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Em defesa duma causa perdida
categoria-inquietação Amor edicao-2026-04-16 (23)

Em defesa duma causa perdida

O fracasso coletivo do amar parece evidente. A boa nova, como o dia que surge da noite mais densa, pode ser dar um voto de confiança, como alguém que aposta precisamente na impossibilidade, aos amores possíveis.

Beatriz Yoshida Protázio
A lotaria das bolotas
categoria-inquietação edicao-2025-11-27 (06)

A lotaria das bolotas

O curto período em que fui pastor de ovelhas coincidiu com a queda da bolota. O início deste fenómeno (muito aguardado, por sinal) pode ser um pesadelo para os pastores, sobretudo para quem, como me aconteceu, tem a seus cuidados um rebanho composto por uns 200 animais de variada proveniência

Paulo Barreiros
Depois do filme
categoria-inquietação edicao-2025-11-13 (04)

Depois do filme

A janela da minha cozinha dá para um recôndito corredor de estrada alcatroada, nem muito largo, nem estreito, que se prolonga por uns 40 metros ao longo da fachada do meu prédio e do prédio contíguo

David Varela do Paço
A crise climática
categoria-inquietação Ação Coletiva Crise Climática edicao-2025-11-06 (03)

A crise climática

Não é novidade que existe atualmente um fenómeno de alterações climáticas provocado pela ação humana. Talvez algo que não se ouça de forma mais regular ou simplesmente mais assertiva é que esta é uma crise devida tanto à sua urgência como à injustiça

José Borges
O silêncio é uma arma
categoria-inquietação edicao-2025-10-23 (02)

O silêncio é uma arma

É frequentemente dito que o silêncio é a ausência de som, uma tela em branco. Mas ver o silêncio como ausência é não entender a sua força.

Catarina van Krieken
A Gaivota
categoria-inquietação edicao-2025-10-16 (01)

A Gaivota

A janela da minha cozinha dá para um recôndito corredor de estrada alcatroada, nem muito largo, nem estreito, que se prolonga por uns 40 metros ao longo da fachada do meu prédio e do prédio contíguo.

David Varela do Paço
categoria-inquietação Amor edicao-2026-04-16 (23)

Em defesa duma causa perdida

O fracasso coletivo do amar parece evidente. A boa nova, como o dia que surge da noite mais densa, pode ser dar um voto de confiança, como alguém que aposta precisamente na impossibilidade, aos amores possíveis.

Uma das lições que Em defesa das causas perdidas, de Slavoj Žižek, parece transmitir é a de que, em diversas ocasiões, talvez fosse interessante que, ao invés de chorar o leite derramado, pudéssemos buscar centelhas de esperança no improvável. O fracasso seria, então, não tomado como símbolo de algo que permanece interditado, mas como produtor de contingência. Quero tomar de empréstimo essa perspectiva indicada pelo filósofo sobre o fracasso das insurreições sociais ao longo da história para tentar colocar palavras para uma outra derrota, que se apresenta no horizonte do imaginário de minha geração. Ou talvez seja mais justo dizer que se rarefaz em nosso imaginário, como uma espécie de miragem, um truque de vista, algo que tem um tipo de corpo translúcido, que desafia não só a visão mas também o tato, por ser demasiado fugidio.

A juventude (e aqueles já não tão mais jovens assim) aparentemente se encontra num beco sem saída quando o tema é o amor. Não só impera o reino do indivíduo suportado e alimentado pela dinâmica social fabricada pelas redes sociais e os seus algoritmos [Agonia do Eros, Byung-Chul Han], como também as condições materiais de pensar e, sobretudo, imaginar (sonhar) o futuro se degradam diante de nossos olhos — o mundo do trabalho de nossos pais não existe mais, mas tampouco os modelos de trabalho adotados pelas gerações que nos precederam nos interessa. Isso para nem mencionar as guerras que proliferam feito praga pelo mundo, tornando o medo e a desesperança o pão nosso de cada dia.

Os “amores” fugazes (one night stands) ou a indiferença despontam neste cenário como mecanismos de defesa produzidos socialmente, de modo que, ao menos em aparência, pareçamos protegidos do desprazer, da angústia, do sofrimento, do desamparo. Num cenário como este, fazer laço parece uma tarefa da ordem do impossível. Doutra parte, a produção de engodos, ou nós emaranhados, se apresenta quase como regra. Desde uma completa subsunção ao outro que, neste cenário, é tornado senhor, até uma libertinagem ruidosa, extravagante, que, depois de desnuda em suas múltiplas camadas, esconde mais do mesmo, especialmente quando se vasculha até encontrar a sua sanha por se converter em norma de conduta (no lugar de liberação).

