Jornal Maio

Ucrânia-Rússia:
quatro anos depois

Quatro anos de guerra enfraqueceram drasticamente Ucrânia e Rússia. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. A Rússia sustenta o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025. A população da Ucrânia diminuiu 37% desde o colapso da União Soviética e 20% desde o início da guerra. O PIB real caiu 37% em relação ao valor de 1991 e 21% desde o início da guerra.

Hoje é o último dia do quarto ano da guerra entre a Ucrânia e a Rússia. Nestes quatro anos, a invasão da Ucrânia pela Rússia causou impressionantes estragos ao povo e à economia ucranianos. As estimativas do número de mortos e feridos na guerra, bem como das vítimas civis, divergem radicalmente. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. Os russos sustentam o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025. A estimativa mais recente da Mediazona, uma agência sediada na Ucrânia, situa-se entre os dois extremos: 160 mil mortos do lado da Rússia e um número ligeiramente superior do lado ucraniano.

Seja a verdade qual for, a guerra tem sido uma crise humanitária para a Ucrânia, especialmente durante este Inverno, em que os sistemas de energia e aquecimento das principais cidades foram em grande parte destruídos por mísseis russos. Em quatro anos de guerra, milhões de pessoas fugiram para o estrangeiro e muitos milhões mais foram deslocados de casa dentro da Ucrânia. A população da Ucrânia diminuiu 37% desde o colapso da União Soviética e 20% desde o início da guerra. O PIB real caiu 37% em relação ao valor de 1991 e 21% desde o início da guerra.

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Os danos físicos e mentais para aqueles que permanecem na Ucrânia têm sido imensos. Preocupação particular são as perdas de aprendizagem das crianças ucranianas. Há estudos que mostram que uma guerra nos primeiros cinco anos de vida de uma pessoa fica associada, passados os sessenta anos, a um declínio de cerca de 10% dos índices de saúde mental. O problema não se reduz, assim, às vítimas da guerra e à economia; abrange também danos a longo prazo para os ucranianos que ficaram no país.

Apesar da guerra, nos últimos dois anos tem havido alguma recuperação económica na Ucrânia – pelo menos em termos de PIB. Os portos ucranianos no Mar Negro continuam a funcionar, e o comércio flui ao longo do Danúbio para ocidente, mas em menor escala por caminho de ferro. A agricultura registou, entretanto, uma recuperação modesta. Não obstante, a produção de ferro e aço continua reduzida a uma fracção da do nível pré-guerra; desceu de 1,5 milhões de toneladas por mês antes da guerra para apenas 0,6 milhões por mês. No final de 2025, a produção industrial na Ucrânia diminuiu 3,5% em termos homólogos.

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A Ucrânia carece cada vez mais de pessoas fisicamente aptas para produzir ou ir para a guerra. Análises independentes mostram uma taxa de desemprego que, embora volátil, se mantém a um nível constantemente elevado, com um pico de 22,8% no final de 2025. Mais de 80% são mulheres, uma vez que os homens têm sido em grande parte recrutados para as forças armadas. Metade dos jovens (de menos de 35 anos) ainda não recrutados não têm trabalho. Existe uma enorme escassez de pessoas qualificadas; grande parte delas abandonou o país. O governo está tão desesperado por mobilizar homens para o exército que recorreu a «brigadas de recrutamento» que fazem rusgas pelas ruas, dia e noite, para apanhar homens e mandá-los à força para a frente de guerra.

A Ucrânia continua completamente dependente do apoio do Ocidente. Precisa de pelo menos 40 mil milhões de dólares por ano para manter a administração a funcionar, sustentar a população e manter a produção. Somem-se-lhe os mais de 40 mil milhões de dólares por ano de que carece para sustentar as forças armadas. Desde o início da invasão em grande escala da Rússia, mais de metade do orçamento do Estado tem sido gasto na defesa, 26% do PIB. A Ucrânia tem contado com a UE para o financiamento civil, e com os EUA para todo o financiamento militar – uma «divisão de tarefas» linear. Contudo, desde a investidura da administração Trump, em 2025, os EUA reduziram drasticamente a sua ajuda militar directa. Instaram os europeus a revezá-los tanto no financiamento civil como no militar.

