Não tens que ser bom. Não tens que caminhar ajoelhado durante quilómetros através do deserto, em sinal de arrependimento. Só tens que deixar o afável animal do teu corpo amar aquilo que ama. Fala-me do teu desespero e eu falar-te-ei do meu. Entretanto o mundo não pára. Entretanto o sol e os seixos transparentes da chuva movem-se através da paisagem sobre as pradarias e as árvores mais altas, as montanhas e os rios. Entretanto os gansos selvagens, lá no alto do céu de um límpido azul, dirigem-se para casa de novo. Quem quer que tu sejas, por mais solitário que estejas, o mundo oferece-se à tua imaginação, chama-te como os gansos selvagens, duma forma áspera e emocionante – repetidamente anunciando o teu lugar na família das coisas.
Mary Oliver “Wild Geese” Dream Work,
Boston: Atlantic Monthly Press, 1986
Tradução de Jorge Sousa Braga
Um coração de sangue Um coração de xisto e aço Um coração angular e redondo Como a pedra que te abre Do interior do chão Um coração solar De granito De carne Curado da noite de nascença
Um coração de homem Um coração de homem vivo Um coração de criança ao colo Interior -Mais interior do que o sangue no coração que me darás- Peço um coração Nuclear
Daniel Faria Explicação das Árvores e de Outros Animais.
Lisboa: Assírio & Alvim, 1998
Com a agressão israelo-americana ao Irão, regressaram os “danos colaterais”.
Por exemplo, as quase duas centenas de meninas de uma escola do Sul do Irão desfeitas pelas bombas do sionismo e do imperialismo. “Danos colaterais” é: “É pá, foi sem querer, olha, é a vida! A gente queria alvejar outra coisa. De qualquer maneira, a culpa é deles, quem é que os mandou plantar uma escola mesmo ao lado do nosso alvo?” Clausewitz disse que a guerra é a continuação da política por outros meios. E, acrescentou Lenine, política é “economia concentrada”. Em economia (na variedade desconcentrada), chama-se aos danos colaterais “externalidades” (ver em número anterior do Maio). São: “É pá, foi sem querer, olha, é a vida! A gente queria fazer uns bons lucros aqui com os eucaliptos. De qualquer maneira, a culpa é deles, quem é que os mandou ter um sol tão quente no Verão?” AZ
Entrevista de Raquel Varela com Pietro Basso. Parte 2
Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”. À classe trabalhadora compete, no seu próprio interesse, lutar contra essa desunião promovida pelo capital e seus agentes. Eis o que defende Pietro Basso nesta entrevista ao Maio.
Pietro Basso é um sociólogo italiano, académico e militante. Lecionou Sociologia no Instituto Universitário Oriental de Nápoles e na Universidade Ca’Foscari de Veneza. Atualmente está aposentado e é editor do blogue “Il pungolo rosso”. É colaborador destacado do sindicato SI Cobas. Em português tem publicado o livro Tempos modernos, jornadas antigas: vidas de trabalho no início do século XXI (UNICAMP, Brasil, 2018). Esta é a segunda parte da entrevista.
Raquel Varela: Argumentas que a guerra contra o terror é a justificação para militarizar a força de trabalho migrante. Que os acordos de Schengen dão “o aparelho ideológico e operacional da Europa-fortaleza”, ou seja, que a UE gere esta força de trabalho imigrante e sem direitos. O que quer isto dizer? Como sustentas esta tese?
Pietro Basso: Na história das migrações internacionais, houve períodos em que elas se basearam em acordos entre Estados: foi o que aconteceu, por exemplo, na década de 1950, com uma série de acordos internacionais entre a Itália e a Alemanha e entre a Itália e a Bélgica. Em geral, pelo menos até ao final da década de 60, houve fortes movimentos migratórios relativamente livres na Europa. Foi a partir da primeira grande crise económica do pós-guerra, no início da década de 70, que se começaram a ouvir apelos como o de Le Pen pai, “Alt à l'immigration sauvage” (Fim à imigração selvagem). Embora a União Europeia tenha nascido oficialmente com o Tratado de Maastricht (Fevereiro de 1992), o seu nascimento efectivo foi, em muitos aspectos, antecipado pelo Acordo de Schengen (14 de Junho de 1985), celebrado entre os países do Benelux, a Alemanha Federal e a França. Este acordo deu início à livre circulação de mercadorias e cidadãos pertencentes aos cinco países, mas introduzindo, ao mesmo tempo (nos seus artigos 6.º, 7.º e 9.º), o princípio da suspeição estatal e institucional em relação aos imigrantes. Estes eram, de facto, identificados com a figura dos imigrantes “clandestinos”: a ameaça que vem de fora e se torna o inimigo interno, a manter sob controlo permanente e especial, por ser fonte de insegurança e criminalidade.
Esta categoria-chave do discurso público, do racismo de Estado – os “clandestinos” – é uma criação astuta das burocracias e das polícias. Na realidade, são as legislações de tipo restritivo, entretanto dominantes em toda a Europa, que produzem a irregularidade, tornando cada vez mais difícil obter autorizações de residência de longa duração. Quem ataca a “clandestinidade” é quem, na realidade, a cria. Seja, no caso de Portugal, a transição do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) para a AIMA (Agência para a Integração, Migração e Asilo) ocorrida com o Governo Montenegro, que teve como efeito o aumento dos imigrantes “irregulares”. E parece-me altamente provável que os obstáculos que a lei sobre a imigração aprovada em Julho de 2025 levanta ao reagrupamento familiar, as restrições aos vistos para imigrantes que tenham sido irregulares durante um certo período, a supressão do procedimento de urgência nos processos judiciais contra a AIMA, o enorme aumento das expulsões aceleradas (mas nem por isso realmente efectuadas) não farão senão aumentar o número de irregulares. No mais, as modificações legislativas e das práticas administrativas (que são muito importantes nesta matéria) nos outros países europeus vão na mesma direcção. É por isso que, juntamente com alguns estudiosos alemães, prefiro falar, em vez de em imigrantes “clandestinos” ou “ilegais”, em imigrantes ilegalizados e clandestinizados.
