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Jornal Maio

A Odisseia de Nolan:
do herói homérico ao anti-herói pós-moderno

A Odisseia é uma das principais epopeias da literatura grega antiga e uma das obras literárias mais antigas que sobreviveram. É atribuída a Homero, que teria vivido no século VIII antes da era corrente (AEC) e, tal como a Ilíada, centra-se nos acontecimentos associados a uma guerra, a de Troia, que terá ocorrido no século XIII ou início do século XII AEC, portanto há mais de 3000 anos. O realizador britânico Christopher Nolan, autor de filmes como a série dos Batman, Dunkirk ou Oppenheimer, realizou uma adaptação da Odisseia que tem levado multidões ao cinema neste verão de 2026 – e atraído também imensas críticas. O Maio publica, pela sua relevância, este texto de Andrés Ávila, da revista chilena El Porteño, para quem Nolan subverte completamente o sentido do poema. Isso “começa quando o filme coloca a culpa no centro da identidade do protagonista. Em Homero, a culpa constitui uma experiência que o herói deve viver e integrar; nunca o que o define. Na adaptação ocorre exatamente o contrário. A culpa deixa de ser uma dimensão da existência e passa a ser a essência do personagem. A partir desse momento, a viagem deixa de conduzir à autorrealização e passa a conduzir à negação de si próprio.”

Esta análise não pretende julgar os aspetos técnicos de um filme que tem inegáveis ​​virtudes formais. Embora não seja um filme perfeito, a fotografia, a encenação e a música — como é frequente na filmografia de Christopher Nolan — atingem um nível notável e confirmam o domínio do realizador sobre a linguagem cinematográfica. Isto, aliado a um orçamento avultado, deixa pouca margem para erros neste aspeto.

Também não me alongarei sobre o polémico elenco. Independentemente das razões que o tenham motivado, este aspeto não altera o cerne da minha crítica.

O objetivo deste ensaio é outro: analisar o guião de uma perspetiva simbólica e filosófica. Não me interessa discutir até que ponto Nolan se afasta de Homero, mas sim que conceção do ser humano emerge dessa distância.

A minha hipótese é que o filme não modifica simplesmente alguns episódios da Odisseia. Substitui o princípio que organiza todo o poema. Onde Homero narra a autorrealização do herói, a adaptação constrói um processo de negação de si próprio. Nesta mutação não é só Odisseu que muda: também muda a própria ideia de heroísmo.

 

Duas Odisseias: a viagem como transformação ou como condenação

O princípio filosófico

Christopher Nolan não tinha a obrigação de adaptar fielmente a Odisseia de Homero. Os clássicos sobrevivem precisamente porque cada época os relê a partir de novas perguntas. O problema desta adaptação, portanto, não é que altere episódios, personagens ou cenários. O problema é muito mais profundo: altera o princípio filosófico que deu unidade à obra e, com ele, a forma como se compreende a identidade do herói.

A Odisseia constitui uma das expressões mais completas da viagem do herói na tradição ocidental. Nele aparecem sintetizados os momentos fundamentais do mito individual: a partida, as provas, a descida ao mundo dos mortos, o conhecimento e o regresso transformador. Não se trata apenas da viagem de um homem que regressa a casa, mas do processo através do qual se torna plenamente quem foi chamado a ser. A identidade de Odisseu [Ulisses na versão latina] não é dada desde o início: forja-se através da experiência. O filme propõe uma inversão sistemática dessa lógica que organiza o poema homérico.

Cada prova não é um castigo, mas uma instância de transformação. O herói não regressa como o mesmo homem que partiu para Troia; regressa convertido em alguém capaz de habitar plenamente o lugar a que pertence.

