A sombra dos dragões
1.ª parte: Julieta e o general
Acontecia-lhe às vezes ter um repente de valentia que surpreendia toda a gente. De resto, é frequente isto acontecer com muitas mulheres que de súbito saltam do anonimato da retaguarda das lutas sociais e tomam a cabeceira, levando os homens arrastados atrás de si.
Num belo dia primaveril de 1958, Julieta pegou pela mão no filho Julião, com quatro anos de idade, e foi para a avenida saudar o general Humberto Delgado, candidato pela oposição nas eleições para a Presidência da República.
Nada disto teria acontecido se Gastão, pai de Julião, não estivesse nesse dia a trabalhar e houvesse alguém para ficar em casa a cuidar da criança. Aliás, se Gastão estivesse em casa, é certo que teria travado os ímpetos da mulher, impedindo-a de levar a criança para o meio de um previsível massacre. Ainda que fosse acérrimo opositor ao regime do Estado Novo, era pessoa muito ponderada em todos os seus passos – não consta que alguém alguma vez, ao longo de toda a sua vida adulta, o tenha visto tomar uma decisão impulsiva ou estouvada.
Julieta, por seu turno, era uma mulher muito recatada, as mais das vezes timorata. Mas acontecia-lhe às vezes ter um repente de valentia que surpreendia toda a gente. De resto, é frequente isto acontecer com muitas mulheres que de súbito saltam do anonimato da retaguarda das lutas sociais e tomam a cabeceira, levando os homens arrastados atrás de si.
Pois nesse dia Julieta, entusiasmada com a perspectiva de ver a ditadura cair ao fim de 25 anos de torturas e coacções, teve um desses rasgos de audácia e arrastou a criança, o seu querido filho único, para o meio da turbamulta.
A esmagadora maioria das pessoas que enchiam a avenida, na zona do Hotel Vitória, eram homens. O ambiente era entusiástico, parecia que nada poderia deter a multidão, e a vozearia de vivas ao general, à república e à liberdade soava como as trombetas do dia da libertação. O general, porém, não aparecia. As horas passavam e ninguém sabia se ele viria ou não, se teria sido retido, preso, ou pior.
O que apareceu foi um pelotão de soldados da GNR a cavalo. Primeiro, atirando com os quartos traseiros dos cavalos contra os manifestantes, a GNR tenta empurrar a multidão contra a parede. Mas a multidão, embebida de um entusiasmo esfuziante, não parecia disposta a deixar-se intimidar. Então a GNR desembainha os sabres e começa a distribuir espadeiradas. É certo que os sabres eram uns chanfalhos, não estavam afiados, mas uma espadeirada de sabre facilmente parte cabeças, braços, costelas. Ainda assim, a multidão não dispersava. A dada altura Julieta vê um homem ensanguentado a ser levado em ombros pela multidão. Perto dela, outro homem enraivecido contra a carga policial rapa de uma navalha, corta os arreios do cavalo mais próximo e derruba o GNR. O cavalo espanta-se, espezinha os canteiros da avenida, derruba meia dúzia de pessoas e por fim abala dali.
Julieta pega em Julião ao colo, por medo de que o tropel esmague a criança, e procura desesperadamente maneira de se abrigar das balas.
Começam então a ouvir-se tiros (para o ar?) e aí, sim, ouvem-se gritos de pânico, desata toda a gente a correr em todas as direcções, gera-se o pandemónio, desfaz-se o bloco que protegia os notáveis da manifestação; na correria desordenada as pessoas chocam umas contra as outras, algumas caem ao chão; há corpos atropelados por gentes e cavalos. Julieta pega em Julião ao colo, por medo de que o tropel esmague a criança, e procura desesperadamente maneira de se abrigar das balas.
Por felicidade, uma mulher caridosa que espreitava os acontecimentos por entre os cortinados de uma janela de rés-do-chão repara naquela mulher desorientada com uma criança de colo; abre-lhe a porta da rua: “Entre!, rápido!” Aos tropeções, Julieta quase se atira de cabeça para dentro das escadas, e a porta volta a fechar-se, mesmo a tempo de amortecer duas balas perdidas. Estavam a salvo.
– Que ideia a sua, trazer a criança para aqui!
Julieta nem teve ânimo para responder. Finalmente tomava consciência do perigo em que metera o filho.
