Petróleo

É inevitável o aumento dos combustíveis?
categoria-política Combustíveis Petróleo Guerra Governo edicao-2026-10-01 (43)

É inevitável o aumento dos combustíveis?

Um governo preocupado com a rápida redução do nível de vida dos muitos, dos trabalhadores, impediria, no mínimo, que a Galp aumentasse os preços de venda ao público dos produtos derivados.

Adriano Zilhão
A saúde de metalúrgicos e petroleiros no estado de São Paulo
Metalúrgicos Petróleo Saúde categoria-trabalho edicao-2026-07-16 (36)

A saúde de metalúrgicos e petroleiros no estado de São Paulo

Na empresa capitalista, na relação entre trabalho e saúde, o desgaste dos trabalhadores não constitui um efeito fortuito, mas um elemento inerente à valorização do capital. A redução de efetivos, a intensificação do trabalho e o prolongamento das jornadas ampliam a sobrecarga dos trabalhadores

Leonardo Dresch Eberhardt, Hugo Pinto de Almeida
O grande negócio do petróleo e da guerra
categoria-política Guerra Irão Petróleo Trump Economia edicao-2026-05-28 (29)

O grande negócio do petróleo e da guerra

No dia 23 de Março, 15 minutos antes de Trump anunciar que adiava os ataques à rede eléctrica iraniana, houve apostas de quase 600 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo. No dia 17 de Abril, 20 minutos antes de o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, anunciar nas re

Adriano Zilhão
Para onde vai a Venezuela?
categoria-internacional Petróleo Trump Venezuela edicao-2026-02-12 (15)

Para onde vai a Venezuela?

O que esclarece o momento e a forma do ataque norte-americano à Venezuela é que funciona como um meio de pôr fim ao regime de sanções, em vez de o perpetuar. As sanções tinham atingido o limite da sua utilidade

Sirantos Fotopoulos
A Venezuela e o petróleo
categoria-internacional EUA Golpe Petróleo Venezuela

A Venezuela e o petróleo

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta. Mas a tragédia da Venezuela e da América Latina é também que a desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas

Michael Roberts
categoria-política Combustíveis Petróleo Guerra Governo edicao-2026-10-01 (43)

É inevitável o aumento dos combustíveis?

Um governo preocupado com a rápida redução do nível de vida dos muitos, dos trabalhadores, impediria, no mínimo, que a Galp aumentasse os preços de venda ao público dos produtos derivados. Na verdade, os custos de produção da Galp pouco ou nada mudaram desde que Trump lançou a sua guerra contra o Irão.

O aumento incessante dos preços dos combustíveis é, segundo a narrativa repetida até à náusea nos meios de comunicação “de referência”, causado pela “guerra no Golfo”. 

A narrativa padece de um problema: qualquer preço de venda não é fixado por “guerras”; é fixado pelo vendedor do produto. 

Há, em Portugal, um extractor (no Brasil), refinador e vendedor de petróleo e derivados, cuja produção cobre 90% do mercado nacional: a Galp. 

Não consta a Galp ter sido alvo recente de bombas americanas ou iranianas: nem no Brasil nem em Sines.

Entretanto, começam a levantar-se protestos. No dia 25 de Setembro, houve um buzinão na Ponte 25 de Abril. No mesmo dia, empresários do sector das terraplanagens organizaram uma “marcha lenta” de camiões que percorreu a A1. Segundo os organizadores, terão desfilado 450 camiões e 117 empresas. 

A razão do protesto é a exclusão destas empresas do regime subsidiado do gasóleo profissional, concedido a outros sectores dos transportes. Um manifestante declarou ao Público que era “muito triste quando vemos uma parte global dizer que as petrolíferas têm lucros abismais. Como é possível estarmos a pagar isto e as petrolíferas com o dobro [do lucro]? Não é possível”. 

É, de facto, incontestável o impacto dos aumentos de preços em empresas como estas, muitas, pequenas ou muito pequenas, que têm no combustível um custo essencial. O gasóleo já aumentou 40% desde Fevereiro deste ano. 

O ministro Pinto Luz alega que o Governo se esqueceu deste sector. Em admirável golpe de rins, prometeu uma reunião logo na segunda-feira seguinte. Talvez o esquecimento se repare. 

Igualmente incontestável é as petrolíferas terem dobrado os lucros. Como referimos no editorial da semana passada, “os lucros combinados das sete maiores companhias petrolíferas integradas do Ocidente, mais a Aramco, o colosso estatal da Arábia Saudita, passaram os $91 mil milhões no segundo trimestre de 2026, o dobro do ano transacto.”

A Galp não será uma das sete maiores do Ocidente, mas, no primeiro semestre de 2026, encaixou lucros líquidos de 812 milhões de euros. Em valor anualizado, são pelo menos mais 50% do que em 2025 (dados de estudo de Eugénio Rosa do mês de Julho).

Entretanto, outro sector não abrangido pelo regime subsidiado é o dos trabalhadores deste país. Não consta, porém, ter-lhes sido agendada nenhuma reunião com um senhor ministro para reparar algum esquecimento. 

A Galp, no primeiro semestre de 2026, encaixou lucros líquidos de 812 milhões de euros.

Em vez disso, pela voz da senhora ministra do Ambiente, o Governo sugeriu-lhes que “poupassem combustível.”

A sugestão merece consideração.

E não é preciso muita imaginação para conceber algumas maneiras de os trabalhadores portugueses pouparem combustível.

