Quando o povo diz não:
a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles
Algo mexeu nos Estados Unidos. Assembleias de trabalhadores em Minneapolis, novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes, que não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada no balanço da greve geral.
ilustração: www.instagram.com/ricardomiguelferreira/
Algo mexeu nos Estados Unidos. A tentativa do Governo Trump de impor deportações em massa ao serviço da sua agenda etnonacionalista encontrou resistência massiva e determinada nas maiores cidades democratas do país — de Los Angeles a Chicago e Minneapolis. Tropas federais, a Guarda Nacional, agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — até os fuzileiros navais, em Los Angeles — viram-se obrigados a recuar diante da oposição nada comum da gente comum. Nos bairros, locais de trabalho, hospitais, escolas e paragens de transportes públicos, os moradores enfrentaram a máquina deportadora federal sem se deixarem intimidar. A indignação moral transformou-se em insurreição colectiva a uma escala que há décadas se não via nos Estados Unidos e que, em várias cidades, forçou um dos governos mais autoritários e agressivos da história americana a recuar, pelo menos temporariamente.
Esta é a história de como esse movimento tomou forma e do sinal para que poderá apontar quanto aos limites de um regime autoritário na América. É também um aviso: o poder autoritário, mesmo em plena expansão do Estado securitário, não é ilimitado se e quando comunidades organizadas, o movimento operário e instituições democráticas o enfrentarem.
Uma ocupação, mais do que uma política
Para entender o que se passou em Minneapolis e Los Angeles, é preciso começar pelo que Trump tem andado a fazer: não a fiscalizar a imigração, seja qual for o sentido tradicional que se queira dar à palavra. Ele declarou antes uma guerra política às cidades e comunidades que são bastiões democratas, muitas delas dirigidas por pessoas de cor, e aos laços de solidariedade que lhes mantêm a coesão.
As fileiras do ICE e da Guarda de Fronteiras dispararam, alimentadas por prémios à contratação de 50 mil dólares, feitos para atrair recrutas que são depois rapidamente treinados e colocados. Os agentes da Guarda de Fronteiras enviados para Minneapolis — que não é uma cidade fronteiriça — não estão habituados a lidar com pessoas que gozam dos direitos garantidos pela Primeira Emenda Constitucional. Ambas as forças servem-se de armas e tácticas militares, tratando a população civil como alvos inimigos.
Não é policiamento de rotina, nem sequer é o modelo já conhecido de rusgas aos imigrantes. Assistimos à militarização da fiscalização da imigração e à transformação de agências federais numa força de segurança interna.
Há quem descreva a enorme expansão do aparelho de segurança federal — exactamente quando Trump e Musk despedem centenas de milhares de outros funcionários públicos federais — como forma de keynesianismo policial: um programa de criação de emprego construído para a repressão. Dito com menos cerimónia, é um canal de recrutamento para as milícias dos Proud Boys e de outras formações de extrema-direita.
É, contudo, um fracasso, mesmo como programa de criação de emprego. Ao contrário do rearmamento militar dos nazis, que vinculou sectores significativos da população alemã ao projecto de Hitler, criando empregos a sério e expectativas económicas crescentes, a expansão do Estado de segurança nacional por intermédio do ICE não é capaz de oferecer estabilidade ou poder de compra aos trabalhadores. Não cria uma base de beneficiários alargada. O que gera é medo, raiva e repulsa. Minneapolis tanto pôs a nu os limites do poder repressivo do ICE como os limites políticos do projecto de deportação de Trump.
A administração Trump destacou para Minneapolis mais de três mil agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — mais do dobro da força policial combinada das cidades gémeas de Minneapolis e St. Paul —, no que o governo denominou de Operação Metro Surge. Os agentes do ICE espancaram e gasearam manifestantes, perseguiram autocarros escolares, lançaram bombas de gás lacrimogéneo à frente de hospitais e fizeram rusgas a pequenas empresas. Em 7 de Janeiro de 2026, o agente do ICE Jonathan Ross atirou a matar contra Renée Nicole Good, uma poeta e mãe de três filhos, enquanto ela e a mulher observavam uma rusga no seu bairro, sem violar nenhuma lei. “Nós tínhamos apitos”, disse depois Rebecca, a mulher de Good, “e eles tinham armas.” Três semanas depois, agentes federais executaram o manifestante Alex Pretti numa esquina. Dezenas de milhões de espectadores horrorizados assistiram à cena do assassinato, captada de vários ângulos.
