Alentejo

António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá
categoria-um livro Gonçalves Correia Anarquismo Comunismo Alentejo Algarve edicao-2026-09-24 (42)

António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá

Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, a editora Traça, sediada no Algarve, republica A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, de António Gonçalves Correia, “otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos”.

João Carlos Louçã
Uma história alentejana
categoria-um livro Alentejo Reforma Agrária edicao-2026-04-30 (25)

Uma história alentejana

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António Simões do Paço
Vinho de talha, património milenar
categoria-património Alentejo Vinho edicao-2026-01-08 (10)

Vinho de talha, património milenar

Com este texto de Eduardo M. Raposo, o Maio inaugura uma secção sobre Património.

Eduardo M. Raposo
categoria-um livro Gonçalves Correia Anarquismo Comunismo Alentejo Algarve edicao-2026-09-24 (42)

António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá

A inabalável confiança num futuro de prosperidade e justiça será aquilo que, para o leitor na atualidade, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura poderá ser relevante. Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, após ter sido uma intervenção do seu autor perante o Congresso dos Trabalhadores Rurais, em dezembro de 1922, em Évora, o texto revela o pensamento de António Gonçalves Correia, otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos.

No final da Grande Guerra, o contágio da revolução soviética torna-se evidente e há um surto grevista que tem a particularidade de colocar a questão do poder e da alteração de regime. A alternativa ao modo de produção capitalista era já visível na Rússia e a revolução estava na ordem do dia em muitos países europeus. Na Finlândia e Países Baixos em 1918, a revolução de novembro na Alemanha em 1918/19, as Repúblicas Soviéticas da Baviera, da Hungria e da Eslováquia em 1919, o Triénio Bolchevique Andaluz entre 1918 e 1920 são exemplos desse surto emancipatório que varria a Europa e colocava na ordem do dia a tomada do poder pelas classes trabalhadoras. Em agosto de 1920, em Turim, a Federação das Indústrias Metalúrgicas entra numa greve de duração indeterminada. As fábricas são ocupadas e os trabalhadores formam milícias armadas para defender a greve e o controlo operário que pretendem assegurar. Em muitos casos, mantêm as fábricas em funcionamento na expectativa de que o movimento grevista desse origem a um processo revolucionário que pudesse dispensar os capitalistas e alastrar ao resto do país. Na Alemanha, uma greve geral, em março do mesmo ano, barra o caminho ao fascismo ascendente numa situação revolucionária que é derrotada pela social-democracia. No Ruhr é fundada uma comuna operária, sem a força suficiente para evitar a derrota. Na Suíça e em França, movimentos grevistas fazem reivindicações sobre horários de trabalho, salário, condições de trabalho e de descanso, participação operária na gestão, assegurando conquistas fundamentais. Uma vaga de greves e esperança revolucionária despontava e parecia querer seguir o exemplo da revolução soviética. O ideal comunista ao alcance da vontade e a possibilidade de, finalmente, um poder proletário que garantisse que o Estado era um anacronismo para terminar. A guerra que prolongou o século XIX até ao final da segunda década do século XX terminaria com a instauração da nova sociedade comunista. A guerra civil que a revolução soviética travava nesse instante era já uma guerra entre classes, com os imperialismos a defender os seus interesses contra uma revolução que triunfava.

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Portugal, na turbulência da I República, não escapou a essa vaga grevista ou ao impacto da revolução de 1917. Nesses primeiros anos do século que começava a contar os mortos da Grande Guerra e da pneumónica, trabalhadores e trabalhadoras, do campo e das indústrias, usaram a greve como arma de luta por melhores condições de vida. A Comuna de Paris com o seu ideal de República Universal, assim como a revolução soviética, foram inspirações fundamentais para esses momentos de luta e de auto-organização. 

