Imperialismo

Complô Onésio Soda
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Imperialismo Fascismo Colonialismo Capitalismo

Complô

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições.

Onésio Soda
Venezuela e o regresso do imperialismo: soberania, crise e lições a tirar
categoria-dossier: Guerra e resistência Imperialismo Venezuela

Venezuela e o regresso do imperialismo: soberania, crise e lições a tirar

Nos últimos dias de 2025, Trump afirmou “queremos o nosso petróleo de volta” e deu início a uma agressiva escalada de pressão económica que, menos de um mês depois, culminaria na invasão brutal e no sequestro relâmpago do chefe de Estado venezuelano.

Marcela Uchôa, Sérgio Tapia Argüello
A lógica da guerra infinita como estratégia de governo
categoria-internacional Acumulação Primitiva Guerra Imperialismo Palestina Racismo Reprodução Social edicao-2025-11-06 (03)

A lógica da guerra infinita como estratégia de governo

Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza é compreender as estruturas que naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo...

Marcela Uchôa
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Imperialismo Fascismo Colonialismo Capitalismo

Complô

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições. A luta de libertação dos povos colonizados tornou-se uma das forças motrizes da história contemporânea.

“Eu jurei a mim mesmo que tenho de dar a minha vida, toda
a minha energia, toda a minha coragem, toda a capacidade 
que posso ter como homem… ao serviço da causa da 
humanidade, para dar a minha contribuição, na medida do 
possível, para que a vida do homem se torne melhor no 
mundo. Este é o meu trabalho.
” 

Amílcar Cabral


Quando criticamos o capitalismo, não se trata necessariamente de uma crítica à existência de empresas ou à iniciativa privada, mas sim ao modo de produção capitalista “selvagem”. O que significa isso? Significa questionar se uma empresa é realmente fruto do trabalho digno de todos aqueles que fazem parte desse universo. Esta é a grande palavra-chave: trabalho. 

Dizia Karl Marx: “O capital é trabalho morto que, como um vampiro, vive apenas de sugar trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga.” Centenas de milhares de trabalhadores produzem bens em fábricas, mas não conseguem comprar aquilo que produzem. Ainda assim, são eles que geram a riqueza dos proprietários. 

O capitalismo cria a falácia de que, quanto mais se trabalha, mais sorte se tem. Faz-nos acreditar que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual, enquanto molda o nosso comportamento para o superconsumo. O modo de produção capitalista impede que as pessoas cresçam através de um trabalho digno, porque o crescimento está ligado ao poder económico, que muitas vezes ameaça o próprio sistema desenhado pelos capitalistas selvagens, neste caso, os grandes financiadores, através dos seus agentes de influência, como governos ou instituições. 

Em julho deste ano, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional completaram mais de oitenta anos de neocolonialismo financeiro internacional e de imposição de políticas de rigidez e das armadilhas de crédito, fabricando dívidas. Instituições como as de Bretton Woods devem ser abolidas e trocadas por instituições democráticas e representativas. 

Não nascemos todos nas mesmas condições histórico-políticas e económicas. Como dizia Amílcar Cabral: “Um princípio fundamental da nossa luta é que a nossa luta é a luta do nosso povo, e o nosso povo é que tem de fazê-la, e o seu resultado é para o nosso povo.” O contrário disso é aquilo a que podemos chamar capitalismo selvagem: um sistema que divide, controla e mata para obter lucro. 

Expansão colonial, imperialismo, racismo

Como o principal objetivo do capitalismo “selvagem” é o lucro a qualquer custo, tornou-se necessário expandir-se para outros territórios. Assim, a luta contra o imperialismo constitui uma das características essenciais do nosso tempo. O desenvolvimento intensivo do capitalismo, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, aprofundou práticas muito antigas: desde que o ser humano começou a servir mais os seus próprios interesses do que a comunidade. 

