Sindicatos de estivadores de seis países anunciam jornada de greve
Sindicatos representativos de operários de quarenta portos da Europa e do Mediterrâneo apelam a jornada de luta internacional contra a guerra e o genocídio no dia 30 de Outubro.
Faixa de greve em Ancona, com a seguinte mensagem: «O porto que resiste às guerras, ao rearmamento
e às leis fascistas.» Fonte: Potere al Popolo Terni/Facebook
Sindicatos de estivadores de França, Grécia, País Basco, Turquia, Marrocos e Itália convocam para 30 de Outubro uma jornada internacional de luta “contra a guerra e a militarização”. Exigem o fim do “genocídio do povo palestiniano” e das “guerras de agressão dos EUA e de Israel no Médio Oriente e contra o Irão”.
“Cada sindicato decidirá a forma de mobilização mais adequada consoante as circunstâncias nacionais, a partir de acções de greve e de um compromisso comum de impedir carregamentos de morte e destruição”, lê-se numa declaração conjunta dos sindicatos enviada às publicações Workday Magazine e In These Times no dia 31 de Julho.
Em conjunto, estes sindicatos representam, como referem na sua declaração, operários de 40 portos da Europa e do Mediterrâneo. O apelo a escalar a luta saiu de uma reunião de sindicatos de trabalhadores portuários realizada em Istambul em Maio passado. No anúncio que fizeram, manifestam, ainda, “solidariedade plena com os povos de Cuba, da Venezuela e do Sudão” e defendem que “os portos não podem ser usados para transportar armas, munições, equipamento militar ou tropas destinados a zonas de guerra”.
“Não à economia de guerra, aos planos de rearmamento dos Estados e ao projecto de militarização dos portos e infra-estruturas estratégicas da UE”, defendem os sindicatos no comunicado. “Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar guerras”. Entre os signatários contam-se a CGT FNPD de França, o ENEDEP da Grécia, o LAB do País Basco, o LIMAN-IS da Turquia, a ODT de Marrocos e a ORSA Porti e a USB de Itália.
Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar a guerra.
Tem havido, desde Outubro de 2023, repetidos apelos de sindicalistas palestinianos aos sindicalistas de todo o mundo para que entrem em greve e se recusem a operar carregamentos de armas destinados a Israel, protestem contra a campanha militar de Israel em Gaza, denunciada como genocídio por grupos de direitos humanos de primeira linha e académicos (os Estados Unidos têm prestado decisivo apoio político e financeiro a Israel). Em 5 de Abril de 2025, a Federação Geral dos Sindicatos de Gaza apelou a que os sindicalistas “fizessem pressão a sério para acabar com esta guerra suja”. Os estivadores têm-se empenhado activamente em corresponder a este apelo.
Da Bélgica à Suécia e à Itália, estivadores têm-se recusado a manusear componentes de armas com destino a Gaza. No dia 6 de Fevereiro, paralisaram 21 portos em todo o Mediterrâneo, incluindo Bilbau e Tânger, em protesto contra o uso de infra-estruturas portuárias civis para fins militares e a integração dos seus postos de trabalho numa economia de guerra.
A declaração surge na sequência das duas greves gerais realizadas em Itália no Outono de 2025 em solidariedade com os Palestinianos. Há dez meses, cerca de 60 estivadores reuniram-se no edifício da Autoridade Portuária de Civitavecchia, uma pequena cidade costeira italiana a noroeste de Roma. Era o dia 22 de Setembro de 2025. Tinham abandonado os postos de trabalho ao começar o dia, paralisando o porto, como parte de uma greve geral para protestar contra o facto de o Governo italiano ser o terceiro maior fornecedor de armas a Israel. Viram-se rodeados por cerca de 600 pessoas a aplaudi-los — estudantes, professores, trabalhadores ferroviários, funcionários públicos —, uma multidão significativa para uma cidade tão pequena.
