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Flexibilidade​
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2025-11-20 (05)

Flexibilidade​

Segundo a Infopédia (Porto Editora), é a “qualidade do que é flexível; elasticidade; a facilidade de ser utilizado ou manejado; maleabilidade; facilidade de movimentos; agilidade, destreza; característica do que é dócil; docilidade, brandura. Em sentido figurado: capacidade para se aplicar a estudos de carácter diverso ou realizar diferentes atividades; disponibilidade

Jornal Maio
Cristina Vieira, a esfinge do Chega
categoria-opinião edicao-2025-11-20 (05)

Cristina Vieira, a esfinge do Chega

Estou a retrabalhar toda a obra do Fernando Pessoa e a dar-lhe um cunho pessoal.

Manuel da Silva Ramos
Fogo amigo
categoria-crónica edicao-2025-11-20 (05)

Fogo amigo

– Quantos anos, Lola? – Estou a te apanhar, Thereza. Faltam só dez. – Incomodo-te ao perguntar quantos anos comemoras? – Não, o que me incomoda é me fazeres uma pergunta que nós duas sabemos a resposta. Incomoda-me a tua necessidade de insistir em lembrar que tenho 60 anos. Por acaso, eu

Maria Augusta Tavares
A fraude da formação de professores
categoria-educação Ensino Pedagogia edicao-2025-11-20 (05)

A fraude da formação de professores

Sempre que se denunciou o declínio do ensino público, a escassez de professores, a sobrecarga de trabalho, os rácios desumanos de alunos por professor, a instabilidade dos professores contratados ou a falta geral de financiamento, apareceram os pedagogos para resolver o problema

Carlos Fernández Liria
Mais “flexibilidade” e mais precariedade
categoria-voz dos sindicatos Flexibilidade Motoristas Sindicatos edicao-2025-11-20 (05)

Mais “flexibilidade” e mais precariedade

A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV), escudando-se na “adaptação ao direito europeu”, pretende alterar a legislação do setor dos transportes rodoviários, tornando ainda mais “flexíveis” os tempos de trabalho, que poderão superar as 60 horas semanais

Francisco São Bento
Portugal: o que os números confessam​
categoria-editorial edicao-2025-11-20 (05)

Portugal: o que os números confessam​

Os dados oficiais revelam um país onde a retórica política de prosperidade contrasta com indicadores de pobreza, salários baixos, desemprego mascarado...

Jornal Maio
Flexibilidade​
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2025-11-20 (05)

Flexibilidade​

Segundo a Infopédia (Porto Editora), é a “qualidade do que é flexível; elasticidade; a facilidade de ser utilizado ou manejado; maleabilidade; facilidade de movimentos; agilidade, destreza; característica do que é dócil; docilidade, brandura. Em sentido figurado: capacidade para se aplicar a estudos de carácter diverso ou realizar diferentes atividades; disponibilidade

Jornal Maio
Cristina Vieira, a esfinge do Chega
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Cristina Vieira, a esfinge do Chega

Estou a retrabalhar toda a obra do Fernando Pessoa e a dar-lhe um cunho pessoal.

Manuel da Silva Ramos
Fogo amigo
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Fogo amigo

– Quantos anos, Lola? – Estou a te apanhar, Thereza. Faltam só dez. – Incomodo-te ao perguntar quantos anos comemoras? – Não, o que me incomoda é me fazeres uma pergunta que nós duas sabemos a resposta. Incomoda-me a tua necessidade de insistir em lembrar que tenho 60 anos. Por acaso, eu

Maria Augusta Tavares
A fraude da formação de professores
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A fraude da formação de professores

Sempre que se denunciou o declínio do ensino público, a escassez de professores, a sobrecarga de trabalho, os rácios desumanos de alunos por professor, a instabilidade dos professores contratados ou a falta geral de financiamento, apareceram os pedagogos para resolver o problema

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Mais “flexibilidade” e mais precariedade
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A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV), escudando-se na “adaptação ao direito europeu”, pretende alterar a legislação do setor dos transportes rodoviários, tornando ainda mais “flexíveis” os tempos de trabalho, que poderão superar as 60 horas semanais

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Portugal: o que os números confessam​
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Jornal Maio
Não comemos painéis solares
categoria-dossier edicao-2025-11-20 (05)

Não comemos painéis solares

A Lightsource BP, subsidiária da petrolífera BP, pretende instalar uma enorme central fotovoltaica numa área vedada de aproximadamente 1737 ha, distribuída pelos concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova. A população tem-se manifestado contra. O Maio analisa o processo e ouviu-a.

