categoria-dossier: Guerra e resistência

Sob cada uniforme de soldado há um operário
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra internacionalismo

Sob cada uniforme de soldado há um operário

Durante a II Guerra Mundial, na França ocupada pelos nazis, militantes trotskistas no arsenal da Marinha alemã em Brest criaram uma célula comunista dentro do Exército Alemão para publicar um jornal clandestino chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado).

Anísio G. Homem
Não alinhamos no vosso serviço militar
categoria-dossier: Guerra e resistência Serviço Militar Obrigatório

Não alinhamos no vosso serviço militar

Em 5 de dezembro, em mais de 90 cidades alemãs, jovens manifestaram-se contra a lei que pretende reintroduzir o serviço militar obrigatório.

Hans-Werner Schüster
Venezuela e o regresso do imperialismo: soberania, crise e lições a tirar
categoria-dossier: Guerra e resistência Imperialismo Venezuela

Venezuela e o regresso do imperialismo: soberania, crise e lições a tirar

Nos últimos dias de 2025, Trump afirmou “queremos o nosso petróleo de volta” e deu início a uma agressiva escalada de pressão económica que, menos de um mês depois, culminaria na invasão brutal e no sequestro relâmpago do chefe de Estado venezuelano.

Marcela Uchôa, Sérgio Tapia Argüello
A nova “Estratégia de Segurança Nacional” norte-americana
categoria-dossier: Guerra e resistência EUA Segurança nacional

A nova “Estratégia de Segurança Nacional” norte-americana

Em Novembro de 2025, Trump anunciou a nova Estratégia de Segurança Nacional norte-americana. Modestamente, como é seu hábito proclamou: “Este documento é um roteiro para garantir que os Estados Unidos continuem a ser a nação mais grandiosa e bem-sucedida da história

Adriano Zilhão
Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Rússia Ucrânia

Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky

Não estamos perante uma guerra “por procuração”, uma guerra (inter)imperialista em que os EUA e a UE agiriam contra a Rússia através da Ucrânia, defende Felipe Alegria.

Filipe Alegria
Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”
categoria-dossier: Guerra e resistência Golpe Guerra Venezuela

Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”

Quase nada de novo existe na agressão contra a Venezuela. O intervencionismo norte-americano na América Latina vem de longe.

Rui Pereira
O inimigo dentro de portas
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Rússia União Europeia Venezuela edicao-2026-01-08 (10)

O inimigo dentro de portas

A EU, em conivência com Zelenski, faz campanha não só para continuar a guerra, mas para a intensificar e alargar com a entrada direta dos países europeus, e, pelo menos parcialmente, da NATO.

Viriato Soromenho-Marques
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra internacionalismo

Sob cada uniforme de soldado há um operário

Durante a II Guerra Mundial, na França ocupada pelos nazis, militantes trotskistas no arsenal da Marinha alemã em Brest criaram uma célula comunista dentro do Exército Alemão para publicar um jornal clandestino chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado). Muitos pagaram com a vida o arrojo internacionalista.

Durante a primeira grande guerra imperialista mundial, iniciada em 1914, a direção da II Internacional, capitaneada pelos social-democratas alemães, aderiu em cada país ao patriotismo bélico inoculado pelas grandes burguesias das suas nações, atrelando-se assim de corpo e alma às disputas militares pelo controle do mercado mundial.

Esses dirigentes, alguns deles notáveis figuras que se reivindicavam do marxismo, mesmo depois de conferências mundiais, como a de Basileia em 1912, onde juraram enfrentar a ameaça da iminente guerra capitalista com greves gerais e revoluções, passaram a defender que a Internacional era “essencialmente um instrumento para a paz” e “não uma ferramenta eficiente para tempos de guerra”, decretando a “suspensão” da validade do grande lema do Manifesto Comunista: “Proletários do mundo, uní-vos.”

Essa capitulação desavergonhada denunciada por Lenine, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Karl Liebknecht e outros, facilitou aos capitalistas usarem a classe trabalhadora de cada país como mão de obra armada e carne para canhão ao serviço de grandes grupos económicos que disputavam territórios para as suas mercadorias e capitais. Os trabalhadores matavam-se uns aos outros, aos milhões, pela ampliação dos lucros da sua burguesia nacional imperialista. Era o que Lenine apelidou de política social-chauvinista.

A Revolução Russa, dirigida pelo Partido Bolchevique, reacendeu as chamas e fez renascer o internacionalismo proletário, resultando na fundação da Internacional Comunista, ou III Internacional, em 1919. A Revolução Russa e a reanimação de um sentimento de solidariedade internacional do proletariado fez soar o alerta dos riscos para as burguesias beligerantes, o que precipitou o fim da guerra, antes que a situação derivasse para uma sublevação revolucionária generalizada da classe trabalhadora.

O advento da segunda guerra mundial imperialista, em 1939, pôs à prova, mais uma vez, aqueles que se declaravam a direção mundial do proletariado. Desta feita coube à Internacional Comunista, agora sob o controle de Estaline e da burocracia que se apropriou do poder político na União Soviética, sucumbir diante de um novo conflito necessário para o capitalismo. Para os capitalistas, era incontornável responder com uma nova redivisão económica do planeta diante do aumento da capacidade crescente das forças produtivas e a contradição com a camisa de forças de um mercado mundial incapaz de absorver esse possível crescimento da produção se mantida a lógica do lucro e constrangimento das fronteiras nacionais. Lenine já tinha alertado no seu livro O imperialismo, fase superior do capitalismo, para a tendência de expansão dos monopólios e para o facto de que esse período seria marcado por crise permanente do capital em declínio, gerando uma sucessão de “guerras e revoluções”.

Hoje, há uma associação que preserva a memória destes combatentes socialistas, incluindo militantes e historiadores franceses e alemães.