Cada episódio do poema original contribui para a construção da identidade de Odisseu. Não é um homem perfeito. É orgulhoso, comete erros, perde companheiros, provoca desgraças e conhece o sofrimento. Contudo, nenhum destes erros constitui a sua identidade. Cada provação obriga-o a integrar uma nova experiência até que se torne plenamente aquilo que está destinado a ser: rei de Ítaca, marido de Penélope, pai de Telémaco e um herói de extraordinária inteligência.

Este é o verdadeiro sentido do nostos: regressar não é apenas voltar a casa, mas regressar plenamente a si mesmo. O regresso tem um carácter existencial antes de geográfico. Ítaca representa não apenas um lugar aonde se volta, mas o modo de vida para o qual o herói se preparou através da experiência.

A inversão começa quando o filme coloca a culpa no centro da identidade do protagonista. Em Homero, a culpa constitui uma experiência que o herói deve viver e integrar; nunca o que o define. Na adaptação ocorre exatamente o contrário. A culpa deixa de ser uma dimensão da existência e passa a ser a essência da personagem. A partir desse momento, a viagem deixa de conduzir à autorrealização e passa a conduzir à negação de si próprio.


Calipso: o esquecimento e a vontade do herói

A inversão do poema começa desde as primeiras cenas. O filme funde a permanência de Odisseu na ilha de Calipso com o episódio dos lotófagos, alterando uma distinção fundamental da obra homérica. Em Homero, ambas as experiências representam formas diferentes de se afastar do regresso. Os comedores de lótus simbolizam o esquecimento involuntário; Calipso, por outro lado, encarna uma tentação muito mais profunda: a possibilidade de renunciar livremente ao destino humano em troca de uma existência imortal, livre de dor e conflito.

Precisamente por isso, a vontade de regressar nunca desaparece em Odisseu. Ítaca não é um simples lugar de origem, mas o próprio núcleo da sua identidade. O herói pode demorar-se, sofrer e até desfrutar do que encontra pelo caminho, mas nunca deixa de saber quem é ou para onde vai. A sua permanência com Calipso não exprime a perda da vontade, mas antes a tensão entre duas formas possíveis de existência: a imortalidade sem história ou a vida humana com todas as suas limitações.

O filme altera esse equilíbrio. Odisseu parece preso num estado de alienação semelhante ao provocado pelo lótus. O seu desejo de regressar já não brota de uma decisão interior, mas parece depender do impulso de Calipso, que acaba por funcionar como catalisadora de uma memória que o protagonista perdera. O conflito deixa então de ser um teste de vontade e converte-se num problema de memória.

A alteração pode parecer menor, mas muda profundamente a identidade do herói. Em Homero, Odisseu regressa porque se mantém fiel a si próprio mesmo quando tudo o convida ao esquecimento. No filme, porém, o regresso começa quando alguém lhe recorda quem era. Enquanto o poema celebra a perseverança de uma vontade que resiste à tentação, a adaptação apresenta um homem cuja identidade depende de um estímulo exterior. A primeira grande reviravolta do herói já ocorreu: a sua vontade deixa de ser o motor da viagem.


Polifemo: o desaparecimento da
métis

A mesma inversão surge no episódio de Polifemo. Na Odisseia, o ciclope não representa apenas um monstro devorador de homens, mas o reverso simbólico do próprio Odisseu. Onde o herói personifica a métis – a inteligência prática, a astúcia e a capacidade de dominar as circunstâncias através da palavra –, Polifemo representa a força crua, incapaz de reconhecer a lei, a hospitalidade ou a ordem da civilização.

A vitória de Odisseu não depende da sua força física, mas da sua inteligência. O engano de “Ninguém”, a embriaguez do ciclope e a fuga escondido sob os carneiros constituem uma das maiores demonstrações de que a verdadeira superioridade do herói reside na sua capacidade de pensar antes de atacar.

