A fantasia empobrecida
No quesito “pegação” virtual, entre a geração Z e os boomers, o desenvolvimento tecnológico propiciou mudanças significativas. Os mais jovens podem achar que a sua experiência atual é mais rica, porque os dispositivos usados lhes permitem imagens ao vivo, em tempo real. Mas quem usou o velho telefone com fio para trocar juras de amor há de concordar comigo que a internet empobreceu a fantasia.
O que parece ser uma grande novidade para a geração Z já era uma prática exercida pelos boomers. Nunca ouviu falar dessa geração? Do tempo da sua mãe ou da sua avó. Aproveite esta aula de cultura inútil. Trata-se da geração que nasceu após a Segunda Guerra Mundial, quando os soldados voltaram para casa com uma fome de anteontem, porquanto geradora de uma explosão de natalidade. Este fenómeno foi chamado Baby Boom e, por conseguinte, os boomers são a gente que nasceu após o fim da Segunda Guerra, assim como eu. Exatamente. O jovem que viria a ser meu pai teve a sua idade aumentada pelo Estado brasileiro, para servir na Força Expedicionária Brasileira – FEB, uma divisão militar de mais de 25 mil homens do Exército e da Força Aérea, que foi reunida para uma guerra da qual parte deles nunca nem tinha tido notícia. Sim, o acesso aos jornais ou à rádio, nas regiões rurais do Nordeste brasileiro, por exemplo, era muito restrito. Para alguns nordestinos, esse acesso tornou-se possível pela primeira vez através da FEB. Se mortos, ninguém ousaria criticar o Estado, já seriam defuntos um pouco mais civilizados. Brincadeira à parte, sabia que o Brasil foi o único país da América Latina a enviar tropas terrestres para juntar-se aos aliados na Europa? A informação é de borla. Mas mudemos de assunto. Não é meu objetivo falar de guerra, mas de fantasia adulta.
No quesito “pegação” virtual, entre a geração Z e os boomers, o desenvolvimento tecnológico propiciou mudanças significativas. Escolhi falar sobre meios utilizados, porque o fim – o fim mesmo –, este, permanece. Gozar é um verbo de aceitação universal, em qualquer faixa etária e em qualquer tempo. Refiro-me à internet, enquanto infraestrutura de redes que conecta computadores. Os mais jovens podem achar que a sua experiência atual é mais rica, porque os dispositivos usados lhes permitem imagens ao vivo, em tempo real. Mas quem usou o velho telefone com fio para trocar juras de amor há de concordar comigo que a internet empobreceu a fantasia.
Era delicioso e divertido ao mesmo tempo descrever o cenário e no centro dele ser a personagem. Comumente, como é ainda hoje, o nosso quarto era uma zona: cama desfeita, lençol amassado, roupas espalhadas pela cama, livros, sapatilhas, chinelos, sacos e mochilas pelo entorno. No centro, uma adolescente perfeitamente integrada ao ambiente: tinha o cabelo desalinhado, vestia uma camiseta velha, um calção folgado. Os pais estavam no trabalho, o telefone tocava, não havia identificador de chamada. Suspeitando quem era o interlocutor, ela encompridava o oi ou o alô – em Portugal, o estou, imagino – e se a hipótese se comprovava, já ia planejando caras e bocas para a cena. Não ia ser vista, mas precisava compor a personagem.
O velho lençol de algodão amarelado virava seda, a camiseta e o calção velhos tornavam-se aquele baby-doll vermelho transparente que ele nunca tinha visto, nem veria, porque não existia.
Começava uma conversa mole, seguida de reticências que, fatalmente, ia dar no “como você está”. A pergunta não pretendia saber da saúde, é claro. Quem é besta de adoecer quando se é jovem? Aliás, a grande maioria acredita ser imortal. E quem não acredita não morre porque não tem onde cair morto. O interlocutor queria saber o que ela vestia. Os mais ousados queriam saber se estava nua, o que fazia ou se pensava fazer. Para ser delicada, era uma espécie de convite a viajarem juntos. Melhor, era a hora oficial da fantasia erótica. Ela, espertamente, sabia esticar a conversa. Sem nenhuma pressa, descrevia o ambiente do modo que lhe parecia melhor se adequar ao fim desejado. O velho lençol de algodão amarelado virava seda, a camiseta e o calção velhos tornavam-se aquele baby-doll vermelho transparente que ele nunca tinha visto, nem veria, porque não existia, mas sendo ela muito mazinha não era a primeira vez que o descrevia em detalhes, já o tinha feito numa ocasião em que ele não podia reagir, porque a mãe entrou no quarto, para reclamar da desordem. Os cabelos desalinhados eram magicamente transformados no rabo de cavalo amarrado com fita que ele adorava. O cavalheiro, por sua vez, apesar de não ser muito falante e de ter aquela pressa comum ao sexo masculino, também não deixava por menos, informava de modo nada científico sobre os progressos recentes da testosterona no seu corpo, o que redundava numa sequência de frases no superlativo absoluto. Cá entre nós, se o gajo soubesse que as suas falas eram exemplos elucidativos de um certo grau gramatical aplicado a substantivos, adjetivos e advérbios talvez tivesse se saído melhor no exame que era chamado de vestibular. Mas ele odiava as aulas de Português. Não lhe pareciam ser coisa de homem. Macho tinha que aprender Matemática, saber fazer contas, aprender a ganhar dinheiro.
