Desigualdade

Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática
Clima Desigualdade Guerra categoria-um livro edicao-2026-07-23 (37)

Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática

Entre o colapso climático, a inação política própria de um sistema económico que o sustenta e a ascensão da extrema-direita, Quebrar em caso de emergência climática, escrito a várias mãos pelo coletivo Climáximo

Alice Faro e Santos
José. Da Silva
categoria-crónica Desigualdade Escola Pedagogia edicao-2025-11-06 (03)

José. Da Silva

Estudei em escolas que não tinham livros. A primeira, entre todas a mais precária, não tinha nome, não havia nada nas paredes que indicasse ser uma escola. Havia apenas uma professora e crianças. Isso parecia bastar.

Maria Augusta Tavares
Clima Desigualdade Guerra categoria-um livro edicao-2026-07-23 (37)

Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática

Entre o colapso climático, a inação política própria de um sistema económico que o sustenta e a ascensão da extrema-direita, Quebrar em caso de emergência climática, escrito a várias mãos pelo coletivo Climáximo a convite da editora Tigre de Papel, desafia-nos a olhar de frente as catástrofes climáticas que têm acossado o planeta e a sonhar com o fim do capitalismo como a revolução que ainda pode devolver esperança ao futuro.

A emergência presente no título é um verdadeiro apelo à ação. A emergência em responder ao colapso é real: “A perspetiva de futuro sem uma revolução global resultará no fim do clima estável que permitiu o florescimento da atual civilização humana” (p. 23). 

Numa das suas obras1, Slavoj Žižek cita Orwell a propósito da questão das diferenças de classe (todos nós denunciamos as distinções de classe, mas são muito poucos os que querem seriamente aboli-las) para ilustrar que a possibilidade da transformação é evocada para garantir que a ação transformadora não terá lugar. Nesta linha de pensamento, e muito resumidamente, “a verdadeira coragem não é imaginarmos uma alternativa, mas aceitarmos as consequências do facto de não haver qualquer alternativa claramente discernível, o sonho de uma alternativa é um sintoma de cobardia teórica, funcionando com um fetiche que nos impede de pensarmos até ao fim o beco sem saída da nossa situação”. Este livro, Quebrar em caso de emergência climática, transporta-nos claramente até aqui, dá-nos essa imagem. E fá-lo quer no plano geral – “Não há mais tempo para a ilusão de que governos, instituições e empresas estão a fazer algo que não seja levar-nos para o fundo” (p. 9) –, quer no plano concreto: “Os Estados Unidos, o maior produtor mundial de petróleo e gás, o segundo produtor mundial de carvão e o maior emissor de gases com efeito de estufa da história, abandonam o acordo, em 2025, pela segunda vez” (p. 10). “Depois de invadir a Venezuela, Trump anunciou “o império fóssil vinha para tomar as reservas petrolíferas e determinar o rumo da sociedade da Venezuela” (p. 10).

Com este cenário, a verdadeira declaração subversiva de independência parte do pressuposto de que “pensar é aprender de novo a ver e a dirigir a atenção, a renomear a realidade”2, uma condição suficiente mas também necessária para ler este livro, que nos transmite uma sinceridade comovente ao reconhecer a responsabilidade individual e que, com toda a clareza e sem eufemismos, renomeia a realidade através de três pontos: o sistema capitalista provocou a crise climática; as elites estão a executar uma guerra sem precedentes; qualquer pessoa viva tem o dever moral, material e histórico de agir para parar esta guerra. Ou seja, o caos climático e a guerra não surgem só do ponto de vista interseccional, mas da própria essência e o nosso dever moral deve impelir-nos à ação. É, pois, esse convite que não só preenche as páginas deste livro, mas nos faz levantar da cadeira e sair a correr. Não para fugir, mas para agir. Aliás, ao introduzirem-se, habilmente, relatos de ação direta, a visualização mental da possibilidade de ação é inequívoca.