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Em 2025, a ajuda europeia aumentou significativamente, com a verba afecta à ajuda militar a subir 67% e à ajuda financeira e humanitária, 59%. A quota da ajuda civil total da UE subiu para 90%, contra cerca de 50% no início da guerra. No entanto, devido à retirada dos EUA, a ajuda militar em 2025 registou ainda assim uma queda global de 13%, e o financiamento civil de 5%, em termos reais.

A ajuda militar da Europa depende de apenas alguns países da Europa Ocidental, principalmente a Alemanha e o Reino Unido, que foram responsáveis por cerca de dois terços da ajuda militar da Europa Ocidental entre 2022 e 2025. A UE ficou entalada a tentar encontrar fundos para a Ucrânia para este ano. O plano da UE de se servir de activos cambiais russos congelados soçobrou por os depositários dos activos, a Euroclear, na Bélgica, temerem pesadas perdas nos tribunais internacionais. Mantém-se em suspenso um novo plano da UE para, emitindo obrigações soberanas, mobilizar cerca de 100 mil milhões de dólares.

O FMI e o Banco Mundial propuseram assistência monetária, mas, para isso, a Ucrânia tem de demonstrar «sustentabilidade», portanto ser capaz de reembolsar os empréstimos num dado momento. Assim, a não se concretizarem empréstimos bilaterais dos EUA e dos países da UE (e estão em causa essencialmente empréstimos, não fundo perdido), o FMI não poderá pôr à disposição o seu programa de financiamento. Está para ser anunciada pelo FMI, para 2026, uma nova parcela de empréstimo, no valor de cerca de 8 mil milhões de dólares.

Tudo isto repõe a pergunta: que acontecerá à economia da Ucrânia se e quando a guerra com a Rússia chegar ao fim? A estimativa mais recente do Banco Mundial aponta para custos de 588 mil milhões de dólares nos próximos dez anos para a recuperação e reconstrução da Ucrânia – admitindo que a guerra termine este ano. É o triplo do actual PIB ucraniano. Tal não impede, porém, que até esse valor esteja subestimado. A própria Ucrânia estima que será necessário um bilião de dólares, dos quais quase 400 mil milhões para a reabilitação do setor energético, 300 mil milhões para habitação e infra-estruturas urbanas, 200 mil milhões para corredores de transporte e logística, e 100 mil milhões para serviços sociais e instituições públicas. O total é equivalente a seis anos do antigo PIB da Ucrânia. São cerca de 2% do PIB da UE por ano ou 1,5% do PIB do G7, durante cinco anos. Mesmo que a reconstrução corra bem e admitindo que sejam repostos todos os recursos pré-guerra da Ucrânia (a indústria e a mineração no Leste da Ucrânia passaram para as mãos da Rússia), a economia (PIB) continuaria a situar-se 15% abaixo do nível pré-guerra. Caso contrário, a recuperação será ainda mais demorada.

A Comissão Europeia anunciou um Fundo-Bandeira Europeu, um suposto «veículo de capital» conjunto apoiado pela UE, Itália, Alemanha, França, Polónia e pelo Banco Europeu de Investimento, para mobilizar investimentos públicos e privados em larga escala para reconstruir a Ucrânia no pós-guerra. Na prática, equivaleria à aquisição da economia e dos recursos da Ucrânia por investidores ocidentais. Acontece que grande parte do que resta dos recursos da Ucrânia (os não anexados pela Rússia) já foi saldado a empresas ocidentais. Um total de 28% das terras aráveis da Ucrânia passaram a ser propriedade de uma mistura de oligarcas ucranianos, empresas europeias e norte-americanas e, ainda, do fundo soberano da Arábia Saudita. A Nestlé investiu 46 milhões de dólares numa nova unidade na região ocidental de Volyn, enquanto a Bayer, gigante alemã com uma linha de produção que vai dos medicamentos aos pesticidas, planeia investir 60 milhões de euros na produção de sementes de milho na região central de Zhytomyr. O dono da MHP, a maior empresa avícola da Ucrânia, é um antigo conselheiro do presidente ucraniano Poroshenko. A MHP recebeu mais de um quinto dos empréstimos do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD) nos últimos anos. Emprega 28 mil trabalhadores e controla cerca de 360 mil hectares de terra na Ucrânia — uma área superior à dum membro da UE, o Luxemburgo.