Ao pesquisarmos sobre capitalismo, colonialismo, imperialismo e racismo, verificamos que quase todas as sociedades conheceram formas de escravidão. Contudo, na escravatura transatlântica, encontramos três novidades. A primeira foi o apagamento e a alteração dos valores que sustentavam o funcionamento das relações nessas comunidades. A segunda foi a escala industrial do processo: milhares de seres humanos eram embarcados em navios para produzir riqueza para aqueles que financiavam o tráfico. A terceira foi o nascimento do racismo, através de narrativas criadas para justificar mortes e exploração em nome do lucro, algo que perdura até aos dias de hoje. 

O propósito da vida passa a ser ganhar. Esta é a fórmula que nos é oferecida. A partir do momento em que passamos a olhar para o ser humano sob essa perspetiva, estamos a transformá-lo num objeto. E, quando esse objeto não consegue atingir os resultados esperados, surge a opressão sob a forma de sofrimento psicológico e depressão. 

Hoje, este sistema assente no monopólio e na disputa pelas matérias-primas conduziu à repartição do mundo. Fidel Castro lembrava frequentemente que o que estava em causa era a liberdade dos povos contra a tirania do imperialismo norte-americano. 

Voltando um pouco atrás no tempo, vemos como, no século XIX, se realizou a repartição de África entre meia dúzia de potências europeias. Este sistema mostrou sempre duas classes: os dominadores e os dominados; os que podem viver com dignidade e os que são condenados à exclusão; os que entram para a história glorificada e os que são apagados dela. 

*/Banner Maio*/

Violência contra os povos africanos

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições. A luta de libertação dos povos colonizados tornou-se uma das forças motrizes da história contemporânea. É nesse conflito, que atravessa vários continentes, que se desenrola grande parte da história do nosso tempo. 

Historicamente, o colonialismo é produto do capitalismo. O modo de atuação permanece: a classe dominante nunca quer abandonar o poder. Quando se sente ameaçada, agarra-se aos seus privilégios e utiliza os meios de comunicação e as instituições para criar narrativas de “dividir para reinar”. Em muitos casos, recorre também à violência direta através das forças policiais, sobretudo nos bairros marginalizados. 

Dizia Frantz Fanon: “O colonialismo não é uma máquina de pensar, não é um corpo dotado de razão. É a violência em estado bruto.” Hoje, financiam-se fações armadas fora dos territórios, exploram-se divisões internas e alimenta-se o terrorismo nos países como República Democrática do Congo, Sudão, Moçambique… Perguntamos: quem são os verdadeiros terroristas: os grupos armados ou os grupos que os financiam? 

“África está cheia de armas ligeiras… Recursos preciosos de África, como o diamante, o ouro e o marfim, servem para introduzir em África muitas armas utilizadas nos conflitos” (Joseph Ki-Zerbo). Esta frase leva a perguntar: por que razão os grupos terroristas se concentram frequentemente em zonas ricas em recursos mineiros? Muitos autores argumentam que interesses económicos e geopolíticos beneficiam, por vezes, da instabilidade, permitindo a exploração e a apropriação das riquezas dos países que possuem esses recursos.  

Por que razão os grupos terroristas se concentram frequentemente em zonas ricas em recursos mineiros?

Atualmente, podemos observar que parte da prosperidade das potências económicas assenta em três pilares: a guerra e a consequente apropriação de recursos em países em conflito; o mercado global das drogas, que provoca inúmeras mortes e sofrimento; e, por fim, a indústria do armamento e os mecanismos de lavagem de dinheiro, que alimentam ciclos de violência e destruição. 

Vivemos num mundo marcado por profundas crises e desigualdades. As guerras geram instabilidade; a instabilidade gera migração; a migração pode provocar choques culturais; esses choques alimentam o descontentamento; o descontentamento conduz à procura de culpados; e essa procura leva frequentemente ao extremismo. Além disso, os migrantes acabam muitas vezes injustamente associados à criminalidade. 

Segundo Steve Biko, o racismo e o capitalismo são faces da mesma moeda. Sempre que o mundo entra em colapso, os mais “frágeis” sofrem primeiro: mulheres, crianças e populações vulneráveis. Hegel falava da dupla opressão das mulheres; perante a realidade contemporânea, poderíamos falar de uma tripla opressão: na família, no trabalho (Estado e propriedade privada) e, num terceiro plano, mais invisível, no apagamento do seu papel na história da humanidade.  

