no Maio, só nos podemos congratular por ver um candidato que se declara socialista ganhar a Câmara Municipal de Nova Iorque. Tanto mais que o suporte da sua candidatura foi a mobilização de dezenas de milhares de jovens e trabalhadores.
Se Zohran Mamdani conseguir executar o programa de congelamento de rendas e outras reivindicações dos mais pobres, que alívio será para estes!
O Partido Democrático, saliente-se, é um dois partidos históricos do grande capital americano. É o partido dos grandes financeiros de Wall Street. De socialista, não tem nada
Mas conseguirá ele levar a cabo esse programa, dentro de tal partido?
Trump manifestou ruidosamente a sua raiva com a eleição de Mamdani. A administração federal e os grandes grupos capitalistas tudo farão para sabotar os seus planos.
Que fará Mamdani? Defender-se-á, apelando para a mobilização das massas trabalhadoras e dos jovens que nele votaram? Ou, dependente, orgânica e financeiramente do Estado de Nova Iorque e da administração central, deixar-se-á emaranhar nas redes de interesses, dominar pelas “inevitabilidades”, volver-se, por fim, em mais um radical domesticado pelo sistema?
Uma coisa é certa. Não será o Partido Democrático que o vai defender. Zohran Mamdani faria bem em lembrar-se das lições da “vitória” de Mitterrand em 81 — e da sua viragem para a “austeridade” um ano depois; de Syriza e Tsipras, na Grécia, que desafiaram a austeridade imposta pela troika da Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu, apelaram para o apoio do povo grego, em referendo, para romper com o diktat dos banqueiros, ganharam estrondosamente o referendo… e dias depois capitularam miseravelmente ante a UE e a banca.
Pela nossa parte, só podemos incentivar Mamdani a romper com o Partido Democrático. Se o objectivo é executar o programa com que se apresentou, o melhor é que ele rompa rapidamente. Mais: que convoque, em Nova Iorque e em todo o país, os trabalhadores e os jovens para lançar as bases de uma autêntica política e de um autêntico Labor Party, que não hesite em reclamar-se do socialismo — como Zohran Mamdani faz, mas só pessoalmente, sem largar a filiação no Partido Democrático.
Entre reivindicar o socialismo e reivindicar o Partido Democrático, o que é costume é a filiação no Partido Democrático levar a melhor…
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