Premissas económicas para a paz
НАСТОЯЩИЙ МАТЕРИАЛ (ИНФОРМАЦИЯ) ПРОИЗВЕДЕН И (ИЛИ) РАСПРОСТРАНЕН ИНОСТРАННЫМ АГЕНТОМ КАГАРЛИЦКИМ БОРИСОМ ЮЛЬЕВИЧЕМ ЛИБО КАСАЕТСЯ ДЕЯТЕЛЬНОСТИ ИНОСТРАННОГО АГЕНТА КАГАРЛИЦКОГО БОРИСА ЮЛЬЕВИЧА. 18+
(ESTE MATERIAL (INFORMATIVO) FOI PRODUZIDO E (OU) DIVULGADO PELO AGENTE DO ESTRANGEIRO BORIS IULEVICH KAGARLITSKI OU RELACIONA-SE COM ATIVIDADES DO AGENTE DO ESTRANGEIRO BORIS IULEVICH KAGARLITSKI. 18+)1
Ao avaliar, no final de 2025, a situação económica na Rússia, Ekaterina Shulman, considerada agente do estrangeiro, sugeriu que o país estava a ficar sem dinheiro e sem pessoas. E, de facto, tudo indica que alguma coisa está a acabar. Mas o dinheiro não é com certeza. Ao Estado nunca se acaba o dinheiro.
É uma particularidade do pensamento dos especialistas liberais tudo reduzirem ao dinheiro. Ora, o dinheiro não passa de um instrumento que ajuda a redistribuir outros recursos. Claro que, se irrefletidamente criado, ele deprecia-se. Sabemos de épocas em que até o ouro e a prata se desvalorizaram. Não obstante, a questão fundamental é: que recursos; e: como se distribuem eles através da despesa pública. Ora, esses recursos são sempre limitados (é nisso, aliás, que consiste a essência da economia, a ciência de trabalhar com recursos limitados), o eles acabarem é uma sua propriedade intrínseca.
As pessoas, a reserva de efetivos tanto para a guerra como para a produção, são também um recurso — e são um recurso extremamente limitado. Já lá vai, e há muito, o tempo em que se podia partir do princípio, tal como o fazia o oficial russo do século XVIII, de que “as mulheres parem mais”. Não são menores, porém, os problemas que, em tempo de guerra, se manifestam noutros recursos: metais, combustíveis, energia elétrica, capacidade ferroviária, equipamento que tende para a obsolescência e se desgasta, etc. O resultado de uma campanha militar depende, em boa medida, da forma como todos esses recursos são distribuídos.
O famoso economista soviético Y. V. Yaremenko fez notar, ao desenvolver a noção da economia multiníveis, que a diferença também está na qualidade dos recursos. Assim como o metal pode ser bom ou nem tanto, também os especialistas podem ser altamente qualificados ou não muito competentes. Na URSS, o complexo militar-industrial absorvia todos os melhores recursos de forma ilimitada. Os demais sectores da economia viam-se obrigados a compensar a falta de qualidade com quantidade. E quanto menor a prioridade do sector, pior a situação.
As pessoas, a reserva de efetivos tanto para a guerra como para a produção, são também um recurso — e são um recurso extremamente limitado
Voltando à questão dos recursos humanos, vê-se que, sendo esse o método, a produção civil começa a sofrer de uma escassez crónica de pessoal, mesmo que pareça haver gente suficiente. No fim de contas, os melhores especialistas são necessários precisamente onde faltam recursos e onde eles, com a sua inteligência, talento e experiência, podem corrigir a situação, imaginar maneiras de se desenvencilhar, inventar algo novo. Porém, passa-se exatamente o contrário. Com as melhores cabeças técnicas já concentradas na indústria militar, os restantes sectores têm de viver de migalhas.
O problema é que a crise crescente da produção civil começa a afetar a economia como um todo, espalhando-se de baixo para cima. Os trabalhadores do complexo militar-industrial também precisam de comprar roupa e ovos, de levar os filhos às creches e escolas, de se tratar nas clínicas, etc. Os dirigentes do país estão cientes do problema, mas é aí que surgem as dificuldades com o dinheiro. Verifica-se, no mais, que tais dificuldades são ainda maiores na economia de capitalismo de mercado russa do que eram na economia de planeamento administrativo da URSS.
