Comunismo

O movimento operário entre reforma e revolução
categoria-história edicao-2026-10-08 (44) Cartismo Cooperativismo Socialismo Comunismo Marx Engels

O movimento operário entre reforma e revolução

Em pouco mais de meio século tinha-se evoluído das primeiras e pequenas organizações operárias clandestinas até organizações maiores e à formulação de uma doutrina que propunha a constituição do proletariado como “classe dominante”.

Osvaldo Coggiola
António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá
categoria-um livro Gonçalves Correia Anarquismo Comunismo Alentejo Algarve edicao-2026-09-24 (42)

António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá

Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, a editora Traça, sediada no Algarve, republica A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, de António Gonçalves Correia, “otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos”.

João Carlos Louçã
Fritz Platten, o homem que salvou Lenine
Comunismo Lenine Platten categoria-história edicao-2026-05-14 (27)

Fritz Platten, o homem que salvou Lenine

Sem Fritz Platten (1883-1942), a história mundial teria seguido um curso diferente. Este comunista suíço é hoje principalmente recordado como o organizador do “vagão blindado” em que Lenine e os seus camaradas atravessaram a Alemanha, permitindo-lhes participar na Revolução Russa./en

Alex de Jong
categoria-história edicao-2026-10-08 (44) Cartismo Cooperativismo Socialismo Comunismo Marx Engels

O movimento operário entre reforma e revolução

William Edward Kilburn, Great Char­tist meeting at Kenning­ton, 10 April 1848©-Royal-Collection-Enterprises-Limited-2026--Royal-Collection-Trust

Em meados do século XIX, o avanço da produção industrial e a nova legalidade relativa para a ação operária criavam a possibilidade para iniciativas reformistas, oriundas da própria classe operária, dentro do sistema vigente. Nas condições criadas pela expansão mundial do mercado capitalista, setores de trabalhadores começaram a tentar contorná-lo, escapando ao destino cruel reservado à classe operária. Na Inglaterra, vinte e oito tecelões entraram para a história como os Pioneiros de Rochdale, iniciando o movimento que seria conhecido como cooperativismo, lançado em 1844 com a constituição da primeira cooperativa de consumo. Rapidamente, o cooperativismo estendeu-se para a Europa continental. Os dirigentes cartistas ingleses mais importantes criticaram-no de forma severa, o que não impediu que o cooperativismo progredisse de maneira cada vez mais rápida. 

O cooperativismo era uma alternativa à luta de classes. Guido de Ruggiero, historiador liberal, resumiu assim o seu conteúdo:

“Marx imaginava a sociedade futura como unificada no trabalho, mas via a sociedade do seu tempo dividida em duas classes opostas, e acreditava acelerar a vinda da unidade estimulando em todos os sentidos essa cisão para provocar uma catástrofe resolutiva. Com isso acabou por agravar o mal presente sem conseguir aproximar o utópico bem futuro. Das suas lições os operários aprenderam só a parte que ensinava a organizar a luta contra o adversário, esquecendo ou perdendo da vista o facto de que, por cima de qualquer contingência da luta, existiu sempre uma mais elevada solidariedade de relações entre trabalho e capital... A realidade histórica, sempre mais rica e complexa do que a imaginação, criou eventos destinados a moderar ou desviar o impulso para a catástrofe final. Da própria organização do trabalho surgiu o movimento cooperativista que unificou, ainda em zonas muito restritas, as funções de capital e trabalho, fazendo os operários participarem dos frutos do seu capital”.

O problema consistia em que esse capital não era seu e em que, com o desenvolvimento capitalista, essas “zonas” se restringiram. No entanto, os seus inegáveis sucessos fizeram que um contingente significativo de trabalhadores se afastasse da luta de classes, e esse foi o motivo e o objeto da crítica dos socialistas cartistas ao cooperativismo. 

Cooperativismo, sindicalismo e cartismo (ação política) mostravam diversas faces da ação operária. O cartismo antecipou debates posteriores do movimento operário, ao cindir-se em duas alas: 1) A ala partidária da força moral, confiante numa aliança com setores da burguesia e na pressão moral da justeza das suas reivindicações, que os levaria à vitória; esta ala baseava a sua ação no Sul da Inglaterra, onde predominavam os velhos trabalhos artesanais; 2) A ala partidária da força física, responsável pela organização das greves e convencida de que só a ação direta dos operários os levaria ao triunfo; a sua base de recrutamento era o Norte industrial, especialmente os operários de Manchester, núcleo da revolução industrial e do proletariado fabril moderno. A Carta, assim, antecipou debates ulteriores sobre reformismo e revolução. Em 1842, no auge do cartismo, foi feita uma petição que exigia o sufrágio universal e a resolução de problemas económicos prementes. Apesar dos três milhões de assinaturas que a acompanharam, a petição foi recusada pelo Parlamento inglês. 