A bondosa senhora deu-lhe guarida durante o tempo suficiente para que o burburinho acalmasse e a GNR amansasse. A criança parecia ter escapado ilesa, sem arranhões nem pisaduras, e mantinha uma expressão impávida. O único sintoma visível de sobressalto era que não largava a mão da mãe; e quando a mão não estava ao seu alcance, agarrava-se firmemente às saias da progenitora, quase as despindo, como se quisesse amarinhar por ela acima; e nunca, por um instante, desviava dela os olhos, bebia-lhe as expressões do rosto como um caminhante perdido no deserto beberia água do cântaro.
Partindo do princípio de que uma mulher com uma criança de quatro anos não seria vista como um perigo subversivo, Julieta decidiu por fim esgueirar-se para casa.
Quando lá chegou, já o seu homem regressara do trabalho e estava num alvoroço. Tinha recebido notícia dos acontecimentos na avenida, não encontrava mulher e filho em casa, que significaria isso? Conhecendo-a bem, começou a desconfiar de que ela pudesse andar metida na multidão. Ou, pior ainda, no cárcere. Que fazer? Pôs-se a andar de um lado para o outro, percorrendo mentalmente todas as possíveis soluções para descobrir o paradeiro da mulher e do filho. Para começar, podia telefonar para os hospitais. E se não os encontrasse aí? Não podia telefonar para as esquadras de polícia à cata deles – isso equivaleria a uma confissão ou uma denúncia. Puxou pela cabeça, a tentar lembrar-se de algum conhecido de confiança e influência suficiente para indagar junto da polícia. Mas não conseguia chegar a conclusão alguma.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Foi por isso um grande alívio, quando viu a porta de casa abrir-se para dar entrada a Julieta e ao filho. A mulher fez-lhe o relato detalhado dos acontecimentos, contrita, com muitas pausas e hesitações, à espera do merecido raspanete. No entanto, Gastão percebeu a aflição em que ela estava, o aperto em que a sua consciência a tinha posto, e achou que isso bastava para castigo, e não era pouco. Para quê agravar a sua angústia? Só se fosse para menorizá-la, coisa que ele não tinha o hábito de fazer. De modo que adoptou um tom conciliatório:
– Bem, já passou e não vos aconteceu nada de mal, valha-nos isso.
Na verdade, porém, não era bem assim. Tinha acontecido uma coisa bastante má. A criança, que apesar dos seus quatro anos já tinha um discurso muito fluente e bem articulado, dali em diante não voltou a dizer uma palavra; nem mesmo nas situações mais urgentes, como aconteceu dias depois, quando a saia de nylon da mãe, ao roçar o fogão, pegou fogo. Julião gesticulou, soprou como se estivesse a apagar as velas de um bolo de aniversário, “ffff, ffff”, mas foi incapaz de gritar: “Fogo!, estás a arder, mamã!” A preocupação dos pais foi crescendo com o passar dos dias, até que resolveram consultar o pediatra – ainda que fosse impossível descrever ao médico as circunstâncias em que a mudez atacara o filho. O pediatra sossegou-os: que não ligassem, que fizessem de conta que estava tudo normal, que não pressionassem a criança; um dia, Julião retomaria a fala como se nada tivesse acontecido.
– Isso foi provavelmente algum susto que ele apanhou. Não vejo nenhuma causa física, não é uma doença. Não se preocupem, há-de passar.
Contudo, além da perda da fala, a aventura da avenida tinha contaminado Julião com outros efeitos, ainda que invisíveis: até ao fim da sua vida, Julião jamais recordaria uma única imagem, nem física nem emocional, da cena na avenida. Alguma coisa no seu cérebro obliterou por completo a multidão, a gritaria, o tropel, a expressão aflita da mãe, os tiros, o pânico geral. Tudo foi erodido da sua consciência para todo o sempre. Com uma excepção: os cavalos. A sua imaginação sublimou-os em dragões que por vezes lhe povoavam os sonhos, tão gigantescos que era possível passar de táxi por baixo da barriga deles; e das bocas e narinas resfolegavam um fogo branco.
A aventura da avenida teve ainda outras consequências para a família. É certo que os pais de Julião conseguiam, diante do filho, fazer de conta que tudo estava normal; habituaram-se a interpretar os gestos e as onomatopeias da criança, o que permitia manter um nível mínimo de comunicação, acrescentado de muitos mimos e carícias. Mas isto não os impedia de sentirem uma grande aflição, sobretudo nos primeiros tempos (porque depois foram-se habituando), e sobretudo uma grande culpa no caso de Julieta, que se considerava responsável por aquela anomalia.
(continua)