Podia-se, por exemplo, tomar medidas imediatas de criação de transportes públicos em quantidade, qualidade e conforto suficientes, gratuitamente ou a preço muito baixo, para fazer chegar todos os trabalhadores, em tempo útil, diariamente, dos seus locais de habitação aos seus locais de trabalho e vice-versa. É frequente locais de habitação e trabalho serem muito afastados, em grande parte por via da especulação imobiliária que grassa pelo país e que expulsou quem trabalha de onde vivia ou impede quem trabalha de se mudar para perto do local de trabalho.

Estas medidas permitiriam aos trabalhadores poupar, de facto, e muito, nos combustíveis, como quer a ministra. Mas o Governo não anunciou medidas imediatas dessa natureza na esfera dos transportes públicos.

Em alternativa, o Governo podia, porventura, tomar medidas imediatas para pôr à disposição de todos os trabalhadores habitações dignas e de qualidade perto dos respectivos locais de trabalho, a rendas e preços acessíveis, nunca superiores à sua despesa actual com habitação.

São medidas que permitiriam aos trabalhadores poupar, de facto, e muito, nos combustíveis, como quer a ministra. Mas o Governo não anunciou estas medidas imediatas na esfera da habitação.

Pensando bem, até podia o Governo tomar ambos os tipos de medidas em paralelo, criando cidades com muito menos circulação de veículos movidos a combustível. Não só poupava combustíveis: poupava tempo aos trabalhadores, que eles poderiam dedicar à cultura, ao lazer, aos filhos, ao sono…

Mas não, a senhora ministra tão-pouco anunciou tais medidas de poupança de combustível.

Em vez disso, a senhora ministra sugeriu que os trabalhadores reduzissem a velocidade e optassem por boleias.

Suponhamos: convide-se um trabalhador que, hoje, para se dirigir, da sua habitação, nas periferias de Lisboa ou do Porto, para o seu local de trabalho, situado na cidade ou noutra periferia na outra ponta das ditas cidades, a baixar a sua velocidade média, digamos, dos 10 ou 15km/hora possíveis nas actuais vias engarrafadas das cinturas urbanas e do centro das cidades, para, talvez, menos 5 ou 10 km/hora do que isso. 

Aproximar-se-ia, assim, da velocidade da marcha a pé, possivelmente permitindo à ministra, em ocasião azada, sugerir isso mesmo: vão antes a pé, que o tempo é o mesmo, e o combustível que se poupa dá para ir à Lua e voltar!

À outra sugestão, a da boleia, pode surgir outro escolho. O local de habitação da população trabalhadora, sobretudo nas grandes aglomerações, não é grandemente determinado pela proximidade do local de trabalho — pelas mencionadas e basto conhecidas razões da especulação imobiliária. É antes mais determinado pelo local que o trabalhador pode pagar. Assim, os casos de colegas de trabalho com o mesmo exacto horário e local de trabalho que coincida serem vizinhos e, no mais, coincida levarem os filhos exactamente às mesmas escolas às mesmas horas, talvez não sejam assim tantos.

Outra variante é que o apelo da ministra se dirija, antes, digamos, a empresários, traficantes, proxenetas, para que, por uns tempos, deixem os Porsches, Bentleys e Maseratis nas garagens e tirem delas, para usar mais modestamente, os BMW e os Mercedes? 

O escolho, aqui, é o efeito cumulativo de poupança ser pequeno, não por tais máquinas consumirem pouco, evidentemente, mas por serem muito poucos a consumir esse muito que elas consomem.

Também podíamos ser caridosos para com o Governo e aceitar que se tratou de mero deslize, do tipo “se não têm gasolina, comam brioches!”, parafraseando a saudosa Maria Antonieta. 

Resta, porém, o problema fundamental.

Um governo preocupado com a rápida redução do nível de vida dos muitos, dos trabalhadores, impediria, no mínimo, que a Galp aumentasse os preços de venda ao público dos produtos derivados. Na verdade, os custos de produção da Galp pouco ou nada mudaram desde que Trump lançou a sua guerra contra o Irão. A Galp detém direitos não transaccionáveis a carregar a sua fatia de petróleo brasileiro directamente dos poços para os barcos. 

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Ora, mantendo-se globalmente inalterados os custos de produção, o aumento dos preços de venda surte um e um só efeito: o ruído de aspirador de milhões de euros a serem sugados do bolso dos trabalhadores para os lucros da Galp. E daí, via dividendos, para os bolsos dos respectivos accionistas. Por exemplo, da Amorim Energia (36,69%), que, ainda segundo o mencionado estudo de Eugénio Rosa, entre 2022 e Maio de 2026, “ter-se-á apropriado de cerca de 1268 milhões € em dividendos e por efeito da compra das próprias ações pela GALP”. Não se cale o decente e discreto arrebique de a dita Amorim ser uma holding registada na Holanda: não paga, portanto, um euro de imposto sobre os dividendos.

No entanto, em Portugal, os vendedores fixam os preços que entenderem, porque tais são as leis da concorrência “livre e não falseada” (tratados da UE). 

A Galp dirá: se as nossas concorrentes, ainda por cima muito maiores do que nós, averbam todo o “dividendo” da guerra de Trump a lucros, e a gente não faz o mesmo, depressa sucumbimos, e depois ainda é pior! 

As entidades reguladoras, que as há, nada regulam ou mandam estudar o assunto. 

A ministra remete para as entidades reguladoras. 

O Governo remete para os tratados da União Europeia e para a sua polícia, a Comissão Europeia. 

Em suma, nada a fazer, porque ninguém pode fazer nada: ele é boleias e andar com mais vagar (não, não foi deslize).