Jornal Maio
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Flexibilidade​

Segundo a Infopédia (Porto Editora), é a “qualidade do que é flexível; elasticidade; a facilidade de ser utilizado ou manejado; maleabilidade; facilidade de movimentos; agilidade, destreza; característica do que é dócil; docilidade, brandura. Em sentido figurado: capacidade para se aplicar a estudos de carácter diverso ou realizar diferentes atividades; disponibilidade de espírito; capacidade de se adaptar a diferentes situações; adaptabilidade; e a possibilidade de adaptação de algo aos interesses de alguém.

EM NOVILÍNGUA:

Palavra muito usada no mundo empresarial e também no novo projeto de lei laboral, dos significados mencionados acima as empresas preferem claramente “característica do que é dócil; docilidade, brandura”. E também a capacidade e disponibilidade para realizar diferentes atividades e adaptar-se a algo ou aos interesses de alguém (o patrão ou chefe). Isto é, a empresa decide tudo e o trabalhador “adapta-se” e “verga a mola”. ASP

categoria-opinião edicao-2025-11-20 (05)

Cristina Vieira, a esfinge do Chega

"André, trocaste a palavra. É circuncidar e não cicatrizar."

Os tachistas oportunistas #2

A deputada do Chega Cristina Vieira continua silenciosa desde que foi eleita por este partido. A vida de deputado tem destas coisas. Há os que falam para dentro como papagaios e há aqueles que não podem falar nem para dentro, nem para fora, porque o líder os impede de abrir a boca. É que o chefe Venturão trata os seus deputados como números decimais e só ele tem direito a dizer as mentiras mais palpitantes. No outro dia, Cristina Vieira ficou estupefacta quando o chefão, pedindo a palavra no parlamento disse: “Temos de cicatrizar a sociedade portuguesa e podemos começar já pelo almirante Gouveia e Melo, que nasceu em Moçambique e teve uma ama muçulmana que usava burka e lhe lia o Corão.” Cristina Vieira riu-se para dentro dos seus ossinhos, mas soprou logo a palavra justa a um deputado com gosma que logo a lançou ao gordo Pedro Pinto que transmitiu sorrateiramente: “André, trocaste a palavra. É circuncidar e não cicatrizar.” Esta tolice provocou um riso geral no parlamento e até a barata Elvira, que é locatária há vinte anos da Assembleia da República, se mostrou a rir.

Cristina Vieira, antes de ser deputada pelo Chega, foi outra pessoa. Conhecia-a quando ela ia a umas noturnas tertúlias culturais em Sintra, de gente jovem, simpática, culta e de esquerda. O local de encontro, lembro-me, era num café muito perto do centro. Fui lá várias vezes e até me convidaram uma vez para apresentar um livro, e foi assim que a conheci. Ela estava muito bem integrada nesta marginalidade sorridente e tolerante. Todos sabiam que era médica e participava muito nos debates. Qual não foi o meu espanto e o espanto dos nossos amigos de Sintra quando a descobrimos deputada na Assembleia da República pelo partido Chega! O que te aconteceu, Cristina? Endoideceste ou foste à procura de um tacho fácil como os teus colegas de bancada? Saiu-te a lotaria, confessa. Já agora, diz-nos: porque é que estás com esses incultos, tu que leste Philip Roth, Orhan Pamuk, Garcia Márquez, Vargas Llosa, Elena Ferrante, e outros? Ao menos diz-nos o que te aconteceu.

Mas agora já não há remédio. Ultrapassaste as linhas vermelhas da decência, da ética e da responsabilidade cidadã e estás no meio dos monstros. Só te resta um caminho: sair. Renegar a aVentura: suja, odiosa, bárbara, falaciosa, fascista.


  1. Nas últimas eleições autárquicas, Cristina Vieira Henriques candidatou-se à Câmara de Óbidos e perdeu. O Chega recolheu 705 votos e não teve nenhum mandato.
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Fogo amigo

– Quantos anos, Lola?

– Estou a te apanhar, Thereza. Faltam só dez.

– Incomodo-te ao perguntar quantos anos comemoras?