O governo ucraniano está vinculado a uma solução de «livre mercado» para a economia do pós-guerra que passe por novas vagas de desregulamentação do mercado de trabalho por baixo dos próprios padrões laborais mínimos da UE — a exploração desbragada; e cortes drásticos nos impostos sobre as sociedades e sobre o rendimento; a par da privatização total dos activos estatais remanescentes. As pressões da economia de guerra obrigaram, contudo, o governo a, para já, pôr estas políticas em lume brando, dominando as exigências militares a agenda.

O objectivo do governo ucraniano, da UE, do governo dos EUA, das agências multilaterais e das instituições financeiras americanas agora encarregadas de angariar fundos e afectá-los à reconstrução é restaurar a economia ucraniana como uma espécie de zona económica especial, com dinheiros públicos a cobrirem eventuais perdas potenciais do capital privado. A Ucrânia ficará livre de sindicatos, de regimes e regulamentações fiscais exigentes para as empresas e de quaisquer obstáculos significativos ao investimento lucrativo do capital ocidental, aliado a antigos oligarcas ucranianos.

Rússia: economia de guerra

E a Rússia? Durante algum tempo, a invasão russa da Ucrânia para tomar as quatro províncias de língua russa no Donbass, no leste da Ucrânia, no início de 2022, acabou, ironicamente, por dar um empurrão à economia. A Rússia conseguiu-se desenvencilhar por entre as sanções ocidentais, investindo, do mesmo passo, quase um terço do seu orçamento na defesa. Apesar de ter ficado excluída dos mercados de energia da Europa, conseguiu diversificar para a China e Índia, em parte servindo-se de uma frota «fantasma» de petroleiros (portanto, não segurados pelo Ocidente) para dar a volta ao tecto de preço que os países ocidentais esperavam reduzisse o tesouro de guerra do país. A China passou a absorver 45% das exportações de petróleo russo, e a Rússia passou a principal fornecedor de petróleo à China.

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As importações russas da China aumentaram mais de 60% desde que a guerra começou, subindo 26% em 2025, com a China a abastecer a Rússia de um fluxo constante de mercadorias, incluindo automóveis e aparelhos electrónicos, colmatando a lacuna das importações ocidentais perdidas.

No entanto, a guerra veio agravar uma escassez aguda de mão de obra. A Rússia vê-se a braços — tal como a Ucrânia — com uma carência desesperada de pessoas, ainda que por razões diferentes. Mesmo antes da guerra, a força de trabalho da Rússia estava a minguar devido a causas demográficas naturais. Depois, quando a guerra começou, em 2022, cerca de 750 mil trabalhadores russos e estrangeiros, a classe média dos sectores da informática, finanças e gestão, deixaram o país. Enquanto isso, o exército russo precisa de entre 10 e 30 mil novos recrutas todos os meses, sugando força de trabalho à produção interna. Para reforçar as forças armadas, a Rússia tem recrutado a contrato presidiários e outros. O balão de oxigénio à economia e aos salários que os enormes gastos com a defesa encheram já se começou a esvaziar. E os preços do petróleo à escala global caíram bem abaixo do limiar de rentabilidade da receita petrolífera da Rússia.

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As receitas de petróleo e gás da Rússia, que representam até 50% das receitas do Estado, caíram 27% em relação ao ano anterior. A inflação situa-se em cerca de 8%, menos do que os máximos já atingidos de dois dígitos, mas o banco central russo continua a manter as taxas de juro em 16%, impossibilitando as famílias e as empresas de contraírem empréstimos para investimento ou consumo de bens de maior valor. As despesas com a guerra representam agora mais de 7% do PIB anual. Apesar do aumento da tributação, a forte subida do défice orçamental necessária para financiar a guerra está a drenar o fundo soberano da Rússia, obrigando as autoridades monetárias a considerar a possibilidade de monetizar os défices.

