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A sombra dos dragões
categoria-crónica GNR Humberto Delgado Repressão edicao-2026-06-11 (31)

A sombra dos dragões

Acontecia-lhe às vezes ter um repente de valentia que surpreendia toda a gente. De resto, é frequente isto acontecer com muitas mulheres que de súbito saltam do anonimato da retaguarda das lutas sociais e tomam a cabeceira, levando os homens arrastados atrás de si.

Rui Viana Pereira
António e Mariana, dois operários mortos na primeira greve geral de Portugal - 2.ª parte
Fuzilamentos GNR PSP República Setúbal categoria-história

António e Mariana, dois operários mortos na primeira greve geral de Portugal - 2.ª parte

Segunda e última parte da entrevista de Afonso Maia Silva, do Maio, ao historiador Diogo Ferreira, que estuda a história local da cidade do Sado, sobre os fuzilamentos de Setúbal de 1911 e investiga o que se passou com duas vítimas; os operários António Mendes e Mariana Torres. Aqui focada na violên

Afonso Maia Silva, Diogo Ferreira
categoria-crónica GNR Humberto Delgado Repressão edicao-2026-06-11 (31)

A sombra dos dragões

1.ª parte: Julieta e o general

Num belo dia primaveril de 1958, Julieta pegou pela mão no filho Julião, com quatro anos de idade, e foi para a avenida saudar o general Humberto Delgado, candidato pela oposição nas eleições para a Presidência da República.

Nada disto teria acontecido se Gastão, pai de Julião, não estivesse nesse dia a trabalhar e houvesse alguém para ficar em casa a cuidar da criança. Aliás, se Gastão estivesse em casa, é certo que teria travado os ímpetos da mulher, impedindo-a de levar a criança para o meio de um previsível massacre. Ainda que fosse acérrimo opositor ao regime do Estado Novo, era pessoa muito ponderada em todos os seus passos – não consta que alguém alguma vez, ao longo de toda a sua vida adulta, o tenha visto tomar uma decisão impulsiva ou estouvada.

Julieta, por seu turno, era uma mulher muito recatada, as mais das vezes timorata. Mas acontecia-lhe às vezes ter um repente de valentia que surpreendia toda a gente. De resto, é frequente isto acontecer com muitas mulheres que de súbito saltam do anonimato da retaguarda das lutas sociais e tomam a cabeceira, levando os homens arrastados atrás de si.

Pois nesse dia Julieta, entusiasmada com a perspectiva de ver a ditadura cair ao fim de 25 anos de torturas e coacções, teve um desses rasgos de audácia e arrastou a criança, o seu querido filho único, para o meio da turbamulta.

A esmagadora maioria das pessoas que enchiam a avenida, na zona do Hotel Vitória, eram homens. O ambiente era entusiástico, parecia que nada poderia deter a multidão, e a vozearia de vivas ao general, à república e à liberdade soava como as trombetas do dia da libertação. O general, porém, não aparecia. As horas passavam e ninguém sabia se ele viria ou não, se teria sido retido, preso, ou pior.

O que apareceu foi um pelotão de soldados da GNR a cavalo. Primeiro, atirando com os quartos traseiros dos cavalos contra os manifestantes, a GNR tenta empurrar a multidão contra a parede. Mas a multidão, embebida de um entusiasmo esfuziante, não parecia disposta a deixar-se intimidar. Então a GNR desembainha os sabres e começa a distribuir espadeiradas. É certo que os sabres eram uns chanfalhos, não estavam afiados, mas uma espadeirada de sabre facilmente parte cabeças, braços, costelas. Ainda assim, a multidão não dispersava. A dada altura Julieta vê um homem ensanguentado a ser levado em ombros pela multidão. Perto dela, outro homem enraivecido contra a carga policial rapa de uma navalha, corta os arreios do cavalo mais próximo e derruba o GNR. O cavalo espanta-se, espezinha os canteiros da avenida, derruba meia dúzia de pessoas e por fim abala dali.

Julieta pega em Julião ao colo, por medo de que o tropel esmague a criança, e procura desesperadamente maneira de se abrigar das balas. 