Mesmo sem contar os montes de neve encharcados de sangue, os aspectos mais correntes da vida debaixo de ocupação são tão drásticos como os mais chocantes crimes. O jornalista sindical Luis Feliz León estava em Minneapolis, no terreno, nos dias que antecederam e se seguiram ao Dia da Verdade e da Liberdade de 23 de Janeiro. Descreveu assim o que viu:
“Varandas com montes de casacos a arejar do gás lacrimogéneo ao ar do Inverno; gatos a vaguear pelas ruas, farejando o que resta do cheiro de donos raptados; crianças de cor à boleia de vizinhos brancos por os pais terem medo de a polícia os parar; professores a recolherem sacos de roupa suja à chegada à escola por os pais não poderem sair para pôr roupa a lavar.”
Ir à escola passou a ser um risco. Aniversários e quinceañeras (festas dos quinze anos) foram cancelados. Uma comunidade inteira, sitiada.
O procurador-geral adjunto da República, Todd Blanche, queixou-se à Fox News: “Temos estes abusos e este barril de pólvora numa cidade — em mais lado nenhum.” Disse-o como insulto. Minneapolis ouviu-o com orgulho.
Raízes fundas, fogo súbito
A revolta que se seguiu não surgiu do nada. É um dos argumentos centrais apresentados pelos analistas do movimento operário que estudaram o que aconteceu — e é o argumento que mais há-de interessar leitores em Portugal e noutros países que desejem tirar ilações, mais do que meramente admirar a coragem.
Minneapolis tem uma história de luta sedimentada, nas palavras de um militante, incrustada “bem fundo no solo gelado do Minnesota”. A greve dos Teamsters (camionistas) de 1934, dirigida por militantes trotskistas, foi um dos momentos fundacionais do sindicalismo americano, conjugando entreajuda, acção de massas disciplinada e uma política que extravasou da simples contratação para o desafio ao carácter da própria cidade. A revolta de 2020 em reacção ao assassinato de George Floyd pela polícia — a poucos quarteirões de onde Renée Good foi depois morta — ergueu redes inteiramente novas de solidariedade e confiança entre moradores que superaram barreiras raciais. Em 2022, a Federação dos Professores de Minneapolis fez greve não apenas pelos salários, mas por justiça racial. As enfermeiras fizeram greve. Os trabalhadores da saúde sindicalizaram-se. Ao longo de mais de uma década, uma aliança de organizações de direitos dos imigrantes, sindicatos, comunidades religiosas e centros operários foi construindo o que os militantes chamavam, deliberadamente, não aliança, mas “alinhamento” — algo mais profundo, em que as organizações se conhecem intimamente e estão profundamente empenhadas em fortalecer as bases organizativas umas das outras.
Emilia González Avalos, a directora executiva da Unidos, descreve assim a trajectória desta organização: começando por ser considerada um “grupo especializado”, periférico na aliança progressista, a sua organização passou anos a juntar poder através da infra-estrutura eleitoral, de trabalho junto do eleitorado e da aprovação do programa legislativo do “Milagre do Minnesota”, em 2023: cartas de condução para residentes indocumentados, remuneração das faltas por doença, maior cobertura de assistência médica e muito mais. Quando o ICE apareceu em força, já estavam criados os alicerces de algo muito mais vasto do que qualquer organização tivesse podido conseguir isoladamente. A invasão do ICE foi a faísca. Décadas de organização, o combustível.
Cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra.
