Humor

Pode também dar certo
categoria-crónica Alegria Felicidade Humor edicao-2026-03-26 (21)

Pode também dar certo

Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?

Maria Augusta Tavares
Empreendorismo a serio
categoria-crónica Empreendedorismo Humor Sexo edicao-2025-10-16 (01)

Empreendorismo a serio

Escritas nos mais diferentes idiomas estavam ali todas as curtas frases que muitos homens gostam de ouvir, todas as mentiras que os fazem poderosos, todas as obscenidades que potenciam a força motora da pulsão sexual.

Maria Augusta Tavares
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Pode também dar certo

Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?

Parece, mas não copiei de um livro de autoajuda. Não é uma receita extensiva a todos. Não estou dizendo que vai funcionar sempre. Nem comigo e nem contigo. Mas, como estou de bom humor, arrisco-me até a ser criticada. “Coisa mais babaca, o cenário global marcado pela intensificação de conflitos armados e tensões geopolíticas, profundos desencontros promovidos pelas grandes potências económicas e ela a querer falar de encontro.” Ah, somos livres. Cada um fala o que quiser.

Tenho observado que enfatizamos muito mais o negativo que o positivo. “Tudo deu errado hoje”, dizemos. Ora, se tudo tivesse dado errado nem estaríamos a dizê-lo. Costumamos exagerar na dose, falar coisas sobre as quais nem pensamos. O marido, por exemplo, chega em casa bufando e diz: “Hoje, eu pisei em rastro de corno” e a mulher resmunga entre os dentes: “não paras, ficas pra dentro e pra fora. Acalma-te!” Ainda bem que o sujeito raivoso não percebe a sutileza.

E se a gente experimentasse pensar no que deu certo? “Hoje, tudo deu certo.” Esse tudo não é ganhar na loteria quando nem jogaste. Refiro-me a coisas simples, quotidianas. Pequenas experiências de gente comum, como eu, que facilmente é encontrada na fila do pão.

Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?

Tanto eu quanto os meus interlocutores podemos reagir de modos diferentes em situações idênticas. Influenciamo-nos reciprocamente. Outro dia, liguei para uma funcionária pública muito simpática – não é a regra –, que fez um tutorial para me ajudar na solicitação de um benefício importante. A conversa ocorreu com tanta leveza que, quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.

O que podia ter sido um choque, foi motivo de muitas gargalhadas, uma vez que eu resolvi explorar o tema com sarcasmo.

– Posso solicitar antecipadamente?

– Só os meus filhos podem receber? Então, sou obrigada a morrer ao lado deles. Do contrário, eles vão receber a defunta e a conta, sem direito a ressarcimento. Que coisa mais inconveniente!

Quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.

Todos os anos, desde a reforma, tenho de apresentar prova de vida para continuar recebendo o meu salário. É exigida uma biometria facial, a ser feita através de um aplicativo do governo, em ambiente iluminado, com fundo branco, sem óculos, sem chapéu, seguindo comandos de não piscar, não sorrir, não fazer careta, etc. Em sã consciência, nenhum trabalhador reformado deixa de cumprir essa exigência. Anualmente, todo mês do aniversário a nossa primeira obrigação é posar para o aplicativo que assegura o pagamento do salário. Ora, quem não apresenta prova de vida não já está a provar a morte? Não bastaria um atestado de óbito fornecido por fonte idônea, para que os responsáveis pelo morto recebessem o tal auxilio-funeral? Talvez, com exagero, uma fotografia do morto segurando uma plaquinha indicativa do evento fosse suficiente. No meu caso: “Por falta de opção, morri.”

Convenhamos, a funcionária era muito bem-humorada. Do contrário não dava para manter esse clima. O que era apenas um pedido de informação tornou-se uma boa e divertida conversa, ao ponto de ela me perguntar se eu era feliz. Respondi-lhe que sou alegre, amo a vida e isso já me basta. Tenho muitas questões sobre o que chamam de felicidade, mas malgrado o tom assumido, não era a hora e nem lugar para filosofar. Importa destacar, aqui e agora, que ficamos ambas satisfeitas e o modo como transcorreu o encontro me estimulou a ir pessoalmente à repartição. Eu sabia, de antemão, que se surgissem empecilhos – sempre surgem – com as outras pessoas a quem eu devia me reportar, estava pronta para relevar, não tomar nenhuma negativa como pessoal.

Na repartição, em meio à conversa com a pessoa que me fez o atendimento presencial, num determinado momento ela quis dizer “a depender da demanda”, mas disse “a depender da demência”. Num dia ruim, eu podia interpretar aquele equívoco com desconfiança. Estaria ela me chamando de demente? Mesmo que estivesse, eu não seria atingida, novamente gargalhei. Não perdi a oportunidade de falar dos meus frequentes esquecimentos e de declarar que a internet me dá surtos de demência. Coitada, ficou meio envergonhada. Não sabia explicar porque demanda virou demência, mas eu não estava nem um pouco preocupada com isso. Queria tão somente resolver o meu problema sem estresse.

Em conformidade com a via-sacra comum aos serviços públicos, fui encaminhada a um rapaz, que analisou a minha situação e quando estava prestes a me encaminhar ao próximo balcão, mudou de ideia e cumpriu sozinho as próximas estações. Dir-se-ia que da segunda queda de Jesus até a Ressurreição resolveu tudo, pôs-se disponível para outras necessidades e ainda fez valiosas sugestões de como é possível sobreviver à burocracia.