Depois de acordos com Hitler, Estaline, traído pelo “Führer”, que invadiu a União Soviética em 1941, adotou como orientação para os partidos comunistas do mundo todo a aliança com as suas burguesias democráticas contra o nazismo. Mais uma vez estava suspensa a fórmula do Manifesto Comunista de Marx e Engels de unidade mundial da classe trabalhadora, alistando o proletariado nos exércitos dos seus opressores para se matarem uns aos outros em nome da pátria. O social-chauvinismo da Primeira Guerra tinha sucessores.

Sempre ressabiada com os perigos de qualquer traço, por mínimo que fosse, de internacionalismo proletário nas circunstâncias de instabilidades sociais de uma guerra, a burguesia imperialista “democrática” viu com bons olhos Estaline decretar unilateralmente, em 1943, o fim da Internacional Comunista.

O trabalho de confraternização internacionalista dentro do exército alemão

É neste contexto que a decisão dos trotskistas de criarem, em 1943, na França ocupada pelos nazis, no arsenal da Marinha alemã, em Brest, uma célula comunista dentro do Exército Alemão e publicar um pequeno e precário jornal clandestino chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado) para distribuir mensalmente (quando possível) entre esses soldados, é um ato de lealdade de consciência ao internacionalismo proletário, de luta contra a guerra e a exploração capitalista.

Num artigo publicado no n.º 2 do Arbeiter und Soldat, de agosto de 1943, quando o regime nazi já cambaleava perante a derrota em Estalinegrado, um trecho demonstra bem o tipo de mensagem de classe que o jornal procurava passar àqueles trabalhadores enfiados em uniformes:

Já passou da hora de os capitalistas anglo-americanos se prepararem para salvar o capital alemão e europeu. Por mais fervorosamente que os membros da alta finança guerreiem entre si com o sangue dos trabalhadores, eles ajudar-se-ão mútua e fraternalmente quando o sagrado direito à propriedade e à exploração capitalista for questionado. Esses senhores sabem como as revoluções operárias podem ser contagiosas, hoje mais do que nunca.”

E o que se passou depois do fim da segunda guerra imperialista senão os acordos de Ialta e Potsdam, onde os chefes imperialistas vitoriosos – junto com Estaline – tudo fizeram para preservar o predomínio do capitalismo, inclusive salvaguardando interesses económicos dos grandes grupos industriais da Alemanha?

A célula trotskista que organizava a publicação e distribuição do Arbeiter und Soldat foi desbaratada em 1944, com membros fuzilados e enviados para campos de concentração.

Hoje, há uma associação que preserva a memória destes combatentes socialistas, incluindo militantes e historiadores franceses e alemães. Eles publicam materiais de valor inestimável para a preservação da luta pelo internacionalismo proletário que podem ser acedidos pelo link https://arbeiter-und-soldat.org/de/publikationen.

Neste momento da conjuntura mundial, onde os gastos militares, o incremento sem amarras da indústria bélica, as guerras em curso e as que estão a ser anunciadas são apresentados como soluções para a expansão dos lucros capitalistas à custa de maior empobrecimento e exploração dos trabalhadores e da juventude, a pergunta que devemos fazer, espelhando-nos em exemplos como os de Brest, é: como construir a unidade mundial dos trabalhadores contra a guerra e a exploração? Como forjar a internacional operária necessária para revolucionariamente acabar com a propriedade privada dos grandes meios de produção e derrotar os inimigos de classe?

categoria-dossier: Guerra e resistência Serviço Militar Obrigatório

Não alinhamos no vosso serviço militar

Em 5 de dezembro, em mais de 90 cidades alemãs, jovens manifestaram-se contra a lei que pretende reintroduzir o serviço militar obrigatório.

“Façam as vossas guerras sem nós!” lia-se, no dia 5 de dezembro, no pequeno cartaz pintado à mão por uma jovem liceal em Düsseldorf. Muita razão tem ela!

A guerra não é da juventude, que não quer matar a juventude de outros países em nome dos interesses dos fabricantes de armas e do imperialismo alemão.

Assim mesmo ou de maneira parecida, estudantes e jovens manifestaram, em mais de 90 cidades, o seu protesto contra a decisão do Governo Merz.

Enquanto a juventude se manifestava na rua, a maioria parlamentar CDU/CSU (democracia cristã) / SPD (Partido Social-Democrata Alemão) aprovava no Bundestag a “Lei de Modernização do Serviço Militar”. A AfD (extrema-direita) e os Verdes votaram contra a lei. No caso da AfD, porque “os soldados que se alistam por causa do pré não têm base sólida para servir. (...) O oposto deles é o soldado que serve por convicção. O soldado alemão, que sabe pelo que luta, que carrega dentro de si o vínculo interior, que é simplesmente o defensor nato do seu país, da comunidade do destino alemão.”

Já os Verdes rejeitaram a lei por ela só abranger os jovens do sexo masculino e não “todas as gerações e todos os géneros”. Ao apresentar a lei, o ministro da Defesa, Boris Pistorius (SPD), disse que “os estudantes estão em greve e a manifestar-se, e eu acho isso óptimo”. Mas deixando claro, na frase seguinte, que “somos nós o Parlamento”. Pistorius quer um Exército de 460 mil “soldados no ativo” e reservistas, nos termos das diretrizes da NATO.

“Façam as vossas guerras sem nós!”

Muita gente mais velha juntou-se às manifestações, apoiando os jovens, o que foi muito bem acolhido pelos estudantes por toda a parte, de Munique a Hamburgo, de Berlim a Düsseldorf: “Que bom que vocês, os mais velhos, nos apoiem!”

Em várias cidades, participaram também professores sindicalizados, alguns com as suas turmas. O Sindicato dos Professores (GEW) de Berlim apelara à manifestação. A questão, de facto, não diz apenas respeito aos jovens, agora votados a servir de carne para canhão. E, antes das manifestações, intimidados e ameaçados de irradiação da escola e difamados pelos meios de comunicação como “os desmotivados”.

