Engels, pensador da guerra, pensador da revolução 1 Parte 1
Este estudo foi redigido para um colóquio organizado por Georges Labica na Universidade de Nanterre, em 1995, por ocasião do centenário da morte de Friedrich Engels. Pela sua extensão, apresentamo-lo aqui em três partes. Aborda o pensamento de Engels sobre a evolução da arte da guerra na época da revolução industrial, sobre os aspectos militares da política internacional, sobre estratégia e táctica, bem como sobre o comando e a qualidade dos generais.
Tradução de Adriano Zilhão.
Devemos, parece, os grandes livros sobre acção aos homens de acção que a fortuna privou da suprema realização e que conseguem dosear subtilmente compromisso e distanciamento, ainda capazes de reconhecer as amarras e servidões do soldado ou do político e capazes, também, de olhar de fora, não com indiferença, mas com serenidade, para a ironia da sorte e do imprevisível jogo de forças que nenhuma vontade domina.
Estas linhas de Raymond Aron na grande obra que consagrou a Clausewitz e à sua posteridade2, em que o título desta contribuição se inspira, poderiam ter sido escritas, palavra a palavra, a propósito de Friedrich Engels.
O general
Homem de acção no terreno militar foi-o o alter ego de Karl Marx na sua juventude, breve, mas resolutamente. Preparado, em instrução de um ano (1841-1842), na artilharia prussiana, em Berlim, onde aproveitava os tempos de inactividade da recruta para seguir os cursos de filosofia de Schelling e frequentar os críticos Jovens Hegelianos, o bombardier (cabo) Engels envolveu-se nos combates da revolução alemã de 1848-1849: primeiro em Maio de 1849, na sua cidade natal, Elberfeld, donde não tardou a ser expulso por temor de que, vermelho como era, pudesse influenciar o Comité de Salvação Pública local; depois, em Junho-Julho, nas fileiras do exército insurreccional de Baden e do Palatinado, com cujos restos acaba por se refugiar em território suíço, fugindo da ofensiva prussiana.
Engels alistou-se sem ilusões quanto à sorte dos insurrectos e sem nenhum respeito pela direcção do que considerava, no fundo, uma caricatura de revolução. Não obstante, mostrou-se valente em combate, sobretudo para evitar acusações de cobardia contra os comunistas, de que era já, juntamente con Karl Marx, um dos porta-estandartes.
O partido do proletariado estava bastante bem representado no exército de Baden-Palatinado, especialmente nos corpos francos, como o nosso, na legião dos emigrados, etc. Pode desafiar calmamente os demais partidos a fazerem a mais pequena censura a qualquer dos seus membros. Os comunistas mais decididos eram também os soldados mais valentes3.
Com a sua incursão na luta armada, Engels pretendia igualmente enriquecer os seus conhecimentos sobre assuntos militares; não fora acaso ter sido promovido a especialista nesta área na distribuição de tarefas pela equipa de redacção do Neue Rheinische Zeitung. Neste jornal, como crítico militar revolucionário, comentou os principais episódios armados da primavera dos povos de 1848-1849. Sobre os artigos que dedicou à Hungria, Wilhelm Liebknecht disse mais tarde que “as pessoas atribuíam-nos a algum militar de alta patente do exército húngaro”4, da mesma forma que, dez anos depois, os opúsculos publicados por Engels em Berlim, sem indicação de autor, O Pó e o Reno (1859) e Sabóia, Nice e o Reno (1860), serão atribuídos a algum general prussiano que queria permanecer no anonimato5.
O interesse de Engels pelas questões militares não era um capricho lúdico. Se mergulhou tão profundamente no estudo de tudo o que na sua época estava relacionado com este tema, foi porque o animava a mesma motivação que levou Marx a digerir tudo o que tinha que ver com economia política: a vontade de servir a sua classe de adopção, o proletariado; Marx, forjando as armas da crítica6, Engels dedicando-se à crítica das armas.