O Dia da Verdade e da Liberdade
Em 23 de Janeiro de 2026, com temperaturas de -30°C e vento a produzir sensações térmicas de -45°C, entre 75 mil e 100 mil pessoas acorreram ao centro da cidade de Minneapolis, a meio de um dia útil. Escolas, instituições culturais e mais de mil pequenas empresas fecharam. Mais de 80% dos membros da secção 7250 do Sindicato dos Trabalhadores em Comunicação da América (CWA) faltaram ao trabalho. Os motoristas da Uber e da Lyft — quase todos eles trabalhadores imigrantes de cor — choraram ao saber que cem religiosos haviam sido presos no Aeroporto de Minneapolis por exigirem que a Delta, a Target, a 3M e a General Mills tomassem publicamente posição contra a ocupação federal da cidade. Segundo uma sondagem realizada posteriormente, cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra, apesar de a acção ter sido convocada com apenas duas semanas de antecedência. Aderiram à acção cidades e vilas de todo o país.
Terá sido uma greve geral? Interessa menos a resposta do que o que o dia representou. Na sua análise da greve de massas na Rússia de 1905, Rosa Luxemburgo argumentou que a greve geral não era um evento específico, mas um processo — um vaivém entre luta económica e política, erupção espontânea e resposta organizada, coragem individual e consciência colectiva. O que Minneapolis demonstrou foi exactamente isso: o momento em que uma comunidade deixa de ser um agregado de indivíduos isolados e se torna, ainda que brevemente, num actor colectivo consciente de si.
Kieran Knutson, presidente da secção 7250 do CWA e um dos principais arquitectos da resposta sindical, é franco tanto a respeito do que se conseguiu como dos seus limites. As grandes empresas continuaram a funcionar. A acção de 23 de Janeiro foi uma greve política de massas, não uma greve geral no sentido clássico. Mas houve algo de qualitativamente novo. Os trabalhadores que marcharam até ao escritório do patrão antes do dia da acção para exigir o encerramento da empresa voltaram no dia seguinte com mais reivindicações: que o ICE fosse definitivamente proibido de entrar na empresa. “Tal é o nível de confiança a que estamos a assistir”, disse León. Pela primeira vez há muito tempo, uma classe trabalhadora que acabava de ganhar confiança em sim mesma tomava conta de uma grande cidade americana.
Eric Blanc, cuja avaliação rigorosa do momento de Minneapolis está entre as melhores que apareceram, identifica três ingredientes necessários para uma verdadeira greve geral: a energia, a organização e uma direcção militante e disposta a correr riscos. Minneapolis teve-os aos três em grau pouco habitual. Ainda assim, onde Blanc vê o reverso da medalha e o calcanhar de Aquiles do movimento é no sector privado, onde a densidade sindical é de apenas 6% ao nível nacional e onde os trabalhadores de empresas como Target, Amazon e Home Depot — cujos empregadores são cúmplices directos do ICE — têm o maior potencial estrutural, mas a menor protecção organizacional.
Uma das inovações tácticas mais importantes, em Minneapolis, foi o que González Avalos chama a “rampa de observação constitucional”. A Unidos treinou 30 mil habitantes do Minnesota para observar e documentar as rusgas do ICE nos termos da lei. Parecia coisa modesta, passiva, até: pessoas a filmar, a serem testemunhas. Contudo, ver-se cara a cara com sete agentes federais armados a prender um pai que levava os filhos à escola mudou as pessoas. “Muda as pessoas”, disse simplesmente González Avalos. Esses 30 mil observadores passaram a ser a base da qual podia crescer uma organização mais profunda — recrutados não ideologicamente, mas pela experiência de testemunharem actos de crueldade e decidirem não olhar para o lado.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Los Angeles: o modelo
Antes de Minneapolis, houvera Los Angeles. E a história de Los Angeles tem significado especial para mim, que lá vivo e trabalho.
Trump odeia Los Angeles, cidade de maioria negra e parda que vota esmagadoramente nos democratas, com quase 35% de imigrantes, cidade com sindicatos fortes, orgulhosa cidade-refúgio. Entre Junho e Julho de 2025, Trump mandou para a cidade 4800 soldados da Guarda Nacional e 700 fuzileiros navais, expressamente para esmagar a resistência, abrir um precedente e fomentar a violência. Apanhou, em vez disso, com o escantilhão da sua derrota.
