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Logo ali, ao virar da esquina
categoria-crónica Esquinas Virar Vidas edicao-2026-09-03 (39)

Logo ali, ao virar da esquina

A vida cheira tão forte quanto a morte, talvez. Ambas têm a vantagem de nunca se saber o que trazem.

Adriano Alcantara
O professor de Matemática e as “conservadoras”
categoria-crónica Machismo Extrema-direita Conservadorismo edicao-2026-09-03 (39)

O professor de Matemática e as “conservadoras”

Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças”.

Ana Rajado
Não me Canso de Falar
categoria-um poema edicao-2026-09-03 (39)

Não me Canso de Falar

Não me canso de falar sobre a diferença ténue entre as mulheres e as árvores, sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo não encontrei em nenhum passaporte. Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração, a terra dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens? Onde

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O último Eça
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Portugal Eça de Queirós Civilização

O último Eça

A obra do período final da vida de Eça de Queirós, definida pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, é a de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, de uma visão filosófica específica, ou de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova...

Miguel Real
Complô
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Imperialismo Fascismo Colonialismo Capitalismo

Complô

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições.

Onésio Soda
Onde pára o ensino profissional?
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Emídio Navarro Ensino profissional

Onde pára o ensino profissional?

Em 1889, o Estado foi à Europa buscar professores. Em 2026, vai buscar operários.

Jorge Van Krieken
O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Inteligência Artificial Escola Universidade

O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista

As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade.

António Carlos Cortez
A Odisseia de Nolan: do herói homérico ao anti-herói pós-moderno
categoria-cultura edicao-2026-09-03 (39) Odisseia Nolan Homero Guerra

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A Odisseia é uma das principais epopeias da literatura grega antiga e uma das obras literárias mais antigas que sobreviveram. É atribuída a Homero, que teria vivido no século VIII antes da era corrente (AEC) e, tal como a Ilíada, centra-se nos acontecimentos associados a uma guerra, a de Troia...

Andrés Águila
Dostoievski: a dor de uma alma atormentada no subsolo
categoria-cultura Dostoievki Razão Sofrimento edicao-2026-09-03 (39)

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Há algum tempo li um dos livros mais perturbadores da minha vida: Memórias do Subterrâneo (ou Memórias do Subsolo, ou ainda Cadernos do Subterrâneo, dependendo da edição), de Fiódor Dostoievski, publicado em 1864.

João Areosa
Uma teoria marxista da crise no mundo contemporâneo
categoria-economia Teoria da crise Marxismo edicao-2026-09-03 (39)

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“Há todos os motivos para esperar outra recessão antes do final desta década. O rastilho pode ser aceso por um novo colapso financeiro, como em 2008. Desta vez, o estouro pode não ter início nos bancos, mas ser provocado pelo aumento da dívida das empresas e pelo custo do serviço dessa dívida.”

Michael Roberts
Reentrada de pé em riste
categoria-editorial edicao-2026-09-03 (39)

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Ainda antes da rentrée, com meio país de férias, o Governo avançou em força na tentativa de desmantelamento dos sistemas de pensões e reformas, dos cuidados de saúde e do ensino público.

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As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade.

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A Odisseia é uma das principais epopeias da literatura grega antiga e uma das obras literárias mais antigas que sobreviveram. É atribuída a Homero, que teria vivido no século VIII antes da era corrente (AEC) e, tal como a Ilíada, centra-se nos acontecimentos associados a uma guerra, a de Troia...

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Uma teoria marxista da crise no mundo contemporâneo
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Michael Roberts
Reentrada de pé em riste
categoria-editorial edicao-2026-09-03 (39)

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Jornal Maio
Volkswagen: entre a espada e o desemprego
categoria-internacional Volkswagen Alemanha IG Metall Guerra edicao-2026-09-03 (39)

Volkswagen: entre a espada e o desemprego

Na Alemanha, os trabalhadores da Volkswagen, o maior fabricante automóvel do mundo, enfrentam uma luta terrível pela defesa dos seus salários e postos de trabalho. A alternativa que procuram impor-lhes é entre o encerramento de fábricas e o desemprego ou a reconversão para a indústria de guerra.

Adriano Zilhão
categoria-crónica Esquinas Virar Vidas edicao-2026-09-03 (39)

Logo ali, ao virar da esquina

A vida cheira tão forte quanto a morte, talvez. Ambas têm a vantagem de nunca se saber o que trazem.

Chegava ao fim do dia, vinda da banda de lá detrás do sol-posto. Vinha e era recebida com cerimónia, embora nunca desse cavaco a tanto salamaleque. Transpunha a porta, aceitava um copo de vinho e ia direitinha ao quarto, enquanto enchia a casa de um só seu odor a terra, ora erva cortada de fresco, ora feno no estábulo, ora goivos em noite de quase verão, tudo com um travo a fado de viúva. O aroma da vida é afinal tão intenso quanto o do luto. Mas esta é comparação recente, ganha com o virar dos anos. 

Assim, à distância do tempo, fica apenas a lembrança da velha de negro vestida, de mãos austeras. Uma de duas maleitas a trazia: ou tinha o miúdo virado o bucho ou nele andavam assustadas as lombrigas, infantis achaques provocados fosse pela traquinice de rédea solta, fosse porque o pai tinha a mania de o atirar ao alto em bebé, para logo o resguardar no carinho dos braços. Brincadeira, em ambos os casos. Seja como for, certo é que emagrecia a olhos vistos. 

Por isso, chegava a visita a cada entardecer, com as mãos calejadas untadas de jeito e azeite morno a massajar-lhe o ventre, mais a ladainha e as folhas de couve aquecidas ou a enxúndia de galinha apertadas em torno dos rins, no sufoco de uma toalha também quente. Choramingava, mas nada feito. A velha forçava-o à deita e virava costas, seguida da sombra solícita da avó. À hora da ceia, era a mãe quem lhe trazia o caldo. E era também comer e dormir, que ali se seguiam à risca as mezinhas da senhora de negro e não seria ele, um fedelho ainda, a virar-lhe a cabeça. Libertava-o do aperto e do cheiro das couves ou da gordura galinácea, entretanto arrefecidas, aconchegava-lhe os cobertores e, findo o Pai-Nosso, dava-lhe a bênção, apagava de um sopro a candeia e saía. Enfim. Com tantos desvelos, se o bucho tinha virado, direito ficou. Ou, se as lombrigas tinha assustadas, calmas ficaram. Recuperou peso e cabeça, virou a página da infância. 

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Fez-se homem. Contudo, quando de virar se tratava, sempre de pé atrás se deixava ficar. Surgisse ou não o verbo na ponta da língua do mais corriqueiro lugar-comum, logo ao olfato lhe vinham as mãos da velha a dar-lhe a volta à barriga. Traziam-lhe pele de galinha, esses ditos populares. Arrepiavam-no tanto mais quanto todos, nas suas redondezas, neles insistiam para lhe apontar a dita malvada, a sina que a cada passo lhe virava a vida do avesso. A mulher enganou-o, virou-lhe a honra noutros lençóis. O banco de sempre virou o bico ao prego e negou-lhe o crédito prometido. O melhor amigo virou a casaca e nunca mais o recebeu em casa. 

Tempos de crise, coisa antiga, tão velha quanto o buxo virado, as lombrigas aos saltos, as bexigas loucas que também lhe haviam acontecido. O mundo de pernas para o ar logo ali, ao virar da esquina. Mas essa era dita que não aceitava de qualquer jeito. Andou tempos sem fim à volta de ruas, por portas travessas e outras esperanças, à espera vá lá saber-se do quê. Para uns, aguardava-o a felicidade, a surpresa, a solução. Para outros, o azar, a tristeza, o pesadelo. Cansado, quase desistiu, convencido de que a cada virar nada se sabe sobre o que pode acontecer. 

Resolveu aí virar cada esquina no ponto exato, opção volátil, tomada apenas pela absoluta necessidade de não fugir de nada, nem sequer dos incómodos do passado. A vida cheira tão forte quanto a morte, talvez. Ambas têm a vantagem de nunca se saber o que trazem, assim, de repente, ao virar da dita, seja ela a do Sardinha, emblemática da terra e cantinho de reformados, ou canto tramado onde decisões se tomam, seja ela o fado de ficarmos sós, a olhar a sorte dos outros, nós, irmãos. 

categoria-crónica Machismo Extrema-direita Conservadorismo edicao-2026-09-03 (39)

O professor de Matemática e as “conservadoras”

Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças”.

Nos anos 90 tive um professor de Matemática invulgar. Era um ribatejano entroncado, com suíças que sobressaíam e óculos de massa como os do meu avô. Talvez não fosse tão velho como parecia: uma figura do século passado. Não deste, mas do anterior. Caminhava calmamente com a sua pasta volumosa, ar pensativo e triste. Tinha um tique: quando endireitava os óculos, franzia o nariz. Éramos uma turma de humanidades de raparigas; só havia um rapaz. Não ligávamos à matemática e ele sofria connosco. No desespero, chegou a fazer-nos o teste até ao 10. A partir daí, era connosco. Não era só a sua figura que era do século passado, mas, sobretudo, a linguagem. Parecia saído de um romance do Eça de Queirós. Tratava-nos por moças, ao quadro referia-se como pedra – “Moça, vai à pedra” – e ao livro como compêndio. Tudo nele era espanto em relação a nós, adolescentes, mas já conscientes de alguns dos nossos direitos como mulheres e sem qualquer condescendência para com o machismo. Uma atitude que nos parecia irreversível e que só alguém como o nosso professor (condenado a desaparecer nas próximas décadas) podia questionar. Tínhamos com ele uma relação de respeito. Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças” – dando a entender que éramos burras e que, se chegássemos à universidade, seria para trabalhar nas cantinas. Às vezes também dizia que éramos mais produtivas a coser meias. Aquelas frases pareciam-nos tão bizarras que ríamos e respondíamos o que entendíamos. Mas ríamos porque acreditávamos que aquele modelo de homem estava a desaparecer e que o futuro seria humanista e igualitário. Uma questão de tempo, na nossa cabeça.

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Trinta anos depois, ouço não um homem ribatejano, mas um grupo de mulheres que, felizmente, têm o direito conquistado (pelas tais feministas que desprezam) de vir para a praça pública apelar ao retrocesso e criticar aquelas que lhes permitiram exercer o direito de expressarem as suas ideias e de se organizarem. Tolas de extrema-direita, contra o aborto, apologistas dos movimentos pró-vida, mas pelo genocídio de crianças em Gaza. E nisso são incomparáveis com o meu professor que, apesar da linguagem machista, era um homem de profunda humanidade, que antevia as dificuldades que o futuro nos reservava. Na forma, estava todo errado, mas tinha um coração bom. Anos mais tarde, voltámos a reencontrar-nos num contexto diferente: eu já na faculdade, ele reformado, frequentávamos o mesmo café. Tínhamos longas conversas sobre questões da atualidade. Mais tarde ainda fui para Lisboa e, às vezes, quando regressava a Coimbra, encontrava-o noutra esplanada mais central. Como me viu em alguns protestos, cumprimentava-me sempre com ar sério e a seguinte frase: “Como vai a jovem revolucionária?” Ao que respondia: “Como vai o meu professor?” E conversávamos. Hoje, o retrocesso é abismal. Não se trata só de conservadorismo. Estas mulheres são de extrema-direita e, como tal, não têm qualquer sentido de humanidade. Antes mil homens com o coração no sítio que estas perigosas mercenárias, a quem me custa chamar mulheres. Do meu professor guardo boas memórias. Hoje compreendo que só na forma era machista. Era um provocador. Na verdade, queria que fôssemos para a universidade e nos emancipássemos. Já estas anormais querem que voltemos para casa. Se o contexto nacional e internacional não fosse tão grave diria, como o João César Monteiro: “quero que estas gajas se f…” Como a realidade é alarmante, espero que tenhamos capacidade para nos organizarmos e reagirmos.

categoria-um poema edicao-2026-09-03 (39)

Não me Canso de Falar

Não me canso de falar sobre a diferença ténue entre
as mulheres e as árvores,
sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo não
encontrei em nenhum passaporte.
Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração, a terra
dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens?
Onde está então o meu casebre? Onde estou eu?
A assembleia aplaudiu-me
durante três minutos, três minutos de liberdade
e de reconhecimento… A assembleia acaba de aprovar
o nosso direito ao regresso, como o de todas as galinhas e
todos os cavalos, a um sonho de pedra.
Aperto-lhes a mão, um a um, depois faço uma saudação, inclinando-me… e continuo a viagem
para outro país, onde falarei sobre a diferença entre
miragens e chuva.
E perguntarei: Senhoras e senhores de bom coração,
a terra dos homens é
de todos os homens?

Mahmoud Darwish
Tradução de Albano Martins
in O Jardim Adormecido e Outros Poemas,
Campo das Letras, Porto

categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Portugal Eça de Queirós Civilização

O último Eça

A obra do período final da vida de Eça de Queirós, definida pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, é a de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, de uma visão filosófica específica, ou de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova sensibilidade aberta às experiências do mundo sem as encerrar numa óptica unicitária, tendo delas uma visão supra-histórica.

Existe uma relação filosófica e ideológica entre o Fradique Mendes (“Memórias e Notas”), o conteúdo da maioria das cartas deste “proto-heterónimo” de Eça (com a devida exclusão das “cartas a Clara”), o conto de carácter religioso “S. Cristóvão” (1890) e o conto lírico-campestre “A Civilização” (1892). É como se Eça de Queirós, perfazendo 43 anos, literária e socialmente insatisfeito, decidisse fazer uma revisão de toda a sua obra anterior (mesmo a não publicada), de todos os seus momentos literários passados (escolas estéticas, influências estilísticas, leituras pessoais), privilegiando, como estratégia narrativa, não a realidade social exterior direta e a observação bem exprimida dessa realidade (seu anterior cânone realista), mas a sua realidade interior, a sua consciência psicológica, subjetiva, englobando as fases que ele próprio vivera enquanto “satanista” ultrarromântico (década de 1860), enquanto naturalista-realista socialmente empenhado (década de 1870) e enquanto realista cético aberto a outras novidades e experiências (entre 1880 e 1888).