A Galp não pode servir a maioria do país, porque se servir, vai-se. O Governo não pode obrigar a Galp, porque Bruxelas não deixa. É uma longa cadeia de lamentáveis impotências.

Reconheçamos, porém, que isto não é inteiramente mentira.

(Mas atenção: é um bocado mentira. Basta olhar para o país vizinho, em que os combustíveis custam muito menos e não subiram tanto.)

Porém, se não é inteiramente mentira, o que lá de cima nos estão a dizer acaba por ser uma coisa muito simples: o sistema, cuja pedra de fecho está, então, em Bruxelas, está feito para servir os interesses da Galp, dos Amorins e dos seus colegas do 0,1%, não o dos trabalhadores. 

Mais: o que nos estão a mandar dizer, da Galp, das entidades reguladoras, da ministra das boleias, do Governo do advogado da Solverde e da própria Bruxelas, é que a única maneira de defender as condições de vida de quem trabalha em Portugal — e nos outros países é o mesmo — é romper com todo esse sistema, de cima abaixo, da Galp a Bruxelas, e os trabalhadores tomarem eles próprios conta da ocorrência. Como começaram a fazer na revolução portuguesa nos anos setenta.

São eles que o dizem, nós só ligamos os pontinhos.

Metalúrgicos Petróleo Saúde categoria-trabalho edicao-2026-07-16 (36)

A saúde de metalúrgicos e petroleiros no estado de São Paulo

Na empresa capitalista, na relação entre trabalho e saúde, o desgaste dos trabalhadores não constitui um efeito fortuito, mas um elemento inerente à valorização do capital. A redução de efetivos, a intensificação do trabalho e o prolongamento das jornadas ampliam a sobrecarga dos trabalhadores, gerando manifestações de desgaste como acidentes, doenças e sofrimento.

ilustração: Mantraste

A participação dos trabalhadores como protagonistas em pesquisas é fundamental para a transformação das condições de vida, trabalho e saúde.

Durante uma investigação recente sobre as condições de saúde dos trabalhadores, nos deparamos com a seguinte expressão em um caderno de debate sindical: “A força de trabalho é a mercadoria que quanto mais se desgasta, mais gera valor.” Encontramos nessa expressão uma tradução do que vínhamos pensando sobre a relação entre trabalho e saúde no capitalismo, em que o desgaste dos trabalhadores não constitui um efeito fortuito, mas um elemento inerente à valorização do capital.

Na nossa percepção, o campo de pesquisas sobre a saúde do trabalhador, acompanhando uma tendência das ciências sociais, cada vez mais deixou de lado a preocupação com a exploração do trabalho e as resistências operárias nos setores produtivos, além das perspectivas teórico-metodológicas que incluem os trabalhadores como protagonistas na construção de conhecimentos sobre suas próprias condições de vida, trabalho e saúde. Esse deslocamento foi seguido por uma crescente concentração de pesquisas nas relações jurídicas em torno do contrato de trabalho, com destaque para os trabalhadores ditos “informais” e “precários”, frequentemente compreendidos de forma dicotómica em relação aos trabalhadores fabris “formais”, estes considerados sujeitos de um passado remoto.

Tentamos ir na contramão desse movimento. Nesse processo, três referências foram importantes influências. A primeira foi o Inquérito Operário de 1880, elaborado por Marx no contexto das lutas operárias na segunda metade do século XIX, valorizando o saber operário na investigação das condições de trabalho e saúde e no enfrentamento da exploração. A segunda foi a experiência do Modelo Operário Italiano (MOI) entre finais da década de 1960 e 1970, com a construção de uma comunidade de pesquisa ampliada envolvendo trabalhadores, pesquisadores e profissionais de saúde. A consigna do MOI, “A saúde não se vende, nem se delega, se defende” permite pensar a saúde como luta dos próprios trabalhadores, não delegável no Estado ou noutros agentes sociais. Essas referências conduziram ao reconhecimento do protagonismo dos trabalhadores tanto na construção de conhecimentos quanto nas lutas pela saúde.

 A força de trabalho é a mercadoria que quanto mais se desgasta, mais gera valor.

Por fim, a terceira referência foi a Medicina Social Latino-Americana, corrente teórica contra-hegemónica desenvolvida a partir da década de 1970 em meio às lutas sociais em diferentes países da América Latina. Essa tradição compreende os processos saúde-doença como determinados social e historicamente, inseparáveis das formas históricas de organização da produção e da vida social. Tal perspectiva permitiu situar a saúde dos trabalhadores para além dos riscos ocupacionais imediatos, relacionando-a com as dinâmicas de exploração e reprodução social próprias do capitalismo.

Foi a partir dessas referências que desenvolvemos investigações de caráter participativo com grupos de trabalhadores dos setores metalúrgico e petroleiro no estado de São Paulo (SP), Brasil. Os trabalhadores, sindicalistas e profissionais dos sindicatos tiveram participação ativa nas diferentes etapas das pesquisas, desde a concepção até a divulgação dos resultados. Neste artigo, apresentamos algumas das reflexões produzidas nesse percurso.

 

Processo de produção e saúde: experiências dos setores metalúrgico e petroleiro na última década

Entre os marcos históricos do período de investigação destacam-se a Reforma Trabalhista implantada no Brasil em 2017 e a pandemia de Covid-19. Embora seus efeitos tenham particularidades nos setores estudados, ambas foram profundamente impactadas por processos de flexibilização das relações de trabalho, enfraquecimento da negociação coletiva, ampliação das terceirizações e intensificação do trabalho. 

