O delator e o chefe
Os defensores da gestão neoliberal, a partir de indicações do Banco Mundial, reintroduziram a “denúncia” no léxico comum das empresas e sobretudo dos serviços do Estado. Alegadamente, para proteger “minorias” de racismo ou assédio sexual. Está nos documentos e diretrizes europeias – a “caixinha das denúncias” é obrigatória nos serviços do Estado, o mesmo Estado que não tem professores, urgências e avisos e proteção contra ciclones.
Raquel Varela
Historiadora, professora
universitária
Tenho muito interesse na palavra denúncia. Ela é duplamente o pior que um trabalhador pode fazer. Primeiro, dizer que no nosso país a palavra denúncia foi, durante 48 anos de ditadura, o vocábulo de que o Estado e as classes dirigentes mais gostavam: “Tens alguma coisa a contar-me, filho”, perguntavam o padre e o torcionário. Depois, com o PREC, a revolução social dos cravos em 1974 e 1975, denúncia e escarro significavam quase a mesma coisa. Um denunciante passou a ser um bufo, um informador do poder, um cobarde, desprezado. Este vocábulo horrendo foi recuperado pelos defensores da gestão neoliberal, a partir de indicações do Banco Mundial (o think tank mais produtivo das ideias neoliberais), para alegadamente proteger “minorias” de racismo ou assédio sexual. Assim, a burguesia, a querer privatizar o Estado e destruir a coesão e consciência dos trabalhadores, reintroduziu a “denúncia” no léxico comum das empresas e sobretudo dos serviços do Estado. Faz parte, aliás, da contrarreforma do Estado, na sua versão “fim de serviços públicos e investimento em guerra”. Está nos documentos e diretrizes europeias – a “caixinha das denúncias” é obrigatória nos serviços do Estado, o mesmo Estado que não tem professores, urgências e avisos e proteção contra ciclones.
“Tens alguma coisa a contar-me, filho”, perguntavam o padre e o torcionário.
Ora a denúncia é a arma do comportamento de massas contra o comportamento coletivo, de luta. Ela também é uma arma de mentira e destruição maciça dos locais de trabalho: todos são suspeitos, pelo que o medo se instala. Finalmente, ela é um calmante poderoso, um Xanax da luta de classes. Os denunciantes acham que assim está bom, já “agiram” contra as injustiças, denunciando, podem ir para o sofá dizer mal disto tudo ou dizer: “Já fiz a minha parte, não acredito em nada.” A sós ou em manada (com abaixo-assinados), os denunciantes pensam assim livrar-se do compromisso social que é transformar coletivamente o horror de mundo em que o capitalismo nos pôs a viver. A denúncia é uma forma de mentir a si próprio: “Já está, denunciei, agora estou cansado para ir a uma reunião de greve.” E agora nem tem de se ir ao café coscuvilhar ou caluniar, porque a UE garante uma caixa de denúncias nos locais de trabalho, contra os colegas, online, no colo e no sofá onde se poisa o computador.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
A denúncia é a atitude de quem não luta, não se reúne, face a face, não vai ao plenário, não debate frontalmente, mas faz queixinhas. E o destino da queixinha? A União Europeia foi cuidadosa na diretiva: o destino é decidido pelo chefe ou o diretor ou a comissão “independente” por ele nomeada. E aí dá para tudo. Se gosta de beltrano, que é um corrupto, a queixinha serve para o corrupto ser mais fiel ao chefe e até ajudar o diretor a ser corrupto também. Se o chefe não gosta de sicrano, que fez uma denúncia de assédio moral, sicrano nunca mais passa no SIADAP, sistema de penalização e medo, autodesignado de “avaliação” na função pública. Perdão, função do Estado, que de público, já sabemos, só temos a vergonha da ausência de serviços e a condenação de impostos asfixiantes. Se o denunciado é grevista, abre-se um processo disciplinar, que esgota os recursos do sindicato, e sobretudo o tenta destruir, com ansiedade, tirando-lhe o sono. A denúncia é omnipotente – mesmo quando não é usada está sempre lá. Porque pode ser usada. A UE chama a isto Canal de Denúncias. Resta-me dizer que tal como na Inquisição e nas ditaduras modernas, tudo tem um fim, essa é a boa notícia.
Um dia, um rio de gente irrompe na história, e não há nada que um canal possa contra esse rio. Nos dias seguintes, os bufos publicam textos nos jornais, como no 25 de Abril, a dizer que “nunca foram informadores”, mas será tarde para eles, que serão ostracizados, desprezados. Para nós, como sempre, é um recomeço – da discordância aberta e franca em plenário, do debate e confronto de ideias em reuniões presenciais, da organização coletiva com divisão de responsabilidades. E, claro, é o recomeço da eleição em plenário do chefe ou do diretor com mandatos revogáveis, o que deu na sua maioria, na revolução de 1974-75, a escolha dos tipos mais justos, responsáveis, cooperantes, que frequentemente mal havia um erro de um trabalhador assumiam as culpas, eles os chefes, os diretores, os coordenadores. Havemos de voltar a essa decência que é a gestão democrática, sem denúncias, com plenários, sem canais de medo, com rios de liberdade.