Desse mundo em que viveu e sonhou, Gonçalves Correia olha para o futuro imaginado de uma classe social que aspirava à vitória após tomar consciência da sua força incontornável na indústria nascente, na agricultura extensiva, em todos os setores da vida em que a desigualdade era regra, a divisão entre senhores e proletários, a norma da sociedade devastada pela pneumónica e pela Grande Guerra na Europa. Essa confiança em que o porvir seria inevitavelmente um tempo de paz e justiça, de igualdade e respeito pelas outras pessoas, e além delas, pelo planeta e todos os seus seres, é a impressão forte destas palavras do autor que nos chegam hoje, incólumes, nesta edição. Não por terem sido previsões certeiras, ou sequer anseios parcialmente confirmados, mas por se constituírem como programa ainda atual, e sempre mobilizador, para o mundo em que vivemos hoje e os seus muitos dilemas. Na “fórmula errada da propriedade privada”, reside em grande medida a origem dos males do mundo, segundo Gonçalves Correia. Ela permite o roubo da vida e do esforço de todas as pessoas que trabalham, ela alimenta as guerras e sustenta o poder autoritário do Estado, investido em proteger a classe dos proprietários, o statu quo do capitalismo que só produz exploradores e explorados. Um século passado, a acumulação de riqueza atinge níveis astronómicos, só equiparada ao aumento constante da desigualdade na sua redistribuição. O trabalho, primeiríssima fonte de toda a produção de bens materiais e de serviços, continua a ser o esforço, escassamente retribuído, para uma vida digna e para a sobrevivência própria e dos mais próximos. 

Perante o otimismo crónico de Gonçalves Correia, que via na mecanização a oportunidade da libertação dos trabalhos alienantes e repetitivos, o alívio do esforço humano no amanhar a terra ou nas linhas de montagem industriais, sabemos hoje que nunca foram as pessoas que trabalham as beneficiárias das inovações tecnológicas. E se houve benefícios, que também os houve, foram invariavelmente resultado de duras lutas, travadas coletivamente e que garantiram, quase sempre demasiado tarde, horários de trabalho, direito a férias e ao descanso, organização autónoma dos trabalhadores, o direito à greve. Na vertigem dos anos 20 que vivemos, estes do século XXI, em que estamos coletivamente ameaçados pela utilização da tecnologia nos mecanismos de controlo e manipulação da experiência individual e dos movimentos sociais de resistência ao que existe, a inteligência artificial (IA) parece anunciar o fim da inteligência social, da capacidade individual de evoluir e aprender com a experiência, o fim das expectativas, porque a máquina é que saberá e conhecerá, através de um incomensurável acumular de dados, que afinal nunca reunirá condições para inovar, para imaginar caminhos diferentes através da abstração, da associação ou da genialidade na interpretação do mundo nas suas muitas realidades. Como há um século atrás, a IA não trará prosperidade nem alívio ao comum das pessoas, será uma ferramenta mais para se intensificarem os ritmos e as exigências do trabalho, será (já é) um instrumento de manipulação do conhecimento científico, de imposição de dogmas e de controlo social. 

O capitalismo tardio é profundamente impaciente e promove um frenesim que monopoliza a atenção das pessoas, corrompendo tempo livre e laços sociais, reforçando o racismo sistémico e acelerando a disseminação das mentiras da extrema-direita. A utilização da IA, na sociedade atual, representa uma enorme ameaça à vida de milhões de pessoas. Os centros de dados e a mineração de criptomoedas já consomem qualquer coisa como 2% da eletricidade mundial e este consumo aumenta cada dia com a expansão da IA que requer enormes quantidades de água, energia e produtos minerais. O planeta de todos os seres, a biodiversidade e o equilíbrio ambiental são uma vez mais sacrificados no altar do consumo, a que se chama progresso, da exploração desenfreada de recursos escassos que condena o futuro coletivo em benefício da acumulação de capital.

’Proletário do comércio’, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram exemplo maior.