No setor metalúrgico da região de Campinas (SP), os impactos da Reforma Trabalhista nas negociações coletivas entre sindicato e empresas foram imediatos, apesar da mobilização dos trabalhadores por meio de greves e paralisações. O poder dos trabalhadores nas negociações foi enfraquecido, com a tendência de deslocamento dos acordos coletivos da categoria para o âmbito da empresa. Esse movimento significou a ameaça aos direitos dos trabalhadores, como a estabilidade no emprego para os adoecidos pelo trabalho. A reforma também ampliou a terceirização, contribuindo para descaracterizar a relação de emprego, segmentar os trabalhadores e impedir o acesso a direitos incluídos nos acordos coletivos da categoria metalúrgica.

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A pandemia de Covid-19 aprofundou transformações em curso nas cadeias produtivas do setor metalúrgico. Foram implementadas medidas de redução da jornada de trabalho e do salário, além de suspensões de contratos de trabalho, em troca de uma estabilidade provisória que não foi respeitada, culminando na demissão de milhares de trabalhadores. As fábricas metalúrgicas da região de Campinas (SP) utilizaram a pandemia como “laboratório” (expressão utilizada por operário terceirizado) para efetuar mudanças na produção, incorporando tecnologias da chamada “Indústria 4.0”. Essas transformações não tiveram o sentido de melhorar as condições de trabalho e saúde. Pelo contrário: ao mesmo tempo que aumentam a produtividade, intensificam o trabalho, prolongam a jornada e expulsam operários do emprego.

Nesse contexto, os problemas de saúde dos trabalhadores incluem um amplo espectro de manifestações de desgaste, como acidentes, doenças e sofrimento. Conforme nos revelou um sindicalista, dado o rápido consumo da força de trabalho pelo processo produtivo, o período de “vida útil” dos operários em uma grande montadora automotiva da região é de apenas cinco anos.

Processos semelhantes foram observados no setor petroleiro, embora assumam características próprias em função da organização do trabalho e da estrutura produtiva desta indústria. Ao longo da última década, a ampliação da terceirização, a redução dos efetivos e as mudanças nas relações de trabalho contribuíram para a deterioração das condições de trabalho e saúde dos petroleiros.

Na Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão (SP), trabalhadores relataram aumento das demissões, rebaixamento salarial e perda de direitos, especialmente entre os terceirizados. As mudanças nas formas de contratação e a ampliação da terceirização favoreceram sucessivas trocas de empresas contratadas, aumento da rotatividade e perda de trabalhadores experientes, aprofundando a fragmentação da força de trabalho. Frente a esse processo, trabalhadores e sindicatos (próprios e terceirizados) construíram ações coletivas de resistência, destacando-se a luta pela implementação de uma tabela salarial unificada, destinada a estabelecer salários e benefícios equivalentes para trabalhadores terceirizados que exerciam as mesmas funções, independentemente da empresa contratante.

No setor petroleiro, a pandemia de Covid-19 acelerou transformações que já vinham ocorrendo. Diferentemente de outros setores, a produção não foi interrompida e, em alguns segmentos, manteve-se elevada ou mesmo ampliou-se durante o período. Nesse contexto, a redução de efetivos, a intensificação do trabalho e o prolongamento das jornadas ampliaram a sobrecarga dos trabalhadores. Em seus relatos, os petroleiros associaram essas mudanças ao aumento do desgaste físico e mental, à perda de espaços de troca de experiências entre as equipes e ao agravamento dos problemas de saúde relacionados com o trabalho. Ao mesmo tempo, a manutenção da atividade produtiva durante a emergência sanitária contribuiu para a disseminação da Covid-19 entre os trabalhadores do setor. 

 

Considerações finais

As experiências dos trabalhadores metalúrgicos e petroleiros analisadas neste texto evidenciam que as recentes transformações observadas em ambos os setores – caracterizadas pela intensificação do trabalho, ampliação da terceirização, redução de direitos e busca permanente por ganhos de produtividade – têm produzido um crescente desgaste da força de trabalho, expresso no agravamento das condições de trabalho e saúde. 

Ao mesmo tempo, essas experiências demonstram que a saúde dos trabalhadores não pode ser compreendida apenas como um problema técnico, médico ou jurídico. A expressão sindical “A força de trabalho é a mercadoria que quanto mais se desgasta, mais gera valor” implica compreender o desgaste dos trabalhadores, manifesto em problemas de saúde como doenças, acidentes e sofrimento, como determinado pelo processo de produção capitalista, fundamentado na extração de mais-valia.

A defesa da saúde dos trabalhadores emerge das próprias lutas travadas nos locais de trabalho contra a exploração, seja por meio da resistência às demissões, da defesa de direitos, da organização sindical ou da construção de outras formas coletivas de enfrentamento. A resistência à exploração do trabalho também implica transformar a atuação dos instrumentos de organização como o sindicato, cujas limitações incluem, no Brasil, o atrelamento ao Estado. Mais do que reivindicar reparação diante dos danos já produzidos, a luta pela saúde exige intervir sobre as condições e os processos de trabalho que estão na origem do desgaste e do adoecimento dos trabalhadores.