No entanto, o episódio não termina com uma glorificação dessa inteligência. Ao deixar a ilha, Odisseu sucumbe ao orgulho e revela o seu verdadeiro nome. Este gesto permite a Polifemo invocar Poseidon e desencadeia a longa perseguição que sustenta o resto do poema. O ensinamento é profundamente clássico: até a virtude pode ser corrompida quando degenera em orgulho. O erro não está em ter derrotado o monstro pelo engano, mas em ter permitido que o orgulho se sobrepusesse à prudência.

O filme elimina essa complexidade simbólica. Polifemo mal fala, o confronto entre duas formas de inteligência desaparece e a resolução do episódio reduz-se a uma explosão de violência. A flecha que Odisseu dispara contra o Ciclope durante a retirada não expressa uma queda da prudência para a húbris, a arrogância desmedida, mas antes uma reação impulsiva, motivada apenas pela raiva ou pela vingança. O herói deixa de cometer um erro trágico para converter-se, simplesmente, num homem dominado pelos seus impulsos.

A mudança é significativa. Em Homero, a métis permanece intacta mesmo quando o orgulho a trai momentaneamente. No filme, esta inteligência deixa de ser a característica essencial de Odisseu. A oposição entre inteligência e força desaparece e, com ela, perde-se uma outra dimensão da identidade do herói clássico.


Circe: o desaparecimento do
eros como experiência transformadora

A simplificação simbólica atinge um dos seus pontos mais evidentes no episódio de Circe. Na Odisseia, é uma das personagens femininas mais complexas de todo o poema. É feiticeira e hospitaleira; representa simultaneamente perigo, sedução, conhecimento e hospitalidade. Depois de resistir à sua magia graças à intervenção de Hermes, Odisseu não a destrói nem a subjuga pela força. Surge entre ambos uma relação baseada no reconhecimento mútuo, a tal ponto que Circe acaba por se tornar a guia do herói e quem lhe revela o caminho para o Hades.

Precisamente por esta complexidade, o episódio constitui uma nova etapa no processo de transformação de Odisseu. O encontro com Circe não representa uma simples vitória sobre um obstáculo, mas a incorporação de novos conhecimentos. Eros deixa de ser uma força que escraviza para converter-se numa experiência que alarga o horizonte do herói.

O filme reorganiza completamente este simbolismo. Circe aparece definida quase exclusivamente pelo seu confronto com os homens. A ambiguidade desaparece para dar lugar a uma personagem cuja identidade gira em torno de uma denúncia permanente da violência masculina. A cena em que os companheiros de Odisseu devoram os alimentos com uma voracidade quase animalesca funciona como justificação moral para a sua transformação em porcos. A feitiçaria perde então boa parte da sua dimensão mítica para adquirir o sentido de um castigo alegórico. O próprio cenário contribui para esta leitura: a cabana escura, a estética próxima do cinema de terror e a representação de Circe como uma figura quase espectral substituem o espaço ambíguo e fascinante da ilha homérica por uma atmosfera dominada pelo terror.

A relação entre Circe e Odisseu também se altera radicalmente. Em Homero, o herói vence primeiro a feiticeira graças à sua inteligência e ao auxílio de Hermes. Só depois deste reconhecimento mútuo nasce uma relação de hospitalidade, aprendizagem e eros. No filme ocorre o movimento inverso. Odisseu não vence Circe nem estabelece com ela uma relação de iguais. O conflito termina quando ele aceita a interpretação moral dela da Guerra de Troia e reconhece a barbárie das suas próprias ações. Circe acede então a restaurar a forma humana dos companheiros apenas quando Odisseu admite a sua culpa e aceita que, antes de regressar a Ítaca, tem de prestar contas da destruição que deixou para trás.

Esta mudança é especialmente significativa porque modifica a função dramática do episódio. Em Homero, Circe contribui para a construção da identidade do herói; a experiência amorosa e o conhecimento partilhado expandem a sua compreensão do mundo. No filme, porém, a relação está subordinada a uma lógica de confissão e expiação. O encontro deixa de ser uma instância de transformação e passa a ser um juízo moral.