De tudo o que não se pode dizer sobre este tema, talvez comunicar algo seja possível. O fracasso coletivo do amar parece evidente. A boa nova, como o dia que surge da noite mais densa, pode ser dar um voto de confiança, como alguém que aposta precisamente na impossibilidade, aos amores possíveis. Aquele amor entregue no cotidiano sem promessa. Aquele que chega quando não se espera. Aquele que atravessa nosso corpo no momento aparentemente mais inadequado de nossas vidas. Aquele em que quase todos desacreditam. O que tropeça em nós num bar no qual consideramos não entrar, ou o que nos dá uma ajuda com as malas na fila do check-in no aeroporto. Em quantas padarias, cafés, restaurantes, cinemas, festivais, estações de trem e hospitais teremos de entrar até conhecê-lo? Não sei. Mas sinto que devemos apostar contra aquele ditado que diz que a esperança é a última que morre. Eu digo que não, que não, que ela vive enquanto a gente viver e desejar viver.

E, ao pensar nesta aposta, lembro-me de olhar de esguelha a história da literatura, no gesto inaugural do período moderno, Proust cria uma imagem bonita para nomear o objeto amoroso. O amante seria então um ser em fuga: toda vez que me aproximo, ele escapa antes mesmo de chegar às minhas mãos. Esse ser amado que não podemos reter pode, num tropeço de ternura, como reza o “Samba da bênção”, do nosso Vinicius de Moraes, dar a cumprir a arte da vida e nos encontrar, embora haja tanto desencontro pela vida.

categoria-inquietação edicao-2025-11-27 (06)

A lotaria das bolotas

O curto período em que fui pastor de ovelhas coincidiu com a queda da bolota. O início deste fenómeno (muito aguardado, por sinal) pode ser um pesadelo para os pastores, sobretudo para quem, como me aconteceu, tem a seus cuidados um rebanho composto por uns 200 animais de variada proveniência e recém agregado, trabalhando num terreno acidentado, coberto de mato e (ainda) livre de cercas. As ovelhas ficam alucinadas e difíceis de apascentar como se fossem um ror de gatos largados pelos montes!

Assim que, ao raiar do dia, abrimos o redil, as ovelhas saíram à disparada, todas correndo em direções opostas! E passaram o dia inteiro nisto: a cada árvore (azinheira ou sobreiro) alcançada, com a sofreguidão da cobiça (chegando a atropelar as próprias crias ainda pequenas, aparentemente sem se importarem), procuram por bolotas, ingerindo pouquíssimas das que encontram esparsas, pois guia-as a fé de que sob a próxima árvore é que estará depositado o sonhado tesouro. A cena repete-se vezes sem conta até ao ocaso.

Na hora dos exasperados arrebanhadores as trazerem de volta para o aprisco, estão exaustas, tendo consumido mais energia no afã de perseguir a sorte grande das bolotas, do que as que comeram, deixando a maioria intocada no chão.

Não sei quanto a vocês, mas isto parece-me uma boa metáfora para a nossa sociedade capitalista. A grande diferença é que não demora a cair uma tal abundância de bolotas que todas as ovelhas ficam satisfeitas, restaurando-se a paz pastoril. Ainda assim, é mais fácil encontrarmos pastores estelionatários nas igrejas, do que pastores filósofos nos campos.

categoria-inquietação edicao-2025-11-13 (04)

