No 1.º Congresso do Maio, Mário Tomé apresentou o tema “A guerra nos dias de hoje”. Dessa intervenção selecionámos alguns dos momentos mais significativos a apresentamo-los aqui.
No dia 23 de Março, 15 minutos antes de Trump anunciar que adiava os ataques à rede eléctrica iraniana, houve apostas de quase 600 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo. No dia 17 de Abril, 20 minutos antes de o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, anunciar nas redes sociais que o estreito de Ormuz estava aberto, os corretores apostaram 760 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo.
Os governos de países da União Europeia têm falado da eventual necessidade da possível criação de um hipotético imposto sobre os super-lucros obtidos pelas petrolíferas e afins em consequência dos aumentos de preços dos combustíveis directamente resultantes da guerra que Trump lançou contra o Irão (sem nunca a declarar). A teoria é que, arrecadando pela via fiscal um bocadinho dos super-lucros que as petrolíferas sacaram pela guerra e pela crise, se tem mão na especulação com os combustíveis fósseis e nos mercadores da guerra.
Muito bem.
Acontece que a verdade é ligeiramente mais maçadora. Primeiro, as medidas fiscais de (ligeiro) desagravamento dos impostos sobre os combustíveis não influenciam directamente o que as petrolíferas e as gasolineiras cobram ao consumidor; em princípio, reduzem apenas o que as petrolíferas pagam ao Estado. Portanto, o dinheiro, para começar, vai direitinho parar aos cofres da indústria, pelo menos em parte.
Contudo, quem, na realidade, lucra à grande com a escalada geopolítica não são forçosamente as empresas enquanto tais. Onde, hoje em dia, se cola às mercadorias comerciadas um preço pelo “risco geopolítico” é nas bolsas de Nova Iorque, Chicago e Londres. Lá se situam os geiseres dos lucros astronómicos.
O fisco português, e os outros, mal vê um chavo.
A trincheira do carcanhol
Ainda a esquadra americana não tinha disparado um Tomahawk contra o Irão, já os artilheiros do carcanhol estavam aos seus postos nas bolsas.
No dia 13 de Fevereiro de 2026, soube-se que o porta-aviões mais poderoso do mundo, o USS Gerald R. Ford, rumava ao mar da Arábia. Duas semanas mais tarde, caía assassinado o aiatola Ali Khamenei.
Já nessa altura, para quem soubesse (de “saber”, verbo: neste caso, “ter boas fontes de informação”), valeria a pena apostar, na bolsa, no aumento, ou na baixa, do preço do petróleo.
Atenção: o preço do petróleo é determinado com grande antecedência, não tanto pela oferta de petróleo que há e pela procura do petróleo que há, mas muito mais pelas apostas feitas em bolsa por gente com muito, muito dinheiro — que não se contenta com depósitos a prazo e obrigações de 1,2% ao ano.
As apostas desse pessoal chamam-se futures; é mais bonito.
Incidem em como o preço do petróleo (e não só) vá evoluir no futuro. A evolução dos preços futuros não depende tanto da oferta previsível, ou seja, das condições técnicas de quem produz e produzirá, mas mais, por exemplo, de quem permitirá que se produza ou não. Sobretudo porque, como diria o economista, a procura é muito pouco “elástica”. Em português corrente: o trabalhador, para ir trabalhar, tem de meter gasolina, seja qual for o preço, sobretudo se não houver transportes públicos decentes. E a indústria? Acham que pode funcionar ao pedal?
Uma semana mais tarde, 20 de Fevereiro, Donald Trump intensificou a escalada. E baixou, assim, o risco de a aposta na guerra dar para o torto. No avião presidencial, Air Force One, perguntaram a Trump qual o teor do ultimato que dera ao Irão. Trump largou a senha: “Dez a 15 dias, no máximo. Ou há acordo, ou eles estão feitos.”
Ora, as transacções que mais deram nas vistas, as mais lucrativas, só ocorreram alguns dias mais tarde.