Começam então a ouvir-se tiros (para o ar?) e aí, sim, ouvem-se gritos de pânico, desata toda a gente a correr em todas as direcções, gera-se o pandemónio, desfaz-se o bloco que protegia os notáveis da manifestação; na correria desordenada as pessoas chocam umas contra as outras, algumas caem ao chão; há corpos atropelados por gentes e cavalos. Julieta pega em Julião ao colo, por medo de que o tropel esmague a criança, e procura desesperadamente maneira de se abrigar das balas.

Por felicidade, uma mulher caridosa que espreitava os acontecimentos por entre os cortinados de uma janela de rés-do-chão repara naquela mulher desorientada com uma criança de colo; abre-lhe a porta da rua: “Entre!, rápido!” Aos tropeções, Julieta quase se atira de cabeça para dentro das escadas, e a porta volta a fechar-se, mesmo a tempo de amortecer duas balas perdidas. Estavam a salvo.

– Que ideia a sua, trazer a criança para aqui!

Julieta nem teve ânimo para responder. Finalmente tomava consciência do perigo em que metera o filho.

A bondosa senhora deu-lhe guarida durante o tempo suficiente para que o burburinho acalmasse e a GNR amansasse. A criança parecia ter escapado ilesa, sem arranhões nem pisaduras, e mantinha uma expressão impávida. O único sintoma visível de sobressalto era que não largava a mão da mãe; e quando a mão não estava ao seu alcance, agarrava-se firmemente às saias da progenitora, quase as despindo, como se quisesse amarinhar por ela acima; e nunca, por um instante, desviava dela os olhos, bebia-lhe as expressões do rosto como um caminhante perdido no deserto beberia água do cântaro.

Partindo do princípio de que uma mulher com uma criança de quatro anos não seria vista como um perigo subversivo, Julieta decidiu por fim esgueirar-se para casa.

Quando lá chegou, já o seu homem regressara do trabalho e estava num alvoroço. Tinha recebido notícia dos acontecimentos na avenida, não encontrava mulher e filho em casa, que significaria isso? Conhecendo-a bem, começou a desconfiar de que ela pudesse andar metida na multidão. Ou, pior ainda, no cárcere. Que fazer? Pôs-se a andar de um lado para o outro, percorrendo mentalmente todas as possíveis soluções para descobrir o paradeiro da mulher e do filho. Para começar, podia telefonar para os hospitais. E se não os encontrasse aí? Não podia telefonar para as esquadras de polícia à cata deles – isso equivaleria a uma confissão ou uma denúncia. Puxou pela cabeça, a tentar lembrar-se de algum conhecido de confiança e influência suficiente para indagar junto da polícia. Mas não conseguia chegar a conclusão alguma.

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Foi por isso um grande alívio, quando viu a porta de casa abrir-se para dar entrada a Julieta e ao filho. A mulher fez-lhe o relato detalhado dos acontecimentos, contrita, com muitas pausas e hesitações, à espera do merecido raspanete. No entanto, Gastão percebeu a aflição em que ela estava, o aperto em que a sua consciência a tinha posto, e achou que isso bastava para castigo, e não era pouco. Para quê agravar a sua angústia? Só se fosse para menorizá-la, coisa que ele não tinha o hábito de fazer. De modo que adoptou um tom conciliatório:

– Bem, já passou e não vos aconteceu nada de mal, valha-nos isso.

Na verdade, porém, não era bem assim. Tinha acontecido uma coisa bastante má. A criança, que apesar dos seus quatro anos já tinha um discurso muito fluente e bem articulado, dali em diante não voltou a dizer uma palavra; nem mesmo nas situações mais urgentes, como aconteceu dias depois, quando a saia de nylon da mãe, ao roçar o fogão, pegou fogo. Julião gesticulou, soprou como se estivesse a apagar as velas de um bolo de aniversário, “ffff, ffff”, mas foi incapaz de gritar: “Fogo!, estás a arder, mamã!” A preocupação dos pais foi crescendo com o passar dos dias, até que resolveram consultar o pediatra – ainda que fosse impossível descrever ao médico as circunstâncias em que a mudez atacara o filho. O pediatra sossegou-os: que não ligassem, que fizessem de conta que estava tudo normal, que não pressionassem a criança; um dia, Julião retomaria a fala como se nada tivesse acontecido.

– Isso foi provavelmente algum susto que ele apanhou. Não vejo nenhuma causa física, não é uma doença. Não se preocupem, há-de passar.