Paradoxalmente, uma personagem que parece ocupar mais espaço narrativo acaba por ter menos profundidade simbólica. Ao reduzir a complexidade de Circe a um único eixo interpretativo – a denúncia da violência masculina e a exigência de reconhecimento da culpa –, o filme simplifica uma das figuras mais ricas da tradição clássica. O resultado não é um alargamento do protagonismo feminino, mas uma redução da sua espessura simbólica.


Atena e Penélope: quando a sabedoria dá lugar à culpa

A simplificação simbólica atinge também Penélope e Atena, duas das figuras fundamentais do universo homérico. Embora ocupem lugares distintos na história, ambas cumprem uma função decisiva: manter a ordem a que Odisseu deve regressar.

Em Homero, Penélope não é apenas o objeto do retorno. A sua inteligência preserva Ítaca durante vinte anos através de uma paciente combinação de prudência, astúcia e perseverança. O famoso estratagema do tear não representa simplesmente uma forma de resistir aos pretendentes, mas a demonstração de que o reino permanece vivo porque a sua rainha continua a exercer a mesma inteligência prática que caracteriza Odisseu. Ambas as personagens parecem unidas por uma mesma virtude: a capacidade de governar o tempo através da inteligência e não da força.

O filme altera profundamente essa representação. Penélope deixa de ser a figura que sustenta silenciosamente a ordem política e familiar para adquirir motivações distintas, mais próximas da administração do poder do que da fidelidade como princípio ordenador do reino. A sua espera já não constitui apenas um ato de amor e inteligência, mas também uma estratégia destinada a preservar uma legitimidade institucional constantemente ameaçada. A tensão que mantém com Telémaco acentua ainda mais esta mudança. O conflito já não gira em torno do reconhecimento do herdeiro, mas da disputa pela liderança política de Ítaca. Desta forma, a espera perde muito da sua dimensão simbólica e adquire um carácter predominantemente administrativo. Ítaca deixa de ser o lar que espera o herói para converter-se num espaço cuja legitimidade aparece permanentemente em disputa.

A transformação de Atena é ainda mais significativa. Na Odisseia, a deusa não representa apenas uma protetora pessoal de Odisseu. Ele é a personificação da métis: a inteligência prática, a prudência, a visão e a estratégia que tornam possível a ordem humana face ao caos. Não por acaso é precisamente ela quem guia Odisseu durante todo o seu regresso. Ambos participam do mesmo princípio: a inteligência como força capaz de ordenar o mundo.

O filme altera radicalmente este simbolismo. Atena deixa de ser, acima de tudo, a protetora da inteligência heroica e passa a ser a recordação permanente de uma ofensa. A profanação do seu templo — visualmente representada pela decapitação da sua efígie — adquire uma centralidade que reorganiza toda a narrativa. Já não é um dos muitos horrores do saque de Troia, mas o acontecimento que, retrospetivamente, explica o destino de Odisseu.

Esta mudança é particularmente significativa porque altera o próprio significado da tradição clássica. No ciclo épico, o grande sacrilégio associado ao templo de Atena é atribuído a Ájax, o Menor, cuja violência contra Cassandra expressa a desordem moral desencadeada pela guerra. A culpa, neste caso, tem um carácter concreto: pertence a quem comete o ato e acarreta consequências específicas. O filme reatribui esse peso simbólico a Odisseu. Sem necessidade de reproduzir o episódio tradicional com exatidão, concentra nele a responsabilidade moral pelo saque e converte essa profanação na origem de toda a sua tragédia.

 

A Atena homérica orienta, protege, intervém e corrige; a Atena do filme observa, lamenta e acusa. A sua inteligência deixa de organizar a história para se tornar ela própria vítima da história.