– Não, o que me incomoda é me fazeres uma pergunta que nós duas sabemos a resposta. Incomoda-me a tua necessidade de insistir em lembrar que tenho 60 anos. Por acaso, eu estaria esquecida? Se tu, que tens 70, ainda te lembras disso, por que eu, com menos dez anos que tu estaria esquecida? Tu és uma chata. Pensas que não sei qual é o teu objetivo?

– Meu objetivo? Quis só puxar conversa, quebrar o silêncio.

– Não sejas cínica, essa tática de arrancar elogios comparativos é tão velha quanto tu. Queres que as pessoas digam que não parece haver dez anos de diferença entre nós duas.

– Nem me passou pela cabeça, mas se tu achas...

– Thereza, tudo que é teu é melhor. Também a tua velhice?

– Não me queixo. Sinto-me muito bem.

– Só falta dizer que adoras ter setenta anos. Que grande mentirosa tu és. Thereza, eu não preciso de ti nem de ninguém pra lembrar dessa chatice que é envelhecer. Eu queria matar quem chamou essa merda de melhor idade, porque até o que eu pensava ser bom, já não estou tão certa.

Desde o dia em que Lola soubera estar oficialmente reformada não sabia onde guardar aquela notícia, se no arquivo dos achados ou dos perdidos. Qual arquivo estaria mais cheio? O que teria guardado entre os achados? Com certeza, os filhos, os netos, as conquistas profissionais, os amigos. E entre os perdidos? Quanto de vida perdera em relações abusivas? Ah, melhor não enveredar por esses descaminhos. Foram tantos equívocos.

A reforma não era uma surpresa, ela estava a esperar por essa informação. Às vezes, com ansiedade. Mas ao receber aquela notícia pensou: devo agradecer, demonstrar alegria? Afinal, havia ligado à servidora mais de uma vez, para perguntar pelo processo. Ela acreditava estar dando uma boa notícia, era justo reagir à altura. Agradeceu, fez algumas perguntas e desligou o telefone sem saber direito como conduzir aquela situação. Gostava de comandar, de ter controle sobre as coisas, principalmente sobre a sua vida. Não sabia porquê, mas a reforma lhe parecia exterior à sua vida, como se fosse algo que lhe fora imposto. Ensimesmada e cabismuda, sabia precisar de um tempo para processar aquela novidade. Depois de pensar bastante, lhe ocorreu uma semelhança entre a aposentadoria e a menopausa. Ih, cada vez gostava menos daquela história.

“Que ódio dessa vaca velha que me trouxe essas lembranças no dia do meu aniversário”, pensava Lola.

A menopausa também não foi, não é surpresa. Aproximadamente, por volta dos 50 anos – às vezes mais, outras menos – a menstruação acaba. Enquanto isso não acontece, as mulheres reclamam a cada mês. Aquele sangramento é um fardo do qual não veem a hora de se livrar. De repente, somem enxaqueca, cólicas e sangramento. Era de se esperar que o facto fosse comemorado, mas não é o que acontece. Nem a Theresa, fingidora oficial de felicidade, festejou esse facto. Convivia com muitas mulheres, algumas mais velhas que ela, e nunca tinha sido convidada por nenhuma para festejar a menopausa. Ao contrário, o mais comum foi ouvir depoimentos reveladores de um sentimento de inferioridade. É como se, a partir dali, a mulher se sentisse menos feminina: inodora, incolor e invisível.

Contudo, a líbido não sofrera alterações substanciais. O corpo continuava reagindo a imagens, palavras e toques – embora os últimos sejam cada vez mais raros. Ainda bem que existem massagistas, terapeutas, acupuncturistas e outras expressões do toque, que o mercado sabidamente nos oferece. A ausência da menstruação não diminui a capacidade de amor, de entrega, de paixão, de sexo. Contudo, sobretudo pelas mudanças na aparência, aumenta significativamente a distância entre possibilidades e atos. E como se já não bastassem os danos causados pela diminuição de estrogênio e progesterona, o que nos é subtraído em beleza é ganho em exigência e seletividade, o que só contribui – triste constatação – para um exército pouco unido de mulheres velhas e sós.

“Que ódio dessa vaca velha que me trouxe essas lembranças no dia do meu aniversário”, pensava Lola.