Pois bem, a partir de Schengen-1985, o tratamento das migrações como questão de polícia afirmou-se a tal ponto, que agora se pode falar de uma verdadeira guerra contra os emigrantes e os imigrantes. A externalização das fronteiras, a criação de verdadeiros campos de concentração e tortura para imigrantes em África (a Itália criou campos medonhos na Líbia e agora tenta fazê-lo na Albânia, outros surgiram por iniciativa da UE na Grécia e na Turquia), o reforço contínuo da Frontex, a multiplicação dos controlos estatais e para-estatais nas fronteiras internas da Europa, mais o crescimento paralelo das organizações criminosas que se dedicam a violá-los (mediante pagamento), são outras tantas etapas desta construção da Europa fortaleza. Para selar totalmente as fronteiras? Não. Isso é impossível e não é desejado pelos governos, muito menos pelas empresas. Como afirmam os redactores do relatório Expanding the Fortress, “fechar uma rota migratória não equivale a deter os fugitivos. Na maioria dos casos, acaba por empurrar os emigrantes para outras rotas — rotas frequentemente mais perigosas, com o resultado de aumentar o número de mortes”. Entre 2015 e 2017, o número de mortes no Mediterrâneo quintuplicou porque, com o acordo UE-Turquia, se fechou a rota terrestre dos Balcãs, menos arriscada. Também aumentou o número de mortes na travessia do Saara, necessária para aceder às costas da Líbia e da Tunísia (algumas estimativas consideram que não terão sido inferiores a 60 mil nos últimos 20 anos, o dobro das mortes no Mediterrâneo).
A década de 2015 a 2025 foi marcada por um massacre ininterrupto de emigrantes e, pelo paradoxo da hipocrisia de Estado, deu-se como justificação para as políticas policiais e terroristas dos governos europeus serem políticas para acabar com o tráfico de seres humanos. Além da Turquia, a UE assinou acordos com uma série de outros países para bloquear as partidas e pressionou individualmente os países da UE a restringir as políticas de asilo, aumentar as expulsões e detenções, criminalizando tanto as organizações que fazem tráfico de migrantes (criminalizando-as, muitas vezes, apenas em palavras, sendo coniventes com elas – foi espectacular, na Itália, o caso de al-Masri, um grande traficante e torcionário líbio, preso em Turim e imediatamente levado de volta para a Líbia num avião estatal) como as organizações que praticam alguma forma de solidariedade com os migrantes.
Pode-se, portanto, falar de militarização crescente das políticas migratórias e das fronteiras, em particular no Mediterrâneo. Militarização que, com o desenvolvimento do movimento pela Palestina, foi nomeadamente justificada como “guerra contra o terrorismo”. Aqui em Itália, por exemplo, está em curso uma caça às bruxas contra imigrantes palestinianos e árabes activos na solidariedade com a Palestina, encarcerados sob a acusação de terem “relações com os terroristas do Hamas”. E algo semelhante, em escala até maior, se passa no Reino Unido.
Esta criminalização generalizada das populações imigrantes tem o efeito de comprimir os seus direitos, reforçar os controlos das suas associações e organizações (também por parte dos Estados de origem), a queda do valor da sua força de trabalho e, algo muitas vezes subestimado, a criação de um clima social favorável à aceitação de processos de militarização de toda a sociedade, nas escolas, nas universidades, nos locais de trabalho.
Raquel Varela: Em Portugal, os imigrantes foram ilegalizados pela AD e o Chega, grupo de direita alinhado com os neofascistas, logo se vendo centenas de migrantes de Timor e Nepal serem espancados pela GNR e PSP, forças militares e policiais do Estado. Estes imigrantes são os alentejanos que migravam das Beiras para trabalhar na agricultura no Estado Novo, são os imigrantes que foram para os EUA no século XIX, mas muitos deles lutavam. Hoje, ninguém imagina homens do Bangladesh ou de Timor a organizar greves no Alentejo. O que falta para vermos estes jovens abraçarem as lutas? O que devíamos nós, trabalhadores nativos, fazer quando há homens a ser espancados pelo Estado? Chamamos a polícia que os espanca?
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Pietro Basso: Oh, não, isso nunca! A polícia não nos ajudará, como trabalhadores, em nenhuma circunstância. É verdade que, em Portugal, na época da Revolução dos Cravos, vimos unidades militares alinhadas com o movimento proletário. Mas essa é a típica excepção dos períodos e situações revolucionárias, ou, pelo menos, de poderosa rebelião social. Não vivemos, neste momento, numa situação desse tipo, nem em Portugal nem em qualquer outro país europeu. Por isso, temos de enfrentar entre proletários os problemas e as contradições existentes dentro do campo do proletariado.
Não podemos esperar que trabalhadores recém-chegados de terras tão distantes como Timor ou o Bangladesh, e ainda por cima “acolhidos” por um clima sociopolítico tão hostil, se mobilizem imediatamente, desafiando tudo e todos. Demos tempo ao tempo. A história do movimento operário põe os proletários imigrantes na vanguarda das lutas, já desde a épica luta pelas oito horas nos Estados Unidos, em 1886. Os trabalhadores imigrantes foram parte activa e determinante do ciclo de lutas de 1968 em França e na Bélgica, depois em 1973 e 1984 na Alemanha. Como recordam R. Varela e B. della Santa na sua A People’s History of Portugal, na revolta operária na Renault houve também operários portugueses na primeira linha. Isto vale tanto para imigrantes estrangeiros como para imigrantes internos, como em Itália, onde, nas lutas do outono quente de 1969, tiveram grande participação os operários de origem camponesa que chegavam do Sul a Turim, Milão e Génova. Não se deu, afinal, a última grande onda de greves operárias em Itália na logística, onde carregadores e motoristas marroquinos, egípcios, senegaleses, paquistaneses, bengaleses, etc. foram protagonistas de primeira linha? E na China, não estiveram à frente das lutas operárias da primeira década deste século as jovens e muito jovens proletárias imigrantes internas (mingong)?
