Jornal Maio

Marjane Satrapi e o tempo do devir

Talvez seja esta a mais importante lição deixada por Marjane Satrapi, a autora de Persépolis, falecida em 4 de junho. Que os povos se reconheçam uns nos outros antes de se reconhecerem nos Estados que os governam e oprimem. Que a arte continue a ser um território de encontro, de denúncia e de imaginação política.

Transformar a realidade através da arte foi algo que fez a ilustradora Marjane Satrapi, que transmutou a repressão e o obscuro da sua vivência em experiência sensorial, em crítica palpável sob a sua lente perspicaz, de que uma revolução é possível. Esta mulher, que foi romancista através do grafismo, que escreveu e viveu o cinema, ousou ilustrar e mostrar ao mundo que um outro Irão, uma outra Europa, foram e continuam a ser possíveis.

Dizer que Marjane “morreu de tristeza”, no dia 4 de junho, é afirmar que toda a possibilidade de mudança e de esperança que a sua obra nos deixa é também o vislumbre de que, sem luta, sem arte, sem organização da esperança, iremos igualmente sucumbir, atropelados e soterrados pelo sistema que, por todos os ângulos, nos diminui. A artista disse que “a diferença entre você e o seu governo é muito maior do que a diferença entre você e eu. E a diferença entre mim e o meu governo é muito maior do que a diferença entre mim e você. E os nossos governos são muito parecidos”.

 

Sem luta, sem arte, sem organização da esperança, iremos igualmente sucumbir.

 

Talvez seja esta a mais importante lição deixada por Satrapi. Que os povos se reconheçam uns nos outros antes de se reconhecerem nos Estados que os governam e oprimem. Que a arte continue a ser um território de encontro, de denúncia e de imaginação política. E que, perante o medo, a guerra e a intolerância, não esqueçamos aquilo que Satrapi nunca deixou de afirmar com os seus traços negros sobre fundo branco: que a liberdade é uma construção coletiva e que a esperança, para sobreviver, exige coragem.

 

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