Desde que se instalou em Manchester, no final de 1850, Engels seguiu um programa sistemático de leitura que fez dele um erudito tanto em matéria de estratégia como de história militar. Paralelamente a esta preparação intelectual, preocupou-se em não dar tréguas à sua capacidade física para, quando chegasse a hora, regressar à intervenção no terreno. Ainda aos 64 anos, um ano e meio após a morte de Marx, a um dos seus correspondentes, preocupado com os seus problemas de saúde, respondeu com um balanço da sua aptidão para montar a cavalo e participar na guerra7. “Se tivesse ocorrido uma revolução enquanto ele estava vivo, teríamos tido em Engels o nosso Carnot, pensador militar, organizador dos nossos exércitos e das nossas vitórias”, afirmou Liebknecht8, após a morte daquele que se dirigia aos dirigentes do socialismo alemão “como representante, por assim dizer, do estado-maior general do partido”9.
A sorte privou Engels dessa realização suprema. Nunca lhe foi dada a oportunidade de pôr em prática os planos militares que havia concebido, desde o que, ainda novato, elaborou para os insurrectos de 1849, até àquele que, feito especialista militar reconhecido, aparentemente elaborou, 22 anos depois, para o governo republicano francês com vista à defesa de Paris contra o exército prussiano. Cotejou a sua erudição militar, potenciada pela sua grande inteligência e lampejos de genialidade, com a análise de todas as guerras de um meio século que foi palco de muitas. À falta de demonstração prática no campo de batalha, os seus comentários sobre a guerra franco-alemã de 1870-1871 para a Pall Mall Gazette de Londres, de uma perspicácia que suscitou a admiração do público e dos especialistas, valeram a Engels galões de general, título com que a família de Marx afectuosamente o agraciou. Durante o último quarto de século da sua existência, continuou, no seu círculo íntimo, a ser o general.
O teórico militar
A notoriedade de Engels como pensador da guerra consolidou-se a partir de meados do século XX, sobretudo entre quem se interessa pela arte da guerra e a sua história. No entanto, a razão dessa fama nem sempre é a mais desejável, já que se quis amiúde ver uma filiação entre o pensamento de Engels e as doutrinas militares soviéticas, amparada nas profissões de fé com que estas últimas se adornavam. Ainda hoje não há nenhuma obra séria sobre as etapas do pensamento estratégico que possa ignorar o companheiro de Marx: desde o clássico de Edward Mead Earle10, onde um capítulo é dedicado a Marx e Engels (sobretudo a este último), assinado por Sigmund Neumann11, até à recente e volumosa antologia de Gérard Chaliand, passando pela obra do coronel e professor israelita Jehuda Wallach13. Este último distingue, em Engels, o que, em sua opinião, constitui doutrina da guerra revolucionária e escritos militares de corte mais clássico. Sobre estes últimos, duplamente especialista, faz o seguinte balanço sucinto:
Os escritos militares importantes de Engels, até agora não estudados em profundidade, tratam (…) de todos os domínios da ciência da guerra. Ele escreveu sobre questões de organização e armamento, sobre a evolução da arte da guerra na época da revolução industrial, sobre os aspectos militares da política internacional, sobre estratégia e táctica, bem como sobre o comando e a qualidade dos generais. Formulou também previsões proféticas sobre a guerra do futuro (que se verificaram, de facto, na Primeira Guerra Mundial). Em muitas questões, foi mais perspicaz do que os militares profissionais. (…) Nos seus escritos anónimos sobre a situação militar na Europa Ocidental e do Sudoeste, Engels elaborou um plano que, 45 anos depois, foi baptizado com o nome de Schlieffen.
Demonstrou por que estaria esse plano alemão condenado ao malogro numa guerra contra a França. Profetizou com a máxima precisão a duração da próxima guerra mundial, a magnitude das baixas e as condições em que terminaria14.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Que Engels tenha sido um dos grandes pensadores da guerra no século XIX é indiscutível para quem conhece essa importante parte da volumosa massa dos seus escritos. Ele é, sem dúvida, uma referência iniludível da história militar da sua época. Já muito menos certo é que seja uma referência estratégica para a nossa época, se por isso se entender uma doutrina da guerra em geral, ou mesmo da guerra revolucionária em particular. Seguindo os passos de Clausewitz, que apreciava, e absteve-se, mais ainda do que ele, de elaborar uma teoria sistemática da guerra, limitando-se a comentar guerras e situações reais, nas condições concretas do seu desenvolvimento, sob pena de ir corrigindo de passagem as suas próprias concepções15.