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Este livro possui, também, uma importante dimensão educativa. Se existe um campo em que a promessa de transformação é mais reiterada, é precisamente na educação, apresentada como motor de mobilidade social, como condição de emancipação, como resposta às desigualdades. E, no entanto, o que se observa é adestramento do seu papel. A Educação Ambiental é atirada para o desenvolvimento de competências utilitárias, para a adaptabilidade, no fundo, para a autorresponsabilização. O coletivo Climáximo, com esta escrita de vertente pedagógica, alia rigor conceptual e inteligibilidade, binómio próprio de quem domina o tema. O livro fornece toda a lexicologia fundamental para pensarmos no sentido de renomear a realidade: gases com efeito de estufa (GEE) , aquecimento global, o que é o clima, orçamento de carbono, neutralidade carbónica, ou a importância do fim dos combustíveis fósseis até 2030, a emergência! Cimenta as definições em dados concretos e ilustrados: “A Terra já aqueceu e arrefeceu antes, assim como variaram também os níveis de GEE na atmosfera, mas é precisamente pelo facto de as alterações no clima terrestre nunca terem sofrido alterações tão grandes em tão pouco tempo que estamos perante um evento histórico dramático” (p. 28). Faz conexões com a nossa vida atual: “Há ainda importantes impactos sociais e económicos, com consequências diretas e indiretas nos meios de subsistência e condições de povos inteiros, e exprimindo‑se frequentemente através de um aumento do custo de vida diretamente relacionado com a escassez (a ‘mão invisível’ do mercado a funcionar: menos comida implica comida mais cara). Pois sim, a crise climática já está a ter impacto na tua vida, mesmo que ainda não tenhas parado um pouco para pensar nela” (p. 35). Dá-nos uma visão utilitarista3 da ação em termos de ativismo, visível na forma como comparam o ganho da ação individual com a luta ativista. Num dos momentos do livro sustentam que um “monge franciscano climático” (p. 113), mesmo adotando um estilo de vida extremamente sóbrio, reduziria cerca de duas toneladas de emissões relativamente à média portuguesa, enquanto uma pessoa envolvida na luta antipetróleo poderia contribuir para evitar emissões significativamente superiores. 

Tudo isto pode parecer uma distopia – exemplo que dão no livro, com o filme Don’t look up (Não Olhem para Cima) –, mas não é. “Foi por isso mesmo que estas elites apostaram na extrema-direita como a camada violenta que garantirá a continuação da exploração, cada vez mais exacerbada, até chegarmos a pontos de colapso” (p. 41). Na mesma linha de Žižek, o Climáximo adverte para o aceleracionismo que convém à extrema-direita “Eles vieram para manter a exploração, para a acelerar até ao último momento” (p. 10). Esta leitura encontra eco nas reflexões de Naomi Klein, que alerta para a existência de um “sobrevivencialismo monstruoso e supremacista” por parte dos magnatas da tecnologia. Por sua vez, Leonor Canadas, do coletivo Climáximo, relembra, numa sessão de apresentação, que “estamos mais próximas de ser refugiadas climáticas do que ser bilionárias”. A célebre frase “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” introduz uma secção preciosa de desconstrução da inevitabilidade da vida no seio do sistema capitalista e deste éter invisível, bem como a responsabilidade sobre a perpetuação da crise climática, não esquecendo que “o modelo energético fóssil tornou‑se a espinha dorsal da dominação colonial” (p. 78).

A formulação da frase “a guerra mata e é por isso que o debate sobre a guerra é tão intenso”4 pode ajudar a compreender a força com que Quebrar em caso de emergência climática evoca as vítimas do inferno climático e descreve a crise atual em termos de guerra. Define-se urgência suprema como o momento em que os valores mais profundos de uma comunidade e a sua própria sobrevivência coletiva se encontram sob ameaça iminente, exigindo decisões extraordinárias. É precisamente nesse estado de exceção que o coletivo Climáximo situa a emergência climática, e a sua conexão com Gaza. Gaza interpela-nos porque ali se revela, em toda a sua nudez, uma forma de poder que ameaça reorganizar o mundo inteiro, uma política de desenraizamento5 da própria condição humana, ou seja, uma espécie de vida pós-humana. É esta dissociação de nós mesmos que surge no livro e da qual emerge a referência à crise dos cuidados, conceito de Nancy Fraser, “como uma crescente dificuldade de dar resposta às necessidades de cuidados e de reprodução das comunidades” (p. 90). Pensar a interrupção seria, então, perguntar-nos que laços, que memórias e que formas de enraizamento continuam a ser capazes de impor um limite à força. No documentário, Com a Alma na Mão, Caminha, Fatem diz-nos que “antes da guerra só tirava fotografias a coisas belas, agora é só destruição. Mas é uma forma de ainda procurar vida no meio da morte”.

Há esperança? Quebrar em caso de emergência climática responde sem hesitação: a revolução. “É impossível descrever o que acontecerá sem usar a palavra revolução. As petrolíferas sabem‑no, os governos sabem‑no, os ultrarricos sabem‑no, e já é mais que tempo de nós, classe trabalhadora, o sabermos” (p. 98). David Harvey afirma que o capital nunca cairá por si mesmo. Haverá que empurrá-lo. É nesta convicção que o coletivo Climáximo apresenta um Plano de Desarmamento e um Plano de Paz. De que precisamos mais?


