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Jornal Maio

Guifões: o futuro chega de comboio. Os trabalhadores, já não

Guifões apareceu ainda há poucas semanas nas notícias com abundância de palavreado e políticos a posar para as fotografias: lá iria nascer a futura fábrica de comboios. Acabado o foguetório, chega a primeira medida prática: retirar o comboio que leva os ferroviários ao trabalho.

Bruno Oliveira, STMEFE

ilustração: Rita Comedida

Há poucas semanas, Guifões voltava às notícias. Discursos, anúncios, fotografias e palavras grandes sobre o futuro. Falava-se do início de uma nova etapa para a indústria ferroviária portuguesa e da futura fábrica de comboios que deverá nascer em Guifões.

O futuro parecia promissor.

Durou pouco.

Passadas poucas semanas, os trabalhadores que já hoje dão vida a Guifões recebem uma mensagem bastante diferente: o comboio operário acabou.

É difícil imaginar melhor retrato da distância que tantas vezes existe entre os grandes anúncios e a realidade de quem trabalha.

Para o País anunciam-se comboios novos. Para os trabalhadores retira-se o comboio que os leva ao trabalho.

O comboio operário assegurava a ligação entre Ermesinde e as Oficinas de Guifões, nos dois sentidos. A sua supressão afeta cerca de 80 trabalhadores, aproximadamente 30% do efetivo da oficina, incluindo trabalhadores provenientes dos distritos do Porto, Braga e Aveiro.

Não estamos, portanto, perante uma pequena comodidade concedida a meia dúzia de pessoas.

Estamos perante uma condição concreta da vida de dezenas de trabalhadores.

O seu desaparecimento significa alternativas de transporte menos compatíveis com os horários das oficinas, deslocações mais penosas, menos descanso e menos tempo para a vida pessoal e familiar. Tudo isto imposto a trabalhadores que exercem funções tecnicamente exigentes, onde concentração, responsabilidade e segurança fazem parte do trabalho diário.

Talvez numa folha de cálculo tudo isto seja difícil de contabilizar.

O tempo que um trabalhador deixa de passar com os filhos não aparece nas contas.

O despertador que toca mais cedo também não.

O tempo adicional perdido no regresso a casa não aparece.

O cansaço acumulado não tem uma coluna própria no Excel.

Mas existe.

 

Não se pode, numa semana, apresentar Guifões como símbolo do renascimento da indústria ferroviária portuguesa e, poucas semanas depois, retirar uma condição de transporte aos trabalhadores que já hoje mantêm Guifões vivo.

 

E é aqui que esta decisão deixa de ser apenas incompreensível para se tornar profundamente desrespeitosa para com os trabalhadores da CP.

Porque não se pode, numa semana, apresentar Guifões como símbolo do renascimento da indústria ferroviária portuguesa e, poucas semanas depois, retirar uma condição de transporte aos trabalhadores que já hoje mantêm Guifões vivo.

Não se pode querer a fotografia do futuro e desprezar quem garante o presente.

Mais: fala-se constantemente da dificuldade em contratar trabalhadores especializados para a ferrovia. Em Guifões, esse desafio será ainda maior se a anunciada fábrica de comboios se concretizar.

Então expliquem-nos a estratégia.

Queremos trazer mais trabalhadores para Guifões, mas começamos por dificultar a vida aos que já lá estão?

Queremos tornar Guifões num grande polo ferroviário, mas acabamos com uma ligação ferroviária utilizada pelos próprios ferroviários?

Queremos construir comboios em Guifões, mas não conseguimos manter o comboio que leva os trabalhadores a Guifões?

Há ironias que se escrevem sozinhas.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

E há ainda uma parte desta história que torna tudo isto mais difícil de aceitar.

Guifões tem memória.

Em 2011, o processo que culminou no encerramento da oficina foi também acompanhado pelo desaparecimento do comboio operário e pela sua substituição por transporte rodoviário. Muitos dos trabalhadores que hoje assistem a esta decisão viveram esse período.

Não afirmamos que Guifões vai voltar a fechar.

Mas recusamo-nos a ter memória curta.

O comboio operário desapareceu uma vez.

Depois desapareceu Guifões.

Custou anos, luta e investimento recuperar aquilo que se perdeu.

Por isso, quando vemos novamente desaparecer o primeiro, temos todo o direito de perguntar para onde nos querem levar desta vez.

E talvez seja isto que mais revolta: enquanto se fazem anúncios sobre aquilo que Guifões poderá ser amanhã, parece existir cada vez menos consideração por aqueles que fazem Guifões funcionar hoje.

Os direitos e as condições de trabalho raramente desaparecem todos de uma vez.

Primeiro perde-se um transporte. Depois altera-se um horário. Depois desaparece outra condição.

Cada decisão é apresentada isoladamente como pequena, racional ou inevitável. Até ao dia em que olhamos para trás e percebemos tudo aquilo que ficou pelo caminho.

A Comissão de Trabalhadores, o STMEFE e o SNTSF exigiram à Administração da CP a reposição do comboio operário.

Não estamos a pedir um privilégio. Estamos a exigir respeito. Respeito por cerca de 80 trabalhadores. Respeito por quem manteve Guifões vivo quando era muito mais fácil desistir dele. Respeito por quem todos os dias garante que há material circulante em condições de prestar serviço. E respeito pela própria história ferroviária de Guifões.

Podem anunciar milhões. Podem lançar primeiras pedras. Podem fazer discursos sobre o futuro da indústria ferroviária portuguesa. Mas nenhuma fábrica, oficina ou ferrovia existe sem trabalhadores.

E antes de prometerem o futuro de Guifões, talvez fosse boa ideia começarem por respeitar aqueles que já lá estão.

Bruno Oliveira

Bruno Oliveira

Sindicato dos Trabalhadores do Metro e Ferroviários