Ignoremos o mercado e voltemos ao nosso objeto. Se boa parte da nossa descrição era inventada, as reações eram verdadeiras de ambos os lados. Tanto que acabavam por passar da teoria à prática. O encontro virtual era uma espécie de treino, feito com imaginação e muito humor, o que não significava fazer piada durante o evento. Mesmo quando o superlativo nos parecia demasiado, a gente fingia que acreditava. O que importava era tirar o máximo de proveito da brincadeira. Assim, quem tinha mais humor aproveitava duplamente. Primeiro com o parceiro e, depois com a melhor amiga, que sempre sabia das encenações. Ríamos de chorar das lingeries sensuais que nunca existiram, dos perfumes que nunca tivemos, até das lembranças que inventávamos. “Transmissão de pensamento: estava lembrando de você.” Um poema, uma frase, uma música, enfim, tudo era conteúdo para investir no desenvolvimento das nossas habilidades cenográficas. Sexo à flor da pele, o objetivo predominante era suscitar desejo, era fazer que os nossos parceiros pensassem em nós como se fôssemos a Leila Diniz, a Brigitte Bardot ou a Garota de Ipanema cantada por Tom Jobim. Nada menor, por favor.
Passemos do superlativo absoluto ao relativo. A mim parece que brincar com a imaginação era muito mais fixe que trocar nudes e exercitar práticas íntimas na frente de uma câmara. Não havia risco de prints, tampouco de imagens partilhadas. Penso que, em alguma medida, a câmara causa tensão, em lugar da entrega espontânea e bem-humorada, deve haver preocupação com a barriga, a celulite, a pose em geral. Afinal, os casais sabem que, apesar de jurarem segredo absoluto, as imagens podem vazar. Se vazam, deseja-se, ao menos, estar bem na foto. Ninguém quer viralizar pelo seu pior ângulo. Quem é exposta às redes sociais quando não era esse o seu propósito deve sentir muita vergonha. Talvez, não tenho certeza, haja alguma compensação quando se obtém fama pela bela imagem, por mais efémera que seja. Quando, ao contrário, tornar-se conhecida como a feiosa é daquelas coisas que devem ficar a martelar na cabeça até que surja outro facto com maior potencial de escândalo na sua bolha.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Essa prática, no entanto, a meu ver, ainda não é de todo destruidora da fantasia. Pior, muito pior, é substituir a diversidade humana por personagens virtuais e com estes desenvolver laços afetivos, transformando-os em companhia constante. Do alto da inexperiência de uma geração que escrevia cartas de amor, eu fico muito assustada quando leio sobre pessoas que estariam apaixonadas pela(o) namorada(o) IA.
A mim parece uma forma de loucura muito preocupante, porque há loucuras lindas. Mas talvez a urgência, a falta de tempo, o medo de se mostrar, a preguiça de conhecer alguém, a dificuldade de fazer-se amar sejam motivos para o surgimento desses loucos. Confesso que ainda não conheci ninguém que tenha uma namorada ou um namorado IA. Tenho curiosidade sobre as explicações ou justificativas, mas também tenho um certo medo desse tipo de doido. Fico a me perguntar o que leva alguém a se deixar capturar a tal ponto pelas supostas facilidades oferecidas pela inteligência artificial. Como alguém pode prescindir da riqueza imensa que é a sua própria inteligência para se deixar conduzir por esse novo deus? Em favor dos capturados eu só consigo pensar que tais sujeitos não devem ter medo da Alzheimer, como eu. Talvez por já estarem doentes, por terem esquecido que são humanos, por não conseguirem se abastecer das próprias vivências, nem lhes passe pela cabeça que estão encarcerados pela tecnologia. Eu penso que a IA está a tentar apagar as nossas memórias. Ora, se ao contrário, as cortinas do tempo vierem a se fechar ao fantástico mundo das minhas lembranças, a IA fará algo por mim? Eu não sei explicar isso como gostaria, mas sei que para IA funcionar ela precisa subsumir a minha inteligência ao seu comando. Eu preciso de alguma inteligência própria, mesmo que seja para subordinar-me. Tem de parecer escolha. Tenho de validar o comando que me anula. Tenho de demonstrar que estou no melhor dos mundos para, assim, legitimar esse poder que se me impõe. Qualquer semelhança com a dominância do capital não é mera coincidência.
Difícil escapar do mercado, do capital, do Estado, mesmo quando o assunto é fantasia. Como não pretendo encompridar esta nossa conversa, vou me encaminhando para os “finalmentes”. No escuro do esquecimento – fenómeno não raro na velhice –, a primeira perda que sofremos é a da autonomia, o que implica perder também o direito à solidão. Você já havia pensado na solidão como privilégio? Sem pretender demonizar os grupos, porque também necessitamos de estímulos que nos vêm na relação com outras pessoas, é na solidão que olhamos para dentro, que retiramos as máscaras, que vamos ao fundo dos nossos porões. Na solidão, penso, me reinvento, escrevo, fantasio e, principalmente, posso escolher se quero ou não permanecer sozinha, embora, muitas vezes, o meu querer esbarre no não querer do outro e vice-versa. Alguém já disse que a vida é arte do encontro. Vamos subverter isso? Requer muito mais sabedoria viver os desencontros com lucidez, sem sucumbir a comandos que aprisionam. Se para viver é preciso sair do sério, por que não continuar apostando as nossas fichas em loucuras criativas? Por que não nos abastecermos das próprias fantasias?
Fiquemos por aqui. Detestaria deixar uma imagem de saudosista. Nada contra o desenvolvimento tecnológico, somente contra certos usos. Também não ergo altares à solidão. Para ser honesta, devo dizer que não é por opção que vivo só. Na verdade, é por falta de opção. A solidão, no entanto, não é um peso a carregar, porque, felizmente, a subjetividade me dá sustentação. Não carrego comigo a ideia da obsolescência como algo que se impõe ao meu corpo e à minha alma. Sem nenhum pudor, com todas as ondulações propagadoras de receptividade, ainda sei dizer “Oi” ao telefone. Nada contra o telemóvel.
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Maria Augusta Tavares
Investigadora do trabalho