A história é esta, não se esqueça, nem se aceite a representação dos imigrantes como fura-greves, vítimas impotentes da arrogância dos patrões e das intimidações dos governos. Aos militantes autóctones do movimento proletário cabe reagir com todas as suas forças à sobre-exploração e às discriminações institucionais que aqueles sofrem, lutando em todas as circunstâncias para afirmar, na prática, a igualdade de direitos e a plena “integração” nas fileiras do movimento dos trabalhadores. Não é tarefa fácil, eu sei, porque em tempos de incerteza, de crise, de nacionalismos larvares, de corrida ao rearmamento e à guerra, em tempos de racismo institucional virulento, mesmo entre os proletários circula o veneno da inferiorização e criminalização das populações imigrantes. Mas, fácil ou não, é o que há a fazer. Faça chuva ou faça sol.
Raquel Varela: Os fascistas elegeram a imigração como inimigo porquê? Falam de nação, mas estão ligados aos grandes capitalistas mundiais. O Chega, em Portugal, defende os fundos de pensões americanos, e o filho de Bolsonaro pediu uma intervenção militar dos EUA no Brasil.
Pietro Basso: Os partidos fascistas ou parafascistas destacam-se por serem ferozes promotores dos interesses do capitalismo nacional. Atacam frontalmente os imigrantes em todos os países porque sabem (ou sentem – não importa se estudaram ou não o assunto) que a única possibilidade de o respectivo capitalismo “voltar a ser grande” depende da impotência do movimento proletário. Quanto mais dividido o movimento proletário estiver por motivos “raciais” ou nacionais, mais impotente ficará. Não é por acaso que esses mesmos partidos são vectores e difusores de um sexismo e de um patriarcado igualmente agressivos, visando tornar o movimento proletário impotente também por via da divisão entre os sexos. Caracterizem-se estes cães de guarda do grande capital nacional e internacional como aquilo que são: não soberanistas, como eles se apresentam para embelezar a imagem, ostentando uma espécie de coragem que não têm por desafiarem os poderes fortes do capital global, mas sim servos do capital: o nacional e, não menos, o internacional. E, como tal, propagandistas de todos os artifícios anti-operários do capital de todas as nacionalidades. Com a sua demagogia branca e supremacista, os Trumps, Mileis e Bannons são quem melhor os representa. Cada nação ocidental tem os seus ou as suas, isto porque, com Le Pen, Meloni e Weidel2, também o campo das forças fascistas e fascizantes se “feminizou” em comparação com o século passado.
Querem fazer crer que em cada nação existe apenas uma nação, quando o que existe são dois mundos obrigados a coexistir e a entrar em conflito sob uma única estrutura estatal. Se cada burguesia nacional tece as suas redes de alianças internacionais (como também a ralé fascista ou fascizante), também o movimento proletário deve tecer as suas, para os seus próprios fins, sem se deixar enquadrar e arregimentar na “comunidade ilusória” da “nação” como escravos assalariados despojados de uma personalidade de classe separada.
Em comparação com o fascismo histórico, tão bem descrito, entre outros, por Daniel Guérin, encontramos hoje nele um “anticapitalismo” mais aguado; importa demonstrar o seu mal dissimulado servilismo às instituições do grande capital.
(continua)
1 Tradução de Adriano Zilhão. O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
2 Alice Weidel, principal candidata do partido alemão de extrema-direita AfD (NR).
Paulo Rangel fala de “cumprimento das nossas obrigações atlânticas”, esperando que tanto o povo como a oposição aceitem esta afirmação de covardia e cinismo como resignação “sensata” ao poderio dos norte-americanos.
À margem da reunião, em Bruxelas, dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos Estados-membros da União Europeia, Paulo Rangel foi questionado sobre a intensa atividade militar americana nas Lajes. Num contexto geopolítico de escalada de conflito, Rangel tentou escudar-se no Acordo de 1995: “Qualquer outra operação, essa não tem de ser nem autorizada, nem conhecida, nem comunicada por Portugal. Nunca foi e não era agora que ia ser.”
É irónica esta posição quando a invasão do Irão tem estado na ordem do dia. Tratando-se de uma operação conjunta entre os EUA e Israel, as primeiras declarações de Rangel demonstraram uma falha jurídica e institucional. O Acordo Técnico de 1995, no seu Artigo I, número 4, é esclarecedor: “qualquer utilização pelos Estados Unidos da América das instalações [...] que não decorra ou integre as situações previstas nos números anteriores deverá ser objecto de autorização prévia”.
Estaremos a repetir a façanha de 2003, quando um outro governo do PSD, liderado por Durão Barroso, acolheu a Cimeira dos Açores que serviu de prelúdio à guerra contra o Iraque, que se prolongaria até 2010 com efeitos devastadores sobre esse país?
Recordemos que em 16 de março de 2003 na Base Aérea das Lajes, na ilha Terceira, reuniram-se os chefes de governo dos EUA, Reino Unido, Espanha e Portugal, na altura, George W. Bush, Tony Blair, José María Aznar e também o anfitrião, ou porteiro, José Manuel Durão Barroso. Dessa cimeira saiu um ultimato ao regime de Saddam Hussein para entregar “armas de destruição maciça” que, afinal, como veio a confirmar-se, nunca tinham existido.
Qualquer utilização pelos EUA das instalações [das Lajes] que não decorra ou integre as situações previstas nos números anteriores deverá ser objeto de autorização prévia”, diz o Acordo entre Portugal e EUA.