“Que bela imagem, os estivadores rodeados pela sua cidade”, recorda Riccardo Petrarolo, um membro da coordenadora nacional da USB (Unione Sindacale di Base) nos portos italianos.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Os estivadores começaram a receber mensagens WhatsApp de colegas de cidades maiores, como Livorno e Génova, a informá-los de que também os operários dessas cidades tinham paralisado os portos. E dos meios de comunicação social iam aparecendo notícias de greves e encerramentos. “Diziam que exactamente a mesma coisa estava a acontecer nos outros portos”, refere Petrarolo. De cada vez que estivadores anunciavam um novo encerramento pelo sistema de som, conta-me Petrarolo, a multidão soltava “um grito de aplauso, como num estádio”.
Estas acções são fruto de décadas de relações com os Palestinianos construídas pelos operários e de anos de mobilização contra a participação no transporte de armas. A 30 de Agosto de 2025, 40 mil pessoas reuniram-se em Génova para despedir a Flotilha Global Sumud, que partia para levar alimentos e ajuda a Gaza. A luta da flotilha para chegar a Gaza calou fundo entre os trabalhadores do mar — os que trabalham nas docas, os que carregam e descarregam navios, os que reparam e movimentam equipamento e transportam mercadorias para outros portos; e os ataques às embarcações causaram profunda indignação.
Riccardo Rudino, um estivador filiado no Colectivo Autónomo dos Trabalhadores Portuários (CALP), um sindicato independente de Génova, prometeu à multidão que se despedia dos navios que “se perdermos o contacto com os nossos camaradas da flotilha, nem que seja por 20 minutos, bloquearemos toda a Europa a partir das docas de Génova. Nem um prego daqui sai. Será uma greve global”.
Os estivadores de Génova acabaram por convocar rapidamente uma greve geral, para 22 de Setembro, em protesto contra a cumplicidade da Itália no ataque a Gaza. A USB, que conta cerca de 100 mil membros nos sectores privado e público, apoiou a acção. Cerca de meio milhão de pessoas abandonaram os postos de trabalho nesse dia. Um milhão participou em protestos pelas vilas e cidades de toda a Itália. Auto-estradas, ruas e metros ficaram paralisados, ao passo que, em todo o país, a população fazia sua a palavra de ordem “Blocchiamo tutto”: “Bloqueemos tudo!”
José Nivoi, um estivador e porta-voz do CALP que embarcou na Flotilha Global Sumud, concedeu uma entrevista, de bordo, no dia 23 de Setembro, em que apoiava a greve. Disse ele que “as mobilizações que temos estado a fazer são em apoio total à Palestina, e nós nunca recuámos”.
Nos dias 1 e 2 de Outubro de 2025, Israel interceptou os navios da flotilha e deteve as centenas de pessoas a bordo. Chegava a hora de dar corpo à ameaça de “nem um prego”. Os militantes italianos responderam com uma greve geral ainda maior, a 3 de Outubro. Desta vez, a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL), a maior federação sindical de Itália, convocou a greve, tal como a USB. Estima-se em 2 milhões os participantes nos protestos, em mais de oitenta cidades. Portos e auto-estradas bloqueados e encerrados, linhas ferroviárias interrompidas, escolas e universidades fechadas.
“As coisas organizaram-se muito rapidamente e fora do quadro legal de Itália. Tal como antes, envolveram cidades grandes e pequenas e muita gente que saiu à rua em solidariedade”, relata Petrarolo, da USB. “Claro que isso provocou uma reacção do Estado italiano, com multas aos sindicatos e acções policiais e judiciais contra os organizadores. Mas isso não impediu a organização, e o resultado concreto foi que, no dia seguinte, 1 milhão de pessoas saíram à rua em Roma.”
Os estivadores esperam aproveitar o balanço. O anúncio da jornada de luta de 30 de Outubro baseia-se na “Declaração de Istambul”, aprovada por todos os signatários. A par das reivindicações contra a guerra, os trabalhadores vincam a exigência de que “os acordos coletivos garantam aumentos salariais reais, emprego seguro, redução do horário de trabalho e disposições justas em matéria de pensões”. E não querem que a mecanização ou a inteligência artificial “eliminem postos de trabalho ou prejudiquem os direitos dos trabalhadores”.
Os sindicatos dizem-se “prontos para se reunirem com grupos organizados de estivadores de quaisquer outros portos interessados em integrar esta luta comum”.
* Sarah Lazare, publicado em In These Times (31 de Julho de 2026).
Tradução de Adriano Zilhão.