Jornal Maio

A educação matemática do nosso lado: uma ferramenta para a consciência sociopolítica

A crítica à literacia financeira, enquanto instrumento de poder, alinhado com a mão de obra necessária aos mercados e ao sistema capitalista, abre espaço para uma questão incontornável: que educação matemática queremos, afinal, fomentar? Se não uma educação orientada para a adaptação ao sistema económico vigente, então que alternativa se apresenta?

ilustração: Mantraste

A proposta aqui delineada situa-se, algures, num cruzamento entre uma crítica ao ensino da matemática como presa das necessidades produtivas e uma perspetiva pedagógica que sublinha o imperativo da educação matemática como prática social reflexiva. Inspirada na Educação Matemática Crítica, desloca o foco da mera aquisição de competências técnicas para o desenvolvimento do conhecimento reflexivo: a capacidade de compreender as implicações sociais, políticas e económicas dos resultados matemáticos. Tal implica reconhecer a dimensão ética da educação matemática, que se concretiza num duplo desafio: por um lado, democratizar o acesso ao conhecimento matemático, tornando-o, através do currículo, comum e significativo para todos; por outro, promover práticas pedagógicas que o liguem à realidade dos alunos.

Esta responsabilidade ética é tanto mais urgente quanto se reconhece o papel da disciplina de Matemática na produção de desigualdades escolares. O seu elevado nível de insucesso contribui para a construção de uma clivagem persistente, funcionando como um dispositivo de seleção social. Numa lógica que se aproxima de uma tira de Möbius, o insucesso alimenta a exclusão escolar, que, por sua vez, reforça processos de exclusão social, por exemplo, ao impedir o acesso de alguns alunos a certos percursos formativos. 

 

As tarefas de modelação matemática contextualizadas por fenómenos sociopolíticos emergem como uma resposta contra-hegemónica.

 

É neste horizonte que as tarefas de modelação matemática contextualizadas por fenómenos sociopolíticos emergem como uma resposta contra-hegemónica. Ao implicarem a tradução de situações do mundo real para modelos matemáticos — e o seu posterior retorno ao contexto original —, permitem aos alunos compreender não apenas os procedimentos matemáticos, mas também os limites, pressupostos e implicações desses modelos. 

Apresenta-se, a título de exemplo, a tarefa ‘Redistribuição da Riqueza’, que propõe explorar desigualdades salariais numa empresa de grande distribuição e refletir sobre formas possíveis de redistribuição da riqueza. A motivação inicial parte de duas referências, expressas em dois artigos de jornais nacionais: 1) “Peter Drucker, guru da gestão moderna, dizia que o rácio entre o salário mais elevado e o salário mais baixo de uma empresa não devia exceder 25”; 2) “Em 2011, cidadãos suíços propuseram que, numa empresa, ninguém ganhasse num mês mais do que outro trabalhador recebe num ano. Se os salários mais altos aumentarem, os salários mais baixos devem subir na mesma proporção”.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

A partir da análise destes dois princípios, é possível trabalhar com uma tabela de salários reais, abrangendo todas as categorias da empresa, do CEO ao operador de loja ajudante e explorar questões matemáticas e sociais como:

  • Rácio salarial segundo Drucker: qual o modelo mais adequado para determinar o rácio entre o salário mais elevado e os salários dos restantes trabalhadores? Qual deveria ser o salário mais baixo da empresa para respeitar essa regra? 
  • Proposta suíça: se o CEO ganha num mês o equivalente ao salário anual de um trabalhador, como ficariam os salários dos restantes trabalhadores? Que modelo matemático permite simular esta situação? 
  • Distribuição de lucros: Partindo da informação de que: “os lucros das grandes empresas de distribuição, em Portugal, têm crescido, consideravelmente, nos últimos anos, com valores que ultrapassam os 600 milhões de euros anuais”, como distribuir uma parte dos lucros da empresa (digamos, 1%) de forma que quem ganha mais receba proporcionalmente menos e quem ganha menos receba mais, respeitando um limite máximo por trabalhador? Que modelo matemático permite calcular essa distribuição? 
  • Reflexão ética: como deveríamos distribuir a riqueza numa sociedade justa? Que critérios seriam mais adequados: igualdade, responsabilidade, necessidades, impostos progressivos, serviços públicos, rendimento básico?

Esta tarefa mostra como a matemática pode tornar-se numa ferramenta de análise crítica, com a qual se pode refletir sobre justiça distributiva, desigualdade e condições de trabalho. Ao modelar salários, lucros e diferentes cenários de distribuição, permite-se imaginar alternativas e estimular, nos alunos, a consciência crítica sobre a relação entre números, poder e sociedade.

É neste enquadramento que se torna pertinente recuperar a perspetiva de uma educação emancipadora, à luz de Freire, integral, em linha com Gramsci e, relembrar, como nos deixou Marx, que o conhecimento deve libertar o sujeito das limitações impostas pelo sistema produtivo. Mais do que ensinar a identificar conceitos matemáticos ou a aplicar procedimentos, é urgente ensinar a reconhecer padrões, a interpretar os resultados em contextos diversos, mas também a formular hipóteses e a testar conjeturas; no fundo, a colocar a matemática do lado dos alunos. Contrariamente à lógica da literacia financeira — que se limita a adaptar os cidadãos às regras do mercado, promovendo a ideia de um empreendedorismo acessível a todos e legitimando a concentração de riqueza —, esta perspetiva permite refletir sobre quem beneficia do sistema económico, quem fica excluído ou é consideravelmente vulnerável, e de que forma a sociedade poderia ser reorganizada de forma mais justa e equitativa.

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Alice Faro e Santos

Alice Faro e Santos

Professora e investigadora