Definir uma doutrina engelsiana da guerra revolucionária, original relativamente às lições de 1793 e das guerras napoleónicas, e com continuidade em Lenine, Trotsky, Mao Tse-tung e/ou o estado-maior soviético, corresponderá sempre a um trabalho de sistematização a posteriori, combinando considerações militares com reflexões gerais sobre a revolução. Esse tipo de elaboração tem muito pouco que ver com a maneira como Engels concebia a sua actividade de pensador militar e a aversão que ele desenvolveu, ao longo dos anos, a toda o tipo de dogmatismo. Como há-de ele ter-se sentido tentado por qualquer sistematização em matéria de doutrina militar, quando sempre realçou a vertiginosa aceleração do progresso das técnicas bélicas, que produz armas que, por vezes, “ficam velhas ainda antes de serem lançadas”16?
O interesse maior do pensamento de Engels sobre a guerra está no indagar além das receitas propriamente militares, mesmo as da guerra revolucionária. Está, sim, no tratamento que dá a problemas cruciais para o movimento operário, a saber, a sua atitude em relação às guerras não revolucionárias, a articulação entre guerra e revolução e a possibilidade de uma estratégia de revolução que não dependa da guerra. Na nossa época, em que a guerra directa entre potências industriais é, para retomar a expressão de Raymond Aron, tão “improvável” quanto sumamente indesejável, é esse o ponto em que Engels conserva toda a sua actualidade, como pensador da guerra e estratega da revolução socialista. Nesse sentido, como se pretende demonstrar aqui brevemente, o seu pensamento sobre guerra e revolução antecipou questões do nosso século e conservará porventura a sua actualidade ainda por muito tempo.
Marx e Engels [chegaram] a distinguir, no mesmo protagonista, na mesma guerra acabada de evocar, entre uma fase emancipatória merecedora de apoio passivo ou mesmo activo e uma fase opressiva.
A atitude para com as guerras
Marx e Engels viveram um período de profunda mutação do mundo, o da gestação da sociedade industrial moderna e da sua extensão à Europa continental e às suas terras de imigração de massas, a época, portanto, da dualização profunda do planeta, que continua, desgraçadamente, a marcar o tempo em que vivemos. Pela análise de sua posteridade intelectual, assim como nos seus próprios termos, eles foram contemporâneos do amadurecimento do sistema imperialista mundial, sem conhecer verdadeiramente o momento em que ele se completou.
Por esta mesma análise, Engels morreu em plena fase crítica desta mutação histórica.
Os dois teóricos da revolução proletária viveram, assim, numa era que, no essencial, foi ainda a da culminação da transformação burguesa da Europa, uma época em que o continente ainda se desprendia do seu longo passado agrário e feudal. As guerras que eles conheceram foram, acima de tudo, reflexos desta primeira mutação. Também é verdade que essas guerras, como outras, foram igualmente, em parte ou totalmente, guerras de conquista, que prefiguravam a apoteose da guerra de pilhagem que viria a ser a Primeira Guerra Mundial. A guerra da Alemanha de Bismarck contra a França de Luís Napoleão, em 1870, foi o último grande testemunho da ambivalência desse período de transição histórica. Combinou, do lado alemão, uma guerra de defesa e consolidação da unidade alemã — tarefa eminentemente progressista, aos olhos de Marx e Engels, por muito que, a seu pesar, fosse executada sob a égide da monarquia prussiana — e uma guerra de conquista, que se traduziria na anexação da Alsácia e grande parte da Lorena.
