Pode também dar certo
Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?
Parece, mas não copiei de um livro de autoajuda. Não é uma receita extensiva a todos. Não estou dizendo que vai funcionar sempre. Nem comigo e nem contigo. Mas, como estou de bom humor, arrisco-me até a ser criticada. “Coisa mais babaca, o cenário global marcado pela intensificação de conflitos armados e tensões geopolíticas, profundos desencontros promovidos pelas grandes potências económicas e ela a querer falar de encontro.” Ah, somos livres. Cada um fala o que quiser.
Tenho observado que enfatizamos muito mais o negativo que o positivo. “Tudo deu errado hoje”, dizemos. Ora, se tudo tivesse dado errado nem estaríamos a dizê-lo. Costumamos exagerar na dose, falar coisas sobre as quais nem pensamos. O marido, por exemplo, chega em casa bufando e diz: “Hoje, eu pisei em rastro de corno” e a mulher resmunga entre os dentes: “não paras, ficas pra dentro e pra fora. Acalma-te!” Ainda bem que o sujeito raivoso não percebe a sutileza.
E se a gente experimentasse pensar no que deu certo? “Hoje, tudo deu certo.” Esse tudo não é ganhar na loteria quando nem jogaste. Refiro-me a coisas simples, quotidianas. Pequenas experiências de gente comum, como eu, que facilmente é encontrada na fila do pão.
Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?
Tanto eu quanto os meus interlocutores podemos reagir de modos diferentes em situações idênticas. Influenciamo-nos reciprocamente. Outro dia, liguei para uma funcionária pública muito simpática – não é a regra –, que fez um tutorial para me ajudar na solicitação de um benefício importante. A conversa ocorreu com tanta leveza que, quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.
O que podia ter sido um choque, foi motivo de muitas gargalhadas, uma vez que eu resolvi explorar o tema com sarcasmo.
– Posso solicitar antecipadamente?
– Só os meus filhos podem receber? Então, sou obrigada a morrer ao lado deles. Do contrário, eles vão receber a defunta e a conta, sem direito a ressarcimento. Que coisa mais inconveniente!
Quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.
Todos os anos, desde a reforma, tenho de apresentar prova de vida para continuar recebendo o meu salário. É exigida uma biometria facial, a ser feita através de um aplicativo do governo, em ambiente iluminado, com fundo branco, sem óculos, sem chapéu, seguindo comandos de não piscar, não sorrir, não fazer careta, etc. Em sã consciência, nenhum trabalhador reformado deixa de cumprir essa exigência. Anualmente, todo mês do aniversário a nossa primeira obrigação é posar para o aplicativo que assegura o pagamento do salário. Ora, quem não apresenta prova de vida não já está a provar a morte? Não bastaria um atestado de óbito fornecido por fonte idônea, para que os responsáveis pelo morto recebessem o tal auxilio-funeral? Talvez, com exagero, uma fotografia do morto segurando uma plaquinha indicativa do evento fosse suficiente. No meu caso: “Por falta de opção, morri.”
Convenhamos, a funcionária era muito bem-humorada. Do contrário não dava para manter esse clima. O que era apenas um pedido de informação tornou-se uma boa e divertida conversa, ao ponto de ela me perguntar se eu era feliz. Respondi-lhe que sou alegre, amo a vida e isso já me basta. Tenho muitas questões sobre o que chamam de felicidade, mas malgrado o tom assumido, não era a hora e nem lugar para filosofar. Importa destacar, aqui e agora, que ficamos ambas satisfeitas e o modo como transcorreu o encontro me estimulou a ir pessoalmente à repartição. Eu sabia, de antemão, que se surgissem empecilhos – sempre surgem – com as outras pessoas a quem eu devia me reportar, estava pronta para relevar, não tomar nenhuma negativa como pessoal.
Na repartição, em meio à conversa com a pessoa que me fez o atendimento presencial, num determinado momento ela quis dizer “a depender da demanda”, mas disse “a depender da demência”. Num dia ruim, eu podia interpretar aquele equívoco com desconfiança. Estaria ela me chamando de demente? Mesmo que estivesse, eu não seria atingida, novamente gargalhei. Não perdi a oportunidade de falar dos meus frequentes esquecimentos e de declarar que a internet me dá surtos de demência. Coitada, ficou meio envergonhada. Não sabia explicar porque demanda virou demência, mas eu não estava nem um pouco preocupada com isso. Queria tão somente resolver o meu problema sem estresse.
Em conformidade com a via-sacra comum aos serviços públicos, fui encaminhada a um rapaz, que analisou a minha situação e quando estava prestes a me encaminhar ao próximo balcão, mudou de ideia e cumpriu sozinho as próximas estações. Dir-se-ia que da segunda queda de Jesus até a Ressurreição resolveu tudo, pôs-se disponível para outras necessidades e ainda fez valiosas sugestões de como é possível sobreviver à burocracia.
Como já ninguém faz nada para mim pelos meus belos olhos, quero crer que aquela corrente de bom humor, fomentada pelo meu primeiro contacto, salvou-me o dia. A essa altura, pensei que seria justo procurar a moça com quem eu falara por telefone. Sabia o nome dela, era possível encontrá-la. Bati à porta que me informaram ser a sua sala e entrei dizendo: “Vim te dar um abraço.” A satisfação iluminou-lhe o rosto e nos abraçamos como se fôssemos amigas. Voltei para casa de bem com a vida. Por tão pouco – acho que posso dizer – salvamos ambas o nosso dia.
Se eu me senti feliz? Não exageremos. Eu não acredito em felicidade, embora defenda que ninguém deve desistir de ser feliz. Por favor, não exijam de mim coerência. Eu também não acredito em Deus, mas, às vezes, tenho medo dele.