Nem a reforma eleitoral, nem o desenvolvimento do movimento cartista interessaram, porém, Robert Owen, para quem o sufrágio universal era uma simples “mania popular”. A pressão e a ação no Parlamento não obteriam, para Owen, alterações decisivas no sistema de produção, baseado na propriedade privada. Mas a classe operária era já uma presença incontornável no cenário político e social: na década de 1840, nas palavras de Eric Hobsbawm,

“a história europeia assumiu uma nova dimensão: o problema social, ou melhor, a revolução social em potência encontrava expressão típica no fenómeno do proletariado. Sobre a base de uma classe operária que crescia e se mobilizava, era agora possível uma nova e mais significativa fusão da experiência e das teorias jacobino-revolucionárias-comunistas com as socialistas-associacionistas”.

No cartaz de convocação da manifestação cartista de 10 abril de 1848, lia-se: “somos os escravos do capital, pedimos proteção para o nosso trabalho”. Do outro lado do canal da Mancha, a agitação operária encontrava também os seus veículos. Em 1840, na França, o sapateiro Pierre-Joseph Proudhon publicou O que é Propriedade?, panfleto de enorme repercussão, onde respondia à pergunta do título com uma resposta simples: “É um roubo.” Baseando-se em informações históricas, jurídicas e económicas, Proudhon procurava demonstrar que toda a propriedade tem na sua raiz um ato de roubo, atacando o conceito de renda, que seria o direito de exigir algo a troco de nada. Proudhon identificava uma parcela da população como produtores de riqueza (os trabalhadores) e outra como os seus usurpadores (os proprietários). Concluiu que a propriedade era impossível, só podendo existir como ficção jurídica imposta pela força através do Estado: os cidadãos só estariam livres da imposição da propriedade numa sociedade onde o Estado não existisse. Proudhon veio a ser, por isso, considerado o pai ideológico do anarquismo: ele, porém, era adversário de qualquer espécie de violência e do próprio conceito de revolução. 

No seu relatório a respeito desse festival [comemorativo da proclamação da República Francesa de 1792], Engels escrevia que “atualmente a democracia é o comunismo.

No festival operário comemorativo da proclamação da República Francesa de 1792, celebrado em Londres em 1845, o manifesto de convocação declarou que “os democratas de todos os países desejam que a igualdade à qual aspirou a Revolução Francesa renasça na França e se estenda a toda a Europa”. No seu relatório a respeito desse festival, Engels escrevia que “atualmente a democracia é o comunismo. A democracia transformou-se em princípio proletário, princípio de massas”. A Liga dos Justos tinha organizado o festival junto com os cartistas ingleses e exilados revolucionários continentais. Em 1847, a última onda de atividade cartista conquistou a jornada de trabalho de dez horas: a primeira vitória “sindical” de alcance histórico da classe operária foi produto de um movimento claramente político. O Ten Hour Act culminou uma batalha de quase duas décadas (o Ten Hour Movement). A lei tornou-se possível graças à aliança tácita da burguesia industrial com a classe operária, em oposição à aristocracia latifundiária. Em troca da jornada de dez horas de trabalho, as classes trabalhadoras apoiaram os esforços dos representantes liberais para abolir a proteção cerealífera (o que era contrário aos interesses dos senhores da terra). 

A restrição legal da jornada de trabalho enfrentou resistência dos proprietários de fábricas nos primeiros momentos da sua implantação. Muitos destes colocavam-se acima da lei, além de contarem com a recomendação dos juízes (originários da classe capitalista) para que os inspetores de fábrica do Estado fizessem “vista grossa à (não) aplicação da lei”. A “jornada de trabalho legalmente limitada”, segundo Marx, apenas “esclarece quando termina o tempo que o trabalhador vende e quando começa o tempo que a ele mesmo pertence”.

