Skip to main content

Jornal Maio

Complô

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições. A luta de libertação dos povos colonizados tornou-se uma das forças motrizes da história contemporânea.

Onésio Soda

Estudante-trabalhador e activista da “Vida Justa”

Eu jurei a mim mesmo que tenho de dar a minha vida, toda
a minha energia, toda a minha coragem, toda a capacidade 
que posso ter como homem… ao serviço da causa da 
humanidade, para dar a minha contribuição, na medida do 
possível, para que a vida do homem se torne melhor no 
mundo. Este é o meu trabalho.” 

Amílcar Cabral

Quando criticamos o capitalismo, não se trata necessariamente de uma crítica à existência de empresas ou à iniciativa privada, mas sim ao modo de produção capitalista “selvagem”. O que significa isso? Significa questionar se uma empresa é realmente fruto do trabalho digno de todos aqueles que fazem parte desse universo. Esta é a grande palavra-chave: trabalho. 

Dizia Karl Marx: “O capital é trabalho morto que, como um vampiro, vive apenas de sugar trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga.” Centenas de milhares de trabalhadores produzem bens em fábricas, mas não conseguem comprar aquilo que produzem. Ainda assim, são eles que geram a riqueza dos proprietários. 

O capitalismo cria a falácia de que, quanto mais se trabalha, mais sorte se tem. Faz-nos acreditar que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual, enquanto molda o nosso comportamento para o superconsumo. O modo de produção capitalista impede que as pessoas cresçam através de um trabalho digno, porque o crescimento está ligado ao poder económico, que muitas vezes ameaça o próprio sistema desenhado pelos capitalistas selvagens, neste caso, os grandes financiadores, através dos seus agentes de influência, como governos ou instituições. 

Em julho deste ano, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional completaram mais de oitenta anos de neocolonialismo financeiro internacional e de imposição de políticas de rigidez e das armadilhas de crédito, fabricando dívidas. Instituições como as de Bretton Woods devem ser abolidas e trocadas por instituições democráticas e representativas. 

Não nascemos todos nas mesmas condições histórico-políticas e económicas. Como dizia Amílcar Cabral: “Um princípio fundamental da nossa luta é que a nossa luta é a luta do nosso povo, e o nosso povo é que tem de fazê-la, e o seu resultado é para o nosso povo.” O contrário disso é aquilo a que podemos chamar capitalismo selvagem: um sistema que divide, controla e mata para obter lucro. 

 

Expansão colonial, imperialismo, racismo

Como o principal objetivo do capitalismo “selvagem” é o lucro a qualquer custo, tornou-se necessário expandir-se para outros territórios. Assim, a luta contra o imperialismo constitui uma das características essenciais do nosso tempo. O desenvolvimento intensivo do capitalismo, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, aprofundou práticas muito antigas: desde que o ser humano começou a servir mais os seus próprios interesses do que a comunidade. 

Ao pesquisarmos sobre capitalismo, colonialismo, imperialismo e racismo, verificamos que quase todas as sociedades conheceram formas de escravidão. Contudo, na escravatura transatlântica, encontramos três novidades. A primeira foi o apagamento e a alteração dos valores que sustentavam o funcionamento das relações nessas comunidades. A segunda foi a escala industrial do processo: milhares de seres humanos eram embarcados em navios para produzir riqueza para aqueles que financiavam o tráfico. A terceira foi o nascimento do racismo, através de narrativas criadas para justificar mortes e exploração em nome do lucro, algo que perdura até aos dias de hoje. 

O propósito da vida passa a ser ganhar. Esta é a fórmula que nos é oferecida. A partir do momento em que passamos a olhar para o ser humano sob essa perspetiva, estamos a transformá-lo num objeto. E, quando esse objeto não consegue atingir os resultados esperados, surge a opressão sob a forma de sofrimento psicológico e depressão. 

Hoje, este sistema assente no monopólio e na disputa pelas matérias-primas conduziu à repartição do mundo. Fidel Castro lembrava frequentemente que o que estava em causa era a liberdade dos povos contra a tirania do imperialismo norte-americano. 

Voltando um pouco atrás no tempo, vemos como, no século XIX, se realizou a repartição de África entre meia dúzia de potências europeias. Este sistema mostrou sempre duas classes: os dominadores e os dominados; os que podem viver com dignidade e os que são condenados à exclusão; os que entram para a história glorificada e os que são apagados dela. 

APOIA O MAIO!

Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Violência contra os povos africanos

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições. A luta de libertação dos povos colonizados tornou-se uma das forças motrizes da história contemporânea. É nesse conflito, que atravessa vários continentes, que se desenrola grande parte da história do nosso tempo. 

Historicamente, o colonialismo é produto do capitalismo. O modo de atuação permanece: a classe dominante nunca quer abandonar o poder. Quando se sente ameaçada, agarra-se aos seus privilégios e utiliza os meios de comunicação e as instituições para criar narrativas de “dividir para reinar”. Em muitos casos, recorre também à violência direta através das forças policiais, sobretudo nos bairros marginalizados. 