À medida que vinha à sua mente aquela analogia entre a menopausa e a reforma, sua raiva crescia. A menopausa interferia na sua atividade sexual, a reforma na sua atividade produtiva. Ora, pensava, tantas vezes reclamei do meu trabalho, fiz planos como se a reforma fosse um prêmio. Mas, após 40 anos de trabalho, quando finalmente posso brindar à liberdade, sou acometida por esse sentimento de inferioridade. Minha inteligência não foi afetada. Minha capacidade produtiva está mantida, posso continuar trabalhando, ter uma atividade nova, se desejar. Mas não estou pronta para ser esquecida. Como qualquer mercadoria, sinto que também preciso de vitrine. Não sei se suporto uma dupla invisibilidade.

Talvez a liberdade da reforma não me faça bem, pensa Lola. Talvez seja melhor trabalhar um bocadinho mais, mesmo que voluntariamente. O trabalho gera burnout, mas a reforma também adoece. Há tantas colegas em depressão. Será que adoecem por terem parado de trabalhar ou por ficarem em casa dia após dia? Muitas são casadas. Quem aguenta trinta anos a ir todas as noites pra cama com o mesmo homem? Casamento devia ter prazo de validade. Mas há quem não aguente ficar só. Aquela outra pirou. Separou, deprimiu, voltou para o traste. Depois de ter-se livrado dele? Que idiotice! Ex-marido tem gosto de chuchu. Queria não. Melhor ficar só.

Lola sabia não ser a hora nem o lugar para tantas elucubrações. Tinha que prestar atenção às pessoas que estavam ali para celebrar o seu aniversário. Voltaria ao assunto, mas não podia ser ali. Ainda nem se sentia pronta. Sem que tenha sido a intenção da amiga, a menção à sua idade levara a essas divagações. Sobretudo a uma pergunta muito difícil de ser respondida, o que explicava a sua irritação. Sabia que da resposta dependeria viver bem ou mal o que lhe restava de vida e, covardemente, estava a abstraí-la. Naquele exato momento, estava a se perguntar se, para além do saber intelectual, tinha adquirido alguma sabedoria, porque era disso que estava a precisar. Thereza não tinha o direito de lhe ter provocado tamanho desconforto, de colocá-la contra si mesma, contra seus medos, contra a sua covardia, contra a sua solidão. Isso é coisa que amigo nos faça lembrar no dia do nosso aniversário? Fogo amigo é o que ela é.

Até sentar-se à mesa do restaurante, onde marcara encontro com alguns amigos para comemorar o seu aniversário, Lola fora movida pelos seus melhores sentimentos. A intenção era celebrar, se não a idade, mais um ano de vida. Agora, no entanto, aflorava em si um instinto assassino que apenas ela conhecia – já cometera outros assassinatos. Hoje, mataria de bom grado a sua amiga Thereza.

Finalmente, alguém a retira da cena do crime:

- Pessoal, vamos cantar parabéns pra Lola!

categoria-educação Ensino Pedagogia edicao-2025-11-20 (05)

A fraude da formação de professores

eclínio do ensino público, a escassez de professores, a sobrecarga de trabalho, os rácios desumanos de alunos por professor, a instabilidade dos professores contratados ou a falta geral de financiamento, apareceram os pedagogos para resolver o problema, propondo mais formação para docentes.

Li no El País que as Faculdades de Ciências da Educação vão propor ao Ministério da Educação e ao Ministério das Universidades que o Mestrado em Formação de Professores (MFP), atualmente com 60 créditos e a duração de um ano, seja alargado para 120 créditos, distribuídos por dois anos letivos, o que acarretará, além disso, um aumento de preço.

Para sustentar esta proposta, baseiam-se numa avaliação da OCDE que sugere que os professores espanhóis são “os que veem como menos sólida a formação que receberam da universidade para se dedicarem à profissão”. Parece-me óbvio que isto não implica, como se alega, que estes professores considerem que lhes faltou um ano adicional de formação pedagógica. Creio que implica precisamente o contrário: que estão muito descontentes com o Mestrado em Formação de Professores que foram obrigados a frequentar. O que as Faculdades de Educação deveriam pôr sobre a mesa são os relatórios de avaliação do MFP atual e os inquéritos de satisfação dos diplomados.