Lutar pela revogação dos “planos de serviço militar obrigatório” dos governos é uma causa da juventude unida, ao lado dos trabalhadores, internacionalmente e além-fronteiras.

Em muitas cidades, a mobilização pareceu ainda espontânea e inorgânica. Mas assiste-se ao começo de uma nova mobilização da juventude pela defesa dos seus interesses vitais. “Não paramos a greve!” Em muitas cidades, formaram-se comités de greve. A juventude começa a construir os seus próprios órgãos na luta pela revogação da “lei do serviço militar obrigatório”.

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Venezuela e o regresso do imperialismo: soberania, crise e lições a tirar

Nos últimos dias de 2025, Trump afirmou “queremos o nosso petróleo de volta” e deu início a uma agressiva escalada de pressão económica que, menos de um mês depois, culminaria na invasão brutal e no sequestro relâmpago do chefe de Estado venezuelano.

No âmbito do primeiro debate presidencial Gore-Bush, em outubro de 2000, o então candidato republicano e posterior Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, falou sobre a dependência do seu país do petróleo estrangeiro e a necessidade que tinha de diminuir essa necessidade. Para ele, a solução era muito simples: começar a extrair mais petróleo do México, para não necessitar de parceiros estrangeiros em matéria de hidrocarbonetos.

Esta visão norte-americana é congruente, como o mostram a Doutrina Monroe, a Operação Condor e todas as intervenções feitas por esse país contra governos democraticamente eleitos — pela via armada, quando falham os seus planos de desestabilização —, com uma ideia de superioridade essencial, que se sustenta em visões inclusive genético-culturais, para se assumirem como donos de todo o continente. O México, nessa altura, tal como a Venezuela agora, são deles.

Quando, nos últimos dias de 2025, Donald Trump afirmou que “queremos o nosso petróleo de volta”, ao referir-se aos processos de autodeterminação da Venezuela sobre as suas próprias reservas petrolíferas, e deu início a uma agressiva escalada de pressão económica que, menos de um mês depois, culminaria numa invasão brutal e no sequestro relâmpago do chefe de Estado, limitava-se a reiterar um guião bem conhecido do imperialismo norte-americano. Trata-se do mesmo padrão discursivo e político que, no passado, invocou a alegada existência de armas de destruição maciça no Iraque, na Síria e no Afeganistão para legitimar a intervenção militar e o saque de recursos. Agora, de forma igualmente hipócrita, esse guião reaparece sob o pretexto do combate ao chamado “narcoterrorismo”, utilizado para justificar a apropriação das riquezas da Venezuela.

Perante a invasão sofrida pela Venezuela neste dia, as declarações de Donald Trump — rejeitando, como se tivesse qualquer legitimidade para tal, a participação de líderes da oposição, incluindo Corina Machado, anteriormente desqualificada pela própria administração venezuelana alegadamente por falta de “apoio popular” — não deveriam surpreender ninguém. Pelo menos ninguém que não se tenha deixado seduzir pelo sibilino canto das sereias que, ao longo do tempo, tentaram comprar a consciência de todos aqueles que estivessem nesse país.

Há mais de duas décadas a Venezuela foi palco da revolução bolivariana. Iniciada ainda no final dos anos 1990, a viragem política organizada inicialmente por Hugo Chávez sofreu o seu primeiro golpe em 2002 e, ainda assim, conseguiu um relevante processo de reformas políticas e económicas que tiveram um importante impacto nas condições de vida de uma parcela significativa do proletariado e da população pauperizada venezuelana.

Através de um processo de nacionalização das suas imensas riquezas petrolíferas e aproveitando-se de uma favorável janela histórica de alta dos preços do petróleo, a Venezuela conseguiu, através do controlo estatal da produção e da exportação da sua principal riqueza natural, financiar o seu projeto político e garantir um significativo apoio social, tendo êxito em isolar politicamente os setores mais reacionários da burguesia venezuelana. É importante destacar que, ao contrário das demais experiências do mal chamado “progressismo” na América Latina, a ampla mobilização das massas proletárias e populares na defesa do projeto político em questão foi uma constante ao longo de todo o processo bolivariano capitaneado por Chávez, sendo essa agitação e organização um fator-chave para deslocar a correlação de forças interna e para gerar coesão na defesa contra qualquer ameaça externa.

Contudo, é importante dizer que o processo bolivariano, a despeito dos seus avanços sociais e de uma importante contestação da política externa do imperialismo, nunca teve a intenção de romper com o modo de produção capitalista. Os interesses políticos e económicos que dirigem o país são, em essência, burgueses, sendo o próprio Estado venezuelano um Estado burguês. O avanço do imperialismo dos Estados Unidos avança na esteira de uma revolução popular degradada, indicando uma corrupção do ideal original por parte do governo, que se afastou dos princípios de igualdade e justiça social.

A crise na Venezuela expõe tanto os limites de certas experiências de esquerda como os dos contrapontos que se apresentam como liberais. A desarticulação e a desmobilização do proletariado — frequentemente promovidas pelo próprio governo de Maduro —, a par da traição das aspirações populares e da incapacidade de implementar uma agenda efetiva de aprofundamento da igualdade, contribuíram para o agravamento da crise. Por outro lado, a recusa de qualquer solução autónoma por parte dos povos da nossa região para escolherem os seus próprios governantes — mesmo quando a alternativa se resume a gestores abertamente pró-Estados Unidos, como o prometido pelo grupo liderado pela recentemente laureada com o Prémio Nobel, Maria Corina Machado — demonstra que a saída não pode assentar na ilusão de soluções que tomam como dados incontestáveis o chamado “direito internacional” ou uma invocação abstrata dos direitos humanos.