Depois do filme

Foram fazendo conversa depois do filme. Nos olhos dela já não havia desejo, mas ele continuava a olhá-la procurando qualquer coisa que se opusesse à impressão que tinha, e de cada vez que a olhava acumulava mais desilusão. Na sala de cinema notara qualquer coisa na silhueta dela, mal iluminada de lado pelo ecrã, que lhe indicara um à-vontade para lá da segurança, um desejo, um aborrecimento e uma vontade de experimentar. Deixou-se enredar de olhos abertos nos dois ecrãs, naquele escuro íntimo. E o riso dela, livre, despretensioso, ainda por cima numa cena erótica, convencera-o por fim. Já não somos estranhos. Pensou várias vezes em tocar-lhe, em quebrar a barreira, mas pareceu-lhe muito adolescente. Não queria que ela o pensasse. Mas agora caminhavam quase calados, embora conversassem muito porque o silêncio ganhara um peso perturbador. Os candeeiros pareciam estar a mais. As luzes chocavam no passeio liso, sobrepunham-se e enjoavam-no. Ele sabia que não a devia ter levado a ver o filme, embora não o sentisse ainda como sentiria depois contando aos amigos como fora. Tinha sido sempre o prémio de consolação, o jantar fora caro e a noite longa e demasiado real. Queria impressioná-la, só por isso escolhera Pasolini, queria testá-la, conhecê-la. Não pensou muito nisso, pelo menos não deixou pousar as palavras na mente, mas a desconfiança acumulada foi ganhando um furor de certeza. Já não havia desejo nos olhos dela, desconfiou. Caminhavam os dois sem se olharem, ou tomando precauções, envernizando os olhos antes, mas foram-se os dois cansando da farsa e voltaram a dirigir-se um ao outro com a mesma franqueza que tinham já inaugurado. Sem admiração. Só que estes murmúrios de alma, quando ainda não se conhece a pessoa, adormecem. O ritmo dos saltos dela a bater no empedrado embalavam-no como um chuveiro. A certa altura disse qualquer coisa, já não sabia o que foi, que lhe deu a entender que não o queria e que queria que ele o soubesse quanto antes e a deixasse sossegada. A rua estava deserta, longa, clara e inacessível de tão aberta, havia ainda um barulho distante de obras – metal.

Começou a sair também da sala de cinema, não bruscamente, mas avançando com passos firmes e de olhos fixos na porta ao longe. Percebeu-lhe a intenção e aceitou-a intimamente, mas não lhe perdoou a desconsideração.

Mencionou de soslaio que em breve partia, de Erasmus, e fez ainda menção de o convidar a partilhar da sua pretensa felicidade aventureira. Não fazia tenção de lhe esconder nada. Tanto tempo. “Olha, acho que vou passar ali em casa de um amigo, dizer olá. Queres que te deixe no metro?” “Não, não me importo nada.”

Percebeu tudo. Falava novamente muito. Falava como quem, quando escreve mensagens, acrescenta vogais ao acento tónico das palavras, como se assim lhes desse sabor. Era irritante, mas também reconfortante aquele quase medo que ela agora emanava, aquele precisar dele. Já não ouvia os passos dela, sentia-se importante, imprescindível. O ritmo agora era o da noite. Apesar de tudo. Chegaram ao Campo Grande e já estavam mais que fartos um do outro – eram inimigos. Ele quis respirar um bocado, ela tinha pressa. O mesmo comboio. Ah sim? Nenhum se lembrou de esconder a indiferença, estavam na mesma página.

categoria-inquietação Ação Coletiva Crise Climática edicao-2025-11-06 (03)

A crise climática

Não é novidade que existe atualmente um fenómeno de alterações climáticas provocado pela ação humana. Talvez algo que não se ouça de forma mais regular ou simplesmente mais assertiva é que esta é uma crise devida tanto à sua urgência como à injustiça. Comecemos então pelo fator de urgência. A ciência é clara: se não pararmos a emissão de gases com efeito de estufa de forma a evitar que alcancemos os 2 graus Celsius de aquecimento, o nosso futuro está traçado e não será, no mínimo, agradável. É um futuro onde a água e o alimento faltarão devido a secas, onde a fome extrema duplicará nas regiões do globo mais afetadas por esta crise. Em que é projetado que cerca de 1200 milhões de pessoas se verão obrigadas a abandonar a sua terra por causa de catástrofes climáticas até 2050. Note-se que o valor atrás mencionado corresponde a cerca de 15% da população mundial. A segunda faceta desta crise é também a injustiça, porque é desigual quem a produz e quem sofre com ela. É facto não tão conhecido que metade das emissões de CO2 provêm da atividade dos 10% mais ricos do planeta, que se concentram no Norte global. Simultaneamente, as pessoas mais afetadas são as mais pobres e do Sul global. São também visíveis as cicatrizes do imperialismo, em que uma elite explora não só os trabalhadores em casa, mas também extrai as riquezas dos países que esmagou por meio da força. Em suma, não serão aqueles que começaram esta crise que irão sofrer com ela. Deparando-se com a magnitude da injustiça desta crise, podemos questionar-nos sobre o porquê de não haver uma solução imediata, uma resposta rápida por parte dos governos. Estes governos operam segundo as regras de um sistema económico que coloca à frente da vida o lucro: o capitalismo. A razão pela qual quase nada é feito é somente a promessa de lucro e os interesses de um punhado de empresas que lidam com combustíveis fósseis e que preferem ver a morte de milhares do que a perda dos seus capitais. Perante esta situação poderemos perguntar-nos o que há a fazer para além das óbvias respostas individuais de andar menos de carro e manter as luzes de casa apagadas sempre que possível. A resposta a isto dá-a a história: somente com a nossa ação coletiva foi possível conquistar qualquer tipo de direito ou regalia, seja nos postos de trabalho ou na sociedade em geral. E será também nesta organização e ação coletiva que conquistaremos um planeta em que viveremos sem medo de cheias ou temporais, sem donos do mundo que nos condenarão à fome e à deslocação forçada. Esta luta já existe e é protagonizada diariamente por estudantes, comunidades indígenas e movimentos de trabalhadores.

