Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky
Não estamos perante uma guerra “por procuração”, uma guerra (inter)imperialista em que os EUA e a UE agiriam contra a Rússia através da Ucrânia, defende Felipe Alegria.
A intervenção de potências imperialistas rivais nos conflitos e guerras dos países semicoloniais é um facto presente desde o surgimento do imperialismo e hoje apresenta-se de forma cada vez mais acentuada. Ninguém pode negar a intensa intervenção indireta dos EUA e da UE na guerra da Ucrânia, bem como o carácter pró-imperialista e anti-operário do governo Zelensky. No entanto, isso não elimina o aspeto central: estamos perante uma guerra de agressão nacional do imperialismo russo, segunda potência militar do mundo, contra uma nação semicolonial, muito mais fraca, usando como ferramenta a violência e métodos de extrema crueldade. Uma guerra cujo objetivo é o controle de um país que é um enorme “celeiro”, tem uma localização geográfica fundamental para o trânsito energético e comercial da região e uma dimensão e recursos que o Kremlin precisa para o seu projeto da Grande Rússia.
Este facto define uma guerra justa por parte dos Ucranianos: uma guerra de libertação nacional contra um exército imperialista invasor. A intervenção indireta dos imperialismos norte-americano e europeu (sem esquecer o chinês), cada um com os seus próprios interesses, bem como a natureza pró-burguesa e pró-imperialista do governo Zelensky, devem ser tidas em conta para precisar a política, mas não alteram este facto substancial.
Não estamos perante uma guerra “por procuração”, uma guerra (inter)imperialista em que os EUA e a UE agiriam contra a Rússia através da Ucrânia. Para aqueles que defendem esta posição, não importa se a Ucrânia ou a Rússia triunfam, porque em ambos os casos um campo imperialista venceria e a classe trabalhadora e os povos ucraniano e russo perderiam sempre.
Contudo, apenas poderíamos definir a guerra atual na Ucrânia como imperialista, caso o comando militar efetivo passasse para as mãos dos EUA, com o controlo tecnológico completo e a necessária intervenção de tropas no terreno. Algo que não aconteceu e que é altamente improvável, justamente quando Trump quer obrigar Zelensky a aceitar as condições de Putin, em troca de dividir com este os recursos ucranianos e a exploração do Ártico, bem como afastar a Rússia da China.
Alguém acha que é possível desmascarar as intrigas e os enganos da NATO se não for a partir das trincheiras ucranianas?
A classe trabalhadora europeia deve apoiar o povo ucraniano na luta pela sua liberdade e integridade nacional, integrando esse apoio na luta por uma saída socialista para a Ucrânia e a Rússia e por uma Europa socialista; desmascarando e enfrentando, nesse processo, o governo Zelensky, o imperialismo norte-americano e a UE.
O apoio expressa-se, por exemplo, na organização de comboios de ajuda, como os enviados por sindicatos como o Solidaires (França), a CSP-Conlutas (Brasil), a Inicjatywa Pracownicza (Polónia), ou o STASA (Portugal), ao sindicato mineiro-metalúrgico de Kryvyi Rih (com muitos dos seus membros na frente de batalha), ou na campanha para que os lutadores classistas como Denys Matsola e Vlad Zhuravlev, presos na defesa de Mariupol, sejam incluídos nas listas de troca de prisioneiros de guerra. Significa também apoiar as grandes mobilizações que ocorreram contra a tentativa de Zelensky de controlar os organismos anticorrupção, bem como unir-se à repulsa generalizada do povo ucraniano às pretensões de Trump.
Os defensores da tese “Nem com Rússia, nem com a Ucrânia”, quando defendem a retirada das tropas russas da Ucrânia, não vão além de uma declaração verbal. Isto porque, para eles, não existe uma guerra justa de libertação nacional, mas sim uma “guerra reacionária” de ambos os lados, na qual os Ucranianos são meros “bancos de carne” dos EUA… que são amigos de Putin.
Por outro lado, alguém acha que é possível desmascarar as intrigas e os enganos da NATO se não for a partir das trincheiras ucranianas? Alguém considera que é possível combater Zelensky sem ser “os melhores soldados contra Putin”? O que dizem aos trabalhadores ucranianos, muitos deles na linha de frente: que não se deve combater o invasor porque ambos os campos bélicos são reacionários e que eles não passam de fantoches dos EUA e da UE?
O resultado da guerra dependerá da força da resistência da classe trabalhadora e do povo ucraniano ao seu governo pró-imperialista e à pilhagem russa, norte-americana e europeia. Também dependerá disso o impulso da luta da classe trabalhadora e dos povos da Federação Russa e da sua periferia.