Estamos, como resulta claro, perante uma transformação global que recupera uma visão colonial direta que não se via desde as modificações feitas na Segunda Guerra Mundial. A aceitação de “linhas de controlo” entre potências, o regresso da ideia de soberania absoluta para os países centrais – isto é, o fim da ideia de um direito internacional efetivamente baseado em regras de igualdade formal – e de necessária submissão para o resto, bem como o uso indiscriminado de qualquer forma de controlo por parte das potências, aprofundam os processos de fascização social que tinham rompido os limites anteriormente existentes com o desprezo de Israel em Gaza.

Por isso, é preciso resgatar os ideais de libertação e soberania popular que originaram a revolução bolivariana e o resto dos processos de transformação na América Latina. Isto só é possível se, em contrapartida, se articularem propostas que escapem ao caudilhismo personalista – hoje é, como se viu, demasiado fácil eliminar um líder individual – e gerem condições de transformação popular que, ao mesmo tempo, lutem ideologicamente com esta nova partilha do mundo, não só no nosso continente, mas também nos espaços que beneficiam dessas divisões, como a Europa.

Sem isto, nenhum país está realmente a salvo. Sem isto, nenhuma noção de democracia pode realmente existir. Porque, se acontecesse agora, o 25 de Abril também levava um bocado de “democracia” à americana.

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A nova “Estratégia de Segurança Nacional” norte-americana

Em Novembro de 2025, Trump anunciou a nova Estratégia de Segurança Nacional norte-americana. Modestamente, como é seu hábito proclamou: “Este documento é um roteiro para garantir que os Estados Unidos continuem a ser a nação mais grandiosa e bem-sucedida da história da humanidade e o berço da liberdade na Terra.”

A publicação da “Estratégia de segurança nacional” (NSS) dos Estados Unidos em Novembro passado suscitou fortes emoções e reacções, principalmente na Europa institucional.

O documento regista, com efeito, o “declínio económico da Europa”.

Mais notável, no entanto, é ele considerar que esse declínio económico é “eclipsado” pela “perspectiva de obliteração da civilização” europeia a que as políticas dos dirigentes do continente levam — tornando “mais do que plausível” que, daqui a vinte anos, a Europa deixe de ser “europeia”. Subentende-se sem dificuldade: a “raça branca” europeia irá ser superada por “raças” africanas, árabes e asiáticas, inimigas da América branca.

A NSS reflecte, assim, sem pudor, a propaganda nazi sobre a “substituição populacional” na Europa. E é tudo menos velado o apoio que promete aos partidos e dirigentes neofascistas (“patriotas”) europeus: Meloni, Orban, Chega, Vox, AfD, RN…

Não obstante, não podia ser mais absurda a conclusão de alguns assustados comentadores europeus — e portugueses1 — de que a estratégia trumpiana designa a “Europa” como “inimigo principal” do império americano.

Em quase toda a extensão do documento, a administração Trump dedica-se a descrever como combater e atacar a China, apesar de a palavra ser pouco usada no documento2.

Assim, se a primeira prioridade da estratégia americana (O que queremos no e do mundo?) é o controle absoluto dos Estados Unidos sobre o “hemisfério ocidental”3, não se deixam dúvidas sobre o que está em disputa.

Essencialmente, trata-se de manter o hemisfério “livre das incursões hostis e da propriedade de activos essenciais” por “externos” (leia-se: pela China) e de manter o acesso dos EUA “a localizações estratégicas essenciais” (leia-se: expulsando, por exemplo, a empresa de Hong Kong proprietária dos portos do canal do Panamá e impedindo a entrada de capitais chineses no aço e nas “tecnológicas” americanas); “deter e reverter o mal que actores externos têm infligido à economia americana, mantendo, do mesmo passo, o Indo-Pacífico [não exactamente “hemisfério ocidental”!] livre e aberto, salvaguardando a liberdade de navegação em todas as rotas marítimas críticas e mantendo cadeias de abastecimento seguras e fiáveis, bem como o acesso a materiais críticos” (leia-se: manter o controle naval do canal do Suez, dos estreitos de Ormuz e de Malaca, do mar da China Meridional e das novas rotas do Ártico e o acesso às terras raras chinesas. Hemisfério ocidental?)

A maneira de assegurar tais desígnios é indicada sem subterfúgios diplomáticos: “queremos recrutar, treinar, equipar e pôr no terreno o exército mais poderoso, letal e tecnologicamente avançado do mundo para proteger os nossos interesses, deter guerras e — se necessário — ganhá-las rápida e decisivamente, com o mínimo de baixas das nossas forças”. Além, naturalmente, do “dissuasor nuclear mais robusto, credível e moderno do mundo, bem como defesas antimísseis de novíssima geração — incluindo uma Abóbada Dourada sobre a América — que protejam o povo americano, o património americano no estrangeiro e os aliados da América.”

Eis o que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário.

Falando directamente da China, a “estratégia de segurança nacional” refere que Trump reverteu mais de três décadas de suposições erradas a respeito daquele país, a saber, que a abertura de mercados à China, os incentivos ao investimento americano na China e à deslocalização industrial para a China conduziriam à integração daquele país na “chamada ordem internacional assente em regras” (a ordem mundial ao serviço dos interesses americanos) — coisa que “não aconteceu”.

Daí a necessidade de “reequilibrar a relação económica da América com a China”: acabando com “estratégias industriais e subsídios estatais predatórios; práticas comerciais injustas; a destruição de empregos e a desindustrialização; o roubo de propriedade industrial e a espionagem industrial em grande escala; ameaças às nossas cadeias de abastecimento que ponham em risco o acesso dos EUA a recursos críticos, designadamente minerais e terras raras; (...) propaganda, operações de influência e outras formas de subversão cultural”. Exige-se, para tal fim, o concurso da “Europa, do Japão, da Coreia, da Austrália, do Canadá, do México e de outras nações importantes”.

Corresponda ou não à prática do Estado chinês esta descrição, ela corresponde sem sombra de dúvida à caracterização que dela têm feito as administrações americanas.