É como se Eça de Queirós, perfazendo 43 anos, literária e socialmente insatisfeito, decidisse fazer uma revisão de toda a sua obra anterior”

Assim, a partir de 1888, a estratégia discursiva de Eça deixaria de assentar na observação direta da realidade social exterior, desmascarando-a e criticando-a (esta é indubitavelmente a intenção última do projeto de Eça desde As Farpas e O Mistério da Estrada de Sintra até ao núcleo ideológico central d’ Os Maias), e passaria a assentar em três pontos centrais:

a) a revisão subjetiva das impressões psicológicas, fundadas na memória pessoal, por que Eça vivera os momentos políticos, sociais, ideológicos e até profissionais do empolgamento e do fracasso das ideias da Geração de 70 para transformar Portugal. O encontro de Eça em 1884, no Porto, e fotografia publicada n’ A Ilustração, em 1885, com um deprimido Antero de Quental, com um regenerado Oliveira Martins, que preparava a sua entrada na vida política constitucional, com um jacobino e anti-litúrgico Guerra Junqueiro (cujas ideias Eça criticará via Fradique Mendes) e com um já conservador Ramalho Ortigão, deve ter tido forte influência na visão socialmente pessimista com que Eça encerrara Os Maias e A Relíquia. O que Eça diligenciara narrar em Os Maias fora a história da sua própria geração, que presumira fazer história e acabara por descobrir, no fim, que “a história é uma grande fantasia”. Por isso, Carlos da Maia desabafa para Ega: “Falhámos a vida, menino!”, e Teodorico Raposo descobre que, mais do que pela verdade, os povos se movem pela “ilusão”. Toda a obra posterior de Eça reflecte, por um lado, as condições daquele monumental falhanço, e, por outro, visa esboçar ficcional e ensaisticamente, através de uma metodologia meta-histórica e comparativista, novas alternativas sociais para o século XX: a vida simples do “segundo” Jacinto, a vida cosmopolita de Fradique, a partida inesperada de Gonçalo para Moçambique, quebrando o ciclo esmagador do rotativismo político, a vida benigna de Cristóvão. Forma-se, assim, o grande objectivo dos últimos dez anos de vida de Eça: descobrir alternativas sociais e civilizacionais para o esgotamento político e espiritual da sua geração, tomando como ponto de partida, não a objetividade das relações sociais à luz de uma perspetiva histórica voluntarista e determinista (década de 1870), mas à luz da subjetividade vivencial das suas próprias recordações de vinte anos de história de Portugal, como se percebe na introdução à Correspondência de Fradique Mendes e nas peripécias narrativas d’ A Ilustre Casa de Ramires.
b) Se a matéria de que Eça se serve é a da sua própria memória vivencial, a estratégia narrativa será tanto a de revisitar, momento a momento, tema a tema, os “motivos emocionais” por que se desdobrara o núcleo central da crítica ao antigo Portugal (o político enfatuado, o proprietário avarento, o eclesiástico burocrata, o administrador de província, o bacharel presumido, o dandy balofo, o brasileiro opulento, a beata de sacristia, o poeta alucinado, o pensador lunático…), quanto a de questionar e de problematizar, à luz do pensamento europeu da década de 1890, sorvido em Paris, os grandes temas filosóficos vividos pela Geração de 70: o progresso e a razão, a cidade e o indivíduo, a prosperidade e a pobreza, o campo e o ruralismo, a educação do cidadão, o corpo da mulher e o amor, o bem, a virtude e a santidade, o saber e a ignorância, a Igreja e a salvação…;
c) Se a matéria (ou seja, o conteúdo extraliterário) e a estratégia (ou seja, os pontos de abordagem literária) são estes, o método que Eça seguirá é indubitavelmente, não a observação realista (que permanecerá, embora mitigada), mas o método comparativo: a comparação entre tempos diversos, entre civilizações diversas e entres fases diversas de uma mesma civilização. Ora, é justamente este o método usado em A Correspondência de Fradique Mendes, tanto em “Memórias e Notas” como nas cartas propriamente ditas (comparação entre religiões, entre civilizações diferentes, entre tempos diferentes de uma mesma civilização…), em A Cidade e as Serras (comparação entre momentos diferentes de uma mesma civilização: o momento maximamente urbano comparado com o momento rural), em A Ilustre Casa de Ramires (comparação entre as fases diferentes dos últimos setenta anos de Portugal; comparação entre fidalgos medievais e constitucionais…) e nas Lendas de Santos, principalmente em “S. Cristóvão” (comparação entre diferentes formas de poder e diferentes formas de assunção do sagrado) e nas diversas crónicas que vai publicando no Brasil e em Portugal. A utilização deste método permite que a visão do narrador não seja nunca a de um participante empenhado na história, mas a de um observador (os narradores de A Cidade e as Serras e Correspondência de Fradique Mendes não são as personagens principais, mas amigos delas) que dialoga e põe a nu, comparativamente, visões diferentes, resultados diferentes de diferentes perspetivas, ou seja, a tal método escapa-lhe, por um lado, a omnisciência narrativa; e, por outro, o empenho social militante, abrindo horizontes a uma visão humanista e meta-histórica dos acontecimentos, das ideias e das próprias fases da história. É justamente esta a grande característica por que penetramos no humanismo do último Eça: o despreendimento da conjuntura histórica circunstancial e a projecção, nos factos narrados e na estratégia de narração, de uma visão sobre a totalidade da história, isto é, de uma visão meta-histórica. Agora, a partir de 1888, Eça não pretende fazer (década de 1870) ou retratar (década de 1880) a história, mas avaliá-la, não pretende transformar Portugal criticando as suas elites, mas avaliar todas as ideias que ideológica e filosoficamente encapuzaram Portugal, levando a democracia constitucional ao fracasso e fazendo perigar a coroa de D. Carlos I. 

É este o último Eça, que se caracteriza por

1) predominância da subjectividade face ao império da realidade, com forte atenuação do realismo como processo literário (que continua como modelo formal, embora atenuado);
2) revisitação de todos os temas fundamentais da história da civilização ocidental através das personagens criadas e, basicamente, da história de Portugal, como se Portugal e a Europa se encontrassem esgotados do seu esforço criador de mundos e tudo fosse necessário repensar, recomeçando uma outra Europa e um outro Portugal;
3) atenuação da observação realista e sobrevalorização subjetiva do comparativismo histórico, dando lugar a textos (romances, crónicas, contos) em que mais se sobrevaloriza a componente ensaística do que a componente descritivista, isto é, textos de fundo e horizonte meta-históricos;
4) No conteúdo romanesco e jornalístico, explícita sensibilidade e um empenhamento activo na valorização do “pobre”, apelando a uma solução política e civilizacional promotora do “pão” e da “casa” para todos.

O conceito que exprime estas quatro características através de uma única designação e um único sentido é o de humanismo – humanismo enquanto filosofia defensora de uma autenticidade humana com intervenção social activa no sentido de generalizar o bem entre os povos sem a submissão a uma escola partidária ou filosófica única. Assim, a ser correcta esta perspectiva, a obra do último Eça, definido pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, classificar-se-ia, sobretudo, como a obra de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, não de uma visão filosófica específica, não de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova sensibilidade aberta às experiências do mundo (como o denotam os volumes das Notas Contemporâneas e das Cartas de Paris) sem as encerrar numa óptica unicitária, tendo delas uma visão supra-histórica, como um observador tão imparcial quanto possível porque dominando todos os tempos e todos os espaços da história humana (ao modo enciclopedismo polímata de Fradique Mendes; ao modo de Jacinto de Paris; ao modo de Gonçalo Mendes Ramires, conhecedor do passado e do presente de sua família, síntese de uma visão de Portugal; ao modo de Cristóvão, que tudo experimenta, desde a mais profunda abjeção à mais intensa glória) – não se deixando ideologicamente enfeitiçar por nenhuma perspetiva particular –, e inclinando sempre esta visão para uma generalização do bem e da riqueza entre os seus concidadãos. Nesta nova sensibilidade, a literatura já não serve uma classe social ou uma ideia prévia, mas, como bem notou António José Saraiva (na esteira de Álvaro Lins e João Gaspar Simões), possui estatuto equivalente ao do ensaio, transfigura-se numa literatura de conhecimento, que busca possibilidades e soluções, que se auto-interroga, problematiza ideias feitas e preconceitos, que desafia os grandes temas civilizacionais (a pobreza e a riqueza, a cidade e o campo, o bem e o mal, o povo e as elites, a santidade e a salvação, o homem e a sua história: as Lendas dos Santos, A Cidade e as Serras e A Correspondência de Fradique Mendes) e procura inquirir, sem uma dogmática prévia, a grandeza e a decadência da história de Portugal (A Ilustre Casa de Ramires). Ensaio porque, para tal tipo de literatura inquiridora, não existe estilo literário acabado e pronto a usar, como o eram o realismo e o naturalismo: “S. Cristóvão” evidencia-se como um ensaio romanceado sobre a procura de salvação, verdadeiramente é uma parábola sobre a impossibilidade de salvação na Terra, como veremos, onde Eça evidencia todas as formas de se ser útil e de se ser bom, de todas concluindo da incapacidade do homem para extirpar o mal do seu coração; A Cidade e as Serras patenteia-se como um ensaio sobre as fases inicial e terminal da nossa civilização, concluindo da impossibilidade de uma existência saudável e humana em qualquer um destes extremos e lançando a hipótese de a felicidade se encontrar num equilíbrio entre a simplicidade rural e o progresso técnico (Jacinto leva o telefone para Tormes e as casas dos caseiros passam a ter janelas de vidro); A Correspondência de Fradique Mendes é um autêntico ensaio epistolar sobre o amor, a religião, o ecletismo de fim de século, o homem antigo e o homem democrata, Portugal…; e A Ilustre Casa de Ramires, cruzando um estilo romântico e um estilo realista, assume-se como um ensaio romanceado sobre as dúvidas e as perplexidades que a existência de Portugal levanta, concluindo-se que a essência contraditória e paradoxal de Portugal é o de ser e não ser simultaneamente: presumir-se rico, mas apiedar-se dos pobres; ser nobre, mas ter uma mentalidade igualitária; ser bondoso e generoso, mas sentir inveja; ser vaidoso, mas ser incapaz de se mostrar superior; ser prestável e útil, mas ter consciência das diferenças sociais.

categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Imperialismo Fascismo Colonialismo Capitalismo

Complô

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições. A luta de libertação dos povos colonizados tornou-se uma das forças motrizes da história contemporânea.

Eu jurei a mim mesmo que tenho de dar a minha vida, toda
a minha energia, toda a minha coragem, toda a capacidade 
que posso ter como homem… ao serviço da causa da 
humanidade, para dar a minha contribuição, na medida do 
possível, para que a vida do homem se torne melhor no 
mundo. Este é o meu trabalho.
” 

Amílcar Cabral


Quando criticamos o capitalismo, não se trata necessariamente de uma crítica à existência de empresas ou à iniciativa privada, mas sim ao modo de produção capitalista “selvagem”. O que significa isso? Significa questionar se uma empresa é realmente fruto do trabalho digno de todos aqueles que fazem parte desse universo. Esta é a grande palavra-chave: trabalho. 

Dizia Karl Marx: “O capital é trabalho morto que, como um vampiro, vive apenas de sugar trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga.” Centenas de milhares de trabalhadores produzem bens em fábricas, mas não conseguem comprar aquilo que produzem. Ainda assim, são eles que geram a riqueza dos proprietários. 

O capitalismo cria a falácia de que, quanto mais se trabalha, mais sorte se tem. Faz-nos acreditar que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual, enquanto molda o nosso comportamento para o superconsumo. O modo de produção capitalista impede que as pessoas cresçam através de um trabalho digno, porque o crescimento está ligado ao poder económico, que muitas vezes ameaça o próprio sistema desenhado pelos capitalistas selvagens, neste caso, os grandes financiadores, através dos seus agentes de influência, como governos ou instituições. 

Em julho deste ano, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional completaram mais de oitenta anos de neocolonialismo financeiro internacional e de imposição de políticas de rigidez e das armadilhas de crédito, fabricando dívidas. Instituições como as de Bretton Woods devem ser abolidas e trocadas por instituições democráticas e representativas. 

Não nascemos todos nas mesmas condições histórico-políticas e económicas. Como dizia Amílcar Cabral: “Um princípio fundamental da nossa luta é que a nossa luta é a luta do nosso povo, e o nosso povo é que tem de fazê-la, e o seu resultado é para o nosso povo.” O contrário disso é aquilo a que podemos chamar capitalismo selvagem: um sistema que divide, controla e mata para obter lucro. 

Expansão colonial, imperialismo, racismo

Como o principal objetivo do capitalismo “selvagem” é o lucro a qualquer custo, tornou-se necessário expandir-se para outros territórios. Assim, a luta contra o imperialismo constitui uma das características essenciais do nosso tempo. O desenvolvimento intensivo do capitalismo, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, aprofundou práticas muito antigas: desde que o ser humano começou a servir mais os seus próprios interesses do que a comunidade. 

Ao pesquisarmos sobre capitalismo, colonialismo, imperialismo e racismo, verificamos que quase todas as sociedades conheceram formas de escravidão. Contudo, na escravatura transatlântica, encontramos três novidades. A primeira foi o apagamento e a alteração dos valores que sustentavam o funcionamento das relações nessas comunidades. A segunda foi a escala industrial do processo: milhares de seres humanos eram embarcados em navios para produzir riqueza para aqueles que financiavam o tráfico. A terceira foi o nascimento do racismo, através de narrativas criadas para justificar mortes e exploração em nome do lucro, algo que perdura até aos dias de hoje. 

O propósito da vida passa a ser ganhar. Esta é a fórmula que nos é oferecida. A partir do momento em que passamos a olhar para o ser humano sob essa perspetiva, estamos a transformá-lo num objeto. E, quando esse objeto não consegue atingir os resultados esperados, surge a opressão sob a forma de sofrimento psicológico e depressão. 

Hoje, este sistema assente no monopólio e na disputa pelas matérias-primas conduziu à repartição do mundo. Fidel Castro lembrava frequentemente que o que estava em causa era a liberdade dos povos contra a tirania do imperialismo norte-americano. 

Voltando um pouco atrás no tempo, vemos como, no século XIX, se realizou a repartição de África entre meia dúzia de potências europeias. Este sistema mostrou sempre duas classes: os dominadores e os dominados; os que podem viver com dignidade e os que são condenados à exclusão; os que entram para a história glorificada e os que são apagados dela. 

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Violência contra os povos africanos

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições. A luta de libertação dos povos colonizados tornou-se uma das forças motrizes da história contemporânea. É nesse conflito, que atravessa vários continentes, que se desenrola grande parte da história do nosso tempo. 

Historicamente, o colonialismo é produto do capitalismo. O modo de atuação permanece: a classe dominante nunca quer abandonar o poder. Quando se sente ameaçada, agarra-se aos seus privilégios e utiliza os meios de comunicação e as instituições para criar narrativas de “dividir para reinar”. Em muitos casos, recorre também à violência direta através das forças policiais, sobretudo nos bairros marginalizados. 

Dizia Frantz Fanon: “O colonialismo não é uma máquina de pensar, não é um corpo dotado de razão. É a violência em estado bruto.” Hoje, financiam-se fações armadas fora dos territórios, exploram-se divisões internas e alimenta-se o terrorismo nos países como República Democrática do Congo, Sudão, Moçambique… Perguntamos: quem são os verdadeiros terroristas: os grupos armados ou os grupos que os financiam? 

“África está cheia de armas ligeiras… Recursos preciosos de África, como o diamante, o ouro e o marfim, servem para introduzir em África muitas armas utilizadas nos conflitos” (Joseph Ki-Zerbo). Esta frase leva a perguntar: por que razão os grupos terroristas se concentram frequentemente em zonas ricas em recursos mineiros? Muitos autores argumentam que interesses económicos e geopolíticos beneficiam, por vezes, da instabilidade, permitindo a exploração e a apropriação das riquezas dos países que possuem esses recursos.  

Por que razão os grupos terroristas se concentram frequentemente em zonas ricas em recursos mineiros?

Atualmente, podemos observar que parte da prosperidade das potências económicas assenta em três pilares: a guerra e a consequente apropriação de recursos em países em conflito; o mercado global das drogas, que provoca inúmeras mortes e sofrimento; e, por fim, a indústria do armamento e os mecanismos de lavagem de dinheiro, que alimentam ciclos de violência e destruição. 

Vivemos num mundo marcado por profundas crises e desigualdades. As guerras geram instabilidade; a instabilidade gera migração; a migração pode provocar choques culturais; esses choques alimentam o descontentamento; o descontentamento conduz à procura de culpados; e essa procura leva frequentemente ao extremismo. Além disso, os migrantes acabam muitas vezes injustamente associados à criminalidade. 