Nessa perspectiva, a questão da saúde ocupa lugar central nas lutas em torno das condições de vida e trabalho. Essa reflexão pode ser sintetizada na expressão “saúde é luta”. Dizer que a “saúde é luta”, além de envolver o reconhecimento do protagonismo dos trabalhadores na construção de conhecimentos e na defesa da saúde, também supõe uma crítica à mera defesa do direito constitucional à saúde, com a participação social limitada às esferas de representação do Estado, perspectiva contida na expressão “saúde é democracia” propagada pelo movimento da Reforma Sanitária no Brasil.

categoria-política Guerra Irão Petróleo Trump Economia edicao-2026-05-28 (29)

O grande negócio do petróleo e da guerra

No dia 23 de Março, 15 minutos antes de Trump anunciar que adiava os ataques à rede eléctrica iraniana, houve apostas de quase 600 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo. No dia 17 de Abril, 20 minutos antes de o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, anunciar nas redes sociais que o estreito de Ormuz estava aberto, os corretores apostaram 760 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo.

Os governos de países da União Europeia têm falado da eventual necessidade da possível criação de um hipotético imposto sobre os super-lucros obtidos pelas petrolíferas e afins em consequência dos aumentos de preços dos combustíveis directamente resultantes da guerra que Trump lançou contra o Irão (sem nunca a declarar). A teoria é que, arrecadando pela via fiscal um bocadinho dos super-lucros que as petrolíferas sacaram pela guerra e pela crise, se tem mão na especulação com os combustíveis fósseis e nos mercadores da guerra.

Muito bem.

Acontece que a verdade é ligeiramente mais maçadora. Primeiro, as medidas fiscais de (ligeiro) desagravamento dos impostos sobre os combustíveis não influenciam directamente o que as petrolíferas e as gasolineiras cobram ao consumidor; em princípio, reduzem apenas o que as petrolíferas pagam ao Estado. Portanto, o dinheiro, para começar, vai direitinho parar aos cofres da indústria, pelo menos em parte.

Contudo, quem, na realidade, lucra à grande com a escalada geopolítica não são forçosamente as empresas enquanto tais. Onde, hoje em dia, se cola às mercadorias comerciadas um preço pelo “risco geopolítico” é nas bolsas de Nova Iorque, Chicago e Londres. Lá se situam os geiseres dos lucros astronómicos.

O fisco português, e os outros, mal vê um chavo.

A trincheira do carcanhol

Ainda a esquadra americana não tinha disparado um Tomahawk contra o Irão, já os artilheiros do carcanhol estavam aos seus postos nas bolsas.

No dia 13 de Fevereiro de 2026, soube-se que o porta-aviões mais poderoso do mundo, o USS Gerald R. Ford, rumava ao mar da Arábia. Duas semanas mais tarde, caía assassinado o aiatola Ali Khamenei.

Já nessa altura, para quem soubesse (de “saber”, verbo: neste caso, “ter boas fontes de informação”), valeria a pena apostar, na bolsa, no aumento, ou na baixa, do preço do petróleo.

Atenção: o preço do petróleo é determinado com grande antecedência, não tanto pela oferta de petróleo que há e pela procura do petróleo que há, mas muito mais pelas apostas feitas em bolsa por gente com muito, muito dinheiro — que não se contenta com depósitos a prazo e obrigações de 1,2% ao ano.

As apostas desse pessoal chamam-se futures; é mais bonito.

Incidem em como o preço do petróleo (e não só) vá evoluir no futuro. A evolução dos preços futuros não depende tanto da oferta previsível, ou seja, das condições técnicas de quem produz e produzirá, mas mais, por exemplo, de quem permitirá que se produza ou não. Sobretudo porque, como diria o economista, a procura é muito pouco “elástica”. Em português corrente: o trabalhador, para ir trabalhar, tem de meter gasolina, seja qual for o preço, sobretudo se não houver transportes públicos decentes. E a indústria? Acham que pode funcionar ao pedal?

Uma semana mais tarde, 20 de Fevereiro, Donald Trump intensificou a escalada. E baixou, assim, o risco de a aposta na guerra dar para o torto. No avião presidencial, Air Force One, perguntaram a Trump qual o teor do ultimato que dera ao Irão. Trump largou a senha: “Dez a 15 dias, no máximo. Ou há acordo, ou eles estão feitos.”

Ora, as transacções que mais deram nas vistas, as mais lucrativas, só ocorreram alguns dias mais tarde.

Contemple-se o processo da erupção do super-lucro, esse perfeito encaixe entre política, guerra e mercado de capitais.

No dia 23 de Março, 15 minutos antes de Trump anunciar que adiava os ataques à rede eléctrica iraniana, houve apostas de quase 600 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo.

No dia 7 de Abril, poucas horas antes do cessar-fogo temporário anunciado por Trump, fecharam-se apostas no valor de cerca de 960 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo.

No dia 17 de Abril, 20 minutos antes de o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão anunciar nas redes sociais que o estreito de Ormuz estava aberto, os corretores apostaram 760 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo.

No dia 21 de Abril, 15 minutos antes de Trump anunciar a prorrogação da trégua, seguiu-se outra série de apostas na queda dos preços do petróleo, no valor de 430 milhões de dólares.

Entre 28 de Fevereiro e 7 de Abril, as acções dos fabricantes de semicondutores, para quem o bloqueio do estreito de Ormuz era potencialmente catastrófico, caíram de 6 a 12%. Segundo os peritos, durante essa semana, a variação de preços incorporou antecipadamente 70% dos efeitos da guerra: a “volatilidade” dos preços atingiu níveis que não se viam desde a crise financeira de 2008.

No dia 28 de Fevereiro de 2026, tivera início a Operação Epic Fury.