Apelo assim aos leitores que se juntem em solidariedade com os bloqueios de escolas que serão feitos na semana de 17 a 21 de novembro, que culminarão numa manifestação em que os estudantes convidam toda a sociedade civil a participar no dia 22 do mesmo mês. Vamos mostrar a quem nos governa que faremos do acesso a um futuro seguro um direito nosso, que não importa quanto o lucro lhes valha, que nós juntos já mudamos o mundo e que continuaremos a fazê-lo.

categoria-inquietação edicao-2025-10-23 (02)

O silêncio é uma arma

É frequentemente dito que o silêncio é a ausência de som, uma tela em branco.
Mas ver o silêncio como ausência é não entender a sua força. Porque o silêncio também é barulho, também ele ocupa espaço. O silêncio nunca foi e nunca será neutralidade.

Há silêncios que pesam, que consolidam o poder. Silêncios que sustentam a violência.
Nem todos os silêncios são inocentes. Alguns são estratégicos. Outros, cúmplices.
Silêncios convenientes, úteis apenas a quem nunca teve de escolher entre calar-se ou sobreviver.

Audre Lorde disse: “O silêncio não nos protegerá.” Quantos líderes do mundo se escondem, cobardemente, atrás de um silêncio mascarado de neutralidade? O silêncio torna-se então uma arma sempre que há uma injustiça a decorrer diante dos olhos e se escolhe não a nomear. O silêncio legitima, aprova por omissão, dá espaço à continuidade do que fere. Silêncio cobarde torna-se violência, torna-se agressão. Um líder que se esconde perante um genocídio, perante machismo, perante racismo, perante homofobia é indigno do cargo que ocupa, uma figura esvaziada de coragem e de consciência.

O silêncio europeu tornou-se um dos pilares do massacre da Palestina. E que não se confunda o silêncio institucional das universidades, das fundações, e dos governos por hesitação. É uma decisão política.

É um silêncio ruidoso aquele que observa a morte de mais de 60 mil pessoas nos últimos nove meses, meio milhão em fome catastrófica, e uma população inteira a viver sob cerco. É um silêncio ruidoso aquele que covardemente se esconde num fato de privilégio e imperialismo. É um mito achar que a sociedade europeia é civilizada quando mete as mãos aos bolsos face a um dos maiores massacres a que já assistimos. Depois de décadas a erguer memoriais e a jurar “nunca mais”, seria de esperar que o horror do genocídio evocasse empatia, não indiferença. Porém a empatia de muitos políticos europeus (e não políticos também) escolhe cor da pele, escolhe religião. O mesmo se aplica a indivíduos que escolhem a “imparcialidade” – o seu silêncio, a sua ignorância são um espelho do seu privilégio. Quem pode escolher não se posicionar é quem não está a ser bombardeado, quem não tem família a morrer de fome, quem não tem a sua casa reduzida a escombros. Onde está a nossa humanidade?

O silêncio é uma arma. Mata e desumaniza, perpetua uma sociedade patriarcal. São os amigos que “não querem meter-se”, os vizinhos que fingem não ouvir, os sistemas judiciais que relativizam. Será coerente um homem heterossexual escolher manter-se “imparcial” em situações de agressão física, sexual ou emocional contra mulheres? Será coerente um homem dito heterossexual não ser feminista? Nasceu de uma mulher, é casado com uma mulher, pai de filhas, mas acha que o feminismo não é a luta dele. Pelo menos uma em cada três mulheres já foi vítima de violência física ou sexual (e 99% dos perpetradores são homens). Ser mulher é dar por garantido que isto pode acontecer. Um homem que se mantém em silêncio não pode dizer que ama realmente as mulheres à sua volta – não é coerente. O seu silêncio é uma arma que fere as mulheres que o rodeiam, e a todas as outras. Os agressores não são só os que disparam a arma, mas também aqueles que testemunham a agressão e que nada fazem.