Em finais de 1848, depois do meeting de Kennington Commons, o movimento cartista já estava esfacelado e derrotado. No final dessa década, o movimento dividiu-se: os seus membros intelectuais e de classe média agruparam-se na Associação Nacional para a Reforma Parlamentar e Financeira; os seus membros operários, por sua vez, apoiaram a Associação Nacional da Carta (dirigida por Ernest Jones e George Harney) e a Liga Nacional da Reforma (dirigida por Bronterre O’Brien), ambas de programa socialista. Harney e Jones mantinham estreito contacto com os exilados operários e artesãos alemães, junto dos quais Marx e Engels gozavam de ampla influência.

Com o declínio e o fim do cartismo fechou-se a primeira etapa histórica do movimento operário, iniciada em 1795 e com centro na Inglaterra, durante a qual viveu e se desenvolveu a tradição de um radicalismo popular. Segundo Edoardo Grendi, “faltou a direção formativa e educativa de um partido político operário. Os frutos colhidos pelo sindicalismo só foram possíveis devido ao privilégio único (da Inglaterra) de uma economia imperial”. 

A sua importância histórica pode ser medida pelo facto de ter lançado e dado uma base de massas a duas reivindicações centrais do operariado, que teriam influência decisiva em futuros movimentos e na própria estruturação contemporânea das sociedades capitalistas: a) a redução da jornada de trabalho; b) o sufrágio universal e secreto. Para Georges Rudé,

“o cartismo foi, de facto, um movimento popular rico e multifacetado, herdeiro de uma tradição política radical, mas também filho das más colheitas e da pobreza, das habitações precárias, da falta de saúde e do emprego que acompanharam o crescimento de uma nova sociedade industrial”. 

O impacto das reivindicações cartistas, por outro lado, foi internacional, pois serviu de referência a movimentos operários de outros países. Em 1848, a questão do sufrágio universal foi um dos componentes da onda revolucionária que abrangeu toda a Europa. A redução da jornada de trabalho (para oito horas), por sua vez, seria a grande campanha em que se basearia internacionalmente a estruturação de partidos operários de massas. No entanto, a tentativa de usar o modelo sindicalista ou mutualista não somente para lutar por melhores salários, mas também para derrotar a sociedade existente e estabelecer uma nova, feita na Inglaterra entre 1829 e 1834, e durante o cartismo, fracassou, o que destruiu precocemente em Inglaterra o movimento proletário revolucionário, predispondo-o daí em diante para uma atuação reformista. 

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A formulação programática mais transcendente foi o Manifesto Comunista, publicado em finais de fevereiro de 1848, em Londres, em língua alemã. Antes disso, Friedrich Engels tinha dado a conhecer um pequeno “catecismo” conhecido como Princípios do Comunismo. Marx levou os originais do “Manifesto” de Bruxelas, sua residência de exílio depois de expulso da Alemanha, para Londres, na última semana de fevereiro de 1848. A urgência foi ditada pela explosão da “revolução de fevereiro” em França. O Manifesto tinha sido encomendado pela Liga dos Justos, organização composta basicamente por operários e artesãos alemães exilados, ao próprio Marx. Quando o texto foi encomendado, em novembro de 1847, a opinião dominante era que a Europa estava em vésperas de uma revolução. Apesar do sentimento de urgência, Marx demorou a entregar o documento. No final de janeiro de 1848, a direção da Liga, residente em Londres, enviou a Marx uma carta impaciente:

“Informamos que o Comitê Regional de Bruxelas deverá proceder imediatamente à notificação do cidadão Marx de que se o Manifesto do Partido Comunista, cuja redação o mesmo consentiu em realizar, não chegar a Londres até terça-feira, 1º de fevereiro, maiores medidas serão tomadas contra ele. Caso o cidadão Marx não escreva o ‘Manifesto’, o Comitê Central exige a imediata devolução dos documentos que lhe foram cedidos pelo Congresso (da Liga dos Comunistas).”