 

Mas a mudança atinge uma dimensão ainda mais profunda. É significativo que até a deusa da estratégia deixe de agir estrategicamente. A Atena homérica orienta, protege, intervém e corrige; a Atena do filme observa, lamenta e acusa. A sua inteligência deixa de organizar a história para se tornar ela própria vítima da história. Enquanto Homero apresenta uma divindade ativa que orienta o destino do herói, a adaptação oferece uma figura cuja principal função é recordar uma ferida impossível de reparar. A sabedoria dá lugar ao ressentimento; a estratégia, à memória da ofensa.

Esta mudança revela um investimento muito mais profundo do que simplesmente modificar uma personagem. Em Homero, Atena constitui o princípio ordenador do universo moral da Odisseia. É a inteligência que orienta o regresso do herói e restaura a ordem perdida. No filme, esta função estrutural parece estar ocupada pela culpa. Já não é a sabedoria que organiza o sentido da viagem, mas a necessidade permanente de expiar um pecado original. A culpa ocupa o lugar que antes pertencia à inteligência.

A transformação de Penélope e Atena não é um caso isolado. Faz parte de uma operação mais vasta através da qual as personagens deixam de encarnar virtudes – inteligência, prudência, fidelidade ou sabedoria – para se tornarem portadoras de posições morais e políticas. Nesta alteração perdem parte da densidade simbólica que fez da Odisseia um poema sobre a condição humana e não apenas sobre as consequências de uma guerra.


O Hades: do conhecimento ao tribunal da culpa

A transformação atinge a sua expressão máxima no episódio da descida ao Hades. Em Homero, a Néquia constitui um dos momentos filosoficamente mais profundos do poema. Odisseu não desce ao mundo dos mortos para ser julgado, mas para adquirir os conhecimentos essenciais que lhe permitirão completar o seu regresso. O submundo não surge como um tribunal moral, mas como o lugar onde a experiência humana atinge uma perspetiva inacessível aos vivos.

É por isso que o centro do episódio não é a culpa, mas sim Tirésias. O adivinho revela a Odisseu o caminho que ainda tem de percorrer, os perigos que o esperam e as condições necessárias para repor a ordem em Ítaca. A descida constitui uma iniciação. O herói regressa do reino dos mortos não mais culpado, mas mais sábio. O conhecimento obtido no Hades faz parte da transformação que dá sentido a toda a viagem.

Até o encontro com Elpenor confirma esta lógica. Morto acidentalmente e privado de sepultamento, o jovem não comparece para condenar Odisseu nem convertê-lo em eterno responsável pelo seu destino. Pede-lhe simplesmente que regresse e cumpra os ritos fúnebres que a piedade exige. A dívida tem um carácter concreto e, precisamente por isso, pode ser reparada. Odisseu aceita o compromisso e, ao regressar, concede-lhe as devidas honras fúnebres. A culpa não constitui uma identidade; é uma circunstância que encontra resolução através de ações justas.

O filme altera radicalmente esta estrutura. A descida aos infernos perde o seu carácter iniciático para se tornar um espaço de acusação. Tirésias deixa de ocupar o centro dramático e esse lugar é assumido por Sinon, personagem cuja função consiste quase exclusivamente em lembrar a Odisseu as mortes provocadas durante a guerra e o abandono dos seus companheiros. O Hades deixa de oferecer conhecimento para oferecer recriminação.

A escolha de Sinon é especialmente significativa. A sua presença não se limita a apresentar uma personagem de outra tradição literária ou a enriquecer a narrativa com um subenredo inédito. Ele torna-se a personificação da consciência culpada do protagonista. A sua voz já não orienta o futuro de Odisseu, como fazia Tirésias, mas mantém-no preso ao passado. Enquanto o poema homérico transforma a descida aos infernos numa preparação para o regresso, o filme transforma-a numa impossibilidade de regressar verdadeiramente.