Foi isso mesmo que solicitei em 2008, quando surgiu a proposta de conversão do CAP, um minicurso de dois meses de “adaptação pedagógica”, no atual MFP (Mestrado em Educação). No meu artigo “Golpe de Estado na Academia”, denunciei então que, com a implementação do MFP, as Faculdades de Educação estavam a perpetrar um verdadeiro golpe de estado dentro da Universidade, obrigando todos os licenciados em cursos teóricos que tenham o ensino secundário como área de atuação profissional a frequentar um mestrado em pedagogia em vez de um mestrado na sua própria área de especialização. Para que esta mudança fizesse sentido, seria necessário demonstrar a relevância da formação pedagógica para os licenciados destes cursos teóricos, como, por exemplo, Matemática, Física, Química, Filosofia, Filologia ou História. Por esta razão, alguns de nós nunca deixámos de exigir que os relatórios de avaliação do infame CAP nos fossem apresentados, algo que nunca aconteceu. E não aconteceu porque todos sabiam que a utilidade do CAP era vista de forma muito negativa pelos professores do ensino secundário. Mas as Faculdades de Educação conseguiram o que queriam, e a sua incompetência com aquele cursinho de dois meses foi premiada com um mestrado de um ano.

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Agora, tentam a mesma jogada. Como os dados indicam que o MFP tem uma avaliação muito baixa, a solução passa por duplicar a sua duração e aumentar o preço. E desta vez, também não vão pedir a opinião dos formados. Nem sequer vão considerar inquéritos de satisfação, para começar, porque os existentes estão tão mal feitos que são inaceitáveis. Analisando o MFP da Universidade Complutense de Madrid (UCM), o último inquérito de satisfação publicado é do ano letivo de 2022/2023, em que o programa de mestrado mal foi aprovado (algo inédito para os programas de mestrado da UCM), mas descobriu-se que apenas 18,20% dos envolvidos responderam ao inquérito. Por outras palavras, estes grandes especialistas em avaliação não conseguiram sequer fazer uma autoavaliação convincente. A verdade é que a opinião de quem faz o MFP é muito negativa. Geralmente consideram-no uma perda de tempo, humilhante, infantil e ridícula, e dizem sentir muita vergonha alheia.

Apenas os estágios de ensino nas escolas secundárias são verdadeiramente valorizados, e estes são precisamente os conduzidos não por pedagogos, mas por professores especialistas na matéria. É absurdo pensar que alguém possa ensinar a ensinar Matemática, Filosofia ou História sem conhecer matemática, filosofia ou história. Ou que aqueles que nunca puseram os pés numa sala de aula vão ensinar o que é um adolescente a quem com eles convive cinco horas por dia, tudo isto enquanto tentam ensinar Matemática, Filosofia ou História.


Os pedagogos têm sido, desde há décadas, um verdadeiro cavalo de Troia no ensino público.

Os pedagogos têm sido, desde há décadas, um verdadeiro cavalo de Troia no ensino público. É incrível que, ainda por cima, se tenham conseguido disfarçar com uma roupagem progressista ou de esquerda, citando constantemente Paulo Freire. Sempre que os protestos das marés verdes denunciaram o declínio do ensino público, a escassez de professores, a sobrecarga de trabalho, os rácios desumanos de alunos por professor, a instabilidade dos professores contratados ou a falta geral de financiamento, apareceram os pedagogos para resolver o problema, propondo mais formação para docentes. O problema do ensino público já não é, por exemplo, Díaz Ayuso, mas que os professores não sabem ensinar porque não receberam formação suficiente. E tudo é altamente performativo: quanto mais a instituição se deteriora, mais difícil se torna ensinar, mais frequentemente a sala de aula se transforma num inferno e mais professores entram em baixa médica devido a depressão ou ansiedade. E depois concluem que é necessário alargar novamente a duração do MFP. É um insulto à inteligência. Claro que esta é a solução governamental mais barata. É a que é invariavelmente recomendada por aquela casta de tecnocratas que se autointitulam especialistas em educação e que, embora raramente tenham entrado numa sala de aula, têm assessorado todas as reformas educativas desde a LOGSE (Lei Geral de Organização do Sistema Educativo). Tudo menos perguntar aos professores a sua opinião sobre a natureza do problema.

E tudo menos recuperar um mínimo de bom senso. O maior e melhor incentivo para o conhecimento é o próprio conhecimento. O amor pelo conhecimento. É um princípio básico de Aristóteles. Os seres humanos desejam saber. Não lhes devemos impor o conhecimento à traição, enquanto estão a brincar à roda. Dito isto, a única forma de amar o conhecimento é conhecendo. Por isso, as Faculdades de Ciências da Educação são, pela sua própria existência, um contrassenso, e o melhor seria aboli-las.

