Golpe

A Venezuela e o petróleo
categoria-internacional EUA Golpe Petróleo Venezuela

A Venezuela e o petróleo

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta. Mas a tragédia da Venezuela e da América Latina é também que a desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas

Michael Roberts
Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”
categoria-dossier: Guerra e resistência Golpe Guerra Venezuela

Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”

Quase nada de novo existe na agressão contra a Venezuela. O intervencionismo norte-americano na América Latina vem de longe.

Rui Pereira
categoria-internacional EUA Golpe Petróleo Venezuela

A Venezuela e o petróleo

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta. Mas a tragédia da Venezuela e da América Latina é também que a desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente.

Poucas horas passadas do ataque militar dos EUA à Venezuela e da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o presidente Trump proclamou que “as maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos vão lá entrar, investir milhares de milhões de dólares, consertar a infraestrutura muito danificada e começar a pôr o país a ganhar dinheiro”. Trump não escondeu que uma das principais razões para o ataque e rapto de Maduro era conseguir que os Estados Unidos passassem a controlar as vastas reservas petrolíferas da Venezuela, a que Trump se refere como “o nosso petróleo”.

a-venezuela-e-o-petroleo-01

A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo, cerca de 303 mil milhões de barris, ou 17% das reservas globais, segundo o Energy Institute, com sede em Londres — mais do que a Arábia Saudita, a primeira da OPEP+. Apesar destas vastas reservas, a produção de petróleo bruto da Venezuela continua muito abaixo da capacidade. A produção atingiu um pico de 3,5 milhões de barris/dia na década de 1970 (mais de 7% da produção global), mas caiu para menos de 2 milhões de barris/dia durante a década de 2010, caindo o valor médio para apenas 1,1 milhões de barris/dia no ano passado.

a-venezuela-e-o-petroleo-02

Os EUA passaram a ser o maior produtor mundial graças à chamada revolução do xisto, na década de 2000. Consequência disso foi, porém, o mundo ficar encharcado em petróleo, com a oferta a ultrapassar o aumento da procura global. Esta está em travagem, porque a expansão económica na maioria das grandes economias se faz à velocidade de uma lesma e devido à mudança gradual da produção de energia para as renováveis. Aliás, quando a Venezuela foi atacada, o preço do petróleo bruto Brent, referência do mercado, estava perto do mínimo dos últimos cinco anos, cerca de 60 dólares por barril.

Bem pode Trump dizer às grandes companhias petrolíferas do mundo que agora é ele quem manda na Venezuela e que elas se podem candidatar a investir para ganhar “uma data de massa” — as petrolíferas são capazes de não ter assim tanta certeza. Ali Moshiri, um antigo executivo da Chevron, está a tentar angariar 2 mil milhões de dólares para adquirir variados ativos venezuelanos. Porém, a aposta é arriscada. O entusiasmo de empresas como a própria Chevron, que até já detém uma licença dos EUA para perfurar e produzir petróleo venezuelano, é capaz de não ser por aí além.

O preço da restauração da produção de petróleo na Venezuela não vai ser baixo. A infraestrutura de perfuração está degradada, e o petróleo extraído é “pesado”, Extrair petróleo pesadíssimo implica fazer muitos furos e criar poços com vida útil relativamente curta — um processo bastante semelhante ao da produção de petróleo do xisto nos EUA — e, em seguida, misturar as vasas com petróleo mais leve ou nafta, de modo a poder correr por oleodutos antes de ser exportado e refinado. Produzir e comercializar petróleo “pesado” requer técnicas avançadas, como injeção de vapor e mistura com petróleos mais leves. Acresce que as reservas do país se concentram essencialmente na cintura do Orenoco, uma vasta e remota região na parte oriental do país, que se estende por cerca de 55 mil quilómetros quadrados.

O governo de Maduro passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais.