A carta estava assinada por Bauer, Schapper e Moll, três operários alemães exilados em Londres, dirigentes da Liga. Marx apressou-se a concluir o documento solicitado. A publicação do Manifesto, em fevereiro de 1848, coincidiu com o início da esperada revolução. O “comunismo” diferenciava-se do “socialismo”, que era considerado uma doutrina burguesa identificada com os esquemas reformistas experimentais e utópicos dos ideólogos pequeno-burgueses. Os comunistas eram aqueles que estavam a favor do derrube revolucionário da ordem existente e do estabelecimento de uma sociedade igualitária. Em pouco mais de meio século tinha-se evoluído das primeiras e pequenas organizações operárias clandestinas até organizações maiores e à formulação de uma doutrina que propunha a constituição do proletariado como “classe dominante”. O movimento operário inglês não criou um modelo geral, mas evidenciou tendências e características que estiveram presentes em todos os países com desenvolvimento capitalista industrial. Desde os seus primórdios, o movimento operário (inglês, francês e alemão, nesta primeira fase da sua história) teve consciência de expressar as aspirações de uma classe universal.

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António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá

A inabalável confiança num futuro de prosperidade e justiça será aquilo que, para o leitor na atualidade, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura poderá ser relevante. Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, após ter sido uma intervenção do seu autor perante o Congresso dos Trabalhadores Rurais, em dezembro de 1922, em Évora, o texto revela o pensamento de António Gonçalves Correia, otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos.

No final da Grande Guerra, o contágio da revolução soviética torna-se evidente e há um surto grevista que tem a particularidade de colocar a questão do poder e da alteração de regime. A alternativa ao modo de produção capitalista era já visível na Rússia e a revolução estava na ordem do dia em muitos países europeus. Na Finlândia e Países Baixos em 1918, a revolução de novembro na Alemanha em 1918/19, as Repúblicas Soviéticas da Baviera, da Hungria e da Eslováquia em 1919, o Triénio Bolchevique Andaluz entre 1918 e 1920 são exemplos desse surto emancipatório que varria a Europa e colocava na ordem do dia a tomada do poder pelas classes trabalhadoras. Em agosto de 1920, em Turim, a Federação das Indústrias Metalúrgicas entra numa greve de duração indeterminada. As fábricas são ocupadas e os trabalhadores formam milícias armadas para defender a greve e o controlo operário que pretendem assegurar. Em muitos casos, mantêm as fábricas em funcionamento na expectativa de que o movimento grevista desse origem a um processo revolucionário que pudesse dispensar os capitalistas e alastrar ao resto do país. Na Alemanha, uma greve geral, em março do mesmo ano, barra o caminho ao fascismo ascendente numa situação revolucionária que é derrotada pela social-democracia. No Ruhr é fundada uma comuna operária, sem a força suficiente para evitar a derrota. Na Suíça e em França, movimentos grevistas fazem reivindicações sobre horários de trabalho, salário, condições de trabalho e de descanso, participação operária na gestão, assegurando conquistas fundamentais. Uma vaga de greves e esperança revolucionária despontava e parecia querer seguir o exemplo da revolução soviética. O ideal comunista ao alcance da vontade e a possibilidade de, finalmente, um poder proletário que garantisse que o Estado era um anacronismo para terminar. A guerra que prolongou o século XIX até ao final da segunda década do século XX terminaria com a instauração da nova sociedade comunista. A guerra civil que a revolução soviética travava nesse instante era já uma guerra entre classes, com os imperialismos a defender os seus interesses contra uma revolução que triunfava.

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Portugal, na turbulência da I República, não escapou a essa vaga grevista ou ao impacto da revolução de 1917. Nesses primeiros anos do século que começava a contar os mortos da Grande Guerra e da pneumónica, trabalhadores e trabalhadoras, do campo e das indústrias, usaram a greve como arma de luta por melhores condições de vida. A Comuna de Paris com o seu ideal de República Universal, assim como a revolução soviética, foram inspirações fundamentais para esses momentos de luta e de auto-organização. 

Desse mundo em que viveu e sonhou, Gonçalves Correia olha para o futuro imaginado de uma classe social que aspirava à vitória após tomar consciência da sua força incontornável na indústria nascente, na agricultura extensiva, em todos os setores da vida em que a desigualdade era regra, a divisão entre senhores e proletários, a norma da sociedade devastada pela pneumónica e pela Grande Guerra na Europa. Essa confiança em que o porvir seria inevitavelmente um tempo de paz e justiça, de igualdade e respeito pelas outras pessoas, e além delas, pelo planeta e todos os seus seres, é a impressão forte destas palavras do autor que nos chegam hoje, incólumes, nesta edição. Não por terem sido previsões certeiras, ou sequer anseios parcialmente confirmados, mas por se constituírem como programa ainda atual, e sempre mobilizador, para o mundo em que vivemos hoje e os seus muitos dilemas. Na “fórmula errada da propriedade privada”, reside em grande medida a origem dos males do mundo, segundo Gonçalves Correia. Ela permite o roubo da vida e do esforço de todas as pessoas que trabalham, ela alimenta as guerras e sustenta o poder autoritário do Estado, investido em proteger a classe dos proprietários, o statu quo do capitalismo que só produz exploradores e explorados. Um século passado, a acumulação de riqueza atinge níveis astronómicos, só equiparada ao aumento constante da desigualdade na sua redistribuição. O trabalho, primeiríssima fonte de toda a produção de bens materiais e de serviços, continua a ser o esforço, escassamente retribuído, para uma vida digna e para a sobrevivência própria e dos mais próximos. 