No MNE fala-se de “cumprimento das nossas obrigações atlânticas”, esperando que tanto o povo como a oposição aceitem esta afirmação de covardia e cinismo como resignação “sensata” ao poderio dos norte-americanos. Não disse Trump a Espanha (que recusou o uso das suas bases para os ataques ao Irão), que “se quisesse” as usaria na mesma, ameaçando o país vizinho com o corte de todas as relações comerciais?
Não podemos pretender que temos uma espinha dorsal e uma política externa que não seja de submissão ao mais forte e continuar a ter as Lajes como ponte de passagem para um massacre de terror humano e para expansão dos seus interesses capitais. Relembremos que, num passado recente, estendeu-se o alcatrão das Lajes para receber três F-35 americanos com destino ao empreendimento israelita no genocídio palestiniano, logo após Espanha ter negado a sua receção, primeiramente.
O Governo português serve-se da conivência institucional para mascarar a sua cumplicidade com os massacres em curso. É esta a diplomacia humanista que os burocratas das Necessidades gostam de proclamar? Esta política serve os interesses nacionais ou os interesses de outrem?
Portugal tem sangue nas mãos. No meio desta incursão ocidental morreram 165 jovens. Mortes derivadas de brutais bombardeamentos em locais civis, escolas, zonas de habitação. Como colateral, pagam o preço da história as netas e filhas das mulheres que viram a sua liberdade ser retirada pelos mesmos que agora querem aclamar a sua libertação.
Narramos utopias de paz, pregamos o humanismo, mas no fim arrastamo-nos na cobardia. Como diria Eça de Queirós n’ As Farpas:
“O País perdeu a inteligência e a consciência moral. […] A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. [...] Já se não crê na honestidade dos homens públicos.”
Contrariando a tendência prevalecente desde 1946 a 2011, desde então até 2024, a taxa de mortalidade infantil em França tem vindo a aumentar.
Por mortalidade infantil entende-se o número de nados-vivos que morrem antes de atingir o primeiro ano de vida. Já a taxa de mortalidade infantil relaciona a mortalidade infantil ocorrida durante um certo período de tempo (em geral um ano) com o número total de crianças nascidas com vida durante o mesmo período de tempo. Esta relação (quociente), multiplicada por 1000 (permilagem), dá-nos a mortalidade infantil por cada 1000 nascimentos. A taxa de mortalidade infantil sofreu um importante decréscimo nos países ditos desenvolvidos desde o início do século passado e, particularmente, desde a segunda metade desse século.
Em França, entre 1946 – data de criação da Segurança Social pelo ministro comunista Ambroise Parat – e 1960, ou seja, em quinze anos, a mortalidade infantil foi dividida por três, tendo caído ininterruptamente até 2011. Todavia, entre 2011 e 2024, este indicador tem vindo a aumentar. Como consequência desta evolução, a França que ocupava, em 1990, um lugar de topo no pódio dos países da União Europeia onde a taxa de mortalidade infantil era a mais baixa, foi sendo objecto de uma progressiva desclassificação, passando para o 8° lugar em 20101 e o 23° em 2022. A partir de 2015, a taxa de mortalidade infantil passou a situar-se, em França, acima da média da UE.
Como explicar uma tal evolução da mortalidade infantil – que se expressa hoje em 4,1 mortes por cada 1000 nados-vivos (o que corresponde a 2800 mortes por ano) num dos países mais ricos do mundo (sétimo PIB mundial e segundo da UE), e, ademais, em contraciclo com a evolução dos restantes países da EU, onde a taxa de mortalidade infantil tem vindo a baixar?
Segundo Anthony Cortes e Sébastian Lurquin, respectivamente jornalista no jornal L’Humanité e jornalista independente, autores de 4.1, O escândalo dos partos em França2, esta tendência preocupante tem várias causas, no centro das quais está a organização dos cuidados de saúde3.
Com efeito, ao aumentar as distâncias de acesso aos cuidados de saúde, o fecho de pequenas maternidades foi um factor de agravação dos riscos, tanto para as mães como para os recém-nascidos. A título de exemplo, os autores citam o caso do Lot, onde 75% das maternidades desapareceram em 15 anos e a mortalidade infantil atingiu 6,2 por 1000. Corolário, em parte, da supressão das pequenas estruturas, verifica-se uma saturação das grandes, cujas taxas de ocupação já eram elevadas, traduzindo-se num esgotamento do pessoal médico e pondo em causa a qualidade dos cuidados de saúde.
As crianças residentes nos territórios mais desfavorecidos do ponto de vista sócio-económico apresentam um risco de morrer nos primeiros 28 dias de vida 1,7 vezes superior ao das que residem nos territórios mais favorecidos.
Significa isto que as políticas economicistas direccionadas para a saúde pública (fecho de estruturas4, supressão de camas, sub-efectivos, apelo regular a pessoal tarefeiro...) têm uma responsabilidade directa no agravamento da mortalidade infantil em França. Mas a consideração de factores sócio-económicos poderia igualmente constituir uma ferramenta importante para a compreensão do fenómeno, como têm vindo a alertar vários autores. Entre estes, figuram os de um estudo publicado em 16 de Setembro de 2025 na revista médica britânica BMJ (Leading Medical Research)5.
A conclusão deste estudo que cruza um índice de desvantagem social – cujos autores elaboraram a partir da compilação de vários factores associados ao estado de saúde dos recém-nascidos, tais como, taxa de desemprego dos agregados familiares, peso das famílias de imigrantes, de inquilinos ou monoparentais, rendimento médio por família – com a taxa de mortalidade neonatal, ou seja a que sobrevém nos primeiros 28 dias de vida – e tem sido responsável pelo aumento da mortalidade infantil em França6 - não deixa lugar a dúvidas.