É um contrassenso tentar ensinar a ensinar o conhecimento sem nunca ter experimentado o amor pelo conhecimento. Estes cursinhos de “formação de professores” são geralmente ministrados por pessoas que nunca conheceram o ensino, nem como professores, uma vez que não sabem nada que se possa ensinar, nem como alunos, porque frequentaram uma licenciatura inútil e vazia, onde não podiam aprender nada. São pessoas amarguradas e frustradas por definição, porque nunca experimentaram nenhuma das alegrias do conhecimento ou do ensino, aquela alegria com que um físico explica a física, um historiador, a história, um filólogo, a língua ou a literatura, um matemático, a matemática, um filósofo, a filosofia. Pessoas que vivem perplexas, tentando resolver um problema que não existe ou é insolúvel: como despertar o interesse pela matemática sem saber matemática, ou pela história ou a biologia sem saber nem história nem biologia. Não se apercebem de que a resposta sempre esteve mesmo à frente dos seus narizes: a matemática é o melhor incentivo para estudar matemática porque é fascinante. E a receita infalível é ter um professor que saiba matemática, adore matemática e que seja capaz de transmitir esse entusiasmo através da prática.

As Faculdades de Ciências da Educação são escolas para gente triste, que nunca experimentou a alegria de saber algo, porque não lhes ensinam nenhum saber, mas apenas como ensinar algo que não sabem. Um truque de magia, ou talvez uma fraude monumental. Como aquela que agora vão propor ao Ministério.

Mas a coisa não ficará por aqui; este é só o primeiro passo de um assalto muito maior. Na próxima legislatura, ousarão finalmente perseguir a sua verdadeira ambição, que já ponderam há algum tempo: que para se tornar professor do ensino secundário não seja necessário qualquer diploma para além de uma licenciatura em Ciências da Educação. Já vi este argumento ser apresentado, inclusive em certos círculos progressistas. Afinal, dizem, os conteúdos já estão na internet e, além disso, o futuro professor já os estudou no secundário. Agora, tudo o que resta é aprender a ensiná-los. E é para isso que serve uma licenciatura em Educação. Assim se consumará definitivamente o golpe de estado na academia, iniciado em 2008.

Tradução
António Simões do Paço
Publicado originalmente em El Diario, 2 de novembro de 2025 (www.eldiario.es).
Fotografia
Gonçalo Rocha

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Mais “flexibilidade” e mais precariedade

A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV), escudando-se na “adaptação ao direito europeu”, pretende alterar a legislação do setor dos transportes rodoviários, tornando ainda mais “flexíveis” os tempos de trabalho, que poderão superar as 60 horas semanais atualmente em vigor e aumentar em dois meses o período no qual é calculada a média de 48 horas de trabalho semanal.

Está em curso a maior ofensiva contra os direitos dos trabalhadores por parte do Governo AD, que conta com o conluio dos partidos de direita, nomeadamente o Chega, que tanto tem apregoado intenção de ajudar os motoristas de mercadorias na resolução de várias matérias (como a do estatuto de profissão de desgaste rápido), mas simultaneamente tem entre os seus principais financiadores a Transportes Paulo Duarte, bem como o líder do Grupo Barraqueiro, Humberto Pedrosa, tornando a posição deste partido no que concerne ao seu alegado apoio às causas dos motoristas uma mentira.

Esta ofensiva visa aniquilar direitos laborais básicos como o direito à greve através da maximização dos serviços mínimos, subjugar a contratação coletiva, bem como simplificar os despedimentos, entre outros. Ou seja, a palavra de ordem da direita é: precariedade.

Pretendem ainda, através da Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV), alterar a legislação do setor dos transportes rodoviários, tornando ainda mais “flexíveis” os tempos de trabalho. Entre estas alterações estão a possibilidade de superar as 60 horas semanais (atualmente em vigor), aumentar em dois meses o período no qual é calculada a média de 48 horas de trabalho semanal, passando este de 4 para 6 meses, etc. Ou seja, no caso dos motoristas, existem atualmente duas frentes de batalha, para as quais o sindicato SIMMPER pretende encontrar soluções pacificas, através do diálogo e da negociação, caso seja possível.

Encontra-se simultaneamente a decorrer a negociação do Contrato Coletivo de Trabalho (CCTV) que irá entrar em vigor a 1 de janeiro de 2026, para o qual o SIMMPER já apresentou a sua proposta e aguarda parecer das associações patronais, tendo também sido solicitada uma reunião com a participação de todos os outorgantes da convenção coletiva de trabalho.