Segundo Steve Biko, o racismo e o capitalismo são faces da mesma moeda. Sempre que o mundo entra em colapso, os mais “frágeis” sofrem primeiro: mulheres, crianças e populações vulneráveis. Hegel falava da dupla opressão das mulheres; perante a realidade contemporânea, poderíamos falar de uma tripla opressão: na família, no trabalho (Estado e propriedade privada) e, num terceiro plano, mais invisível, no apagamento do seu papel na história da humanidade.  

Colonialismo e fascismo

Quando uma ordem social entra em colapso, sectores conservadores tendem a fabricar inimigos visíveis para canalizar o medo e a culpa, criando narrativas destinadas a justificar o autoritarismo. 

O fascismo pode ser visto como um herdeiro do colonialismo, porque estabelece divisões rígidas entre aqueles que têm direitos e aqueles que são tratados como descartáveis, discriminados ou explorados. Tanto o fascismo como o colonialismo recorrem ao apagamento histórico e à criação de narrativas que normalizam a violência. Criticar o capitalismo selvagem não é apenas legítimo; é necessário. A sua história inclui colonialismo, escravatura, guerras de agressão, intervenções arbitrárias e cumplicidades com regimes violentos. O problema começa quando essa história é utilizada como explicação absoluta do presente, impedindo qualquer análise crítica mais equilibrada. 

Paulo Freire dizia que a consciência de classe começa pela capacidade de “ler o mundo”, ou seja, interpretar os mecanismos sociais e económicos que geram desigualdade. Para alcançar um progresso tangível, torna-se importante unir princípios humanistas e movimentos populares, criando formas de organização capazes de responder à seguinte questão: como podem os trabalhadores construir uma sociedade baseada em valores? 

Levar a cabo essa luta implica superar contradições culturais, económicas e políticas, procurando adaptar, unificar e organizar interesses coletivos. Acima de tudo, significa trabalhar junto da comunidade, porque ninguém conhece melhor a realidade do que quem a vive diariamente e se compromete genuinamente com a transformação social. 

Os sistemas de poder procuram fragilizar a família e a comunidade porque sociedades fragmentadas são mais fáceis de controlar. A cultura mediática, a publicidade e determinados discursos contribuiriam para enfraquecer referências familiares e sociais, transformando o indivíduo num sujeito cada vez mais isolado. Como escreveu José Saramago: “O humano é o que temos de preservar e defender em todas as circunstâncias: o capitalismo já sabe que não o fará.” Dizia Amílcar Cabral: “Mantemo-nos vigilantes contra nós mesmos e procuramos, na base do conhecimento concreto das nossas forças e das nossas fraquezas, reforçar aquelas e transformar estas em forças, pelo desenvolvimento constante da nossa consciência revolucionária.”

Quanto mais compreendermos que a principal finalidade dos movimentos de libertação ultrapassa a simples conquista política e se situa na libertação das forças produtivas e na construção do progresso económico, social e cultural dos trabalhadores, mais evidente se torna a necessidade de uma análise crítica da cultura no contexto da luta. Os aspetos negativos da cultura podem tornar se obstáculos ao progresso e à libertação coletiva. Por isso, torna-se essencial mobilizar e organizar os trabalhadores em torno de um projeto internacional de libertação humana.

categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Emídio Navarro Ensino profissional

Onde pára o ensino profissional?

Em 1889, o Estado foi à Europa buscar professores. Em 2026, vai buscar operários.

A 15 de Agosto de 1889, um holandês de 24 anos entrou ao serviço do Estado. Ganhara um concurso aberto na Legação em Berna e três semanas depois ensinava Desenho a operários numa escola industrial em Chaves. Chamava-se Gerard van Krieken. Meu bisavô.

O ensino industrial funcionava desde 1854, mas só em Lisboa e no Porto, e já perdera as oficinas em 1860. Foi António Augusto de Aguiar, por decreto de 1884, que o levou à província: a Covilhã e mais oito escolas de desenho industrial. Mas foi Emídio Navarro quem fez disso uma rede: cinco escolas agrícolas, cinco industriais e nove elementares de desenho industrial.

Navarro não geria fábricas por teoria. A sua personalidade fora moldada pelo trabalho e pelo ensino, tinha vendido sebentas em estudante para pagar os próprios estudos, e sabia, por experiência própria, o que custa chegar a saber fazer alguma coisa sem ter quem pague por si. Não desenhou escolas industriais como quem assina um despacho, desenhou-as como quem se lembra de precisar delas.

Mas faltavam professores. Abriram-se então concursos nas Legações de Roma, Berlim, Bruxelas, Berna, Viena e Paris.

Vieram mais de trinta e cinco.

Vale a pena dizer os nomes, e o que dinamizaram. Não vieram ensinar em abstracto: cada um foi colocado a dar corpo a uma indústria concreta que a cidade já tinha, ou queria ter.

Em Leiria, Ernesto Korrodi chegou com 19 anos, e não se limitou a dar aulas: levantou as ruínas do castelo, assinou perto de 400 projectos ao longo da vida e ganhou dois Prémios Valmor, fazendo da cidade um laboratório de arquitectura aplicada. Ao seu lado, na mesma escola, Nicola Bigaglia, veneziano chegado em 1888 para ensinar Modelação Ornamental, montou em Lisboa a sua própria oficina de carpintaria e marcenaria, onde produzia o mobiliário dos projectos que desenhava, do Teatro D. Amélia em Setúbal a uma dezena de chalés entre Cascais e o Buçaco, provando que um professor de escola industrial também podia ser empresário do que ensinava. Com eles, Giovan Battista Cristofanetti ensinou modelação e cinzelagem, e formou em Braga e em Leiria a geração de artífices que depois trabalhou o estuque e o ornato por meia dúzia de cidades do Norte, um ofício que sem escola própria simplesmente desaparece.

Em Coimbra, Leopoldo Battistini, colocado na Brotero em 1889, ficou 47 anos no país e refundou a cerâmica artística portuguesa na Fábrica Constância, dando a um ofício que se estava a perder uma segunda vida industrial. Charles Lepierre, francês formado em Paris, dinamizou algo ainda mais decisivo: instalou o ensino de química aplicada à indústria, e usou-o para resolver problemas reais do país, análises às águas públicas de Coimbra, estudos sobre o volfrâmio, e trabalho pioneiro para a indústria das conservas de peixe, um dos sectores que Portugal mais exportou na primeira metade do século XX. A par dele, os austríacos Hans Dickel, no desenho de arquitectura, e Emil Jock, na física mecânica e no desenho de máquinas, davam à Brotero uma componente de engenharia aplicada que nenhuma escola da província tinha antes.

No Porto, na Infante D. Henrique, Michelangelo Soá e Vittorio Giuseppe Fiorentini leccionaram lado a lado com Giuseppe Cellini e com o meu bisavô, Gerard van Krieken, formando ali uma escola de desenho e modelação que sustentou décadas de trabalho decorativo na cidade. Van Krieken desenhou os estuques, o mobiliário, o cimento moldado, o vitral da clarabóia e o logótipo da Livraria Lello, remodelou o palacete dos Viscondes de São João da Pesqueira, fez chalés em Alcobaça, e assinou o projecto da Basílica de Fátima, cuja primeira pedra foi benzida a 13 de Maio de 1928. Não ensinava desenho como disciplina abstracta, ensinava-o como ferramenta de produção, e a obra que deixou é a prova.

Em Guimarães, a escolha dos professores segue exactamente a indústria da terra. Martin Braun foi trazido para fiação e tecelagem, para uma cidade que nessa década estava a passar dos teares manuais para os mecânicos, dos três teares de 1884 para os vinte e cinco de 1889, e precisava de gente que soubesse operar e ensinar essa transição, não só de operários, mas de contramestres capazes de formar outros. Paul von Wagner ensinou ornato e Alfred Schwarz, máquinas, cobrindo entre os dois o desenho decorativo e a mecânica que a indústria têxtil do vale do Ave exigia ao mesmo tempo. O suíço Joseph Bielmann, que em 1914 leccionaria com Van Krieken na Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis, fecha o ciclo: mostra que estes professores não ficaram parados na escola onde entraram, circularam entre Guimarães, Porto e Lisboa, levando com eles o que cada cidade lhes tinha ensinado sobre a indústria local.

Nenhum destes homens era funcionário de passagem. Ficaram, casaram, construíram, e alguns estão enterrados cá: Korrodi morreu em Leiria em 1944, Battistini em Lisboa em 1936, Van Krieken no Porto em 1933. Cellini voltou a Itália, e foi por isso que o lugar do Porto abriu para o meu bisavô. Mas quem ficou não veio ocupar um lugar vago, veio dinamizar um sector que a cidade já tinha, e que sem eles ficaria parado no artesanato.

Um país à beira da bancarrota decidiu que a falta de competência técnica era um problema de Estado, e foi comprá-la lá fora para a instalar no sistema de ensino, não nos estaleiros. Importou professores, não mão-de-obra. Só pela Faria Guimarães e a Infante D. Henrique passaram mais de 15 mil alunos até 1910. Construíram o Porto e a Lisboa que hoje vendemos aos turistas.

Em 1975 extinguimos o ensino técnico. As escolas ficaram com os nomes e perderam as oficinas. Hoje: défice de 80 mil profissionais na construção.

E convém dizer quem eram esses alunos. Não eram estudantes: eram operários feitos. Estucadores, marceneiros, tecelões, serralheiros que saíam da fábrica ao fim de dez horas e entravam na escola à noite, aos domingos e dias santos, para aprender desenho, e nas escolas maiores também química, mecânica, tecelagem, modelação, porque perceberam que o desenho e a ciência do ofício eram a diferença entre executar e conceber. Os professores trouxeram o saber; foram estas mãos que o transformaram em cidade. Cada estuque, cada tear mecânico dominado, cada fachada do Porto que hoje fotografamos foi trabalho de um operário que decidiu que o seu ofício merecia estudo. A escola industrial funcionou porque juntou os dois no mesmo nível: o mestre que sabia ensinar e o trabalhador que sabia fazer. Nenhum valia sem o outro.

Em 1975 extinguimos o ensino técnico. As escolas ficaram com os nomes e perderam as oficinas. Foi a segunda vez: as oficinas do ensino industrial já tinham fechado em 1860, reabriram na província com Aguiar e Navarro, e voltaram a fechar 115 anos depois, pelas mesmas razões de sempre, custo e desprestígio do trabalho manual.

O resultado, meio século depois: faltam 80 mil profissionais na construção.

Mas há um erro mais antigo do que o de 1975, e é o que continuamos a cometer hoje.

Sempre que se diz que Portugal precisa de voltar a ter ensino técnico, assume-se que o ensino profissional actual descende das escolas industriais do século XIX. Não descende. São modelos com lógicas opostas, e a confusão entre os dois explica por que investimos em formação sem resolver a falta de profissionais.

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Tutela. As escolas industriais nasceram no Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria. Eram instrumento de política industrial: o ministro que as criou geria estradas e fábricas, e criou escolas porque precisava de gente para as operar. O ensino profissional está na Educação, com uma segunda perna no IEFP. Nenhuma das tutelas responde perante quem precisa dos profissionais.

Currículo. A escola industrial era desenhada em torno da indústria local: a Covilhã para a tinturaria, as Caldas para a cerâmica, Guimarães para os têxteis, o Porto para as artes aplicadas. Hoje o currículo vem do Catálogo Nacional de Qualificações, uniforme. Ganha-se comparabilidade, perde-se ancoragem: o mesmo referencial em Grândola e em Braga, independentemente do que existe à volta.

Oficina. A escola industrial tinha a oficina dentro de portas e produzia trabalho real todos os dias, à noite, para operários que já trabalhavam. O ensino profissional é diurno, para jovens de 15 a 18 anos, com um estágio concentrado no fim. A prática deixou de ser o meio de aprendizagem e passou a ser um módulo.

Quem ensina. É a diferença mais consequente e a menos discutida. A escola industrial contratava mestres pelo domínio do ofício, e por isso o Estado abriu concursos nas Legações de Roma, Berlim, Bruxelas, Berna, Viena e Paris. O critério era a competência, não o diploma. Hoje exige-se habilitação académica e certificação pedagógica: um carpinteiro com trinta anos de oficina não entra numa escola, um licenciado sem obra entra. A regra tornou o mestre inelegível. É por isto que formar formadores não é um chavão, é o estrangulamento real do sistema.

Destino do aluno. A escola industrial era terminal por desenho, e foi esse tecto fechado por lei que a matou em 1975. O ensino profissional corrigiu a injustiça com a dupla certificação, mas passou a ser avaliado pela métrica dos científico-humanísticos, o prosseguimento de estudos. Tornou-se via académica de segunda em vez de via técnica de primeira.

Financiamento. Uma vivia do Orçamento do Estado, na rubrica da indústria. O outro vive de fundos europeus, e a oferta segue os ciclos de financiamento, não a procura industrial.

Os números confirmam o desalinhamento. Em 2022/2023, dos 394.964 alunos do secundário, 61% estavam em científico-humanísticos e 34% em dupla certificação, a meta para 2030 é 55%. Na construção, onde faltam 80 mil profissionais e mais de 85% das empresas apontam a mão-de-obra como o seu maior constrangimento, o directório da ANESPO lista três escolas na área. Já não é o cimento que encarece a casa, é a ausência de quem a saiba montar.

E convém medir o que está em jogo, porque não é só um problema, é a maior oportunidade económica do país. Faltam 300 mil casas, diz o Banco de Portugal, o equivalente a todo o parque habitacional de Lisboa e mais do dobro do Porto. A 100 a 150 mil euros por casa, são 30 a 45 mil milhões de euros de actividade económica, entre 10 e 15 por cento do PIB, distribuídos por uma década. Não é despesa, é criação de riqueza que se espalha por toda a cadeia: serrações e fábricas de materiais, carpintarias e caixilharias, transportes e logística, projecto e engenharia, cozinhas, mobiliário, comércio local em cada terra onde se constrói. Só em IVA e contribuições, o Estado recuperaria uma parte substancial do que investisse em formação. E cada posto de trabalho directo na construção sustenta outros na indústria e nos serviços à sua volta.

É esta a prospectiva que devia estar em cima da mesa: 300 mil casas não são um buraco, são uma encomenda. A maior encomenda que a economia portuguesa tem à sua frente, e a única que não depende de mercados externos, porque a procura está cá, à porta, a pagar rendas impossíveis. O que falta não é procura, nem capital, nem terreno. Falta quem saiba fazer e um Estado que perceba que formar 80 mil profissionais não é política social, é a chave de 45 mil milhões de euros de actividade. Navarro percebeu isto em 1889 com muito menos dados: a escola não era despesa de educação, era o motor da indústria.

Enquanto isto, o Ministério das Infraestruturas geriu a política da construção durante dois anos sem tocar nesta raiz: a meta de 26 mil casas do PRR foi revista para 20.209 com subvenção, e menos de 10% foram entregues em 2025. Da CNA, 21.162 fogos contratados, 1950 casas entregues. Como resposta à escassez, um pacto assente em trabalho imigrante, enquanto a nova lei de estrangeiros, diz a AICCOPN, agravou a morosidade. Em formação, a única medida estrutural do ano foi fundir o CENFIC no CICCOPN. Navarro criou dezanove escolas em três anos. Nós fundimos dois centros e chamámos-lhe reforço.