As crianças residentes nos territórios mais desfavorecidos do ponto de vista sócio-económico apresentam um risco de morrer nos primeiros 28 dias de vida 1,7 vezes superior ao das crianças que residem nos territórios mais favorecidos (3,34 mortes / 1000 nascimentos para os primeiros, contra 1,95 para os segundos). Uma outra conclusão é a de que, se o conjunto da população tivesse o mesmo risco de mortalidade neonatal do que o associado aos 20% mais favorecidos, poder-se-ía estimar em cerca de ¼ as mortes de recém-nascidos que poderiam ter sido evitadas, só no período 2015-2020.
Assim sendo, não é de admirar que as maiores taxas de mortalidade infantil se encontrem na Seine-Saint-Denis, departamento mais pobre da França metropolitana, e cheguem a atingir o dobro das da metrópole nos territórios do ultramar (DOM), onde as taxas de pobreza são considerávelmente mais elevadas.
De facto, o 8° lugar para as crianças do sexo masculino e o 10° para as crianças do sexo feminino contra respectivamente o 24° e o 22° em 2022.
Edições Buchet-Chatel, 2025, 204 pp.
Com efeito, se a pandemia do Covid-19 pôde contribuir para o aumento recente da mortalidade infantil em França, esta tendência já se vinha manifestando anteriormente, pelo que a sua causa deverá ser procurada em factores estruturais.
Nos últimos 50 anos, a França perdeu 75% das suas maternidades e 40% se se analisar o movimento a partir de 2000, sendo de esperar novas supressões.
Estudo levado a cabo, nomeadamente, por uma equipa de investigadores do Instituto Nacional de Saúde e Investigação Médica (INSERM) e da Assistência Pública - Hospitais de Paris (AP-HP).
Com efeito, 70% das mortes de nados-vivos ocorre nas maternidades e 70% dessas mortes são de prematuros; tal facto põe directamente em causa a organização (falta de resposta) dos serviços perinatais, reagrupando a ginecologia-obstétrica, a neonatologia e a reanimação neonatal.
Há uns anos, havia por aí uma pessoa que dizia com frequência, farto das notícias da televisão que não se cansavam de falar em desenvolvimento a toda a hora: “Eu, quando oiço falar em desenvolvimento só me apetece puxar da espingarda e desatar aos tiros para todo o lado.” Não era literal. O homem era pacífico, o que acontece é que estava farto de ouvir falar numa coisa e de apenas ver outra, que era o seu contrário.
A pessoa em causa era uma pessoa lúcida e informada, conhecedora da vida do campo e das práticas rurais, apesar de ser considerada atrasada e ultrapassada. Era um homem culto, no sentido em que conhecia o território em que vivia, sabia como funcionava a terra, as sementeiras e as colheitas, percebia o clima e o ciclo das plantas e vivia de uma pequena exploração, exemplar, onde tinha um bocadinho de tudo: vinha, gado, olival, horta, cereais e montado. Tinha também abelhas e mel. A sua pequena herdade estava bem equipada com poços, noras e charcas. Aproveitava a água das chuvas, para uso caseiro, em cisternas estrategicamente colocadas. Praticava a rotatividade dos solos. E tinha ainda a “criação”, animais que se alimentavam de verduras e dos desperdícios da exploração: galinhas, coelhos, porcos, perus. Era a chamada fartura da casa. Dava para todos, para o homem e sua família, e para os trabalhadores, que também tinham o seu quinhão.
O homem persistia em manter formas de trabalho arcaicas como a nora com engenho puxado por uma mula e moinhos de vento nos poços, que abasteciam vários tanques de rega. Circulava no interior da propriedade, para o seu trabalho diário, numa charrete puxada por um cavalo, que usava também para ir às compras à vila. Já tinha algumas máquinas, como um trator, mas pouco mais. A maior parte do trabalho ainda era manual. Usava o esterco dos animais – vacas, ovelhas e equídeos – como fertilizante para as culturas. Isto era assim nos anos 90, ou seja, há pouco mais de 30 anos.
Quando oiço falar em desenvolvimento, só me apetece puxar da espingarda e desatar aos tiros para todo o lado.
Ele apoquentava-se quando ouvia falar em desenvolvimento porque o que via era sempre acrescentar despesas à sua vida. Não paravam de o desafiar para projectos para adquirir motores, máquinas disto e daquilo, electrificação dos sistemas de rega e de captação de água, e ele o que via nesses “investimentos” eram apenas as despesas acrescentadas com as aquisições, os juros dos empréstimos e os custos com a electricidade, os combustíveis, as oficinas, as peças das máquinas quando viessem a avariar. Por isso, não podia ouvir falar em desenvolvimento, porque para ele o desenvolvimento significava mais despesas, mais problemas, mais responsabilidades, e pouca perspectiva de aumentar a produção o suficiente para fazer face às novas despesas.
Passados uns anos, a agricultura “desenvolveu-se”, com grandes projectos agrícolas e profundos investimentos financiados pelos fundos europeus em modernização. E o que temos? Novas práticas agrícolas que destroem os solos e a paisagem e apenas garantem emprego a mão de obra estrangeira, e paga de forma próxima da escravatura. Há queixas de que os produtos não têm qualidade e que são usados muitos produtos químicos. Os investimentos em novas formas de exploração (sistemas de rega, tubos, bombas e outras maquinetas) são pagos com projectos e muitos empréstimos bancários. Os juros até estão baixos, mas os bancos inventam outras taxas, spreads e emolumentos que tornam o dinheiro sempre caro. Ou seja, as preocupações do homem que não queria ouvir falar do desenvolvimento estão aí. Os custos com as energias, os custos com a manutenção das máquinas, a dificuldade de escoamento dos produtos locais quando os supermercados têm de tudo mais barato e vindo dos quatro cantos do mundo e fazem concorrência desleal, obrigando os produtores locais a esmagar os preços.