No entanto, a Rússia ainda dispõe de grandes reservas cambiais e de um rácio baixo da dívida pública em relação ao PIB. Ainda que as receitas da exportação encolham, o sistema bancário, em grande parte estatal, tem à mão montes de dinheiro mobilizável; Além de que os bancos também poderiam receber directivas para comprarem obrigações do Estado, como aconteceu no final de 2024. Se tudo falhasse, o banco central ainda poderia comprar obrigações do Tesouro, monetizando a dívida — se bem que isso importasse numa forte desvalorização do rublo e, consequentemente, num empurrão à inflação.

A economia da Rússia entrou em 2026 mais fraca do que estava um ano antes, com o crescimento em declínio e os preços do petróleo bem abaixo das projecções orçamentadas.

Os índices de actividade dos serviços e da indústria transformadora (PMIs) caíram muito; encontram-se agora em trajectória de contracção. As estimativas de crescimento real do PIB para o ano no seu todo foram revistas em baixa, para menos de 1% em 2025. O Instituto de Previsões Económicas da Academia Russa de Ciências projecta um crescimento de 0,7% em 2025 e de 1,4% em 2026, acelerando para cerca de 2% em 2027. O Fundo Monetário Internacional prevê um crescimento de 0,6% em 2025 e de 1,0% em 2026.

Na prática, a economia russa, tal como muitas outras na OCDE, encontra-se mergulhada na «estagflação» (a inflação mantém-se alta, mas a produção estagna). O «keynesianismo militar» da Rússia já não está a dar os resultados de outrora. Daí que todas as formas de oposição à guerra sejam impiedosamente reprimidas. O dissidente anti-guerra mais famoso é o marxista Boris Kagarlitsky, detido em Julho de 2023, que cumpre uma pena de cinco anos numa colónia penal. Mas há outros. Em Novembro de 2025, membros de um pequeno círculo de estudos marxista da cidade de Ufa foram condenados a 24 anos, acusados de «terrorismo» e «conspiração para derrubar o governo» — por lerem obras de Marx.

No entanto, apesar destas pressões sobre a economia russa e da crescente austeridade imposta ao povo russo, não haverá colapso financeiro, ao contrário do que afirmam muitos comentadores ocidentais. Este tipo de pensamento fruto do desejo dominou a agenda de muitos «especialistas» ocidentais durante todos os quatro anos de guerra. Mas a economia russa sobreviveu e a perspectiva é de que é suficientemente forte para continuar a guerra em 2026 e mais além. Ao contrário da Ucrânia, ela pode endividar-se mais, dado o relativamente baixo stock da dívida — e é possível voltar a aumentar os impostos. O banco central pode imprimir dinheiro, e o governo pode continuar a nacionalizar empresas para fortalecer a economia de guerra.

A situação será diferente se e quando a guerra terminar. A produção de guerra é essencialmente improdutiva para efeitos de acumulação de capital a longo prazo. A economia russa voltará à acumulação de capital civil logo que a guerra terminar. Isso porá na berlinda os sectores produtivos da Rússia. É muito provável declarar-se uma recessão no pós-guerra. A economia russa continua fundamentalmente assente em recursos naturais. Depende mais da indústria extractiva do que da indústria transformadora. A Rússia continua a sofrer de atraso tecnológico e a depender de importações de alta tecnologia. A Rússia não é um actor de tomo em nenhuma das tecnologias de ponta, da inteligência artificial à biotecnologia. Continua sem produzir tecnologias adequadas para um mercado de exportação competitivo que não se reduza às armas e à energia nuclear, estando as primeiras sujeitas a sanções e a segunda à beira disso.

Declínio demográfico, declínio da qualidade do ensino universitário, corte de laços com escolas internacionais e fuga de cérebros são factores agravantes destes problemas. O fosso tecnológico irá provavelmente cavar-se mais, com a Rússia a depender cada vez mais de importações chinesas e da engenharia reversa (cópia). O crescimento potencial do PIB real da Rússia não deve passar de 1,5% ao ano, limitado o crescimento por uma população envelhecida e minguante e por taxas de investimento e produtividade baixas. A mensagem subjacente é que a fraqueza económica da Rússia se manterá pelo resto da década.


E a paz?

