A bola e o tricô
1.ª parte
O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória.
Durante várias décadas, o Liceu Pedro Nunes foi a coqueluche dos liceus lisboetas. Apenas lá entravam os melhores alunos, por regra oriundos de “boas famílias”; de lá saíram incontáveis figuras que viriam a destacar-se na sociedade portuguesa: cientistas, artistas, políticos. Aí estudaram Simone de Oliveira, António Lopes Ribeiro, Francisco Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Sampaio, Álvaro Cunhal, Bento de Jesus Caraça, Rómulo de Carvalho (António Gedeão) e tantos mais.
Não era um liceu como os outros. Quase todos os professores eram metodólogos, isto é, professores universitários ali colocados para fazerem experiências pedagógicas inovadoras. Os programas de ensino das várias disciplinas não seguiam o currículo aprovado a nível nacional, eram mais avançados e experimentais. Mais tarde, a nação inteira haveria de adoptá-los, por serem mais adequados ao progresso da ciência e da sociedade. Uma das inovações do liceu consistia no facto de ser misto, com rapazes e raparigas juntos na mesma sala de aula.
As instalações do liceu situam-se no topo da Avenida Álvares Cabral, mesmo em frente ao Jardim da Estrela. Mais abaixo, a meio da avenida, ficava o defunto Jardim Cinema, conhecido por Palhinhas, devido ao material de que eram feitas as cadeiras da sala de cinema. Tinha, além da grande sala de cinema com plateia, balcão e piolho, salão de festas e um amplo salão de jogos com bilhares, jogos de tabuleiro, matrecos e um andar superior com mesas de pingue-pongue. Como não podia deixar de ser, depois das aulas era inundado pelos cábulas do Liceu Pedro Nunes, que ali fizeram grande parte do seu currículo.
A dada altura, a reitoria do Liceu Pedro Nunes ter-se-á apercebido de que ter alunos provenientes da elite social era muito bonito, mas excluía a hipótese de captar algum génio que por obra do acaso tivesse nascido da ralé. Para obviar este inconveniente, foi criada uma “secção” do liceu, onde seriam admitidos alunos com menos pergaminhos ou menor rendimento escolar. Passou a haver um reitor na sede e um vice-reitor na “secção”. Esta extensão do Pedro Nunes foi instalada no edifício de uma antiga escola primária, do outro lado do Jardim da Estrela, e dada a composição, origem e comportamento da sua população estudantil, foi unanimemente alcunhada O Texas.
O Texas leccionava apenas até ao quinto ano liceal (actual nono ano de escolaridade) e não tinha direito a metodólogos. A partir do quinto ano, os melhores alunos eram transferidos para a sede e os enjeitados tinham de procurar colocação noutro liceu. Em meados da década de 1960 chegou a albergar 777 alunos, dos quais dois, coisa rara nessa época, eram negros.
Um, o Pedro Pedro, na realidade tinha uma linhagem nitidamente lisboeta, denunciada pela pronúncia e pelo facto de ele ser, já na idade imberbe, um virtuoso do piano. Era um excelente aluno e viria a dar um excelente pianista.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Outro, o Romba, viera da Guiné, muito provavelmente filho de soba enriquecido. Mal conseguia exprimir-se em português e era muito duvidoso que compreendesse as prelecções dos professores. Era um gigante corpulento, como sucede com alguns guineenses, que entrava com grande dificuldade nas carteiras monolíticas das salas de aula, herdadas da antiga escola primária, e por sistema chegava uns bons 20 minutos atrasado à primeira aula. Interpelado quanto aos seus atrasos, escusava-se com o trânsito, a lonjura, a imprevisibilidade dos transportes. À conta dos atrasos sistemáticos teria chumbado logo no primeiro trimestre, não fora beneficiário de uma certa indulgência antidiscriminatória, por assim dizer. Ao fim de seis meses deste regime, descobriu-se que afinal o Romba morava na pensão ao lado do liceu. Foi fácil deduzir que não tinha despertador – acordava com a campainha do primeiro toque de chamada às aulas, onde chegava depois de se preparar e desjejuar à pressa.