Perante o otimismo crónico de Gonçalves Correia, que via na mecanização a oportunidade da libertação dos trabalhos alienantes e repetitivos, o alívio do esforço humano no amanhar a terra ou nas linhas de montagem industriais, sabemos hoje que nunca foram as pessoas que trabalham as beneficiárias das inovações tecnológicas. E se houve benefícios, que também os houve, foram invariavelmente resultado de duras lutas, travadas coletivamente e que garantiram, quase sempre demasiado tarde, horários de trabalho, direito a férias e ao descanso, organização autónoma dos trabalhadores, o direito à greve. Na vertigem dos anos 20 que vivemos, estes do século XXI, em que estamos coletivamente ameaçados pela utilização da tecnologia nos mecanismos de controlo e manipulação da experiência individual e dos movimentos sociais de resistência ao que existe, a inteligência artificial (IA) parece anunciar o fim da inteligência social, da capacidade individual de evoluir e aprender com a experiência, o fim das expectativas, porque a máquina é que saberá e conhecerá, através de um incomensurável acumular de dados, que afinal nunca reunirá condições para inovar, para imaginar caminhos diferentes através da abstração, da associação ou da genialidade na interpretação do mundo nas suas muitas realidades. Como há um século atrás, a IA não trará prosperidade nem alívio ao comum das pessoas, será uma ferramenta mais para se intensificarem os ritmos e as exigências do trabalho, será (já é) um instrumento de manipulação do conhecimento científico, de imposição de dogmas e de controlo social. 

O capitalismo tardio é profundamente impaciente e promove um frenesim que monopoliza a atenção das pessoas, corrompendo tempo livre e laços sociais, reforçando o racismo sistémico e acelerando a disseminação das mentiras da extrema-direita. A utilização da IA, na sociedade atual, representa uma enorme ameaça à vida de milhões de pessoas. Os centros de dados e a mineração de criptomoedas já consomem qualquer coisa como 2% da eletricidade mundial e este consumo aumenta cada dia com a expansão da IA que requer enormes quantidades de água, energia e produtos minerais. O planeta de todos os seres, a biodiversidade e o equilíbrio ambiental são uma vez mais sacrificados no altar do consumo, a que se chama progresso, da exploração desenfreada de recursos escassos que condena o futuro coletivo em benefício da acumulação de capital.

’Proletário do comércio’, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram exemplo maior.

Mas se a este otimismo de Gonçalves Correia podemos contrapor um século de capitalismo triunfante e os seus resultados, outras dimensões do seu pensamento revelam-se profundamente atuais e úteis para pensar o mundo em que vivemos. Entre as ameaças de cataclismos climáticos que já se observam em muitas partes do mundo, as guerras declaradas onde se disputam territórios e os seus recursos através da destruição e da desumanização do outro – quase sempre do vizinho –, a barragem de desinformação e de realidades alternativas aos factos que alimentam a extrema-direita em ascenso em demasiados lugares do mundo, o texto de Gonçalves Correia condensa as expectativas de um homem justo do século passado. Comunista porque procurava uma vida comunitária em liberdade, socialista libertário em oposição ao socialismo parlamentar, inimigo da monarquia em benefício da República, anarquista convicto – assim se definiu Gonçalves Correia, “proletário do comércio”, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, onde inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram naturalmente um exemplo maior. 

E o mundo pensado para “a felicidade de todos os seres”, a sociedade justa que olha para ele inteiro na sua diversidade absoluta, capaz de ver prosperar sociedades humanas de cooperação, assim como sistema ecológicos na sua magia selvagem, intocada pela ganância do capital. Nas palavras de Gonçalves Correia, o futuro promete beleza e harmonia, ultrapassadas as guerras e os motivos de conflito através da socialização da propriedade e das tarefas duras, da libertação do trabalho alienado, da partilha da beleza e da arte que todos poderemos produzir.