A insistência nos mortos insepultos reforça essa mesma lógica. O filme transforma essa ausência numa dívida moral impossível de saldar. Por mais longe que o protagonista chegue, os mortos continuam a exigir uma reparação que nunca chega a consumar-se. A culpa deixa de ser uma experiência passível de resolução e passa a ser uma condição permanente da existência.

Esta transformação é determinante para compreender o sentido de toda a adaptação. Em Homero, até o encontro com a morte faz parte do processo através do qual o herói atinge uma compreensão mais profunda de si mesmo. O Hades constitui um momento de revelação. No filme, pelo contrário, a morte já não revela, acusa. O submundo deixa de ser o lugar onde o herói adquire sabedoria e passa a ser o cenário onde aprende que nunca poderá libertar-se do que fez.

Esta não é apenas uma diferença narrativa. Trata-se de duas conceções opostas da experiência humana. A Néquia homérica ensina que até o sofrimento e o erro podem ser integrados num processo de transformação. Pelo contrário, o Hades do filme afirma que o passado permanece como uma dívida infinita que nenhuma ação pode cancelar. Onde Homero oferece conhecimento, Nolan oferece culpabilidade. Onde o herói regressava transformado, o protagonista emerge condenado a carregar indefinidamente o peso da sua história.

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Sinon: da transformação do herói ao expediente da culpabilidade

A transformação de Sinon é, provavelmente, a mudança mais reveladora de toda a adaptação. Nenhuma outra personagem permite compreender com tanta clareza a mudança filosófica que o filme propõe.

Na tradição clássica, Sinon ocupa um lugar secundário. A sua função é possibilitar a armadilha do Cavalo de Troia através da astúcia e do engano. É uma peça do ardil concebido por Odisseu, mas não tem um desenvolvimento psicológico nem uma força moral comparável à que adquire no filme.

Nolan altera por completo esta função. Sinon deixa de ser um instrumento da vitória grega e passa a ser a consciência acusadora do protagonista. Desde a sua aparição, a sua presença está destinada a lembrar constantemente o custo humano das decisões de Odisseu. A sua voz não ilumina o caminho que está pela frente; ela conduz repetidamente o herói de volta às culpas do passado.

A transformação é aprofundada por um subenredo completamente original que o liga a Antínoo, o principal pretendente ao trono de Ítaca. O filme apresenta Antínoo como um aristocrata que evita o serviço militar conseguindo que Sinon assuma o seu lugar através de um acordo financeiro com a família deste. Odisseu descobre o engano e decide encobri-lo para preservar a honra de uma das famílias mais poderosas do reino. Mais tarde, utiliza o próprio Sinon como peça-chave no plano do Cavalo de Troia. Quando se reencontram no Hades, Sinon não só repreende Odisseu pela sua responsabilidade na sua morte e na de tantos outros, como também lhe entrega a peça preta do sorteio e exige que faça justiça castigando Antínoo.

Como dispositivo dramático, o subenredo é funcional. Introduz uma motivação adicional para o confronto final e estabelece uma ligação entre a guerra de Troia e a crise política em Ítaca. Contudo, a sua verdadeira importância parece residir noutro lado.

Depois de construir ao longo do filme um Odisseu dominado pela culpa, o argumento precisa de conferir legitimidade moral à violência com que recupera o palácio. A história de Sinon fornece essa justificação. A morte de Antínoo já não responde apenas à restauração da ordem política, familiar e sagrada de Ítaca, como acontece em Homero. Apresenta-se também como a reparação de uma dívida pessoal que Odisseu carrega desde Troia. 

Contudo, essa reparação nunca produz uma verdadeira libertação. A morte de Antínoo não resolve o conflito interior do protagonista porque o problema que o filme construiu já não pertence ao âmbito da justiça, mas ao da identidade. A culpa não constitui uma dívida concreta que possa ser reparada, mas a essência do carácter da personagem.