Trata-se, portanto, sem equívoco, de acabar com o Estado chinês na sua forma actual por meio de uma estratégia política, comercial e militar que lembra fatalmente o cerco à União Soviética e o avanço inexorável da NATO sobre as fronteiras da URSS (e, depois, da Rússia) que caracterizaram a política americana pelo menos desde Reagan.

Todo o capítulo sobre a “dissuasão de ameaças militares” é dedicado à preparação do confronto político-militar com a China: “uma relação de forças militar convencional favorável continua a ser uma componente essencial da competição estratégica. O foco está muito, e bem, em Taiwan, em parte por esse país dominar a produção de semicondutores, mas, sobretudo, porque Taiwan dá acesso directo à Segunda Cadeia Insular [as ilhas onde os EUA detêm colónias e bases militares importantes situadas a oriente do Japão e doutras ilhas mais próximas do continente chinês], dividindo a Ásia em dois teatros [militares] distintos, Nordeste e Sudeste. O facto de dois terços do transporte marítimo passarem pelo mar da China Meridional tem implicações de primeira ordem para a economia americana. Deter um conflito por Taiwan, de preferência mantendo a nossa superioridade militar, é, pois, uma prioridade. (...) Poremos de pé uma força militar capaz de impedir agressões em qualquer ponto da Primeira Cadeia Insular. Contudo, as forças armadas americanas não podem nem devem ter de fazê-lo sozinhas. Os nossos aliados [Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, Nova Zelândia] têm de responder presente e gastar — e, ainda mais importante, fazer — muito mais pela defesa colectiva. (...) É imperioso desenvolver as medidas de força e dissuasão necessárias para manter essas rotas abertas, livres de “portagens” e não sujeitas a encerramento arbitrário por algum país.”

Pese aos comentadores que estranham a linguagem aparentemente menos hostil à China (e à Rússia) do que a usada na doutrina da primeira administração Trump, a NSS 2025 é transparente nas suas prioridades — e no número de páginas dedicado a cada “região”:

— acabar com a actual economia e Estado chinês, ainda predominantemente assente na propriedade estatal dos meios de produção;

— acabar com a guerra “lateral” da NATO com a Rússia pela Ucrânia, agora que a Rússia já está significativamente desgastada; ou então deixá-la supurar, mas exclusivamente à custa dos orçamentos e das economias dos imperialismos europeus e para lucro da indústria armamentista americana;

— promover um surto sem precedentes da economia do armamento e cavar a superioridade das forças armadas americanas, transferindo, de passagem, maciçamente lucros para o capital americano em prejuízo dos concorrentes menores, europeus e não só;

— no Médio Oriente, apoiar sem reservas os regimes feudais e Israel, acabando com quaisquer fantasias de “democratização”.

— explorar sem limites os recursos dos países do “terceiro mundo”, acabando com as fantasias da “ajuda ao desenvolvimento”.

Este é o mundo que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário. Um mundo de ditaduras e de destruição da democracia.

Todos os poderosos do mundo rastejam e capitulam, uns atrás dos outros.

A única oposição aos bárbaros desígnios do imperialismo é a que lhes montem as classes trabalhadoras: da América, da Europa, da Ásia e do mundo.


1 Por exemplo, no Expresso de 12 de Dezembro, Miguel Monjardino escreve que “o principal adversário dos EUA em todo o documento parece ser a União Europeia, vista agora em Washington como um projeto das elites liberais e internacionalistas que se opõe aos seus valores políticos e interesses tecnológicos e comerciais.”
2 A razão principal da aparência algo fantasmática do alvo chinês é dupla, como refere The Economist (26/12/25): a cimeira Trump-Xi Jinping de Abril de 2026, que os negociadores americanos estão a preparar intensamente, querendo evitar interferências diplomáticas até lá; e batalhas intestinas na administração americana, entre vários interesses que se cruzam.
3 Na definição da NSS, hemisfério ocidental parece referir-se principalmente às Américas, de Norte a Sul. No entanto, tradicionalmente, também inclui a Europa Ocidental. O documento deixa ambiguidade a este respeito, tratando a Europa à parte.


  • O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Rússia Ucrânia

Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky

Não estamos perante uma guerra “por procuração”, uma guerra (inter)imperialista em que os EUA e a UE agiriam contra a Rússia através da Ucrânia, defende Felipe Alegria.

A intervenção de potências imperialistas rivais nos conflitos e guerras dos países semicoloniais é um facto presente desde o surgimento do imperialismo e hoje apresenta-se de forma cada vez mais acentuada. Ninguém pode negar a intensa intervenção indireta dos EUA e da UE na guerra da Ucrânia, bem como o carácter pró-imperialista e anti-operário do governo Zelensky. No entanto, isso não elimina o aspeto central: estamos perante uma guerra de agressão nacional do imperialismo russo, segunda potência militar do mundo, contra uma nação semicolonial, muito mais fraca, usando como ferramenta a violência e métodos de extrema crueldade. Uma guerra cujo objetivo é o controle de um país que é um enorme “celeiro”, tem uma localização geográfica fundamental para o trânsito energético e comercial da região e uma dimensão e recursos que o Kremlin precisa para o seu projeto da Grande Rússia.

Este facto define uma guerra justa por parte dos Ucranianos: uma guerra de libertação nacional contra um exército imperialista invasor. A intervenção indireta dos imperialismos norte-americano e europeu (sem esquecer o chinês), cada um com os seus próprios interesses, bem como a natureza pró-burguesa e pró-imperialista do governo Zelensky, devem ser tidas em conta para precisar a política, mas não alteram este facto substancial.

Não estamos perante uma guerra “por procuração”, uma guerra (inter)imperialista em que os EUA e a UE agiriam contra a Rússia através da Ucrânia. Para aqueles que defendem esta posição, não importa se a Ucrânia ou a Rússia triunfam, porque em ambos os casos um campo imperialista venceria e a classe trabalhadora e os povos ucraniano e russo perderiam sempre.