Marx e Engels modularam, portanto, as suas atitudes para com as guerras reais da sua época em função de uma análise do seu significado histórico objectivo, chegando a distinguir, no mesmo protagonista, na mesma guerra acabada de evocar, entre uma fase emancipatória merecedora de apoio passivo ou mesmo activo e uma fase opressiva, em que se impunha solidarizar-se com o lado contrário, ainda que a política subjacente à guerra não mudasse ao longo do tempo.
De facto, no que é uma característica importante da sua problemática comum, os nossos dois pensadores não se limitaram à famosa fórmula de Clausewitz, que Lenine popularizaria mais do que ninguém. Mas não foi por a desconhecerem que se apaixonaram menos por ela do que Lenine. Para eles, o importante não era saber de que política uma guerra concreta era a continuação, mas antes de mais nada e acima de tudo de que movimento histórico subjacente era portadora. Para os fundadores do materialismo histórico e teóricos da falsa consciência ideológica, não se podia julgar uma guerra à luz da subjectividade política daqueles que a travavam. Base do seu veredicto, do alto do seu tribunal de examinadores das metamorfoses da estrutura sócio-económica, era o efeito objectivo da guerra na libertação das forças produtivas das travas sociais ou políticas que lhes limitam o desenvolvimento17.
Com o crescimento cada vez mais rápido e impressionante do movimento operário, sobretudo na Alemanha, a tradução prioritária do critério de avaliação passou a ser, na opinião de Marx e Engels, o efeito da guerra sobre esse movimento, portador da emancipação suprema. Deste ponto de vista muito preciso, a anexação da Alsácia-Lorena pela Alemanha representou uma mudança importante na sua apreciação comum da relação entre guerra e revolução no coração da Europa (não das guerras periféricas sem consequências imediatas no perigo de deflagração central). Aquela anexação tinha, na prática, o condão de abrir uma brecha entre os dois batalhões de choque do proletariado europeu, alimentando o chauvinismo de um e de outro lado. Encerrava no seu seio uma nova guerra, para a qual o resto da Europa seria arrastado e que seria tanto mais terrível e nefasta quanto nela se degolariam entre si os proletários de todos os países.
Se a classe operária alemã permitir que a guerra actual perca o seu caráter estritamente defensivo e degenere numa guerra contra o povo francês, a vitória ou a derrota serão igualmente desastrosas.
Este era o sentido do presságio em que se transformou a advertência incluída nos Manifestos do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores sobre a guerra franco-alemã, redigidos por Marx em Julho e Setembro de 1870, sem dúvida concebidos em conjunto com Engels:
Se a classe operária alemã permitir que a guerra actual perca o seu caráter estritamente defensivo e degenere numa guerra contra o povo francês, a vitória ou a derrota serão igualmente desastrosas18. (…) Após breve trégua, [a Alemanha] terá de voltar a preparar-se para outra guerra defensiva, não uma desse novo estilo de guerras localizadas, mas uma guerra de raças, uma guerra contra as raças latina e eslava coligadas19.
Além disso, enquanto a guerra entre potências europeias não atingiu um nível tecnológico que conferisse à “escalada para os extremos” e à “destruição do inimigo” um sentido muito mais literal e total do que alguma vez Clausewitz pudesse ter imaginado, podia-se contemplá-la mais ou menos serenamente, como uma modalidade de violência parteira do progresso social nos termos do Capital de Marx, retomados por Engels no seu Anti-Dühring. A louca corrida armamentista que a situação criada pela guerra de 1870 e o formidável aumento, quantitativo e qualitativo, dos meios de destruição acumulados pelas potências europeias deflagrou, fez que qualquer explosão generalizada no coração do sistema mundial passasse, cada vez mais, a ser um veículo de catástrofes, mais do que uma parteira de revoluções. Por outras palavras, levasse embora tal guerra, num prazo mais ou menos longo, a uma transformação revolucionária, ela seria o pior meio de alcançá-la, à custa de uma hecatombe e de uma destruição gigantesca de forças produtivas.