Morto o aiatola e fustigados os centros de comando em Teerão por uma chuva de bombas, a alcavala bolsista da guerra disparou de imediato. Desde que o ano começou, o petróleo Brent já subiu quase 70%; situa-se agora acima de 100 dólares por barril. Quem, chegado o início de Maio, tivesse tido a “coragem” (leia-se: a “informação”) para “investir” na ruinosa devastação do Irão, desprezando, portanto, a bela diplomacia, podia tirar um famoso balanço do rendimento do investimento feito em poucos dias.

As acções da neerlando-britânica Shell aumentaram 13,5%.

As da britânica BP aumentaram mais de 23%, apesar de ter activos muito próximos da zona de conflito.

As da francesa TotalEnergies subiram 34%, sem dúvida à luz das suas capacidades alternativas em África.

As da norueguesa Equinor subiram 56%. A empresa estatal norueguesa beneficiou dos novos preços, apesar de estar muito fora do alcance dos mísseis.

Quem comprou cedo conseguiu rendimentos muito superiores aos dos “mercados” genéricos. Os “super-lucros” foram apostas na escalada geopolítica. Note-se que os lucros extraordinários não começaram por cair no colo das empresas propriamente ditas, mas no dos fundos e especuladores profissionais que apostaram nessas empresas e matérias-primas.

Lucro da Shell aumentou 13,5%, da BP aumentou mais de 23%, da norueguesa Equinor subiu 56%. Quem comprou cedo, conseguiu rendimentos muito superiores aos dos “mercados” genéricos.

Ninguém devia, porém, ignorar que os grandes accionistas dos fundos que detêm os fundos que detêm os fundos que detêm as acções de todas as grandes empresas do mundo são as mesmas que detêm os fundos que detêm os fundos que detêm os fundos que especulam com as acções de todas as grandes empresas do mundo. Portanto, terem lucrado as “petrolíferas” ou os “especuladores” vai dar ao mesmo — lucrou o 0,1% que detém quase tudo.

Os “mercados” apostaram em que Trump não se ficaria por ameaças, instigaria uma guerra a sério. O que Trump fez a seguir enriqueceu abruptamente quem (está bem, já todos eram super-ricos) detinha informações sobre o que Trump ia fazer (será possível excluir que Trump fosse um dos que sabiam o que Trump ia fazer?).

Nesta sociedade de imperialismo em decomposição acelerada, a aposta na guerra, no armamento, nos bombardeamentos e na destruição é o passaporte dourado: o verdadeiro “visto gold”.

A campanha de Trump contra o Irão, tenha ela caído ou não num beco sem saída político-militar, longe de ser uma desgraça, foi, para o capital, um feliz evento. “Ganhador da guerra” foi quem “percebeu” (desculpai o eufemismo) que a era da diplomacia terminou no dia 13 de Fevereiro e que Trump, há pouco candidato ao Prémio Nobel da Paz, estava determinado a entrar para a história como presidente da guerra.

O “fire and fury” da Casa Branca é o “lucro do camandro” de Wall Street. É lá que os capitalistas do mundo, incluindo os europeus, escondem os super-lucros da guerra — de que os políticos “europeus”, suando as estopinhas, falam como amoladores de unhas dos pés.

Conceda-se: o imposto sobre os lucros é para um político da vasta espécie rangel-montenegrina uma oportunidade fantástica, e rara, de parecer preocupado com as dificuldades da gente simples e se indignar com lucros “excessivos” — além de poder dar momentâneo alto à “narrativa” do Chega (ai, a lamentável falta de sentido de Estado!).

A ginjinha: boa parte das informações para este artigo foi respigada de meios de informação financeiros. Num deles, The Pioneer, elas são apresentadas… para demonstrar que não tem sentido os governos europeus adoptarem os tais impostos sobre os super-lucros, pois quem os embolsou não está ao alcance dos respectivos fiscos!

categoria-internacional Petróleo Trump Venezuela edicao-2026-02-12 (15)

Para onde vai a Venezuela?

O que esclarece o momento e a forma do ataque norte-americano à Venezuela é que funciona como um meio de pôr fim ao regime de sanções, em vez de o perpetuar. As sanções tinham atingido o limite da sua utilidade: restringiam a produção venezuelana, distorciam os mercados e obrigavam as refinarias norte-americanas a depender de alternativas mais caras ou menos compatíveis.

ilustração: Ricardo Ferreira

A alegação de que o ataque dos EUA à Venezuela tem a ver com petróleo não é falsa, mas é oca do ponto de vista da análise. O petróleo é o mecanismo através do qual se exerce o controlo político, a legitimidade e a coerção. Tratá-lo como uma simples apropriação de recursos reduz uma complexa reestruturação do poder a uma caricatura do imperialismo do século XX.

A indústria petrolífera venezuelana foi nacionalizada na década de 1970, sob governos pró-americanos e anticomunistas. Este ato não rompeu os laços com o capital global, antes reorganizou a extração através do Estado. Quando Chávez chegou ao poder, não aboliu esta estrutura. Renegociou-a. Os royalties (direitos) foram aumentados, a PDVSA consolidou o controlo maioritário e o Estado reivindicou uma maior fatia das rendas. Mas o modelo subjacente — extração destinada aos mercados globais, mediada pelo capital e dependente da participação estrangeira — manteve-se intacto.

Esta continuidade é importante porque a Venezuela de Chávez e, mais tarde, de Maduro, nunca abandonou o capitalismo, nem tentou fazê-lo. Os mercados foram preservados, a propriedade privada manteve-se dominante fora do sector petrolífero, o capital estrangeiro continuou a operar e a economia manteve-se extremamente dependente das exportações de mercadorias. O Estado alargou o seu papel de gestor e distribuidor, mas não desmantelou o sistema que administrava. O que mudou não foi o modo de produção, mas a alocação política do excedente.