Colonialismo e fascismo

Quando uma ordem social entra em colapso, sectores conservadores tendem a fabricar inimigos visíveis para canalizar o medo e a culpa, criando narrativas destinadas a justificar o autoritarismo. 

O fascismo pode ser visto como um herdeiro do colonialismo, porque estabelece divisões rígidas entre aqueles que têm direitos e aqueles que são tratados como descartáveis, discriminados ou explorados. Tanto o fascismo como o colonialismo recorrem ao apagamento histórico e à criação de narrativas que normalizam a violência. Criticar o capitalismo selvagem não é apenas legítimo; é necessário. A sua história inclui colonialismo, escravatura, guerras de agressão, intervenções arbitrárias e cumplicidades com regimes violentos. O problema começa quando essa história é utilizada como explicação absoluta do presente, impedindo qualquer análise crítica mais equilibrada. 

Paulo Freire dizia que a consciência de classe começa pela capacidade de “ler o mundo”, ou seja, interpretar os mecanismos sociais e económicos que geram desigualdade. Para alcançar um progresso tangível, torna-se importante unir princípios humanistas e movimentos populares, criando formas de organização capazes de responder à seguinte questão: como podem os trabalhadores construir uma sociedade baseada em valores? 

Levar a cabo essa luta implica superar contradições culturais, económicas e políticas, procurando adaptar, unificar e organizar interesses coletivos. Acima de tudo, significa trabalhar junto da comunidade, porque ninguém conhece melhor a realidade do que quem a vive diariamente e se compromete genuinamente com a transformação social. 

Os sistemas de poder procuram fragilizar a família e a comunidade porque sociedades fragmentadas são mais fáceis de controlar. A cultura mediática, a publicidade e determinados discursos contribuiriam para enfraquecer referências familiares e sociais, transformando o indivíduo num sujeito cada vez mais isolado. Como escreveu José Saramago: “O humano é o que temos de preservar e defender em todas as circunstâncias: o capitalismo já sabe que não o fará.” Dizia Amílcar Cabral: “Mantemo-nos vigilantes contra nós mesmos e procuramos, na base do conhecimento concreto das nossas forças e das nossas fraquezas, reforçar aquelas e transformar estas em forças, pelo desenvolvimento constante da nossa consciência revolucionária.”

Quanto mais compreendermos que a principal finalidade dos movimentos de libertação ultrapassa a simples conquista política e se situa na libertação das forças produtivas e na construção do progresso económico, social e cultural dos trabalhadores, mais evidente se torna a necessidade de uma análise crítica da cultura no contexto da luta. Os aspetos negativos da cultura podem tornar se obstáculos ao progresso e à libertação coletiva. Por isso, torna-se essencial mobilizar e organizar os trabalhadores em torno de um projeto internacional de libertação humana.

categoria-dossier: Guerra e resistência Imperialismo Venezuela

Venezuela e o regresso do imperialismo: soberania, crise e lições a tirar

Nos últimos dias de 2025, Trump afirmou “queremos o nosso petróleo de volta” e deu início a uma agressiva escalada de pressão económica que, menos de um mês depois, culminaria na invasão brutal e no sequestro relâmpago do chefe de Estado venezuelano.

No âmbito do primeiro debate presidencial Gore-Bush, em outubro de 2000, o então candidato republicano e posterior Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, falou sobre a dependência do seu país do petróleo estrangeiro e a necessidade que tinha de diminuir essa necessidade. Para ele, a solução era muito simples: começar a extrair mais petróleo do México, para não necessitar de parceiros estrangeiros em matéria de hidrocarbonetos.

Esta visão norte-americana é congruente, como o mostram a Doutrina Monroe, a Operação Condor e todas as intervenções feitas por esse país contra governos democraticamente eleitos — pela via armada, quando falham os seus planos de desestabilização —, com uma ideia de superioridade essencial, que se sustenta em visões inclusive genético-culturais, para se assumirem como donos de todo o continente. O México, nessa altura, tal como a Venezuela agora, são deles.