Aguiar era regenerador, Navarro progressista. Adversários políticos, e um continuou a obra do outro sem a desfazer. Navarro fez o que só fazem os políticos de visão: gastou capital político em obra cujos frutos sabia que nunca veria, escolas para operários que não votavam nele, professores estrangeiros que a imprensa da época lhe censurou. Governou para o país que existiria trinta anos depois. Não é questão partidária, o executivo anterior do PS não fez melhor do que este do PSD. É ter horizonte, ou falta dele. Navarro pensou para décadas além do seu mandato. Hoje legisla-se para o próximo relatório de execução, e mede-se uma via técnica com uma régua académica.

O que faria um Navarro em 2026:

  1. Plano nacional de qualificação com metas publicadas, fora da lógica do currículo único;
  2. Oficinas reabertas junto de fábricas reais, em modelo dual, com tutela partilhada por quem precisa dos profissionais;
  3. Formar formadores, abrir a porta a quem domina o ofício sem diploma académico, e pagar ao mestre como se paga a quem sabe: a carreira técnica tem de valer tanto como a académica;
  4. Ir outra vez à Europa buscar competência em construção industrializada em madeira, para ensinar e não para montar;
  5. Encomenda pública que premeie a pré-fabricação.

Van Krieken chegou a Chaves porque um ministro decidiu ir buscá-lo, e porque havia uma escola para o receber, com oficina, com currículo ancorado, com um mestre que sabia mais do que os livros.

Quem é que este Governo foi buscar, e para que escola?

categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Inteligência Artificial Escola Universidade

O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista

As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade.

COLUNA VERTEBRAL

Não é preciso recordar uma das grandes teses de Hanna Arendt expostas nesse livro fundamental, A Condição Humana, em cujas páginas perpassa, luminosa e profética, a ideia de que o progresso humano, assente na tecnologia, é um logro. Entre as duas vias – a da contemplação e a da actividade –, Arendt não tem dúvidas: o homem tem jogado o seu destino no conflito entre Marta e Maria, essas duas vias onde o espírito ou se dissolve, ou renasce. A única hipótese de salvação, diz Arendt, na senda de seu mestre Heidegger, é o regresso à “língua de tradição”, essa mesma que se opõe à “língua técnica”. Para simplificar, direi: ou a formatação em curso – desde a formação dos professores às práticas docentes tidas por inovadoras e muito sedutoras – vencerá a classe docente, ou os professores, de forma consciente e corajosa, compreendem que no campo da educação, tão importante quanto a dignificação salarial, é a visão contemplativa, isto é, a via do intelecto. Não há, na verdade, educação democrática se tudo obedece aos mesmos modelos e concepções de ensino e aprendizagem. Não há sequer democracia que resista se é nas escolas e nas universidades que as crianças, os adolescentes e os jovens adultos apenas aprendem a fazer operações meramente instrumentais, visando o resultado, a nota, mas não o saber. Tudo isto é ainda mais relevante quando, por um lado, crescem no mundo forças de ideologia nazi-fascista, ou de natureza totalitária, as quais, com o imenso poder financeiro e económico dos grandes mamutes digitais, pretendem explorar o mercado de trabalho e, fundamentalmente, mecanizá-lo e desumanizá-lo; mais grave porque, por outro lado, a educação está a servir de laboratório para essa política vampiresca em que as relações humanas se irão diluir, substituídas pelas máquinas dos algoritmos da eficácia. 

No caso de Portugal, país onde as diversas iliteracias atingem números elevadíssimos, onde a leitura de textos complexos é deficiente e cerca de sete em cada dez portugueses não entende senão mensagens simples, com apenas um ou dois verbos, onde os exames nacionais, depois de duas décadas de facilitismo nefando, caminham agora para a digitalização das avaliações, tudo isto tem proporções de hecatombe cultural. Claro que este governo e mesmo outros anteriores, tudo vendo sob a óptica do mais pobre progressismo, não pensou, não discutiu, não se aconselhou com os professores e com os que estudam o impacto negativo da IA no campo da educação. Não bastam os livros e os artigos, os ensaios e as provas reais de que a IA é inimiga do pensamento e da sensibilidade para que o ministro da Educação recue. Nem mesmo as advertências do papa Leão XIV na sua recente encíclica servem de aviso. Os políticos que o povo elegeu deturpam o poder e as políticas ao serviço desses eleitores. Depois de eleitos, a agenda que vence é a dos interesses privados e, no caso vertente, a agenda dos grandes grupos empresariais do digital que vêem na IA a arma que lhes faltava para dominarem o mercado do trabalho e, na origem, a educação. 

A educação está a servir de laboratório para essa política vampiresca em que as relações humanas se irão diluir, substituídas pelas máquinas dos algoritmos da eficácia.

Eis a razão, ou as razões, pelas quais em Portugal está praticamente tudo errado no que respeita às políticas educativas. Errada a ideia do “aprender a aprender”, que mais não foi do que mascarar de autonomia a aquisição de saberes, a qual não existe nem se consolida se o professor nada conta nesse processo. Errada a ideia de “rigor e excelência”, se desde a formação de professores nas universidades, passando pelas passagens de escalão em função de acções de formação – o mais das vezes absolutamente inúteis e secantes para os que são obrigados a fazê-las para passarem de escalão –, tudo se avalia não a partir do rigor (não pode haver onde nem sequer há, nas formações, bibliografia de referência e matérias verdadeiramente úteis e urgentes para o ensino das mais diversas disciplinas), nem, muito menos, a partir da excelência. Neste particular, o da “excelência”, é deplorável que ela passe por questões subjectivas: as classificações de “Excelente” dadas pelas escolas estão reservadas a um numerus clausus. Se o avaliado não for simpático para quem o avalia, pode nem mesmo ter uma classificação de “Muito Bom”, pois que neste reino da estupidez educativa, o “rigor e a excelência” – que nasceu quando do império de Maria de Lourdes Rodrigues – mais não são do que o princípio da arbitrariedade total. Que tem tudo isto que ver com a IA? Tudo. Façamos problema, como disse o Padre António Vieira. 

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Se antes da IA na educação a fraude no ensino-aprendizagem sempre existiu, com a IA, num país que não lê – muitos professores e a maioria dos estudantes -, que se espera que aconteça? O ChatGPT faz os trabalhos pelos alunos. Mas também fará o trabalho que compete aos professores. Como quem decide progressões e avaliações tem mentalidade gestora (sofre de uma doença incurável: o ódio ao livro, à memória, ao intelecto, ao saber rigoroso porque nascido de leituras), esse director ou directora irão privilegiar sempre os docentes adeptos do “progresso” e da “inovação”. A escola portuguesa, com as gerações de professores mais recentes já formatadas na ideologia oca do digital, transformar-se-á em sistema de certificação online de diplomas. O mesmo na universidade. Vence o técnico, o formador, não o professor que, com livros e sedutor e culto nas suas aulas, se entrega à arte de Comenius: fazer pensar e fazer sentir. E fazer isso com base num “saber de leituras feito”. Esse professor é detestado pelos colegas de profissão que nele vêem a extensão do que desconhecem. Num país que teve quase trezentos anos de Inquisição, sonha-se com um auto-de-fé onde o intelectual arda e arda bem!

Que tem tudo isto que ver com a IA, com o fim da democracia e da escola que quereremos que seja democrática e lugar de saber? Tudo. As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade. Falsificação de resultados, trabalhos feitos por plataformas digitais, professores transformados em formadores de centrais digitais onde crianças, adolescentes e jovens adultos aprendem a teclar, mas deixam de saber escrever, de saber pensar e de saber sentir, a IA promete-vos o paraíso. Sucede que é o paraíso do admirável mundo nojo: todos iguais, brutalizados, estúpidos e inimigos da liberdade. Eis a escola do futuro. Ah! E o professor que pensa e sente e tem memória e lê e comunica com magia? Esse já estava num verso de Cesário: o seu “velho professor das aulas de Latim”, pedindo esmola na rua. 

categoria-cultura edicao-2026-09-03 (39) Odisseia Nolan Homero Guerra

A Odisseia de Nolan: do herói homérico ao anti-herói pós-moderno

A Odisseia é uma das principais epopeias da literatura grega antiga e uma das obras literárias mais antigas que sobreviveram. É atribuída a Homero, que teria vivido no século VIII antes da era corrente (AEC) e, tal como a Ilíada, centra-se nos acontecimentos associados a uma guerra, a de Troia, que terá ocorrido no século XIII ou início do século XII AEC, portanto há mais de 3000 anos. O realizador britânico Christopher Nolan, autor de filmes como a série dos Batman, Dunkirk ou Oppenheimer, realizou uma adaptação da Odisseia que tem levado multidões ao cinema neste verão de 2026 – e atraído também imensas críticas. O Maio publica, pela sua relevância, este texto de Andrés Ávila, da revista chilena El Porteño, para quem Nolan subverte completamente o sentido do poema. Isso “começa quando o filme coloca a culpa no centro da identidade do protagonista. Em Homero, a culpa constitui uma experiência que o herói deve viver e integrar; nunca o que o define. Na adaptação ocorre exatamente o contrário. A culpa deixa de ser uma dimensão da existência e passa a ser a essência do personagem. A partir desse momento, a viagem deixa de conduzir à autorrealização e passa a conduzir à negação de si próprio.”

Décadas mais tarde, os departamentos de economia universitários defendiam a existência de um “Homo economicus”. O Homo economicus representa o ser humano ideal, alguém que age de forma puramente racional, egoísta e focado em maximizar os seus próprios benefícios; isto é, alguém que calcula perfeitamente o custo-benefício de cada escolha. Todavia, o Prémio Nobel de Economia de 1978, Herbert Simon, apresentou o conceito de “racionalidade limitada” para caracterizar a essência da humanidade. Na mesma linha de raciocínio, a “economia comportamental”, popularizada por um autor recentemente falecido, Daniel Kahneman (cujo trabalho é admirável), provou que as decisões humanas são frequentemente influenciadas por emoções, sentimentos, vieses cognitivos, heurísticas e impulsos sociais, afastando-se inúmeras vezes do comportamento puramente mecânico, lógico, matemático e “racional”. Na prática, o Homo economicus não existe, é pura ilusão ou fantasia. É um “ser” utópico! É importante compreender que as pessoas agem repetidamente contra os seus próprios interesses: bebem demais, consomem drogas, fumam dois maços de tabaco por dia, entram em relações amorosas que as vão destruir, promovem conflitos que não têm condições de vencer, praticam a automutilação, mentem para si próprias sabendo que isso vai fazer que adoeçam, etc. A lista de situações que contraria o Homo economicus é quase infinita. Se a humanidade vivesse no paraíso, simplesmente iria destruí-lo, por puro tédio. A perfeição é insuportável para a natureza humana.

Os mentores do Homo economicus nunca leram, verdadeiramente, Dostoievski. Ele teria ridicularizado essa perspetiva sobre a humanidade. O “homem do subsolo”, muitas vezes, prefere agir contra os seus próprios interesses (regra geral, de forma destrutiva ou irracional) apenas para provar que tem livre-arbítrio, que tem autonomia, que tem poder de decisão, dado que ele não é “uma tecla de piano”, sem vontade própria. O “homem do subsolo” recusa a ideia de que a ciência e a lógica possam resolver todos os problemas humanos. Para os racionalistas 2+2 é igual a 4, mas para o homem do subsolo, 2+2 pode ser igual a 5. Isso não é ignorância, é uma fuga às convenções. Aliás, ele vai mais longe, quando afirma que “demasiada consciência é uma doença, uma verdadeira doença”!

O narrador também argumenta que o ser humano não quer ser uma simples peça na “engrenagem de um relógio”, quer ser livre. Porém, é essa mesma liberdade que o destrói. Afinal, a possibilidade/liberdade de escolha pode transformar-se num fardo demasiado pesado. Numa outra obra de Dostoievski, Os Irmãos Karamázov, o autor russo, através da voz do “grande inquisidor”, afirma que o homem não quer liberdade, quer pão! Essa ideia seria castradora para o homem do subsolo. É importante mencionar que, por vezes, a voz do “subsolo” vive dentro daquilo que é mais íntimo em cada um de nós. A nossa autoimagem fica abalada quando somos confrontados com os pensamentos do homem do subsolo. Por vezes, ele representa o espelho que nós nos recusamos a encarar, porque a imagem refletida pode ser tenebrosa.

O sociólogo contemporâneo que mais admiro, Pierre Bourdieu, defendeu que o Homo economicus está morto. Quase na mesma linha de pensamento, Friedrich Nietzsche afirmou (noutro contexto) que Deus está morto. Incluí Nietzsche no debate sobre a obra de Dostoievski porque, num determinado momento, o filosofo alemão afirmou que o escritor russo foi o único que lhe ensinou alguma coisa sobre psicologia, dado que consegue mergulhar com profundidade na complexidade da alma humana. Adentra-se no abismo da nossa consciência. É importante lembrar que Nietzsche raramente fazia elogios intelectuais a alguém. Dostoievski foi dos poucos a ter esse privilégio! Mas os elogios à obra de Dostoievski vieram de inúmeros quadrantes intelectuais. Certa vez, Liev Tolstoi disse: se virem Dostoievski, digam-lhe que o amo. Porém, eu quero perguntar: como não amar Dostoievski, após o enorme legado que nos deixou?

O livro Memórias do Subterrâneo está dividido em duas partes e funciona como uma espécie de diário do protagonista. Fiódor Dostoievski escreveu esta obra várias décadas antes de “nascer” o existencialismo de Sartre ou o absurdismo de Camus. Estas correntes filosóficas preconizam que o ser humano não nasce com um destino ou propósito pré-definido; aliás, Sartre afirma que “a existência precede a essência”. Numa outra obra impactante, O homem em busca de um sentido, de Viktor Frankl, o autor defende que o ser humano sem propósito já terá perecido antes mesmo de a morte física chegar. Não será essa a verdadeira condição do protagonista de Memórias do Subterrâneo? Contudo, as obras destes três autores (Sartre, Camus e Frankl) incluem recorrentemente fragmentos do “homem do subsolo”.

Na primeira parte do livro, o homem do subsolo tem 40 anos e afirma preferir viver num galinheiro a suportar os constrangimentos de habitar num “palácio de cristal”. O palácio de cristal representa a alegada perfeição do mundo que o homem do subsolo despreza. A humanidade precisa de caos e de sofrimento para existir, para se sentir viva. O homem do subsolo é um ex-funcionário público (aposentado) que recebeu uma pequena herança, vive na cidade de São Petersburgo e escolheu estar isolado da sociedade. Esta primeira parte é um magistral monólogo filosófico. Por vezes, o protagonista conversa sozinho, discute com o leitor, contradiz-se, insulta o leitor, pede desculpa e, depois, afirma que o pedido de desculpas era falso. Esta é a essência do “homem do subsolo”. Ele fica a remoer as ideias permanentemente, tem ódio de si próprio por não conseguir agir, mas depois acaba por se defender na frase seguinte e remata com o argumento de que odeia tudo e todos. O narrador é um homem rancoroso, amargo, mesquinho, paradoxal, cheio de ressentimentos e incapaz de estabelecer qualquer relação “saudável” com os outros. Obviamente que o “subsolo” não é um lugar físico, é algo interno, dentro dele, mas que nos obriga também a entrar dentro do nosso lado sombrio. Ele diz abertamente aquilo que qualquer um de nós teria terror simplesmente de pensar. É por isso que o livro é tão perturbador.

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Na segunda parte, são narrados alguns episódios da vida do protagonista, quando ele tinha pouco mais de vinte anos. Nesta parte do livro, o homem do subsolo tenta demostrar como a sua “filosofia” se aplica na prática (e o resultado é doloroso para o leitor). Ele relata alguns episódios da sua vida, mas há três que são os principais: o embate com o oficial, o jantar com os ex-colegas de escola e o encontro com Liza (uma jovem prostituta que ele conheceu num bordel).