No texto agora reeditado, vemos a preocupação constante com a educação e instrução das massas proletárias, pois o conhecimento não podia ser privilégio das classes dominantes, sendo a capacidade crítica um instrumento fundamental para a sociedade futura que imaginava. Ao exercício de abstração sobre as possibilidades do futuro correspondeu sempre a tentativa de concretização da utopia, seja na organização necessária para a luta política – e sempre através do esclarecimento das massas – ou na gestão dos espaços privados da sua vida. A igualdade radical da sociedade futura trará não só a felicidade de todos os seres, mas a absoluta igualdade de género. “Minha Senhora, irmã, camarada em crença”, é a forma como se dirige às mulheres na “Estreia de um Crente” (1917), através dos exemplos de combatividade revolucionária de Rosa Luxemburgo e Louise Michel. 

Como tantos homens e mulheres do seu tempo, rebeldes conscientes e revolucionários de corpo inteiro, António Gonçalves Correia viveu todas as derrotas das classes populares que se viram traídas pela República que ajudaram a estabelecer. Viveu o ascenso do autoritarismo, ainda no regime de Sidónio Pais, e a instauração do Estado Novo, o fascismo que durou 48 anos e que só a Revolução dos Cravos, em 1974, viria a terminar. Gonçalves Correia não assistiu a esse momento de libertação, uma vez que faleceu em 1967, mas a sua vida constitui um exemplo de dignidade e resistência, de humanismo instigado por firmes convicções libertárias, pela capacidade de organização e reflexão crítica, de inovação e persistência perante as derrotas e todas as dificuldades. Nas suas palavras está não só o registo das lutas que travou, mas sobretudo dos sonhos e do projeto emancipatório que protagonizou. Projeto derrotado? Sem dúvida. Basta olhar para o tempo presente para confirmar os futuros de catástrofe que se anunciam. Mas se os futuros são por definição incertos e ainda nos podem surpreender, sabemos que a história nunca acaba e que as causas perdidas podem sobreviver de forma subterrânea, larvar, até regressarem com força renovada perante novas gerações que delas se apropriam e simultaneamente as reinventam.

Prefácio a António Gonçalves Correia, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura

Traça Edições, Ataboeira, 8200-554 Ferreiras (Algarve), 2026

Comunismo Lenine Platten categoria-história edicao-2026-05-14 (27)

Fritz Platten, o homem que salvou Lenine

Sem Fritz Platten (1883-1942), a história mundial teria seguido um curso diferente. Este comunista suíço é hoje principalmente recordado como o organizador do “vagão blindado” em que Lenine e os seus camaradas atravessaram a Alemanha, permitindo-lhes participar na Revolução Russa. É provável que Platten tenha, pouco depois, salvado Lenine de uma tentativa de assassinato. Tal como muitos outros comunistas, Platten foi assassinado pelo estalinismo.

Nascido numa família da classe trabalhadora, Platten tornou-se politicamente activo ainda jovem. Aprendiz na empresa industrial Escher Wyss & Cie, organizou a que se diz ter sido a primeira greve de aprendizes. No Clube dos Socialistas Internacionais de Zurique, Platten conheceu camaradas da Letónia. Quando a revolução eclodiu no império czarista, em 1905, eles pediram-lhe que passasse de contrabando pistolas e material de propaganda para Riga. Platten ficou em Riga e, em Maio de 1907, foi detido durante uma rusga policial. Acusado de filiação no Partido Social-Democrata, ilegal, impendeu sobre ele uma pena de prisão de entre oito e vinte anos de trabalhos forçados. Após oito meses na prisão, adoeceu gravemente e foi libertado sob fiança. A fiança foi paga por Lina Hait, filha de uma família abastada. Os dois casaram-se algum tempo depois. Platten acabou por conseguir fugir da Letónia com a ajuda de marinheiros que o esconderam num barco com destino a Hamburgo. Em 1908, Platten, “o único socialista suíço que participou na primeira Revolução Russa”, regressou à Suíça1.