Quando, nos últimos dias de 2025, Donald Trump afirmou que “queremos o nosso petróleo de volta”, ao referir-se aos processos de autodeterminação da Venezuela sobre as suas próprias reservas petrolíferas, e deu início a uma agressiva escalada de pressão económica que, menos de um mês depois, culminaria numa invasão brutal e no sequestro relâmpago do chefe de Estado, limitava-se a reiterar um guião bem conhecido do imperialismo norte-americano. Trata-se do mesmo padrão discursivo e político que, no passado, invocou a alegada existência de armas de destruição maciça no Iraque, na Síria e no Afeganistão para legitimar a intervenção militar e o saque de recursos. Agora, de forma igualmente hipócrita, esse guião reaparece sob o pretexto do combate ao chamado “narcoterrorismo”, utilizado para justificar a apropriação das riquezas da Venezuela.

Perante a invasão sofrida pela Venezuela neste dia, as declarações de Donald Trump — rejeitando, como se tivesse qualquer legitimidade para tal, a participação de líderes da oposição, incluindo Corina Machado, anteriormente desqualificada pela própria administração venezuelana alegadamente por falta de “apoio popular” — não deveriam surpreender ninguém. Pelo menos ninguém que não se tenha deixado seduzir pelo sibilino canto das sereias que, ao longo do tempo, tentaram comprar a consciência de todos aqueles que estivessem nesse país.

Há mais de duas décadas a Venezuela foi palco da revolução bolivariana. Iniciada ainda no final dos anos 1990, a viragem política organizada inicialmente por Hugo Chávez sofreu o seu primeiro golpe em 2002 e, ainda assim, conseguiu um relevante processo de reformas políticas e económicas que tiveram um importante impacto nas condições de vida de uma parcela significativa do proletariado e da população pauperizada venezuelana.

Através de um processo de nacionalização das suas imensas riquezas petrolíferas e aproveitando-se de uma favorável janela histórica de alta dos preços do petróleo, a Venezuela conseguiu, através do controlo estatal da produção e da exportação da sua principal riqueza natural, financiar o seu projeto político e garantir um significativo apoio social, tendo êxito em isolar politicamente os setores mais reacionários da burguesia venezuelana. É importante destacar que, ao contrário das demais experiências do mal chamado “progressismo” na América Latina, a ampla mobilização das massas proletárias e populares na defesa do projeto político em questão foi uma constante ao longo de todo o processo bolivariano capitaneado por Chávez, sendo essa agitação e organização um fator-chave para deslocar a correlação de forças interna e para gerar coesão na defesa contra qualquer ameaça externa.

Contudo, é importante dizer que o processo bolivariano, a despeito dos seus avanços sociais e de uma importante contestação da política externa do imperialismo, nunca teve a intenção de romper com o modo de produção capitalista. Os interesses políticos e económicos que dirigem o país são, em essência, burgueses, sendo o próprio Estado venezuelano um Estado burguês. O avanço do imperialismo dos Estados Unidos avança na esteira de uma revolução popular degradada, indicando uma corrupção do ideal original por parte do governo, que se afastou dos princípios de igualdade e justiça social.

A crise na Venezuela expõe tanto os limites de certas experiências de esquerda como os dos contrapontos que se apresentam como liberais. A desarticulação e a desmobilização do proletariado — frequentemente promovidas pelo próprio governo de Maduro —, a par da traição das aspirações populares e da incapacidade de implementar uma agenda efetiva de aprofundamento da igualdade, contribuíram para o agravamento da crise. Por outro lado, a recusa de qualquer solução autónoma por parte dos povos da nossa região para escolherem os seus próprios governantes — mesmo quando a alternativa se resume a gestores abertamente pró-Estados Unidos, como o prometido pelo grupo liderado pela recentemente laureada com o Prémio Nobel, Maria Corina Machado — demonstra que a saída não pode assentar na ilusão de soluções que tomam como dados incontestáveis o chamado “direito internacional” ou uma invocação abstrata dos direitos humanos.