Mas se a este otimismo de Gonçalves Correia podemos contrapor um século de capitalismo triunfante e os seus resultados, outras dimensões do seu pensamento revelam-se profundamente atuais e úteis para pensar o mundo em que vivemos. Entre as ameaças de cataclismos climáticos que já se observam em muitas partes do mundo, as guerras declaradas onde se disputam territórios e os seus recursos através da destruição e da desumanização do outro – quase sempre do vizinho –, a barragem de desinformação e de realidades alternativas aos factos que alimentam a extrema-direita em ascenso em demasiados lugares do mundo, o texto de Gonçalves Correia condensa as expectativas de um homem justo do século passado. Comunista porque procurava uma vida comunitária em liberdade, socialista libertário em oposição ao socialismo parlamentar, inimigo da monarquia em benefício da República, anarquista convicto – assim se definiu Gonçalves Correia, “proletário do comércio”, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, onde inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram naturalmente um exemplo maior. 

E o mundo pensado para “a felicidade de todos os seres”, a sociedade justa que olha para ele inteiro na sua diversidade absoluta, capaz de ver prosperar sociedades humanas de cooperação, assim como sistema ecológicos na sua magia selvagem, intocada pela ganância do capital. Nas palavras de Gonçalves Correia, o futuro promete beleza e harmonia, ultrapassadas as guerras e os motivos de conflito através da socialização da propriedade e das tarefas duras, da libertação do trabalho alienado, da partilha da beleza e da arte que todos poderemos produzir.

No texto agora reeditado, vemos a preocupação constante com a educação e instrução das massas proletárias, pois o conhecimento não podia ser privilégio das classes dominantes, sendo a capacidade crítica um instrumento fundamental para a sociedade futura que imaginava. Ao exercício de abstração sobre as possibilidades do futuro correspondeu sempre a tentativa de concretização da utopia, seja na organização necessária para a luta política – e sempre através do esclarecimento das massas – ou na gestão dos espaços privados da sua vida. A igualdade radical da sociedade futura trará não só a felicidade de todos os seres, mas a absoluta igualdade de género. “Minha Senhora, irmã, camarada em crença”, é a forma como se dirige às mulheres na “Estreia de um Crente” (1917), através dos exemplos de combatividade revolucionária de Rosa Luxemburgo e Louise Michel. 

Como tantos homens e mulheres do seu tempo, rebeldes conscientes e revolucionários de corpo inteiro, António Gonçalves Correia viveu todas as derrotas das classes populares que se viram traídas pela República que ajudaram a estabelecer. Viveu o ascenso do autoritarismo, ainda no regime de Sidónio Pais, e a instauração do Estado Novo, o fascismo que durou 48 anos e que só a Revolução dos Cravos, em 1974, viria a terminar. Gonçalves Correia não assistiu a esse momento de libertação, uma vez que faleceu em 1967, mas a sua vida constitui um exemplo de dignidade e resistência, de humanismo instigado por firmes convicções libertárias, pela capacidade de organização e reflexão crítica, de inovação e persistência perante as derrotas e todas as dificuldades. Nas suas palavras está não só o registo das lutas que travou, mas sobretudo dos sonhos e do projeto emancipatório que protagonizou. Projeto derrotado? Sem dúvida. Basta olhar para o tempo presente para confirmar os futuros de catástrofe que se anunciam. Mas se os futuros são por definição incertos e ainda nos podem surpreender, sabemos que a história nunca acaba e que as causas perdidas podem sobreviver de forma subterrânea, larvar, até regressarem com força renovada perante novas gerações que delas se apropriam e simultaneamente as reinventam.

Prefácio a António Gonçalves Correia, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura

Traça Edições, Ataboeira, 8200-554 Ferreiras (Algarve), 2026

categoria-um livro Alentejo Reforma Agrária edicao-2026-04-30 (25)

Uma história alentejana

Pouco depois do 25 de Abril, diz o texto de contracapa deste romance de Carlos Campaniço, “os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas”. Em Aldeia Velha, que poderia ser a Safara natal do autor, no concelho de Moura, ou alguma outra aldeia do Alentejo, onde decorre a ação deste romance, “a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da guerra colonial e as novas liberdades trazidas pela revolução”.