Mas, surpreendentemente, está aí também, e paralelamente, a constante valorização dos processos tradicionais e os apelos aos produtos locais e à agricultura biológica, a denúncia dos abusos dos produtos químicos que destroem e contaminam os solos e as águas. Afinal, o homem que lhe apetecia puxar da espingarda e desatar aos tiros sempre que lhe falavam em desenvolvimento, não estava errado de todo. Ele até tinha uma vida boa e, com os seus processos rudimentares, produzia produtos de qualidade e conseguia manter alguns postos de trabalho na sua exploração antiquada. Se hoje se mantivesse essa exploração nos moldes em que existia, ela seria considerada uma exploração exemplar, e os seus produtos considerados gourmet e vendidos em lojas de valor acrescentado.
A agricultura que durante anos foi displicentemente chamada de subsistência começa a ser vista com outros olhos, pelo menos por alguns consumidores e por quem defende o património e a paisagem. As grandes superfícies já não são detentoras da primazia da venda de produtos importados. As pequenas mercearias, lugares de fruta e mercados vão começando a ser valorizados pela qualidade desses produtos. Voltar aos sistemas de pequena agricultura é agora uma prática vista como inovadora e amiga do ambiente. Sustentabilidade e valorização dos produtos locais, tudo fala agora nestes dois conceitos, que já tivemos e abandonamos por serem considerados obsoletos.
Afinal, o homem que “não podia ouvir falar em desenvolvimento, que só lhe apetecia desatar aos tiros por todo o lado”, não era tão tolo como parecia. Podemos talvez ter ainda esperança em que estes processos ditos arcaicos (mas apenas por aqueles que pretendem tomar conta de todos os negócios e actividades económicas locais, para serem eles a recolher todos os lucros) ainda tenham futuro. O património, a cultura, a economia local, o território e a paisagem só teriam a ganhar.
Foi com um Fado Alexandrino que o António Lobo Antunes entrou na minha vida. Ia preparado para uma escrita difícil, mas não foi isso que encontrei, antes uma escrita que penetrava entranhas adentro de cada personagem e em cada pedaço mais obscuro de nós. A desilusão entre amigos vencidos da vida num bas-fond algures em Lisboa e as memórias violentas da guerra colonial. Falava-se do ser humano tal como ele é: confuso, só, perdido, e por isso zangado e profundamente desesperançado. Tinha eu vinte anos e olhava, pela primeira vez, de frente para a verdade que se revela com a idade. Nunca mais consegui parar: Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, Que Farei Quando Tudo Arde? A sua escrita, profundamente poética, hipnótica em roda de uma frase que, de cada vez que voltava, vinha acompanhada por uma sensação diferente. É de sensações que falamos quando abordamos a obra de Lobo Antunes.
Lê-lo não é simpático ou agradável, é uma experiência sensorial, melódica, ondulante. Nada é óbvio, nada nos é dado, nada na sua escrita sofre da vaidade ou da húbris do escritor. Por isso, quis saber mais do homem por detrás da obra, precisava de saber quem escrevia assim, precisava de uma imagem. Daí veio a leitura dos livros mais autobiográficos e inocentes, os primeiros. Li Memória de Elefante, e eis que este homem já nasceu tomado pela violência existencial. Neste e no Conhecimento do Inferno temos a interioridade de uma relação e a vida que se confronta com o fantasma da loucura. António Lobo Antunes era psiquiatra, duvido que tenha sido um dos bons, acho que ele também. Mas a forma como ele olhava para a loucura era desesperadamente terna e sobre os “psis” era profundamente irónica e crítica:
“Os psiquiatras são malucos sem graça” (in Conhecimento do Inferno).
Não conheço ninguém que escreva tão bem sobre a solidão como o António.
Para mim, a sua escrita era já uma obsessão. Precisava, a espaços, daquela decadência da linha do Estoril, de uma burguesia viciosa numa qualquer herdade alentejana, do silêncio da violência sexual, da doença, do absurdo da guerra, do desespero calado do olhar de uma mulher, dos falsos democratas, dos terroristas, dos loucos, da brincadeira assustada de uma criança e, sobretudo, da SOLIDÃO.
Não conheço ninguém que escreva tão bem sobre a solidão como o António. A certa altura, escreve ele no Conhecimento do Inferno: “(...) a solidão (...) é uma pistola de criança num saco de plástico na mão de uma mulher apavorada.”
Comecei a estudar a sua obra pela lente de Maria Alzira Seixo e pelas entrevistas que ele, com a falsa modéstia de um homem inseguro, fingia não gostar de dar.
Lobo Antunes era louco, passou a vida sentado numa secretária em guerra com os seus fantasmas tendo uma caneta Bic como arma. Um álibi para justificar o evitamento experiencial de quem carrega desespero. Escrevia à mão e as suas páginas estavam cheias de correções e anotações. Invejo verdadeiramente os seus revisores e tradutores. Deve ser penoso traduzir aquele sismógrafo que saía da sua pena!
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Lobo Antunes era louco, sim, mas um louco como todos nós quando nos apercebemos do nada que somos. E por isso gostava da vida, dos pequenos prazeres, da hora de almoço no restaurante do Zé, das tertúlias com o seu irmão, o melhor amigo (esse sim, demasiado humilde) José Cardoso Pires. Tenho-os juntos na minha estante e sinto uma admiração emocionada pela amizade entre os dois.
Gostava da vida, sim! Do Benfica e das filhas. Gostava de mulheres, embora o ache tímido e inseguro. Não invejo a sorte das mulheres que o amaram.
Mas era um homem só, emparedado num eterno solilóquio.
Soube há uns anos que entrara em demência, percebi que não escreveria mais uma letra. Como David Bowie, acho que ele foi preparando a sua morte, relembrando-se dos mortos que o habitavam e sobretudo da sua mãe: “Para aquela que está sentada no escuro à minha espera.”
