Jornal Maio

O Canto dos Operários e a revolução de 1848

Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa

Em 1846, Pierre Dupont publica seu livro de Cantos e Canções, poemas alguns dos quais ele mesmo musicou. Naquele contexto, com o desenvolvimento da industrialização, despontava uma nova força social: a classe operária. Cada vez mais numerosa nas grandes cidades, a classe trabalhadora vinha sofrendo com as duras condições de vida e trabalho, ao mesmo tempo que se organizava e demandava participação política, agitada pelas ideias socialistas que vinham ganhando força na França e na Inglaterra.

Em 1848, a classe operária faz a sua aparição na cena política no processo da derrubada da monarquia constitucional de Luís Felipe, demandando o poder que seria consagrado com a criação das oficinas nacionais para os desempregados, medida defendida por Pierre-Joseph Proudon, que anos antes publicara o seu trabalho de investigação sociológica O que é a Propriedade?, no qual denunciava sem receio que a propriedade privada era nada menos que “um roubo”, pois privava os trabalhadores dos meios de subsistência.

A canção de Pierre Dupont antecipava esse sentimento de revolta e sobre ela o célebre poeta Charles Baudelaire declarou: “Chegará o tempo em que os sons dessa Marselhesa do trabalho circularão como palavra de ordem onde o exilado, abandonado, viajante perdido, seja sob o céu escaldante dos trópicos, seja nos desertos de neve, quando escutar essa forte melodia perfumar o ar com seu aroma original, poderá dizer: Eu não tenho mais nada a temer! Eu estou na França!”

 

Chegará o tempo em que os sons dessa Marselhesa do trabalho circularão como palavra de ordem” (Baudelaire)

 

Certamente, mais do que se sentir na França, os trabalhadores se sentiriam parte da humanidade, compartilhando dos mesmos ideais que inspiraram sessenta anos antes a Revolução Francesa e que agora agitavam toda Europa e outras partes do mundo como a Revolução Praieira, em Pernambuco. Naquele ano, os jovens Karl Marx e Friedrich Engels publicariam seu Manifesto Comunista, exortando: “Trabalhadores de todo mundo, uni-vos!”

No videoclipe, foram usadas imagens do filme musical Os Miseráveis (Tom Hooper, 2012), adaptação do romance de Victor Hugo, originalmente escrito em 1962, mas que representa a classe trabalhadora da primeira metade do século XIX, agitando as primeiras bandeiras vermelhas entre as bandeiras republicanas tricolores e montando barricadas naquelas estreitas ruas da velha Paris antes das grandes reformas urbanas que serviriam de referência para o mundo, com saneamento, grandes avenidas, edifícios padronizados.

A versão em português procura ser o mais possível fiel ao sentido da letra original, que denuncia as causas daquela revolta – as péssimas condições de habitação, transporte, vida familiar e trabalho que motivavam a classe trabalhadora a se insurgir. “Mas não perdem por esperar que logo sopram novos ventos…” é o aviso dado à burguesia gananciosa que, sendo derrotada, daria lugar a um grande banquete no qual trabalhadores, livres da guerra e da exploração, poderiam finalmente se congratular.

Nesse dia, em que o mundo tenha sido libertado, finalmente poderemos beber e brindar fraternalmente pela emancipação da humanidade.

Que assim seja. 

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Le Chant des ouvriers

Autor: Pierre Dupont

 

Nous dont la lampe le matin,

Au clairon du coq se rallume,

Nous tous qu’un salaire incertain

Ramène avant l’aube à l’enclume

Nous qui des bras, des pieds, des mains,

De tout le corps luttons sans cesse,

Sans abriter nos lendemains

Contre le froid de la vieillesse.

 

Refrão

Aimons-nous, et quand nous pouvons nous unir

pour boire à la ronde,

Que le canon se taise ou gronde,

Buvons, buvons, buvons!

À l’indépendance du monde!

Buvons, buvons, buvons!

 

Nos bras sans relâche tendus,

Aux flots jaloux, au sol avare,

Ravissent leurs trésors perdus,

Ce qui nourrit et ce qui pare :

Perles, diamants et métaux,

Fruits du coteau, grains de la plaine ;

Pauvres moutons, quels bons manteaux

Il se tisse avec notre laine !

 

Aimons-nous…

 

Quels fruits tirons-nous des labeurs

Qui courbent nos maigres échines?

Où vont les flots de nos sueurs?

Nous ne sommes que des machines.

Nos Babels montent jusqu’au ciel,

La terre nous doit ses merveilles

Dés qu’elles ont fini le miel,

Le maître chasse les abeilles.

 

Aimons-nous…

 

Au fils chétif d’un étranger

Nos femmes tendent leurs mamelles,

Et lui plus tard croit déroger

En daignant s’asseoir auprès d’elles.

De nos jours, le droit du seigneur

Pèse sur nous plus despotique :

Nos filles vendent leur honneur

Aux derniers courtauds de boutique.

 

Aimons-nous…

 

Mal vêtus, logés dans des trous,

Sous les combles, dans les décombres

Nous vivons avec les hiboux

Et les larrons amis des ombres;

Cependant notre sang vermeil

Coule impétueux dans nos veines

Nous nous plairions au grand soleil

Et sous les rameaux verts des chênes.

 

Aimons-nous…

 

À chaque fois que par torrents

Notre sang coule sur le monde,

C’est toujours pour quelques tyrans

Que cette rosée est féconde;

Ménageons-le dorénavant

L’amour est plus fort que la guerre;

En attendant qu’un meilleur vent

Souffle du ciel ou de la terre.

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