A Venezuela e o petróleo
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta. Mas a tragédia da Venezuela e da América Latina é também que a desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente.
Poucas horas passadas do ataque militar dos EUA à Venezuela e da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o presidente Trump proclamou que “as maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos vão lá entrar, investir milhares de milhões de dólares, consertar a infraestrutura muito danificada e começar a pôr o país a ganhar dinheiro”. Trump não escondeu que uma das principais razões para o ataque e rapto de Maduro era conseguir que os Estados Unidos passassem a controlar as vastas reservas petrolíferas da Venezuela, a que Trump se refere como “o nosso petróleo”.
A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo, cerca de 303 mil milhões de barris, ou 17% das reservas globais, segundo o Energy Institute, com sede em Londres — mais do que a Arábia Saudita, a primeira da OPEP+. Apesar destas vastas reservas, a produção de petróleo bruto da Venezuela continua muito abaixo da capacidade. A produção atingiu um pico de 3,5 milhões de barris/dia na década de 1970 (mais de 7% da produção global), mas caiu para menos de 2 milhões de barris/dia durante a década de 2010, caindo o valor médio para apenas 1,1 milhões de barris/dia no ano passado.
Os EUA passaram a ser o maior produtor mundial graças à chamada revolução do xisto, na década de 2000. Consequência disso foi, porém, o mundo ficar encharcado em petróleo, com a oferta a ultrapassar o aumento da procura global. Esta está em travagem, porque a expansão económica na maioria das grandes economias se faz à velocidade de uma lesma e devido à mudança gradual da produção de energia para as renováveis. Aliás, quando a Venezuela foi atacada, o preço do petróleo bruto Brent, referência do mercado, estava perto do mínimo dos últimos cinco anos, cerca de 60 dólares por barril.
Bem pode Trump dizer às grandes companhias petrolíferas do mundo que agora é ele quem manda na Venezuela e que elas se podem candidatar a investir para ganhar “uma data de massa” — as petrolíferas são capazes de não ter assim tanta certeza. Ali Moshiri, um antigo executivo da Chevron, está a tentar angariar 2 mil milhões de dólares para adquirir variados ativos venezuelanos. Porém, a aposta é arriscada. O entusiasmo de empresas como a própria Chevron, que até já detém uma licença dos EUA para perfurar e produzir petróleo venezuelano, é capaz de não ser por aí além.
O preço da restauração da produção de petróleo na Venezuela não vai ser baixo. A infraestrutura de perfuração está degradada, e o petróleo extraído é “pesado”, Extrair petróleo pesadíssimo implica fazer muitos furos e criar poços com vida útil relativamente curta — um processo bastante semelhante ao da produção de petróleo do xisto nos EUA — e, em seguida, misturar as vasas com petróleo mais leve ou nafta, de modo a poder correr por oleodutos antes de ser exportado e refinado. Produzir e comercializar petróleo “pesado” requer técnicas avançadas, como injeção de vapor e mistura com petróleos mais leves. Acresce que as reservas do país se concentram essencialmente na cintura do Orenoco, uma vasta e remota região na parte oriental do país, que se estende por cerca de 55 mil quilómetros quadrados.
O governo de Maduro passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais.
Além disso, a enchente do petróleo já começou a afetar os lucros esperados da nova exploração e extração. As perdas acumuladas da indústria americana do petróleo de xisto na década de 2010 atingiram quase quinhentos mil milhões de dólares. Tudo depende do “limiar de rentabilidade”, que, para o xisto americano, se tem estimado num preço médio de cerca de 60 dólares por barril. Tudo isto, enquanto a oferta global de petróleo cresce mais rapidamente do que a procura, projetando a Agência Internacional de Energia um aumento da oferta global na ordem de 3 milhões de barris/dia em 2025 e mais 2,4 milhões em 2026, contra aumentos da procura de apenas 830 mil barris em 2025 e 860 mil em 2026. Jorge León, da Rystad Energy, estima em 115 mil milhões de dólares o custo da duplicação da produção para 2 milhões de barris no início da década de 2030 — quase o triplo das despesas de capital combinadas da ExxonMobil e da Chevron no ano passado. Conseguirão a Exxon e a Chevron fazê-lo lucrativamente, considerando o atual equilíbrio mundial da oferta e da procura de petróleo e tanto mais que esse petróleo “pesado” teria de ser vendido abaixo do preço de referência?
No entanto, há outros fatores por trás da jogada de Trump contra a Venezuela. A nova Estratégia de Segurança Nacional deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta, e com “doping”. Naquela época, o presidente Monroe declarou que as nações europeias não se podiam ingerir na América Latina nem tentar controlá-la: passava a estar na “esfera de influência” dos Estados Unidos da América. Com Trump, a globalização cedeu o lugar ao‘”Making America Great Again” (“Voltar a Engrandecer a América”), o que situa firmemente a América Latina como quintal do imperialismo norte-americano. A implicação é que nenhum país pode resistir à política e aos interesses dos EUA. É necessário instaurar “regimes amigos” que permitam quer o acesso privilegiado dos norte-americanos aos respetivos recursos, quer capacidade para negá-los aos concorrentes: barrar, por conseguinte, a crescente influência e investimento chinês na região – apesar de o petróleo venezuelano representar meros 300 mil dos 11,3 milhões de barris que a China importou diariamente em 2025, segundo o Instituto de Estudos de Energia de Oxford —, tendo empresas da República Popular da China ganhado posições na indústria de perfuração de petróleo da Venezuela.
Em 2024, quando a contestada reeleição de Maduro ocorreu, salientei que o capitalismo venezuelano estava intimamente preso à rentabilidade do setor energético, que se encontrava numa espiral de morte após o colapso dos preços do petróleo a seguir a 2010 e as sanções americanas.
As conquistas que a classe trabalhadora alcançou no tempo de Chávez, na década de 2000, só foram possíveis porque os preços do petróleo atingiram o auge. A seguir, porém, os preços das matérias-primas, incluindo o petróleo, caíram, mais ou menos coincidindo com a morte de Chávez. O governo de Maduro perdeu o apoio da sua base operária à medida que a hiperinflação destruía o nível de vida. O governo passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais. Os militares podiam comprar em mercados exclusivos (por exemplo, em bases militares), tinham acesso privilegiado a empréstimos e aquisições de carros e apartamentos e recebiam aumentos salariais substanciais. Exploravam, ainda, o controle do câmbio e os subsídios, vendendo, por exemplo, com enorme lucro, gasolina barata comprada em países vizinhos.
A tragédia da Venezuela é que tudo dependia do preço do petróleo; pouco ou nenhum desenvolvimento houve dos sectores não petrolíferos, que, no mais, estavam nas mãos de empresas privadas. Não havia plano nacional de investimentos independente controlado pelo Estado. Com as sanções dos EUA e a contínua subversão contra o governo, os dias da revolução chavista estavam contados.
É uma lição para toda a América Latina. A desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente, dada a fraqueza dos capitalistas nacionais e a longa sombra do imperialismo americano.
Michael Roberts
Economista