No primeiro episódio, o nosso protagonista, ao caminhar na rua, leva um encontrão casual de um oficial desconhecido. Fica ofendido e sente-se humilhado; por isso, planeia de forma minuciosa uma “vingança” que consiste simplesmente em não se desviar dele, num próximo encontro, apenas para não se sentir diminuído. Fica cerca de dois anos a planear o reencontro. Inclusive, pede dinheiro emprestado para comprar uma “roupa decente”, de modo a estar apresentável no dia em pretende devolver o encontrão. Tudo isto parece caricato, mas esta é a natureza humana quando o nosso comportamento é moldado pelas “energias” vindas dos porões do nosso subconsciente.

A segunda história é narrada pelo jovem protagonista quando o próprio se autoconvida para um jantar de despedida de um antigo colega de escola. Ele passa a noite inteira a insultar os ex-colegas, alternando entre sentimentos de superioridade intelectual e de humilhação profunda. Ninguém quer que ele vá ao jantar (nem ele próprio quer ir), mas, obviamente, acaba por marcar presença. Na maior parte do tempo é ignorado ou humilhado pelos demais. O homem do subsolo está alcoolizado e fica ainda mais desagradável.

Este jantar acaba por contextualizar o terceiro episódio, ou seja, após o jantar fracassado, ele vai a um bordel (para tirar desforro dos ex-colegas) e conhece Liza. Num momento de aparente empatia, o jovem homem do subsolo faz um discurso comovente sobre a miséria da vida dela, tenta convencê-la a mudar de vida (oferecendo-se como seu protetor) e disponibiliza-lhe o seu endereço. Depois, descreve com maldade como ela iria adoecer, envelhecer e morrer sem ninguém. Quando, alguns dias mais tarde, Liza o vai visitar no seu quarto miserável, ele (que nesse momento estava a discutir com o seu criado) sente-se exposto e humilhado pela sua própria pobreza. Em vez de acolhê-la, resolve insultá-la e rejeita-a com profunda crueldade. Liza vai embora, deixando em cima da mesa o dinheiro que ele tentou usar para a humilhar (o que elimina qualquer tipo de conexão verdadeira). Nesta ação Liza tem alguma nobreza de carácter, mas é vinda de alguém que ele considerava inferior, por isso o protagonista fica submerso em raiva, aumentando o seu isolamento. Depois disso, nunca mais se voltam a encontrar. Em parte, a sua amargura terá vindo daqui. Ele rejeitou qualquer possibilidade de ligação afetiva ou satisfação, por mera falta de compaixão.

Às vezes agimos contra nós próprios, contra o nosso próprio bem. Escolhemos sofrer, talvez por hábito, apenas para provar que somos livres, que temos vontade própria. Isso é absolutamente desconcertante, mas real.

Volto a sublinhar que o homem do subsolo demonstra que às vezes agimos contra nós próprios, contra o nosso próprio bem. Escolhemos sofrer, talvez por hábito, apenas para provar que somos livres, que temos vontade própria. Isso é absolutamente desconcertante, mas real. Podemos não o fazer de forma consciente, mas fazemo-lo! O ser humano é contraditório, é capaz de agir contra a sua própria felicidade, só para sentir que tem o poder de decidir. Talvez a maior crueldade na vida do homem do subsolo seja, justamente, a necessidade de viver intensamente aquilo que o fere e o faz sofrer.

O “homem do subsolo” mostra uma imagem aterradora e desconfortável da natureza humana, mas é demasiado honesta para que possa ser ignorada. O protagonista revela o lado mais sombrio da nossa essência, cheia de ressentimento, orgulho, raiva, rancor, ódio e, principalmente, a capacidade para se autoanular e autodestruir. Essa é a essência do “homem do subsolo” e, em certas situações, de nós mesmos. O livro não oferece respostas finais, não é um manual pronto, é algo para nos “despir”, para nos deixar “transparentes”, muito além daquilo que gostaríamos de ver e de mostrar.

Aqui fica o início do livro para despertar a vossa curiosidade de leitura:

“Eu sou um homem doente… Sou um homem mau. Sou um homem nada atraente. Penso que sofro do fígado. Aliás, não percebo patavina da minha doença nem sei ao certo de que é que sofro. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Além do mais, sou supersticioso em extremo; bem, o suficiente, ao menos, para respeitar a medicina. Tenho instrução bastante para não ser supersticioso, mas sou supersticioso. É por maldade que não me quero tratar. Isto é uma coisa que vocês, leitores, por certo não podem compreender. Pois, mas eu compreendo. É evidente que não sou capaz de explicar a quem prejudico neste caso com a minha maldade; sei muito bem que nem aos médicos posso ‘lixar’, de maneira nenhuma, ao recusar deixar-me tratar por eles; sei, melhor do que qualquer pessoa, que com tudo isso só me prejudico a mim mesmo e a mais ninguém. Mas mesmo assim, se não me trato, é por maldade. Dói-me o fígado, pois deixá-lo doer e que doa ainda mais!”
categoria-cultura Dostoievki Razão Sofrimento edicao-2026-09-03 (39)

Dostoievski: a dor de uma alma atormentada no subsolo

Há algum tempo li um dos livros mais perturbadores da minha vida: Memórias do Subterrâneo (ou Memórias do Subsolo, ou ainda Cadernos do Subterrâneo, dependendo da edição), de Fiódor Dostoievski, publicado em 1864. O protagonista é um personagem sem nome que vive atormentado dentro dos seus pensamentos obsessivos e não consegue parar de se autoanalisar. É um homem demasiado inteligente, mas tão agarrado ao hábito do sofrer que se torna incapaz de tomar decisões benéficas para si próprio. O sofrimento ao qual ele se condena, talvez por ser demasiado familiar, tornou-se parte da própria identidade. Neste livro, Dostoievski faz uma crítica profunda ao “racionalismo” que emergia na Rússia da sua época.

Décadas mais tarde, os departamentos de economia universitários defendiam a existência de um “Homo economicus”. O Homo economicus representa o ser humano ideal, alguém que age de forma puramente racional, egoísta e focado em maximizar os seus próprios benefícios; isto é, alguém que calcula perfeitamente o custo-benefício de cada escolha. Todavia, o Prémio Nobel de Economia de 1978, Herbert Simon, apresentou o conceito de “racionalidade limitada” para caracterizar a essência da humanidade. Na mesma linha de raciocínio, a “economia comportamental”, popularizada por um autor recentemente falecido, Daniel Kahneman (cujo trabalho é admirável), provou que as decisões humanas são frequentemente influenciadas por emoções, sentimentos, vieses cognitivos, heurísticas e impulsos sociais, afastando-se inúmeras vezes do comportamento puramente mecânico, lógico, matemático e “racional”. Na prática, o Homo economicus não existe, é pura ilusão ou fantasia. É um “ser” utópico! É importante compreender que as pessoas agem repetidamente contra os seus próprios interesses: bebem demais, consomem drogas, fumam dois maços de tabaco por dia, entram em relações amorosas que as vão destruir, promovem conflitos que não têm condições de vencer, praticam a automutilação, mentem para si próprias sabendo que isso vai fazer que adoeçam, etc. A lista de situações que contraria o Homo economicus é quase infinita. Se a humanidade vivesse no paraíso, simplesmente iria destruí-lo, por puro tédio. A perfeição é insuportável para a natureza humana.

Os mentores do Homo economicus nunca leram, verdadeiramente, Dostoievski. Ele teria ridicularizado essa perspetiva sobre a humanidade. O “homem do subsolo”, muitas vezes, prefere agir contra os seus próprios interesses (regra geral, de forma destrutiva ou irracional) apenas para provar que tem livre-arbítrio, que tem autonomia, que tem poder de decisão, dado que ele não é “uma tecla de piano”, sem vontade própria. O “homem do subsolo” recusa a ideia de que a ciência e a lógica possam resolver todos os problemas humanos. Para os racionalistas 2+2 é igual a 4, mas para o homem do subsolo, 2+2 pode ser igual a 5. Isso não é ignorância, é uma fuga às convenções. Aliás, ele vai mais longe, quando afirma que “demasiada consciência é uma doença, uma verdadeira doença”!

O narrador também argumenta que o ser humano não quer ser uma simples peça na “engrenagem de um relógio”, quer ser livre. Porém, é essa mesma liberdade que o destrói. Afinal, a possibilidade/liberdade de escolha pode transformar-se num fardo demasiado pesado. Numa outra obra de Dostoievski, Os Irmãos Karamázov, o autor russo, através da voz do “grande inquisidor”, afirma que o homem não quer liberdade, quer pão! Essa ideia seria castradora para o homem do subsolo. É importante mencionar que, por vezes, a voz do “subsolo” vive dentro daquilo que é mais íntimo em cada um de nós. A nossa autoimagem fica abalada quando somos confrontados com os pensamentos do homem do subsolo. Por vezes, ele representa o espelho que nós nos recusamos a encarar, porque a imagem refletida pode ser tenebrosa.

O sociólogo contemporâneo que mais admiro, Pierre Bourdieu, defendeu que o Homo economicus está morto. Quase na mesma linha de pensamento, Friedrich Nietzsche afirmou (noutro contexto) que Deus está morto. Incluí Nietzsche no debate sobre a obra de Dostoievski porque, num determinado momento, o filosofo alemão afirmou que o escritor russo foi o único que lhe ensinou alguma coisa sobre psicologia, dado que consegue mergulhar com profundidade na complexidade da alma humana. Adentra-se no abismo da nossa consciência. É importante lembrar que Nietzsche raramente fazia elogios intelectuais a alguém. Dostoievski foi dos poucos a ter esse privilégio! Mas os elogios à obra de Dostoievski vieram de inúmeros quadrantes intelectuais. Certa vez, Liev Tolstoi disse: se virem Dostoievski, digam-lhe que o amo. Porém, eu quero perguntar: como não amar Dostoievski, após o enorme legado que nos deixou?

O livro Memórias do Subterrâneo está dividido em duas partes e funciona como uma espécie de diário do protagonista. Fiódor Dostoievski escreveu esta obra várias décadas antes de “nascer” o existencialismo de Sartre ou o absurdismo de Camus. Estas correntes filosóficas preconizam que o ser humano não nasce com um destino ou propósito pré-definido; aliás, Sartre afirma que “a existência precede a essência”. Numa outra obra impactante, O homem em busca de um sentido, de Viktor Frankl, o autor defende que o ser humano sem propósito já terá perecido antes mesmo de a morte física chegar. Não será essa a verdadeira condição do protagonista de Memórias do Subterrâneo? Contudo, as obras destes três autores (Sartre, Camus e Frankl) incluem recorrentemente fragmentos do “homem do subsolo”.

Na primeira parte do livro, o homem do subsolo tem 40 anos e afirma preferir viver num galinheiro a suportar os constrangimentos de habitar num “palácio de cristal”. O palácio de cristal representa a alegada perfeição do mundo que o homem do subsolo despreza. A humanidade precisa de caos e de sofrimento para existir, para se sentir viva. O homem do subsolo é um ex-funcionário público (aposentado) que recebeu uma pequena herança, vive na cidade de São Petersburgo e escolheu estar isolado da sociedade. Esta primeira parte é um magistral monólogo filosófico. Por vezes, o protagonista conversa sozinho, discute com o leitor, contradiz-se, insulta o leitor, pede desculpa e, depois, afirma que o pedido de desculpas era falso. Esta é a essência do “homem do subsolo”. Ele fica a remoer as ideias permanentemente, tem ódio de si próprio por não conseguir agir, mas depois acaba por se defender na frase seguinte e remata com o argumento de que odeia tudo e todos. O narrador é um homem rancoroso, amargo, mesquinho, paradoxal, cheio de ressentimentos e incapaz de estabelecer qualquer relação “saudável” com os outros. Obviamente que o “subsolo” não é um lugar físico, é algo interno, dentro dele, mas que nos obriga também a entrar dentro do nosso lado sombrio. Ele diz abertamente aquilo que qualquer um de nós teria terror simplesmente de pensar. É por isso que o livro é tão perturbador.

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Na segunda parte, são narrados alguns episódios da vida do protagonista, quando ele tinha pouco mais de vinte anos. Nesta parte do livro, o homem do subsolo tenta demostrar como a sua “filosofia” se aplica na prática (e o resultado é doloroso para o leitor). Ele relata alguns episódios da sua vida, mas há três que são os principais: o embate com o oficial, o jantar com os ex-colegas de escola e o encontro com Liza (uma jovem prostituta que ele conheceu num bordel).

No primeiro episódio, o nosso protagonista, ao caminhar na rua, leva um encontrão casual de um oficial desconhecido. Fica ofendido e sente-se humilhado; por isso, planeia de forma minuciosa uma “vingança” que consiste simplesmente em não se desviar dele, num próximo encontro, apenas para não se sentir diminuído. Fica cerca de dois anos a planear o reencontro. Inclusive, pede dinheiro emprestado para comprar uma “roupa decente”, de modo a estar apresentável no dia em pretende devolver o encontrão. Tudo isto parece caricato, mas esta é a natureza humana quando o nosso comportamento é moldado pelas “energias” vindas dos porões do nosso subconsciente.

A segunda história é narrada pelo jovem protagonista quando o próprio se autoconvida para um jantar de despedida de um antigo colega de escola. Ele passa a noite inteira a insultar os ex-colegas, alternando entre sentimentos de superioridade intelectual e de humilhação profunda. Ninguém quer que ele vá ao jantar (nem ele próprio quer ir), mas, obviamente, acaba por marcar presença. Na maior parte do tempo é ignorado ou humilhado pelos demais. O homem do subsolo está alcoolizado e fica ainda mais desagradável.

Este jantar acaba por contextualizar o terceiro episódio, ou seja, após o jantar fracassado, ele vai a um bordel (para tirar desforro dos ex-colegas) e conhece Liza. Num momento de aparente empatia, o jovem homem do subsolo faz um discurso comovente sobre a miséria da vida dela, tenta convencê-la a mudar de vida (oferecendo-se como seu protetor) e disponibiliza-lhe o seu endereço. Depois, descreve com maldade como ela iria adoecer, envelhecer e morrer sem ninguém. Quando, alguns dias mais tarde, Liza o vai visitar no seu quarto miserável, ele (que nesse momento estava a discutir com o seu criado) sente-se exposto e humilhado pela sua própria pobreza. Em vez de acolhê-la, resolve insultá-la e rejeita-a com profunda crueldade. Liza vai embora, deixando em cima da mesa o dinheiro que ele tentou usar para a humilhar (o que elimina qualquer tipo de conexão verdadeira). Nesta ação Liza tem alguma nobreza de carácter, mas é vinda de alguém que ele considerava inferior, por isso o protagonista fica submerso em raiva, aumentando o seu isolamento. Depois disso, nunca mais se voltam a encontrar. Em parte, a sua amargura terá vindo daqui. Ele rejeitou qualquer possibilidade de ligação afetiva ou satisfação, por mera falta de compaixão.

Às vezes agimos contra nós próprios, contra o nosso próprio bem. Escolhemos sofrer, talvez por hábito, apenas para provar que somos livres, que temos vontade própria. Isso é absolutamente desconcertante, mas real.

Volto a sublinhar que o homem do subsolo demonstra que às vezes agimos contra nós próprios, contra o nosso próprio bem. Escolhemos sofrer, talvez por hábito, apenas para provar que somos livres, que temos vontade própria. Isso é absolutamente desconcertante, mas real. Podemos não o fazer de forma consciente, mas fazemo-lo! O ser humano é contraditório, é capaz de agir contra a sua própria felicidade, só para sentir que tem o poder de decidir. Talvez a maior crueldade na vida do homem do subsolo seja, justamente, a necessidade de viver intensamente aquilo que o fere e o faz sofrer.