Contudo, além da perda da fala, a aventura da avenida tinha contaminado Julião com outros efeitos, ainda que invisíveis: até ao fim da sua vida, Julião jamais recordaria uma única imagem, nem física nem emocional, da cena na avenida. Alguma coisa no seu cérebro obliterou por completo a multidão, a gritaria, o tropel, a expressão aflita da mãe, os tiros, o pânico geral. Tudo foi erodido da sua consciência para todo o sempre. Com uma excepção: os cavalos. A sua imaginação sublimou-os em dragões que por vezes lhe povoavam os sonhos, tão gigantescos que era possível passar de táxi por baixo da barriga deles; e das bocas e narinas resfolegavam um fogo branco.

A aventura da avenida teve ainda outras consequências para a família. É certo que os pais de Julião conseguiam, diante do filho, fazer de conta que tudo estava normal; habituaram-se a interpretar os gestos e as onomatopeias da criança, o que permitia manter um nível mínimo de comunicação, acrescentado de muitos mimos e carícias. Mas isto não os impedia de sentirem uma grande aflição, sobretudo nos primeiros tempos (porque depois foram-se habituando), e sobretudo uma grande culpa no caso de Julieta, que se considerava responsável por aquela anomalia.

(continua)

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António e Mariana, dois operários mortos na primeira greve geral de Portugal - 2.ª parte

Segunda e última parte da entrevista de Afonso Maia Silva, do Maio, ao historiador Diogo Ferreira, que estuda a história local da cidade do Sado, sobre os fuzilamentos de Setúbal de 1911 e investiga o que se passou com duas vítimas; os operários António Mendes e Mariana Torres. Aqui focada na violência protagonizada pela GNR e PSP, que muitas vezes rivalizou com a da PIDE.

Maio: Portanto, tem esse impacto na tal degradação da relação de confiança que muito precocemente se perde entre o operariado, que tinha sido uma importante base de apoio ao 5 de Outubro e ao crescimento dos círculos republicanos, etc., face ao regime republicano e às elites dirigentes que muito rapidamente, local e nacionalmente, acabaram por quase num volte-face ter atitudes tão repressivas como aquela que tu aqui estudaste.

DF: A começar pelo próprio António José de Almeida. É uma figura por quem tenho bastante respeito e acho que marcou a história do país, um indivíduo que era o grande arauto de pegar em armas para a revolução. Quando está no poder, já como ministro do Governo Provisório, o discurso foi completamente outro. Acho que a elite republicana local conseguiu manietar o movimento operário para criar esta quase “coalizão antimonárquica”, mas a seguir ao 5 de Outubro não há um único operário, não há nenhum dirigente sindical que tivesse sido nomeado para uma comissão administrativa de uma junta de freguesia, que eram as de paróquia ainda, nem para a comissão administrativa da Câmara Municipal nem para regedor de freguesia. Portanto, não houve nenhum cargo político ocupado por um trabalhador.

A Guarda Republicana, claro que ainda sem a formação que devia de ter, disparou a matar. O que o livro vem trazer é realmente isso. Eles dispararam sem ordem de fogo, não fizeram disparos para o ar para dispersar a população e os grevistas. É algo que ficou tatuado na memória dos trabalhadores locais, que não viram aquela República social emancipadora. Alves Redol, excecionalmente, numa página do seu livro Os Reinegros, diz que a República durou dois dias na Rotunda e pouco mais. É essa rápida desilusão destes homens e mulheres para com o regime, os que não receberam o direito ao voto, que veem reconhecido o direito à greve, mas também o lock-out patronal…

Maio: Sim, inclusive, tenho aqui uma questão sobre a Guarda Republicana, porque é utilizada a expressão “batismo de sangue”, que tu citas no livro, originalmente pelo jornal socialista O Trabalho. E aquilo que podemos observar é que, ao longo do período da Primeira República, este corpo policial irá ocupar um papel na repressão violenta do operariado organizado em Setúbal e não só, a nível nacional. Quão decisivo é esse papel, para pensarmos no carácter burguês do regime? Falamos inclusive já da questão da exclusão do operariado dos círculos de decisão, muito longe do ideal de República social que tinha alimentado as esperanças dos republicanos desde meados do século XIX.

DF: Até vou mais longe, do ponto de vista cronológico, saindo aqui do âmbito do livro. A Guarda Republicana e a PSP aqui em Setúbal (e é preciso fazer uma pequena diferença, porque a Polícia de Segurança Pública em Setúbal só vai nascer em fevereiro de 1927; desde 1899, o que existia era uma polícia cívica municipal, paga pelos cofres da Câmara) vão ser sempre agentes de repressão política.