Contudo, apenas poderíamos definir a guerra atual na Ucrânia como imperialista, caso o comando militar efetivo passasse para as mãos dos EUA, com o controlo tecnológico completo e a necessária intervenção de tropas no terreno. Algo que não aconteceu e que é altamente improvável, justamente quando Trump quer obrigar Zelensky a aceitar as condições de Putin, em troca de dividir com este os recursos ucranianos e a exploração do Ártico, bem como afastar a Rússia da China.

Alguém acha que é possível desmascarar as intrigas e os enganos da NATO se não for a partir das trincheiras ucranianas?

A classe trabalhadora europeia deve apoiar o povo ucraniano na luta pela sua liberdade e integridade nacional, integrando esse apoio na luta por uma saída socialista para a Ucrânia e a Rússia e por uma Europa socialista; desmascarando e enfrentando, nesse processo, o governo Zelensky, o imperialismo norte-americano e a UE.

O apoio expressa-se, por exemplo, na organização de comboios de ajuda, como os enviados por sindicatos como o Solidaires (França), a CSP-Conlutas (Brasil), a Inicjatywa Pracownicza (Polónia), ou o STASA (Portugal), ao sindicato mineiro-metalúrgico de Kryvyi Rih (com muitos dos seus membros na frente de batalha), ou na campanha para que os lutadores classistas como Denys Matsola e Vlad Zhuravlev, presos na defesa de Mariupol, sejam incluídos nas listas de troca de prisioneiros de guerra. Significa também apoiar as grandes mobilizações que ocorreram contra a tentativa de Zelensky de controlar os organismos anticorrupção, bem como unir-se à repulsa generalizada do povo ucraniano às pretensões de Trump.

Os defensores da tese “Nem com Rússia, nem com a Ucrânia”, quando defendem a retirada das tropas russas da Ucrânia, não vão além de uma declaração verbal. Isto porque, para eles, não existe uma guerra justa de libertação nacional, mas sim uma “guerra reacionária” de ambos os lados, na qual os Ucranianos são meros “bancos de carne” dos EUA… que são amigos de Putin.

Por outro lado, alguém acha que é possível desmascarar as intrigas e os enganos da NATO se não for a partir das trincheiras ucranianas? Alguém considera que é possível combater Zelensky sem ser “os melhores soldados contra Putin”? O que dizem aos trabalhadores ucranianos, muitos deles na linha de frente: que não se deve combater o invasor porque ambos os campos bélicos são reacionários e que eles não passam de fantoches dos EUA e da UE?

O resultado da guerra dependerá da força da resistência da classe trabalhadora e do povo ucraniano ao seu governo pró-imperialista e à pilhagem russa, norte-americana e europeia. Também dependerá disso o impulso da luta da classe trabalhadora e dos povos da Federação Russa e da sua periferia.

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Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”

Quase nada de novo existe na agressão contra a Venezuela. O intervencionismo norte-americano na América Latina vem de longe.

Uma Venezuela cercada pela maior frota naval norte-americana deslocada para o mar das Caraíbas, sem que possa predizer-se com exatidão o que vai acontecer, constitui um valioso recordatório sobre a relação entre poder e indeterminação. Como bem teorizou Alain Badiou, a extensão do poder é diretamente proporcional à indeterminação com que procura exercer-se e forçar os seus limites. Quanto maior a indeterminação, quanto maior a dúvida sobre o seu alcance e a sua vontade, maior esse poder se torna.

Com Trump, pouco há de novo na política “hemisférica” da Casa Branca, mediante a reabilitação do arcaico direito feudal de “pernada” do velho Monroe, doutrinariamente lavrado em 1823. De um modo emblemático edificou-se, até, metonimicamente, a designação que funde um dos Estados do continente, os EUA, com a sua totalidade, “a América”.

Na sua fase historicamente mais recente este intervencionismo tem a sua génese em 1954 na “República das Bananas”, com o golpe contra o governo de Jacobo Arbenz, na Guatemala, ao serviço da United Fruits, a quem pertenceriam as plantações e os solos guatemaltecos. Este argumento reedita-se agora com uma das mais recentes declarações de Trump quando afirma que na Venezuela se trata de “recuperar”, sequestrando petroleiros “sancionados”, a propriedade norte-americana do petróleo venezuelano, “usurpado” pelo governo do país.

A Oeste quase nada de novo

Quase nada existe de novo na agressão contra a Venezuela. Nada que Cuba e os Cubanos desconheçam, enquanto vítimas de um dos maiores crimes de lesa-humanidade que continua placidamente a ser cometido com a continuada guerra económica que reduziu o país a uma pauperização tão indescritível quanto mal descrita e acusatoriamente voltada contra a revolução.

Nada de novo também, na ideia fundamental aplicada contra a Nicarágua sandinista nos anos 1980, quando se trocaram armas por dinheiro do narcotráfico (Oliver Norton e o Irão-Contra, lembramo-nos?), cujas perspetivas revolucionárias deviam ser afogadas por uma guerra de agressão em nome da “liberdade”.

Em suma, o “quase” neste nada de novo, no caso venezuelano, tem apenas a ver com os recursos naturais do país, dos mais ricos do mundo, que o situam no epicentro das guerras em curso por recursos.

Esse supremacismo reaparece no neo-colonial-imperialismo revestido não pelo termo ‘civilização’, mas pelos termos ‘democracia e direitos humanos.

Uma revolução bem-sucedida num dos países mais ricos do planeta não representaria apenas um mau exemplo para os restantes povos, como o constituído representado por Cuba ou pela Nicarágua. Poderia, ao invés, transformar a Venezuela numa potência regional poderosa, cujo “descontrolo” representaria uma enorme esperança e apoio para outros povos latino-americanos e não só. Por conseguinte, não existe qualquer inquietação com “a democracia” ou os “direitos humanos” dos Venezuelanos, fórmula que substituiu no discurso supremacista do Norte ocidental, as antigas e hoje insustentáveis bases argumentativas, de levar aos “selvagens” os méritos cristãos da “civilização”. Esse supremacismo reaparece, assim, no neo-colonial-imperialismo, revestido não pelo termo “civilização”, mas sim pelos termos “democracia e direitos humanos”.