O mesmo se aplica ao silêncio cúmplice de pessoas brancas que se digam não racistas perante desigualdades, humilhações, comentários, racismo disfarçado de humor. “Não é a minha luta.” Onde está a tua humanidade, se só te pronuncias quando algo te beneficia a ti diretamente? O que é que isso diz sobre os aspetos mais centrais do teu carácter?

A imparcialidade em situações de injustiça, de opressão ou de agressão não existe. O desejo de imparcialidade é já por si uma posição clara de desinteresse e de indiferença.

O silêncio é uma arma, que mata, sustenta, oprime. O silêncio é uma arma.

categoria-inquietação edicao-2025-10-16 (01)

A Gaivota

A janela da minha cozinha dá para um recôndito corredor de estrada alcatroada, nem muito largo, nem estreito, que se prolonga por uns 40 metros ao longo da fachada do meu prédio e do prédio contíguo. O que sobressai ao contemplá-lo da minha janela não é a fachada do meu prédio nem a do vizinho do lado, mas uma parede uniforme e plana, rugosa e cravejada de sombras a todas as horas do dia, de um tom vermelho seco, que se ergue como um muro e culmina numa grade verde-escura que protege, a exagerada altitude, um jardim inexpugnável e, talvez apenas por isso, muito bonito. Não há mais nada na casa digno do meu cigarro. É quadrada e plana: muros altos, portas fechadas e sem graça, um pequeno candeeiro acinzentado. O jardim consiste numa extensão de relva aparada (sempre a contragosto) com duas laranjeiras e três vasos deitados donde brotam flores bonitas que não reconheço. O sol incide longas horas sobre a relva sem nunca a crestar. O jardim é tristemente negligenciado pelos donos que nunca (nunca mesmo) lá põem os pés. Quando, muito esporadicamente, identifico um qualquer vulto no jardim, a visão é sempre a de uma figura requebrada, o movimento de uma pressa sem entusiasmo que lembra um trabalhador a fechar o turno. Mesmo quando visitado, o jardim não perde nunca aquela aura paradoxal de oásis e deserto que os meus olhos lhe atribuem.

Frequentemente pouso-me a esta janela a fumar e é com embaraço e estupefação que admito que só duas ou três vezes lá vi alguém com pinta de dono de alguma coisa. É atendido pela criada que dorme no quarto em frente ao meu, cujos estores estão corroídos e estragados desde que me lembro. Nunca estão levantados mais que um palmo e, quando o estão, sempre assentes num improviso com um pedaço do que parece ser um caco de vaso ou de um qualquer plástico incomum posto na base da janela para a impedir de trancar-se. Os verdadeiros habitantes deste jardim são as laranjas (que ninguém come) e os pássaros e os gatos da vizinhança, desconfiados e prazenteiros, que estão sempre lá ou nos antigos fornos da cal, aqui perto. O muro terá três ou quatro metros e a grade acrescenta-lhe mais metro e meio de proteção – uma verdadeira fortaleza. Por isso ninguém sabe, a menos que seja dotado de um nariz muito arguto, que ao passar por aquele lúgubre corredor – em que há sempre molas de roupa no chão, plástico pintado e calcário desgrenhado – que a poucos metros se ergue um singelo paraíso esquecido que seria a fina-flor das posses de qualquer amante de churrascos e o tesouro de qualquer um que, como eu, goste de dormir a sesta ou de ler ouvindo os pássaros, banhando-se em solarenga melancolia. Neste dia estava a recompor-me com um cigarro (são muito úteis, os cigarros) de um documentário sobre a vida nas Hurdes espanholas no início do século XX. O documentário era muito bom, por sinal, do Luís Buñuel, e eu imaginava-me já esticado na espreguiçadeira inexistente do jardim quando fui atingido de soslaio, meio entorpecido pelo fumo e pelas minhas cogitações, pela sombra ameaçadora, muito aumentada pelo sol, do que concluí imediata e instintivamente ser uma voraz ave de rapina – exímia caçadora de homens. Pisquei os olhos três vezes em sobressalto e, depois, abri-os muito quando me apercebi de que o meu rapace só poderia ser uma gaivota. Com os pés agora assentes um palmo e meio atrás, endireitei o olhar para os céus ainda a tempo de contemplar a aparição elevar-se e escapar-se aos meus sentidos, largando ostensiva e quase majestaticamente um projétil que, antes de acometer desrespeitosamente o alcatrão, se dividiu em três, resultando num sonoro pa-ta-plof.