Apesar da existência de polícia política, no contexto da Ditadura Militar, do Estado Novo ou mesmo já durante a República e de haver esta ideia, na sociedade portuguesa e entre historiadores (e bem, naturalmente), de que a PIDE é o símbolo máximo do obscurantismo, da violência política, da tortura, dos crimes perpetrados contra quem queria pensar de forma diferente no país, localmente isto será diferente.

Estamos a falar outra vez de Setúbal, a terceira maior cidade do país. Em 30 anos de ditadura, de 1926 a 1956, Setúbal não teve uma delegação da PIDE. Portanto, a pergunta é: quem são os primeiros agentes da ação repressora dos regimes no plano das comunidades? A resposta é simples: PSP e Guarda Nacional Republicana. Na investigação que tenho vindo a fazer sobre presos políticos de Setúbal, é completamente expresso que, por exemplo, quando se dá o 18 de Janeiro de 1934, quem está a prender as pessoas, a interrogar e a abrir os inquéritos antes de os ceder à polícia política é a PSP.

Posso dizer que, numa entrevista que reproduzi, a um neto de um antigo preso político já falecido, o setubalense que mais vezes foi preso, Salvador Pereira Amália, ele contou que o avô tinha estado preso no Aljube, em Caxias e em Peniche. Segundo o próprio preso, foi mais bárbara e violentamente agredido (ao ponto de ficar completamente irreconhecível) na esquadra da PSP de Setúbal em 1938. Portanto, a GNR e a PSP têm no seu código genético um monopólio da violência fruto do monopólio da manutenção da ordem pública. O que ouvimos hoje nas notícias, polícias presos por torturarem e agredirem violentamente os detidos na esquadra, faz parte da nossa história coletiva. Portanto, a Guarda Republicana e essa polícia municipal foram permanentemente agentes da burguesia e da elite política, como arma de opressão e de repressão sobre o universo trabalhador.

Existiram várias prisões de natureza política aqui em Setúbal durante a Primeira República, por muito que me custe dizer isto, olhando sempre para este período com uma lógica de abertura democratizante e com um espírito de vanguarda e jacobinismo. Mas o facto é que há prisões políticas aqui durante a Primeira Guerra, no sidonismo, no pimentismo (ditadura breve de Pimenta de Castro) e mesmo depois, nas greves gerais de 1925.

Maio: Há bocado, falámos também da camada da elite dirigente republicana, nomeadamente no caso do António José de Almeida, figura mais reconhecida por ter chegado a Presidente da República. Mas uma figura que salta à vista na leitura do livro é Paulino de Oliveira, uma figura local bastante relevante, que me parece paradigmática das contradições desta elite dirigente. Envolvido em protestos antimonárquicos e anticlericais reprimidos violentamente pela monarquia, preso político, levanta-se contra a repressão violenta do Estado, ainda monárquico, durante esse período. Mas já após a implantação da República, utilizará o periódico que dirigia, O Radical, como plataforma para a condenação da ação grevista. Como é que podemos enquadrar figuras como esta na viragem do regime monárquico para o republicano?

DF: É já uma evidência das riquezas que a história local também tem, em que não estamos a falar num plano teórico e abstrato. Temos aqui um exemplo absolutamente concreto: Paulino de Oliveira, contando com o apoio da sua esposa, que é uma figura nacional de grande relevância, Ana de Castro Osório. Ainda é mais surreal pensar que Ana de Castro Osório, em dezembro, 3 meses e meio antes deste evento, tinha orgulhosamente secretariado o processo de constituição da Associação de Classe das Mulheres Operárias Conserveiras de Setúbal, de forma voluntária. Escreve ainda um livro sobre as operárias e a greve de Setúbal. Paulino de Oliveira agrediu à chibatada estas mesmas mulheres e ele próprio escreve no jornal O Radical que as agrediu porque estariam a agredir a sua família. Tiveram de lhe arranjar um exílio político, São Paulo, onde foi nomeado cônsul.