Regressado à Suíça, Platten assumiu várias funções dirigentes no movimento socialista e operário. Em 1912, os operários convocaram uma greve geral de 24 horas em Zurique em resposta a uma tentativa de proibição de piquetes. Alguém que participou na greve descreveu Platten, mais tarde, como “o nosso general”, que se deslocava de piquete em piquete no único táxi que ainda operava. Platten desempenhou, ainda, papel significativo na greve geral nacional de Novembro de 1918. O Partido Social-Democrata suíço tinha decidido comemorar o primeiro aniversário da Revolução de Outubro com comícios públicos e um manifesto. O manifesto, que se diz ter sido redigido por Platten, exortava a classe operária suíça a ocupar o seu lugar na nova Internacional, vir em socorro da Revolução de Outubro em perigo e livrar-se do seu próprio jugo.

A declaração fez que o município de Zurique solicitasse ao Exército que estacionasse tropas na cidade. Vários trabalhadores foram baleados quando o Exército dispersou uma manifestação. Uma publicação soviética de 1978 descrevia efusivamente como se dizia que Platten, “o dirigente operário que toda a gente em Zurique conhecia”, caminhara na direcção dos soldados, “desarmado, com a cabeça orgulhosamente erguida, enfrentando corajosamente o perigo” para convencê-los a cessar fogo. Ao fim de cinco dias, a greve geral foi suspensa. No I Congresso da Internacional Comunista, Platten atribuiu o fracasso do movimento à atitude vacilante da direcção da greve e à sua relutância em apelar à constituição da milícia operária. Platten foi condenado a oito meses de prisão pelo papel que desempenhara na greve. O último grande contributo de Platten para o movimento operário suíço foi participar na fundação do Partido Comunista Suíço.

Encontrando-se na Rússia na altura do julgamento, Platten apenas cumpriu a sua pena de prisão em 1920. Ao que parece, Lenine tentou ajudar Platten, pedindo a A. M. Lejava, o comissário do povo para o Comércio Externo, que o nomeasse representante comercial soviético, assim lhe concedendo imunidade, mas não foi bem-sucedido. Platten conhecia Lenine desde 1915 e das conferências de Zimmerwald e Kienthal. Embora não participassem oficialmente na reunião de Zimmerwald, os social-democratas suíços permitiram que membros seus participassem a título pessoal. Platten participou, assim, na conferência de Kienthal de 1916 como representante do partido suíço. Em ambos os casos, apoiou a esquerda revolucionária.

Platten puxou instintivamente a cabeça de Lenine para baixo, tendo uma bala roçado a sua mão, que estava nesse momento pousada na cabeça de Lenine.

Após a Revolução de Fevereiro, os exilados do Império Russo na Suíça organizaram o Comité Central para o Retorno dos Refugiados Políticos da Rússia na Suíça. Este comité representava 560 exilados de mais de 10 organizações diferentes, desde anarquistas ao grupo Nache Slovo, de Trotsky, passando por mencheviques, bolcheviques e o Poale Zion*. O Comité pediu a outro socialista suíço, Robert Grimm, que os ajudasse a organizar o retorno. Grimm, que era simpatizante da ala esquerda dos mencheviques, tentou obter autorização legal do Governo Provisório para o retorno dos exilados. Com o passar do tempo, Lenine e outros radicais começaram a ficar impacientes e a suspeitar que Grimm e os mencheviques estavam a atrasar deliberadamente o regresso. Os radicais pediram por isso a Platten que os ajudasse a organizar a travessia da Alemanha a “título pessoal”. Com a ajuda dos contactos de Karl Radek, que foi na viagem, ficou acordado com as autoridades alemãs que os exilados seriam autorizados a passar sem lhes serem pedidos os nomes e que “os que fizessem a travessia gozariam da protecção de extra-territorialidade, ninguém tendo o direito de entabular qualquer tipo de negociação com eles durante a viagem”2. Platten viajou com os exilados para garantir pessoalmente que estes cumpriam as condições impostas.

Após esta viagem, Platten regressaria várias vezes à Rússia. Em 1918, Platten e Lenine assistiram a um desfile do Exército Vermelho em Petrogrado. O carro em que ambos seguiam depois do desfile foi alvejado, numa tentativa de assassinato. O relatório da investigação refere que “Platten puxou instintivamente a cabeça de Lenine para baixo, tendo uma bala roçado a sua mão, que estava nesse momento pousada na cabeça de Lenine”.