Ainda não li.
Pegar hoje num livro de Lobo Antunes é para mim um sacramento, um movimento intencional, difícil e algo violento. Uma penosa viagem ao abismo de mim próprio, tão odioso como magnético.
Lobo Antunes foi, ao lado de Miguel Torga, o meu pai literário. Sou-lhe eternamente grato por hoje chorar enquanto escrevo estas palavras.
Hoje, no dia da sua morte, choro por um homem que nunca conheci. Se isto não é uma das mais profundas experiências que a leitura nos pode trazer!
Um pai, uma escola, uma lente pela qual aprendi a ver a vida.
“E, no entanto, Striker, compreendes que aquele homem teve a grandeza de compreender que os selvagens faziam parte do risco normal, o risco aceitável, ligado a qualquer exploração; parte da aventura, em suma, como o podia ser o naufrágio, o escorbuto, ou morrer de sede, ou de febre tropical, tudo isso era … ‘aceitável’, compreendes, até morrer para seguir um projeto insensato, se esse projeto permite viver uma vida excecional.”
Esta longa citação foi retirada da novela Corto Maltese - A Balada do Mar Salgado, de Hugo Pratt1, que em 1995 decidiu transpor para aquele formato a sua novela gráfica de 1967, onde pela primeira vez se deu a conhecer Corto Maltese, marinheiro, ocasionalmente pirata e essencialmente aventureiro.
Aquelas palavras foram dirigidas pelo comandante Slutter, jovem primeiro-oficial da Marinha Imperial Alemã, em momento imediatamente anterior ao início da Primeira Grande Guerra, ao primeiro oficial da tripulação do submarino que comandava, e falava de Jean François de La Perouse, almirante francês que tentou a circumnavegação, por ordem de Luís XVI, numa tentativa de completar os trabalhos de James Cook. A reflexão era motivada pelo facto de, na guerra que se avizinhava, estar reservado para aquela tripulação um papel menos glorioso do que gostariam, e com poucas possibilidades de vitória. O carácter da personagem ficou assim definitivamente traçado, assim como todo o espírito da história que está a ser contada.
E Corto Maltese, que nesta história é mais um espectador do que verdadeiramente interveniente, é a personificação deste ideal de aventureiro, no seguimento de personagens deixadas por Conrad, Verne, Salgari, Stevenson ou Borges. E, se Flaubert disse um dia que “Mme. Bovary c`est moi.”, Corto Maltese foi criado à semelhança de Hugo Pratt.
Hugo Pratt nasceu em Itália, em Rimini, onde os pais se encontravam de visita a familiares, a 15 de julho de 1927, vivendo a família em Veneza. Descendia, pelo lado paterno, de Joseph Pratt, seu avô, nascido em França e com origens inglesas, que veio para Veneza como professor de francês. Pelo lado materno, o avô Eugénio Genaro, pedicuro de profissão, de origem espanhola, de família judaica convertida ao catolicismo, casou com Cesira Greggyo, judia.
Eugénio Genaro era também uma figura política em Veneza, liderando o grupo fascista local, e Hugo Pratt atribui a atividade do seu avô ao facto de os seus pais se terem conhecido. Eveline Genaro e Rolando Pratt trouxeram ao mundo Hugo, que cresceu num ambiente dominado pelo meio judaico, do lado da mãe, e do grupo fascista, do lado do pai, “A Sereníssima”.
Em 1936, Mussolini, a pretexto de incidentes na Somália Italiana, leva a Itália a conquistar a Etiópia, naquilo que foi um dos conflitos que antecederam a Segunda Grande Guerra. Esta ação expansionista do regime fascista levou a uma mobilização do país, com a afetação de recursos materiais e humanos necessários à necessária “colonização”. E em 1937 a mãe de Hugo junta-se ao marido, que tinha ido para a Etiópia um ano antes, ao serviço do Exército.
Entre 1937 e 1942, Hugo Pratt torna-se homem, em ambiente colonial primeiro, e de guerra depois (chegou a ser oficialmente membro das forças armadas locais, o mais jovem de que há registo), desenvolvendo-se precocemente a todos os níveis e convivendo de perto quer com as populações locais, quer com os militares – italianos, claro –, e mais tarde com o Exército inglês, que acaba por obrigar a Itália a retirar. Hugo regressa a Itália com a mãe em dezembro de 1942, numa ação de repatriamento da população civil organizada pela Cruz Vermelha. O pai, entretanto feito prisioneiro de guerra, nunca chegará a regressar.
Até ao fim da guerra, Hugo Pratt colabora com as forças locais, com as forças alemãs e, finalmente, com a forças americanas, como intérprete.
A primeira atividade artística de Hugo Pratt veio a ser, na verdade, na música, enquanto performer em grupos de teatro e bandas musicais, atuando perante plateias de soldados, de estudantes universitários ou até operários. Só em 1945 a banda desenhada começou a ser a sua atividade principal, ainda que, segundo o próprio, não tivesse a ambição de desenvolver essa arte e de a ela se dedicar profissionalmente para o resto da vida.
Em 1949, depois de algumas viagens pela Europa, Pratt aceita um contrato de trabalho na Argentina, e parte, convencido de que dali iria rápida e facilmente para os Estados Unidos. Acabaria por ficar durante 13 anos.
Em Buenos Aires, o jovem e talentoso autor, leitor omnívoro, aventureiro e com uma extensão de interesses intelectuais e humanos consistente com a vasta experiência de vida que já detinha, levou muito longe e muito alto a sua arte, consagrando-se como autor respeitado e com sucesso comercial. Apenas no início da sua carreira tinha assinado os argumentos das histórias que desenhava, e terá sido ali, trabalhando com grandes argumentistas, que desenvolveu a mestria narrativa que conhecemos. Primeiro com Alberto Ongaro, e depois com o grande Héctor Oesterheld, com que produziu as séries “Sargento Kirk”, “Ticonderoga” e “Ernie Pike”.