A resistência intensificou-se quando as tropas entraram. O governador, o presidente da câmara, os dois senadores federais, a maioria absoluta na legislatura da Califórnia e os superintendentes dos condados uniram-se em oposição, dando à resistência cobertura política e legitimidade institucional. Mas a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, declarou que iria “libertar Los Angeles do presidente da câmara e do governador socialistas” — aparentemente ignorante da sua falta de autoridade para destituir funcionários eleitos.
O ponto de viragem deu-se em 6 de Junho, quando o presidente do sindicato dos empregados de serviços, SEIU California, David Huerta, foi espancado e preso enquanto documentava uma operação do ICE no centro da cidade. Da cama de hospital, Huerta definiu o que se passara não como um incidente, mas como um movimento: “O que temos de saber é como nós, a comunidade que somos, nos unimos e resistimos à injustiça que está a acontecer”. A Federação Sindical do Condado de Los Angeles, uma das maiores do país, mobilizou-se imediatamente. Os sindicatos organizaram comícios e acções de defesa dos imigrantes por toda a cidade.
Ganhou forma uma ampla frente antifascista: sindicatos e centros de trabalhadores, incluindo o Centro de Trabalhadores Filipinos, a Aliança de Trabalhadores Imigrantes Coreanos e a CHIRLA, a Aliança pelos Direitos Humanos dos Imigrantes de Los Angeles; comunidades religiosas, incluindo a Diocese Católica e a Holman United Methodist, a maior igreja negra da cidade; organizações jurídicas, incluindo a ACLU e a MALDEF; artistas e músicos; e, elemento crucial, a comunidade empresarial. Tanto a Câmara de Comércio como o Conselho Empresarial de Los Angeles tomaram posição, não por solidariedade, mas porque as rusgas estavam a dar cabo da economia da cidade. Empresas de construção, restaurantes, hotéis, lavagens automáticas e fábricas de vestuário sofriam perdas de receitas com os trabalhadores imigrantes a ficarem em casa e os clientes imigrantes a não aparecerem.
Um juiz federal sentenciou que o envio de tropas violava a Lei Posse Comitatus, que proíbe o uso das forças armadas como forças da ordem interna.
Trump acabou por mandar retirar as suas forças com o argumento forçado de ter “salvo a cidade de ficar reduzida a cinzas”. Como comentou o militante Bill Gallegos, Los Angeles reagiu ao som de milhões de habitantes a rirem-se do dislate. A retirada fora resultado de uma frente ampla, disciplinada, multi-sectorial.
A lição de Los Angeles não é a mesma de Minneapolis — eram diferentes a infra-estrutura organizativa, a cultura política e o rastilho. Mas a lógica de fundo é a mesma: construir a partir da base de organização; unir quem é susceptível de união; manter uma reivindicação clara e coerente; e não lhes oferecer a violência por que eles anseiam.
Onde estamos e onde podemos chegar
Entre Los Angeles e Minneapolis houve Chicago, onde o ICE foi brutal, mas a resistência, igualmente feroz. A contribuição de Chicago para o arsenal da luta popular foi prática e elegante: a distribuição em massa de apitos, permitindo às comunidades alertar os vizinhos assim que o ICE aparecesse nas suas ruas. As brigadas do apito alastraram a Minneapolis e outros pontos, tornando-se uma ferramenta quase universal da resistência, uma ilustração pequena, mas perfeita, de como as pessoas se apropriaram de formas de auto-organização e defesa, transmitindo a experiência das cidades de uma para a outra.
Luis Feliz León invoca o conceito de greve de massas de Rosa Luxemburgo para descrever o que estava a acontecer: não um único evento programado, mas um processo de radicalização mútua entre a indignação e a organização, entre a acção espontânea da gente comum e a armadura institucional que lhe empresta direcção e solidez. A greve geral, escreveu Luxemburgo, é o “pulso vivo da revolução” — não pode ser decretada, apenas preparada e aproveitada.