Contemple-se o processo da erupção do super-lucro, esse perfeito encaixe entre política, guerra e mercado de capitais.
No dia 23 de Março, 15 minutos antes de Trump anunciar que adiava os ataques à rede eléctrica iraniana, houve apostas de quase 600 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo.
No dia 7 de Abril, poucas horas antes do cessar-fogo temporário anunciado por Trump, fecharam-se apostas no valor de cerca de 960 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo.
No dia 17 de Abril, 20 minutos antes de o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão anunciar nas redes sociais que o estreito de Ormuz estava aberto, os corretores apostaram 760 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo.
No dia 21 de Abril, 15 minutos antes de Trump anunciar a prorrogação da trégua, seguiu-se outra série de apostas na queda dos preços do petróleo, no valor de 430 milhões de dólares.
Entre 28 de Fevereiro e 7 de Abril, as acções dos fabricantes de semicondutores, para quem o bloqueio do estreito de Ormuz era potencialmente catastrófico, caíram de 6 a 12%. Segundo os peritos, durante essa semana, a variação de preços incorporou antecipadamente 70% dos efeitos da guerra: a “volatilidade” dos preços atingiu níveis que não se viam desde a crise financeira de 2008.
No dia 28 de Fevereiro de 2026, tivera início a Operação Epic Fury.
Morto o aiatola e fustigados os centros de comando em Teerão por uma chuva de bombas, a alcavala bolsista da guerra disparou de imediato. Desde que o ano começou, o petróleo Brent já subiu quase 70%; situa-se agora acima de 100 dólares por barril. Quem, chegado o início de Maio, tivesse tido a “coragem” (leia-se: a “informação”) para “investir” na ruinosa devastação do Irão, desprezando, portanto, a bela diplomacia, podia tirar um famoso balanço do rendimento do investimento feito em poucos dias.
As acções da neerlando-britânica Shell aumentaram 13,5%.
As da britânica BP aumentaram mais de 23%, apesar de ter activos muito próximos da zona de conflito.
As da francesa TotalEnergies subiram 34%, sem dúvida à luz das suas capacidades alternativas em África.
As da norueguesa Equinor subiram 56%. A empresa estatal norueguesa beneficiou dos novos preços, apesar de estar muito fora do alcance dos mísseis.
Quem comprou cedo conseguiu rendimentos muito superiores aos dos “mercados” genéricos. Os “super-lucros” foram apostas na escalada geopolítica. Note-se que os lucros extraordinários não começaram por cair no colo das empresas propriamente ditas, mas no dos fundos e especuladores profissionais que apostaram nessas empresas e matérias-primas.
Lucro da Shell aumentou 13,5%, da BP aumentou mais de 23%, da norueguesa Equinor subiu 56%. Quem comprou cedo, conseguiu rendimentos muito superiores aos dos “mercados” genéricos.
Ninguém devia, porém, ignorar que os grandes accionistas dos fundos que detêm os fundos que detêm os fundos que detêm as acções de todas as grandes empresas do mundo são as mesmas que detêm os fundos que detêm os fundos que detêm os fundos que especulam com as acções de todas as grandes empresas do mundo. Portanto, terem lucrado as “petrolíferas” ou os “especuladores” vai dar ao mesmo — lucrou o 0,1% que detém quase tudo.
Os “mercados” apostaram em que Trump não se ficaria por ameaças, instigaria uma guerra a sério. O que Trump fez a seguir enriqueceu abruptamente quem (está bem, já todos eram super-ricos) detinha informações sobre o que Trump ia fazer (será possível excluir que Trump fosse um dos que sabiam o que Trump ia fazer?).
Nesta sociedade de imperialismo em decomposição acelerada, a aposta na guerra, no armamento, nos bombardeamentos e na destruição é o passaporte dourado: o verdadeiro “visto gold”.