Como já se disse, os economistas liberais — não sendo exceção os que trabalham para o Estado — veem todos os problemas como problemas monetários e resolvem-nos em consonância. Em condições “normais”, a coisa funciona mais ou menos, mas, em condições de crise, não. O que distingue, com efeito, as situações de crise é que, nelas, os métodos habituais não só não produzem o efeito esperado, como muitas vezes ainda agravam a situação. A própria especificidade da crise atual é que as autoridades económicas se preocupam (em total conformidade com a doutrina da gestão financeira) não só em cobrir o défice objetivo de recursos — que, no mais, não irá desaparecer — , injetando fundos adicionais, mas também em manter o financiamento de sectores e projetos prioritários, combinando-o com uma austeridade rigorosa e uma política fiscal ainda mais rigorosa, na tentativa de conter o aumento dos preços e equilibrar o orçamento. O principal resultado desta maneira de fazer é os desequilíbrios económicos e sociais intensificarem-se.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
A teoria monetária moderna (TMM) alternativa à teoria liberal clássica é muitíssimo mais tolerante com a impressão de dinheiro, não divisando grande desastre no aumento do défice orçamental — que, no final de 2025, já ultrapassava os quatro biliões de rublos. Um matiz importante é, contudo, que os teóricos da TMM propõem que o dinheiro adicional vá para onde há recursos inativos que, graças ao financiamento estatal, possam ser postos em movimento. Por exemplo, jazigos minerais conhecidos para os quais não há investidores. Ou um número grande de desempregados, que possam ser ocupados em trabalhos socialmente úteis. A situação em que nos encontramos é, porém, o contrário disto. O Banco Central e o Ministério das Finanças estão a pôr dinheiro não onde há potencial de recursos, mas onde já não há recursos disponíveis. Que não vão aparecer só por se aumentar o financiamento. O metal não se funde sozinho, e os soldados não crescem de debaixo da terra, por muito que a semeiem com dentes de dragão como fizeram os heróis do mito antigo.
Há, além disso, um outro recurso limitado: o tempo. Só Deus o tem infinitamente — e para isso é preciso que ele exista. Para os mortais, o tempo não só é um recurso limitado, como não é renovável. Por outras palavras, erros cometidos antes e oportunidades perdidas costumam tornar impossível recuperá-lo. Na primavera e no verão de 2024, quando parecia que a economia nacional não se estava a dar nada mal com as sanções nem com o fardo das despesas militares, era possível tomar medidas de racionamento dos recursos, protegendo o sector civil da escassez e o sistema financeiro do aumento espontâneo dos preços. Mas para quê, se, nessa altura, tudo estava, em princípio, a correr bem sem nada disso? Ainda por cima, se se alcançasse um acordo de paz entre o outono de 2024 e a primavera de 2025, como muitos esperavam, as dificuldades temporárias não chegariam provavelmente a transformar-se em crise aberta. Só que esse momento já lá vai. A escassez de recursos agudizou-se, tomando, para o poder, a forma de défice monetário crítico. Continuar a aumentar o financiamento de sectores e programas prioritários só fará que os desequilíbrios se aprofundem ainda mais, o sistema monetário se desequilibre definitivamente e a crise social se aprofunde quando sectores inteiros da economia e grupos sociais reduzidos a rações míseras não conseguirem sequer garantir minimamente o nível necessário de investimentos para a sua própria reprodução.
A situação é perfeitamente reconhecida pelas autoridades e, por isso, a vontade de paz dos círculos dominantes aumenta na proporção direta do agravamento da crise. Só que o problema não se reduz a que o agravamento da crise irá inevitavelmente exigir que os recursos voltem a ser redistribuídos para os sectores civis; surgirão igualmente questões políticas e ideológicas que só podem continuar a ser sacudidas enquanto as hostilidades continuam. Além disso, tal redistribuição implicará uma série de decisões difíceis. Poderá ser feita por métodos de mercado ou administrativos, de forma mais ou menos eficaz — em qualquer dos casos, ela já hoje é incompatível com a intensificação do esforço militar. E mesmo que tudo seja feito de forma competente, é inevitável que surjam inúmeras dificuldades e conflitos ao longo do processo. A compreensão disso por parte dos detentores do poder também contribui para a tendência para deixar tudo como está por algum tempo, sem tomar medidas irreversíveis. No entanto, adiar decisões para um futuro indefinido não só não facilita a escolha, como agrava problemas existentes.
Em última análise, as autoridades terão de tomar decisões políticas. Talvez então se possa pôr um ponto final.
1 Esta nota acompanha o artigo de Boris Kagarlitski, que está preso, acusado de ser um “agente do estrangeiro” por ter criticado a “operação especial” do Kremlin na Ucrânia.
Publicado originalmente em Рабкор (Rabkor, Correspondência dos Trabalhadores). Tradução de Adriano Zilhão.