Duas canções de resistência e esperança:
“Trova do vento que passa” e “Alípio de Freitas”, nas vozes de Adriano Correia de Oliveira e José Afonso
Zeca compôs “Alípio de Freitas” e difundiu-a em variadíssimos lugares, passando-a a outros cantores de intervenção, que a levaram mundo fora. Este espalhar da notícia foi seguramente a forma de Alípio se ter mantido vivo. Já a “Trova do vento que passa”, gravada por Adriano Correia de Oliveira com poema de Manuel Alegre, relata o desgosto provocado pelo exílio a que este país votava os seus, quer devido à situação política, quer à pobreza. Embora comece com grande tristeza e pessimismo, é seguida por esfusiante energia e vitalidade, dizendo não à servidão e à ditadura: “Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.”
Neste tempo de grande convulsão social, com a direita e o fascismo a galgarem nos números e nas convicções de demasiados, tanto em Portugal como noutras partes do mundo, é importante que se oiçam vozes que sempre combateram a ditadura antes do 25 de Abril e que foram ativas depois e seguramente estariam hoje na linha da frente a apelar à resistência. Já não estão connosco, mas deixaram mensagens transformadas em canções que ainda podem ser um farol. Refiro-me a José Afonso e Adriano Correia de Oliveira.
Com este pensamento e como exemplos farei um comentário a uma canção de Zeca e outra de Adriano, ambas com mensagens fortes para o tempo e que hoje infelizmente se voltam a aplicar. José Afonso e Adriano Correia de Oliveira foram e são duas referências de suma importância no panorama musical português, enquanto homens e cantores que colocaram a sua arte ao serviço da justiça, do inconformismo, da beleza e da qualidade estética, pois sendo interventivos nas canções, nunca foram panfletários. Dois homens das cantigas, cada um deles com uma voz extraordinária, com mensagens fortíssimas que marcaram decisivamente várias gerações. Infelizmente, Adriano está um pouco esquecido pelas novas gerações, ao contrário de José Afonso, que se mantém vivo no coração da “malta nova”, como gosta de dizer Francisco Fanhais, referindo-se à mensagem que um rapaz lhe pediu para transmitir ao Zeca. Na realidade, há muitos jovens e também gente menos jovem a cantar, tocar e reinterpretar José Afonso.
O Zeca foi o homem que contribuiu decisivamente para uma revolução cultural no âmbito da música, naquilo que era a música popular portuguesa. Não haverá nenhum músico, nenhum grande cantor, nenhum grande poeta que, ao despertar para uma nova música, uma nova canção, não tenha partido do Zeca, que foi o grande precursor, o que teve a ousadia, aquele que deu o primeiro passo. Zeca foi o pioneiro dessa grande aventura em que depois outros o seguiram, como Luís Cília, José Mário Branco, Vitorino, Janita, Carlos Alberto Moniz…
O álbum Com as Minhas Tamanquinhas, de 1976, escrito em pleno PREC, foi considerado pela crítica como o pior disco do ano, ao contrário de José Afonso, que o considerou um dos seus melhores discos, achando, creio que com razão, que a avaliação que lhe atribuíram era estritamente política, feita pela imprensa de direita.
Nesse disco, José Afonso utiliza uma linguagem mais direta do que nos anteriores. É um disco de depoimento e de questionamento, feito um pouco à maneira dos cancioneiros tradicionais, com narrativas realistas, onde se anunciavam factos concretos, histórias reais vividas por gente real, em que se fala da qualidade de vida que as pessoas desejavam e mereciam, dos bairros de lata, das ocupações de casas, do processo SAAL, do imperialismo e capitalismo destruidores da condição humana, dos traidores da revolução, das mulheres vítimas de segregação e preconceito social. “É o testemunho mais fiel sobre aquilo que penso. É o depoimento político mais autêntico que fiz até hoje”, afirma numa entrevista a António Macedo.
Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.
A canção “Alípio de Freitas” é por Zeca considerada uma das melhores canções que fez, a par com “Teresa Torga”, do mesmo disco. Sobre uma letra predominantemente narrativa, informativa, de denúncia dos imperialismos, compõe uma melodia sublime com forte carga emotiva e grande sentido poético. Conta a história verdadeira de um homem português, que não conhece, mas que sabe preso político no Brasil, opositor a uma ditadura cruel e sanguinária, preso na Fortaleza de Santa Cruz, na baía de Guanabara, brutalmente torturado, abandonado pelos seus e pelo seu país, que podia ser assassinado a qualquer momento e lançado ao mar, sem testemunhas, como aliás outros o foram. É importante notar o facto de o Zeca ter feito esta canção e a ter cantado em variadíssimos lugares – quase sempre abria os seus concertos com esta música –, também a passando a outros cantores de intervenção da época como Daniel Viglietti e Atahualpa Yupamki, que a levaram por esse mundo fora. Este espalhar da notícia, em especial na América Latina, foi seguramente a forma de Alípio se ter mantido vivo, embora sujeito às maiores sevícias físicas e morais, mas que mesmo assim nunca o vergaram (“em mais de cinco masmorras/não há tortura que o dome!”). Toda esta “via crucis” está dolorosa e corajosamente registada no livro Resistir é preciso, de Alípio de Freitas.
A canção “Trova do vento que passa” surge pela primeira vez num EP de 1963, gravado por Adriano Correia de Oliveira, acompanhado por Rui Pato e António Portugal, que fez a música. O poema é de Manuel Alegre e relata o grande desgosto provocado pelo exílio obrigatório a que este país votava os seus, quer devido à situação política, quer à pobreza que se vivia em Portugal antes do 25 de Abril. Tempos de grande negrume, de péssimas condições de vida, de violência, censura, prisões, tortura, assassinatos, guerra, emigração, exílio. Esta canção, escrita numa poesia perfeita, embora comece com grande tristeza e pessimismo, em que predomina a saudade e a revolta, é seguida por esfusiante energia e vitalidade, em que o sentimento de resistência se impõe, dizendo não à servidão e à ditadura (“há sempre alguém que resiste/há sempre alguém que diz não”), terminando numa apoteose de esperança. A canção tornou-se uma espécie de hino de resistência dos estudantes e de todos os oposicionistas ao regime e foi mais tarde cantada por Amália, Carlos do Carmo e muitos outros, embora Adriano lhe tenha dado um cunho especial, uma toada única que a sua voz também única lhe soube imprimir.
Se José Afonso foi importante na transição e, de algum modo, na transformação do fado de Coimbra para a balada, Adriano foi-o na transição da balada para a canção. A balada surgiu na voz de Zeca, e logo na peugada seguiu Adriano, embora na canção de protesto talvez tivesse surgido nele antes de José Afonso e a este género se tivesse dedicado em pleno. Não teve tempo de optar por outras vias, pois a morte levou-o muito cedo, tal como também levou cedo José Afonso, deixando-nos órfãos de dois representantes únicos do pensamento antifascista no panorama musical português.