Estamos, como resulta claro, perante uma transformação global que recupera uma visão colonial direta que não se via desde as modificações feitas na Segunda Guerra Mundial. A aceitação de “linhas de controlo” entre potências, o regresso da ideia de soberania absoluta para os países centrais – isto é, o fim da ideia de um direito internacional efetivamente baseado em regras de igualdade formal – e de necessária submissão para o resto, bem como o uso indiscriminado de qualquer forma de controlo por parte das potências, aprofundam os processos de fascização social que tinham rompido os limites anteriormente existentes com o desprezo de Israel em Gaza.

Por isso, é preciso resgatar os ideais de libertação e soberania popular que originaram a revolução bolivariana e o resto dos processos de transformação na América Latina. Isto só é possível se, em contrapartida, se articularem propostas que escapem ao caudilhismo personalista – hoje é, como se viu, demasiado fácil eliminar um líder individual – e gerem condições de transformação popular que, ao mesmo tempo, lutem ideologicamente com esta nova partilha do mundo, não só no nosso continente, mas também nos espaços que beneficiam dessas divisões, como a Europa.

Sem isto, nenhum país está realmente a salvo. Sem isto, nenhuma noção de democracia pode realmente existir. Porque, se acontecesse agora, o 25 de Abril também levava um bocado de “democracia” à americana.

categoria-internacional Acumulação Primitiva Guerra Imperialismo Palestina Racismo Reprodução Social edicao-2025-11-06 (03)

A lógica da guerra infinita como estratégia de governo

Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias

A Acumulação do Capital: Uma Contribuição à Teoria Econômica do Imperialismo, de Rosa Luxemburgo, foi publicado em 1913 às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Suas avaliações críticas ao colonialismo e ao imperialismo não estavam apartadas da sua própria experiência como uma judia crescendo na Polónia ocupada pela Rússia, ela estava pessoalmente consciente dos impactos da dominação colonial.

Já nos seus primeiros trabalhos, esteve comprometida com a denúncia de como o extermínio dos povos indígenas e a interferência do capitalismo euro-americano nas formações sociais do mundo não ocidental não eram um acidente ocasional da acumulação de capital, mas sua própria base. Faz parte do capitalismo eliminar as economias pré-capitalistas, autossuficientes e não monetárias, transformando-as em ferramentas para acumulação de capital. Para tanto, faz uso de métodos como violência, fraude e até mesmo de genocídios.

Nesse sentido, embora motivações ideológicas facilitem o processo, o imperialismo é impulsionado pelas engrenagens do próprio capital, e por isso é viabilizado tanto em formas autoritárias de governo, quanto em “democracias” capitalistas.


“Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.”

Maria Mies, uma das primeiras feministas a analisar sistematicamente o papel das mulheres no capitalismo com base na estrutura de Rosa Luxemburgo, em seu livro Patriarcado e acumulação em escala mundial, aplica a teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo às mulheres, ao seu trabalho e à família.

A abordagem de Mies traça paralelos entre o trabalho feminino e o trabalho não remunerado de camponeses, colónias e outros “meios não capitalistas”, que Luxemburgo descreveu como sendo explorados “gratuitamente”, de forma semelhante à natureza. Maria Mies não vê o patriarcado e o capitalismo como sistemas separados, antes compreende que eles formam uma única entidade: o patriarcado capitalista. Por isso, para ela a subjugação das mulheres não se deve à misoginia masculina inerente, mas sim a uma necessidade estrutural para a acumulação de capital. Assim como Rosa Luxemburgo via a acumulação primitiva como intrínseca ao capitalismo, Mies afirma que o capitalismo não pode funcionar sem o patriarcado, visto que a acumulação contínua de capital requer a manutenção ou a criação de relações de género patriarcais e/ou coloniais.

Se Mies vê o patriarcado como expressão intrínseca da acumulação primitiva, também é verdade que os sujeitos dentro de um estado de exceção estão a mercê da mesma lógica da acumulação primitiva. Nesse sentido, os corpos racializados e colonizados de Gaza encontram-se em posição equiparada de exploração. Se em certo contexto histórico de superexploração, trabalhavam para empresas israelitas como forças de reservas para baixarem os salários, agora são expulsos do próprio território para aumentarem o valor de exploração.