Neste ponto a peça preta do sorteio assume especial importância. Mais do que um simples objeto narrativo, funciona como uma síntese material de toda a viagem de Odisseu. Na Odisseia de Homero, o herói regressa transformado pelas provações. Cada experiência – Calipso, Polifemo, Circe, a Néquia, as Sereias – expande a sua compreensão do mundo e de si mesmo. O verdadeiro fruto da viagem não é um objeto, mas o próprio Odisseu, convertido pela experiência num rei mais prudente, paciente e sábio.

O filme propõe exatamente a inversão desta viagem. Odisseu não regressa trazendo uma transformação interior que possa repor a ordem. Regressa transportando consigo a prova material de uma culpa que nunca deixa de o perseguir. A peça preta não simboliza o conhecimento adquirido durante a viagem; simboliza uma dívida moral que acompanha o protagonista até ao último momento da narrativa. Em vez de condensar a sabedoria adquirida, concentra o peso daquilo que nunca poderá ser expiado.

Por isso, a cena final com Antínoo tem um significado que transcende a simples vingança. Quando Odisseu lhe atira a peça preta antes de o matar, não está a fechar um ciclo heroico, mas a tentar resolver uma culpa que a própria história declarou irredimível desde o início. A justiça deixa de ser a restauração da ordem e passa a ser uma tentativa desesperada de reconciliação com um passado que nunca deixa de o exigir.

Aqui reside, provavelmente, a diferença mais profunda entre Homero e o filme. Na Odisseia, a viagem transforma o herói até fazer que este seja digno de reconquistar o seu lugar no mundo. Na adaptação, a viagem acumula provas da sua indignidade. Cada etapa acrescenta um novo motivo para ele duvidar de si mesmo, até que a sua identidade acaba por ser definida não pela sabedoria adquirida, mas pela culpa acumulada.

Sinon representa o culminar deste processo. Já não é o enganador que contribuiu para a queda de Troia. É o arquivo vivo de todas as culpas de Odisseu. O seu papel não é impulsionar a jornada do herói, mas impedir que essa jornada possa verdadeiramente terminar. Enquanto o poema homérico conduz à reconciliação entre o homem e o seu destino, o filme conduz à interiorização definitiva da culpa.


Conclusão: quando o herói já não pode ser quem era

Não é difícil perceber o contraste com Homero. A Odisseia termina com uma reconciliação. O herói recupera o seu lar, a sua mulher, o seu filho e o seu reino. Os deuses restabelecem a paz. Ítaca recupera o seu personagem central porque quem regressa já não é o mesmo que partiu para Troia. A viagem cumpriu o seu propósito: transformar o herói para o tornar digno de voltar a ocupar o seu devido lugar.

O filme termina exatamente no ponto oposto. Depois de passar por todas as provações, Odisseu renuncia ao reino, cede o poder a Telémaco e enceta um novo exílio para ocidente. A viagem não culmina na restauração da ordem, mas na aceitação de que o protagonista já não pode habitar o mundo a que pertence.

Este resultado torna-se ainda mais poderoso quando incorpora o contexto histórico do colapso da Idade do Bronze e do desaparecimento do mundo micénico. A presença recorrente de povos do mar funciona como o anúncio de uma nova civilização que afasta a anterior. Como recurso histórico, a referência é legítima e até sugestiva. O problema surge quando esta mudança de época deixa de constituir o cenário da história e passa a ser a justificação moral para o desaparecimento do herói.

 

As personagens deixam de encarnar virtudes universais – inteligência, prudência, fidelidade, sabedoria ou astúcia – para se tornarem portadoras de posições morais, políticas ou psicológicas.

 

A história deixa então de ser o espaço onde Odisseu realiza plenamente a sua natureza. Torna-se o argumento pelo qual ele deve renunciar a ela.

