Ray Bradbury, Fahrenheit 451
Pouco depois do 25 de Abril, diz o texto de contracapa deste romance de Carlos Campaniço, “os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas”. Em Aldeia Velha, que poderia ser a Safara natal do autor, no concelho de Moura, ou alguma outra aldeia do Alentejo, onde decorre a ação deste romance, “a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da guerra colonial e as novas liberdades trazidas pela revolução”.
Recentemente (março de 2026) reeditado pela Cavalo de Ferro, casa que tem vindo a reeditar a obra do autor, ou mesmo a apresentar algumas até aqui inéditas, Fahrenheit 451 constava da coleção Argonauta, da Livros do Brasil, com tradução de Mário Henrique Leiria, e capa desenhada por Lima de Freitas.
A Utopia, escrita em 1516 por Thomas More, retrata a ilha do mesmo nome, onde estaria vigente um regime sociopolítico perfeito. Por curiosidade, o narrador toma conhecimento de todos aqueles factos através de uma conversa que mantém numa taberna de um qualquer porto, com um marinheiro português. A Cidade do Sol, de Campanella, ou a Nova Atlântida, de Francis Bacon, são outros exemplos deste tipo de exercício literário, mais tarde designado como literatura utópica.
Já no século XX, com o advento dos totalitarismos, esse exercício foi posto em prática de uma forma invertida. Já não era descrito o sistema perfeito. Passámos a estar confrontados com sistemas disfuncionais, quando não já perto do colapso, sendo evidente que os autores pretendiam antever aquilo a que poderia levar a ambição do homem.
A novela 1984, de George Orwell, atingiu, talvez, maior notoriedade do que qualquer outra do género, mas isso deveu-se essencialmente ao ambiente político existente à época do seu lançamento, tratando-se de uma crítica direta ao regime estalinista.
Mas Nós, do russo Evgueni Zamiatine, vista como inspiração para Orwell, ou o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, são obras igualmente poderosas, quer na análise que é feita dos mecanismos da nossa sociedade, quer no apuro artístico conseguido.
Fahrenheit 451 é muitas vezes citado quando falamos de censura e de proibição de livros. Na sociedade retratada, determinados livros são proibidos, sendo que estava previsto que, sempre que fosse encontrada uma biblioteca clandestina (qualquer número de livros, na verdade), era chamado o corpo de bombeiros, que já não funcionava para extinguir fogos, mas sim para incinerar livros proibidos.
É fácil perceber que a sua notoriedade passa em grande parte pela ideia poderosa de vermos o corpo de bombeiros votado à queima de obras literárias. Contribuiu, em muito, para a sua fama, o filme de François Truffaut, realizado em 1966. O grande mestre da Nouvelle Vague não poderia passar despercebido ao fazer um filme em língua inglesa, colocando no ecrã uma das maiores estrelas daquele lado do canal da Mancha: Julie Christie.
Só que Fahrenheit 451 tem muito mais para nos contar do que bombeiros com mangueiras donde jorra gasolina. Mais do que envelhecer bem, esta obra tem vindo a ficar mais atual.
Comecemos por uma pequena curiosidade. Na história, o passado menos recente, tal como era apresentado, tinha sido alterado em função das conveniências do regime. O corpo de bombeiros tinha como narrativa oficial que a sua fundação datava dos anos da revolução americana, e que tinha como propósito queimar os livros de influência inglesa. O seu primeiro líder teria sido Benjamin Franklin, sendo de assinalar o sentido de ironia.
Neste regime em particular, que é, obviamente, totalitário, não sabemos exatamente quem é o adversário. Mesmo que durante parte da ação se esteja na iminência de uma guerra, que acaba por deflagrar já no final, como se de uma espécie de cair do pano se tratasse. Mas sabemos que são os livros em geral que são proibidos, mais concretamente a literatura, e não os livros que defendam algum modelo específico de distribuição de riqueza, ou de regras de convívio entre raças e/ou géneros. Não se trata de atacar os que rezam a Deus vestidos de branco, por parte daqueles que rezam vestidos de negro.
O que está verdadeiramente em causa é a literatura, como veículo de transmissão de ideias. Naquele regime, era a reflexão, fosse em que sentido fosse, que era combatida. E ninguém estranhava a extraordinária taxa de suicídios, toxicodependência ou divórcio registada.
Em determinado momento, o protagonista, Guy Montag, bombeiro de profissão, é confrontado pelo seu superior hierárquico, que aproveita para lhe explicar alguns detalhes sobre a realidade que os rodeava. É dito em determinado momento: “Quanto maior é a população, mais numerosas são as minorias.” E depois é explicado que as tensões decorrentes de uma sobrepopulação do planeta levaram o homem a simplificar tudo, do sistema político ao entretenimento. A literatura começou por ser resumida, chegando a não passar de resumos de resumos, acabando, por fim, por ser banida. Tudo o que pudesse constituir razão para divergências de opinião passou a ser banido – ainda que as pessoas não fossem necessariamente mais felizes por isso.
Numa época em que a comunicação de massas se faz em grande parte pelas redes sociais, são-nos fornecidos ideias e valores que já temos e defendemos, sem qualquer contraditório e, portanto, sem necessidade de reflexão.
O nosso herói acaba por se rebelar contra os poderes instituídos e, já em fuga, quando se julgava irremediavelmente sozinho, encontra um grupo de marginais que sobrevive nas margens daquela sociedade. Entre outras coisas, asseguram que a memória coletiva não se perca, na medida em que memorizam os livros que leem.
Significativamente, respondem à pergunta “O que é que vocês fazem?” com: “Nós lembramos.”
A história termina com o deflagrar de uma guerra, como já referido, e com alguém a refletir que seria bom que o homem não agisse como uma fénix, porque, ainda que possa renascer das cinzas, poderia não mergulhar tão facilmente em piras funerárias.
Estamos numa época em que a comunicação de massas se faz em grande parte pelas redes sociais, que operam de forma a fornecer-nos essencialmente aquilo que nos interessa. Ou seja, são-nos fornecidos ideias e valores que já temos e defendemos, sem qualquer contraditório e, portanto, sem necessidade de reflexão. Pelo que, inevitavelmente, quando finalmente entramos em confronto com alguma coisa, a nossa posição surge já extremada. Caminhamos para um tipo de sociedade mais confrontacional.
Uma vez lida esta obra, que era originalmente um mero meio de entretenimento típico de uma época em que o átomo e a corrida espacial dominavam o nosso imaginário, e que tem vindo a revelar um carácter ominoso, o leitor atento perceberá que importa que saibamos manter viva a chama da reflexão, mantendo presente que os caminhos mais curtos e planos não são necessariamente os que nos conduzem ao nosso destino.