Além disso, a enchente do petróleo já começou a afetar os lucros esperados da nova exploração e extração. As perdas acumuladas da indústria americana do petróleo de xisto na década de 2010 atingiram quase quinhentos mil milhões de dólares. Tudo depende do “limiar de rentabilidade”, que, para o xisto americano, se tem estimado num preço médio de cerca de 60 dólares por barril. Tudo isto, enquanto a oferta global de petróleo cresce mais rapidamente do que a procura, projetando a Agência Internacional de Energia um aumento da oferta global na ordem de 3 milhões de barris/dia em 2025 e mais 2,4 milhões em 2026, contra aumentos da procura de apenas 830 mil barris em 2025 e 860 mil em 2026. Jorge León, da Rystad Energy, estima em 115 mil milhões de dólares o custo da duplicação da produção para 2 milhões de barris no início da década de 2030 — quase o triplo das despesas de capital combinadas da ExxonMobil e da Chevron no ano passado. Conseguirão a Exxon e a Chevron fazê-lo lucrativamente, considerando o atual equilíbrio mundial da oferta e da procura de petróleo e tanto mais que esse petróleo “pesado” teria de ser vendido abaixo do preço de referência?

No entanto, há outros fatores por trás da jogada de Trump contra a Venezuela. A nova Estratégia de Segurança Nacional deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta, e com “doping”. Naquela época, o presidente Monroe declarou que as nações europeias não se podiam ingerir na América Latina nem tentar controlá-la: passava a estar na “esfera de influência” dos Estados Unidos da América. Com Trump, a globalização cedeu o lugar ao‘”Making America Great Again" (“Voltar a Engrandecer a América”), o que situa firmemente a América Latina como quintal do imperialismo norte-americano. A implicação é que nenhum país pode resistir à política e aos interesses dos EUA. É necessário instaurar “regimes amigos” que permitam quer o acesso privilegiado dos norte-americanos aos respetivos recursos, quer capacidade para negá-los aos concorrentes: barrar, por conseguinte, a crescente influência e investimento chinês na região – apesar de o petróleo venezuelano representar meros 300 mil dos 11,3 milhões de barris que a China importou diariamente em 2025, segundo o Instituto de Estudos de Energia de Oxford —, tendo empresas da República Popular da China ganhado posições na indústria de perfuração de petróleo da Venezuela.

Em 2024, quando a contestada reeleição de Maduro ocorreu, salientei que o capitalismo venezuelano estava intimamente preso à rentabilidade do setor energético, que se encontrava numa espiral de morte após o colapso dos preços do petróleo a seguir a 2010 e as sanções americanas.

a-venezuela-e-o-petroleo-04

As conquistas que a classe trabalhadora alcançou no tempo de Chávez, na década de 2000, só foram possíveis porque os preços do petróleo atingiram o auge. A seguir, porém, os preços das matérias-primas, incluindo o petróleo, caíram, mais ou menos coincidindo com a morte de Chávez. O governo de Maduro perdeu o apoio da sua base operária à medida que a hiperinflação destruía o nível de vida. O governo passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais. Os militares podiam comprar em mercados exclusivos (por exemplo, em bases militares), tinham acesso privilegiado a empréstimos e aquisições de carros e apartamentos e recebiam aumentos salariais substanciais. Exploravam, ainda, o controle do câmbio e os subsídios, vendendo, por exemplo, com enorme lucro, gasolina barata comprada em países vizinhos.

A tragédia da Venezuela é que tudo dependia do preço do petróleo; pouco ou nenhum desenvolvimento houve dos sectores não petrolíferos, que, no mais, estavam nas mãos de empresas privadas. Não havia plano nacional de investimentos independente controlado pelo Estado. Com as sanções dos EUA e a contínua subversão contra o governo, os dias da revolução chavista estavam contados.

É uma lição para toda a América Latina. A desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente, dada a fraqueza dos capitalistas nacionais e a longa sombra do imperialismo americano.

categoria-dossier: Guerra e resistência Golpe Guerra Venezuela

Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”

Quase nada de novo existe na agressão contra a Venezuela. O intervencionismo norte-americano na América Latina vem de longe.

Uma Venezuela cercada pela maior frota naval norte-americana deslocada para o mar das Caraíbas, sem que possa predizer-se com exatidão o que vai acontecer, constitui um valioso recordatório sobre a relação entre poder e indeterminação. Como bem teorizou Alain Badiou, a extensão do poder é diretamente proporcional à indeterminação com que procura exercer-se e forçar os seus limites. Quanto maior a indeterminação, quanto maior a dúvida sobre o seu alcance e a sua vontade, maior esse poder se torna.