Diria que há mais figuras assim no contexto local. Porquê? Muitos destes homens faziam parte dessa elite intelectual republicana, em que alguns são elite, mas são pequenos comerciantes. Não são pessoas que vivem em palacetes nem são grandes burgueses. Eu acho que isso é fruto do que é o ser humano, ou seja, de acordo com as circunstâncias, de acordo com os interesses, de acordo com o momento, acabam por trair determinados valores e ideais. O que eles acabam por alegar foi “precisamos de calma, a República precisa de tempo, precisa de tranquilidade e de paz para se desenvolver, não é do dia para a noite que os operários e as mulheres mais pobres vão ter os problemas resolvidos”. Isto não tem a ver com as figuras, tem a ver com o ideal.

Os operários de Setúbal, em dois momentos, ainda vão defender a República com armas e no terreno, apesar desta enorme cicatriz que foram os fuzilamentos. Em 1915, com o 14 de Maio, que acaba com o pimentismo, houve confrontos em Setúbal. Também com a Monarquia do Norte os operários voltam e há uma brigada voluntária de Setúbal que vai para o Norte combater os monárquicos, porque havia esta leitura, tanto no setor socialista, como no setor anarcossindicalista, de que regressar à monarquia era perder terreno nos avanços dessa República social que almejavam. Diria que isso é transversal, porque não deram o direito ao voto, bloqueando o acesso dos trabalhadores às decisões políticas. Os sindicatos e as organizações de classe foram sempre a plataforma de reivindicação da luta política que estes homens e mulheres tiveram para conseguir contrabalançar este controlo absoluto que os republicanos tiveram.

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Maio: Falemos da adesão do operariado aos ideais do sindicalismo revolucionário e do anarco-sindicalismo. Focamo-nos então em Setúbal, a “Barcelona portuguesa”, como ficou conhecida precisamente pela adesão a estas mundivisões e ideologias, num fenómeno similar ao que se passava na cidade catalã. O que criou na tua visão as condições para que este movimento fermentasse em Setúbal e o que o distinguia das restantes correntes do movimento operário da época, como o socialismo nos seus vários tons e, mais tarde, o bolchevismo, inspirado na Revolução Russa de Outubro de 1917?

DF: Não há investigação feita para o século XIX que explique esse início de adesão. Há este take-off industrial conserveiro, em 1880, com uma crise sardinheira na costa da Bretanha, que obrigou a que os franceses investissem o seu capital e deslocalizassem as fábricas para a zona costeira da Península Ibérica. Foram desde Vigo ao Algarve. Setúbal foi um dos pontos centrais deste investimento. Vai ser inclusive a capital ibérica da produção de enlatados de sardinha durante um bom período. Vai ter um conjunto muito diversificado de fábricas de média e grande dimensão, num total de uma centena de unidades fabris. Desta centena, muitas eram fabriquetas, até em vão de escada, às vezes com três trabalhadores que faziam uma pequena empresa.

Este boom industrializador, com investimento de capital francês, trouxe consigo um grande surto demográfico. Trouxe muita gente para Setúbal. Para termos uma ideia, em trinta anos duplica a população residente. E esse aumento de população é fruto da necessidade de trabalho que há neste setor, também para a pesca, naturalmente. Há uma grande migração para esta zona, principalmente da Murtosa, na zona de Aveiro, e também do Algarve. Um grande conjunto de jovens migra para aqui. A juventude é um aspeto importante para esta fenómeno de radicalização.

Depois, o carácter e o perfil monoindustrial da região: a dependência absoluta do setor da pesca e conserveiro industrial. Se não há peixe, não há produção, se não há latas, mesmo que haja peixe, não se pode pôr o peixe dentro das latas. Imaginemos a fábrica Y, que tem 50 ou 60 operários, se naquela semana houve insucesso na captura do peixe, ela fecha e não há trabalho, não se paga salário. Portanto, tem de haver uma conjugação. Este setor é muito especial desse ponto de vista, dessa dependência, são mais de dez mil pessoas ligadas a estas áreas de atividade económica, o que acaba por obrigar à construção de redes de solidariedade e sindicalismo como plataforma de unidade e de defesa dos interesses comuns. Os outros setores praticamente não têm peso, à exceção dos vinhos de Azeitão, ou até do moscatel de Setúbal, numa realidade diferente e até distante geograficamente.