Durante os anos em que esteve em Buenos Aires, Pratt não parou de viajar, tendo inclusivamente estado por uma breve temporada no Brasil. Mas em 1962 Pratt deixa a Argentina definitivamente, depois de uma breve passagem por Londres, e após passar por Lisboa e Paris, regressa a Veneza. Até 1970 trabalha a partir de Itália, já com o nome consagrado (chega a trabalhar para uma revista batizada Sgt.Kirk, personagem sua dos tempos de Buenos Aires. Mas viaja com muita frequência e, sabemos hoje, que em todos os seus destinos encontra motivos e temas que acaba por utilizar nas suas histórias.
É nessa revista que a partir de 1967 é publicada A Balada do Mar Salgado, onde, nas palavras do próprio, Corto Maltese “não passava de uma personagem entre outras”. Em 1970, o semanário francês Pif, que tinha também como colaborador Eduardo Teixeira Coelho, extraordinário autor de BD nascido na ilha Terceira, começa a publicar pequenos episódios com Corto, que acabam mais tarde por ser reunidos por ciclos. Pratt começou por levar o seu herói ao Brasil e em especial à Amazónia, em Sob o Signo de Capricórnio e Corto Maltese na Amazónia, às ilhas britânicas em As Célticas, ao Norte de África em As Etiópicas, e à Sibéria, em Corto Maltese na Sibéria. É neste ciclo que terminam as histórias de Corto Maltese neste formato. A partir dali, teríamos histórias únicas, num regresso ao formato inicial de A Balada do Mar Salgado.Corto Maltese na Sibéria já saiu na Itália, na revista Linus, e em França, na (a suivre), onde vieram a ser publicadas as histórias posteriores.
Os Escorpiões do Deserto é o título de outra série que Pratt desenvolve desde 1975, baseada uma unidade militar ao serviço dos Britânicos no Norte de África, durante a Segunda Grande Guerra. Histórias em grande parte passadas em cenários que Pratt conhecia e com personagens baseadas em pessoas com quem se tinha efetivamente cruzado.
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Mas Corto Maltese leva mais longe a própria personagem e a arte de Pratt. Após perseguir um comboio com o ouro dos czares, Corto Maltese volta em Fábula de Veneza, de 1977, A juventude de Corto Maltese: 1904-1905, de 1981, A Casa Dourada de Samarcanda, de 1985, Tango Argentino, de 1986, As Helvéticas, de 1987, e Mú, de 1981.
Em toda a saga temos Corto Maltese como espectador, ainda que seja difícil de perceber se os acontecimentos não são espoletados pela sua mera presença. Parte daquilo que o define é dito por aqueles que o rodeiam. Podemos encontrar com frequência grandes vultos das sociedades da época, das artes e da política, sem que o leitor tenha a sensação de que o autor está a forçar a sua erudição, que é manifesta. Num episódio de As Etiópicas temos um oficial do Exército britânico a citar Rimbaud, após o qual Corto exclama que estava convencido de que os oficiais britânicos só gostavam de ler Kipling. Um dos melhores retratos de Corto é feito por Cush, personagem secundária de As Etiópicas, num episódio de Os Escorpiões do Deserto, onde Corto é apenas uma memória. É aqui que ficamos a saber que a derradeira aventura de Corto terá sido em Espanha, durante a guerra civil.
Não sabemos, mas podemos imaginar que Corto Maltese tenha passado pelo Faial durante a Primeira Grande Guerra. Afinal, tratava-se de um importante porto comercial nas rotas atlânticas e centro de passagem de cabos submarinos. Teria seguramente apreciado a vida cultural da ilha, que contava, à época, com uma das mais altas taxas de alfabetização do país. Não custa imaginá-lo na inauguração do Peter Café Sport, ou a visitar a Sociedade Amor da Pátria. Talvez até a salvar uma dama durante o bombardeamento alemão. Seria um personagem digno do local e da época, e é importante que isso seja hoje recordado.
Não sabemos, mas podemos imaginar que Corto Maltese tenha passado pelo Faial durante a Primeira Grande Guerra.
A dupla espanhola Juan Diaz Canales e Ruben Pellegero foi a responsável pela retoma da personagem em 2017, com o álbum Sob o Sol da Meia Noite. A que se seguiram Équatoria, em 2017, Dias de Tarowean, em 2019, e Noturno Berlinense, em 2022. Quem sabe se ainda trarão Corto ao triângulo?
“Estás muito bonita! Fazes-me lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré Parda Flora, em Buenos Aires.”
“Talvez houvesse por lá alguém parecido comigo?”
“Não. É precisamente por não te pareceres com ninguém que gostaria de te encontrar em toda a parte.”
Este diálogo de A Balada do Mar Salgado, mas que podia estar no Johnny Guitar, de Nicholas Ray, entre Corto Maltese e Pandora Groovesnore, termina de forma abrupta: “Eu não iria consigo, Corto Maltese.”
Sabemos, porque o próprio o disse, que uma cigana lhe teria dito que a sua mão não mostrava uma linha da sorte, pelo que ele teria pegado na navalha de barba do pai e traçado uma do tamanho que quis. Pelas mulheres que conheceu, e que tão bem Hugo Pratt soube retratar, fica a dúvida se essa linha da sorte teve ou não efeito (ou até se a história era verídica).
Também é por causa de grandes histórias de amor que nunca aconteceram que cada um de nós gostaria de encontrar em toda a parte um Corto Maltese (ou uma Pandora).
Seguramente Corto Maltese terá passado pelos Açores, em algum momento das suas andanças. Sorte nossa.
1 Contexto, 1997, tradução de António Pescada e Mário Dias Correia.
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