Em 1923, Platten começou a trabalhar para a organização de ajuda humanitária de Willi Münzenberg, a Internationale Arbeiterhilfe (IAH, Socorro Operário Internacional). A IAH apoiou, designadamente, a modernização da agricultura soviética, tendo-se Platten tornado presidente de uma cooperativa agrícola em Nova Lava, composta por comunistas suíços que se tinham mudado para a União Soviética. Custou, no entanto, à cooperativa, destinada a demonstrar o potencial das técnicas modernas, mostrar-se produtiva nas condições adversas da região do Volga. No ano seguinte, o relato de Platten sobre a famosa viagem de comboio foi publicado na editora de Münzenberg, Neuer Deutscher Verlag, refutando as acusações de que Lenine e os outros bolcheviques tinham agido como “agentes” da Alemanha.

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No início dos anos 30, Platten viveu em Moscovo, onde trabalhou como tradutor, professor de línguas e investigador especializado do Instituto Agrário. Platten regressou brevemente à Suíça em 1931, naquela que viria a ser a sua última visita. Fez campanha pelos comunistas suíços, enaltecendo as alegadas conquistas da União Soviética em matéria de condições de vida, cuidados de saúde e educação. Era nessa altura sua companheira a comunista suíça Berthe Zimmermann (1902–1937), que trabalhava em Moscovo para o Departamento de Ligação Internacional da Internacional Comunista. Durante o terror estalinista, Zimmermann foi acusada de espionagem e morta. Platten recusou-se a denunciar a esposa e foi ele próprio detido, em Março de 1938. Foi condenado a quatro anos de trabalhos forçados.

Não é claro o pretexto exacto para a sua detenção. Um antigo aluno de Platten no Instituto de Línguas Estrangeiras escreveu mais tarde que o director do Instituto anunciou que Platten fora “desmascarado” como espião da Gestapo. Segundo outro relato, a acusação de espionagem foi afastada, tendo Platten sido condenado por “posse não autorizada de arma de fogo”: uma pistola do tempo da guerra civil que ele guardava como lembrança. Baseando-se no relato de outro prisioneiro, Roy Medvedev escreveu, em Let History Judge, que, de facto, Platten fora inicialmente acusado de ter sido espião alemão, e logo desde 1917. “Apesar da brutal tortura, ele recusou-se a assinar o depoimento, porque tal lançaria uma sombra sobre Lenine. Ele e o investigador chegaram ao seguinte acordo: ele confessaria ter feito espionagem para um país, mas não a Alemanha — os Estados Unidos ou a Argentina, a minha fonte não se recorda exactamente de qual”3.

Como estrangeiro e alguém com papel dirigente no movimento pré-revolucionário, Platten pertencia a diferentes grupos atingidos pelo terror estalinista com especial dureza. Independentemente disso, o seu destino estaria provavelmente selado porque, como presidente do Clube dos Comunistas Alemães de Moscovo, em 1928 Platten tinha manifestado apoio à Oposição de Esquerda, antes de o obrigarem a renunciar ao cargo.

Platten morreu em 22 de Abril de 1942 num campo de prisioneiros estalinista, em Nyandoma, no Noroeste da Rússia. A causa oficial do óbito foi “insuficiência cardíaca”, uma desculpa frequentemente usada. Anos mais tarde, disseram ao filho que o homem que tinha salvado a vida de Lenine, Fritz Platten, tinha sido fuzilado. Platten foi reabilitado em 1956, tendo uma rua de Nyandoma recebido o seu nome. A placa comemorativa descrevia-o como “amigo e companheiro de luta de Lenine”, mas sem mencionar como morrera.


Tradução: Adriano Zilhão


(*)NT: Grupo socialista sionista formado no império czarista depois de o Bund, principal organização operária judaica, ter rompido com o sionismo.


1 J.F. Anders, “Zur Biographie von Fritz Platten”, p. 135 em: Fritz Platten, Die Reise Lenins durch Deutschland im plombierten Wagen, Frankfurt am Main: ISP-Verlag, 1985. A narrativa que se segue baseia-se principalmente no esboço biográfico de Anders.
2 Karl Radek, “Through Germany in the Sealed Coach” (1924), online: marxists.org/archive/radek/1924/xx/train.htm
3 Roy Medvedev, Let History Judge. The Origins and Consequences of Stalinism, Oxford: Oxford University Press, 1989, p. 514.

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