Por isso, a ideia de que o chavismo foi um projeto que expulsou o capital norte-americano é um mito. Algumas empresas saíram após renegociações contratuais, mas outras mantiveram-se. A presença ininterrupta da Chevron é disso uma prova decisiva. O petróleo continuou a fluir porque a rentabilidade continuava a ser possível e porque o próprio Estado necessitava desse fluxo para sustentar as receitas, a legitimidade e as despesas sociais.

Os Estados Unidos permaneceram o principal parceiro comercial da Venezuela no setor petrolífero durante uma boa parte deste período. A rutura decisiva não ocorreu com Chávez, mas sim com a escalada das sanções em 2019. Estas sanções não provocaram o colapso; instrumentalizaram-no. Ao congelar ativos e bloquear transações, a escassez foi transformada em arma negocial.

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A operação da Chevron ao abrigo de licenças especiais destrói o mito de que a Venezuela era uma utopia socialista. As sanções são apresentadas como instrumentos morais, mas criam-se exceções sempre que interesses estratégicos o exijam. Os apelos à soberania soam igualmente vazios. A Venezuela continua a convidar empresas norte-americanas, chinesas e russas para extrair recursos. A disputa nunca foi sobre o fim da exploração, mas sim sobre quem a administra.

O que esclarece o momento e a forma do ataque é que funciona como um meio de pôr fim ao regime de sanções, em vez de o perpetuar. As sanções tinham atingido o limite da sua utilidade: restringiam a produção venezuelana, distorciam os mercados e obrigavam as refinarias norte-americanas a depender de alternativas mais caras ou menos compatíveis. As refinarias da costa do Golfo foram construídas e calibradas ao longo de décadas para processar o crude pesado da Venezuela, e a contínua restrição deste fornecimento criou ineficiências que nem a retórica nem as licenças temporárias conseguiram resolver completamente.

O contexto do ataque também não se resume apenas a manobras geopolíticas e ao domínio do hemisfério, mas ao facto de a Venezuela ainda dever às petrolíferas norte-americanas ConocoPhillips e ExxonMobil mais de dez mil milhões de dólares referentes a expropriações e indemnizações arbitrais passadas, o que abre uma nova oportunidade para o capital norte-americano recuperar ativos e exigir o pagamento.

Ao orquestrar uma rutura política decisiva na Venezuela e apresentá-la como um ponto final em vez de uma escalada, a administração Trump cria as condições para suspender as sanções por completo, reivindicando simultaneamente uma vitória.

Ao orquestrar uma rutura política decisiva na Venezuela e apresentá-la como um ponto final em vez de uma escalada, a administração Trump cria as condições para suspender as sanções por completo, reivindicando simultaneamente uma vitória. Desta forma, evita uma humilhação norte-americana e, ao mesmo tempo, garante uma humilhação da Venezuela. O petróleo pode voltar a fluir em larga escala para as refinarias americanas sem a contradição de inverter abertamente o rumo ou admitir que as próprias sanções se tornaram um obstáculo para os interesses energéticos dos EUA. O espetáculo da força serve, portanto, um fim prático: restaurar um fluxo estável de crude pesado ao abrigo de um novo arranjo político que permite que os negócios prossigam normalmente.

O ataque está em consonância com uma estratégia norte-americana bem conhecida — a aquisição hostil de empresas —, em que a disrupção é utilizada não para desmantelar uma empresa, mas para a trazer de volta para uma gestão fiável e em conformidade com as normas.

O afastamento de Maduro enquadra-se perfeitamente nesta continuidade. Representa uma reconfiguração da autoridade, não uma rutura com o modelo económico vigente. A economia assente no petróleo mantém-se; apenas a sua imagem política se altera. A constante é um sistema em que as elites negoceiam o controlo, enquanto a população suporta os custos. O petróleo não é a única razão. O petróleo é o canal através do qual o poder do capital norte-americano é imposto, reordenado e legitimado.


Tradução de António Simões do Paço

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A Venezuela e o petróleo

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta. Mas a tragédia da Venezuela e da América Latina é também que a desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente.

Poucas horas passadas do ataque militar dos EUA à Venezuela e da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o presidente Trump proclamou que “as maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos vão lá entrar, investir milhares de milhões de dólares, consertar a infraestrutura muito danificada e começar a pôr o país a ganhar dinheiro”. Trump não escondeu que uma das principais razões para o ataque e rapto de Maduro era conseguir que os Estados Unidos passassem a controlar as vastas reservas petrolíferas da Venezuela, a que Trump se refere como “o nosso petróleo”.

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A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo, cerca de 303 mil milhões de barris, ou 17% das reservas globais, segundo o Energy Institute, com sede em Londres — mais do que a Arábia Saudita, a primeira da OPEP+. Apesar destas vastas reservas, a produção de petróleo bruto da Venezuela continua muito abaixo da capacidade. A produção atingiu um pico de 3,5 milhões de barris/dia na década de 1970 (mais de 7% da produção global), mas caiu para menos de 2 milhões de barris/dia durante a década de 2010, caindo o valor médio para apenas 1,1 milhões de barris/dia no ano passado.

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Os EUA passaram a ser o maior produtor mundial graças à chamada revolução do xisto, na década de 2000. Consequência disso foi, porém, o mundo ficar encharcado em petróleo, com a oferta a ultrapassar o aumento da procura global. Esta está em travagem, porque a expansão económica na maioria das grandes economias se faz à velocidade de uma lesma e devido à mudança gradual da produção de energia para as renováveis. Aliás, quando a Venezuela foi atacada, o preço do petróleo bruto Brent, referência do mercado, estava perto do mínimo dos últimos cinco anos, cerca de 60 dólares por barril.