1Žižek, A Coragem do Desespero, Relógio d’Água, 2017.
2Amador Fernández-Savater, La batalla del pensamiento, NED Ediciones, abril de 2026.
3Na perspetiva utilitarista de justiça a deliberação de uma ação a realizar tem em vista o maior alcance de resultados.
4Michael Walzer no livro A Guerra em Debate, Cotovia 2004.
5Amador Fernández-Savater.

categoria-crónica Desigualdade Escola Pedagogia edicao-2025-11-06 (03)

José. Da Silva

Estudei em escolas que não tinham livros. A primeira, entre todas a mais precária, não tinha nome, não havia nada nas paredes que indicasse ser uma escola. Havia apenas uma professora e crianças. Isso parecia bastar. Cheguei lá e disse

- Eu quero estudar.
A professora, Dona Isabel, apontou com o beiço inferior o caixote mais próximo, indicando que eu podia sentar.
- Como é seu nome?
- José, Zé.
- José do quê?
- Da Silva.
- Como é o nome do seu pai?
- Joaquim. Joaquim do quê?
- Num sei não. O povo chama ele de Seu Quinzinho.
- E sua mãe?
- Maria. Maria das Dores.
- De onde veio esse Silva no seu nome?
- Onde eu moro, todo mundo que sabe assinar o nome é Silva. Pensei que eu também era.
- Você tem registro de nascimento?
- Num sei não.
- Então, quando você voltar pra casa, pergunte aos seus pais. Diga que é o papel que tem o seu nome, o dia que você nasceu, o nome do seu pai e da sua mãe. Cada família tem um sobrenome que identifica todas as pessoas nascidas do mesmo pai e da mesma mãe. Às vezes, se repete, como nos Silva que você conhece, mas isso não significa que a humanidade toda é Silva.
- Pensei que era igual. Todo mundo.
- Quando você estudar matemática vai perceber o que é igual. Não se assuste, o igual é fácil. Difícil é entender e aceitar o desigual.

Fiquei de orelha em pé. Não entendi, mas sabia que era ruim. O jeito como a professora falava me lembrava ave de mau agouro. Será que era como ter dor de barriga? Frieira? Sarna? Dor de dente? Tudo isso eu conhecia, já sei que aguento. Só não aguento passar fome. Será que o desigual tem a ver com a fome? A barriga parecia acompanhar meus pensamentos, sentia as tripas a me avisarem que se eu me atrasasse para o almoço, só ia ter comida à boquinha da noite. A regra era estar em casa na hora de comer. Eu não havia dito que ia à escola. Eu nem sabia que ia. Há dias, passava em frente, olhava pra dentro, tinha vergonha de entrar. Tomei coragem, entrei, agora tenho que ficar até o fim. A professora disse que só acaba no pingo do meio-dia, a mesma hora que sai o feijão na minha casa.

Vou ficar com fome e ainda corro o risco de levar uma surra do meu pai. Até eu poder explicar que estava na escola, o chicote já cumpriu a sua função. Só depois, ele vai sair de casa, pisando duro, falando entre os dentes, até bater à porta de Dona Isabel, para saber se eu falei a verdade. Vai voltar mais calmo. Devia, ao menos, me pedir desculpas. Só na minha cabeça essa parvoíce. Ele jamais admite estar errado. Na sua pedagogia autoritária, os filhos são semelhantes ao seu carro de bois, cujos ajustes os faz a ferro e fogo. Aquele abraço do ferro em volta da roda de madeira só é possível graças ao calor, que aquece as suas moléculas e o alarga; os bois são domesticados, encangados e obrigados a marcharem lado a lado, no mesmo compasso. Cabe ao carreiro, meu pai, ter domínio sobre o processo de fabricação do carro, tanger os bois, se preciso, usar o chicote ou a vara de ferrão. Ele não saberia explicar causa e efeito, mas sabe que funciona. É o método que conhece. Aprendeu com seu pai. Por que não aplicar o mesmo aos seus filhos? Parece-lhe justo.

Essa ordem supõe os mais fortes sobre os mais fracos. De onde vem essa força? Entre os homens, embora a força física às vezes prevaleça, em geral, a relação de poder tem outra natureza. Ter mais força que meu pai não me autoriza a revidar quando ele me bate. Tampouco posso me rebelar contra as autoridades constituídas, quando me sinto injustiçado. O negro, por exemplo, por maior que seja a sua força, quando é agredido pelo policial apenas se encolhe, tenta se proteger do cassetete com as mãos; a mulher violentada, quando pode, grita, esperneia, mas não é invulgar a sociedade desculpar o agressor; o homossexual insultado foge, se esconde, muitas vezes é ridicularizado. E quando eu paro e estico o olho para o prato de quem come na esplanada, o garçom me pega pelo braço e sem olhar para minha cara de fome, diz: “Fora daqui!” Acho que era disso que a professora falava.

Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática
José. Da Silva
Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática
Clima Desigualdade Guerra categoria-um livro edicao-2026-07-23 (37)

Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática

Entre o colapso climático, a inação política própria de um sistema económico que o sustenta e a ascensão da extrema-direita, Quebrar em caso de emergência climática, escrito a várias mãos pelo coletivo Climáximo

Alice Faro e Santos
José. Da Silva
categoria-crónica Desigualdade Escola Pedagogia edicao-2025-11-06 (03)

José. Da Silva

Estudei em escolas que não tinham livros. A primeira, entre todas a mais precária, não tinha nome, não havia nada nas paredes que indicasse ser uma escola. Havia apenas uma professora e crianças. Isso parecia bastar.

Maria Augusta Tavares

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