Esta mesma inversão perpassa todos os níveis da narrativa. Atena deixa de personificar a inteligência estratégica para converter-se na memória permanente de uma ofensa. Penélope deixa de representar a fidelidade inteligente que sustenta o reino e transforma-se na administradora de um vazio de poder. Circe abandona o seu papel de mestra e guia para se tornar a acusadora da violência masculina. O Hades deixa de ser um lugar de conhecimento e passa a ser um tribunal moral. Sinon deixa de ser um instrumento do engano e transforma-se no arquivo vivo da culpa de Odisseu.

Nenhuma destas transformações constitui um episódio isolado. Todos respondem à mesma operação simbólica. As personagens deixam de encarnar virtudes universais – inteligência, prudência, fidelidade, sabedoria ou astúcia – para se tornarem portadoras de posições morais, políticas ou psicológicas. Nesta alteração perdem uma boa parte da espessura simbólica que fez da Odisseia um poema sobre a condição humana e não uma história sobre as consequências de uma guerra.

Aqui reside, provavelmente, a diferença filosófica decisiva entre as duas obras. Homero conhece a culpa. Conhece o orgulho, a dor, a perda e o sofrimento. Odisseu não é um herói perfeito: comete erros, causa infortúnios e paga um preço elevado por eles. Mas nenhum destes erros define a sua identidade. A culpa constitui uma experiência que deve ser reconhecida, integrada e finalmente ultrapassada dentro de um processo de transformação. O regresso a Ítaca não significa o regresso de um homem inocente, mas de um homem que aprendeu quem é precisamente porque passou pelo sofrimento sem abandonar o que dava sentido à sua existência.

O filme propõe uma conceção radicalmente diferente. A culpa deixa de ser uma experiência e passa a ser uma identidade. Já não constitui uma dimensão da existência humana, mas antes o princípio que organiza o personagem e o mundo que o rodeia. É por isso que Odisseu não pode regressar. Não porque tenha perdido o caminho para Ítaca, mas porque a própria história conclui que nunca mais será digno de ocupar o lugar de onde partiu.

Neste sentido, o autoexílio final não constitui uma reviravolta inesperada no argumento. É a consequência inevitável de tudo o que o filme foi construindo desde as primeiras cenas. O esquecimento junto de Calipso, a transformação de Polifemo, a simplificação de Circe, a inversão simbólica de Atena e Penélope, o Hades convertido em tribunal e a história de Sinon conduzem inexoravelmente ao mesmo desfecho. Cada episódio acrescenta um novo motivo para que o herói renuncie a si próprio.

Por isso, a maior diferença entre Homero e esta adaptação não reside nos episódios modificados, suprimidos ou inventados. Ela reside na antropologia que fundamenta cada narrativa.

A Odisseia afirma que o ser humano pode passar pelo orgulho, pela culpa, pela dor e pela perda sem deixar de realizar plenamente a sua própria natureza. A transformação é o caminho pelo qual chega a ser quem foi chamado a ser.

O filme defende a tese oposta. A viagem não conduz à realização do herói, mas à descoberta de que o seu lugar já pertence ao passado; que a culpa invalida a sua identidade e que a única saída moral é desaparecer para que outra pessoa possa ocupar o seu lugar.

Nesta inversão não desaparece apenas o Odisseu de Homero. Desaparece também uma das intuições mais profundas da tradição clássica: a convicção de que o homem pode aprender com os seus erros sem deixar de converter-se plenamente em si próprio.

Não estamos, pois, perante uma adaptação que simplesmente reescreva a Odisseia. Estamos perante uma obra que substitui o princípio filosófico que organiza o poema. Onde Homero narrou a autorrealização do herói, o filme constrói um processo sistemático de negação de si mesmo. O resultado não é unicamente um outro Odisseu. É outra ideia de heroísmo e, em última análise, outra ideia do que significa tornar-se humano.

Publicado originalmente em El Porteño (elporteno.cl), 22 de julho de 2026, Valparaíso, Chile, e republicado no Maio com autorização do autor e da publicação.

Tradução de António Simões do Paço.