Bem pode Trump dizer às grandes companhias petrolíferas do mundo que agora é ele quem manda na Venezuela e que elas se podem candidatar a investir para ganhar “uma data de massa” — as petrolíferas são capazes de não ter assim tanta certeza. Ali Moshiri, um antigo executivo da Chevron, está a tentar angariar 2 mil milhões de dólares para adquirir variados ativos venezuelanos. Porém, a aposta é arriscada. O entusiasmo de empresas como a própria Chevron, que até já detém uma licença dos EUA para perfurar e produzir petróleo venezuelano, é capaz de não ser por aí além.

O preço da restauração da produção de petróleo na Venezuela não vai ser baixo. A infraestrutura de perfuração está degradada, e o petróleo extraído é “pesado”, Extrair petróleo pesadíssimo implica fazer muitos furos e criar poços com vida útil relativamente curta — um processo bastante semelhante ao da produção de petróleo do xisto nos EUA — e, em seguida, misturar as vasas com petróleo mais leve ou nafta, de modo a poder correr por oleodutos antes de ser exportado e refinado. Produzir e comercializar petróleo “pesado” requer técnicas avançadas, como injeção de vapor e mistura com petróleos mais leves. Acresce que as reservas do país se concentram essencialmente na cintura do Orenoco, uma vasta e remota região na parte oriental do país, que se estende por cerca de 55 mil quilómetros quadrados.

O governo de Maduro passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais.

Além disso, a enchente do petróleo já começou a afetar os lucros esperados da nova exploração e extração. As perdas acumuladas da indústria americana do petróleo de xisto na década de 2010 atingiram quase quinhentos mil milhões de dólares. Tudo depende do “limiar de rentabilidade”, que, para o xisto americano, se tem estimado num preço médio de cerca de 60 dólares por barril. Tudo isto, enquanto a oferta global de petróleo cresce mais rapidamente do que a procura, projetando a Agência Internacional de Energia um aumento da oferta global na ordem de 3 milhões de barris/dia em 2025 e mais 2,4 milhões em 2026, contra aumentos da procura de apenas 830 mil barris em 2025 e 860 mil em 2026. Jorge León, da Rystad Energy, estima em 115 mil milhões de dólares o custo da duplicação da produção para 2 milhões de barris no início da década de 2030 — quase o triplo das despesas de capital combinadas da ExxonMobil e da Chevron no ano passado. Conseguirão a Exxon e a Chevron fazê-lo lucrativamente, considerando o atual equilíbrio mundial da oferta e da procura de petróleo e tanto mais que esse petróleo “pesado” teria de ser vendido abaixo do preço de referência?

No entanto, há outros fatores por trás da jogada de Trump contra a Venezuela. A nova Estratégia de Segurança Nacional deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta, e com “doping”. Naquela época, o presidente Monroe declarou que as nações europeias não se podiam ingerir na América Latina nem tentar controlá-la: passava a estar na “esfera de influência” dos Estados Unidos da América. Com Trump, a globalização cedeu o lugar ao‘”Making America Great Again" (“Voltar a Engrandecer a América”), o que situa firmemente a América Latina como quintal do imperialismo norte-americano. A implicação é que nenhum país pode resistir à política e aos interesses dos EUA. É necessário instaurar “regimes amigos” que permitam quer o acesso privilegiado dos norte-americanos aos respetivos recursos, quer capacidade para negá-los aos concorrentes: barrar, por conseguinte, a crescente influência e investimento chinês na região – apesar de o petróleo venezuelano representar meros 300 mil dos 11,3 milhões de barris que a China importou diariamente em 2025, segundo o Instituto de Estudos de Energia de Oxford —, tendo empresas da República Popular da China ganhado posições na indústria de perfuração de petróleo da Venezuela.

Em 2024, quando a contestada reeleição de Maduro ocorreu, salientei que o capitalismo venezuelano estava intimamente preso à rentabilidade do setor energético, que se encontrava numa espiral de morte após o colapso dos preços do petróleo a seguir a 2010 e as sanções americanas.

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As conquistas que a classe trabalhadora alcançou no tempo de Chávez, na década de 2000, só foram possíveis porque os preços do petróleo atingiram o auge. A seguir, porém, os preços das matérias-primas, incluindo o petróleo, caíram, mais ou menos coincidindo com a morte de Chávez. O governo de Maduro perdeu o apoio da sua base operária à medida que a hiperinflação destruía o nível de vida. O governo passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais. Os militares podiam comprar em mercados exclusivos (por exemplo, em bases militares), tinham acesso privilegiado a empréstimos e aquisições de carros e apartamentos e recebiam aumentos salariais substanciais. Exploravam, ainda, o controle do câmbio e os subsídios, vendendo, por exemplo, com enorme lucro, gasolina barata comprada em países vizinhos.

A tragédia da Venezuela é que tudo dependia do preço do petróleo; pouco ou nenhum desenvolvimento houve dos sectores não petrolíferos, que, no mais, estavam nas mãos de empresas privadas. Não havia plano nacional de investimentos independente controlado pelo Estado. Com as sanções dos EUA e a contínua subversão contra o governo, os dias da revolução chavista estavam contados.

É uma lição para toda a América Latina. A desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente, dada a fraqueza dos capitalistas nacionais e a longa sombra do imperialismo americano.

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