“Primeiro a Revolução; meses depois, uma autorização ministerial para ocuparem as terras de quem não as trabalhava. Houve euforia, era a força do povo, a justiça do povo, finalmente, tantos braços levantados; mas também houve medo, porque os que tinham terras e bens de repente se perguntavam porque lhes tiravam o que sempre fora seu. Muitas daquelas terras sempre estiveram nas famílias, e, além disso, eram obrigados a fugir levando as próprias vidas, carregando-as como malas de roupas incompletas (p. 23).”

Ao longo de 270 páginas vemos desfilar uma galeria de personagens: Zeferino Guedelha, antigo lavrador, expropriado com a reforma agrária. Tonico e Aurora, crianças criadas ao deus-dará, filhos do moleiro Adrião Lampreia e de Ana Maria, que o troca pela vida confortável ao lado de José Maria Falcão, latifundiário expropriado e ressentido. João Cotovio, que veio da guerra com stress pós-traumático – tinha “crises de nervos” e partia tudo o que tivesse à mão. A irmã deste, Marianita Cotovio, que regressa à terra vinda da capital, “prenha por todos os lados de onde se olhasse” e sem marido. O médico, doutor Francisco Geraldes, e a sua amante Tomásia Bicho. José Catarino, o presidente da junta, o padre Manuel Francisco, rapaz da terra, filho do “Carvoero”, de uma das famílias mais pobres da aldeia. E sobretudo Boca-Viúva – o carteiro, “negro como uma sombra dentro do seu casaco grosso, carregando a correspondência com um sofrimento que lhe mirrava os gestos. Parecia que todas as más notícias contidas nas cartas entravam nele e lhe faziam dano” – que estará no centro do enredo.

O tempo do romance vai muito além do período pós-revolucionário, acompanhando o fim da reforma agrária e dos sonhos que acalentou.

Carlos Campaniço nasceu na aldeia de Safara, no concelho de Moura, e aí viveu até ingressar na universidade, onde cursou Línguas e Literaturas Modernas. É mestre em Culturas Árabe e Islâmica e o Mediterrâneo. Profissionalmente, é programador artístico. Publicou vários romances, entre eles Os Demónios de Álvaro Cobra (2013, vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada), Mal Nascer (2014, finalista do Prémio LeYa e vencedor do Prémio Mais Literatura promovido pela revista Mais Alentejo), As Viúvas de Dom Rufia (2016) e Velhos Lobos (2022).


Carlos Campaniço, A Cinco Palmos dos Olhos
1.ª edição: Outubro de 2025
Casa das Letras | Grupo Leya

categoria-património Alentejo Vinho edicao-2026-01-08 (10)

Vinho de talha, património milenar

(…) Toda a perspectiva progressista é compatível com aspectos conservadores da cultura que se pretende conservar. (…)
José Afonso

Pretendemos, através de algumas viagens ao Património, destacar aspectos patrimoniais especialmente no Sul mediterrânico e nomeadamente na região transtagana, traços identitários que possibilitam a autoestima das gentes e a coesão destas sociedades, em acelerado processo de desertificação. Estes territórios, que guardam a essência peculiar das terras e das gentes face à imposição imperialista da mercantilização anulando os valores identitários e impondo, por vezes através da turistificação, a mediania dos aspectos mais perversos da globalização, onde o entretenimento substitui a cultura. Este será o nosso modesto contributo para valorizar os nossos patrimónios, na defesa da liberdade e no aprofundamento da democracia – a forma mais eficaz de a defender.

Viagem às Talhas

A primeira viagem fazemo-la às Talhas, em busca do vinho de talha. Partimos de Almada, depois de um almoço apressado, pois era necessário aproveitar a tarde, e neste sábado invernoso escassas horas de sol restavam. O objetivo era Vila Alva, Cuba, e desta vez fizemos o percurso por Ferreira, onde nos esperava a Céu, que nos seguiu no seu velho jipe. À entrada de Peroguarda, recordámos Michel Giacometti, que escolheu a sua última morada no pequeno cemitério caiado de branco, onde há mais de uma década depositámos uma papoila na campa rasa – símbolo frágil e perene deste Alentejo milenar multicultural, deste fraterno corso. Depois da passarmos na Cuba (Cuba no Alentejo designa-se por na ou à Cuba) chegámos finalmente a Vila Alva, que divide com Vila de Frades a centralidade de capital do vinho de talha.