O “homem do subsolo” mostra uma imagem aterradora e desconfortável da natureza humana, mas é demasiado honesta para que possa ser ignorada. O protagonista revela o lado mais sombrio da nossa essência, cheia de ressentimento, orgulho, raiva, rancor, ódio e, principalmente, a capacidade para se autoanular e autodestruir. Essa é a essência do “homem do subsolo” e, em certas situações, de nós mesmos. O livro não oferece respostas finais, não é um manual pronto, é algo para nos “despir”, para nos deixar “transparentes”, muito além daquilo que gostaríamos de ver e de mostrar.

Aqui fica o início do livro para despertar a vossa curiosidade de leitura:

“Eu sou um homem doente… Sou um homem mau. Sou um homem nada atraente. Penso que sofro do fígado. Aliás, não percebo patavina da minha doença nem sei ao certo de que é que sofro. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Além do mais, sou supersticioso em extremo; bem, o suficiente, ao menos, para respeitar a medicina. Tenho instrução bastante para não ser supersticioso, mas sou supersticioso. É por maldade que não me quero tratar. Isto é uma coisa que vocês, leitores, por certo não podem compreender. Pois, mas eu compreendo. É evidente que não sou capaz de explicar a quem prejudico neste caso com a minha maldade; sei muito bem que nem aos médicos posso ‘lixar’, de maneira nenhuma, ao recusar deixar-me tratar por eles; sei, melhor do que qualquer pessoa, que com tudo isso só me prejudico a mim mesmo e a mais ninguém. Mas mesmo assim, se não me trato, é por maldade. Dói-me o fígado, pois deixá-lo doer e que doa ainda mais!”
categoria-economia Teoria da crise Marxismo edicao-2026-09-03 (39)

Uma teoria marxista da crise no mundo contemporâneo

“Há todos os motivos para esperar outra recessão antes do final desta década. O rastilho pode ser aceso por um novo colapso financeiro, como em 2008. Desta vez, o estouro pode não ter início nos bancos, mas ser provocado pelo aumento da dívida das empresas e pelo custo do serviço dessa dívida.” Eis uma grande entrevista com o economista Michael Roberts publicada em chinês pela Academia Chinesa de Ciências Sociais em 2025. Traduzimo-la da versão inglesa, publicada na revista World Socialist Research.

Michael Roberts, obrigado por aceitar o nosso convite. Pode contar-nos brevemente quando conheceu e abraçou o marxismo e que impacto teve ter trabalhado antes na City de Londres?

Quem use uma lente marxista para observar o funcionamento do capital financeiro tem grande dificuldade em presumir que o investimento financeiro vá correr sempre bem. Uma lição, para os trabalhadores, que eu aprendi, e que também se aplica à China, é que não se metam nos mercados financeiros. O melhor é os fundos de pensões dos trabalhadores não ficarem dependentes de investimentos em bolsa, pois, se se metem nisso, passam o tempo a deitar a perder as contribuições dos trabalhadores. Mas o inverso também é verdadeiro. Compreender de perto o funcionamento da besta financeira pode ajudar-nos a explicar melhor as fragilidades e especulações do sistema.

Qual considera ser a ideia essencial do marxismo? Qual é a relação entre materialismo histórico e crítica da economia política?

Pode-se reduzir o essencial das ideias do marxismo a dois conceitos-chave.

Primeiro, a história da organização humana desde tempos primitivos é a história da luta de classes. A concepção materialista da história é que a mudança para melhor ou para pior é governada pelos interesses materiais das classes, particularmente pela classe dominante (senhores feudais, empresas capitalistas) e pela classe trabalhadora. Embora indivíduos possam desempenhar papéis decisivos em certos momentos da história (decisões e acções de reis ou de chefes revolucionários), em última análise, a mudança depende da economia e das classes. Como Marx disse, “os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem conforme lhes apetece; não a fazem em circunstâncias por si escolhidas, mas em circunstâncias pré-existentes, criadas e transmitidas do passado”.

A segunda ideia essencial é a lei do valor no capitalismo. O capitalismo é um sistema de produção para o lucro dos proprietários dos meios de produção, que exploram aqueles que nada possuem a não ser capacidade de trabalharem para os proprietários. O trabalho cria todas as coisas e serviços que usamos e de que precisamos, mas o valor desse trabalho é apropriado pelos proprietários dos meios de produção como “mais-valia”, que é o excedente ao que o trabalhador recebe pela sua labuta. Essa mais-valia é acumulada como capital. As nossas necessidades sociais dependem, pois, das decisões de capitalistas sobre se são ou não rentáveis. Esta explicação do funcionamento da economia moderna é rejeitada pelos defensores do capitalismo – mas ela é de uma clareza taxativa.
 

A teoria da crise é uma parte importante da crítica da economia política de Marx. Tem havido muitos debates entre marxistas sobre como compreender a teoria da crise de Marx. O que pensa da teoria da crise de Marx e da relação entre sobreprodução, subconsumo e a queda tendencial da taxa de lucro?

Sim, é muito importante uma teoria das crises no capitalismo. Os defensores do capitalismo negam que a produção capitalista sofra de crises endémicas – portanto, de recessões regulares e recorrentes na produção, no investimento e no emprego. Para eles, tais crises são ou eventos aleatórios e pontuais ou fruto de más decisões, especulações ou negligência. Os apologistas negam que as crises sejam inerentes ao sistema capitalista de produção para o lucro. Mas a lei do valor de Marx põe a nu por que razão as crises regulares são endémicas. A produção capitalista só se faz se der lucro, mostrando Marx a contradição que se abre entre a necessidade de produzir mais e a rentabilidade dessa produção (portanto, o lucro na proporção do capital investido). Os capitalistas competem entre si para ganhar quota de mercado e uma fatia maior do lucro apropriado aos trabalhadores. Para ganhar vantagem, recorrem ao uso de tecnologia que economize mão-de-obra, reduzindo custos e aumentando a produtividade do trabalho. Ora, argumentando Marx que o lucro só provém do trabalho realizado, se o investimento tender a privilegiar as máquinas, etc., em relação à mão-de-obra, a produtividade poderá aumentar, mas à custa de uma tendência para a rentabilidade cair. A rentabilidade pode acabar por cair tanto, que cause uma baixa do lucro total. Os capitalistas deixam então de investir, encerram a produção e despedem trabalhadores. O desemprego aumenta, a par de aumentarem os bens e serviços que ficam por vender. É o que se chama uma recessão. A única maneira de corrigi-la é conseguir pôr a rentabilidade outra vez a subir, o que implica eliminar trabalhadores desnecessários e empresas débeis e manter os salários baixos. Então, o processo pode recomeçar todo outra vez. As recessões são um processo de “saneamento” necessário à recuperação do capital. Onde Marx expõe com maior clareza a sua teoria das crises é nos capítulos 13-15 do volume 3 de O Capital.

No entanto, há muitos marxistas que não aceitam que a lei da queda tendencial da taxa de lucro, tal como explicada nesses capítulos, tenha relevância para as crises do capitalismo. Preferem considerar outras duas teorias principais. A primeira é a do “subconsumo”. Este ocorre quando os trabalhadores não conseguem comprar todos os bens e serviços produzidos pelos capitalistas por não terem dinheiro suficiente. Tanto Marx como Engels contestaram esta teoria do subconsumo, salientando que os trabalhadores nunca vão ter dinheiro suficiente para comprar toda a produção à venda, exactamente porque os salários não contêm todo o valor criado e realizado, visto os capitalistas apropriarem a mais-valia (a diferença entre o valor das mercadorias vendidas e os salários que vão para os trabalhadores; por outras palavras, os lucros). A questão é que os capitalistas não precisam de vender todas as suas mercadorias aos trabalhadores; grande parte do que se vende é vendido a outros capitalistas (por exemplo, o aço é vendido a fabricantes de automóveis para fabricar carros, etc.).

A outra teoria alternativa é a da “sobreprodução”. Os capitalistas vão continuando a produzir sempre, para acumular mais lucros, sem considerarem se vão conseguir vender a sua produção no mercado. Produzem em excesso relativamente à procura. O problema desta explicação das crises é não explicar quando é que a produção passa a ser “excesso de produção”. Pode nunca acontecer, ou pode acontecer a qualquer momento. A teoria não tem lógica. Dito de outra forma, se a oferta está alinhada com a procura, ainda pode haver crise do investimento e da produção em capitalismo? Marx diria que sim, porque o que decide se os capitalistas investem ou não é a rentabilidade do que se produz. E é, de facto, assim que as crises se desenrolam. A rentabilidade cai, depois cai o lucro total, depois os capitalistas começam a tentar vender mais para cobrir a queda dos lucros. Ora, isso implica “sobreprodução”, obrigando os capitalistas a baixar os preços e/ou a reduzir a produção. A sobreprodução é o resultado da sobre-acumulação de capital, portanto, da queda da rentabilidade do capital investido, não o contrário.
 

Em 2020, publicou o livro Engels 200: His Contribution to Political Economy, em que apresenta de forma sistemática a investigação de Engels sobre economia política e a sua contribuição para a economia política marxista. Há, entretanto, uma posição que diz que a crise ser causada pela tendência para a queda da taxa de lucro é, na verdade, o ponto de vista de Engels, tendo este, ao editar o volume 3 de O Capital, exagerado ou mesmo adulterado a discussão de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro. Que acha deste ponto de vista?

Essa opinião tem sido expressa por vários marxistas (em particular, pelo estudioso marxista alemão Michael Heinrich), que afirmam ter lido documentos inéditos de Marx que mostrariam ter Engels alterado as palavras de Marx para fazer que a lei da queda tendencial da taxa de lucro parecesse mais importante. Esses marxistas afirmam, também, que Marx chegou mesmo a abandonar a lei, na década de 1870, não devendo ela, portanto, considerar-se relevante para a economia marxista e para a sua teoria da crise.

Mas outros estudiosos demonstraram claramente que Engels não incorreu em qualquer distorção significativa do texto de Marx nos capítulos 13-15 do volume 3, onde é formulada a lei da rentabilidade. E não há prova alguma de que Marx tenha abandonado a lei na década de 1870 – pelo contrário, ele continuará a trabalhar sobre ela. Por exemplo, na década de 1870, Marx passou muito tempo a analisar a taxa de lucro, com várias fórmulas matemáticas. Quando editou o volume 3 de O Capital, Engels excluiu o trabalho matemático de Marx sobre a taxa de lucro, apesar de ele confirmar que Marx continuava a defender a sua lei. Tudo isto é explicado nos meus livros Marx 200 e Engels 200, com todas as referências.

Os marxistas desta inclinação também distorceram a lei do valor de Marx, transformando-a numa teoria do dinheiro, em que, portanto, o valor não é criado pelo trabalho na produção, mas apenas realizado na venda no mercado das mercadorias produzidas. Portanto, sem venda, não há valor. Isto não era a posição de Marx. O valor é o resultado da aplicação de trabalho humano à produção; a parcela desse valor que acaba por se realizar depende da venda no mercado. Mas não chega sequer a haver valor se não houver produção pelo trabalho humano. O que está por trás desta revisão teórica é uma tentativa de substituir a rentabilidade como causa última das crises por uma teoria da instabilidade monetária ou creditícia, semelhante à posição de economistas convencionais como Keynes.
 

Do seu ponto de vista, quais são as principais diferenças entre a economia política marxista e outras escolas económicas (como a economia neoclássica, o keynesianismo, etc.)? Podemos considerar a teoria da crise como diferença importante ou mesmo essencial entre a economia política marxista e a economia ocidental dominante?

A diferença crucial está, antes de mais nada, em que as outras escolas económicas, mesmo as escolas “heterodoxas” mais radicais que não aceitam que os mercados sejam perfeitos, não concordam com a lei do valor de Marx. Não aceitam que a contradição fundamental da produção capitalista esteja em a produção ser não para as necessidades sociais, mas para o lucro, e em que o aumento da produção acaba por entrar em conflito com o aumento da rentabilidade, sendo isso o que produz expansões e recessões, ou seja, crises. A escola neoclássica dominante nega a possibilidade de crises em mercados correctamente geridos ou mercados que não sofram interferência de governos, monopólios ou sindicatos. Os economistas heterodoxos negam o papel do lucro nas crises, apontando antes a “procura deficiente” (Keynes), ou a instabilidade financeira (Minsky), ou os monopólios (Sweezy, Stiglitz), ou má regulação.

A diferença é crucial, porque o que se infere de todas estas escolas é que a produção capitalista pode ser modificada ou corrigida e se pode fazer o capitalismo funcionar melhor. Keynes disse que a coisa se resolvia com mais despesa pública ou com injecções monetárias; o heterodoxo Minsky disse: regulem-se os bancos e as instituições financeiras, e o capitalismo ficará estável. Estas aproximações reformistas são erradas tanto teórica como empiricamente. A teoria da crise de Marx mostra que o capitalismo não pode ser reformado como eles dizem. As crises capitalistas são endémicas porque, em última análise, são causadas pela queda da rentabilidade. A única forma de acabar com as crises é substituir o capitalismo por uma economia planeada de propriedade colectiva, ou seja, sem capitalistas.

 

A diferença crucial entre a economia política marxista e outras escolas económicas está em que as outras escolas económicas, mesmo as mais radicais, não concordam com a lei do valor de Marx. Os economistas heterodoxos negam o papel do lucro nas crises, apontando antes a “procura deficiente” (Keynes), ou a instabilidade financeira (Minsky), ou os monopólios (Sweezy, Stiglitz), ou má regulação.

 

Na investigação que tem feito, que repercussões tem a financeirização do capitalismo na economia real e na classe trabalhadora?

Uma das características dos últimos 50 anos nas economias modernas do Norte Global tem sido a ascensão dos sectores financeiros, não só bancos, mas também hedge funds (fundos especulativos), fundos de investimento, fundos dos seguros, capital privado, criptomoedas, etc. Os capitalistas têm desviado cada vez mais o investimento dos lucros acumulados para activos financeiros e para a especulação financeira, em vez de investirem em novas tecnologias e sectores produtivos. É isto o fenómeno da “financeirização”.

No entanto, alguns marxistas e outros apaixonaram-se de tal maneira por esta mudança, que começaram a sustentar que o capitalismo tinha mudado de natureza. Já não seria um sistema de produção para o lucro, explorando o trabalho em fábricas, escritórios, etc., mas um mero sistema monetário financeiro, onde dinheiro gera mais dinheiro. Isto quer dizer que os trabalhadores perdem o seu papel de produtores de valor no capitalismo. Os capitalistas passam a conseguir obter valor simplesmente por artimanhas monetárias. O capitalismo passa a ser capital financeiro, que domina o capital produtivo.

É um disparate. Embora, em algumas economias, como os EUA e o Reino Unido, os lucros financeiros sejam elevados — digamos, até 25% dos lucros totais —, a grande maioria do lucro continua a resultar da venda de bens e serviços produzidos pelos trabalhadores. E isso é especialmente assim no chamado Sul Global, onde passou a predominar a indústria transformadora, não a finança. Globalmente, a classe trabalhadora nunca foi tão numerosa, e ainda assim a maior parte da acumulação capitalista provém do trabalho dos trabalhadores na produção. O leopardo capitalista não mudou de pintas.
 