Como já ninguém faz nada para mim pelos meus belos olhos, quero crer que aquela corrente de bom humor, fomentada pelo meu primeiro contacto, salvou-me o dia. A essa altura, pensei que seria justo procurar a moça com quem eu falara por telefone. Sabia o nome dela, era possível encontrá-la. Bati à porta que me informaram ser a sua sala e entrei dizendo: “Vim te dar um abraço.” A satisfação iluminou-lhe o rosto e nos abraçamos como se fôssemos amigas. Voltei para casa de bem com a vida. Por tão pouco – acho que posso dizer – salvamos ambas o nosso dia.

Se eu me senti feliz? Não exageremos. Eu não acredito em felicidade, embora defenda que ninguém deve desistir de ser feliz. Por favor, não exijam de mim coerência. Eu também não acredito em Deus, mas, às vezes, tenho medo dele.

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Empreendorismo a serio

Escritas nos mais diferentes idiomas estavam ali todas as curtas frases que muitos homens gostam de ouvir, todas as mentiras que os fazem poderosos, todas as obscenidades que potenciam a força motora da pulsão sexual.

Sou uma passageira silenciosa. Durmo, vejo filmes, levanto-me delicadamente, caminho com leveza. Tenho muito cuidado com os meus movimentos, para não incomodar as pessoas, sobretudo as que estão ao meu lado. Mas isso não significa que faça questão absoluta de viajar em silêncio.

Discretamente, costumo prestar atenção e levantar hipóteses sobre o passageiro ao lado. Tento adivinhar se vale a pena puxar conversa. Nos últimos anos, em que o filtro ideológico se tornou determinante, o critério de avaliação também passa por aí. Não me agrada conversar com quem se coloca no mundo com uma visão completamente oposta à minha.

Era um voo internacional. Teríamos longas horas juntas.

Minha companheira de viagem era jovem, bonita, bem vestida. Podia ser estudante de Direito. Sim, ela vestia blazer e saia justa, calçava saltos altos, meias finas cor da pele, ao estilo das candidatas a juíza. Talvez fosse ao encontro daquele professor que a aceitou para uma pós-graduação. Não tinha nos olhos o brilho de quem vai ao encontro do amor. Não, não havia um namorado à sua espera. Demonstrava força, determinação, certeza duma escolha que eu não sabia qual, mas não era o amor romântico que a movia. Podia ser uma viagem de férias. Supus que iria a Paris, onde amigos a esperavam. Desejei falar com ela. Mas era tão jovem! Não devia ter o menor interesse em conversar com alguém a quem chamaria de senhora. Até que, finalmente, veio o aceno.

A jovem não era nada do que eu havia pensado. Nascida numa família pobre, era a primeira a ultrapassar o ensino médio. Como dizia ela, pobre não faz faculdade, tem dificuldade. Não falava com fluência nenhuma língua, nem mesmo a sua. Em outro figurino, num outro ambiente, a falar de coisas triviais, talvez só a beleza física lhe fosse ressaltada. Mas havia nela algo de especial e eu estava curiosa. Não fiz perguntas diretas. Talvez ela estivesse mesmo desejando falar de si. Há coisas sobre as quais se pode falar mais francamente com um estranho.

Depois de me falar sobre o motivo de sua viagem, ela tirou da bolsa, cuidadosamente, um caderno de capa dura, semelhante a uma agenda, e perguntou se eu queria saber o que lá estava escrito. Embora eu não estivesse com muita disposição para ler o que me parecia ser a mesma história que ela já havia resumido, por educação disse que sim. Que surpresa! Ao abrir aquele caderno, descobri que tinha nas minhas mãos um precioso instrumento de trabalho. Devo ter transmitido confiança. Era uma das poucas vezes em que eu identificava uma vantagem de ser tratada como senhora. Tivesse eu quarenta anos menos, jamais teria tido acesso ao conteúdo daquele caderno. No mundo dos negócios não se partilham boas ideias com possíveis concorrentes. Mas, decididamente, eu não era uma ameaça à minha jovem companheira de viagem. Já não tinha idade para exercer a profissão que ela abraçara com raro empenho.

Pode-se dizer que ela vendia sonhos. Vendia mentiras picantes, cujos efeitos foram descobertos por mulheres atentas e sábias há séculos. Sonhos que aproximam homem e mulher, muitas vezes até os conduzem ao casamento. Ela redescobriu, no entanto, que esse conhecimento podia ser vendido por ela em pequenas doses, em diferentes lugares e que se o fizesse com a qualidade desejada, venderia o mesmo produto centenas, milhares de vezes, trocando apenas a embalagem.

Escritas nos mais diferentes idiomas estavam ali todas as curtas frases que muitos homens gostam de ouvir, todas as mentiras que os fazem poderosos, todas as obscenidades que potenciam a força motora da pulsão sexual. Ela precisou apenas de aplicar uma lição atualmente muito repetida: os limites devem ser transformados em oportunidades. Apesar de não ter fluência em nenhum idioma, fez uma excelente pesquisa na área. O tema não lhe permitia uma chamada pública – “Precisa-se de tradutor em diferentes idiomas para frases que possibilitem uma atividade sexual satisfatória” –, mas isso não a intimidou. Leu bastante, treinou diante do espelho, a vestir sensuais peças íntimas e exibir caras, bocas e sussurros, para dar veracidade às desejáveis mentiras. Aliás, ela me disse que a sua má pronúncia costuma aguçar o fetiche dos parceiros. Pois bem, deem-lhe o nome que quiserem, eu queria saber como ela mesma se identificava profissionalmente. Não titubeou: sou uma empreendedora. Sim, uma empreendedora a sério. Dada a prosperidade do negócio e a sua internacionalidade, eu diria que é uma bem sucedida CEO.

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Escritas nos mais diferentes idiomas estavam ali todas as curtas frases que muitos homens gostam de ouvir, todas as mentiras que os fazem poderosos, todas as obscenidades que potenciam a força motora da pulsão sexual.

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