Ainda que o vinho no Alentejo remonte ao século VI a.C., foram os romanos que, no que concerne ao vinho, deixaram mais marcas na região.

Logo à chegada verificámos que a Adega do Cerejo estava encerrada. Depois de passarmos pelo lavadouro público, entrámos na Adega do Manuel Fernando, onde fomos recebidos pelo seu filho, o senhor José Francisco. Os comensais eram raros e sentámo-nos numa mesa junto à lareira. Seguindo o conselho do amigo José Roque, fomos preparados com uns petiscos e assámos logo uma linguiça com que nos “aconchegámos” numa degustação onde juntámos uns queijinhos de cabra, torresmos, com o imprescindível “panito” e umas alcagoitas, enquanto nos deliciávamos com um delicioso branco de talha – excepto a Zé Pinto, que provou um tinto, menos encorpado – e depois da segunda rodada fomos falar com o taberneiro.

José Francisco tem 64 anos e é filho de quem deu o nome à adega, Manuel Fernando, Recorda que tinha 16 anos, há cerca de meio século, portanto, quando o pai comprou a adega à família dos Abreu Abrantes, uma família rica da vila. Depois de um curto período, trabalhou como mecânico, mas aos 22 anos começou a dedicar-se a esta vida, como diz.

Manuel Fernando, que explora um café na vila, todos os anos deixa tudo e, entre Novembro e Março, passa os seus dias na adega que é conhecida pelo nome do seu pai.

“É uma forma de estar com os amigos”, diz, sorrindo, mas, agora com um ar mais sério, depois de referir que este período de quase meio ano é passado completamente dedicado ao vinho de talha, remata: “É mantermos a nossa cultura, a nossa identidade.”

Depois fala de outros tempos, há 60 ou 70 anos, em que todas as seis ou sete famílias ricas de Vila Alva produziam vinho de talha, tinham pelo menos quatro ou cinco talhas cada uma, sobretudo para autoconsumo. Termina referindo que actualmente existem dezenas de talhas que não estão a ser utilizadas, o que é corroborado por um seu amigo e cliente habitual, João Campeão, que se juntou à conversa.

O que é o vinho de talha

Ainda que o vinho no Alentejo remonte ao século VI a.C., foram os romanos que, no que concerne ao vinho, deixaram mais marcas na região, como refere o amigo Manuel Baiôa, nomeadamente “os dolias” (dolium ou talhas de grandes dimensões) para a fermentação e o armazenamento e as ânforas para o armazenamento e o transporte do vinho.”

O produtor e amigo João Canena, da Cuba, considerado o maior produtor de vinho de talha, é responsável por mais de 100 mil litros de vinho, onde a maior parte tem o certificado DOC Talha, e na actualidade reparte com a Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito a visibilidade na divulgação de vinho de talha.

Todavia, é Vila Alva que parece manter a maior autenticidade na tradição do vinho de talha.

Está em curso uma candidatura do vinho de talha a Património da Humanidade, liderada pelo Município de Vidigueira, mas com a participação de outros 18 municípios alentejanos.


O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá
Uma história alentejana
Vinho de talha, património milenar
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António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá
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Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, a editora Traça, sediada no Algarve, republica A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, de António Gonçalves Correia, “otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos”.

João Carlos Louçã
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Pouco depois do 25 de Abril, diz o texto de contracapa deste romance de Carlos Campaniço, “os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas”. Em Aldeia Velha, que poderia ser a Safara natal do autor, no concelho de Moura, ou alg

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Vinho de talha, património milenar
categoria-património Alentejo Vinho edicao-2026-01-08 (10)

Vinho de talha, património milenar

Com este texto de Eduardo M. Raposo, o Maio inaugura uma secção sobre Património.

Eduardo M. Raposo

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