Dizia Frantz Fanon: “O colonialismo não é uma máquina de pensar, não é um corpo dotado de razão. É a violência em estado bruto.” Hoje, financiam-se fações armadas fora dos territórios, exploram-se divisões internas e alimenta-se o terrorismo nos países como República Democrática do Congo, Sudão, Moçambique… Perguntamos: quem são os verdadeiros terroristas: os grupos armados ou os grupos que os financiam? 

“África está cheia de armas ligeiras… Recursos preciosos de África, como o diamante, o ouro e o marfim, servem para introduzir em África muitas armas utilizadas nos conflitos” (Joseph Ki-Zerbo). Esta frase leva a perguntar: por que razão os grupos terroristas se concentram frequentemente em zonas ricas em recursos mineiros? Muitos autores argumentam que interesses económicos e geopolíticos beneficiam, por vezes, da instabilidade, permitindo a exploração e a apropriação das riquezas dos países que possuem esses recursos. 

 

Por que razão os grupos terroristas se concentram frequentemente em zonas ricas em recursos mineiros?

 

Atualmente, podemos observar que parte da prosperidade das potências económicas assenta em três pilares: a guerra e a consequente apropriação de recursos em países em conflito; o mercado global das drogas, que provoca inúmeras mortes e sofrimento; e, por fim, a indústria do armamento e os mecanismos de lavagem de dinheiro, que alimentam ciclos de violência e destruição. 

Vivemos num mundo marcado por profundas crises e desigualdades. As guerras geram instabilidade; a instabilidade gera migração; a migração pode provocar choques culturais; esses choques alimentam o descontentamento; o descontentamento conduz à procura de culpados; e essa procura leva frequentemente ao extremismo. Além disso, os migrantes acabam muitas vezes injustamente associados à criminalidade. 

Segundo Steve Biko, o racismo e o capitalismo são faces da mesma moeda. Sempre que o mundo entra em colapso, os mais “frágeis” sofrem primeiro: mulheres, crianças e populações vulneráveis. Hegel falava da dupla opressão das mulheres; perante a realidade contemporânea, poderíamos falar de uma tripla opressão: na família, no trabalho (Estado e propriedade privada) e, num terceiro plano, mais invisível, no apagamento do seu papel na história da humanidade. 

 

Colonialismo e fascismo

Quando uma ordem social entra em colapso, sectores conservadores tendem a fabricar inimigos visíveis para canalizar o medo e a culpa, criando narrativas destinadas a justificar o autoritarismo. 

O fascismo pode ser visto como um herdeiro do colonialismo, porque estabelece divisões rígidas entre aqueles que têm direitos e aqueles que são tratados como descartáveis, discriminados ou explorados. Tanto o fascismo como o colonialismo recorrem ao apagamento histórico e à criação de narrativas que normalizam a violência. Criticar o capitalismo selvagem não é apenas legítimo; é necessário. A sua história inclui colonialismo, escravatura, guerras de agressão, intervenções arbitrárias e cumplicidades com regimes violentos. O problema começa quando essa história é utilizada como explicação absoluta do presente, impedindo qualquer análise crítica mais equilibrada. 

Paulo Freire dizia que a consciência de classe começa pela capacidade de “ler o mundo”, ou seja, interpretar os mecanismos sociais e económicos que geram desigualdade. Para alcançar um progresso tangível, torna-se importante unir princípios humanistas e movimentos populares, criando formas de organização capazes de responder à seguinte questão: como podem os trabalhadores construir uma sociedade baseada em valores? 

Levar a cabo essa luta implica superar contradições culturais, económicas e políticas, procurando adaptar, unificar e organizar interesses coletivos. Acima de tudo, significa trabalhar junto da comunidade, porque ninguém conhece melhor a realidade do que quem a vive diariamente e se compromete genuinamente com a transformação social. 

Os sistemas de poder procuram fragilizar a família e a comunidade porque sociedades fragmentadas são mais fáceis de controlar. A cultura mediática, a publicidade e determinados discursos contribuiriam para enfraquecer referências familiares e sociais, transformando o indivíduo num sujeito cada vez mais isolado. Como escreveu José Saramago: “O humano é o que temos de preservar e defender em todas as circunstâncias: o capitalismo já sabe que não o fará.” Dizia Amílcar Cabral: “Mantemo-nos vigilantes contra nós mesmos e procuramos, na base do conhecimento concreto das nossas forças e das nossas fraquezas, reforçar aquelas e transformar estas em forças, pelo desenvolvimento constante da nossa consciência revolucionária.”

Quanto mais compreendermos que a principal finalidade dos movimentos de libertação ultrapassa a simples conquista política e se situa na libertação das forças produtivas e na construção do progresso económico, social e cultural dos trabalhadores, mais evidente se torna a necessidade de uma análise crítica da cultura no contexto da luta. Os aspetos negativos da cultura podem tornar se obstáculos ao progresso e à libertação coletiva. Por isso, torna-se essencial mobilizar e organizar os trabalhadores em torno de um projeto internacional de libertação humana.