Alia-se à juventude e à concentração do perfil industrial a dificuldade da captura do peixe, por não existirem subsídios para apoiar os momentos de maior escassez. Falamos também de desregulação completa do trabalho. As jornadas são absolutamente impressionantes. Enquanto houvesse peixe, tinha de se trabalhar: 13, 14, 15 horas. E quando o peixe chegasse à lota, tinham de ir. Às quatro da manhã os barcos vinham do mar, tocavam as sirenes das fábricas, alguém de bicicleta ia chamar as operárias respetivas e a essa hora tinham de ir para o trabalho, até acabar o peixe. Este é um setor também de grande responsabilidade das mulheres: homens no mar, a maior parte das mulheres nas fábricas.

Ao contrário da PIDE, os crimes perpetrados pela PSP e pela GNR têm passado em claro.

Existe também o carácter pioneiro dos soldadores. Foram uma espécie de “elite operária”, porque tinham uma competência técnica superior aos restantes, com ferramentas próprias. Foram os primeiros, assim que, ainda na monarquia, foi legislado o direito à criação de associações de classe, a criarem a sua, em 1891, e a recorrerem à greve como plataforma de reivindicação de aumentos salariais e de outros tipos de regalias ou direitos.

Quanto à segunda questão, releva a vinda de franceses para cá, pensando que o sindicalismo tem em França praticamente o seu berço. Para a formação técnica deste setor nos anos 80 e 90 do século XIX, existiu uma microcolónia de franceses em Setúbal, de homens que vieram para cá viver e ensinar durante muito tempo como é que se trabalhava com as máquinas. Dizem que isso contribuiu (uma das teorias, também não está cientificamente comprovada) para que em Setúbal se carregue nos “Rs”, por essa influência da língua francesa, conotada com o “falar bem”. Esta presença pode ajudar a compreender a introdução destas ideologias no contexto local. O socialismo, apesar de ter muito menor peso nos operários, onde o anarco-sindicalismo é muito mais hegemónico, é divulgado graças a um jornal durará cerca de vinte anos, O Trabalho, dirigido por Manuel Luís Figueiredo, um socialista muito importante a nível nacional, que viveu os últimos 25 anos de vida em Setúbal, produzindo um semanário com 800 números! Os jornais sindicalistas também tiveram relevância, através do advogado José Martins dos Santos ou do barbeiro José Quaresma, num jornal que é o Germinal, já posterior, que teve 10 anos de existência. Também estes periódicos podem ter sido uma forma de galvanizar estas pessoas para estes ideários. Há uma conjugação de fatores: esta imprensa periódica, o espaço sindical, a juventude, o perfil monoindustrial…

Maio: Para concluir esta entrevista, pergunto se apesar do avanço que esta edição nos permite na compreensão dos fuzilamentos de Setúbal, consideras que há ainda uma lacuna na investigação histórica sobre a agitação social e operária do período da Primeira República e sobre o papel do Estado republicano na sua repressão?

DF: Há muitos historiadores que felizmente se têm dedicado a estudar essa matéria, acho que o Prof. Fernando Rosas, por exemplo, teve esse cuidado, e mesmo numa historiografia mais recente sobre a Primeira República, acho que já tem havido esse cuidado de não a endeusar. Eu diria, não tanto para a República, mas para o período do Estado Novo, que me parece que há lacunas muito sérias sobre como é que a PSP e a GNR têm passado em claro pelos crimes que perpetraram até ao 25 de Abril, na sua ação repressora no terreno, em nome da polícia política. Aí eu acho que há uma grande lacuna porque a história local da resistência é uma coisa que ainda está muito por trabalhar. Nós vamos ver os processos políticos na PIDE dos mais de trezentos presos políticos de Setúbal e talvez 95% deles nunca tinham sido consultados.

O que está feito é sobre as grandes figuras, prisões políticas e momentos. A PSP teve um papel decisivo nesta repressão, tal como, nos campos, a Guarda Republicana. Aí sim, acho que falta ainda a historiografia e as instituições terem a coragem de sarar as próprias feridas e cicatrizes, sem nenhum tipo de complexos, sem justiça histórica ou indemnizações, não é disso que se trata. Mas, ao contrário da PIDE, os crimes perpetrados pela PSP e pela GNR têm passado em claro.

(fim)

A sombra dos dragões
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Acontecia-lhe às vezes ter um repente de valentia que surpreendia toda a gente. De resto, é frequente isto acontecer com muitas mulheres que de súbito saltam do anonimato da retaguarda das lutas sociais e tomam a cabeceira, levando os homens arrastados atrás de si.

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