As esquerdas e o conto do vigário

Desafortunadamente, não causa grande surpresa a adesão de várias esquerdas europeias ocidentais (e não só), a este argumento neo-imperial, sempre que, antes ou depois da crítica ao intervencionismo de Washington, tem de haver uma referência “ao regime de Maduro”.

Trata-se, aliás, a meu ver do mesmo “mas” a que essas mesmas esquerdas recorrem quando, a respeito de outras áreas internacionais e da geopolítica, tentam enquadrar-se sem maiores percalços nas dinâmicas de extrema-direitização das suas existências políticas nacionais.

O problema não parece, pois, um qualquer debate (legítimo) sobre o processo venezuelano iniciado com Chávez. Mas, como a classe de oportunismo que prodigaliza uma suave cumplicidade pós-moderna com as políticas imperiais, travestida de um discurso de “esquerda linha branca”, passível de ser encontrado a propósito de cada esquina mais agreste do mundo dos nossos dias. Como se em causa estivessem as escolhas dos Venezuelanos e não o novel e agressivo supremacismo imperial.

categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Rússia União Europeia Venezuela edicao-2026-01-08 (10)

O inimigo dentro de portas

A EU, em conivência com Zelenski, faz campanha não só para continuar a guerra, mas para a intensificar e alargar com a entrada direta dos países europeus, e, pelo menos parcialmente, da NATO.

A guerra é um momento de verdade para os Estados, que são os seus protagonistas essenciais, mas também para os indivíduos, que, na sua origem e decurso, são os seus potenciais algozes e vítimas. A minha tese principal consiste em afirmar que a União Europeia se transformou no principal inimigo dos Estados europeus e sobretudo da vida e da fazenda dos cidadãos europeus. E é a guerra da Ucrânia a grande prova de fogo que serve de demonstração a esta tese.

É verdade que até Josep Borrell, Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança (2019-2024), afirmou em final de outubro de 2024, que com a cumplicidade ativa da UE no genocídio praticado pelo Estado de Israel contra o povo palestiniano em Gaza, o projeto iniciado por Jean Monnet “perdeu a sua alma”. Contudo, essa queda da UE no espesso lodo da moral pública, começou muito antes, tendo-se revelado com a guerra da Ucrânia e as suas raízes. Compreender a historicidade e multidimensionalidade desse processo é indispensável para perceber os motivos que me levam a sustentar que atualmente a principal ameaça existencial aos povos europeus não reside na Rússia nem nos EUA, mas sim no colapso cognitivo e na furiosa russofobia dos órgãos supremos da UE. Vejamos os principais argumentos demonstrativos.

Primeiro. A UE, com uma responsabilidade especial para a Alemanha, confundiu-se crescentemente com a NATO, sendo cúmplice ativa da tentativa dos EUA de, depois da dissolução da URSS, manter a Rússia à margem de um novo e indivisível sistema de segurança europeia. De 1990, ano da falsa promessa de não alargamento da NATO para Leste, até 24-02-2022, data da invasão russa da Ucrânia, temos três décadas de sucessivas tentativas de marginalizar as “garantias de segurança” da Rússia, explorando todas as vias para fomentar a fragmentação e a dissensão dentro e fora das fronteiras desse país. Isso continua bem vivo, já depois da 2022, na manutenção do objetivo declarado da UE de infligir uma “derrota estratégica” a Moscovo, o que seria igual à fragmentação da Rússia em cinco ou seis Estados mais pequenos, como lembra, repetidamente, a atual chefe da diplomacia de Bruxelas, Kaja Kallas.

Segundo. Usando o direito internacional como desculpa para a autoflagelação estratégica, a UE, e em particular a Alemanha, enveredaram (depois de 2014 e 2022) por uma política de sanções contra a Rússia que se voltou contra os interesses da economia e da qualidade de vida dos Europeus, suportando o objetivo disruptivo dos EUA de destruir a cooperação mutuamente vantajosa entre a Rússia e a UE, contrariando todos os esforços diplomáticos para encontrar uma solução para o rápido fecho do conflito. O gigantesco financiamento do governo de Kiev, conhecido pelo tradicional e elevado nível de corrupção, foi feito sem escrutínio (ao contrário do que ocorreu no período da crise do euro com a vigilância da troika à política orçamental de Portugal, da Grécia e da Irlanda).

Como recompensa pelos seus bons serviços, talvez Paulo Rangel termine a sua carreira política como governador [de uns Açores tutelados pelos EUA].

Terceiro. A UE mergulhou os Europeus numa cortina de propaganda, com um controlo férreo das narrativas sobre a guerra. A imposição de uma mitologia simplificadora foi feita com a cumplicidade da maioria dos media convencionais e o entusiasmo colaborante de muitos académicos, manifestando também o desastroso crepúsculo da “imparcialidade homérica” e da lisura intelectual nas instituições de ensino superior europeias, que as deveriam defender incondicionalmente.

Quarto. Com uma economia destroçada pela dívida pública crescente, pela estagnação económica, e pelo “imposto Trump” de 5% do PIB europeu para garantir a compra de armas aos EUA, a UE entrou num processo de violação das regras do jogo dos mercados financeiros. A tentativa gorada de roubar os ativos russos, sobretudo em títulos de dívida dos Estados europeus, transformando-os em dinheiro oferecido a Kiev para o esforço de guerra, teve como resultado a consolidação de um sentimento de desconfiança dos mercados financeiros relativamente à UE. Não só aumenta a taxa de esforço da dívida dos Estados europeus como se expande o abandono do euro como moeda de reserva internacional.