Outro aluno que viria um dia a dar nas vistas chamava-se Ludgero do Ó. Durante muito tempo ninguém deu pela sua presença, sempre muito metido consigo; mas um dia deu-lhe um repente de impaciência na aula de Religião e Moral e interrompeu o professor para dizer que, mais do que a Deus, devíamos prestar homenagem aos macacos, nossos antepassados. Como se isso não bastasse para enervar o professor (um ex-seminarista sem sentido de humor nem génio), quando este lhe perguntou se ele ousava pôr em causa a existência de Deus, respondeu que tinha um princípio sagrado: nunca discutir os amigos imaginários das outras pessoas. A partir desse momento o ex-seminarista tomou-o de ponta e começou a intrigar contra ele junto dos outros professores. Diga-se em abono da verdade, estes não parecem ter-lhe dado grande troco.
Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?
Um dia, porém, a propósito de uma minudência administrativa qualquer, o Ó teve de ir ao gabinete do vice-reitor, onde estavam presentes mais dois docentes: uma professora de Ciências Naturais (alcunhada pelos alunos “a Boazona”) e o seminarista. Resolvida a minudência administrativa, preparava-se o Ó para virar costas e sair, quando o professor de Religião e Moral o interpelou:
– Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?
O simples facto de aquele beato ter conseguido descobrir que ele não era baptizado já dizia muito acerca da sua estranha obsessão contra o Ó. Mas isso, na circunstância, era um factor secundário. O pior de tudo era o Ó ser um miúdo muito sensível aos ambientes emocionais. Além de ter apenas 12 inseguros aninhos e sentir-se inferiorizado na presença de três autoridades, pressentiu naquela interpelação um ataque pessoal vindo de alguém com muito mais força física e retórica do que ele. A relação de forças era-lhe muito desfavorável e intimidatória. Sentiu sobretudo que queria fugir dali, evaporar-se, sumir-se chão abaixo e não responder à pergunta. O raciocínio embotou-se-lhe. Não havia, contudo, maneira de eximir-se ao combate. Levou por isso muito tempo a reflectir no rumo a dar à conversa.
– Então? – insistiu o beato. – Diga lá!
O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória. Por conseguinte, aquilo tinha de ser um ataque directo aos seus pais, e não a ele. E Ó não ignorava (ainda que apenas intuísse) que, numa sociedade tão repressiva como a portuguesa na década de 1960, pôr os pais em cheque numa matéria de política religiosa oficiosa podia significar a perda de ganha-pão, ou pior. Em desespero de causa, decidiu atirar com as culpas para cima da avó materna, com a qual não simpatizava grandemente, mas que, por ser protestante adventista do sétimo dia, lhe fornecia um argumento bastante racional. Ora ele tinha sido educado pelos pais num racionalismo humanista ferrenho, de modo que se agarrou a esse argumento como náufrago asfixiado a uma bóia.
– A minha avó acha que ninguém deve ser baptizado antes de atingir a idade da razão plena, ou seja, antes dos dezoito anos. E que deve fazê-lo por vontade própria e não por vontade alheia.
– E os seus pais, o que acham? – insistiu o professor de Religião e Moral.
– Os meus pais acataram a opinião da minha avó, por quem têm grande respeito – retorquiu habilidosamente o Ó. Na realidade, os pais estavam-se marimbando para o baptismo e as instituições religiosas, mas isso sentia ele intuitivamente que não convinha dizer.
Neste ponto, a professora de Ciências Naturais, visivelmente incomodada, veio em seu auxílio:
– Muito bem, Ludgero, está esclarecido. Vá-se lá embora, para não chegar atrasado à aula.
(continua)