Em solidariedade ao povo boliviano e a Cuba
Entrevistamos Antônio Battisti, ex-presidente do Sindicato dos Servidores Estaduais de Santa Catarina, Brasil, e um dos impulsionadores do Manifesto “Em Solidariedade ao Povo Boliviano e a Cuba – Lutar Contra o Imperialismo”. A entrevista foi feita por Anísio Homem, em 8 de maio de 2026.
Maio. Explique-nos a importância de um manifesto desta natureza?
Battisti. Nosso manifesto tem como inspiração uma Nota Pública da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), de 20 de abril, que se solidariza com a luta dos trabalhadores e do povo boliviano e denuncia as medidas brutais do governo de extrema-direita de Rodrigo Paz contra a maioria da população boliviana. A revolta popular que se arrasta há mais de um mês é uma necessidade para a sobrevivência das famílias de trabalhadores urbanos e camponeses, não é um capricho ideológico. Quem pode suportar um aumento de quase 200% nos combustíveis, cortes em serviços públicos e privatização dos recursos estratégicos como o gás e o lítio, riquezas nacionais que deveriam servir para a solução dos problemas sociais e não para enriquecer multinacionais? Como os camponeses, descendentes de povos milenares, podem admitir serem expulsos de suas terras para dar lugar ao agronegócio que promove enormes latifúndios e incentiva o êxodo rural, a fome e a miséria? Como Rodrigo Paz, preposto das multinacionais e aliado de Trump, não recua de sua política de terra arrasada sobre a grande maioria do povo, então, a conclusão desta maioria do povo é exigir democraticamente a renúncia de Paz, que não os representa.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Maio. Em um trecho, o Manifesto fala que a solidariedade com a luta do povo boliviano e também cubano é uma “medida de autodefesa da soberania do povo trabalhador brasileiro”. Explique isso.
Battisti. Infelizmente, neste momento no Brasil os principais partidos institucionais da classe trabalhadora, a direção nacional da CUT e o próprio Lula não se deram conta de que uma eventual derrota da classe trabalhadora boliviana será um reforço para os objetivos da aliança “Escudo das Américas” que Trump e o imperialismo articulam com governos de direita e extrema-direita para aprofundar os ataques à soberania dos países de toda a América-Latina. Trump acaba de incluir as facções narcotraficantes brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) no rol de organizações terroristas mundiais, o que cria um pretexto para legalmente considerarem como legítima defesa do Estado americano atacá-las militarmente mesmo em solo brasileiro e até sancionar e “sequestrar” líderes políticos indesejados ao sistema capitalista estadunidense. Além disso, é uma senha para intervenções e pressões de ordem econômica, política e militar, como fizeram com a Venezuela recentemente. A primeira medida do Governo Trump depois da caracterização do PCC e CV como grupos terroristas foi taxar com tarifas de 25% uma lista enorme de produtos brasileiros vendidos no mercado dos Estados Unidos. As gigantes do setor de tecnologia querem se apropriar das nossas terras raras e as corporações de cartões de pagamento querem impor o fim do PIX, uma tecnologia desenvolvida pelo Banco Central do Brasil que não custa nada aos brasileiros que compram e vendem através do mecanismo instalado em seu celular. Não é sem razão que nosso manifesto dirige-se ao Governo Lula propondo “que manifeste seu apoio aos trabalhadores bolivianos e suas reivindicações e não envie nenhum tipo de ajuda ao Governo de Rodrigo Paz. Assim como esperamos que seja enviada ajuda para Cuba, que se encontra sob embargo energético por parte do imperialismo”.
Decretar “o estado de sítio pode ser a janela para militares golpístas se apresentarem para governar.
Maio. Há riscos de um golpe militar na Bolívia?
Battisti. Não tenho informações no detalhe de como as coisas estão se passando neste momento dentro da Bolívia, mas é sabido que o Governo Paz aprovou no parlamento nacional boliviano o direito a decretar o estado de sítio. O Governo Paz está cambaleando, ministros se demitiram, e ele não consegue convencer os manifestantes a abandonarem os bloqueios de rodovias, as greves, as manifestações de mulheres, porque não tem nada a oferecer senão as medidas drásticas de exploração e miséria como sonham as multinacionais de quem é vassalo. Então, a decretação de um estado de sítio pode ser a janela para militares golpístas se apresentarem para governar. Isso na Bolívia não seria inusitado. Um golpe militar nas atuais circunstâncias teria que ser preparado no intuíto de um genocídio, principalmente aos povos originários de quem se quer tomar as terras. É por isso que é surpreendente que a direção nacional da CUT, a principal central sindical da América Latina, se mantenha em silêncio sobre o que está ocorrendo no país vizinho ao nosso e não exerça aquilo que está em seu DNA fundador, a solidariedade com os trabalhadores e oprimidos de todo o mundo. Veja o que escreveu o jornalista e militante pela causa palestina, antissionista, Breno Altman, no dia 26 de maio, diante de uma declaração de Lula: “Triste ver meu candidato, o Presidente Lula, ter neutralidade em relação ao levante popular na Bolívia, até com gestos de cordialidade ao Governo Rodrigo Paz…” Para terminar, sublinho que sobre Cuba queremos uma ajuda ativa do Governo brasileiro no envio de petróleo e todo o tipo de auxílio material confrontando esse bloqueio econômico criminoso que há anos governos democratas e republicanos dos EUA vêm impondo ao povo soberano de Cuba. Com o Manifesto queremos organizar atividades políticas as mais amplas possíveis reunindo nestas ações todos os que se reivindicam representantes e aliados dos trabalhadores e da soberania dos povos, sem restrições.