Não me parece que haja grande perspectiva de acordo de paz num futuro previsível. Quando tomou posse, faz um ano, o Presidente Trump declarou que ia resolver a guerra na Ucrânia em uma semana. Estamos em 2026, continuam negociações intermináveis, e não há nenhum sinal de acordo. A actual direcção  ucraniana opõe-se a qualquer acordo que implique perda de território (mesmo a Crimeia) e a qualquer veto a uma adesão futura à NATO. Os dirigentes europeus têm declarado que apoiarão a Ucrânia e continuarão a financiar a guerra e a prestar apoio militar. Os russos recusam quaisquer concessões quanto à posição, que há muito afirmam, de que o Donbass e a Crimeia passaram a fazer parte da Rússia, que os russo-falantes da Ucrânia devem ser protegidos da repressão e da discriminação, que a Ucrânia tem de renunciar a aderir à NATO e que as suas forças armadas devem ser reduzidas a níveis puramente defensivos. Pelo seu lado, os europeus ameaçam enviar tropas terrestres para a Ucrânia para apoiar um suposto «cessar-fogo». 

O impasse lembra o da Guerra da Coreia da década de cinquenta (oficialmente ainda não terminado!). A guerra parece mais destinada a ser resolvida no campo de batalha do que pela via diplomática. Continuará, pois — fazendo mais milhares de baixas entre os soldados, mais privações para os ucranianos e deterioração do nível de vida da maioria dos russos.

 

A guerra não se tem limitado a destruir a Ucrânia; enfraqueceu gravemente a economia europeia, onde os custos de produção dispararam, uma vez perdidas as importações de energia barata da Rússia.

 

A guerra não se tem limitado a destruir a Ucrânia; enfraqueceu gravemente a economia europeia, onde os custos de produção dispararam, uma vez perdidas as importações de energia barata da Rússia. O Reino Unido, por exemplo, tem agora os custos de electricidade e energia mais elevados do mundo (com a Alemanha não muito atrás)! Um inquérito recente da confederação patronal britânica (CBI) indicou que o Reino Unido tem preços industriais quase dois terços acima da mediana dos países membros da Agência Internacional de Energia (AIE) e os mais elevados dos membros do G7. Os preços da electricidade no Reino Unido são cerca do dobro da mediana da UE. Actualmente, as empresas britânicas debatem-se com custos da electricidade que são cerca de 70% mais altos do que antes da crise, ao passo que os custos do gás são mais de 60% superiores. Quatro de cada dez empresas indicaram planear reduzir o investimento por causa disso.

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Parece, porém, que os dirigentes europeus querem continuar a guerra mesmo que Trump acabe por se retirar. Alegam eles que, se se apoiar a Ucrânia por mais algum tempo, as perdas russas serão demasiado altas, a economia russa ruirá, e Putin não terá remédio senão pedir a paz, acabando, porventura, destituído. Os russos pensam o contrário; que a Ucrânia está de joelhos e não conseguirá aguentar muito mais tempo.

Os europeus acham que a Rússia está fraca e virtualmente derrotada – se bem que se prepare para invadir a Europa logo que derrotada a Ucrânia: se há análise contraditória… Ora, o argumento serve para justificar uma duplicação espectacular das despesas das principais economias europeias com a defesa para 5% do PIB nos próximos dez anos, de modo que se possam «defender» da iminente invasão russa. A ridícula justificação apresentada assenta no argumento de que os gastos com «defesa» “são o maior de todos os benefícios públicos”, parafraseando Bronwen Maddox (que promove a visão dos serviços de segurança britânicos). Conclui ela que “o Reino Unido poderá ter de contrair mais dívida para pagar os gastos com defesa de que tão urgentemente necessita. No próximo ano e anos seguintes, os políticos terão de estar preparados para arranjar dinheiro cortando nos subsídios de doença, nas pensões e nos cuidados de saúde… Enfim, os políticos terão de persuadir os eleitores a abdicar de algumas regalias para pagar a defesa.»

Será um imenso desvio do investimento para a improdutiva e destrutiva produção de armamento, afastando-o dos serviços públicos e direitos e garantias, bem como do investimento tecnológico, que tão necessários são, e canalizando-o para a improdutiva e destrutiva produção de armamento. É uma enorme incerteza que se levanta sobre o futuro da Europa como entidade económica dirigente pelo resta da década e depois dela.


Tradução: Adriano Zilhão

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