A campanha de Trump contra o Irão, tenha ela caído ou não num beco sem saída político-militar, longe de ser uma desgraça, foi, para o capital, um feliz evento. “Ganhador da guerra” foi quem “percebeu” (desculpai o eufemismo) que a era da diplomacia terminou no dia 13 de Fevereiro e que Trump, há pouco candidato ao Prémio Nobel da Paz, estava determinado a entrar para a história como presidente da guerra.
O “fire and fury” da Casa Branca é o “lucro do camandro” de Wall Street. É lá que os capitalistas do mundo, incluindo os europeus, escondem os super-lucros da guerra — de que os políticos “europeus”, suando as estopinhas, falam como amoladores de unhas dos pés.
Conceda-se: o imposto sobre os lucros é para um político da vasta espécie rangel-montenegrina uma oportunidade fantástica, e rara, de parecer preocupado com as dificuldades da gente simples e se indignar com lucros “excessivos” — além de poder dar momentâneo alto à “narrativa” do Chega (ai, a lamentável falta de sentido de Estado!).
A ginjinha: boa parte das informações para este artigo foi respigada de meios de informação financeiros. Num deles, The Pioneer, elas são apresentadas… para demonstrar que não tem sentido os governos europeus adoptarem os tais impostos sobre os super-lucros, pois quem os embolsou não está ao alcance dos respectivos fiscos!
Nasceu para dar a volta a isto tudo. Eu, é mais para encher chouriços, dar horas à espera. E juro que há quem faça fila para ver. Enfim, hoje em dia, nada me espanta. A vizinha do lado, que costuma ler autores sefarditas do século XVIII, todos os dias, à hora do chá, faz uma tarte Tatin maravilhosa. Diz que é fácil, que é só dar a volta, que com tanta prática até é capaz de escrever Os Lusíadas ao contrário. Nunca chegou a explicar como. Uma pena.
ANGHEL, Golgona “Nasceu para dar a volta a isto tudo”.
In: Nadar na piscina dos pequenos.
Lisboa: Assírio & Alvim, 2017
Segundo o dicionário da Porto Editora, nome masculino (psicologia) que designa esgotamento físico e mental causado por excesso de trabalho ou por stress decorrente da atividade profissional. Segundo o dicionário de inglês Merriam-Webster, exaustão da força física ou emocional, ou da motivação, geralmente como resultado de stress ou frustração prolongados.
EM NOVILÍNGUA:
Burnout é um termo que só recentemente entrou no léxico comum em Portugal. Porém, problemas de saúde mental como o burnout já são descritos há décadas: “A nossa sociedade ocidental contemporânea, a despeito do seu progresso material, conduz cada vez menos à saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amar no indivíduo; tende a transformá-lo num autómato que paga o seu fracasso humano com doenças mentais cada vez mais frequentes e desespero oculto sob um frenesim pelo trabalho e pelo chamado prazer”, escrevia o psicólogo, psicanalista e sociólogo alemão Eric Fromm na década de 50 do século passado. Mas acrescentava: “onde há sintomas há conflito, e conflito indica sempre que as forças da vida (…) ainda lutam. As vítimas de doença mental realmente perdidas encontram-se entre aqueles que parecem mais normais” (…) “porque são normais somente em relação a uma sociedade profundamente anormal”. ASP
Ao longo de dois dias, 9 e 10 de Maio, o jornal Maio fez o seu primeiro congresso. Decorreu na Escola Secundária Camões, em Lisboa, com a presença dos sindicatos e ORTs que constroem o Maio e outros, que se juntaram aos debates, que tiveram a participação de entre 140 e 160 pessoas distribuídas por várias salas ou reunidas no ginásio da escola ou no anfiteatro. Debatemos comunicação e estratégias para os trabalhadores e a esquerda; como construir a solidariedade entre trabalhadores; o direito à habitação, intimidade e vida privada; trabalho, tempo, família e amor; a IA na educação; o que se passa com a saúde mental, com apresentações do psiquiatra João Cabral Fernandes e do psicólogo Duarte Rolo, e a guerra e como a combater, debate introduzido por Mário Tomé. Tudo isto intercalado com cultura, com os músicos Fernando Costa, Aníbal Zola, Carla Passinhas, o ator e comediante Pedro Cardoso, o poeta Felipe Castro… Sete meses e 27 números depois, recompusemos forças e ouvimos alguma da gente que acompanha o Maio. Para prosseguirmos mais fortes. Neste vídeo, um olhar em “voo de pássaro” sobre a trajetória já percorrida.