Este processo está em andamento nos Estados Unidos em moldes que seriam quase inimagináveis há cinco anos. A infra-estrutura de organização — anos de construção de alianças, desenvolvimento de direcções, de plenários de trabalhadores, de redes de entreajuda, de formação de observadores constitucionais — já existia. A faísca da violência do ICE acendeu-a. E dessa combustão algo de novo se criou: uma confiança da classe trabalhadora em si mesma e um novo sentido das possibilidades colectivas, que não desaparece quando a crise imediata recua.
A história não parou. Trump recuou em algumas das tácticas mais agressivas — que foram extremamente impopulares, prejudicaram os seus índices de aprovação e enfureceram até republicanos, furiosos por o método Trump-Miller ter prejudicado o emblema da sua política, a demonização dos imigrantes. Há décadas que a “imigração ilegal” tem sido usada como cacete para mobilizar o medo, enquanto a sua verdadeira função económica — criar uma força de trabalho imigrante super-explorada e sem direitos, para fazer baixar os salários — passava despercebida. Agora a violência é visível, as vítimas merecem simpatia, e a política é corrosiva.
O ICE recuou, mas continua a sua missão de deportação, agora com pontaria mais afinada. A resistência respondeu com nova energia. Os comícios No Kings (“não queremos reis!”) passaram a ser comícios de massas; em Los Angeles, moradores patrulham os parques de estacionamento da Home Depot, protegendo os seus vizinhos, que trabalham no duro, porque “silêncio é violência”.
Um designer gráfico de um bairro de Los Angeles descreveu o que muitos manifestantes de primeira viagem estão a viver: “Acho que é como uma primeira droga — até pessoas que nunca fizeram nada de militante na vida acabam por ir parar a protestos, animadas pelo espírito de comunidade, pelo propósito e pelo amor à democracia”. Outro activista disse-o de forma simples:
“Minneapolis é o modelo. Quando duas pessoas inocentes foram mortas a protestar contra as rusgas do ICE, a comunidade uniu-se e levantou-se em protesto, forçando as forças de Trump a retirar. Minneapolis reagiu com humanidade — esse é o futuro que queremos construir.”
Kieran Knutson tem estado a convocar assembleias de trabalhadores em Minneapolis — novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes. Não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada pela greve geral em vez de a devolver a quem tem interesses e programas diferentes, onde se incluem os funcionários democratas que condenaram publicamente o ICE enquanto cooperavam com ele em privado.
O horizonte imediato é o Dia do Trabalhador de 2026, um Dia Nacional Sem Trabalho, Sem Escola e Sem Compras. O horizonte mais distante é uma temporada de greves a organizar para 2028, com os sindicatos a alinharem a caducidade dos seus contratos para maximizar o impacto nos sectores manufactureiro, da logística, da educação e do retalho alimentar.
Nenhuma dessas datas está garantida. No entanto, o que é já certo é que dezenas de milhares de americanos comuns olharam agentes federais olhos nos olhos, denunciaram-nos com apitos, mantiveram-se firmes e recusaram-se a abandonar o local.
Como escreveu Boris Kagarlitsky de uma colónia penal russa, num contexto muito diferente, mas num espírito que afina pelo mesmo diapasão: “Não somos vítimas. Somos lutadores.”
O movimento em Minneapolis, Chicago e Los Angeles diz-nos uma coisa que os movimentos de esquerda de toda a parte têm de escutar. Só por si, a resistência não basta, mas é com ela que tudo o mais começa. Quando as pessoas se organizam, se mantêm a pé firme e se recusam a cair na violência que o Estado provoca, pode-se resistir até a um presidente determinado em reprimir.
Quando isso acontece, as pessoas mudam. Surgem novos dirigentes. Novas formas de organização ganham raízes. Novos horizontes tornam-se imagináveis.
É isso que uma greve de massas faz. Não conquista apenas reivindicações. Refaz as pessoas que a fazem.
Suzi Weissman, professora de política, é autora de Victor Serge: A Political Biography e comentarista política e apresentadora de rádio de longa data. Apresenta o programa “Beneath the Surface” na KPFK/Pacifica Radio e o podcast “Jacobin Radio”.