O que pensa da actual crise do capitalismo no sistema económico global, especialmente da crise financeira dos últimos anos? Que luzes pode a economia política marxista dar-nos para compreender a crise do capitalismo?

É um assunto muito lato. Vivemos, no século XXI, as duas maiores recessões da história do capitalismo, em 2008-2009 e em 2020. Há todos os motivos para esperar que outra recessão ocorra antes do final desta década. O rastilho pode ser aceso por um novo colapso financeiro, como em 2008. Desta vez, o estouro pode não ter início nos bancos propriamente ditos, mas ser provocado pelo aumento da dívida das empresas e pelo custo do serviço dessa dívida. Já há actualmente uns 20% das empresas na Europa, no Japão e nos EUA chamadas “zombies”, que são, portanto, uma espécie de mortos-vivos que não geram lucros suficientes para cobrir sequer o custo do serviço da sua dívida actual e têm, por isso, de continuar a endividar-se. Estas empresas correm sério risco de falir e de arrastar consigo também empresas rentáveis, por efeito de ricochete.

Considera que, desde o fim da Grande Recessão, em 2009, as principais economias capitalistas ficaram numa Longa Depressão. Existe alguma diferença entre a Longa Depressão e anteriores depressões longas na história do capitalismo? Que estratégias há-de a China adoptar em resposta ao impacto global da Longa Depressão?

Defino uma depressão, por oposição a uma recessão ou quebra, como um período em que, após uma recessão, a tendência de crescimento da produção, do investimento e, acima de tudo, da rentabilidade, é muito inferior à manifesta antes da quebra. E este afrouxamento pode durar décadas. Nesse sentido, a Longa Depressão da década de 2010 em diante que identifiquei é semelhante à depressão do final do século XIX (1873-97) e à Grande Depressão de 1929-42. Chegados a 2025, mantém-se a actual depressão, não tendo a recessão pandémica de 2020 redundado num aumento significativo da rentabilidade, mantendo-se, portanto, a taxa de crescimento do investimento e do PIB real ainda mais fraca do que na década de 2010.

A China evitou todas estas crises do capitalismo. Isso deve-se ao facto de a China ter uma economia dominada por um vasto sector estatal e pelo planeamento estatal, de modo que lhe é possível superar instabilidades no sector capitalista, conseguindo o investimento e a produção manterem-se sem grande interrupção. Se as economias capitalistas do Ocidente entrarem noutra recessão, o comércio e o investimento na China sofrerão, mas a China dispõe agora de uma enorme base interna e tem investido muito em novas tecnologias, continuando a orientar e a planear esse investimento, principalmente, através do sector estatal. Para reduzir a instabilidade no sector capitalista, particularmente posta a descoberto pelo trambolhão do sector imobiliário (na sua maioria de base capitalista), a China tem de expandir o sector estatal e o planeamento.

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A moeda digital e a tecnologia blockchain têm sido ultimamente temas quentes no campo da tecnologia financeira, com profundo impacto na economia global e no sistema financeiro. Qual é a sua opinião sobre estas inovações financeiras e a finança digital? Irão estar na origem de uma crise económica global mais grave?

As criptomoedas, como lhes chamam, como a bitcoin, não passam de mais uma forma de activo financeiro especulativo, tal como o ouro ou as pinturas. Não são formas alternativas de dinheiro capazes de substituir moedas emitidas pelo Estado (moeda fiduciária), como o dólar ou o yuan. Falando em geral, já há moedas digitais, na forma da possibilidade de pagamento de contas com um cartão, o telemóvel ou por transferência bancária sem haver pelo meio papel-moeda. O que seria potencialmente novo seria uma moeda digital do banco central que passasse sem os bancos comerciais. Isso, para já, pouco tem avançado. As criptomoedas, entretanto, pouco mais são do que uma forma daquilo a que Marx chamou “capital fictício”, que, a prazo, acrescenta ainda mais ao risco de colapso financeiro.

Dada a popularidade crescente da inteligência artificial e da automação, como usar o marxismo para analisar o impacto do progresso tecnológico nos modos de produção e nas relações sociais? Do que investiga, que correlação há entre progresso tecnológico e crescimento económico?

É complicado. A inteligência artificial (IA) não é mais do que uma nova forma de tecnologia para substituir trabalho humano e aumentar a produtividade do trabalho, aumentando a taxa de exploração do trabalho pelo capital. Novas tecnologias podem acarretar grandes destruições de emprego, especialmente para quem está em indústrias e profissões que a IA substitui, mas podem também, com o tempo, criar novas indústrias e empregos. É olhar para a revolução industrial, para a revolução da eletricidade, a da indústria automóvel, a revolução informática. A tecnologia sempre foi crítica para o crescimento económico, ao aumentar a produtividade do trabalho, particularmente quando a força de trabalho deixa de aumentar em valor absoluto – como hoje acontece na China.

Há quem sustente que a IA é um desenvolvimento completamente novo, que acabará por substituir por inteiro o trabalho humano, dado que pode exceder a inteligência humana. A demonstração deixa a desejar. Grande parte da IA não é mais do que um processamento rápido do conhecimento humano existente, não podendo substituir a imaginação da inteligência humana. Além disso, a IA demorará, décadas porventura, a conseguir difundir os seus efeitos de aumento da produtividade pelo tecido económico fora. Na minha opinião, não vai baralhar as cartas e tornar a dar, salvando o capitalismo.

Tecnofeudalismo é uma posição surgida em anos recentes para descrever as mudanças na sociedade causadas pela tecnologia da nuvem, ou seja, pelo facto de os gigantes tecnológicos e as grandes empresas de plataforma possuírem dados e poder como senhores feudais, enquanto os utilizadores comuns servem esses senhores digitais como produtores não remunerados de dados, à semelhança dos servos, substituindo esta nova forma de renda o lucro como principal forma de acumulação. Concorda com a utilização do termo “tecnofeudalismo” para definir a etapa atual da sociedade ocidental?

Do conceito de “tecnofeudalismo” infere-se que a produção capitalista — ou seja, a produção para o lucro através da exploração do trabalho — foi substituída por um feudalismo em que monopólios digitais se limitam a extrair rendas. Mas de onde saem essas rendas? Marx apontou que renda, juro e lucro provêm todos da mesma fonte: a mais-valia apropriada sobre o valor criado pela força de trabalho humana. Sustentar que empresas que vendem tecnologia da nuvem não produzem mercadorias para venda e lucro, como em qualquer processo capitalista, é simplesmente errado. A massa dos lucros da Amazon provém da distribuição e transporte de coisas; a massa dos lucros do Facebook provém da publicidade; a massa dos lucros da Google, idem. A massa dos lucros da Microsoft e da Apple provém da venda de equipamentos e programas informáticos. Isto não é feudalismo, é capitalismo puro e simples. O capitalismo não está morto. Dar a entender que está é uma ideia perigosa para os trabalhadores, porque implica que os trabalhadores possam deixar de ver no capital no seu todo o seu inimigo, mas apenas numa pequena parte do capital, de onde se segue não haver necessidade de substituir o capitalismo, mas apenas o capitalismo de “monopólio feudal”.
 

A teoria do valor-trabalho é a ideia central da economia marxista. Na era da automação e da economia digital, como se aplica a teoria do valor-trabalho à análise da economia moderna? O que pensa dos dados como novo factor de produção?

Os dados, o conhecimento, provêm da actividade humana. O conhecimento tem, pois, valor para a sociedade e para o capital da mesma forma que as coisas físicas o têm. O conhecimento é material: requer a energia do trabalho humano, do trabalho mental, portanto, ao mesmo título do trabalho físico. Ambos são materiais, ambos criam valor. Logo, o capital pode apropriar mais-valia dos trabalhadores do conhecimento que emprega, e fá-lo, aliás, cada vez mais, em todos os sectores e em todo o mundo. A mais-valia corporiza-se em patentes, direitos de propriedade intelectual, etc. O conhecimento, o trabalho mental são tão “materiais” como o trabalho físico. A actividade mental desenrola-se nas sinapses do cérebro humano e combina-se com trabalho físico no uso de um computador, etc. O trabalho mental cria, portanto, valor, tal qual como o trabalho físico. Os trabalhadores do conhecimento fazem tanto parte do proletariado como os trabalhadores manuais que realizam tarefas físicas.

Cada vez mais, diga-se, os trabalhadores do trabalho “mental” são explorados pelo capital para apropriar mais-valia (lucro). Não há, pois, necessidade de arranjar um termo novo para a classe trabalhadora, tipo “multidão”, donde se infira que já não exista classe trabalhadora, a classe dos que, não possuindo meios de produção, só podem ganhar a vida vendendo a sua força de trabalho. É um termo que camufla a luta de classes entre trabalho e capital e, como tal, cria confusão sobre a necessidade de substituir o capitalismo.

Tem o desenvolvimento do capitalismo digital cavado a divisão Norte-Sul?

Sim, está a cavá-la. Mas o fosso cava-se assim como assim. Seja lá como se queira medir, o Sul Global (com excepção da China) não está a apanhar o Norte Global: seja o PIB per capita, seja a produtividade por trabalhador, seja a rendimento per capita, seja a redução da desigualdade. A divisão Norte-Sul manifesta-se no poder de um bloco imperialista de economias, que, com uma população relativamente pequena, domina o resto do mundo, onde vive a maior parte da humanidade.

Que políticas económicas acha que o presidente Donald Trump irá adoptar e que impactos terão essas políticas na economia global?

Não podemos ter a certeza do que Trump irá fazer. Mas ele diz que vai aplicar enormes direitos aduaneiros [tarifas] às importações para os EUA, especialmente as provenientes da China. Anda a dizer que o seu objectivo é fazer que a indústria dos EUA volte a ser o que era, à custa do resto do mundo. Acima de tudo, quer continuar a política das administrações anteriores dos EUA para estrangular, sufocar e reverter o progresso económico da China, vista como principal ameaça à hegemonia dos EUA. Mais: Trump apoiará também novas provocações militares para coarctar a China. No plano interno, ele tem em mira reduzir a tributação das empresas, de modo que os ricos e as grandes empresas paguem ainda menos do que já pagam, e livrar-se dos quadros regulamentares da indústria e de mitigação do aquecimento global. O gabinete de Trump é composto inteiramente por gestores de fundos especulativos e de capital privado bilionários, que procurarão beneficiar os ricos em detrimento da maioria dos norte-americanos.

A nível mundial, se Trump levar por diante estas políticas, o comércio mundial encolherá e aumentarão perigosamente as tensões entre a aliança ocidental encabeçada pelos EUA e a China. Aumentará a desigualdade de riqueza e de rendimento entre países e interna aos países, e as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente continuarão, com risco de guerra também na Ásia.


As políticas económicas prometidas por Trump, designadamente os cortes fiscais em grande escala e os aumentos da despesa militar, representam uma ameaça à estabilidade económica global, ao acarretarem níveis de endividamento globais mais elevados?

Sim, a dívida global já se encontra a níveis recorde, também relativamente ao produto global. O governo dos EUA regista, designadamente, défices orçamentais significativos para financiar a guerra na Ucrânia e Israel e planeia aumentos monstruosos da despesa militar para financiar novas acções a nível global. Trump quer que a Europa pague mais para esse efeito, mas a dívida pública dos EUA está, entretanto, a atingir níveis sem precedentes, e o custo em juros do serviço dessa dívida está a passar à frente da despesa do Estado com educação, saúde e outros serviços públicos.
 

As políticas económicas de Trump irão agravar as contradições do sistema capitalista global, conduzindo à sobreprodução e à tendência para a crise?

O contexto global de tudo isto é um contexto de crescimento e comércio fracos, de parcos investimento e crescimento da produtividade. As principais economias capitalistas, com a possível excepção dos EUA, estão estagnadas ou mesmo em recessão declarada, especialmente na Europa. Há toda a probabilidade de estas economias se verem a braços com uma recessão grave até ao final da década, que alastrará ao resto do mundo, tal como aconteceu em 2008 e 2020. Só a China pode esperar passar incólume.
 

As políticas económicas de Trump reflectem a ascensão do nacionalismo e do proteccionismo económicos no contexto da globalização? Agravarão estas políticas a desigualdade económica global? Como hão-de os países em desenvolvimento reagir à desigualdade no sistema económico global?

O proteccionismo e o nacionalismo dos demais não são solução alternativa a Trump. Os países em desenvolvimento precisam de se juntar e cooperar em matéria de comércio, investimento e redução da desigualdade. Só que, para isso, as populações destes países têm de ter governos que defendam os trabalhadores e a propriedade colectiva dos recursos e activos, para poderem planear cada economia e a economia global, em cooperação. Infelizmente, quase todos os governos do Sul Global não defendem tais políticas. Ou são controlados por déspotas ou apoiam o grande capital no país e o imperialismo norte-americano no exterior. Até se mudarem esses governos, não espero grande avanço em termos de maior crescimento, de redução das desigualdades, pleno emprego e melhores serviços públicos.

Escreve persistentemente em blogues, há muito tempo. Que influência tem este estilo de escrita surtido no seu pensamento e na troca de ideias? Pode partilhar connosco a sua investigação recente ou o seu plano de investigação futuro?

O objectivo do blogue e dos meus livros é elevar a nossa compreensão de como o capitalismo funciona, das suas contradições e clivagens, na perspectiva de o substituir. Considero que a análise de Marx do capitalismo é a mais convincente e, por isso, procuro defender as posições de Marx, tal como as interpreto, contra alternativas que, no fundo, se resumem todas elas a tentar fazer que o capitalismo funcione (melhor). Não aponto o meu blogue a académicos, mas a activistas que procurem mudar o mundo para melhor. Isso não quer dizer que eu esquive questões teóricas ou demonstrações estatísticas difíceis ou complexas. Pelo contrário, procuro explicá-las com maior clareza. Estou actualmente a preparar um novo livro sobre o que está a acontecer ao capitalismo e à economia mundial na década de 2020. Para dizer a verdade, é uma continuação do meu livro Long Depression, que foi publicado em 2016. Muita coisa aconteceu desde então e há mais por vir nesta década.


Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-editorial edicao-2026-09-03 (39)

Reentrada de pé em riste

Ainda antes da rentrée, com meio país de férias, o Governo avançou em força na tentativa de desmantelamento dos sistemas de pensões e reformas, dos cuidados de saúde e do ensino público.

Depois do caos e da fraude que foi todo o processo de “gestão” dos exames nacionais, da criação de centros de detenção para imigrantes “ilegais” – onde os mesmos poderão passar a ser retidos durante 360 dias – e da aprovação do regime de trabalho forçado gratuito para o acesso à Prestação Social Única (PSU), o Governo avança em força na tentativa de desmantelamento dos sistemas de pensões e reformas, dos cuidados de saúde e do ensino público. 

Para leitura de “regresso de verão”, acabadinha de sair, apresenta-se o mais recente relatório “Reformar as Pensões em Portugal”, guiado pelo economista e (pasme-se!) consultor de seguradoras e bancos, Jorge Bravo. Nesta comissão, nomeada pela Ministra do Trabalho para “estudar” a reforma da segurança social, contam-se, a mero título de (insignificante) exemplo, técnicos dos próprios gabinetes ministeriais e uma ex-deputada e ex-candidata à chefia da Iniciativa Liberal com ligações à área dos seguros. Depois das conclusões positivas do próprio Conselho de Finanças Públicas quanto ao tema, a Comissão de Palma Ramalho lá fez chegar a tão requerida encomenda para desfazer toda a “ilusão”, abrindo assim a porta ao plano da Comissão Europeia, enquadrado na almejada “União de Poupanças e Investimentos” pilotada por Maria Luís “troika” Albuquerque. 