Ocorreu-me então, retendo a imagem da calma complacência com que se afastara, que a ave havia completado na perfeição o motivo da sua visita.

A luz incidia indiscreta sobre o dejeto que refulgia à margem da sombra e se destacava neste panorama de molas e outros objetos ali abandonados, pela sua liquidez. Pensei que me saberia bem um leite de coco e ri-me comigo mesmo com os pombos que arrulhavam por mim. O que não é verdade. Agora pensava nos donos do jardim e em como gostaria de os encontrar uma vez e satisfazer a minha curiosidade com perguntas impacientes e demasiado diretas, como estas: Quem são? Que fizeram com a vida para acabar com este pedaço de verde? Desde que se reformaram, o que vos tira da cama? E mais importante: como se chama a vossa criada? E nunca mais ter de cruzar-me com eles (o que, já me ocorreu, talvez bastasse para que me legassem o jardim).

Estas gaivotas, creio, são quase sempre gente muito prosaica e vaga. Incomoda-me sobretudo como pousam nos pontões, de pés assentes na firme convicção de que as suas impurezas são tão menos nocivas para a pele e para os pulmões que podem ser trilhadas e aspiradas sem sapatos calçados, em dias sem vento. O cigarro esmoreceu na ponta dos meus dedos e devolvi o meu pensamento a coisas que ao leitor (felizmente) desinteressam. Cheirando a brisa do mar, retomei o prazer de contemplar o voo das aves marinhas que passavam. Já não me pareciam tirânicas. Focava-me na larga envergadura das asas, e sorri silenciosamente.

Ocorreu-me que tudo isto não passava de parvoíces de uma mente desgovernada. Para contrariar o instinto, ordenei-me solenemente o silêncio: dei aí o dia por terminado. Concordámos todos. Encostei-me à parede da cama, no meu nadir espiritual, com o sol ainda mal passado do zénite, e continuei a perder tempo sonhando com glórias e conquistas pessoais. Chegado aqui adormeci, saboreando em sonhos uma sopa da pedra bem feita (mais uma das minhas conquistas), e sei que as minhas papilas gustativas trabalhavam estupidamente ensopando a almofada, ao passo que os meus lábios afastados abrasavam e secavam enquanto dormia. Lá fora crocitava-se de vez em quando.

Em defesa duma causa perdida
Depois do filme
A crise climática
O silêncio é uma arma
A Gaivota
Em defesa duma causa perdida
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Em defesa duma causa perdida

O fracasso coletivo do amar parece evidente. A boa nova, como o dia que surge da noite mais densa, pode ser dar um voto de confiança, como alguém que aposta precisamente na impossibilidade, aos amores possíveis.

Beatriz Yoshida Protázio
A lotaria das bolotas
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A lotaria das bolotas

O curto período em que fui pastor de ovelhas coincidiu com a queda da bolota. O início deste fenómeno (muito aguardado, por sinal) pode ser um pesadelo para os pastores, sobretudo para quem, como me aconteceu, tem a seus cuidados um rebanho composto por uns 200 animais de variada proveniência

Paulo Barreiros
Depois do filme
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Depois do filme

A janela da minha cozinha dá para um recôndito corredor de estrada alcatroada, nem muito largo, nem estreito, que se prolonga por uns 40 metros ao longo da fachada do meu prédio e do prédio contíguo

David Varela do Paço
A crise climática
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A crise climática

Não é novidade que existe atualmente um fenómeno de alterações climáticas provocado pela ação humana. Talvez algo que não se ouça de forma mais regular ou simplesmente mais assertiva é que esta é uma crise devida tanto à sua urgência como à injustiça

José Borges
O silêncio é uma arma
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O silêncio é uma arma

É frequentemente dito que o silêncio é a ausência de som, uma tela em branco. Mas ver o silêncio como ausência é não entender a sua força.

Catarina van Krieken
A Gaivota
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A Gaivota

A janela da minha cozinha dá para um recôndito corredor de estrada alcatroada, nem muito largo, nem estreito, que se prolonga por uns 40 metros ao longo da fachada do meu prédio e do prédio contíguo.

David Varela do Paço

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