No livro Pele Negra, máscaras brancas Frantz Fanon argumentou que a crescente conscientização dos trabalhadores em países colonizadores e racistas – levou a uma evolução no conceito de raça. Se o racismo vulgar e biológico correspondia ao período de exploração bruta do trabalho físico, onde a subjugação e a desumanização dos escravizados eram justificadas por hierarquias raciais pseudocientíficas, à medida que os meios de produção se tornaram mais avançados, as técnicas de exploração — e as formas de racismo — tornaram-se mais dissimuladas. A distinção colonial/racial entre civilização e barbárie evoluiu para uma divisão entre aqueles percebidos como capazes de dominar a natureza e aqueles vistos como subjugados por ela ou inerentemente parte dela.

Já Tithi Bhattacharya defende que todo esse processo sempre aconteceu sobre uma base de racialização intensa, o que não só fomentou a manutenção dos salários baixos, como fez subempregos parecerem um presente do capital a determinadas comunidades racializadas. Reconhecer as principais vítimas desse caminho também nos faz compreender porque sindicatos formados em sua maioria por trabalhadores do Sul global compostos por uma classe trabalhadora diversa, demonstram maior solidariedade e identificação com Gaza do que tantos outros da Europa.

Contudo, é importante reconhecer que o que tem sido feito ainda é muito pouco. O que estamos a assistir nada mais é do que a lógica da guerra infinita como dispositivo de governo, onde a desordem contínua é a única condição para a preservação de uma ordem que não tem mais como garantir horizontes normativos estáveis. Antes, o que temos visto é a consolidação daquilo que Giorgio Agamben chamou de paradigma da exceção. Simplesmente, porque militarizar as mentes é também acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo. É a banalização das piores violências, como um soberano que tem direito sobre a vida do outro.

Segundo Carl Schmitt, trata-se da construção no imaginário social de um inimigo eterno, onde a militarização das mentes emerge como uma técnica eficaz para acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo.

Fenómenos que podem ser observados desde os discursos de ódio e dessensibilização em face à violência estatal nas periferias do mundo, quanto na execução da política colonialista do Estado israelita que se estrutura desde a Guerra Fria através da emergência de um Estado que se estabeleceu enquanto superpotência na ordem bipolar. A política baseada no proveito político e económico feito pelo movimento sionista que fez que este se aliasse a uma potência capitalista imperialista, capaz de assegurar a expulsão sistemática dos Palestinos, é a prova da instrumentalização desse processo. Características que podem ser observadas na tentativa de confinar o máximo de palestinianos, mas também no roubo de recursos estratégicos (água e terra cultivável), utilização da mão de obra barata, trabalho análogo ao escravo.

Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza há décadas é compreender as estruturas que autorizam e naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo a serem aplicados em escala indefinida contra populações colocadas em extrema vulnerabilidade. Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.

Complô
Venezuela e o regresso do imperialismo: soberania, crise e lições a tirar
A lógica da guerra infinita como estratégia de governo
Complô Onésio Soda
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Imperialismo Fascismo Colonialismo Capitalismo

Complô

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições.

Onésio Soda
Venezuela e o regresso do imperialismo: soberania, crise e lições a tirar
categoria-dossier: Guerra e resistência Imperialismo Venezuela

Venezuela e o regresso do imperialismo: soberania, crise e lições a tirar

Nos últimos dias de 2025, Trump afirmou “queremos o nosso petróleo de volta” e deu início a uma agressiva escalada de pressão económica que, menos de um mês depois, culminaria na invasão brutal e no sequestro relâmpago do chefe de Estado venezuelano.

Marcela Uchôa, Sérgio Tapia Argüello
A lógica da guerra infinita como estratégia de governo
categoria-internacional Acumulação Primitiva Guerra Imperialismo Palestina Racismo Reprodução Social edicao-2025-11-06 (03)

A lógica da guerra infinita como estratégia de governo

Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza é compreender as estruturas que naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo...

Marcela Uchôa

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.