A Comissão rasga, porém, as vestes: não senhor, não alteramos o sistema solidário de reforma por repartição, nada disso! O essencial fica na mesma!

Mentira soez: não só se criaria uma “conta virtual” de cada trabalhador, para os mais abonados poderem ver o que “estão a perder” e se desvincularem dos outros até nada restar, como se eliminaria uma das componentes fundamentais do sistema actual: o valor definido e previsível da reforma a receber por cada trabalhador segundo o valor do seu salário.

A bem, naturalmente, da “liquidez” à disposição dos oligarcas da economia europeia, a solução: os trabalhadores deixarem de saber que reforma irão ter e as reformas e poupanças dos trabalhadores servirem para financiar o capital e ficarem sujeitas ao jogo do mercado privado de capitais, vendido tudo isto como alternativa “complementar” aos sistemas públicos de Segurança Social.”

Bem sabemos o que significa o “complementar” para estes liberais representantes da burguesia. No final das contas, “complementa-se” sempre alguma coisa, é facto. É o dito “complemento extra”. “Complemento extra para os bolsos do sector privado à custa do dinheiro público e do acirrar da exploração e perda de direitos dos trabalhadores.”

Neste mesmo mês de Agosto, depois de fechados os balanços dos portugueses sem médico de família por “não actualização” dos dados pessoais no Registo Nacional de Utentes, o Governo não perde tempo a anunciar a abertura do primeiro centro de saúde com gestão privada, cuja empresa se apresenta especialista em “telemedicina e soluções de saúde digital”, pronta a garantir um médico de família a cada português. Seria triste, se não fosse confrangedoramente óbvio. A bem do bom cumprimento dos ditames de Bruxelas, o caminho do Governo Montenegro não pode ser senão este: desmantelamento económico e social, nomeadamente através da utilização dos serviços públicos como via de financiamento dos avultados investimentos privados em inteligência artificial que garantirão a recuperação dos lucros a parte das burguesias europeias. 

A própria imprensa burguesa não deixa dúvidas: “PRR acelerou e pagou reformas mais desejadas por Bruxelas do que por Portugal: Saúde, Educação, segurança social, gestão florestal são quatro áreas, entre outras, que tiveram reformas porque havia dinheiro fresco” (Público, 31 de Agosto de 2026). Levante o braço quem aproveitou a espreguiçadeira de verão para aquela salutar revisão do clássico “Relatório Draghi: o futuro da competitividade europeia” (2024)!

Na mesma senda, surge-nos ainda a notícia de sempre de final do ano lectivo. A bem dos sempre necessários “cortes orçamentais”, a tal outra face da moeda dos investimentos que referimos acima, e perante a redução do número de candidatos ao ensino superior, vários docentes dos politécnicos enfrentam uma ameaça de despedimento. Sobre estes trabalhadores, que se encontram, frequentemente, a trabalhar há anos nas instituições, vale a pena relembrar: 75% estão contratados a prazo. 

No regresso das férias, retomará também, pela voz da esquerda parlamentar, os discursos ad nauseam sobre a “incapacidade de lutar” e a “polarização” do povo. Retomarão os rituais televisivos e digitais com os adivinhos e tudólogos de sempre para, recuperados os ritmos de dopamina e cortisol impostos pelos ininterruptos ecrãs e a ausência de sentido no trabalho, nos fazer confundir o sintoma com a origem do problema. “Como é que mudamos isso?”, perguntam. Pensando para lá das eleições. Pensando a nossa organização colectiva. A nossa proposta de resposta aos problemas e não a deles.

Tudo parece apontar que o PS traçará o seu caminho para defender a continuidade do governo, sem dúvida argumentando aos militantes que é  tudo para o dito cujo se ir “desgastando” (quando quem fica desgastado são os trabalhadores e a juventude). 

Para a bancada, vão falando do “imoral” encosto do governo ao Chega. Para a Assembleia, alinham na política da aliança governo/Chega. Em nome de um resultado em futuras eleições? Duvide-se. Carneiro deixou hoje claro que “não quer instabilidade”, ou seja, prevê-se que o PS defenderá a continuidade do governo, não estando “à espera do seu desgaste”.

Valerá, ainda assim, relembrar que a luta contra o fascismo nunca seria feita substituindo representantes da burguesia no aparelho de Estado (leia-se, saindo um PSD e entrando um PS). Sabemos como este é tão somente o resultado directo de anos de políticas daqueles que hoje chamamos de “salvadores” da democracia. A urgência está, portanto, e antes de mais, na construção de uma alternativa a este “extremo centro”. Uma alternativa que recuse o constante abanar do “papão” do fascismo para justificar, mais tarde, políticas que brutalizam e exploram igualmente quem trabalha, reforçando o poder fascista que tanto desejamos combater. Uma alternativa que recuse o “voto” útil, numa afirmação clara de que nos recusamos a um mero horizonte de vida “útil”, de “tempo útil de vida” … calculado por IA. 

A receita primordial, sem qualquer necessidade de “inovação”: reunidos em plenário nos bairros, nas comunidades e nos locais de trabalho. Longe dos ecrãs, onde nunca conseguiremos construir qualquer tipo de experiência e linguagem colectivas. 

O Pacote Laboral não morreu, mas toda a internet diz que sim.

categoria-internacional Volkswagen Alemanha IG Metall Guerra edicao-2026-09-03 (39)

Volkswagen: entre a espada e o desemprego

Na Alemanha, os trabalhadores da Volkswagen, o maior fabricante automóvel do mundo, enfrentam uma luta terrível pela defesa dos seus salários e postos de trabalho. A alternativa que procuram impor-lhes é entre o encerramento de fábricas e o desemprego ou a reconversão para a indústria de guerra.

No dia 9 de Julho, no âmbito de uma acção do sindicato metalúrgico, IG Metall, trabalhadores da VW paralisaram o trabalho e concentraram-se frente aos portões das fábricas por todo o país. 

Estas acções foram, porém, fortemente entravadas pelo próprio sindicato metalúrgico alemão, o IG Metall! Assim, embora estejam em causa nada menos do que 100 mil dos cerca de 657 mil postos de trabalho em todo o mundo, o IG Metall só “mobilizou” delegados sindicais e membros de conselhos de empresa, não os sindicalizados em geral. A justificação da cúpula: “As acções são dos delegados sindicais e membros de conselhos de empresa do IG Metall. São acções de informação e protesto, não greves de advertência; tanto no âmbito do acordo colectivo de trabalho da Volkswagen AG como no sector da indústria metalúrgica e eléctrica, estamos actualmente em período abrangido pelo dever de paz laboral.” O próprio sindicato escreve que na sede do grupo, em Wolfsburg, maior fábrica de automóveis do mundo, que conta quase 70 mil trabalhadores, “participaram na acção 500 metalúrgicos”. Na unidade de Kassel-Baunatal, o IG Metall mobilizou cerca de 200 dos 15 mil trabalhadores. O que domina o estado de espírito dos operários, em contrapartida, é a ideia de greve. 

A destruição de forças produtivas e, portanto, de força de trabalho, produção, etc., está de novo a tomar proporções assustadoras. O desmantelamento de unidades de produção e a destruição de inúmeros postos de trabalho (incluindo os que dependem secundariamente da indústria) vai a par de ataques implacáveis aos acordos colectivos, aos salários, ao horário de trabalho e a outras conquistas. A política dos grandes grupos económicos está a arrastar regiões inteiras para a ruína. Os capitalistas podem contar com o apoio da Comissão Europeia e do Governo Merz-Klingbeil (o chanceler, democrata-cristão, e o vice-chanceler, social-democrata, NdT).

No centro de tudo, a indústria automóvel. Os recuos nas conquistas e no contrato colectivo registados nos anos transactos já “renderam” aos trabalhadores de todas as marcas do grupo VW montantes de “reduções de custos” na ordem dos milhares de milhões, com o consentimento do IG Metall. Assim foi o “compromisso” de 2024, que deu na eliminação de 50 mil postos de trabalho ao nível do grupo, em troca de uma garantia de manutenção das unidades fabris até ao ano de 2030. Agora, ao anunciar a liquidação de mais 50 mil postos de trabalho em todo o mundo, a administração do grupo rasga a garantia de manutenção das unidades: Zwickau, Emden, Neckarsulm, Hannover são para encerrar.

Ao anunciar a liquidação de mais 50 mil postos de trabalho em todo o mundo, a administração do grupo rasga a garantia de manutenção das unidades de Zwickau, Emden, Neckarsulm, Hannover.

Na reunião de 9 de Julho do Conselho Fiscal do grupo, o estado da Baixa Saxónia e os trabalhadores responderam com um claro “não”. O membro da administração da VW responsável pelos assuntos legais perguntou então se “os senhores” tinham consciência do alcance jurídico do seu voto. Os sindicalistas viram na interpelação uma ameaça velada de que seriam passíveis de acções de indemnização por danos causados (WirtschaftsWoche, 17-7-2026).

Uma questão de poder: desmontar a Lei Especial da VW 

Escreve a revista WirtschaftsWoche: “No fundo, o programa põe a questão do poder; é com ela que a Administração Executiva e as famílias proprietárias confrontam os trabalhadores e o estado da Baixa Saxónia.” O lado do capital, sobretudo as famílias Porsche e Piëch, exige a “reestruturação” do grupo, passando a “marca central, a VW” a ficar “independente”. Ficaria sem efeito a Lei Especial da VW e, consequentemente, neutralizado o estado da Baixa Saxónia e o “lado dos trabalhadores” (ver caixa).

Na óptica da facturação, o grupo é o maior fabricante automóvel do mundo. Em 2024, trabalhavam na Volkswagen mais de 684 mil trabalhadores. São agora, em todo o mundo, cerca de 657 mil.

Em 2025, o lucro do grupo Volkswagen caiu de 12.400 para 6900 milhões de euros. Só na Porsche, os lucros recuaram de mais de 5200 milhões para 90 milhões. Uns 3 mil milhões de lucros cessantes resultam da política aduaneira americana de Trump. Somam-se-lhes “quedas maciças dos lucros” na divisão de camiões, marcas MAN e Scania. O que implica, porém, que outras divisões do grupo tenham conseguido apresentar uma “boa” evolução dos proveitos. Os “accionistas” estão para receber cerca de 2600 milhões de euros! 

Em vez de automóveis ligeiros, o “Iron Dome” 

Segundo informações da revista Capital de 13-7-2026, o Governo SPD-Verdes da Baixa Saxónia está a ponderar adquirir uma participação na fábrica de Osnabrück da VW, que tem, caso contrário, encerramento previsto para o ano que vem. O objectivo da entrada de capital na VW de Osnabrück é a “reconversão” da produção automóvel à produção de armamento. “Tal opção é, pois, vista, no governo estadual, nomeadamente, como modelo para outras fábricas da VW cujo futuro está actualmente em discussão” (Capital, 13-7-2026). O método segue o da entrada da Baixa Saxónia e do Estado federal no capital dos estaleiros Meyer, em Papenburg (em que adquiriram uma participação total superior a 80%). Os estaleiros passariam a também poder produzir navios de guerra em Papenburg.

No caso de Osnabrück, está, ainda, em negociação a entrada do grupo armamentista israelita Rafael. É ao que alude o presidente do Grupo VW, Blume, quando vem dizer que “há soluções mais inteligentes do que encerrar fábricas” (Bild am Sonntag, 12.7.2026). Blume mantém a meta da destruição de cem mil postos de trabalho.

É, pois, evidente que vai ganhando tracção a conversão à produção para a guerra.

O sindicato IG Metall anuncia um “Outono quente”. 

O que é a VW e a Lei Especial da VW? 

Em Maio de 1937, formou-se, sob a batuta nazi através da DAF (Frente do Trabalho Alemã), a “Gesellschaft zur Vorbereitung des Deutschen Volkswagens mbH”, ou Sociedade de Preparação do Carro do Povo Alemão SARL, de onde emergiu a fábrica da VW. A Volkswagen é uma criação dos nazis, financiada pelo roubo das caixas de contribuições e fundos de greve, das sedes e locais dos sindicatos, desmantelados em 1933. A VW foi construída com o dinheiro da classe trabalhadora.

Em 1949, o governo militar britânico entregou a fábrica da VW ao Estado Federal e ao estado federado da Baixa Saxónia. O conflito criado pela política de privatização do Governo Federal, encabeçado pela CDU, com o estado da Baixa Saxónia, dirigido pelo SPD, e os trabalhadores e os sindicatos, redundou, em 1960, na lei especial da VW, que serviu de “compromisso”, de compensação pelas reivindicações que os sindicatos e os trabalhadores apresentavam, na qualidade de proprietários de facto. O cerne do compromisso, que tornou possível a privatização que criou a Volkswagen AG, é um acordo de prevenção do surgimento de um grande accionista dominante (com maioria superior a quatro quintos), conjugado com disposições de vasto alcance em matéria de co-gestão enquadradas no “compromisso histórico” de 1952.

Considerando as “liberdades fundamentais da UE”, “na opinião da Comissão estas considerações históricas são irrelevantes”. 

Em 2004, o “Comissário para o Mercado Interno” da UE, Bolkestein, deu início à ofensiva contra a lei especial da VW.

Em 23 de Outubro de 2007, o TJUE, Tribunal de Justiça da UE, proferiu uma decisão contra a Alemanha por motivo de “violação do Tratado por um Estado-membro”. A violação em causa era a das liberdades fundamentais da UE, artigos 43º e 56º do Tratado CE. O artigo 43º do Tratado CE prevê que, no âmbito da liberdade de estabelecimento, quem detenha uma participação no capital de uma sociedade possa exercer influência certa e condizente nas decisões dessa sociedade, podendo, nesse contexto, determinar a sua actividade. O artigo 56º do Tratado CE proíbe restrições à circulação de capitais.

A fundamentação da violação do Tratado pela Alemanha remeteu para o nº 1 do § 2º e para os nos 1 e 3 do § 4º da “Lei Especial da VW” de 21 de Julho de 1960, em cujos termos nenhum accionista pode exercer mais de 20 por cento dos direitos de voto, ainda que detenha uma participação de capital superior. A disposição permite, assim, bloquear aquisições, mudanças de local de produção e, consequentemente, encerramentos de unidades de produção. A VW ficou, pois, sob determinadas condições, protegida da especulação, desde que o estado da Baixa Saxónia fizesse uso da sua posição.

Quando o Governo Merkel “reformou” a Lei da VW, acabou por manter como estava o nº 3 do § 4º, de modo que continua a ser necessária a maioria de “mais de quatro quintos” para conseguir impor aquisições, etc. Ante a ameaça da situação emergente na luta de classes, o Governo achou por bem não fazer concessões maiores à Comissão Europeia. A Comissão Europeia teve de se contentar.

A Comissão declarou que as “considerações históricas” invocadas para o caso da VW são, para ela, “irrelevantes”. Sem poder entrar aqui em pormenores, da importância de Porsche e Piëch para a produção de armamento do Estado nazi, baseada na exploração e trabalho escravo de trabalhadores forçados e prisioneiros dos campos de concentração e por aí fora, o caso é que as “considerações históricas” nada mais reflectem do que o facto de este grupo económico ter surgido da espoliação do dinheiro dos sindicatos e do sangue dos trabalhadores forçados e prisioneiros dos campos de concentração. Para a Comissão Europeia: “irrelevante”. Mas não só: a Comissão exige que se volte a saquear a classe trabalhadora!


Traduzido e adaptado do jornal freie Plattform für Arbeiterpolitik, nº 121, de 29 de Julho de 2026.

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