(continua)
1 Este estudo foi redigido para o colóquio organizado por Georges Labica na Universidade de Nanterre, em 1995, por ocasião do centenário da morte de Friedrich Engels. Foi publicado pela primeira vez na obra resultante do colóquio, Friedrich Engels, savant et révolutionnaire, dirigida por Georges Labica e Mireille Delbraccio e saída em 1997 nas Presses Universitaires de France.
2 Penser la guerre, Clausewitz, Gallimard, Paris, 1976. A citação consta do volume I, L’âge européen, pp. 32-33.
3 Engels, Die deutsche Reichsverfassungskampagne, 1850, in MEW (Marx Engels Werke), t. 7, p. 185.
4 “Friedrich Engels” (1897), in Souvenirs sur Marx et Engels, Editorial Progresso, Moscovo, 1982, p. 151.
5 Para favorecer a causa revolucionária comum, Engels, fervorosamente apoiado por Marx, tentou influenciar os militares austríacos e prussianos, rejeitando o princípio das fronteiras naturais com um ângulo de ataque político-militar e do ponto de vista do interesse nacional alemão. Demonstrou que a Alemanha não tinha qualquer necessidade de invadir território italiano para se defender, tentando estabelecer a convergência de interesses entre os movimentos de unificação de ambas as nações. Demonstrou igualmente a natureza ofensiva e reaccionária dos propósitos expansionistas de Napoleão III e formulou considerações militares sobre uma eventual guerra franco-alemã, que se confirmaram duas vezes ao longo do século XX.
6 O subtítulo de O Capital é: “Crítica da economia política”.
7 Carta a Becker de 15 de Outubro de 1884 (MEW, t. 36, p. 218).
8 Op. cit., p. 152.
9 Carta a Bebel de 12 de Dezembro de 1884 (MEW, t. 36, p. 253).
10 Makers of Modern Strategy, Princeton University Press, 1943.
11 “Engels et Marx: concepts militaires des socialistes révolutionnaires”, in Les Maîtres…, op. cit., t. 1, pp. 179-198.
12 Anthologie mondiale de la stratégie, Robert Laffont, Paris, 1990. Esta obra comete, em todo o caso, a proeza de acumular três erros em doze linhas de apresentação de Engels (p. 937): começa por qualificá-lo de “judeu alemão” (Engels já conhecia este epíteto em vida, cf. Über den Antisemitismus, 1890, MEW, t. 22, p. 51), situa-o “em Londres até 1870” e transforma-o em animador da Primeira Internacional “após a morte de Marx”.
13 Kriegstheorien: Ihre Entwicklung im 19. und 20. Jahrhundert, Bernard & Graefe, Frankfurt, 1972. O mesmo autor já havia dedicado uma obra inteira ao pensamento militar de Engels: Die Kriegslehre von Friedrich Engels, Europäische Verlagsanstalt, Frankfurt, 1968.
14 Kriegstheorien, op. cit., pp. 253-254. Este balanço aparece detalhado na obra anterior do autor. Nas Kriegstheorien, interessa-se exclusivamente pelo “conceito de guerra revolucionária” em Engels.
15 Este era o preceito do autor de Vom Kriege: “Não se deixem crescer demais as folhas e as flores teóricas das artes práticas; aproximem-se antes da experiência, que é o seu terreno natural” (Carl von Clausewitz, Da Guerra).
16 Engels, Anti-Dühring.
17 Do que precede não se depreende que a análise realizada por Lenine a partir de 1914 não se ajustasse aos critérios marxianos. Pelo contrário, ele próprio se baseou fundamentalmente numa apreciação do lugar e do significado históricos da fase imperialista na evolução do modo de produção capitalista. Para fundamentar a sua posição “derrotista revolucionária”, o dirigente bolchevique não se concentrou tanto na diplomacia dos beligerantes (o sentido primitivo da fórmula de Clausewitz, como reconhece Raymond Aron refutando Ludendorff [Penser la guerre, op. cit., t. II, p. 59]), mas mais na estrutura e na dinâmica das suas economias. Qualificou a guerra de 1914 de fenómeno sobredeterminado, inexorável, independentemente da intenção primária dos seus protagonistas.
18 Primeiro manifesto.
19 Segundo manifesto.