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Portugal: o que os números confessam​

O XXV Governo, liderado por Luís Montenegro, tem insistido num discurso de crescimento económico, aumento exponencial dos salários e pleno emprego. A narrativa oficial apresenta um país em transformação positiva, mas os números divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) revelam uma realidade distinta, conforme salientado em publicação recente do economista Eugénio Rosa.

No dia 17 de outubro de 2025, o INE comunicou que 2,1 milhões de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza. O mesmo organismo revelou que 66,1% dos trabalhadores recebem um salário bruto inferior a 1000 euros por mês e que apenas 18,5% auferem entre 1001 e 1500 euros brutos.

Os dados sobre o emprego também levantam questões. O INE reporta 326,6 mil desempregados, mas exclui da contagem os chamados “inativos disponíveis”. Se incluídos, o total sobe para 451,7 mil pessoas sem trabalho, o que corresponde a uma taxa de desemprego de 7,85%, superior à taxa oficial de 5,8%.

Nos registos do IEFP, a discrepância é evidente. No fim de dezembro de 2024, estavam inscritos 335.665 desempregados. Entre janeiro e setembro de 2025, inscreveram-se mais 407.903 pessoas, e foram colocadas 73.266 em postos de trabalho. O cálculo direto apontaria para 670.302 inscritos no final de setembro, contudo, o Boletim Estatístico oficial indica apenas 302.600 inscritos.

Portugal apresenta ainda a 12ª taxa de pobreza mais elevada da União Europeia e um fosso salarial de -20% face à média europeia, fatores que contribuem para a emigração. Em 2024, o stock de capital físico (máquinas, edifícios, etc.) por trabalhador era de 117.000 euros, enquanto a média da União Europeia atingia 204.000 euros.

Portugal continua marcado pelos baixos salários e por uma estrutura dominada por micro, pequenas e médias empresas. Em 2025, existiam cerca de 1,53 milhões de empresas ativas, das quais 99,9% eram PME. Dentro deste universo, 96% eram microempresas (até 9 trabalhadores) e 3% pequenas empresas (10 a 49 trabalhadores), segundo dados do INE.

Uma parte significativa destas pequenas empresas corresponde a subsidiárias de grandes grupos ou do Estado, como as empresas municipais criadas para servir autarquias.

Os trabalhadores não podem ser responsabilizados pela persistência da pobreza ou pelo atraso económico. A taxa elevada de pobreza e o fosso salarial face à União Europeia não resultam da falta de capacidade de trabalho ou de produção dos trabalhadores, mas do atraso e ineficácia dos detentores do capital. As estatísticas mostram que as empresas não estão preocupadas com as condições de vida dos trabalhadores e que os lucros e benefícios fiscais das grandes empresas não se traduzem nem em aumentos salariais nem em ganhos de produtividade.

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Isto não é o Bangladesh
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Fogo amigo
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Cristina Vieira, a esfinge do Chega

Estou a retrabalhar toda a obra do Fernando Pessoa e a dar-lhe um cunho pessoal.

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– Quantos anos, Lola? – Estou a te apanhar, Thereza. Faltam só dez. – Incomodo-te ao perguntar quantos anos comemoras? – Não, o que me incomoda é me fazeres uma pergunta que nós duas sabemos a resposta. Incomoda-me a tua necessidade de insistir em lembrar que tenho 60 anos. Por acaso, eu

Maria Augusta Tavares
A fraude da formação de professores
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A fraude da formação de professores

Sempre que se denunciou o declínio do ensino público, a escassez de professores, a sobrecarga de trabalho, os rácios desumanos de alunos por professor, a instabilidade dos professores contratados ou a falta geral de financiamento, apareceram os pedagogos para resolver o problema

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Mais “flexibilidade” e mais precariedade

A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV), escudando-se na “adaptação ao direito europeu”, pretende alterar a legislação do setor dos transportes rodoviários, tornando ainda mais “flexíveis” os tempos de trabalho, que poderão superar as 60 horas semanais

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Não comemos painéis solares

A Lightsource BP, subsidiária da petrolífera BP, pretende instalar uma enorme central fotovoltaica numa área vedada de aproximadamente 1737 ha, distribuída pelos concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova. A população tem-se manifestado contra. O Maio analisa o processo e ouviu-a.

Jornal Maio

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