Os trabalhadores só sabem a força que têm quando lutam juntos, como na greve geral. O Governo e os grandes accionistas a que ele obedece resolveram esmagar o que resta a quem trabalha. Mas nós não aceitamos uma economia que esmaga a humanidade.
Soará a panfletário dizer que os “trabalhadores não sabem a força que têm”? Que levam na barriga, sejam eles operários, professores, médicos, ferroviários ou da cultura, um mundo mais justo, belo e bom, de que são os parteiros?
A realidade encontrou-se com a história, nestes meses, em Portugal. A greve geral deixou à vista que as classes dirigentes, que vivem da “comunicação” que já não convence ninguém, têm mais fraquezas do que parece, mesmo com maioria no Parlamento.
Não há casas, faltam alimentos de qualidade, desfaz-se a saúde, a educação e o lazer para quem trabalha. Obriga-se-nos a uma existência arrastada e sofrida. Mas a paciência chega ao fim, depois de anos de promessas de que, “agora sim, com esta reforma, isto vai ficar melhor”, e ficou sempre pior. Como Zé Mário cantou, a produtividade é uma finta vossa. A pergunta certa é se podemos viver do trabalho e nele sermos felizes.
O que, na realidade, nos anunciam é o fim de uma carreira para os docentes - que, no desenho do Ministro, ficam na mão de directores, que definirão a sua avaliação e mobilidade — assim, claro, se suprimindo o último reduto de liberdade pedagógica e abrindo mesmo portas a que empresas privadas possam contratar professores para a escola pública (como se fez no INEM e aos enfermeiros); a vigilância aos médicos, que deixam de poder seguir os seus doentes, para abrir mais espaço ao privado, enterrado em seguros que não asseguram saúde; a perseguição a 25% dos trabalhadores, por serem imigrantes; agora a privatização da CP aos poucos, pela concessão das linhas lucrativas, e a granel da TAP, para satisfazer as ordens de Bruxelas; e ainda nos querem impor um banco de horas de 50 horas por semana de trabalho no privado (e no público) e proibir os sindicatos de actuarem na maioria das empresas e de fazer greve.
Há tudo isto; mas há também um pacote patronal (que até é rejeitado por uma parte dos empresários) que não logrou ser aprovado até agora, assim se demonstrando a força imensa que os trabalhadores têm quando se organizam, todos juntos. Três milhões.
Este Governo é um governo de guerra social, não só porque quer afectar 5% do orçamento à produção e ao uso de armas na guerra, mas porque abriu uma guerra contra todos os que trabalham e as pequenas empresas, que dependem do mercado interno e se vão abaixo com o parco consumo que os baixos salários permitem.
A unificação de todas estas lutas é fundamental – derrotar o pacote laboral, a privatização da educação, dos transportes e da saúde, derrotar a burocracia e a carga fiscal brutal sobre quem trabalha e as pequenas empresas, proteger os imigrantes, garantindo-lhes a dignidade: legalidade e direitos civis.
Tudo isto é um pacote Político (com P maiúsculo) para quem vive neste país e acha que ele não é a coutada privada de algumas centenas de accionistas que, para sobreviverem no mercado mundial e no meio da crise imperialista, resolveram esmagar o que resta a quem trabalha. Não aceitaremos ir como ovelhas tresmalhadas tocadas para o matadouro da exploração, da exaustão, do cansaço, da doença, de uma economia que esmaga a humanidade.