Quinto. A Comissão Europeia tem governado por decreto. O Tratado da União Europeia e o Tratado de Funcionamento da União Europeia têm sido violentados com brutalidade, através de interpretações totalmente contrárias, tanto à letra como ao espírito, desses documentos para-constitucionais. Mais recentemente, o Conselho da União Europeia na área da política externa e de segurança tem violado grosseiramente os direitos humanos ao alargar a cidadãos europeus brutais sanções que os privam de acesso aos seus bens materiais e coartam o seu direito de circulação (Council Decision (CFSP) 2025/2572 of 15 December 2025. https://eur-lex.europa.eu/eli/dec/2025/2572/oj). Estamos a falar da transformação da liberdade de expressão em delito de opinião, abolindo a separação de poderes, e o direito à defesa num julgamento justo. A UE faz-nos regressar aos tempos anteriores à Magna Carta!

Sexto. O mais grave, contudo, é a campanha organizada pela UE, em conivência com Zelenski, não só para continuar a guerra, mas para a intensificar e alargar com a entrada direta dos países europeus, e, pelo menos parcialmente, da NATO. Responsáveis políticos e militares têm indicado o período entre 2026 e 2030 como a janela provável para tal ocorrência. Como afirmou J. F. Kennedy, num discurso em Washington, em 10 de junho de 1963: “Acima de tudo, enquanto defendem os seus próprios interesses vitais, as potências nucleares devem evitar os confrontos que levam o adversário a optar entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear. Adotar esse tipo de atitude na era nuclear seria apenas uma prova da falência da nossa política – ou de um desejo coletivo de morte para o mundo.” Esquecer a mais importante lição da Guerra Fria, que é o princípio da Destruição Mútua Assegurada (MAD). Sustentar hoje que é possível travar uma guerra vitoriosa contra a maior potência nuclear do planeta é uma prova abominável do “desejo coletivo de morte para o mundo”, reinante em Bruxelas, que só poderá conduzir à destruição definitiva da Europa, incluindo o seu património e memória, varridos no inferno nuclear.

O sonho de paz com justiça da União Europeia há muito que foi raptado pela avidez e os caprichos de uma elite neoliberal para quem a democracia é um mero instrumento, só valioso quando o resultado é o mais conveniente (basta ver a doutrina de choque praticada durante a crise do euro). Mas desta vez é diferente. Os inimigos da vida e dos bens dos cidadãos europeus, com a cumplicidade da maioria dos governos nacionais, estão sentados na Comissão Europeia, no Conselho Europeu, no Conselho da União Europeia, no Parlamento Europeu. O seu niilismo ético só é ultrapassado pela sua profunda ignorância dos resultados de uma guerra levada ao extremo entre potências nucleares. Ursula von der Leyen, António Costa e Kaja Kallas são hoje o rosto de uma incompetente desmesura europeia que nos poderá condenar a todos à aniquilação.


PS. Escassas horas depois de ter escrito o texto acima, os EUA atacaram a Venezuela e raptaram o presidente Maduro e a sua mulher, levando-os para Nova Iorque. Maduro será julgado sob a acusação de liderar o narcotráfico para os EUA. Há ainda muitas dúvidas por esclarecer. A ausência de resistência dos sistemas aéreos e das tropas terrestres venezuelanas ao raide das forças especiais norte-americanas indicia a possibilidade de um acordo prévio, talvez através do suborno de uma parte da hierarquia militar. Nas questões essenciais, contudo, não restam dúvidas. Enquanto os soldados norte-americanos destruíam qualquer resistência (fala-se de 40 mortos, pelo menos), o presidente Trump indicava o petróleo como o motivo principal do ataque. A explicação mereceria um texto mais longo, mas as questões-chave são as seguintes: a) os EUA carecem de crude pesado (heavy crude oil) para as suas principais refinarias. Elas estão instaladas perto do Canadá (nos estados do Illinois e do Montana) e da Venezuela (nos estados da Luisiana e do Texas). Os outros grandes exportadores, Arábia Saudita e Rússia, estão envolvidos na construção dos BRICS e num novo sistema monetário internacional que rompa com os petrodólares (a obrigação de todas as compras de combustíveis fósseis serem efetuadas na moeda dos EUA). Este ataque dos EUA à Venezuela é um regresso ao imperialismo boçal, baseado na força militar e não no softpower do poderio económico e cultural, que passou a ser dominante após 1945. Trump fala como se a submissão da Venezuela estivesse completa, mas esse país não é o Panamá. Muito sangue irá ainda escorrer. O que é certo é a total inaceitabilidade desta ação bélica dos EUA à luz do direito internacional e do mais elementar respeito pela soberania dos Estados sobre os seus recursos naturais. Contudo, com a exceção da condenação espanhola, tanto a Comissão Europeia como os principais países europeus recusaram-se a condenar Trump, mostrando uma vergonhosa cumplicidade com ele. Porém, pelo que conheço, o cúmulo da desfaçatez pertence ao ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, que considerou “benigna” a intenção de Trump e chegou mesmo a aconselhar a Trump o nome de Edmundo González para futuro chefe de Estado em Caracas… É uma pena que Trump não o tenha escutado, pois estava ocupado a dizer que Corina Machado, a Nobel da Paz 2025, apesar de entusiasmada com a intervenção americana não tinha qualidades para esse cargo. Não tenho palavras para expressar a infelicidade que me assola por ver Portugal, além de encurralado numa UE enlouquecida, ser governado por quem prejudica os interesses nacionais e ofende o melhor da nossa herança histórica. Talvez o presidente Trump, depois de ter arrancado a Gronelândia à soberania dinamarquesa, também desembarque os seus marines em todas as ilhas da Região Autónoma dos Açores, declarando-as como um novo Porto Rico, um território tutelado por Washington. Nessa altura, como recompensa pelos seus bons serviços, talvez Paulo Rangel termine a sua carreira política como governador. Viver rodeado pelo Atlântico por todos os lados será o melhor habitat para um atlantista incondicional como o atual MNE.

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