Com Trump, pouco há de novo na política “hemisférica” da Casa Branca, mediante a reabilitação do arcaico direito feudal de “pernada” do velho Monroe, doutrinariamente lavrado em 1823. De um modo emblemático edificou-se, até, metonimicamente, a designação que funde um dos Estados do continente, os EUA, com a sua totalidade, “a América”.

Na sua fase historicamente mais recente este intervencionismo tem a sua génese em 1954 na “República das Bananas”, com o golpe contra o governo de Jacobo Arbenz, na Guatemala, ao serviço da United Fruits, a quem pertenceriam as plantações e os solos guatemaltecos. Este argumento reedita-se agora com uma das mais recentes declarações de Trump quando afirma que na Venezuela se trata de “recuperar”, sequestrando petroleiros “sancionados”, a propriedade norte-americana do petróleo venezuelano, “usurpado” pelo governo do país.

A Oeste quase nada de novo

Quase nada existe de novo na agressão contra a Venezuela. Nada que Cuba e os Cubanos desconheçam, enquanto vítimas de um dos maiores crimes de lesa-humanidade que continua placidamente a ser cometido com a continuada guerra económica que reduziu o país a uma pauperização tão indescritível quanto mal descrita e acusatoriamente voltada contra a revolução.

Nada de novo também, na ideia fundamental aplicada contra a Nicarágua sandinista nos anos 1980, quando se trocaram armas por dinheiro do narcotráfico (Oliver Norton e o Irão-Contra, lembramo-nos?), cujas perspetivas revolucionárias deviam ser afogadas por uma guerra de agressão em nome da “liberdade”.

Em suma, o “quase” neste nada de novo, no caso venezuelano, tem apenas a ver com os recursos naturais do país, dos mais ricos do mundo, que o situam no epicentro das guerras em curso por recursos.

Esse supremacismo reaparece no neo-colonial-imperialismo revestido não pelo termo ‘civilização’, mas pelos termos ‘democracia e direitos humanos.

Uma revolução bem-sucedida num dos países mais ricos do planeta não representaria apenas um mau exemplo para os restantes povos, como o constituído representado por Cuba ou pela Nicarágua. Poderia, ao invés, transformar a Venezuela numa potência regional poderosa, cujo “descontrolo” representaria uma enorme esperança e apoio para outros povos latino-americanos e não só. Por conseguinte, não existe qualquer inquietação com “a democracia” ou os “direitos humanos” dos Venezuelanos, fórmula que substituiu no discurso supremacista do Norte ocidental, as antigas e hoje insustentáveis bases argumentativas, de levar aos “selvagens” os méritos cristãos da “civilização”. Esse supremacismo reaparece, assim, no neo-colonial-imperialismo, revestido não pelo termo “civilização”, mas sim pelos termos “democracia e direitos humanos”.

As esquerdas e o conto do vigário

Desafortunadamente, não causa grande surpresa a adesão de várias esquerdas europeias ocidentais (e não só), a este argumento neo-imperial, sempre que, antes ou depois da crítica ao intervencionismo de Washington, tem de haver uma referência “ao regime de Maduro”.

Trata-se, aliás, a meu ver do mesmo “mas” a que essas mesmas esquerdas recorrem quando, a respeito de outras áreas internacionais e da geopolítica, tentam enquadrar-se sem maiores percalços nas dinâmicas de extrema-direitização das suas existências políticas nacionais.

O problema não parece, pois, um qualquer debate (legítimo) sobre o processo venezuelano iniciado com Chávez. Mas, como a classe de oportunismo que prodigaliza uma suave cumplicidade pós-moderna com as políticas imperiais, travestida de um discurso de “esquerda linha branca”, passível de ser encontrado a propósito de cada esquina mais agreste do mundo dos nossos dias. Como se em causa estivessem as escolhas dos Venezuelanos e não o novel e agressivo supremacismo imperial.

A Venezuela e o petróleo
Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”
A Venezuela e o petróleo
categoria-internacional EUA Golpe Petróleo Venezuela

A Venezuela e o petróleo

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta. Mas a tragédia da Venezuela e da América Latina é também que a desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas

Michael Roberts
Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”
categoria-dossier: Guerra e resistência Golpe Guerra Venezuela

Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”

Quase nada de novo existe na agressão contra a Venezuela. O intervencionismo norte-americano na América Latina vem de longe.

Rui Pereira

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.